domingo, 13 de junho de 2021

Treino foi treino, jogo foi jogo

A alegria com o gol de Denzel Dumfries, em uma vitória que parecia fácil e virou difícil, simbolizou: bastou a estreia para a Holanda se animar na Euro masculina (Pro Shots)

Testas franzidas, olhares de soslaio, desconfianças. Era assim que a seleção masculina da Holanda era vista, desde a preparação para a Euro 2020 (+1). E as atuações dentro de campo não davam muita razão para que fosse diferente. Pois bem: se as fragilidades nos amistosos aumentaram a má impressão, a Laranja fez tudo ficar diferente nos 90 minutos do 3 a 2 contra a Ucrânia, na estreia pela Euro. Sim, os erros ainda seguem, foram reconhecidos, permitiram que os ucranianos voltassem ao jogo. Ainda assim, mais do que os gols, o esforço e o ritmo intenso vistos em quem vestiu laranja na partida em Amsterdã já serviram para satisfazer bastante a torcida.

A atenção com que a Oranje entrou em campo na Johan Cruyff Arena já ficou visível logo aos dois minutos, quando Memphis Depay foi veloz no contragolpe, driblando Mykola Matviyenko e chegando livre para a primeira chance de gol, defendida por Heorhiy Bushchan. Pouco a pouco, dominando a bola (foram quase 70% de posse nos 45 minutos iniciais), a equipe foi prensando a Ucrânia no campo de defesa. Com um Denzel Dumfries como opção constante no ataque, provando a melhora; com Georginio Wijnaldum muito destacado na criação de jogadas; com Memphis Depay sempre rápido nos toques; com tudo isso, as chances apareceram. Bushchan trabalhou bastante: impedindo chute de Dumfries com os pés aos 6', evitando que Wout Weghorst o driblasse para o gol aos 27', rebatendo voleio de Wijnaldum aos 39'. Isso, sem contar as chances perdidas por demérito dos próprios neerlandeses - Wijnaldum aos 7' e, principalmente, o cabeceio de Dumfries, aos 40'.

O que não quer dizer que a Holanda foi perfeita no primeiro tempo. Longe disso. Mesmo com a mudança na lateral esquerda - Patrick van Aanholt começou jogando -, o setor continuou frágil. Por ali a Ucrânia deu seus raros sustos no primeiro tempo. Principalmente aos 15', num chute de Roman Yaremchuk, e aos 30', quando Andriy Yarmolenko também arrematou. Nesses dois momentos, foi a vez de Maarten Stekelenburg justificar sua titularidade na Euro: fez duas defesas seguras. Todavia, a lentidão holandesa pela canhota era motivo de preocupação. O único, até, num primeiro tempo animador, em que faltara só o gol. De um lado ou do outro, já que os dois times fizeram por merecer.

Não faltou mais no segundo tempo. Enfim, a rapidez da Laranja no ataque conseguiu pegar a Ucrânia desprevenida, tão logo o segundo tempo começou. A velocidade de Dumfries na direita superou facilmente Vitaliy Mykolenko rendeu muitas jogadas... começando pelo primeiro gol, aos 52', quando Wijnaldum aproveitou o rebote de Bushchan. E continuando aos 59', quando o camisa 22 cruzou para Weghorst marcar o 2 a 0, coroando, de certa forma, o esforço que tanto fez para chegar à Euro. Com um ataque veloz, com a defesa sendo bem controlada por Stefan de Vrij... os Países Baixos pareciam controlar o jogo.

A Holanda caiu de produção por poucos minutos - suficientes para a Ucrânia chegar ao empate e fazer a torcida toda temer a decepção (European Press Agency)


Só pareciam. Porque Frank de Boer fez mudanças: Wijndal no lugar de Van Aanholt, e Nathan Aké no lugar de um Daley Blind ainda amedrontado pelo trauma da parada cardiorrespiratória que ameaçou a vida de Christian Eriksen. As alterações foram criticadas, ao tirar o bom ritmo que a Holanda imprimia ao jogo. Nesse período de acertos, a Ucrânia voltou ao jogo num átimo: o brilhante átimo de Yarmolenko, que acertou chute no ângulo para um golaço que diminuiu o placar, aos 75'. A própria torcida, antes empolgada, sentiu o medo. O próprio time se retraiu. E numa falha de marcação, aos 79', Yaremchuk cabeceou para o 2 a 2 que seria uma ducha de água fria.

Só não foi porque, aos 85', uma falha de Bushchan na reposição de bola deixou Wijndal pronto para o cruzamento. Aí, Dumfries cabeceou. E acertou as redes, consertando o seu erro do 1º tempo na melhor maneira possível: fazendo o 3 a 2. Seu primeiro gol pela seleção veio na mais necessária das horas, garantindo vitória útil na tentativa de classificação em 1º lugar no grupo. Melhor ainda: a intensidade vista no time que foi a campo provou que a seleção teve a concentração que o jogo pediu. Numa frase: para a Holanda, treino foi treino, jogo foi jogo. E na hora do jogo, ela provou seu valor.

Euro 2020 - fase de grupos - Grupo C
Holanda 3x2 Ucrânia

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 13 de junho de 2021
Árbitro: Felix Brych (Alemanha)
Gols: Georginio Wijnaldum, aos 52', Wout Weghorst, aos 59', Andriy Yarmolenko, aos 75', Roman Yaremchuk, aos 79', e Denzel Dumfries, aos 85'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Jurriën Timber (Joël Veltman), Stefan de Vrij, Daley Blind (Nathan Aké) e Patrick van Aanholt (Owen Wijndal); Marten de Roon, Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Memphis Depay e Wout Weghorst (Luuk de Jong). Técnico: Frank de Boer

Ucrânia
Heorhiy Bushchan; Oleksandr Karavaev, Iliya Zabarnyi, Mykola Matviyenko e Vitaliy Mykolenko; Oleksandr Zinchenko, Serhiy Sydorchuk e Ruslan Malinovskyi; Andriy Yarmolenko, Roman Yaremchuk e Oleksandr Zubkov (Marlos) (Mykola Shaparenko). Técnico: Andriy Shevchenko.

domingo, 6 de junho de 2021

Uma melhora (muito) pequena

A Holanda preocupou de novo contra a Geórgia. Mas por méritos de nomes como Memphis Depay, conseguiu uma vitória que alivia um pouco as coisas antes da estreia na Euro (Pro Shots)


A desconfiança continua gigante. Há quem diga que a seleção masculina da Holanda voltou aos tempos de pessimismo generalizado, como há alguns anos. Além do mais, alguns problemas seguiram sendo vistos contra a Geórgia, em Enschede, no último amistoso de preparação antes da Euro 2020. Porém, é justo dizer que houve pontos de melhora, aqui e ali. E eles foram responsáveis pela vitória por 3 a 0 que pode não convencer ninguém, mas pelo menos tranquiliza as coisas na Laranja nesta última semana de treinos antes da Euro, já de volta aos Países Baixos, no centro de treinamentos da federação.

De certa forma, os primeiros dez minutos exemplificaram bem os problemas do time de Frank de Boer - e as soluções que surgiram para minorar o impacto deles. A defesa já começou frágil: aos 2', Saba Lobzhanidze teve espaço na direita, driblando Daley Blind e chegando à área. Pelo menos, Maarten Stekelenburg (titular no gol durante o amistoso) defendeu o chute. E na frente, se Owen Wijndal seguiu tímido no ataque, Denzel Dumfries já apareceu bem mais como opção de jogadas. Foi assim, por exemplo, que o lateral direito chegou à área e sofreu do georgiano Lasha Dvali o pênalti que Memphis Depay converteu para o 1 a 0.

Por falar em Memphis, o camisa 10 está cumprindo muito bem até aqui o que se espera dele nesta seleção: ser a principal referência do ataque. Novamente Depay deu bons passes, apareceu para finalizar jogadas (só não fez gol aos 15' porque o goleiro Giorgi Loria fez excelente defesa), atraiu mais para o jogo nomes como Wout Weghorst - chutou para Loria espalmar aos 37' - e Frenkie de Jong - Loria também impediu seu gol, aos 43'. Trocando em miúdos: Memphis chamou a responsabilidade. O que não quer dizer que a Holanda deu segurança. Na defesa, Daley Blind (voltando após lesão) e Wijndal deixaram a esquerda frágil, à mercê das tentativas de Lobzhanidze. E até na direita houve espaço para alguns ataques georgianos. Por exemplo, a tentativa de Valerian Gvilia, para fora, aos 31'.

Weghorst comemorou muito o seu gol. Teve mais razões para comemorar: pelo menos por enquanto, garantiu a titularidade na seleção (Pro Shots/Stanley Gontha)

No começo do segundo tempo, com a Geórgia rondando mais o ataque, temeu-se até outro empate. Aí entrou Weghorst. Aqui e ali, o atacante deixava claro o quanto queria uma chance na seleção masculina holandesa. Ela veio. E ele, enfim, aproveitou: participando mais das jogadas, mostrando mais dinamismo com a bola no chão, Weghorst tinha a chance de gol ("Eu tinha a sensação de que seria um dia especial", celebrou após o jogo). E ele aproveitou uma delas, fazendo 2 a 0 aos 55' e comemorando demais a bola que colocara nas redes. Saindo ovacionado pela torcida, já é possível dizer: Weghorst foi o outro destaque da Laranja além de Memphis, tranquilizou a partida, começará a Euro como titular.

Só após o segundo gol é que a Holanda apagou suas fragilidades diante da Geórgia. Teve mais chances para gol: Dumfries novamente quase marcou aos 58' (chute na rede pelo lado de fora, após desvio), Stefan de Vrij cabeceou por cima após o escanteio da sequência, Loria impediu mais um gol de Depay aos 66'. Até Marten de Roon, justamente criticado por suas falhas no primeiro tempo - foi quem mais perdeu bolas -, quase marcou gol num bonito voleio, aos 75'. Ficara claro que as alterações haviam acelerado mais a Laranja. E um dos nomes que vieram do banco foi premiado por esse alerta maior: Ryan Gravenberch, autor do gol que fechou a vitória, aproveitando rebote de chute de Memphis Depay (quem mais?).

Os defeitos seguem, a melhora da Holanda foi muito pequena, a vitória não enganou ninguém. O capitão Wijnaldum reconheceu, após o jogo: "A torcida e a imprensa podem continuar críticos, não podemos fugir disso". Só um triunfo contra a Ucrânia, na estreia pela Euro, daqui a uma semana, vai trazer uma tranquilidade mais duradoura. No entanto, obviamente, é bem melhor ir para o objetivo principal com uma vitória. 

Amistoso 

Holanda 3x0 Geórgia

Local: De Grolsch Veste (Enschede)
Data: 6 de junho de 2021
Árbitro: Erik Lambrechts (Bélgica)
Gols: Memphis Depay, aos 10', Wout Weghorst, aos 55', e Ryan Gravenberch, aos 76'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Jurriën Timber (Steven Berghuis), Stefan de Vrij, Daley Blind (Nathan Aké) e Owen Wijndal (Patrick van Aanholt); Marten de Roon, Georginio Wijnaldum (Davy Klaassen) e Frenkie de Jong (Ryan Gravenberch); Memphis Depay e Wout Weghorst (Donyell Malen). Técnico: Frank de Boer

Geórgia
Giorgi Loria; Otar Kakabadze, Lasha Dvali, Guram Kashia e Guram Giorbelidze; Valerian Gvilia (Nika Kvekveskiri) e Davit Khocholava (Jaba Jighauri); Saba Lobzhanidze (Zuriko Davitashvili), Otar Kiteishvili (Sergo Kukhianidze) e Giorgi Aburjania (Murtaz Daurshvili); Budu Zivzivadze (Georges Mikautadze). Técnico: Willy Sagnol

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Muros fortes e muros frágeis

Nem mesmo a tentativa de proteger mais a defesa com cinco jogadores deu certo: o empate contra a Escócia deixou claro que a Holanda precisa melhorar até a Euro - e rápido (Pim Ras Fotografie)

A seleção masculina da Holanda tinha um desafio de dificuldade razoável no amistoso contra a Escócia, nesta quarta-feira. Afinal, os escoceses mostram firmeza defensiva capaz de frear a maior capacidade ofensiva da Laranja. E pelo que se viu na cidade portuguesa de Faro, no empate em 2 a 2, a equipe britânica também foi capaz de deixar claro: mesmo supostamente mais protegida num esquema com cinco jogadores na defesa, a equipe neerlandesa ainda está frágil na defesa. Só Memphis Depay evitou a derrota, contra uma seleção sem sete jogadores, afastados por precaução após John Fleck testar positivo para o coronavírus.

Foi até curioso. Afinal de contas, a primeira chance de gol do amistoso foi holandesa - um chute de Denzel Dumfries na rede pelo lado de fora, aos 7'. Todavia, bastou a primeira desatenção para a primeira punição à Holanda: aos 11', tentando sair para o jogo, Marten de Roon passou a bola a Memphis Depay, este demorou... e deixou Jack Hendry livre com a bola, para chutar de fora e fazer 1 a 0 (terceiro gol de fora da área sofrido por Tim Krul nos últimos quatro jogos). Aí, os minutos seguintes deixaram claro como os treinos precisam ser intensivos para fazer os jogadores se acostumarem ao 5-3-2. Com Dumfries e Owen Wijndal deixando espaços nas respectivas laterais, a Escócia chegou mais perto da área logo após abrir o placar. Lyndon Dykes (boa atuação) poderia até ter feito o segundo aos 12', mas Krul fez boa defesa.

Pelo menos, a Holanda jogou água fria na fervura ao empatar com relativa rapidez, aos 17'. Por sinal, o lance do empate trouxe alguns raros nomes que se destacaram pela Oranje em Faro. Primeiro, Jurriën Timber: em sua primeira partida pela seleção adulta na carreira, o zagueiro não só foi o melhor da linha de cinco, como fez lançamento preciso para o ataque. Se só atuou meia hora (como Frenkie de Jong), só para Frank de Boer vê-lo jogando, Georginio Wijnaldum colaborou, escorando. E Memphis Depay fez o que se espera dele: chamou a responsabilidade, chutando para o 1 a 1.

Além da boa estreia de Timber na zaga, Memphis Depay foi o único ponto positivo da Holanda no amistoso (Pim Ras Fotografie)

O que não quer dizer que as coisas melhoraram para os Países Baixos no amistoso. Na verdade, nem para a Escócia: com duas equipes se resguardando (não só no jogo, mas para a Euro), quase não se viram lances de perigo no resto do primeiro tempo: um cruzamento de Dumfries aos 22', outro de Kieran Tierney aos 36', e nada mais. Na etapa complementar, a situação seguiu a mesma. Nem mesmo a dupla Ryan Gravenberch-Davy Klaassen, entrosada dos tempos de Ajax, fazia coisa que chamasse a atenção, mesmo vindo a campo logo após a primeira meia hora de jogo. Pelo lado da Holanda, a única jogada que mereceu ser chamada de "chance" foi um cabeceio sem rumo de Dumfries, aos 53'.

Pelo lado da Escócia, se as chances também eram poucas, pelo menos o espaço nas laterais seguia. Bastou mais competência nas jogadas para o segundo gol, aos 64': um rápido lançamento, um cruzamento preciso de Andrew Robertson, e Kevin Nisbet fez 2 a 1 como seu primeiro ato no jogo (acabara de substituir Sykes). Só aí a Holanda pareceu ganhar mais movimentação. Curiosamente, foi com as entradas de Steven Berghuis e Patrick van Aanholt, fazendo a seleção voltar a jogar com três atacantes, que a seleção laranja pressionou mais a Escócia. Foram mais cruzamentos, mais chegadas à área - a mais perigosa, com Van Aanholt chutando, e o desvio dificultando a defesa do goleiro Craig Gordon, aos 80'.

Diante disso, foi até curioso que, com tantas jogadas pelas pontas, o empate tenha saído só numa bola parada, aos 89', quando Memphis Depay cobrou falta sofrida por Berghuis. Foi um empate salvador. Mas não adiantou para melhorar a preocupante impressão que a Holanda deixou, em seu penúltimo amistoso antes da Euro. Se o muro da Escócia se revelou forte na defesa, o muro neerlandês imaginado com os cinco zagueiros ainda tem certas fragilidades. E só faltam nove dias para a Euro...

Amistoso

Holanda 2x2 Escócia
Data: 2 de junho de 2021
Local: Estádio Municipal do Algarve (Faro-Loulé)
Árbitro: Vitor Ferreira (Portugal)
Gols: 
Memphis Depay, aos 17' e 89'; Jack Hendry, aos 11', e Kevin Nisbet, aos 63'

Holanda
Tim Krul; Denzel Dumfries, Jurriën Timber (Steven Berghuis), Stefan de Vrij (Luuk de Jong), Matthijs de Ligt e Owen Wijndal (Patrick van Aanholt); Marten de Roon, Georginio Wijnaldum (Ryan Gravenberch) e Frenkie de Jong (Davy Klaassen); Memphis Depay e Wout Weghorst. Técnico: Frank de Boer

Escócia
Craig Gordon; Kieran Tierney (Scott McKenna), Jack Hendry, Liam Cooper (Declan Gallagher) e Andy Robertson (Greg Taylor); Stuart Armstrong,  Callum McGregor e David Turnbull (Billy Gilmour); James Forrest (Ryan Fraser), Lyndon Dykes (Kevin Nisbet) e Ryan Christie. Técnico: Steve Clarke



terça-feira, 1 de junho de 2021

O ensaio geral de uma antiga peça

Na tranquilidade da portuguesa Lagos, a Holanda entra na reta final rumo à Euro 2020 (Pro Shots)

Como em qualquer outra competição, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) terá alguns amistosos de preparação antes de um grande torneio - no caso, a Euro 2020(+1). Como na Copa de 2014, os convocados da Laranja estão fazendo uma semana de treinos num resort, no balneário de Lagos, em Portugal. E como na Copa de 2014, está cada vez mais na cara: a seleção holandesa irá para a Euro jogando com cinco homens na zaga, para tentar ocultar eventuais fragilidades defensivas. A Oranje mostrará isso primeiro no amistoso desta quarta, contra a Escócia, em outra cidade portuguesa, Faro. E deverá repetir a dose na despedida de sua torcida - sim, alguns adeptos deverão ter acesso ao estádio - rumo à Euro, em Enschede (cidade do Twente), contra a Geórgia, no próximo domingo. 

O técnico Frank de Boer foi bastante claro nas justificativas para a mudança tática (e para a consequente escalação de Marten de Roon), durante a entrevista coletiva desta terça: "Marten já conhece o esquema de cor e salteado, é assim que ele joga na Atalanta, toda semana. Além do mais, De Vrij também atua num esquema com três zagueiros na Internazionale. E [Daley] Blind tem a lembrança da Copa de 2014". Mais importante, no entanto, foi quando De Boer deixou os nomes de lado e falou mais nas razões do time como um todo: "Com uma só alteração, o jeito do time jogar já muda. Desse jeito, ganha-se um pouco mais de segurança. Isso é bom. E podemos continuar sendo ofensivos. Com três atacantes também somos ofensivos, mas o esquema é estático demais". De fato - e foi justamente a lentidão da Holanda que a complicou, por exemplo, contra a Turquia, nas eliminatórias da Copa de 2022. 

Além do mais, Frank de Boer andou se inspirando em experiências prévias. Por exemplo, as lembranças de Bert van Marwijk, a quem o atual treinador auxiliou no vice-campeonato da Laranja na Copa de 2010. Pragmático, Van Marwijk disse certa vez: "Antes tudo era baseado em técnica e criatividade. Era lindo de ver - no boxe, com Muhammad Ali, no tênis, com John McEnroe e Bjorn Borg. Mas esse tipo de tênis e de boxe você não vê mais. O esporte evolui". Sem contar a simples lembrança do que a Holanda viveu antes da Copa de 2014. Também numa preparação em Portugal, o então técnico Louis van Gaal decidiu: sem o lesionado Kevin Strootman, teria de proteger mais a defesa. Era isso, ou correr risco de ser eliminado na fase de grupos, diante de uma Espanha que vinha de título mundial e de um Chile ascendente. A Holanda apostou nisso, teve um Arjen Robben em estado de graça... e deu no que deu: num elogiável terceiro lugar. Por tudo isso, compreendeu-se bem a provável mudança tática neerlandesa na Euro. 

Nem mesmo a desconfiança faz Frank de Boer perder o sossego: o técnico da Holanda já começa a achar alternativas para a Euro (ANP)

Outra coisa que tem facilitado os trabalhos de preparação em Lagos é o bom ambiente entre os jogadores. Não que fosse novidade, mas por enquanto, seguem os sorrisos. Capitão da seleção com a ausência de Virgil van Dijk, Georginio Wijnaldum se lembrou dos tempos duríssimos vividos entre 2014 e 2018, com a ausência das grandes competições: "É um time de amigos, de novo. Formamos uma unidade. Claro que isso sozinho não ganha jogo, mas é muito importante". Até mesmo Frank de Boer, mesmo sob pesada desconfiança, tem achado momentos de relaxamento: aproveita assistindo à série The Playbook, do Netflix. E até nisso acha maneiras de aprender sobre comando de equipes no esporte: "Lá se vê como o técnico em questão [Doc Rivers, atual comandante do Philadelphia 76ers na NBA] constrói um time. Ali se vê: só juntar as estrelas não significa nada".

O que não quer dizer que a Holanda tem passado ilesa por essa reta final de preparação para a Euro. Algumas machucaduras foram inevitáveis. Já começaram na quarta-feira passada, durante o anúncio dos 26 convocados. E Frank de Boer foi novamente o alvo principal. Primeiro, por suposta omissão no anúncio dos oito cortados na pré-convocação: Anwar El Ghazi teria sabido de sua ausência durante uma gravação de programa televisivo, e Jerry St. Juste sequer teria sido comunicado. Depois se soube que a comunicação de Frank aos dois ocorrera previamente. O erro inegável de De Boer foi numa frase na entrevista coletiva. Ao comentar a convocação de Donny van de Beek, reserva no Manchester United, ele se defendeu: "Também não é que ele tenha jogado tão pouco. Atuou por cerca de 4000 minutos na temporada". Estaria tudo bem, não fosse o fato de que o treinador confundiu os dados de Van de Beek (que só jogou 1456 minutos pelo Manchester United) com os de Davy Klaassen (este, sim, com 4000 minutos em campo pelo Ajax). Aí, as desculpas foram inevitáveis: "A entrevista de quarta não foi das minhas melhores".

Já outros problemas independeram do técnico. Por exemplo, a polêmica da vacina contra a COVID-19. Oferecida à delegação na quarta-feira passada, a maioria dos membros passou por ela - Daley Blind e o próprio Frank de Boer se vacinaram, por exemplo. Porém, soube-se depois que seis jogadores se recusaram a ser vacinados. Entre eles, Memphis Depay, Wout Weghorst e Matthijs de Ligt. Já alvo de críticas por seu comportamento em relação à pandemia (chegou a postar coisas no Instagram duvidando dela, no ano passado), Weghorst preferiu desconversar sobre o tema, ao ser perguntado se era o "antipandemia": "Pô, já começaram bem...". 

A vacina contra a COVID-19 se tornou alvo de rara polêmica na Laranja - com De Ligt como bola da vez (Getty Images)

Mas De Ligt foi o grande criticado da vez: confirmou que não tomara nem pretendia tomar a vacina. "Não é obrigatório. Penso que cada um deve ser o senhor do seu próprio corpo. Eu me contentarei em manter isolamento máximo de qualquer um que não esteja envolvido com a delegação". Foi criticado até pelo virologista Ab Osterhaus, chefe do RIVM (o instituto de saúde pública dos Países Baixos), que alertou para o exemplo que o zagueiro deveria ser. Prontamente se corrigiu, em seu perfil no Instagram: "Não entendi direito a pergunta, na hora. É lógico que sou a favor da vacina". E Frank de Boer preferiu pôr panos quentes ("Eu não senti nada, mas alguns jogadores ficaram abatidos e febris, no dia seguinte"), sem deixar de tirar o corpo fora ("Cada um sabe de si - eu me vacinei").

Problema sanitário superado em Portugal, veio o problema sanitário ocorrido na Espanha: o teste positivo de Jasper Cillessen para o coronavírus. O goleiro titular da seleção já começara a cumprir o isolamento, mas Frank de Boer preferiu não correr riscos ("Não sabemos quanto tempo vai levar para ele ficar 100% de novo. Estamos com a Euro batendo à porta, e eu quero segurança"). E Cillessen, dos raros remanescentes da Holanda num grande torneio, teve mais um capítulo de azar lamentável em sua carreira, sendo cortado. Já integrado à delegação em Portugal, como sobreaviso, Marco Bizot foi efetivado como o terceiro goleiro holandês na Euro. E Frank de Boer sinalizou: tanto Tim Krul quanto Maarten Stekelenburg terão suas chances nos amistosos contra Escócia e Geórgia. Até porque, como ele próprio afirmou, o titular do gol holandês ficou indefinido.

São os únicos pontos de interrogação, numa Holanda que se prepara com tranquilidade até aqui para a Euro 2020(+1). E que, para aumentar suas chances dentro da competição, mira-se no exemplo que já deu certo em 2014. É um ensaio geral agora, para uma antiga peça.

Os 26 holandeses na Euro: Bizot

Originalmente, o destino tirou a convocação de Bizot para a Euro com uma mão (a reação de Stekelenburg na carreira). Mas deu com a outra: o corte de Cillessen abriu, enfim, a lacuna para o goleiro do AZ preencher (Pro Shots/onsoranje.nl)

Ficha técnica
Nome: Marco Bizot
Posição: Goleiro
Data e local de nascimento: 10 de março de 1991, em Hoorn
Clubes na carreira: Ajax (2011 a 2012), Cambuur (2011 a 2012, por empréstimo), Groningen (2012 a 2014), Gent-BEL (2014 a 2017) e AZ (desde 2017)
Desempenho na seleção: 1 jogo, desde 2020
Torneios pela seleção: nenhum

Há muito tempo, quem acompanha o Campeonato Holandês sabe: trata-se de um dos melhores goleiros da Eredivisie. Alguns fatores do destino (até alheios a ele) abriram caminho. Ele até ficou fora da convocação inicial, a princípio. Mas o azar de Jasper Cillessen, cortado após o teste positivo para o coronavírus (mesmo com alguns dias de isolamento), fez valer os três anos de presença constante nas convocações da Holanda. E Marco Bizot, mesmo sendo o terceiro goleiro da Laranja, tem na presença dentro do torneio continental o ápice de uma carreira marcada pela discrição.

O goleiro de 1,94m começou a jogar aos 5 anos, no amador SV Westfriezen. Mas o horizonte da carreira profissional só foi aberto em 2000, quando um olheiro do Ajax verificou alguns treinos, confiou em Bizot e o levou para Amsterdã. Ali passou os dez anos seguintes. Quando chegou ao time sub-19, começou a sofrer com algumas lesões. Mas nem elas impediram a evolução: Bizot foi promovido ao time sub-21 em 2010, lá virou titular, já começou a acompanhar os treinamentos do grupo principal... e para a temporada 2011/12, foi promovido à equipe principal do Ajax.

Porém, a discrição se impôs. A vaga de titular do Ajax já estava preenchida por Kenneth Vermeer; Jasper Cillessen já era a aposta para o futuro, na reserva; e até mesmo o posto de terceiro goleiro estava ocupado, por Jeroen Verhoeven. Para Bizot, só restaria o posto de arqueiro no time B - e mesmo aqui, teria de disputar posição, com Sergio Padt. Foi quando o Cambuur sinalizou, com uma proposta de empréstimo. Ele aceitou, e passou a temporada 2011/12 no time de Leeuwarden, disputando a segunda divisão como titular. O acesso quase veio, mas o Cambuur parou na repescagem. O empréstimo acabou, Bizot voltou ao Ajax, mas seguiria sem espaço. 

Bizot começou no Ajax, mas na hora de ser promovido, não teve espaço no time principal. Só no Groningen começou a mostrar a capacidade (Pics United)

Era hora de tocar a carreira fora de Amsterdã. E Bizot ganhou a chance no Groningen, já chegando como titular para a temporada 2012/13. Valeu não só para ganhar ritmo de jogo, mas também para se credenciar como um dos três goleiros convocados para a Euro sub-21. No Groningen, vieram boas memórias: Bizot foi nome certo entre os titulares também na temporada 2013/14, concluída com vaga garantida nas fases preliminares da Liga Europa da temporada seguinte.

Só que a discrição apareceu novamente, a partir de uma opção do próprio Bizot: rumar para um clube da Bélgica. No caso, o Racing Genk. E ali o goleiro apareceu mais intensamente - até para o próprio país natal. Foi titular, principalmente, na excelente campanha da equipe belga na Liga Europa 2016/17, chegando às quartas de final. Bastou para que o AZ se decidisse por repatriá-lo, logo ao fim daquela temporada: se Tim Krul, emprestado pelo Newcastle, não poderia ficar em Alkmaar, Bizot já comprovara ser uma opção mais barata, além de oferecer segurança parecida debaixo das traves.

Bizot precisou mostrar talento no Racing Genk para recuperar espaço na Holanda (Belga)

Titular absoluto desde a chegada a Alkmaar, Bizot teve êxito: já na primeira convocação de Ronald Koeman como técnico da seleção masculina holandesa, foi um dos três goleiros escolhidos. E se alternaria como a terceira opção para a posição com Sergio Padt, do Groningen, nos primeiros tempos sob Koeman. Aí entrou a sorte: em setembro de 2018, após discussões com um empregado ferroviário, Padt passou uma noite detido. E Bizot ganhou ali vaga praticamente cativa como terceiro goleiro da Laranja, nas convocações de Koeman.

Pelo AZ, ele justificava as convocações. Com elasticidade e firmeza em suas aparições, Bizot encerrou uma inconstância na posição dentro do clube de Alkmaar, que testara vários goleiros nas temporadas anteriores. Virou nome garantido em campanhas de destaque, como a chegada à final da Copa da Holanda (2017/18). Em 2019, conseguiu excelente marca: 22 jogos sem gols sofridos na Eredivisie, em todo o ano - o que fez famoso o apelido dado pela torcida do AZ, "De Muur" ("O Muro", em holandês). E vinha sendo o goleiro indiscutível na excelente sequência que levara o AZ a disputar a primeira posição da Eredivisie em 2019/20, antes que a pandemia encerrasse forçosamente o campeonato.

Bizot virou querido da torcida no AZ: o "Muro" ajudou o clube de Alkmaar a crescer nas temporadas recentes (Olaf Kraak/ANP)

O futebol parou, o futebol voltou, e Bizot demorou um pouco para recuperar o ritmo que ostentava. Cometeu até algumas falhas, no início da temporada 2020/21. Ainda assim, foi reagindo gradativamente. Até recuperar a confiança - tanto no AZ, quanto na seleção. A ponto de, em 2020, ter enfim a sua primeira partida na seleção principal, atuando num amistoso contra a Espanha, em 11 de novembro.

Neste 2021, a espantosa recuperação de Maarten Stekelenburg colocou a convocação de Bizot para a Euro em risco. O arqueiro ficou fora do anúncio inicial - Cillessen, Stekelenburg e Tim Krul foram os três chamados para a posição. Porém, veio o azar do titular Cillessen. Bizot já foi incluído na delegação que viajou para treinos em Portugal, ainda de sobreaviso. E enfim, o camisa 1 do AZ foi efetivado na Holanda que volta a um grande torneio. De certa forma, um prêmio ao terceiro goleiro, pela persistência discreta que demonstrou em toda a carreira até aqui.

(Koen van Weel/ANP)



segunda-feira, 31 de maio de 2021

Segunda divisão - análise: justiça seja feita

O Cambuur liderava a segunda divisão em 2019/20, quando a pandemia interrompeu o futebol. Teve de se reanimar, e fez justiça com as próprias mãos: campeão e promovido à Eredivisie de modo inquestionável (Pro Shots)

Poucos clubes lamentaram tanto a interrupção do futebol na Europa, durante a temporada 2019/20, quanto Cambuur e De Graafschap. Tiveram razões para isso: quando a segunda divisão da Holanda foi interrompida, após 29 rodadas (faltando dez para o final), o time de Leeuwarden liderava, os Superboeren vinham em segundo lugar, e ambos estavam muito bem encaminhados para retornarem à primeira divisão. Tiveram de engolir o adiamento, deixarem de lado os recursos contra a federação... e esperarem pela Eerste Divisie 2020/21. Ela chegou. E mostrou a justiça sendo feita, para contentamento do Cambuur - e descontentamento do De Graafschap.

No caso do Cambuur, após a frustração com o recurso na Justiça dos Países Baixos contra a federação, restou apostar na continuidade: Henk de Jong continuou sendo o técnico no clube auriazul, o atacante Robert Mühren seguiu como grande destaque do time, continuou a aposta numa base que mesclasse experiência em clubes médios/pequenos da Eredivisie (Doke Schmidt, Calvin MacIntosch, Issa Kallon... todos eles já atuaram na primeira divisão) com certos privilégios aos destaques (no ataque, por exemplo, Kallon e Jarchinio Antonia vinham pelas pontas, criando as jogadas para Mühren finalizar). Deu muito certo. Já no primeiro período, entre a 1ª e a 9ª rodadas, o Cambuur foi o melhor time, garantindo desde então um lugar na repescagem de acesso/descenso. 

Mas nem isso seria necessário: a equipe mostrou melhorar à medida que a segunda divisão transcorria. Foi também a melhor do segundo período (entre 10ª e 19ª rodadas). A partir da 20ª rodada, engatilhou sequência invicta de nove jogos, com sete vitórias, e o título virou questão de tempo. A comemoração começou na 34ª rodada, com goleada em casa no Helmond Sport (4 a 1), e foi confirmada com os 4 a 2 no time B do AZ, fora de casa. De quebra, nem o relaxamento pós-título trouxe tropeços: foram mais quatro vitórias e um empate. Com 92 pontos, quinze à frente do vice-campeão, o Cambuur ostenta um título inquestionável, voltando à elite do futebol da Holanda após cinco anos. Personificado em Robert Mühren: goleador da temporada, sendo simplesmente o segundo nome com mais bolas na rede numa só temporada da Eerste Divisie - 38 gols, em 38 jogos. Só não mostrará isso na Eredivisie: Mühren ficará na segunda divisão, contratado que foi pelo Volendam.

Alicerçado na excelente defesa (destaque para o goleiro Gorter, de verde), o Go Ahead Eagles embalou, surpreendeu o De Graafschap e conseguiu o melhor prêmio: o acesso (Pro Shots)

Se o Cambuur nadou de braçada durante praticamente toda a temporada da segunda divisão, o De Graafschap pareceu por muito tempo destinado a completar a história que fora interrompida em 2019/20. Desde a oitava rodada, o time de Doetinchem se alternou entre a segunda e a terceira posições (ocupando a quarta, na 14ª e na 18ª rodadas). Mesmo em meio a uma equilibrada disputa com o Almere City - e quem mais quisesse entrar no meio, como ensaiaram NAC Breda, NEC, Volendam... -, os Superboeren se amparavam na experiência do zagueiro Ted van de Pavert e nos gols da dupla Daryl van Mieghem-Ralf Seuntjens para serem o melhor clube do terceiro período, entre a 20ª e a 28ª rodadas, e chegarem à reta final na vice-liderança.

Mas o Go Ahead Eagles veio. Devagar e sempre. Após começo estacionado no meio da tabela, a equipe aurirrubra de Deventer entrou nos eixos. Nem tanto pelo desempenho ofensivo, mas sim por dois nomes de destaque na defesa: o zagueiro Sam Beukema (já contratado pelo AZ) e o goleiro Jay Gorter. Eles simbolizaram uma façanha do Kowet: 25 jogos sem gols sofridos, recorde histórico na segunda divisão neerlandesa. Uma derrota justamente para o De Graafschap - 1 a 0, na 33ª rodada - pareceu acabar com o sonho da volta à primeira divisão. Que nada: nas cinco rodadas seguintes, o adversário de Doetinchem emperrou - quatro empates e uma derrota. 

O Go Ahead Eagles empilhou cinco vitórias. E terá razões para se lembrar da última rodada. Cumpriu sua parte na busca do acesso, vencendo o Excelsior fora de casa (1 a 0). Mas teve de esperar pelo resultado de De Graafschap x Helmond Sport, iniciado no mesmo horário, interrompido pela chuva aos 38 minutos do primeiro tempo. O jogo voltou, o De Graafschap foi incompetente para fazer gols, os jogadores do Go Ahead Eagles acompanharam o segundo tempo sentados no gramado em Roterdã... e o 0 a 0 completou o êxtase do Kowet: vice-campeão pelo melhor saldo de gols (ambos tiveram 77 pontos), retornado à Eredivisie. De certa forma, justiça também, premiando a solidez da equipe treinada por Kees van Wonderen. Pior para o De Graafschap, já eliminado na primeira fase da repescagem de acesso/descenso, perdendo de virada para o Roda JC (3 a 2).

O NEC foi bastante inconstante na temporada regular da Eerste Divisie. Sem problemas: na hora necessária, usou da eficiência para voltar à Eredivisie via repescagem (Pro Shots)

Aliás, "injustiça" mesmo, só se viu na repescagem: mesmo inconstante por toda a temporada, sétimo colocado após as 38 rodadas regulares, o NEC apostou no chamado "cateNECcio": proteção à defesa e eficiência nos contra-ataques puxados por Jonathan Okita. Foi assim que superou o Almere City, goleando na primeira fase dos play-offs (4 a 0); que sobrepujou facilmente o Roda JC (3 a 0); e, finalmente, foi assim que entristeceu o NAC Breda - fora de casa, o NEC teve Okita fazendo 2 a 1 no último minuto, para garantir a volta à Eredivisie, após quatro anos.

Injustiça? Melhor seria dizer competência. De todos os três promovidos.

domingo, 30 de maio de 2021

Eredivisie feminina - análise: quem tem medo dos lobos maus?

O Twente seguiu devagar e sempre, contra os badalados PSV e Ajax. Riu por último, campeão da Eredivisie feminina (Pro Shots)


Era uma vez três "porquinhos" - ou melhor, dois lobos maus e um porquinho. Todos estavam muito ansiosos antes do Campeonato Holandês feminino começar nesta temporada 2020/21. O lobo mau vindo de Amsterdã se chamava Ajax, e estava bem ansioso para comprovar sua força, com a vinda de a zagueira Stefanie van der Gragt (titular da seleção feminina) para se juntar a um time bem entrosado, com Victoria Pelova, Nikita Tromp e Marjolijn van den Bighelaar como destaques. Já o lobo mau de Eindhoven, chamado PSV, foi ainda mais feroz em sua apresentação: de uma só vez, repatriou Mandy van de Berg e Sari van Veenendaal, a melhor goleira do mundo em 2019, para se afirmar como o favorito à conquista da Vrouwen Eredivisie - até porque teria nomes como a promissora Esmee Brugts e o destaque Joëlle Smits. O porquinho Twente foi bem mais modesto, manteve seus destaques, só ousou numa vinda... mas foi quem saiu sorrindo no fim da fábula, campeão holandês entre as mulheres.

Um fim surpreendente, porque quando o campeonato começou, os lobos maus pareciam soprar forte para derrubar a casa sólida do Twente, Aliás, o Ajax fez isso na primeira rodada, vencendo os Tukkers na primeira das 14 rodadas da temporada regular (3 a 1, em setembro do ano passado). O PSV ainda foi fragilizado por um surto de infecções pelo coronavírus, que o impediu de estrear na data prevista, mas já começou vencendo o Heerenveen (2 a 1) - e quando enfim pôde jogar a primeira rodada, fez 5 a 1 no VV Alkmaar. O Twente começou capengando (além da derrota para o Ajax na estreia, ficou no 1 a 1 com o Zwolle), e só venceu duas vezes nas cinco primeiras rodadas.

Porém, aos poucos a temporada regular foi correndo. Nela, o PSV foi apresentando um problema preocupante: a equipe de Eindhoven mostrava a força esperada contra os adversários mais frágeis. Só que alguns nomes de destaque, como Van Veenendaal, falhavam com frequência acima do desejável. E contra os adversários a sério na disputa do título, o time de mulheres dos Boeren fraquejava quase sempre. Foi assim na vitória que fez o Twente bradar que estava a sério na Vrouwen Eredivisie: o 3 a 2 da sétima rodada. Na partida seguinte, mais um jogo para o porquinho mostrar que não era qualquer lobo mau que destruiria sua morada: 2 a 1 no Ajax.

Àquela altura, já era possível notar as qualidades que o Twente possuía. Mesmo com poucas contratações, os destaques da equipe treinada por Tommy Stroot eram muito confiáveis. Daphne van Domselaar no gol, Lynn Wilms na lateral direita, Sisca Folkertsma no meio-campo, Anna-Lena Stolze e Fenna Kalma na frente: todas elas sempre tinham um nível de atuação razoável. Mas o grande símbolo da regularidade da equipe de Enschede era uma boa e velha conhecida: a capitã Renate Jansen. Pode não ser brilhante tecnicamente, pode não ser a atacante mais falada da Holanda, mas bem ou mal, sempre faz seus gols, sempre se sacrifica pela equipe, e tem certa experiência. Talvez por isso, Renate é figura certa nas convocações da seleção feminina da Holanda (Países Baixos).

A capitã Renate Jansen (no centro) simbolizou a constância do Twente rumo ao título (Pro Shots)

A reta final da temporada regular indicou que o leme virava no campeonato. Nas rodadas finais, PSV e Ajax tropeçavam entre si e entre outros. Basta lembrar o 1 a 1 do Ajax com o Heerenveen, na 11ª rodada, a derrota do mesmo Ajax para o Zwolle na rodada seguinte - 1 a 0 - e o empate do PSV com o ADO Den Haag na 13ª e penúltima rodada. Os lobos maus ficavam mais fracos, de tanto soprar sem derrubar a casinha do Twente. Que devagar e sempre, com esmero, somava pontos para terminar as 14 rodadas como líder do Campeonato Holandês, concluindo a campanha com 2 a 1 no PSV, trazendo belíssimo gol de Fenna Kalma. Eram 32 pontos do "porquinho", contra 31 dos "lobos maus".

Àquela altura, o lupino de Amsterdã já recobrara suas forças com outra contratação recebida com pompa e circunstância: Sherida Spitse, mais uma neerlandesa retornada ao país natal pela saudade familiar. Mas se a questão era ter força, o Twente deu uma cartada tão discreta quanto certeira: trazer Kika van Es - menos falada, reserva atual na seleção da Holanda, mas voltando da Inglaterra (Everton) para ser absoluta na lateral esquerda dos Tukkers. E o PSV, ora vejam, contava com a velha conhecida Joëlle Smits para se destacar em meio a tantas contratações - Smits já se credenciava como a goleadora da Vrouwen Eredivisie.

E no quadrangular pelo título, com seis rodadas, coube ao lobo mau de Eindhoven e ao porquinho de Enschede tirarem de vez o Ajax do páreo. Na primeira rodada, o PSV fez 3 a 1 nos Ajacieden; o Twente os despachou de vez na 3ª rodada (2 a 1, fora de casa) e na 4ª também (Twente 1 a 0, em casa). Só restou a Spitse, vinda para liderar o Ajax em campo, lamentar, à ESPN holandesa: "Eu não voltei para isso". Mas na quinta e penúltima rodada do quadrangular, o licantropo Amsterdammer feriu o lobo de Eindhoven, fazendo 3 a 2. 

Faltava um tijolo para o porquinho prático de Enschede conseguir concluir sua bonita casa com o título. Mas ele estava difícil de ser conseguido: o ADO Den Haag segurava as pontas, com o 0 a 0 fora de casa. No entanto, como em toda fábula infantil, o final foi feliz: a quatro minutos do fim, o esforço do Twente foi premiado com o gol de Stolze. O gol da vitória. O gol do título. O gol que dava o melhor fim possível à passagem de Lynn Wilms, de saída para o Wolfsburg.

A fábula da Vrouwen Eredivisie podia terminar com o porquinho Twente, feliz, zombando dos lobos maus PSV (vice-campeão) e Ajax (3º colocado). Nem ligou para a derrota ao PSV nesta última rodada. Já podia cantar alegre: "Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau...".