domingo, 24 de maio de 2026

Análise da temporada: sorrisos amarelos

O domínio do PSV foi tamanho que alguns até se queixaram de ter sido um dos fatores de tornar este Campeonato Holandês sem emoção. Ainda assim, o tricampeão merece todos os méritos (Photo Prestige/Soccrates/Getty Images)

Nesta temporada 2025/26 do Campeonato Holandês que se encerrou, nem mesmo o PSV, tricampeão dominante, escapou de um mau humor que domina algumas análises sobre o que se viu na Eredivisie. Afinal de contas, se não deu margem para competição pelo título - tanto que foi o mais precoce campeão que o futebol neerlandês já viu, a cinco rodadas do fim -, o time de Eindhoven decepcionou aqui e ali. Foi eliminado na semifinal da Copa da Holanda, caiu já na fase de liga da Liga dos Campeões, enfim, ficou apenas com a Eredivisie para tentar levantar uma salva de prata. Conseguiu, mas deixou sorrisos amarelos, sem graça, com uma impressão de que poderia (e precisaria) fazer mais para que fosse um time mais respeitado. Há mais motivos para que a temporada que se encerrou tenha sido vista de um jeito meio atravessado, com esses sorrisos amarelos espalhados

A disputa pelo título foi um "não-acontecimento", não só porque o PSV disparou - e sem despencar nenhum momento, como no bicampeonato de 2024/25 -, como porque nenhum dos possíveis concorrentes se revelou à altura. Nem o Feyenoord (o vice-campeão que menos pontuou desde que o sistema de três pontos por vitória foi adotado). Nem o Ajax. Nem o AZ. Nem o Twente (mesmo com a arrancada da reta final da temporada). Nem o NEC, grande surpresa que logo será abordada. E de certo modo, esse "engessamento" da tabela se espalhou por todas as 18 posições. Basta se ver a parte de baixo da tabela, com os ameaçados pelo rebaixamento. Antes mesmo do final, ficou claro que Go Ahead Eagles e Zwolle controlariam seus perigos e emplacariam mais um ano na primeira divisão; que Excelsior, Telstar e Volendam se esforçariam para escapar da repescagem de acesso onde se joga a permanência - sobrou para o Volendam; e que Heracles Almelo e NAC Breda seriam os dois rebaixados à segunda divisão.

Então, a Eredivisie 2025/26 não prestou e fim de papo? Não é bem assim, e nunca seria. Para começo de conversa, se o PSV foi soberano até garantir o tricampeonato, merece méritos simplesmente por isso, por ter mostrado um time que, além de ofensivo, nunca deixou de levar o campeonato a sério em nenhum momento (basta citar que, na última rodada, título já garantido havia quase um mês, goleou por 5 a 1). O NEC, terceiro colocado, foi dos mais atraentes e curiosos times nesta temporada europeia de futebol, com estilo ofensivo, sem recuar nenhum milímetro, sendo premiado com a primeira ida à Liga dos Campeões - ainda que em fases classificatórias - na sua história. E também, se reconheça, o calvário renitente do Ajax continua chamando a atenção, com o clube de Amsterdã tendo precisado disputar os play-offs pela Conference League para garantir vaga num torneio europeu, ainda que o menos prestigioso deles.

Enfim, o Campeonato Holandês 2025/26 teve lá seus atrativos, ainda que fossem poucos. Que sejam maiores em 2026/27. Abaixo, clube a clube, a retrospectiva.

Análise da temporada: Heracles Almelo

Kulenovic (centro) foi o único destaque restante, num Heracles Almelo que pareceu condenado ao rebaixamento (que afinal aconteceu) por todo o returno (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Colocação final: 18º lugar, com 19 pontos (5 vitórias, 4 empates e 24 derrotas - rebaixado diretamente)
No turno havia sido: 17º lugar, com 14 pontos
Time-base: Jansink (Pasveer); Benita (Te Wierik/Wieckhoff), Mirani, Van Hoorenbeeck (Van der Kust) e Mesik; Hrustic e Zamburek; Limbombe (Ahlstrand), Engels e Ould-Chikh (Bruns); Kulenovic
Técnicos: Bas Sibum (até a 10ª rodada), Hendrie Krüzen (interino, entre a 11ª e a 14ª rodada) e Ernest Faber (a partir da 15ª rodada)  
Maior vitória: Heracles Almelo 8x2 Zwolle (11ª rodada) 
Maior derrota: Heracles Almelo 0x7 Feyenoord (9ª rodada)
Principal jogador: Luka Kulenovic (atacante)
Artilheiro: Luka Kulenovic (atacante), com 5 gols  
Quem deu mais passes para gol: Ajdin Hrustic (meio-campista), com 6 passes
Quem mais partidas jogou: Damon Mirani (defensor), com 33 partidas
Copa nacional: eliminado pelo Go Ahead Eagles, nas oitavas de final
Competições continentais: nenhuma

O Heracles Almelo já dava sinais do que ocorreria desde o primeiro turno: se não era o último colocado, era o penúltimo. Sofria com maus resultados, precisou trocar de técnico para tentar reverter o terrível início (seis derrotas nas seis primeiras rodadas)... mas nada adiantava. Nem mesmo fazer jogo duro para cima do PSV, na 16ª rodada, tirou os Heraclieden do mau caminho: o time saiu atrás com dois gols, buscou o empate, novamente ficou atrás, empatou de novo, mas tomou o 4 a 3 da derrota final. E na pausa de inverno, a coisa piorou: único destaque técnico no ataque, autor de 10 gols pelo clube de Almelo, Jizz Hornkamp tomou o rumo do AZ. Restava tentar melhorar no returno, com poucas perspectivas de que isso acontecesse. Aqui e ai, o Heracles tentou. 

Houve a volta do veteraníssimo Remko Pasveer, 42 anos, para o gol, tentando ajudar. Houve mudanças táticas para três zagueiros. Houve outra contratação, de Lequincio Zeefuik, tentando fazer um ataque menos estática. Houve até uma alteração frustrada de técnico: Ernest Faber se restringiria a ser diretor de futebol, com Vincent Hellmann (trabalhando na base da federação holandesa) Nada adiantou. E a queda literal dos Almelöers foi gradativa e apática, como indicaram algumas derrotas - um bom exemplo foram os 3 a 0 sofridos para o Ajax, na 30ª rodada. Quase todos os piores índices foram empurrados ao clube alvinegro: último colocado, pior do returno, pior mandante, pior visitante, pior ataque - junto a NAC Breda e Volendam -, pior defesa... O rebaixamento deixou a impressão de que o Heracles Almelo ainda não conseguiu se livrar do trauma de outro rebaixamento, anterior, em 2021/22. Terá a passagem pela segunda divisão para tentar começar a fazer isso. É altamente necessário.

Análise da temporada: NAC Breda

O NAC Breda se esforçou, buscou veteranos como André Ayew (foto), mas... o esforço não foi tudo. Na temporada passada, ainda houve como se salvar; agora, o rebaixamento (Olaf Kraak/ANP/Getty Images)

Colocação final: 17º lugar, com 28 pontos (6 vitórias, 10 empates e 17 derrotas - rebaixado diretamente)
No turno havia sido: 18º lugar, com 13 pontos
Time-base: Bielica; Valerius, Odoi, Leemans, Hillen e Kemper; Balard (Paula), Holtby (Nassoh) e Sowah; Talvitie e Brym (Reulen/Soumano)
Técnico: Carl Hoefkens
Maior vitória: NAC Breda 2x0 Heerenveen (33ª rodada)
Maior derrota: Go Ahead Eagles 6x0 NAC Breda (27ª rodada)
Principal jogador: Boy Kemper (defensor) 
Artilheiro: Boy Kemper (defensor), com 5 gols  
Quem deu mais passes para gol: Charles-Andreas Brym (atacante), com 4 passes
Quem mais partidas jogou: Daniel Bielica (goleiro), Boy Kemper (defensor) e Kamal Sowah (meio-campista), que jogaram todas as 34 partidas
Copa nacional: eliminado pelo Heracles Almelo, na primeira fase
Competições continentais: nenhuma

O NAC Breda estava avisado: terminara a temporada 2024/25 numa sequência sem vitórias, ficando parado na 15ª posição. E de quebra, fora o pior time do primeiro turno. Tudo o que o time aurinegro de Breda tinha a seu favor era o esforço, o apoio inesgotável da torcida que lotava o estádio Rat Verlegh. Isso ficou notável nas derrotas: a maioria delas, por apenas um gol de diferença. E mesmo quando o time tomava mais gols, se esforçava. Só que o fim, invariavelmente, era triste. Prova disso foi o jogo contra o NEC, pela 19ª rodada: o NAC saiu atrás com 2 a 0, buscou o empate em 2 a 2, tomou o terceiro gol, ainda conseguiu empatar... mas tomou o 4 a 3 dos visitantes de Nijmegen, nos acréscimos. Ou, então, o empate em 2 a 2 com o tricampeão PSV, na rodada seguinte: em Eindhoven, o time do norte aproveitou falhas defensivas dos Boeren, vencia por 2 a 1... até tomar o empate, também nos descontos.

Dentro de campo, o NAC Breda era isso: um time esforçado, mas deficiente tecnicamente, e até sem sorte. Fora de campo, teve problemas como a ação suspeita do ex-jogador Pierre van Hooijdonk na intermediação da venda do filho Sydney (que teve segunda passagem menos destacada) para o Estrela da Amadora (Portugal) - consultor técnico, Van Hooijdonk pai se desligou do clube. Aí, o NAC se desesperou. Apostou em veteranos como Denis Odoi, Lewis Holtby e André Ayew, sem muito sucesso. Houve ainda a tentativa do clube de ir à Justiça Comum holandesa pedindo a anulação dos 6 a 0 tomados do Go Ahead Eagles, pelas incertezas quanto ao passaporte do lateral esquerdo adversário, Dean James (indonésio ou neerlandês?). Quando o veredito deu ganho de causa à federação holandesa, os "Bredanaren" foram olhados de lado, como se tivessem querido melar o campeonato. Aí, já era tarde. E mesmo ganhando na penúltima rodada - 2 a 0 no Heerenveen -, os resultados de Excelsior, Volendam e Telstar decretaram o rebaixamento, com uma rodada de antecipação. Na temporada passada, o NAC Breda já tivera uma advertência; agora, não houve piedade.

Análise da temporada: Volendam

Robert Mühren se despediu dos campos - e o Volendam se despediu da primeira divisão, perdendo as chances que teve de permanecer (Ron Baltus/Soccrates/Getty Images)

Colocação final: 16º lugar, com 32 pontos (8 vitórias, 8 empates e 17 derrotas - rebaixado via repescagem)
No turno havia sido: 16º lugar, com 14 pontos
Time-base: Van Oevelen; Ugwu, Amevor, Verschuren e Leliendal; Bukala e Yah; Oehlers, Kökcü (Mühren) e Kuwas; Veerman
Técnico: Rick Kruys
Maior vitória: Volendam 3x0 Heracles Almelo (10ª rodada)
Maior derrota: Go Ahead Eagles 3x0 Volendam (5ª rodada), PSV 3x0 Volendam (14ª rodada) e NEC 3x0 Volendam (26ª rodada)
Principal jogador: Robert Mühren (atacante) 
Artilheiro: Robert Mühren (atacante), com 6 gols
Quem deu mais passes para gol: Brandley Kuwas (atacante), com 4 passes
Quem mais partidas jogou: Aurelio Oehlers (atacante), com 33 partidas
Copa nacional: eliminado pelo NEC, nas quartas de final
Competições continentais: nenhuma

Talvez só dois dados expliquem o Volendam precisar jogar sua permanência na primeira divisão: ter feito poucos gols. Pouco? Então, vale lembrar: o time começou a temporada com quatro empates. Depois, duas derrotas (Go Ahead Eagles 3 a 0, na 5ª rodada; Excelsior 2 a 1, na 6ª rodada). E ao longo das 34 rodadas, foi um dos times com menos gols feitos neste Campeonato Holandês: só 35 gols, ao lado de dois outros - talvez não por acaso, os rebaixados NAC Breda e Heracles Almelo. De quebra, foi o segundo clube com mais derrotas na temporada (18). Tudo isso, mesmo tendo sido um dos raros times a ter vencido o tricampeão PSV - 2 a 1, na 23ª rodada. E tendo sido um time que se esforçou, inegavelmente, para ter destino diferente. Afinal, as condições para a equipe eram distantes de um cenário de crise. Para começo de conversa, havia um técnico que teve tempo e prestígio para trabalhar (Rick Kruys), o esquema de jogo era bem conhecido. 

Entre os jogadores, havia regularidade. E até nomes promissores, como o lateral direito Precious Ugwu, campeão europeu sub-19 com a Holanda (Países Baixos) no ano passado. Outros eram um pouco mais experientes, e conheciam o clube, como o goleiro Kayne van Oevelen - sua saída nas últimas rodadas, por lesão, fez falta - Brandley Kuwas e Juninho Bacuna - esses dois irão à Copa do Mundo com Curaçao. Outros, ainda, eram veteranos e confiáveis, como Henk Veerman, a referência ofensiva, e Robert Mühren, que anunciou o fim da carreira ainda durante a temporada, não sem antes ser o goleador da "Outra Laranja" nesta edição da liga. E até seria possível para o Volendam mudar seu destino: afinal, os dois adversários nas duas últimas rodadas eram Excelsior e Telstar, justamente os dois contendentes para escapar da repescagem de acesso/permanência/descenso. E os Volendammers não se ajudaram. Contra o primeiro, na penúltima rodada, empate em 1 a 1; contra o Telstar, jogando em casa, mesmo saindo na frente do placar, o time tomou a virada por 2 a 1. Teve de jogar a repescagem contra o rebaixamento. E o roteiro foi até parecido: na decisão contra o Willem II, ganhou o jogo de ida, fora de casa, mas perdeu chances demais. Castigo: no segundo jogo, o Willem II reverteu a vantagem, levou a decisão às cobranças da marca do pênalti... e nelas rebaixou o Volendam. Que aprendeu a lição, do jeito mais duro.

Análise da temporada: Zwolle

Kostons fez seus gols, e o Zwolle conseguiu a manutenção na Eredivisie. Mas tem de se cuidar demais para o próximo ano (Jeroen van den Berg/Soccrates/Getty Images)

Colocação final: 15º lugar, com 37 pontos (9 vitórias, 10 empates e 15 derrotas - atrás pelo pior saldo de gols) 
No turno havia sido: 14º lugar, com 19 pontos
Time-base: De Graaff; Aertssen (Gooijer), Graves, MacNulty e Floranus; Buurmeester (Monteiro/Fichtinger), Oosting e Thomas; De Rooij, Kostons e Velanas (Shoretire)
Técnico: Henry van der Vegt
Maior vitória: Zwolle 4x1 Telstar (21ª rodada)
Maior derrota: Heracles Almelo 8x2 Zwolle (11ª rodada)
Principal jogador: Koen Kostons (atacante) 
Artilheiro: Koen Kostons (atacante), com 11 gols  
Quem deu mais passes para gol: Koen Kostons (atacante), com 6 passes
Quem mais partidas jogou: Thijs Oosting (meio-campista) e Koen Kostons (atacante), que jogaram todas as 34 partidas
Copa nacional: eliminado pelo AZ, na segunda fase
Competições continentais: nenhuma

No texto para a parada obrigatória de inverno, as palavras sobre o Zwolle terminavam com uma pergunta: até quando? Até quando o Zwolle conseguiria se segurar, ficando diretamente na primeira divisão? Segurou-se até o fim das 34 rodadas, agora se sabe. Porque, se a defesa continuou frágil - 71 gols sofridos, a segunda pior do campeonato -, pelo menos só tomou uma goleada na reta final (o PSV fez 6 a 1, na 31ª rodada). Porque havia times inferiores: mesmo sempre bordejando as últimas posições, os "Dedos Azuis" conseguiam escapar delas. Somente passaram duas rodadas na 16ª posição, que ainda daria a "segunda chance" na repescagem. E bem ou mal, retomaram bem a campanha após a pausa de inverno, empatando com o Twente (1 a 1, 18ª rodada) e vencendo o AZ (3 a 1, 19ª rodada). Além do mais, contra adversários diretos nas últimas posições, os Zwollenaren conseguiram obter bons resultados: 4 a 1 no Telstar (21ª rodada), 2 a 1 no NAC Breda (28ª rodada), 2 a 2 com o Excelsior (29ª rodada), 3 a 0 no Heracles Almelo (32ª rodada).

Isso se devia à relativa qualidade técnica de alguns bons jogadores, como o meio-campo Thijs Oosting e o atacante Koen Kostons. Até mesmo perdas que impactaram o time, como a saída do machucado ponta-esquerda Shola Shoretire, foram minimizadas com a boa entrada de Odysseus "Ody" Velanas. De mais a mais, também ajudou a experiência de dois nomes que estarão na Copa do Mundo, o cabo-verdiano Jamiro Monteiro e o neozelandês Ryan Thomas, ambos no meio-campo. Assim, com méritos próprios e alguma sorte oferecida pelos contextos externos, o Zwolle conseguiu a manutenção na primeira divisão antes mesmo que as últimas rodadas chegassem. De todo modo, tendo em vista algumas saídas que vêm aí - como a de Monteiro -, é bom o clube se preparar para 2026/27. Não é toda temporada que oferece o "perdão".