sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Acredite se quiser

Guardado deixa o campo sério após a eliminação na Copa da Holanda: o PSV sabe que precisa melhorar (Pim Ras)

“Zij wel” – em holandês, numa tradução livre, “eles passaram”. Esta foi a manchete do “Sportwereld”, o caderno de esportes do diário holandês Algemeen Dagblad, na edição desta quinta que passou. Descrevia bem o rumo de Ajax e Feyenoord, que deram sequência aos seus bons momentos, nesta semana, pela segunda fase da Copa da Holanda. O Feyenoord passou tranquilamente pelo Excelsior, rival de cidade: mesmo poupando gente como Dirk Kuyt e Tonny Vilhena, impôs 4 a 0. Para o Ajax, as coisas foram até mais fáceis: com um time cheio de jovens, 6 a 1 no amador Kozakken Boys, da terceira divisão – destaque para o novato atacante Pelle Clement, com dois gols.

E o PSV? Eis aí a razão do “eles passaram” que virou manchete: a equipe de Eindhoven caiu na terça passada, para o Sparta Rotterdam, por 3 a 1. A inesperada eliminação na KNVB Beker é mais um ponto que mostra a forte instabilidade vivida atualmente pela equipe de Eindhoven na temporada. Afinal de contas, vale lembrar que os Boeren já se veem a sete pontos de distância do líder Feyenoord no Campeonato Holandês. Sem contar a Liga dos Campeões: certo, o time holandês ainda pode ganhar a vaga na Liga Europa, mas está em último lugar no grupo, não venceu ainda, nem chegou perto de impressionar quem quer que seja.

O mais curioso é que dizer que o PSV está jogando irremediavelmente mal é exagerado. Foi superado facilmente pelo Bayern na rodada passada da Liga dos Campeões, ao sofrer o 4 a 1 em Munique? Foi, e muito – é o caso de dizer que ficou barato, diante da goleada que se avizinhava nos primeiros 20 minutos de jogo, quando os bávaros fizeram 2 a 0, deram 13 chutes a gol e encurralaram os Eindhovenaren em sua própria área de defesa. Ainda assim, depois da blitz que os sufocou, os visitantes aproveitaram os espaços naturalmente deixados pelo time mandante, diminuíram para 2 a 1, e até criaram chances de empatar, no início do segundo tempo, antes que Robert Lewandowski deixasse nas redes o terceiro do time vermelho, resolvendo o jogo.

Então, o que acontece? Como é natural supor, são várias as razões. A primeira delas é o cansaço, que tem levado à visível queda de produção de jogadores-chave para o esquema de Phillip Cocu. No meio-campo, Jorrit Hendrix lesionou o joelho, como já ocorrera no final da temporada passada. Andrés Guardado também já teve alguns problemas musculares há algumas semanas – e mesmo atuando em campo, não mostra mais o protagonismo que já teve no setor. Compreensível: em dois anos e meio de clube, o mexicano de 30 anos atuou em 130 partidas. Uma hora, o corpo cobra a conta. Com tudo isso, Davy Pröpper se vê cada vez mais sobrecarregado na tarefa de desarmar e sair para o jogo – já que o reforço Siem de Jong, além de também ter se lesionado, ainda não engrenou no clube novo.

Se fosse só no meio-campo, as lesões ainda teriam impacto menor. Mas elas também atingiram o ataque: sem Jürgen Locadia, ainda em recuperação de problema muscular na coxa, têm jogado pela esquerda tanto o novato Steven Bergwijn quanto Gastón Pereiro – nenhum deles com grandes atuações, até agora. Na defesa, a bruxa pegou Jeroen Zoet, que lesionou o tornozelo – e até por isso, ficou fora da pré-convocação de Danny Blind para os próximos jogos da seleção holandesa. Enfim, as lesões atrapalham. Mas não são a única razão da visível queda do PSV.

A ineficiência da equipe nas finalizações tem sido assustadora. Principalmente nas últimas rodadas do Campeonato Holandês. Nas últimas três partidas do clube na Eredivisie, foram 39 arremates, dos quais 25 foram chutes a gol, mas apenas três bolas efetivamente balançaram o filó adversário. Claro, ninguém pode controlar as boas atuações dos goleiros adversários – e o PSV encarou dois deles: Bram Castro, do Heracles Almelo, fechou o gol no 1 a 1 em Eindhoven, há duas rodadas, e Roy Kortsmit, do Sparta Rotterdam, ia pelo mesmo caminho na rodada passada. Só um gol tardio de Bart Ramselaar, enfim, fez o PSV voltar a ganhar, após três rodadas sem vitórias pela liga. E ainda há a aflitiva sequência de quatro pênaltis perdidos – 12, nos últimos 19 que o PSV teve a seu favor. Sobra para Luuk de Jong: com apenas três gols na temporada, em todas as competições, o goleador e capitão tem ouvido bastante os apupos da torcida, antes raros.

Dá para mencionar como razão da má fase, também, uma irregularidade maior na defesa. Zoet até melhorou em relação à temporada passada, no gol (progrediu até no jogo com os pés, seu grande defeito), mas Héctor Moreno ainda não conseguiu com ninguém uma parceria tão entrosada quanto a que desenvolveu com Jeffrey Bruma. Nicolas Isimat-Mirin tem sido o titular costumeiro, mas estão cada vez mais frequentes as escolhas de Phillip Cocu pelo alemão Daniel Schwaab entre os titulares. Nas laterais, Joshua Brenet demonstra hesitação na marcação, e Jetro Willems tem sido tímido nos cruzamentos, justamente onde mais oferecia ajuda nas últimas temporadas. E algumas desatenções têm sido punidas: como contra o Heracles, que marcou o gol no empate pela Eredivisie após Siem de Jong bobear na saída de bola.

Mesmo que não signifique uma crise profunda (ainda), a eliminação na Copa da Holanda calou fundo nos jogadores. Após a derrota para o Sparta, Narsingh saiu de campo reconhecendo: “Devemos nos envergonhar”. Luuk de Jong usou palavras diferentes para trazer a mesma dureza: “Já odeio perder, e odeio ainda mais se for dessa maneira. Esse não é o PSV”. Coube a Phillip Cocu um diagnóstico mais preciso: “Nosso ritmo de jogo foi muito lento, nos movimentamos pouco e trabalhamos mal com a bola nos pés. Isso não pode acontecer. É inaceitável. Vamos conversar sobre isso”.

Cabe, pois, ao PSV se recuperar. Na Liga dos Campeões, ainda há o jogo direto contra o Rostov-RUS: perder até a vaga na Liga Europa seria vexaminoso. E no Holandês, o jogo deste sábado, contra o Vitesse (de campanha razoável), pode encurtar a distância para o Feyenoord – e manter a equipe perto do vice-líder Ajax. Porque, por enquanto, o PSV é que olha os dois se destacarem. Acredite se quiser.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 28 de outubro de 2016)

domingo, 23 de outubro de 2016

810 minuten: como foi a 10ª rodada da Eredivisie

Se há algo estranho acontecendo em campo, quem o Feyenoord chama? Dirk Kuyt! Foi assim contra o Ajax (ANP/Pro Shots)

Excelsior 0x2 Zwolle (sexta-feira, 21 de outubro)

Mesmo há duas rodadas invicto, com uma vitória e um empate, o Zwolle continuou com um estilo mais conservador no jogo que abriu a 10ª rodada. Fora de casa, durante grande parte do primeiro tempo os visitantes ficaram na defensiva contra o Excelsior - que, por sua vez, também não criou grande coisa. Somente no final dos primeiros 45 minutos veio algo parecido com uma chance de gol: aos 38', Stanley Elbers deixou Ryan Koolwijk livre com a bola, mas o meio-campista demorou a chutar, e perdeu a oportunidade de colocar os anfitriões na frente.

Já quando o Zwolle chegou pela primeira vez ao gol, foi para abrir o placar. E foi no começo do segundo tempo: aos 47', Kingsley Ehizibue ficou desmarcado pela esquerda e lançou a Younes Mokhtar - e este só ajeitou para Queensy Menig entrar batendo e fazer 1 a 0 para os Dedos Azuis. Só aí os mandantes foram ao ataque no estádio Woudestein - e esbarraram numa defesa compacta dos Zwollenaren em campo. Um contra-ataque bem encaixado, aos 88', e Django Warmerdam recebeu a bola na área para definir a segunda vitória seguida (1ª fora de casa) do Zwolle, que deixou a zona de repescagem/queda. O Excelsior, além da queda livre na tabela, acumula 334 minutos sem gols marcados no Campeonato Holandês.

Yeboah sai comemorando após abrir o placar: Twente surpreende na parte de cima da tabela (ANP/Pro Shots)

Go Ahead Eagles 0x2 Twente (sábado, 22 de outubro)

Desde que a partida em Deventer começou, ficou claro o maior poderio ofensivo do Twente. Com Bersant Celina bem de novo na criação das jogadas, Enes Ünal e Yaw Yeboah tiveram chances a granel para finalizar - começando aos cinco minutos, quando Yeboah chutou no canto em que estava o goleiro Theo Zwarthoed. E ele seria o grande responsável por manter o Go Ahead Eagles intacto no primeiro tempo: Zwarthoed não só agarrou outro chute de Ünal aos 19', mas quando foi superado pelo arremate de longe de Celina, aos 34', viu a bola bater na trave. Todavia, a resistência durou até os 44': lançado por Ünal, Yeboah tocou na saída de Zwarthoed e colocou os Tukkers visitantes merecidamente na frente

Só no segundo tempo é que o Go Ahead Eagles tentou dar alguma satisfação à torcida: aos 49', Marcel Ritzmaier fez o goleiro Nick Marsman trabalhar, enquanto o atacante Randy Wolters teve grande chance de empatar aos 66', aproveitando falha de Hidde ter Avest, mas chutando para fora. Aí, o Twente acordou. Mais precisamente, Bersant Celina acordou. Aos 79', em cobrança de falta, o meio-campista kosovar mandou de novo a bola na trave. Finalmente, aos 89', Celina fez 2 a 0, com um chute colocado, confirmando o triunfo que levou o Twente à quinta posição na tabela. Para um time combalido pela crise financeira que vive, ficando na primeira divisão apenas pela piedade da federação holandesa, até que a aposta do Twente nos garotos está dando certo. De onde menos se espera...


O PSV quase parou de novo no goleiro adversário (agora, Kortsmit). Mas Ramselaar marcou o gol salvador (ANP/Pro Shots)

PSV 1x0 Sparta Rotterdam (sábado, 22 de outubro)

Já eram três rodadas sem que o PSV vencesse na Eredivisie. Para a partida contra o time de Roterdã, três mudanças forçadas: machucado, Jeroen Zoet deu lugar a Remko Pasveer no gol, enquanto Siem de Jong sentia dores de lesão sofrida contra o Bayern de Munique, e Jetro Willems alegou problemas particulares para ficar de fora do jogo. Todavia, pelo começo no Philips Stadion, deu para temer um quarto tropeço seguido. Destemido no ataque, o Sparta foi à frente, já a partir dos 2': Stijn Spierings chutou da entrada da área, e Pasveer defendeu. Aos 7', após escanteio, foi a vez de Thomas Verhaar bater forte da entrada da área: Pasveer espalmou para escanteio. Depois, aos 10', Zakaria El Azzouzi fez jogada individual pela direita, entrou na área e tocou na saída de Pasveer, mas Nicolas Isimat-Mirin evitou que a bola chegasse ao gol vazio.

Só depois desse susto de dez minutos, ao deixar menos espaço para contragolpes, é que o PSV começou a melhorar. Mas surgiu um outro desafio: superar o goleiro dos Spartanen, Roy Kortsmit, que teve ótima atuação em Eindhoven. Aos 24', Davy Pröpper tentou pela primeira vez: recebeu de Narsingh na área, pela esquerda, e bateu cruzado, para Kortsmit espalmar para o meio da área (a defesa do Sparta tirou). Logo depois, Gastón Pereiro fez o 1-2 com Luuk de Jong, recebeu de volta e finalizou rasteiro para Kortsmit espalmar pela linha de fundo - como o goleiro fez de novo aos 28', ao sair bem do gol, quando Narsingh deixou com Joshua Brenet, que arrematou.

Paralelamente, o Sparta ainda dava algum sinal de vida no ataque. Aos 31', após cruzamento da direita, El Azzouzi fez o corta-luz para Craig Goodwin bater, exigindo boa defesa de Pasveer. Mas os Boeren já superavam muito os Spartanen, conseguindo mais duas chances de gol no primeiro tempo. Aos 37', Brenet fez grande jogada individual pela esquerda, chegou á área e cruzou, mas a bola passou em frente a Luuk de Jong, na pequena área. E aos 40', após lançamento longo, Narsingh dominou, escapou da marcação de dois e chegou livre à grande área, mas tocou em cima de Kortsmit, que fez outra boa defesa - em outra providencial saída de gol.

Mal começou o segundo tempo no Philips Stadion, e o PSV continuou criando uma chance atrás da outra. Novamente titular na lateral direita, Santiago Arias fez jogada individual aos 47', chegou à área e arrematou, mas Kortsmit tirou com o pé. Aos 55', novo arremate de Narsingh na entrada da área, nova defesa de Kortsmit. No minuto seguinte, El Azzouzi assustou de novo, mas o fato é que os Eindhovenaren eram todos pressão. Ainda mais depois da entrada de Steven Bergwijn na vaga de Narsingh, aos 63. No primeiro minuto em campo, após tabela com De Jong, Bergwijn arriscou: a bola saiu pela linha de fundo. O camisa 27 tentou a mesma coisa aos 71', e nada. Aos 75', Oleksandr Zinchenko substituiu Andrés Guardado, deixando o PSV num 4-2-4, e um arremate cruzado de De Jong no minuto seguinte foi para fora.

Assim como o goleiro do Heracles, Bram Castro, fora o "culpado" do empate por 1 a 1 no Philips Stadion, há uma semana, parecia que de novo o PSV esbarraria em um arqueiro, mesmo criando tantas chances de gol. Todavia, aos 77', veio o que fora tão díficil de ser obtido. Bergwijn veio da esquerda e entregou a bola a De Jong, que passou-a em profundidade. Bart Ramselaar entrou na área, livre de marcação e em posição legal, para tocá-la por baixo de Kortsmit, mandando para as redes e aliviando a torcida: era o 1 a 0.

Só para variar, ainda houve mais duas chances de ampliar o placar: aos 88', um toque de Bergwijn, encontrou outra vez Kortsmit no caminho. Depois, aos 90', Kortsmit defendeu outra, evitando com os pés o toque de Zinchenko. E o jogo terminou. Foram 25 chutes, 13 deles a gol. Mas o PSV só conseguiu vencer por 1 a 0. Evitou que Ajax e Feyenoord se afastassem ainda mais na frente da tabela, mas não consegue esconder a incompetência crescente nas finalizações. Precisa resolver isso. Até porque o adversário das oitavas de final da Copa da Holanda, nesta semana, é... o Sparta.

Roda JC 1x1 ADO Den Haag (sábado, 22 de outubro)

De um lado, o último colocado da Eredivisie; do outro, uma equipe que não sabia o que era vencer no campeonato desde o dia 19 de agosto, e que vinha de cinco derrotas em sequência. O jogo no Parkstad Limburg Stadion de Kerkrade prometia bastante drama. E até entregou. No primeiro tempo, o ADO Den Haag deu a impressão de que aprofundaria a crise vista no Roda JC. Os visitantes de Haia pressionaram muito mais, culminando em dois lances próximos. Aos 35', Mike Havenaar encobriu o goleiro Benjamin van Leer, mas mandou a bola na trave. Dois minutos depois, Sheraldo Becker veio pela direita e finalizou; a bola novamente atingiu o poste, mas aí Édouard Duplan estava a postos para fazer 1 a 0.

De fato, o drama do Roda ficaria grande a ponto de ameaçar apagar da memória a primeira vitória na temporada - contra o Excelsior, na rodada passada. Diante da própria torcida, os Koempels mal criavam chances de gol dignas desse nome. O que não ajudaria muito a quebrar um tabu mais do que incômodo: desde o tento de Adil Auassar na primeira rodada, contra o Heracles Almelo, a equipe de Kerkrade não marcava gols nos jogos em casa. E nada indicava que isso mudaria. Até os 86', quando enfim os aurinegros balançaram as redes - e com beleza: uma falta cobrada perfeitamente por Mitchel Paulissen mandou a bola no gol, decretando o 1 a 1. Pelo menos isso.

Willem II 0x1 Utrecht (sábado, 22 de outubro)

Num começo de jogo mais fisico do que técnico, muitas faltas foram vistas no estádio em Tilburg. Aos 14', inclusive, o volante Rico Strieder levou um cartão amarelo, após cometer em Anouar Kali uma falta que talvez merecesse vermelho de um juiz mais rigoroso. Seja como for, para os padrões de Reinold Wiedemeijer, o juiz da vez no Willem II Stadion, este rigor só precisou ser usado aos 30': Fran Sol derrubou Nacer Barazite num carrinho, com a bola mais distante, e levou o vermelho direto. Os donos da casa teriam de ficar uma hora com um a menos em campo. No intervalo, o técnico Erwin van de Looi fortaleceu a defesa, com a entrada de Dico Koppers, e os mandantes se seguraram bem.

Embora mais fortes técnica e ofensivamente - com ou sem vantagem numérica -, os Utregs tocavam a bola de maneira lenta demais para achar espaços. No segundo tempo, algumas chances surgiam aqui e ali, mas ninguém vazava a recomposta defesa tricolor. Quem mais chegou perto foram Richairo Zivkovic (aos 56', escorregou livre na área) e Yassin Ayoub (aos 84', após tabelar com Barazite). Quando o 0 a 0 já era considerado placar decisivo, quem apareceu? O destaque de sempre: Sébastien Haller, que aproveitou falha da zaga aos 90' para passar do goleiro e fazer o 1 a 0. Terceira vitória seguida do Utrecht, que já aparece na metade superior da tabela, em 9º lugar. Vem aí um colega para Heerenveen, AZ, Twente? A ver.


O NEC sofreu, achou que perderia o clássico para o Vitesse, mas Dumic salvou no fim (ANP)

NEC 1x1 Vitesse (domingo, 23 de outubro)

Não era só Feyenoord x Ajax o clássico da rodada. No estádio De Goffert, em Nijmegen, NEC e Vitesse fizeram mais um "Dérbi da Géldria", como é conhecido o encontro entre os dois times de duas famosas cidades da província da Géldria (claro, Nijmegen e Arnhem). Como se não bastasse, havia o tempero adicional do Vitesse ter entre seus titulares um jogador vindo justamente do rival provincial: o meio-campo Navarone Foor. Assim, o primeiro tempo foi bem tenso. E acelerado: tanto num time quanto noutro, as bolas pelas pontas foram as principais tentativas de jogada. Mas chutes a gol mesmo, foram poucos. Só vieram quando houve jogadas pelo meio.

Partiu do NEC a primeira chance, aos 23', quando Gregor Breinburg arriscou cruzamento da esquerda e a bola tomou efeito, passando perto do gol de Eloy Room. No minuto seguinte, Julian von Haacke veio com a bola dominada, arriscou de fora da área, e Room fez grande defesa, espalmando pela linha de fundo. Porém, quando chegou pela primeira vez à área, o Vitesse deixou a bola onde interessa: nas redes. E justamente com o jogador mais visado: Navarone Foor. Aos 38', após chutão da defesa, Ricky van Wolfswinkel dominou a bola e veio com ela no contra-ataque, marcado por dois. Foi só passá-la à direita, onde vinha Foor, que o meio-campista dominou e tocou na saída do goleiro Joris Delle, fazendo o 1 a 0 do Vites - e sem comemorar, tentando inutilmente conter as vaias dos torcedores anfitriões.

No segundo tempo, Taiwo Awoniyi e Reagy Ofosu entraram em campo, tentando fortalecer na área o ataque do NEC. Mas não deu muito certo, e o jogo caiu de ritmo. Só aos 60' é que os Nijmegenaren criaram algo: Breinburg recebeu a bola na área e a escorou para Awoniyi, que arrematou fracamente, tornando fácil a defesa de Room. Mereceram mais destaque as CENAS LAMENTÁVEIS da torcida da casa, que atirou copos e mais copos de plástico contra Lewis Baker, quando este ia bater um escanteio. Baker reclamou, o zagueiro Dario Dumic tomou as dores da torcida, houve um charivari, e o jogo parou por cerca de cinco minutos. Parecia que o NEC sairia de cabeça baixa do clássico. Dumic não deixou: aos 90', André Fomitschow cruzou, e o zagueiro escorou de cabeça para igualar o jogo (com Awoniyi atrapalhando Room, diga-se). No finzinho, o NEC tirou da boca do Vitesse o gosto de vitória. Num clássico, convenhamos, poucas coisas podem ser melhores.

Groningen 2x0 AZ (domingo, 23 de outubro)

Momentaneamente na última posição, após o empate do Roda JC. Apenas dois pontos nos jogos em casa, antes desta 10ª rodada da Eredivisie. Estava difícil a vida do Groningen para encarar o AZ. E parecia ficar mais difícil na fase inicial do jogo, quando os visitantes de Alkmaar ainda tentaram algo com Stijn Wuytens (aos 13'). Todavia, na primeira chance que tiveram, os Groningens facilitaram esse "difícil": aos 18', Hans Hateboer cruzou da direita, a bola passou por cima de todos na área, e foi encontrar Bryan Linssen livre na segunda trave. Linssen dominou, bateu, e fez 1 a 0.

Com um meio-campo mais protegido ao ser escalado no 4-4-2, e num dia inseguro da defesa do AZ, o Groningen foi para cima. E foi premiado nos acréscimos da etapa inicial. Aos 45' + 2, Linssen foi o autor do passe, cruzando para Tom van Weert, de cabeça, dar à bola o rumo das redes de Sergio Rochet: 2 a 0 Groningen. No segundo tempo, o AZ até tentou aqui e ali o gol de honra. Nada que ameaçasse a primeira vitória em casa do time do norte holandês nesta temporada. De quebra, agora a pressão fica um pouco com os Alkmaarders, que não vencem desde 18 de setembro na Eredivisie (três empates e uma derrota), estão no rumo da eliminação na Liga Europa, e devem perder o lesionado Ron Vlaar por algum tempo.

Feyenoord 1x1 Ajax (domingo, 23 de outubro)

O Klassieker mais esperado das últimas temporadas começou sem muitas novidades na escalação - no Ajax, única coisa digna de nota era no banco, com a ausência de Nemanja Gudelj, sentindo dores musculares na coxa. E a partida em De Kuip começou mais tensa do que propriamente boa. Mesmo as jogadas mais perigosas não traziam real empolgação aos torcedores. Aos 2', Amin Younes foi o primeiro a tentar, em jogada pela linha de fundo, mas só conseguiu espaço para cruzar, e Brad Jones defendeu sem problemas. Jens Toornstra tentou o primeiro chute a gol do Feyenoord aos 4', mas Joël Veltman bloqueou a bola. Depois, aos 8', Bertrand Traoré tentou chegar à área com a bola dominada, mas Jan-Arie van der Heijden o desarmou sem problemas.

Jogando bem recuado no 4-1-4-1, com Davy Klaassen até mais recuado, o Ajax fechava os espaços do Feyenoord no começo. Até os 12', quando um azar quase rendeu o primeiro gol: Daley Sinkgraven errou ao tentar dominar a bola, e Bilal Basacikoglu saiu com ela, chegando sozinho à área. Todavia, o turco demorou demais para finalizar - e quando o fez, André Onana pegou, fechando bem o ângulo e frustrando a torcida dos Feyenoorders. Só aos 22', enfim, o Ajax criou uma chance digna do nome. Younes fez sua jogada típica: veio pela esquerda, cortou e bateu para fora.

Ainda assim, o Feyenoord já tinha descoberto espaços, e começava a crescer em campo, com as boas atuações dos atacantes. Só precisava de um chute no alvo. Tentou aos 24', quando Dirk Kuyt tentou arriscar da entrada da área em bate-rebate, mas Veltman fechou o caminho. Tentou aos 32', quando Nicolai Jorgensen apareceu pela direita e cruzou rasteiro, mas o atento Davinson Sánchez (ótima atuação do zagueiro colombiano) cortou pela lateral. Finalmente, aos 33', veio o primeiro lance perigoso do Klassieker: num contra-ataque, dois-contra-dois, Jorgensen tocou, Sánchez tirou parcialmente, e Kuyt bateu por cima, perto do gol. O Ajax tentou responder timidamente com Ziyech, que arriscou de longe e mandou a bola muito por cima aos 36'. Porém, o Feyenoord é que conseguiu duas ótimas chances de abrir o placar depois. Aos 37', em bola para a área, Kuyt deu de cabeça a Van der Heijden, e este escorou para Eric Botteghin, que mandou de voleio por cima do gol. E no último lance do primeiro tempo, Toornstra bateu cruzado e rasteiro, mandando a bola rente à trave de Onana.

O Feyenoord não espremera o Ajax na defesa durante os primeiros 45 minutos, mas fora claramente superior. Ainda assim, o jogo carecia de emoção. Que veio no segundo tempo. Já aos 23 segundos, Ziyech já chutou de longe (para fora). Depois, o Stadionclub voltou a atacar em seus domínios: aos 48', antes que Sánchez chegasse, Basaçikoglu tentou cruzar rasteiro para a área - sem problemas para Onana. No minuto seguinte, Jorgensen é que cruzou para o meio da área, mas novamente ninguém apareceu para conferir. O dinamarquês perdeu nova chance aos 54': Kuyt o deixou livre (Sinkgraven dava condição), mas o atacante bateu por cima.

E justamente aí, quando o Feyenoord mais dominava, é que o Ajax teve premiado seu estilo "traiçoeiro" em campo. Graças a Kasper Dolberg. Aos 55', em contragolpe rápido, Hakim Ziyech lançou o jovem dinamarquês dos Ajacieden. Na área, Dolberg driblou Van der Heijden com calma incomum e tocou na saída de Jones, calando De Kuip. 1 a 0 que coroava não só a tranquilidade de Dolberg, mas também a habilidade de Ziyech, que dera sua sexta assistência nas últimas nove partidas pelo Ajax.

Dolberg finalizou para abrir o placar do clássico com uma calma notável para alguém de 19 anos (ANP/Pro Shots)

Os mandantes de Roterdã sentiram o golpe, e os Ajacieden foram atrás para ampliar. Aos 58', Dolberg quase fez seu segundo gol, batendo cruzado de direita na área (a bola passou rente à trave). Aos 63', Ziyech cobrou falta perigosa, forçando o rebote de Brad Jones - no lance seguinte, em bate-rebate perto da área, a bola sobrou de novo com o marroquino, que arrematou para Jones agarrar - agora, sem rebote. Com a vantagem, o Ajax ficava cada vez mais à vontade no jogo. Ziyech e Dolberg davam o que temer à defesa dos Rotterdammers. Aí Giovanni van Bronckhorst decidiu usar o que tinha de útil no banco: voltando da cirurgia no ombro, Eljero Elia entrou aos 60', para acelerar mais as jogadas pela esquerda. Na direita, mais tarde, o recuperado Steven Berghuis veio a campo aos 71', no lugar de Basaçikoglu - e quase marcou, aos 74', ao receber de Jorgensen, perto da área, e bater, mandando a bola perto do gol.

No Ajax, Peter Bosz apostou em um pouco mais de malícia: aos 70', entraram Anwar El Ghazi, para proteger mais a bola na esquerda, e Mitchell Dijks, para dar mais força física à marcação (até porque Daley Sinkgraven já sentia dores desde o começo do segundo tempo). Depois, com cãibras, Ziyech deixou o campo para que Riechedly Bazoer fechasse mais o meio. Era um 4-3-3 bem compactado, com meio e defesa próximos. Enquanto isso, no Feyenoord, o atacante Michiel Kramer substituiu o zagueiro Van der Heijden aos 81'. O Stadionclub passaria os últimos minutos num 3-3-4: era tudo ou nada para evitar mais uma dolorosa decepção num Klassieker. Aos 82', Eric Botteghin tentou - ao dominar na pequena área, ficou sem ângulo para bater, e deu a Elia, que chutou para o corte de Sánchez. As coisas estavam difíceis, a decepção se aproximava. E se o Feyenoord está em apuros, qual a última reserva de confiança? Claro, Dirk Kuyt. Que salvou de novo o Feyenoord: aos 85', Kongolo cruzou da esquerda, Kramer desviou muito levemente, e o capitão cabeceou no canto direito de Onana para deixar o 1 a 1 no placar.

De Kuip ainda viu mais chances. Aos 89', Berghuis cruzou na área, e Kramer ajeitou, mas Sánchez tirou antes que alguém chegasse para finalizar. No último minuto regulamentar, El Ghazi invadiu a área, mas Karsdorp o impediu. E nos acréscimos, aos 90' + 1, Dolberg saiu bem de El Ahmadi, ajeitando com o calcanhar, e correu até a área com a bola, mas Kongolo tirou na exata hora da finalização. E o placar ficou no 1 a 1. Decepcionante? Talvez. Mas o Feyenoord manteve os cinco pontos de vantagem na liderança - e ainda mostrou espírito de luta para buscar o empate ("Mostramos caráter", comemorou Kuyt na tevê holandesa; "Podíamos ter vencido", lamentou Van Bronckhorst). Para o Ajax, ficou a prova da ascensão após o mau começo de temporada - ascensão provada nas atuações ótimas de Ziyech e Dolberg. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Até o PSV, que não tem mais desvantagem tão grande assim...

Heerenveen 3x1 Heracles Almelo (domingo, 23 de outubro)

Tentando se consolidar como o "melhor do resto" deste começo de Campeonato Holandês (tendo o Twente a lhe acompanhar), o Heerenveen avançaria nisso caso vencesse o Heracles. Todavia, os visitantes de Almelo começaram melhor no estádio Abe Lenstra. Aos 12', tiveram grande chance de abrir o placar, quando Brandley Kuwas saiu livre, na cara do goleiro Erwin Mulder. Mas ele finalizou para fora. Sorte do Heerenveen, que se recompôs para abrir o placar aos 19', num bonito chute do lateral direito Stefano Marzo. Ainda assim, estava claro que os Heraclieden eram tecnicamente melhores em campo. E conseguiram o justo empate, aos 40', quando Kuwas recebeu a bola de Thomas Bruns e finalizou no canto.

No segundo tempo, o Fean é que foi o time a buscar primeiro o gol. E assim como o Heracles na etapa inicial, quase marcou: aos 50', Arber Zeneli finalizou à queima-roupa, mas Bram Castro evitou o gol. Só aí é que as coisas diferiram. Porque os donos da casa continuaram pressionando, e conseguiram passar de novo à frente do placar, aos 66', num forte chute de Sam Larsson. Seguros, e com o ambiente favorável, os anfitriões confirmaram a vitória aos 78', numa jogada individual do zagueiro Jeremiah St. Juste. Com a vitória, de novo o time da Frísia ocupa a terceira colocação da Eredivisie, empatado em pontos com o PSV. De fato, agora, o Heerenveen é o "melhor do resto".

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Teste final no Klassieker

A garra do Feyenoord dá confiança à torcida para o clássico contra o Ajax (ANP/Pro Shots)

Nesta quinta-feira, o Feyenoord encarou (e venceu – 1 a 0) o Zorya Luhansk, da Ucrânia, pela terceira rodada da fase de grupos da Liga Europa. Uma competição continental é ótima oportunidade para um clube holandês colocar força máxima, certo? Não para o clube de Roterdã: Dirk Kuyt, capitão da equipe, ficou no banco de reservas. Com isso, ficou relativamente claro: o Stadionclub está com a alça de mira fortemente virada para o domingo. Mais precisamente para o jogo a ser disputado em De Kuip, às 10h30 do horário brasileiro de verão. Afinal, trata-se de mais um encontro contra o arquirrival Ajax, pela 10ª rodada do Campeonato Holandês. Mais um encontro? Talvez não. 

Não bastasse o fato de ser o mais tradicional clássico do futebol holandês, há muito tempo o Feyenoord não chega para o Klassieker (nome pelo qual todo Feyenoord x Ajax é conhecido) numa posição de superioridade como a atual. Nem mesmo em outros bons momentos, vistos na reação que o clube vive desde 2012, há a excitação vista no clube e na torcida. Sabe-se que o jogo do próximo domingo terá um clima de “teste final”, de “primeira fase de vestibular”. Caso vença o rival de Amsterdã - e seria a primeira vitória num Klassieker desde 2012 -, seria a certeza absoluta: sim, o Feyenoord está firme e pronto para quebrar o jejum de 17 anos sem títulos na Eredivisie.

E não tem faltado esforço à equipe de Roterdã nesta temporada para mostrar que pode colocar fim ao tabu e deixar para trás a fama de negar fogo em horas decisivas do Holandês. Para ser justo, o time já merecia mais crédito após a vitória contra o PSV, em pleno Philips Stadion, pela sétima rodada – ou então, após triunfar contra o Manchester United, pela primeira rodada da fase de grupos da Liga Europa. Como já se escreveu aqui, nessas duas partidas, a equipe mostrou um poder de concentração invejável, para evitar qualquer erro mínimo.

Também já foram comentados aqui os destaques que Giovanni van Bronckhorst tem à disposição – e como eles têm crescido nesta temporada. Seja na defesa, com a segurança de Brad Jones (no gol) e Eric Botteghin (na zaga) ou mesmo com a rapidez e os maiores cuidados defensivos de Rick Karsdorp; seja no meio-campo, em que Dirk Kuyt só pode se adiantar ao ataque porque Karim El Ahmadi e Tonny Vilhena são dois azougues, cuidando de marcar e armar jogadas com velocidade; seja no ataque, em que Jens Toornstra capricha nas assistências, fazendo do dinamarquês Nicolai Jorgensen um dos goleadores da Eredivisie (7 gols); enfim, o Feyenoord conseguiu um time coeso como há muito não se via.

Talvez, um elenco coeso como há muito não se via. Que soma isso ao espírito de luta tão admirado pela torcida do Feyenoord para conseguir vitórias mais e mais admiráveis. A última delas, na rodada passada do Holandês. Fora de casa, contra o NEC, uma falha de Brad Jones deu o 1 a 0 aos mandantes, em Nijmegen, ainda no primeiro tempo. E começou uma pressão quase irrespirável dos Rotterdammers para cima do gol: foram 25 chutes a gol, só no primeiro tempo. Na parte final do jogo, Van Bronckhorst ainda colocou Michiel Kramer no ataque, deixando o esquema no 4-2-4. De tanto martelar, veio o prêmio: aos 34 minutos do segundo tempo, Jorgensen empatou. A invencibilidade já estava garantida, mas a variedade de jogadas no ataque rendeu a virada empolgante aos 46 minutos, com Kramer. 

O 2 a 1 manteve os 100 por cento de aproveitamento do Feyenoord, com nove vitórias em nove jogos – nenhum clube, em nenhuma outra liga europeia, mais forte ou mais fraca, faz campanha tão boa. Mais do que isso: se vencer o clássico contra o rival mais acirrado, será igualado o recorde histórico de invencibilidade do clube no Campeonato Holandês (dez vitórias em dez jogos, só em 1967/68). Aí mora um problema: vencer o Ajax. Porque a equipe de Amsterdã está crescendo a olhos vistos.

Ziyech faz no Ajax o que já fazia no Twente: sucesso (ANP/Pro Shots)

É difícil esquecer o vexame contra o Rostov, da Rússia, pelos play-offs da Liga dos Campeões. Mas pede-se ao leitor que faça isso. Porque aquela equipe insegura parece coisa do passado. Após muito tatear, o técnico Peter Bosz enfim encontrou um esquema tático para chamar de seu. Melhor: sob Bosz, o Ajax agora é um time bem mais acelerado e variado taticamente do que o marasmo visto nos últimos tempos de Frank de Boer trabalhando na Amsterdam Arena. Pode até jogar no 4-3-3 velho de guerra, mas no mesmo jogo alterna para o 3-4-3 ou até para o 4-1-4-1.

Nisso colaboram alguns jogadores – boa parte deles, vinda nesta temporada. O principal? Claro, Hakim Ziyech. Cada vez mais, o marroquino prova que não era à toa que a torcida pedia tanto sua contratação: trouxe para os Ajacieden todo o destaque que detinha no Twente. Em oito jogos pelo Ajax, em todas as competições, Ziyech já marcou três gols, e deu seis assistências – na Eredivisie, lidera o quesito de passes para gol, com cinco assistências. Dá para dizer que o marroquino até realça o desempenho de seus colegas de meio-campo, como Davy Klaassen e o redivivo Lasse Schöne. É até estranho que ainda esteja na Eredivisie: tem nível para centros maiores.

A reação do Ajax também desemboca no ataque. Kasper Dolberg é mais um novato que vai ganhando ritmo e acaba agradando: o dinamarquês de 19 anos já marcou quatro gols pelo Campeonato Holandês, e constantemente volta para ajudar o meio-campo nas jogadas. Pelos lados, Amin Younes é cada vez mais insinuante pela esquerda, enquanto Bertrand Traoré já se entrosou com o resto do time. 

Por falar em entrosamento, a defesa mostra um caso curioso: por mais que o badalado Tim Krul já esteja praticamente recuperado da lesão no joelho, pronto para voltar, o camaronês André Onana tem agradado bastante no gol, e não cederá facilmente a posição. Na linha de quatro marcadores, o destaque absoluto é Davinson Sánchez: o zagueiro colombiano pode até avançar, mas não só volta rapidamente, como também sabe desarmar até com carrinhos precisos - já fez isso duas vezes na temporada, contra Utrecht e ADO Den Haag. Sem contar os dois gols que já marcou, ambos na goleada contra o Zwolle. Vale citar também a evolução notável de Daley Sinkgraven, que desbancou Mitchell Dijks na lateral esquerda.

Essa evolução teve um preço para outros jogadores: além de Dijks, Kenny Tete, Riechedly Bazoer e Nemanja Gudelj foram para o banco, e de lá não devem sair tão cedo. Mas o Ajax tem razões para justificar isso: são nove partidas de invencibilidade (seis pelo Holandês, três pela Liga Europa). Nessas partidas, o que se vê é um time agressivo, quase sempre jogando no campo do adversário, com defesa muito adiantada. A torcida tem gostado disso. 

E o Ajax terá o teste final de sua reação exatamente ao enfrentar o arquirrival Feyenoord – que por sua vez, anseia por uma vitória em casa no domingo, para lavar a alma, já que abriria invejáveis oito pontos de vantagem na liderança da Eredivisie. Há muito tempo o futebol holandês não ansiava assim por um Klassieker.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 21 de outubro de 2016)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O sinal amarelo acendeu

Luuk de Jong sai de cabeça baixa. Compreensível: PSV rendeu-se facilmente ao Bayern (psv.nl)

Geralmente, o PSV tem uma reconhecida variação tática. Para o Campeonato Holandês, vai com o 4-3-3 velho de guerra; quando o jogo é pela Liga dos Campeões, Phillip Cocu coloca o time num 5-3-2 mais conservador. Nada mais lógico: afinal de contas, uma coisa é enfrentar os Go Ahead Eagles e Roda JC da vida, outra é encarar Bayern de Munique e Atlético de Madrid. Por isso, talvez, tanta estranheza quando foi anunciada a escalação da equipe de Eindhoven para o jogo contra o Bayern, na quarta passada, pela terceira rodada da fase de grupos da Champions League: afinal, os Eindhovenaren viriam à Allianz Arena num 4-3-3 normal, com Daniel Schwaab formando a zaga junto de Héctor Moreno.

Não deu certo, agora se sabe. E a goleada sofrida para os bávaros (4 a 1) deixou clara a má fase que o PSV vive atualmente: não bastasse deixar claro que é mais plausível pensar apenas em conseguir vaga na Liga Europa, foi a terceira partida sem vitórias. Tudo porque a equipe se enrolou nas duas rodadas mais recentes do Holandês: dois empates por 1 a 1, contra Heerenveen e Heracles Almelo. Com isso, o atual bicampeão nacional já se vê a nove pontos de distância do líder Feyenoord - para quem perdeu em casa, coisa que não acontecia havia muito tempo. Já se pode dizer: há algum tempo tempo o clube alvirrubro de Eindhoven não vivia período tão turbulento.

E a derrota pela Liga dos Campeões foi mostra desse momento turbulento - e de mais uma curiosidade: mesmo com esses problemas, o PSV não tem jogado irremediavelmente mal. Joga apenas com falta de cuidados defensivos. A prova se viu nos primeiros 25 minutos de jogo: por mais que o técnico agora seja Carlo Ancelotti, o Bayern ainda parecia nos tempos de Josep Guardiola, tal a volúpia ofensiva com que aproveitou os espaços deixados pela equipe holandesa. Principalmente na lateral direita: Joshua Brenet pavimentou uma avenida pela qual David Alaba jogou à vontade.

Se fosse só com o lateral/meio-campista austríaco, quem sabe a defesa pudesse ter dado algum jeito. Não deu, porque Arjen Robben, enfim recuperado, voltou a ser o que se sabe que ele é: o único jogador holandês da atualidade capaz de ser considerado entre os melhores do  mundo. E porque Robert Lewandowski e Thomas Müller aproveitaram (ou pelo menos tentaram) as chances que apareceram, com os espaços que Schwaab, Moreno e Jetro Willems deixaram na defesa. Com 20 minutos do primeiro tempo, o placar estava em 2 a 0 para os mandantes na Allianz Arena. 13 chances dos bávaros, nenhuma do PSV, acuado que estava na sua área de defesa. Era o caso de dizer que cabia mais.

Aí veio a surpresa. Quando começou a jogar nos vazios defensivos que o Bayern abre - e abre deliberadamente, porque correr riscos faz parte do estilo de jogo ofensivo -, o PSV mostrou algum talento. Principalmente pelas pontas: se Luuk de Jong ficou apagado no meio da área, se o irmão Siem de Jong foi ainda mais apagado na armação das jogadas, coube a Gastón Pereiro e Luciano Narsingh procurarem algo. Assim o PSV melhorou no final do primeiro tempo, assim veio o gol de Narsingh (aos 40'), assim Luuk de Jong recebeu bola para grande chance de empatar aos 48', assim Pereiro também teve possibilidade de igualar o placar aos 52'.

Ainda assim, tal melhora pareceu muito mais permitida pelo Bayern do que algo que realmente ameaçasse a vitória do campeão alemão. Tanto que bastou uma ótima jogada de Robben (desnecessário dizer como era a jogada...) para Lewandowski fazer 3 a 1. Aí, como bem comentou Cocu após o jogo, "foi o tiro de misericórdia". Sem contar que Jeroen Zoet continuava sendo exigido, fazendo pelo menos três ótimas defesas na etapa complementar. Era tarde para os Eindhovenaren sonharem, e ficou mais tarde ainda quando Robben consumou a goleada - aplaudido pela torcida do PSV que defendeu entre 2002 e 2004, o camisa 10 dos bávaros comentou a relação com o antigo empregador: "Se jogarei de novo [pelo PSV]? Não sei. Não iria tão longe. Estou ocupado com o Bayern. Depois desta temporada, meu contrato acaba. Mas minha relação com o Bayern é boa. Não estou preocupado com o futuro ou com um novo contrato, só em continuar em forma. (...) Também sinto algo pelo PSV, conheço muita gente lá".

Não deveria ter impressionado a irregularidade da defesa do PSV: afinal, foi justamente num erro de Siem de Jong, na saída de bola, que o Heracles Almelo conseguiu o gol de empate no 1 a 1 da 9ª rodada. Nem mesmo a boa atuação do ascendente Pereiro: fez o gol do clube, na partida pelo Holandês. Nem a inferioridade diante do Bayern: Joshua Brenet comentou impressionado à revista Voetbal International que "[o Bayern] foi o melhor time contra o qual já joguei". Não deveria impressionar nem mesmo a dura derrota sofrida pelo PSV: afinal, o sinal de alerta já está aceso há algum tempo em De Herdgang, com apenas três vitórias nos últimos dez jogos. Se antes o Bayern estava precisando reagir, agora a pressão passou a pairar sobre Eindhoven. Pelo menos, ainda há chance de ficar para a Liga Europa...

domingo, 16 de outubro de 2016

810 minuten: como foi a 9ª rodada da Eredivisie

A estrela do Feyenoord já estava brilhando - e o gol de Kramer nos acréscimos contra o NEC só aumentou a intensidade do brilho (ANP/Pro Shots)

Utrecht 3x0 Go Ahead Eagles (sábado, 15 de outubro)

Tentando ganhar pontos para deixar a região baixa da tabela, os Utregs tiveram um sério alerta no início do primeiro tempo. Mesmo jogando fora de casa, o Go Ahead Eagles foi superior, e teve chances de abrir o placar. Leon de Kogel chutou, forçando o goleiro Robbin Ruiter a fazer grande defesa; depois, o meio-campo Marcel Ritzmaier mandou a bola na rede pelo lado de fora; finalmente, Sander Duits teve a grande chance, aos 21', mas chutou da pequena área para fora. Sorte do Utrecht.

Enquanto os visitantes de Deventer perderam as oportunidades, os mandantes aproveitaram a primeira que tiveram para fazer 1 a 0: aos 41', Sébastien Haller aproveitou, o goleiro Theo Zwarthoed rebateu, e o lateral direito Giovanni Troupée foi esperto para pegar a sobra e abrir o placar. Depois do intervalo, aos 53', o volante Rico Strieder tranquilizou de vez o Utrecht: Richairo Zivkovic mandou a bola na trave em voleio, e Strieder estava a postos para pegar o rebote, marcando 2 a 0. Se se frustrara primeiro, Zivkovic teve a compensação aos 65': em jogada individual, recebeu de Haller, passou por dois e fez o gol que garantiu a segunda vitória da equipe no Campeonato Holandês.


Num jogo histórico, do estádio centenário ao uniforme antigo, o Sparta correu atrás do empate (Carla Vos/sparta-rotterdam.nl)

Sparta Rotterdam 2x2 Willem II (sábado, 15 de outubro)

Era dia de festa em Roterdã: Het Kasteel, o estádio do Sparta, completava cem anos de sua abertura. Na comemoração, o clube da casa entrou em campo usando um uniforme como os de antigamente: de algodão, mais largo, sem patrocínio nem distintivo. A torcida até brincou com as lembranças, em uma faixa: "Usando algodão, nosso time foi campeão". Tudo simpático, mas obviamente, o que importava era o resultado. E aí, por boa parte do jogo, só o Willem II teve razões para comemorar. Nenhuma das equipes criou muito no primeiro tempo, mas os Tricolores pelo menos deixaram uma bola na rede: aos 42', o meio-campo Jordy Croux (que já mandara um arremate na trave) passou a Fran Sol, e o espanhol ficou livre para fazer 1 a 0.

Aos 65', em jogada muito parecida, veio o segundo gol dos visitantes de Tilburg: Asumah Abubakar fez todo o trabalho, deixando Fran Sol em condições para marcar seu segundo gol na partida. Haveria decepção da torcida no centenário de Het Kasteel? Craig Goodwin começou a dizer não: aos 69', doze minutos após entrar em campo, o meio-campo australiano conseguiu desviar forte chute de Finn Stokkers para diminuir a desvantagem. A pressão dos Spartanen aumentou, e aos 90', Thomas Verhaar deu o empate com gosto de vitória à equipe alvirrubra listrada. No castelo do Sparta, manda ele (bem, quase...).

PSV parou em Bram Castro, goleiro do Heracles. E lamenta o empate e o distanciamento dos líderes (ANP/Pro Shots)

PSV 1x1 Heracles Almelo (sábado, 15 de outubro)

Tropeço contra o Heerenveen pelo Campeonato Holandês, sem contar o anterior empate contra o Rostov-RUS, pela Liga dos Campeões. Duas semanas depois, era inegável que o PSV devia alguma melhora à sua torcida, recebendo um enfraquecido Heracles Almelo. Foi exatamente o que o time de Eindhoven tentou fazer. Já a partir dos três minutos de jogo, por sinal: em chute na grande área, Davy Pröpper exigiu excelente defesa do goleiro Bram Castro, com os pés. Não demorou muito e veio mais uma chance: aos 13', Jetro Willems passou a Bergwijn, que bateu curvado. A bola passou ao lado do gol.

Depois, duas oportunidades quase seguidas. Aos 16', a mais incrível: Gastón Pereiro cruzou da direita, e Luuk de Jong cabeceou para defesa de Castro, com a bola ainda batendo na trave. Dois minutos depois, Steven Bergwijn bateu para fora. A partir daí, o jogo se tornou perigoso: com o Heracles fechando mais a área, restava aos Boeren trocarem passes infrutíferos. Todavia, os Heraclieden foram avançando aos poucos a marcação, esperando um erro dos mandantes. E ele veio, aos 39': Siem de Jong bobeou perto da área e perdeu a bola para Thomas Bruns. Este deu a Samuel Armenteros, na área, e o atacante sueco tocou na saída de Jeroen Zoet, para as redes. Na primeira chance de gol que tinha, o Heracles fazia 1 a 0.

Só não ficou melhor para os visitantes porque, já aos 41, veio o empate: Joshua Brenet cobrou o escanteio, Luuk de Jong cabeceou, Castro foi buscar a bola no canto direito, mas o rebote ficou com Pereiro: na pequena área, ele só precisou de um leve toque para o 1 a 1. Voltou a pressão ofensiva do PSV - a ponto de haver fortes reclamações quando o juiz Bas Nijhuis apitou o fim do primeiro tempo num ataque dos mandantes. Ainda assim, no segundo tempo o PSV teve pouco a comemorar. Por causa de Bram Castro: ele estava no caminho de um chute de Bergwijn aos 64', agarrou uma cabeçada fortíssima de Luuk de Jong aos 77', espalmou perigosa bola vinda de Oleksandr Zinchenko aos 85'. E o PSV teve de amargar seu terceiro tropeço seguido em casa na Eredivisie (já tivera o empate com o Groningen e a derrota para o Feyenoord), perdendo a terceira posição para o Heerenveen. Bem, pelo menos não houve pênalti perdido...

De novo, o Vitesse contou com a bola parada de Lewis Baker. Só não contava que o AZ usaria do mesmo ardil... (ANP/Pro Shots)
AZ 2x2 Vitesse (sábado, 15 de outubro)

O meio-campo inglês Lewis Baker já causara furor com suas cobranças de falta na rodada passada: de duas delas, saiu a virada do Vitesse para cima do Groningen. E novamente Baker brilhou com a bola parada no sábado. Aos 23', abriu o placar para o Vites desta maneira: após falta de Rens van Eijden em Adnane Tighadouini, o volante britânico cobrou com perfeição, mandando a bola sobre a barreira, no ângulo do goleiro Sergio Rochet. O quarto gol de falta de Baker desde o seu primeiro empréstimo junto ao Chelsea. Deu toda razão aos elogios rasgados do técnico Henk Fräser: "Ele pode de tudo, seja com a direita ou com a esquerda, não faz diferença".

No segundo tempo, um erro do atacante Wout Weghorst pareceu definir a parada a favor dos visitantes de Arnhem. Aos 58', em jogada aérea, Weghorst empurrou Ricky van Wolfswinkel na área: pênalti, que o próprio Van Wolfswinkel converteu. Restou ao técnico John van den Brom arriscar, colocando o atacante Robert Mühren em campo, aos 60'. Demorou, mas deu certo. Aos 78', de cabeça, Mühren diminuiu para o AZ, após cruzamento de Ben Rienstra rebatido pelo arqueiro adversário. E aos 87', veio o empate, do próprio Mühren. Graças a uma... cobrança de falta. Quem com ferro fere...

Groningen 0x3 Heerenveen (sábado, 15 de outubro)

Pense num time que preferia apagar a nona rodada da Eredivisie de sua história. Pensou no Groningen. Nem parecia estar jogando na sua casa, o Noordlease Stadion: desde o começo da partida, os visitantes da Frísia foram bem superiores no "Dérbi do Norte". Já aos sete minutos, Pelle van Amersfoort fez a jogada pelo lado, e deixou Arber Zeneli com toda condição para marcar pela segunda rodada seguida, deixando o 1 a 0 no placar. Depois, Oussama Idrissi e Danny Hoesen tiveram chances de empate, mas o goleiro Erwin Mulder (boa temporada) manteve a vantagem do Heerenveen. Aí, aos 36', mais um sinal do péssimo dia que o Groningen teria: em rápida briga com Zeneli, o lateral esquerdo Jason Davidson deu-lhe um safanão, o juiz Richard Liesveld viu, e não teve jeito: vermelho para Davidson.

Com um homem a mais, o Heerenveen ficou tranquilo. Tão tranquilo que perdeu chances, e demorou mais do que precisava para encaminhar a vitória no segundo tempo: só aos 73' veio o segundo gol, com Sam Larsson, após passe de Jeremiah St. Juste. Pouco depois, aos 76', mais uma perda na zaga dos Groningers por cartão vermelho: o zagueiro Samir Memisevic, após levar o segundo cartão amarelo. O desastre foi tão feio que se viu até torcedor entrando em campo para protestar. Como desgraça pouca é bobagem, ainda deu para Reza "Gucci" Ghoochannejhad fazer 3 a 0 aos 83', confirmando a vitória que levou o Heerenveen à terceira posição da Eredivisie. Enquanto os frísios seguem subindo regularmente, restou ao Groningen, antepenúltimo colocado, lamentar o vexaminoso dia, via diretor geral, Hans Nijland, à FOX Sports holandesa: "Foi um dia terrível. E não só pela derrota, mas pelo comportamento no estádio".

Twente 2x2 Zwolle (domingo, 16 de outubro)

Parecia um mau dia para o Zwolle. A começar antes mesmo do jogo: no aquecimento, Dirk Marcellis sentiu dores, e o reserva Philippe Sandler precisou entrar às pressas na zaga. Piorou com o primeiro tempo: veloz, o Twente abriu o placar aos 13', num pênalti cometido pelo próprio Sandler, ao empurrar Kamohelo Mokotjo - o volante Mateusz Klich converteu para deixar os Tukkers na frente. Depois, aos 26', outra lesão forçou o técnico Ron Jans a alterar o time dos Zwollenaren pela primeira vez: o volante Wout Brama deu lugar a Django Warmerdam. De repente, porém, a maré virou: imediatamente após suposto pênalti do zagueiro Ted van de Pavert (mão na bola) não marcado pelo juiz Dennis Higler, veio o empate dos "Dedos Azuis", aos 40', em bonita jogada de Younes Mokhtar: passou por Peet Bijen e Stefan Thesker, e bateu colocado no ângulo oposto para o 1 a 1.

O que não quer dizer que os mandantes se abateram em Enschede. O Twente continuou criando mais jogadas ofensivas durante o segundo tempo. E o gol que recolocou a equipe vermelha na frente tinha mais é de vir como veio, com os dois destaques da temporada: Bersant Celina lançou a bola do meio-campo, e Enes Ünal dominou para finalizar com competência, garantindo seu sétimo gol no Campeonato Holandês e o posto de goleador. Enfim, o Zwolle se rendeu? Nada disso: coube justamente a Warmerdam o gol do empate final, aos 84', em forte chute de fora da área. Ninguém ganhou, mas o 2 a 2 também não foi muito lamentado. Ao Zwolle, lanterna, pelo menos há a igualdade de pontos com o antepenúltimo (Groningen) e penúltimo (Roda JC) lugares. Ao Twente? Bem, para um time que ficou na Eredivisie como ficou, estar em sétimo lugar já significa algo.

Excelsior 0x1 Roda JC (domingo, 16 de outubro)

Já tinha sido com o Groningen. Mais recentemente, com o Utrecht e Zwolle. Finalmente, nesta rodada, chegou a vez do Roda JC comemorar sua primeira vitória na temporada. O mais curioso é que os Koempels deram a impressão de que seria outro domingo de sofrimento, porque o Excelsior é que começou melhor. Em casa, os Kralingers criaram mais chances - as melhores delas, com Mike van Duinen (que até jogou pelo Roda, na temporada passada) e Luigi Bruins, que estava livre após contragolpe mas chutou para fora.

Com tantas chances perdidas, aos poucos o Excelsior foi apresentando alguma fraqueza. Nessa hora o Roda JC apareceu. E antes que se arrependesse, tratou de marcar o gol da vitória: aos 56', após 596 minutos sem balançar as redes, David Boysen colocou os Koempels na frente para não mais saírem - e para deixarem a lanterna da Eredivisie com o Zwolle, pelo critério de saldo de gols. Ainda há muito a melhorar, verdade. Mas pelo menos o novo conselheiro técnico, Sef Vergoossen, poderá trabalhar com mais paz a parceria com o treinador Yannis Anastasiou, com pressão um pouco menor. Bem pouco.

NEC 1x2 Feyenoord (domingo, 16 de outubro)

Mais uma rodada, mais uma chance do Feyenoord para manter seus 100% de aproveitamento. A julgar pelo modo como o Stadionclub começou a partida em Nijmegen, isso era bem provável: a pressão começou cedo. Já aos 7', após escanteio, Dirk Kuyt escorou, e Nicolai Jorgensen completou na segunda trave, desviando a bola para fora. O domínio dos Rotterdammers tentava se fazer mostrar na posse de bola, mas o inesperado fez uma surpresa, aos 12'. O atacante Mohamed Rayhi recebeu a bola de Julian von Haacke ainda no campo de defesa, foi avançando, avançando... e arriscou um chute de longe. Rasteiro, até fraco. Mas Brad Jones falhou: o goleiro do Feyenoord permitiu que a bola passasse por baixo de seus braços. O NEC fazia 1 a 0, e a torcida delirava.

Com a surpreendente desvantagem, o jogo ficou bastante animado. O NEC quase ampliou aos 25, quando Mikael Dyrestam cruzou da direita, e a bola passou na frente de todos os atacantes, saindo direto. Por outro lado, o Feyenoord respondeu aos 32: entrando na área, Jens Toornstra chutou de bate-pronto, e quase fez. Depois, aos 40', após falta cobrada e cabeceio de Rick Karsdorp, Eric Botteghin disputou bola aérea com o goleiro Joris Delle, derrubando-o - Delle ainda se chocou com a trave. Sem contar a pressão de Bilal Basaçikoglu, aparecendo mais pela direita, sempre tentando a jogada individual - ou mesmo o cruzamento. Por outro lado, Rayhi quase voltou a deixar a bola na casinha adversária aos 42', em outro chute perigoso - desta vez Jones estava atento.

Tendo muita posse de bola (60% no primeiro tempo), faltava ao Feyenoord criar mais chances: somente um chute a gol fora dado pelo Stadionclub nos primeiros 45 minutos. Assim, os visitantes tiveram bem mais a posse de bola na etapa final - até porque o NEC permitia isso, ficando na defesa. Mas chance que era boa, nada. Ao contrário: os Nijmegenaren é que quase marcaram, aos 61', em duas jogadas seguidas: Gregor Breinburg cobrou falta que desviou na barreira e foi para fora, e depois Rayhi arrematou de voleio, mandando a bola perto do gol.

Steven Berghuis e Michiel Kramer saíram do banco, e a pressão do Feyenoord ficava mais forte - e desesperada. Principalmente com as chances perdidas. Aos 71', Jorgensen bateu rasteiro, para fora, rente à trave; aos 76', de novo o atacante dinamarquês dominou e chutou, para Delle rebater junto do poste. Aos 79', foi a vez de Dirk Kuyt tentar, cabeceando a bola fracamente, pela linha de fundo. Finalmente,  no minuto seguinte, veio o gol de empate tão buscado. E veio como tinha de ser: suado. Berghuis bateu cruzado, a bola foi na trave, Kuyt tentou o rebote na outra trave, Delle ainda desviou, e enfim Jorgensen fez na pequena área.

Mesmo com a entrada de Quincy Owusu-Abeyie no ataque do NEC, o Feyenoord não desistiu. Continuou prensando os donos da casa na sua própria área de defesa. Até estava satisfeito com o empate, sem criar grandes chances. Mas se saísse algum gol, ninguém acharia ruim, obviamente. Pois saiu: já nos acréscimos (91'), em bola jogada por cima, Jorgensen escapou da marcação pela esquerda da grande área, dominou e finalizou cruzado. A bola foi na trave, e no rebote Kramer já estava na pequena área para conferir a virada emocionante que mantém o Feyenoord 100% na Eredivisie.

Se precisava de um triunfo para provar que tem espírito de luta, o Stadionclub conseguiu. E se precisava de mais ânimo ainda para o Klassieker contra o Ajax, no próximo domingo, também ganhou. Até agora, a torcida não podia pedir nada melhor.

Numa jogada que enganou toda a defesa do ADO Den Haag, Klaassen tranquilizou o Ajax abrindo o placar (ANP/Pro Shots)

ADO Den Haag 0x2 Ajax (domingo, 16 de outubro)  

Após a vitória dramática do Feyenoord, restava ao Ajax uma tarefa "simples" (bote aspas nisso): vencer o ADO Den Haag, para seguir acompanhando o arquirrival a par e passo, ocupando a vice-liderança da Eredivisie. O começo foi preocupante: no primeiro lance do jogo, Ruben Schaken apareceu rápido pela direita, cruzou, e Mike Havenaar tentou dois chutes, parando na defesa Ajacied. Pelo menos, foi alarme falso: o Den Haag não foi tão ofensivo assim como se insinuou no começo. E as duas equipes desaceleraram o ritmo do jogo, tornando-o até chato.

O Ajax aproveitou para ganhar a posse de bola e, cada vez mais, impor seu estilo renovado, tentando subir as linhas de marcação e prensando o adversário em seu próprio campo. Quase deu certo aos 16': Davy Klaassen tocou para Bertrand Traoré, que vinha pela direita. O burquinês entrou na área, tocou, o goleiro Ernestas Setkus defendeu, e no rebote Traoré completou para as redes. Gol... anulado (Traoré estava impedido).

Sem problemas: aos 20', o Ajax abriu o placar para valer, numa jogada perfeitamente ensaiada. Klaassen cobrou lateral direto para Lasse Schöne, que devolveu de primeira. Entrando na área sem marcação pela esquerda, Klaassen apenas dominou e tocou na saída de Setkus. O 1 a 0 podia ter virado 2 a 0 já no minuto seguinte, quando Kasper Dolberg mandou bola no travessão. E mesmo quando correu o risco do empate, o Ajax viu nova participação excelente de um jogador em ascensão: Sheraldo Becker dominou a bola pela esquerda e entrou sozinho até a grande área, mas Davinson Sánchez deu outro carrinho preciso, mandando a bola pela linha de fundo.

Depois, o Den Haag só tentou mais uma vez em Haia, aos 40': Becker lançou da esquerda, e Havenaar ajeitou de cabeça para Ruben Schaken. Só que o atacante bateu fraco, para defesa de André Onana. Já no Segundo tempo, o Ajax resolveu seus problemas rápido: aos 52', Amin Younes fez jogada pela esquerda, e deixou Traoré livre para dominar a bola e finalizar com calma, no canto de Setkus. Um 2 a 0 que não correria mais riscos, tranquilizando os Ajacieden na segunda posição da Eredivisie. E motivando-os para encurtar a diferença contra o Feyenoord, no esperado Klassieker da próxima rodada.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O buraco é mais embaixo

Karsdorp até foi elogiável contra a França. Mas sua geração precisa explodir na Oranje (Soenar Chamid/VI Images)
 
Já se sabe de cor e salteado o tamanho do vexame que a seleção da Holanda protagonizou, ficando fora da Euro 2016. Está sendo tão marcante, no pior dos sentidos, que cada simples tropeço já é suficiente para aumentar a desconfiança de que a Laranja também ficará ausente da Copa de 2018. Foi o que se viu após a derrota para a França, em Amsterdã, na segunda passada. A impressão de desalento que tomou conta das pessoas após o 1 a 0 dos Bleus deve-se, principalmente, a dois fatores.

O único veterano destacado na convocação de Danny Blind era Wesley Sneijder – e ele foi cortado logo após o 4 a 1 sobre Belarus, na semana passada, pela lesão na coxa que sofrera no fim de semana retrasado, defendendo o Galatasaray no Campeonato Turco. Resultado: uma equipe que se alternava entre caras mais conhecidas (Maarten Stekelenburg, Daley Blind, Kevin Strootman) e gente que ainda procura entrar na Oranje para não mais sair (Virgil van Dijk, Davy Klaassen, Davy Pröpper, Quincy Promes, Vincent Janssen – e Rick Karsdorp, a surpresa que mais agradou).

Aí entra o primeiro fator: nenhum deles, com nível técnico bom o suficiente para impressionar os espectadores. Nem para contrabalançar a imposição francesa em campo. Não que os visitantes tenham jogado bem na Amsterdam Arena – ao contrário, até decepcionaram, e destaques habituais como Dimitri Payet e Antoine Griezmann foram apagados. Ainda assim, tiveram clara superioridade em campo.

E grande parte dessa superioridade francesa ocorreu pela crônica incapacidade da seleção holandesa em mostrar alguma compactação, alguma organização tática em campo. Repita-se o que já foi escrito aqui: o problema não é o 4-3-3, esquema usado com sucesso aqui e ali em alguns times, mas a dificuldade do time laranja em manter os jogadores alinhados – e em aproximar as linhas de meio-campo, defesa e ataque. Por isso, a tendência sempre era tentar atacar pelas pontas, com as constantes aparições de Karsdorp, pela direita, e Memphis Depay (substituto do lesionado Promes), pela esquerda. Como se pode prever, bastou a França compreender isso para repelir facilmente as ofensivas da Oranje.

Por outro lado, com atuações apagadas dos meio-campistas e o próprio espaçamento holandês no setor, a bola sempre ficava com um francês no meio: fosse com Pogba, fosse com Payet, fosse até nos desarmes de Moussa Sissoko, sobrava espaço para lançamentos em profundidade ou chutes de fora (como o de Pogba que foi para as redes). A aridez da Holanda na criação de jogadas era tamanha que, a certa altura do segundo tempo, Virgil van Dijk teve de sair para o jogo desde o miolo de zaga…
Enfim, está constatado que a seleção holandesa é desorganizada taticamente, na atualidade. E que a geração atual para vestir a camiseta laranja é, no máximo, mediana. O que é muito preocupante, porque a Holanda só se sustenta como a “melhor do resto”, entre as seleções que não são campeãs mundiais, por causa da sua contínua revelação de talentos. Nem Portugal, nem Inglaterra, nem Dinamarca, nem Rússia, nem Bélgica tiveram tanto êxito histórico na formação de jogadores – e no desenvolvimento de um estilo tático reconhecível e característico de um país. Por isso, e só por isso, é que a Holanda é respeitada. Por mais que não ombreie com a tradição de Alemanha, Brasil, Itália e Argentina, é uma seleção média com responsabilidades de seleção grande.

Abdelhak Nouri destacou-se na seleção holandesa sub-17. Nada que impressionasse, porém (Pro Shots)

E um dado adicional só torna as coisas mais preocupantes. Aí entra outro fator de desalento: a queda cada vez maior da Holanda na base. Pela segunda vez consecutiva, a seleção holandesa sub-21 ficará ausente do Europeu da categoria, no ano que vem, na Polônia. A Jong Oranje (“Laranja Jovem”) até ganhou na rodada final – 4 a 1, no Chipre -, terminando em segundo lugar na sua chave. Mas ficou abaixo dos quatro melhores vices dos grupos das eliminatórias, que disputarão duas vagas na Euro sub-21. Mais um sinal de que, não bastasse a dificuldade da nova geração em decolar, os vindouros tampouco parecem prontos para explodir. Sem contar as equipes sub-19 e sub-17, que até disputaram os Europeus, mas foram facilmente superadas por países em que a transição e a revelação é melhor feita (no sub-19, França; no sub-17, Portugal). Até há promessas, como os atacantes Steven Bergwijn, Tahith Chong e Abdelhak Nouri, mas nada que faça a Europa inteira ficar de olho neles.

Pior: nesta década, a Holanda só participou de uma Euro sub-21 (2013, quando chegou às semifinais). E a geração que era sub-21 há três anos é… justamente a que peleja agora na seleção adulta. Jeroen Zoet, Stefan de Vrij, Daley Blind, Kevin Strootman, Jordy Clasie, Georginio Wijnaldum, Tonny Vilhena, Luuk de Jong, Memphis Depay; todos eles estavam no grupo de 2013, todos eles foram convocados por Danny Blind para esta rodada recém-encerrada das eliminatórias.

Então o time holandês certamente verá a Copa de 2018 pela tevê, ausente de Euro e Mundial em sequência pela primeira vez desde 1984-1986? Devagar com o andor. Por pior que seja, a Oranje parece ter compreendido algo que não compreendera nas eliminatórias da Euro (e que foi uma das razões do fracasso): é uma equipe de menos qualidade técnica. Não pode jogar o que não sabe. Mas também não perdeu completamente o jeito. Se isso significa assumir inferioridade perante a França em casa, também significa se impor contra adversários menos qualificados – como se viu nos 4 a 1 contra Belarus. E os próximos compromissos das eliminatórias são bem acessíveis: Luxemburgo (13 de novembro, fora de casa) e Bulgária (25 de março, em casa).

A Holanda pode vencer ambas as partidas – e com um França x Suécia no meio, voltar a ocupar a segunda posição no grupo A das eliminatórias europeias para a Copa. Pelo menos para isso, tem capacidade. Para sonhar igualar a curto prazo as boas campanhas nos últimos Mundiais é que ficou difícil. E a culpa não é só de quem joga na Laranja principal. O buraco é mais embaixo, na base da pirâmide.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 14 de outubro de 2016)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

É isso aí

Strootman lamenta após fim do jogo: Holanda se esforçou? Sim. E não pode fazer mais do que faz (ANP/Pro Shots)

Quando terminou o jogo desta segunda-feira, na Amsterdam Arena, era unânime: os dois melhores jogadores da seleção da Holanda haviam sido Rick Karsdorp, um lateral direito, e Memphis Depay, um ponta esquerda. Se isso mostra alguma coisa boa, mostra muito mais um defeito que a Oranje tem atualmente: a incapacidade de encontrar outro caminho de jogo que não seja pelos lados, trocando passes infrutíferos e criando apenas chances esporádicas de gol. Esporádicas até demais, aliás.

Sorte da França: tendo espaço de sobra para jogar no meio-campo, os Bleus nem precisaram brilhar para vencerem por 1 a 0, na terceira rodada das eliminatórias para a Copa de 2018. Por mais que a atuação francesa, de certa forma, também tenha decepcionado (para citar apenas dois nomes, Antoine Griezmann e Dimitri Payet decepcionaram em Amsterdã), a atuação segura serviu para provar que a Laranja está alguns degraus abaixo das principais seleções europeias - se é que alguém duvidava disso, ainda, após a ausência na Euro 2016.

A prova disso tudo começou desde o primeiro minuto de jogo, a bem da verdade. Porque a Holanda segue como um exemplo do que não se deve fazer, taticamente, dentro de um campo de futebol. Simplesmente não há a chamada "compactação", a proximidade entre as linhas de defesa, meio-campo e ataque - bem, sequer há unidade dentro das próprias linhas. Basta dizer que, não raramente, defensores saem à toa com a bola dominada para armarem o jogo da Oranje - como Virgil van Dijk fez, numa ocasião, já no segundo tempo.

Ataque? Só pelos lados. Tanto nos avanços (mais raros) de Daley Blind pela esquerda, quanto pela ousadia do já citado Karsdorp, constante opção de ataque pela direita. Até incrível ver o tanto que o camisa 2 apareceu para tabelas e triangulações, quando sabe-se que ele jogou no sacrifício. Após a partida, o lateral confessou: "Eu não consigo levantar meu ombro. Estou cheio de analgésicos, provavelmente um osso está quebrado", referindo-se à escápula.

No meio da área, Vincent Janssen fazia o de sempre: corria, também aparecia para fazer as jogadas, arriscava finalizações (como no primeiro minuto do segundo tempo, quando usou o corpo para se livrar de Raphaël Varane e chutar na rede pelo lado de fora), enfim, se esforçava. E Memphis Depay substituiu bem o lesionado Quincy Promes: tentou criar jogadas, trouxe algum perigo com a bola nos pés, quase empatou o jogo aos 88'. Quem sabe tenha dado algum ânimo a Memphis, em sérias dificuldades no Manchester United. Tudo isso, sem contar o pênalti (involuntário, mas existente) de Laurent Koscielny, aos 35', colocando as mãos na bola ao escorregar após chute de Janssen - que não perdeu a chance de lamentar a terceira polêmica de arbitragem da Oranje nas eliminatórias: "Três jogos e três falhas dos árbitros", lembrando o gol anulado de Bas Dost contra a Suécia e o impedimento que anulou um tento de Van Dijk contra Belarus.

Mas de nada adianta um ataque com relativo perigo, ajudado pelas laterais, se o meio-campo fica apagado. E foi o que se viu na Laranja: Georginio Wijnaldum foi apagado antes da lesão que o tirou de campo, Davy Pröpper não aproveitou a chance que teve para substituir Wesley Sneijder, e Kevin Strootman pode até ter qualidade na saída de bola, mas tem sido excessivamente lento nos passes e na recomposição defensiva. Mesmo podendo armar jogadas, Davy Klaassen também não fez coisa que valesse. Tal lentidão força Virgil van Dijk e Jeffrey Bruma a adiantarem, sozinhos, a linha de marcação. Tudo isso, feito espaçadamente.

Sabendo aproveitar os grandes espaços que tinha, a França criou várias chances no primeiro tempo. Justamente no meio-campo residia sua força: a volúpia de Moussa Sissoko nos desarmes, a superioridade de Paul Pogba na criação... não impressionam as várias vezes que os atacantes foram colocados na cara do gol de Maarten Stekelenburg. Como aos 13', quando Kévin Gameiro (bem no jogo) arriscou de fora da área, exigindo ótima defesa do goleiro holandês. Ou no segundo tempo, precisamente aos 55', quando um passe em profundidade colocou de novo Gameiro às portas do gol - Stekelenburg defendeu, e Griezmann mandou a bola sobrada por cima.

Finalmente, foi por esse espaço que Pogba sentiu-se à vontade para arriscar o chute que mandou a bola nas redes, aos 30', definindo o jogo. E contando com a inegável falha de Stekelenburg: surpreendido na distância, o goleiro não conseguiu voltar a tempo, apenas desviando fracamente a bola, sem evitar que ela balançasse as redes. O próprio reconheceu, à NOS, emissora holandesa: "O chute era difícil, mas era defensável. Precisava ter agarrado e não agarrei. Falhei, pronto". Nem mesmo Danny Blind aliviou: "Maarten podia ter pego, ele sabe disso. Nos treinos, defende uma dessas sem dificuldades".

Novamente derrotada por um jogo de eliminatórias de Copa (não perdia há 15 anos - precisamente, desde 1º de setembro de 2001, com o 1 a 0 da Irlanda em Dublin que praticamente definiu a ausência holandesa na Copa de 2002), a Laranja sabe que se não dá para ganhar dos franceses, dá para melhorar, como espera Van Dijk: "Jogamos bem, mas saímos de mãos vazias. É muito chato, mas há perspectivas nesse time". Strootman foi até mais prático à NOS: "Queremos nos classificar. Como isso vai acontecer, não me interessa, mas precisamos nos classificar". 

Para isso, a Holanda precisa vencer os jogos acessíveis. Três deles, em sequência: em novembro, contra Luxemburgo, e os dois seguintes, contra a Bulgária. Por pior que o time seja, é possível. Mas não dá para exigir muito mais do que se tem visto dessa geração em campo. A Oranje é isso aí.

Ficha do jogo

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 0x1 França
Data: 10 de outubro de 2016
Local: Amsterdam Arena, em Amsterdã
Juiz: Damir Skomina (ESN)
Gol: Paul Pogba, aos 30' 

Holanda
Maarten Stekelenburg; Rick Karsdorp, Jeffrey Bruma, Virgil van Dijk e Daley Blind;
 Davy Pröpper (Jetro Willems, aos 84'), Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum (Bas Dost, aos 62'); Quincy Promes (Memphis Depay, aos 16'), Vincent Janssen e Davy Klaassen. Técnico: Danny Blind

França
Hugo Lloris; Djibril Sidibé, Laurent Koscielny, Raphaël Varane e Layvin Kurzawa; Paul Pogba, Blaise Matuidi, Moussa Sissoko e Dimitri Payet (Anthony Martial, aos 67'); Antoine Griezmann (N'Golo Kanté, aos 90'); Kévin Gameiro (André-Pierre Gignac, aos 79'). Técnico: Didier Deschamps

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Um respiro

Goleada sobre Belarus fez Oranje respirar (Pim Ras)
Pressão de todos os lados. Pressão pela falta de Arjen Robben, que mostra talento e liderança sempre que as contusões dão uma trégua; pressão sobre o técnico Danny Blind, que precisa mostrar ter aprendido a lição após "terminar" o fracasso nas eliminatórias da Euro; pressão sobre os jogadores, que têm de provar que esta nova geração holandesa pode ser, pelo menos, razoável; pressão, pressão, pressão. A seleção holandesa tem vários olhos negativos - no mínimo, desconfiados - sobre ela atualmente, e cada jogo é uma tentativa de recuperar um pouco do crédito. Pelo menos nesta sexta, conseguiu: se impôs, e conseguiu fazer 4 a 1 em Belarus sem muitas dificuldades, pela segunda rodada das eliminatórias da Copa de 2018.

A atuação da Laranja em Roterdã tornou a vitória fácil porque foi, surpreendentemente, mais calma do que se viu na estreia pelas eliminatórias, contra a Suécia. Ao invés de atacar desde o começo como fez em Solna, com inversões rápidas de jogo e lançamentos longos, a equipe trabalhou na manutenção da posse de bola. Desacelerou o ritmo, com recuos de bola para a defesa e mais toques no meio-campo - aí entraram a capacidade que Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum têm para ditarem o andamento de uma partida. Isso até poupou trabalho de Wesley Sneijder, discreto na criação de jogadas, talvez por causa da lesão muscular que novamente sentiu, precisando sair no intervalo.

Coube, então, a Davy Klaassen (bem no jogo) armar mais as jogadas. Para a sorte dele, contou com os dois grandes destaques da partida. Vincent Janssen credencia-se mais e mais como o atacante titular da Oranje, de fato e de direito. É tão corpulento quanto Bas Dost ou Luuk de Jong, mas oferece algo que esses dois ainda não dão ao time de Danny Blind: capacidade de voltar, de ajudar o meio-campo a desenvolver jogadas. Claro, Janssen é meio desengonçado no andar. Mas isso não o impede de ser um bom pivô (como Luuk de Jong), nem de saber criar com a bola nos pés (é melhor nisso do que Dost).

Maior capacidade técnica com a bola nos pés faz Vincent Janssen se firmar cada vez mais como titular (Maurice van Steen/VI Images)

Até por isso, o atacante fez jogadas como a primeira chance real da Holanda no jogo, aos 7', recebendo de Quincy Promes, girando e finalizando para Andriy Gorbunov - ou Harbunow, dependendo da fonte - espalmar. Ou então, marcou seu gol, o mais bonito da partida, aos 63', aproveitando falha de Sergei Politevich para correr com a bola dominada e chutar forte no ângulo. Otimista, Janssen desejou à NOS, tevê holandesa, no fim do jogo: "Sempre fico alegre quando marco, e espero fazer isso também pelo Tottenham". Chances para isso, ele está tendo, com a lesão de Harry Kane. Quanto mais marcar pelos Spurs, mais Janssen será indiscutível como titular da seleção.

Se Janssen foi sempre uma opção na área, Quincy Promes era a opção correndo pelo campo. Partindo da ponta direita, o camisa 11 justificou porque tem merecido a confiança de Blind, sendo titular constante na ausência de Robben. Correu, dominou a bola, apareceu para finalizar, mostrou confiança... também não foi à toa que arriscou o chute para abrir o placar, aos 15', marcando seu primeiro gol pela Oranje - e abraçando Memphis Depay no banco de reservas. Nem impressionou que o jogador do Spartak Moscou-RUS tenha crescido ainda mais em campo, a ponto de aproveitar hesitação de Politevich para chutar de voleio e fazer 2 a 0, aos 31'.

Se tivesse ficado nessa parte do meio-campo e do ataque, a Holanda poderia ter somente otimismo. Todavia, a defesa voltou a ter suas costumeiras panes no final do primeiro tempo. Impressiona a falta de compactação da equipe: raras vezes se vê nitidez nas linhas do 4-3-3 com que a Laranja é escalada. Isso abre espaços; e basta ao time adversário aproveitá-los com passes longos para sempre chegar na frente, principalmente pelas pontas, trazendo perigo. Foi o que aconteceu com Belarus: Sergei Kornilenko quase marcou; depois foi Mikhail Gordeychuk, que superou Jeffrey Bruma na corrida e só não fez o gol porque Maarten Stekelenburg (surpreendentemente, o titular - mas cumpriu seu papel) fechou bem o ângulo na saída de gol. Finalmente, tão logo começou o segundo tempo, Aleksei Rios diminuiu para 2 a 1 entrando livre no meio da área, sem que Virgil van Dijk o acompanhasse. Isso, em jogada surgida pela lateral direita, onde Rick Karsdorp, outro titular pela primeira vez, cedeu muitos espaços.

Por mais que os gols de Klaassen e Janssen tenham tranquilizado, Danny Blind não deixou passar tais erros, e ralhou na entrevista coletiva: "Vi coisas boas, mas também vi coisas ruins. Por quinze minutos, jogamos muito mal. Se cometermos esse tipo de falha contra a França, será fatal. Abrimos espaço, deixamos o adversário chegar". Pior: dificilmente Sneijder estará disponível, conforme antecipou o técnico ("A chance dele jogar [contra a França] é muito, mas muito pequena"). Caberá à nova geração, já consolidada - com Janssen, Promes, Klaassen -, superar os Bleus na próxima segunda-feira, na Amsterdam Arena. E quem sabe, aumentar o respiro na pressão sobre eles, como fez a goleada nos bielorrussos.

Ficha do jogo

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 4x1 Belarus
Data: 7 de outubro de 2016
Local: De Kuip, em Roterdã
Juiz: Craig Thomson (ESC)
Gols: Quincy Promes, aos 15' e aos 31', Davy Klaassen, aos 55', e Vincent Janssen, aos 64'; Aleksei Rios, aos 46'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Rick Karsdorp, Jeffrey Bruma, Virgil van Dijk e Daley Blind; Davy Klaassen, Kevin Strootman (Jordy Clasie, aos 79') e Georginio Wijnaldum; Quincy Promes, Vincent Janssen (Bas Dost, aos 83') e Wesley Sneijder (Davy Pröpper, no intervalo).Técnico: Danny Blind

Belarus
Andriy Gorbunov; Denis Polyakov, Mikhail Sivakov, Sergei Politevich e Maksim Bordachev; Mikhail Gordeychuk (Maksim Volodko, aos 74'), Ivan Maevski (Aliaksandr Hleb, no intervalo), Nikita Korzun e Aleksei Rios; Sergei Krivets (Sergei Kislyak, aos 67'); Sergei Kornilenko. Técnico: Aleksandr Khatskevich

Oranje renovada. Com saudades de Robben

Robben marcando pela seleção holandesa (contra País de Gales, em novembro de 2015); dá saudades, mas Oranje precisa superá-las (Stu Forster; Getty Images)
Amsterdã, 5 de junho de 2010. No amistoso de despedida da sua torcida, rumo à Copa do Mundo que começaria dali a seis dias, a seleção da Holanda indica que está pronta para um papel digno no torneio, ao golear a Hungria por 6 a 1 na Amsterdam Arena. Poupado após ter jogado a final da Liga dos Campeões pelo Bayern de Munique, Arjen Robben é colocado no segundo tempo do amistoso – e brilha, marcando dois gols. Todavia, ele deixa um travo amargo e um ponto de interrogação em todo o país, ao lesionar um músculo da coxa no fim do jogo. Ficava a pergunta torturante: iria Robben à África do Sul?

A delegação foi, estreou no torneio, mas o esperava. E após uma semana de tratamento ultraintensivo com o fisioterapeuta Dick van Toorn, Robben voou para a Copa. No primeiro jogo em que foi relacionado, contra Camarões, o camisa 11 saiu do banco – e participou da jogada do gol de Klaas-Jan Huntelaar que decidiu o 2 a 1 na Cidade do Cabo. Nas oitavas de final, ele abriu o placar contra a Eslováquia. Enfim, após a dúvida, Robben brilhou de novo, só abaixo de Wesley Sneijder em importância técnica na campanha do vice-campeonato mundial.

Seis anos, quatro meses e dois dias depois, a Laranja viveu uma situação semelhante. Voltou a ficar à espera de Robben, antes das partidas contra Belarus (nesta sexta) e França (próxima segunda), pelas eliminatórias da Copa de 2018. Mas ao contrário da ansiedade gostosa que cerca uma Copa do Mundo, como em 2010, o cenário é mais melancólico e preocupante. Melancólico, porque as desconfianças seguem sobre a equipe comandada por Danny Blind. Preocupante porque, apesar de já ter uma equipe predominantemente jovem em campo, o técnico ainda parece precisar muito de Arjen. Mas ele estará ausente, de novo, por contusões. Não poderá ocupar o posto de capitão da Oranje - ainda dele.

Se essas lesões já eram renitentes quando Robben estava no esplendor técnico, agora o perturbam de modo quase definitivo. Basta ver o que ocorre com ele no Bayern. Ainda na pré-temporada, o canhoto mais famoso do futebol mundial lesionou um músculo da coxa, num amistoso contra o Lippstadt 08, em julho. Ficou dois meses em recuperação. Voltou em 21 de setembro, pelo Campeonato Alemão, entrando durante o jogo contra o Hertha Berlim... e marcando gol. Daí, no sábado passado, enfim começou uma partida como titular, contra o Köln... e saiu machucado de novo – agora,  nas costelas.

A bem da verdade, Danny Blind já não relacionara o nativo de Bedum entre os 23 jogadores convocados, um dia antes do jogo contra o Köln. E o treinador da seleção foi bem claro e cauteloso na abordagem do assunto: “Precisamos ver as coisas numa conversa com a federação, o Bayern e o próprio Robben. Mas ainda está muito cedo. Ele queria muito [vir], mas também tem compromissos com o clube. Se houver uma possibilidade, veremos o que fazer”. Ainda assim, ficou uma esperança, como o treinador da Oranje sinalizou na segunda-feira passada, durante a apresentação dos chamados. A lesão nas costelas sofrida no sábado já não incomodava tanto Robben, e os contatos com a equipe médica do Bayern seriam mantidos. Se estivesse pronto, o capitão da seleção viajaria para integrar-se ao grupo que treinou na cidade de Noordwijk.

Assim ficou a situação: por mais que os 23 jogadores já treinassem, a espera por Robben seguia. Até o início desta sexta, prazo final para que o jogador fosse incluído na lista dos relacionados para o jogo contra Belarus. Sem recuperação completa, aquele de quem todos ainda esperam algo na seleção holandesa de novo estará ausente. Restou a Danny Blind lamentar: “Falei com ele, que não virá – e isso também vale para o jogo contra a França. Ele não está suficientemente em forma, o que é chato”.

Se fosse só o apego do técnico por um jogador brilhante tecnicamente, sua ausência não abateria tanto. Mas incomoda notar que outro veterano, Wesley Sneijder, foi até mais fundo na lamentação dos problemas físicos por que passa o colega de geração: “Ele [Robben] é muito importante para nós.
Não só dentro, mas fora de campo também. É uma peça fundamental, que não podemos perder. Já vimos isso no passado, é a dura realidade”. E o que dizer se um novato que desponta como possível substituto, Quincy Promes, é o primeiro a falar que Robben “não pode ser substituído”?

Pior ainda é reconhecer que Robben continua sendo importante, apesar da relação custo-benefício cada vez mais desvantajosa para Bayern e Holanda. Machuca-se muito? Sim. Mas segue demonstrando vontade e disposição de atender às convocações de Blind, sempre que possível. Uma vez no grupo de jogadores, o calvo precoce também apresenta um espírito de liderança inegável, como se viu na Copa de 2014. Sem contar a conhecidíssima capacidade de mudar uma partida, com sua jogada-muito-manjada-mas-que-ninguém-para de cortar para a esquerda e chutar. Continua sendo assim, mesmo atualmente: foi assim que Robben marcou um dos gols contra o País de Gales, em novembro do ano passado, no seu ultimo jogo pela seleção. E foi assim que marcou contra o Hertha Berlim. Ou seja: não é um caso de desprezo puro e simples. Em forma, o ponta direita pode ser útil, sim, senhora.

O excessivo apego à importância (inegável) de Robben fica ainda perturbador tendo em vista que a renovação holandesa já está completa. Não, a geração não impressiona tecnicamente. Ainda assim, pensar mais num atleta ausente do que nos 23 que lá estão dá a sensação de que o temor de novo vexame nas eliminatórias da Copa existe – temor exagerado, já que a Holanda foi razoável na estreia contra a Suécia, e pode muito bem vencer os bielorrussos nesta sexta. Claro, pensar em superar os franceses já é bem mais difícil. No jogo de Amsterdã, dia 10, os Bleus são favoritos, mesmo com os problemas na zaga (o convocado Jérémy Mathieu não só pediu dispensa, mas decidiu parar de defender a seleção; e o substituto, Eliaquim Mangala, lesionou-se).

Holanda atual é mediana. Mas é o que há para hoje. E parece mais entrosada (Remko de Waal/ANP)

Todavia, mesmo inferior, a Oranje demonstra mais firmeza do que no amistoso entre ambas, em março passado. Enfim, parece haver um time titular de fato. Começando por uma defesa relativamente entrosada. Jeroen Zoet parece ter ganho definitivamente a vaga de titular no gol (“Cillessen não jogará”, informou Blind), Rick Karsdorp pode ganhar chance na lateral direita, e o recuperado Stefan de Vrij pode oferecer mais qualidade no miolo de zaga. No meio-campo, Kevin Strootman e o supracitado Sneijder tiveram lesões leves, mas já se integraram aos treinamentos normais e estão à disposição para as partidas. Com a ausência de Robben, Sneijder ganha cada vez mais importância: tanto pelo que ainda tenta oferecer tecnicamente (foi dele o gol contra a Suécia, pelas eliminatórias), pela experiência indubitável: jogando contra Belarus e França, alcançará as 125 partidas pela seleção.

No ataque é que se deu uma polêmica. Não na posição de “camisa 9”, que é de Vincent Janssen – pelo menos por enquanto. Mas na ponta esquerda: além da volta de um Memphis Depay em baixa no Manchester United, a escolha de Danny Blind por Siem de Jong para substituir o lesionado Steven Berghuis pegou mal. A escolha pelo irmão mais velho de Luuk, voltando à Oranje após três anos, soou estranha: só recentemente Siem fez seu primeiro jogo completo pelo PSV, enquanto Jens Toornstra tem ido muito bem no Feyenoord líder do Campeonato Holandês.

De todo modo, essa base mais entrosada das últimas partidas – e com uma média de idade mais baixa – tem ficado em segundo plano, diante do peso da ausência de Robben. Mas é assim que a Holanda precisará enfrentar Belarus, que surpreendeu... a França, adversário da próxima segunda. E talvez seja assim que a Laranja precise jogar daqui para frente. Robben faz e fará falta? Muita. Porém, a Oranje deve seguir, mesmo sendo um time pior sem ele.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 7 de outubro de 2016. Revista e ampliada)