sexta-feira, 30 de março de 2018

O problema do Twente chega ao campo


As demissões do técnico Verbeek (à esquerda) e do diretor técnico Van Halst foram mais um capítulo no drama do Twente. Que tem seis rodadas para resolver sua situação no Campeonato Holandês (Emiel Muijderman)

Durante esta semana, quem acompanha futebol na Holanda prestou mais atenção na seleção. E até que foram muitos os comentários sobre ela, tanto pela derrota para a Inglaterra (reações mistas ao 1 a 0, pela atuação promissora da defesa e pelo desalento que o ataque causou), quanto pela vitória em cima de Portugal (3 a 0 relativamente animador, em que pese o time reserva dos Tugas, por novo destaque dos zagueiros, De Ligt à frente, e pela maior mobilidade dos avantes). Com tudo isso, passaram quase despercebidas as demissões no Twente. Sim, no plural: tanto o técnico Gertjan Verbeek quanto o diretor técnico Jan van Halst viram o fim de suas passagens. É mais um capítulo da crise gigantesca que vivem os Tukkers. Enfim, com dramáticas consequências vistas no gramado – mais precisamente, com a última colocação no Campeonato Holandês. 

É até surpreendente que só agora o clube de Enschede esteja aflito com a ameaça de rebaixamento, a seis rodadas do fim desta Eredivisie. Afinal, os problemas vêm fortes há pelo menos três anos, quando se descobriu o custo que teriam as parcerias feitas pelo antigo presidente Joop Munsterman. Aqui mesmo já foram citados o enorme prejuízo deixado pelas transações envolvendo o fundo de investimentos Doyen (neste blog, no final de 2015), a imposição do rebaixamento ao clube, como punição da federação às falhas nos balanços financeiros (em maio de 2016), e finalmente a discutível decisão de restringir as sanções apenas no campo esportivo, proibindo o Twente de disputar competições continentais pelos próximos três anos (em junho, pouco depois).

Talvez animado por essa decisão, o clube vermelho teve uma atuação surpreendentemente elogiável em 2016/17. Obviamente, para minorar a sangria dos cofres, vendeu quem pudesse vender, pelo máximo que conseguisse – Hakim Ziyech e Felipe Gutiérrez à frente. Buscou empréstimos camaradas, alguns até com clubes de ponta (caso do Manchester City). E das trevas fez-se a luz: com as boas atuações de Bersant Celina e Mateusz Klich no meio-campo, o esforço habitual dos defensores e, acima de tudo, com os gols de Enes Ünal – foram 19, disputando a artilharia até o final da temporada -, o Twente alcançou o 7º lugar na liga. Deixou os torcedores imaginando o que poderia ter sido não fosse a punição que o tirava dos torneios da Uefa: afinal, estaria na repescagem que dá direito a uma vaga na Liga Europa.

Só que o tempo passou. Enes Ünal voltou ao Manchester City – e de lá foi vendido ao Villarreal -, Bersant Celina e Yaw Yeboah também... e o técnico René Hake precisou começar a temporada com um time ligeiramente refeito. Nem tanto na defesa, onde ainda figurariam jogadores como o zagueiro Stefan Thesker e o lateral direito Hidde ter Avest. Mas no meio-campo, setor em que o time precisaria ser reconstruído em torno de Fredrik Jensen e Mateusz Klich. E no ataque, também dizimado pelos fins de empréstimos, restaria apostar em Oussama Assaidi para dar a habitual velocidade nas pontas – e em Tom Boere, de bom desempenho na segunda divisão, para marcar os gols. 

Aparentemente, daria certo, já que a atuação contra o Feyenoord, na primeira rodada, foi honrosa: sim, houve derrota por 2 a 1, mas o Twente jogou bem, viu um golaço de Jensen e mostrou que, talvez, quem sabe, poderia continuar desafiando os três grandes – e brigando de igual para igual com os médios do mesmo tamanho, como Heerenveen e AZ. Pois é: não aconteceu. Foram quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, já despertando os primeiros temores de uma temporada na parte de baixo da tabela. Uma goleada sobre o Utrecht – 4 a 0, na quinta rodada – deu a impressão de que tudo se acalmaria, e tal impressão se fortaleceu com a vitória sobre o Heracles Almelo, que faz junto do Twente o “clássico” da região (Almelo e Enschede, as cidades respectivas, são muito próximas, na região do Twenthe, dentro da província do Overijssel), na sétima rodada. 

Contudo, na 8ª rodada, o revés para o Willem II (3 a 1) rendeu aquela que é, provavelmente, a decisão mais desastrada no caminho do Twente rumo à queda: a demissão do técnico René Hake. Claro, Hake fazia um trabalho longe de ser perfeito. Mas a torcida ainda tinha por ele grande respaldo, pela surpresa positiva de 2016/17. E há longo tempo trabalhando com os jovens nas categorias de base, o treinador conquistara o respeito dos jogadores. A diretoria ainda tentou contemporizar, dizendo que a demissão era apenas um “rebaixamento” de Hake às categorias de base, mas o próprio se negou e preferiu deixar o clube de vez. Para a torcida, a impressão era de que a escolha do bode expiatório fora a errada. Ali a crise financeira do Twente começava a ter, enfim, as consequências dentro de campo.

A torcida até apoia o Twente, mas sua pressão está cada vez mais forte (Marco Munnink)

Gertjan Verbeek foi contratado, com apostas na sua experiência e nos seus bons trabalhos em Heracles Almelo e AZ. No começo, a garra que não falta ao grupo de jogadores se fazia sentir – e dois jogos contra grandes foram a prova disso. Na estreia de Verbeek, contra o líder PSV, na 11ª rodada, por três vezes o Twente ficou atrás no placar, e nas três vezes buscou o empate, antes de sofrer o 4 a 3 nos acréscimos. Contra o Ajax, na 14ª rodada, foi até mais honroso: os Tukkers chegaram a ficar com uma desvantagem de 3 a 1, mas correram atrás do empate. E os avanços na Copa da Holanda (com direito a eliminação do Ajax) davam a impressão de que o time conseguiria ficar acima da zona de repescagem/rebaixamento. Contratações na janela de transferências do começo do ano, como as vindas de Adam Maher, Mounir El Hamdaoui e Luciano Slagveer (este por empréstimo, davam mais esperança de fortalecimento técnico, para debelar o impacto de perdas como Mateusz Klich, que se foi para o Utrecht.

Tudo isso caiu por terra tão logo a temporada foi retomada. Fosse no 4-3-3 ou no 5-3-2, o Twente seguia com a defesa fragilizada, mesmo com o esforço de sempre. Escalado como titular no gol, Joël Drommel mostra deficiências crônicas. No meio-campo, Maher falhava na criação das jogadas, e restava apenas a Assaidi vir buscar a bola para iniciar as jogadas de ataque. Na Copa da Holanda, ainda houve como mascarar tais falhas, chegando às semifinais. Mas no Campeonato Holandês, a crise ficou a nu: até agora, com onze rodadas transcorridas no returno, o Twente espera por vitórias. Foram cinco empates e seis derrotas. E a partir da 22ª rodada, o clube caiu na zona das três últimas posições para não mais sair dela, até agora.

Irritando ainda mais a torcida, Verbeek escondia a fragilidade do Twente em campo atrás de críticas aos adversários – como o célebre uso do termo “schijtbakkenvoetbal” (“futebol de m****”, citado aqui), em referência à aposta do PSV nos contra-ataques, que rendeu o 2 a 0 do líder do campeonato em Enschede. Enquanto isso, avolumavam-se as derrotas: 4 a 0 para o AZ nas semifinais da Copa da Holanda, o dramático 2 a 1 para o Heracles Almelo na 27ª rodada – neste revés, a torcida perseguiu nas arquibancadas o diretor técnico Jan van Halst, que saiu do estádio para evitar males maiores.

Assim, não surpreendeu a demissão da dupla nesta semana. Verbeek saiu com a marca péssima de ser o único técnico da história do Twente sob cujo comando o time teve menos de 22% de vitória na Eredivisie. Para Van Halst, então, a demissão foi um alívio, conforme ele reconheceu: “Algumas vezes eu pensei em me demitir pessoalmente”. A decisão simboliza a desordem desalentadora no clube, conforme comentou Gerard Marsman, diretor técnico da associação holandesa de treinadores: “Demitir dois treinadores numa só temporada: nunca pensei que veria isso na Holanda. Parece o Palermo, que contrata quatro técnicos por ano”. Para piorar, já havia a fratura no tornozelo que tirou Ter Avest do resto da temporada - e nos treinos desta semana, o meio-campo Haris Vuckic rompeu o ligamento cruzado anterior, sendo mais um desfalque definitivo nas seis partidas restantes.

Agora, sob o interino Marino Pusic – que já prometeu um estilo mais ofensivo -, o Twente jogará tudo nas próximas seis rodadas. Para sair da última posição e tentar se salvar na repescagem de acesso/descenso, evitando uma queda que não lhe ocorre desde a temporada 1983/84. Uma queda que seria o fim melancólico de um sonho de grandeza, que teve o apogeu no título histórico de 2009/10. Uma queda que, acima de tudo, provaria como, em busca de tal sonho, o Twente está pagando o mais caro dos preços.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de março de 2018)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Viram só?

Quem diria? Portugal, de Cristiano Ronaldo, reclamou. A Holanda, de Cillessen e Pröpper, consolou - e, tranquila, venceu (Reuters)
De certa forma, é até comum nos tempos recentes: mesmo que esteja fora da Copa do Mundo, a seleção da Holanda costuma oferecer dificuldades nos amistosos contra adversários que se preparam com vistas ao Mundial. Em 2002, a Laranja empatou com a Inglaterra e ganhou de Espanha e Estados Unidos. Neste 2018, mesmo com a derrota para a Inglaterra mostrando preocupante inação ofensiva, já se via uma definição tática promissora. E o amistoso desta segunda-feira, com Portugal, mostrando sete mudanças em relação ao jogo da sexta passada, deixou claro que há possibilidades para a Laranja, com a elogiável vitória por 3 a 0.

Curiosamente, no começo, o 5-3-2 que se viu parecia ter os mesmos problemas do amistoso contra os ingleses. Mesmo com Tonny Vilhena experimentado na lateral esquerda, a linha de cinco defensores seguia retida no campo de defesa, enquanto Portugal mantinha posse de bola. Todavia, os Tugas também não criavam muitas chances - apenas projetos delas, como aos cinco minutos, em bola cruzada da direita por Ricardo Quaresma, mas recuada sem problemas por Matthijs de Ligt, sem problemas para Jasper Cillessen (que teve a chance no gol).

Mas na primeira vez que teve espaços para buscar o ataque, a Oranje já conseguiu seu primeiro gol, aos 11', contando justamente com a ajuda do setor que melhor impressão causou na sexta: a defesa. Afinal, após boa inversão de jogo de Davy Pröpper - seguro no meio-campo -, foi de Virgil van Dijk, mais avançado, o passe que chegou a Kenny Tete. O lateral cruzou, Donny van de Beek chutou fraco, mas Memphis Depay "consertou" e bateu mais forte para o 1 a 0 - de certa forma, um bom augúrio para a melhor atuação do atacante, enfim mais ativo para jogadas (assim como Ryan Babel trouxe mais mobilidade do que Bas Dost).

Memphis Depay teve, enfim, uma atuação para provar que pode ser útil (ANP/Pro Shots)
O gol abriu o caminho para uma Holanda diferente da que se viu na sexta-feira: mais confiante, ousada, ofensiva. Não a ponto de jogar aberta, mas a ponto de ser consistente na defesa - e de, a partir dela, chegar a mais gols. Até porque partiram de De Ligt os passes para o segundo gol, aos 32' (veio pela direita, cruzou forte - quase chutou, a bem da verdade - e Babel arriscou um desvio "corajoso" na bola veloz, sendo "premiado" com o gol), e também para o terceiro, nos acréscimos (Memphis Depay cobrou falta para a área, De Ligt ajeitou e Virgil van Dijk chutou para o terceiro gol). Aliás, o tento poderia ter vindo até mais cedo - aos 43', Vilhena cruzou da esquerda, e Memphis Depay apareceu livre para cabecear à queima-roupa, causando ótima defesa de Anthony Lopes. Os portugueses? Só tentaram algo aos 39', quando Bruno Fernandes desviou a bola de pé direito, em cima de Cillessen.

No segundo tempo, a seleção das Quinas até viu um início promissor, com as entradas de André Silva e Gonçalo Guedes. Cristiano Ronaldo, até então meio isolado, já teve mais a bola nos pés - e começou a causar os problemas que pode causar, dando trabalho a Nathan Aké. Aí apareceu outro destaque: Cillessen, que fez ótimas defesas em sequência - aos 48', num leve desvio de Cristiano Ronaldo, de cabeça, e no minuto seguinte, quando Quaresma arrematou de fora da área. Mas a expulsão de João Cancelo - por carrinho violento, de fato, no tornozelo de Vilhena, aos 61' - praticamente acabou com o jogo. Portugal teve seu ímpeto ofensivo amainado definitivamente; e a Holanda apenas conservou a vantagem que já tinha, além de fazer algumas alterações. Steven Berghuis e Timothy Fosu-Mensah levaram o time a tentar alguns minutos no 4-3-3 velho de guerra; e tiveram seus primeiros minutos pela Oranje adulta Guus Til e Justin Kluivert.

Assim, o amistoso terminou no 3 a 0 do primeiro tempo. E a Holanda deixou claro que, se não é páreo para as maiores seleões europeias, não é de se jogar fora. Viram só?

Amistoso
Portugal 0x3 Holanda
Data: 26 de março de 2018
Local: Estádio de Genebra (Genebra, na Suíça)
Árbitro: Ruddy Buquet (França)
Gols: Memphis Depay, aos 12', Ryan Babel, aos 32', e Virgil van Dijk, aos 45' + 2

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete (Guus Til), Matthijs de Ligt (Timothy Fosu-Mensah), Virgil van Dijk, Nathan Aké e Tonny Vilhena (Stefan de Vrij); Donny van de Beek, Davy Pröpper e Georginio Wijnaldum (Marten de Roon); Ryan Babel (Steven Berghuis) e Memphis Depay (Justin Kluivert). Técnico: Ronald Koeman

Portugal
Anthony Lopes; João Cancelo, Rolando (Luis Neto), José Fonte e Mário Rui; Manuel Fernandes e André Gomes (André Silva); Ricardo Quaresma (Gelson Martins), Bruno Fernandes (João Mário) e Adrien Silva (Gonçalo Guedes); Cristiano Ronaldo (João Moutinho). Técnico: Fernando Santos

domingo, 25 de março de 2018

A defesa melhorou. O ataque...

Em que pese a derrota, Holanda mostrou mais segurança na defesa, com De Ligt se sobressaindo. Falta melhorar no ataque (Pro Shots)
Na via-crúcis enfrentada pela seleção holandesa nos últimos três anos, uma das falhas que mais chamava a atenção era a falta de compactação defensiva. Como era fácil invadir a defesa da Laranja, como era fácil achar espaços nela. Pois bem, pelo menos nesse ponto, já foi possível enxergar qualidades no início do trabalho que Ronald Koeman faz, durante o amistoso contra a Inglaterra, primeiro jogo sob o comando do ex-zagueiro, nesta sexta. Só que ainda há muito a corrigir. Até por isso, a Oranje ainda saiu de campo com derrota para os ingleses.

Por mais mediano que seja, o time britânico tem alguns jogadores capazes de dar o mínimo de velocidade e técnica às jogadas de ataque, além de maior entrosamento. Isso se viu aos 17 minutos do primeiro tempo, numa tabela que já ocorrera antes: Raheem Sterling veio pela esquerda, chegou à área, e ajeitou para o arremate de Jesse Lingard, para fora. O que salvava a Holanda era a proximidade e a firmeza dos três zagueiros. Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij e Virgil van Dijk não só mostravam técnica para evitarem ataques (até impediram três finalizações em sequência, no jogo aéreo), como também experimentavam avanços. Aos 21', após se antecipar, De Ligt - provavelmente o melhor holandês no jogo - avançou com a bola, arriscando chute rasteiro, de fora da área, defendido por Jordan Pickford.

Aos poucos, a Laranja tentou se assanhar mais. Por exemplo, aos 26', quando Patrick van Aanholt cruzou a bola, mas Quincy Promes falhou ao tentar o domínio, e a esférica ficou com Pickford. Porém, aos poucos se notaram dois defeitos: a gritante falta de alguém que criasse jogadas no meio-campo (por melhores que sejam, Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum não são armadores) e a alarmante falta de ação de Bas Dost no ataque, caso a bola não viesse pelo alto. Pior: Dost ainda errou um recuo aos 28', originando jogada de ataque inglesa, que só foi salva por De Ligt.

Não basta Dost pedir a bola: será preciso aparecer mais para virar referência do ataque holandês (Tom Bode/VI Images)
Sorte da Inglaterra, que aos poucos mostrou maior qualidade. Aos 32', Kieran Trippier cobrou falta da esquerda, a bola foi para a área, e Jordan Henderson desviou levemente de cabeça, mandando à esquerda de Zoet, perto do gol. Cinco minutos depois, na única falha cometida pelo trio de zagueiros, Zoet precisou antecipar a saída de gol para evitar finalização de Lingard. Só aos 40' houve qualquer coisa que se pudesse chamar de finalização holandesa - se é que foi finalização a bola batendo no rosto de Dost e saindo por cima da meta. E depois, nos acréscimos, quando Promes aproveitou falha de Maguire, passou a Memphis Depay, e este bateu de fora, para a defesa de Pickford.

A maior velocidade da Inglaterra rendia chances como o lançamento em profundidade que encontrou Marcus Rashford livre na área (ao cair após choque com Zoet e De Ligt, o atacante pediu pênalti), aos 51'. O próprio Rashford tentou um chute colocado, no minuto seguinte, que passou perto da trave. Até que, numa jogada bem trabalhada, veio o gol de Lingard, aos 59'. Danny Rose cruzou da esquerda, a bola bateu em Kevin Strootman e sobrou para o atacante completar, num chute firme e rasteiro, no canto direito de Zoet. Só aí a Oranje se esforçou mais. Na sequência, aos 62', vieram finalizações de Memphis Depay (rebateu em John Stones) e Patrick van Aanholt (por cima do gol). No minuto seguinte, Dost apareceu pela segunda - e última - vez, ao desviar de calcanhar um arremate de Wijnaldum, defendido por Pickford. e Ligt tentou outra vez, em outro arremate de fora da área, ao 67'.

A última tentativa da Laranja veio aos 83', em falta cobrada por Memphis Depay e defendida por Pickford. E veio a derrota, num jogo que revelou pontos positivos sobre os quais a Holanda pode começar a reconstrução - como a segurança de De Ligt, elogiado por Ronald Koeman na entrevista coletiva, e a evolução de Hans Hateboer no decorrer da partida.. Porém, mostrou a séria necessidade de alguém mais criativo, para armar jogadas e para finalizá-las. Pelo menos no jogo, esse alguém não foi Dost. Nem Memphis Depay. O amistoso contra Portugal, nesta segunda, será cenário dos experimentos necessários do ataque.

Amistoso
Holanda 0x1 Inglaterra
Data: 23 de março de 2018
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Jesús Gil Manzano (Espanha)
Gol: Jesse Lingard, aos 59'

Holanda
Jeroen Zoet; Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij (Wout Weghorst) e Virgil van Dijk; Hans Hateboer, Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum (Donny van de Beek) e Patrick van Aanholt; Memphis Depay, Bas Dost (Ryan Babel) e Quincy Promes (Davy Pröpper). Técnico: Ronald Koeman

Inglaterra
Jordan Pickford; Kieran Trippier, Kyle Walker, Joe Gomez (Harry Maguire) (Eric Dier), John Stones e Danny Rose (Ashley Young); Jordan Henderson, Alex Oxlade-Chamberlain e Jesse Lingard (Dele Alli); Marcus Rashford (Jamie Vardy) e Raheem Sterling (Danny Welbeck) Técnico: Gareth Southgate

sexta-feira, 23 de março de 2018

O ano é 2018, o exemplo é 2014

Ronald Koeman deixou bem claro: neste começo de trabalho, a seleção holandesa precisa de foco, acima de tudo (Pa Photos/VI Images)
Já era algo conhecido de todos – talvez, até, esta coluna tenha citado algo a respeito. E nesta semana, confirmou-se algo que fora falado por Eric Gudde, diretor técnico da federação holandesa, durante a entrevista coletiva que apresentou Ronald Koeman como novo técnico da seleção: “O padrão deve ser o da Copa de 2014”. O tempo mostrou: aquela equipe laranja (ou azul, como nos jogos contra Espanha, Austrália e Brasil) tinha mais esforço do que talento, mas assim obteve bons resultados e foi elogiada. É exatamente tal objetivo que guia esta nova fase da Laranja, que será começada nesta sexta, com o amistoso contra a Inglaterra, em Amsterdã, e seguirá na segunda, em outra partida amigável, contra Portugal, em Genebra - a princípio, seria contra a Espanha.
Aliás, as novidades não ficam só dentro de campo. As que ocorrem fora parecem indicar, no fundo, uma coisa só: a Holanda quer se assumir como uma seleção... média, que não merece tanta atenção nem tanta celebração, que deseja apenas foco total no trabalho. Algo exemplificado até na mudança da sede da preparação para as datas Fifa. Antes, a apresentação dos convocados era feita no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk – e havia uma curta viagem de ônibus até Katwijk, para os treinamentos no campo do Quick Boys, clube amador. Agora, a mudança de pessoas motivou a federação a também mudar de lugares: treinamentos e concentração serão feitos no KNVB Campus, espécie de centro nacional de desenvolvimento do futebol holandês (com alojamento para os atletas, claro), construído em anexo à sede da federação, em Zeist.
Um lugar mais discreto, para uma preparação mais discreta. Tanto nas entrevistas – Ronald Koeman só concedeu duas delas, na segunda e na quinta desta semana, além de ter enviado a convocação final dos 23 jogadores num simples e-mail à imprensa – quanto nos treinamentos. Conforme já preconizara em sua apresentação, Koeman trouxe à seleção os treinos fechados. Por dois motivos, segundo a imprensa: um óbvio (trazer mais concentração ao grupo de jogadores, livrando-os de chateações de imprensa ou excessivos assédios) e outro implícito, até decorrente do primeiro (fazer com que os jogadores sejam mais... profissionais, tenham mais dedicação enquanto estiverem na seleção – uma das grandes preocupações do novo treinador).
Tudo isso, de certa forma, remete ao exemplo que guiará a seleção holandesa: a supracitada Copa de 2014. Se Eric Gudde foi claro ao citá-la, Koeman aprofundou mais a explicação: “Pode-se dizer que ela deve ser um padrão pelo resultado prático, com a terceira posição que alcançamos. Mas acho que Eric também se referia ao que ocorreu fora de campo. Todos sabiam quem era o técnico, então, e mesmo com uma qualidade menor, o coletivo alcançou um feito maravilhoso. Naquela época, em todos os setores, havia clareza. E acho que clareza é uma de minhas qualidades”.
De fato, Koeman foi claro para assumir várias coisas. A primeira: de fato, a seleção dificilmente jogará no 4-3-3 sob seu comando. Adivinhem: voltarão os três zagueiros – seja no 5-3-2 de 2014, seja no 3-5-2. A justificativa foi até óbvia: “Com todo respeito, não temos mais os melhores de verdade. Então, procuram-se outras coisas, como um outro esquema. Na minha convocação, procurei escolher jogadores que pudessem ir bem nesse sistema [com três zagueiros]. Trabalhamos duro, treinamos duro, e quero ver o resultado contra a Inglaterra”.
Procuraram-se “outras coisas...”, mas Koeman também procurou os três jogadores que eram símbolos de talento em 2014. Para cada um deles, uma conversa diferente. Com Wesley Sneijder, o objetivo foi dizer que ele não faria parte dos novos planos – até por isso, o anúncio do fim da carreira do meio-campista na seleção, após 15 anos e o recorde de 133 partidas pela Laranja. O meio-campista ficou ligeiramente sentido. Ficou ainda mais desapontado com sua ausência dos amistosos – esperava fazer deles uma espécie de “despedida”, mas novamente o técnico foi claro: “Ele terá uma despedida como merece, mas, com todo respeito a Wesley, isso [um jogo pela seleção] fica para outra hora”. Restou a Sneijder, de folga do Al Gharafa, uma visita aos compatriotas que treinam em Zeist, nesta quinta.
Com Arjen Robben, a prosa foi ligeiramente diferente. Koeman assumiu: queria saber se o atacante realmente havia fechado o capítulo da Oranje em sua carreira contra a Suécia, nas Eliminatórias da Copa, em outubro passado. “No momento em que ele jogou sua última partida, parecia que ele tinha deixado a porta entreaberta. Foi uma das razões pelas quais fui falar com ele”. Robben fechou a porta de vez, mas ainda assim, foi útil: “Acima de tudo, quis saber o que ele achou desses últimos tempos da seleção”. E caso o calvo precoce de Bedum mude de ideia, o técnico já abriu o caminho: “Robben ainda me pareceria um ganho de valor para a seleção”.
Quem também pode pensar numa eventual volta é o terceiro da lista de “decisivos” em 2014: Robin van Persie. Desde que sob certas condições, conforme o treinador alertou: “Estive no Feyenoord, falei com ele, quis saber sua opinião. Ele não disse que havia parado com a seleção. E mostrou de novo sua classe [com os dois gols contra o Zwolle, na rodada do Campeonato Holandês]. Só que, mesmo que a qualidade seja o critério principal, primeiro ele precisa entrar em forma”.

Em meio a várias caras novas, Virgil van Dijk (em primeiro plano) já desponta como um dos possíveis símbolos da Laranja (ANP/Pro Shots)
Enquanto isso, os convocados da vez tentam mostrar a vontade vista nas palavras de Bas Dost: “Eu quero demais mostrar o valor que tenho”. Caras novas, não faltam: há Justin Kluivert (pode estrear na Oranje adulta aos 18 anos, como o pai fez em 1994), Hans Hateboer (ótimo na Atalanta, o ala é forte candidato a tomar a lateral direita de Timothy Fosu-Mensah e Kenny Tete, outros relacionados da posição), Guus Til (merecida convocação deste novato meio-campista, destaque na ótima campanha do AZ na Eredivisie), Wout Weghorst (mais um membro do AZ – por sinal, junto de Dost, mostrando uma certa tendência de atacantes holandeses altos e corpulentos, sem o maior dos talentos com a bola nos pés). Se alguma ausência surpreende, é a de Daley Blind, somente.
Simultaneamente, Koeman já começa a escolher os jogadores que sustentarão sua base. Um deles já dizia durante os treinos em Zeist: “Ser capitão da seleção é um sonho”. Pois bem, Virgil van Dijk teve a quimera realizada, e certamente será o sustentáculo da defesa de cinco homens, provavelmente ao lado de Stefan de Vrij e Matthijs de Ligt. No ataque, o treineiro holandês carregou mais nas palavras: confiará em Memphis Depay, desconfiando simultaneamente. Afinal, Koeman é daqueles que tanto admira o talento do atacante quanto lamenta a falta de foco às vezes apresentada por ele na carreira: “Eu quis trazê-lo para o Everton. Ele tem muita qualidade. E tive ótima impressão na conversa com ele. Mas é um caminho de mão dupla: eu trabalharei duro para ajudá-lo, mas ele também precisará fazer isso”.
E há os nomes previsíveis: Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum, Davy Pröpper, Quincy Promes... 
A única dúvida de Koeman, a bem da verdade, está no gol. Nenhum dos dois nomes mais cogitados inspira total confiança. Quem escolher? Jeroen Zoet, com ritmo total de jogo (é titular absoluto do PSV), mas num campeonato de nível técnico baixo? Ou Jasper Cillessen, melhor no jogo com os pés, acostumado ao altíssimo nível de competição (reserva do Barcelona que é), mas não só acomodado na suplência, como jogando apenas na Copa do Rei – por mais que tenha ido bem em suas atuações recentes? Pelo menos nos amistosos, Zoet ganhará a escolha.
As condições estão dadas: trabalho duro e foco no coletivo, como na Copa de 2014. Assim, Ronald Koeman e os jogadores tentarão fazer a Holanda recuperar algum respeito. Afinal, se ela não faz frente às grandes forças europeias – Alemanha, França, Espanha, Bélgica -, também não é pior do que Islândia ou Dinamarca ou Polônia, como muita gente tem achado.

(Ou será que é? Vai saber...)

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 23 de março de 2018)

terça-feira, 20 de março de 2018

810 minuten: como foi a 28ª rodada da Eredivisie

Bjorn Johnsen segurou a bandeira para animar a comemoração. E também segurou a responsabilidade: dois gols na virada do Den Haag (Pro Shots)
Excelsior 1x2 ADO Den Haag (sexta-feira, 16 de março)

Tão bom nos jogos fora de casa (é o quarto melhor visitante da Eredivisie) quanto ruim em seu próprio estádio (é o "lanterna" nos jogos em casa), o Excelsior fez o que a torcida esperava: buscou o gol desde o começo. Já no primeiro minuto, Levi Garcia tentou encobrir o goleiro Robert Zwinkels, que voltou a aparecer decisivamente aos 15' - espalmando chute de Ali Messaoud - e aos 17' - arremate de Luigi Bruins. Mas aos 26', não houve jeito de Zwinkels evitar o 1 a 0 dos Kralingers mandantes: Bruins cobrou escanteio, e Milan Massop cabeceou firme para marcar. Só aos 40' o Den Haag apareceu no ataque pela primeira vez, quando Thijmen Goppel chutou para boa defesa de Theo Zwarthoed.

Mas o verdadeiro protagonista da virada viria no segundo tempo. E seria alguém em quem a torcida dos auriverdes de Haia já se acostumou a acreditar: Bjorn Johnsen. O norueguês de ascendência norte-americana empatou o jogo aos 52', aproveitando de cabeça uma sobra, após Hicham Faik desviar na trave cruzamento de Nasser El Khayati. Os visitantes cresceram, mandaram uma bola no poste (Erik Falkenburg, aos 68') e, aos 79', Johnsen fez 2 a 1, num chute que desviou no zagueiro Wout Faes, tirando qualquer chance de defesa de Zwarthoed. E o ADO Den Haag mantém fortes esperanças de chegar à zona de repescagem por vaga na Liga Europa, enquanto o Excelsior espera pela próxima rodada para voltar a vencer - fora de casa...

Pimenta no campo foi o "prêmio" da torcida do Twente aos jogadores, em meio à ameaça de rebaixamento (Pro Shots)
Twente 2x2 Willem II (sábado, 17 de março)

Mais um dia de dor e sofrimento em Enschede: com o Twente na luta cada vez mais dramática contra o rebaixamento, a torcida seguiu protestando com faixas, até atirando pimentas ao gramado. Para piorar, o azar foi novamente punitivo com os Tukkers. Aos 10', a chance maior foi deles - e passou em branco, com Fredrik Jensen mandando a bola na trave. O Willem II apareceu aos 13', e foi mais eficiente: num bate-rebate, Thom Haye chutou, o goleiro Joël Drommel rebateu, e o zagueiro Konstantinos Tsimikas finalizou para o 1 a 0 (não sem antes a bola bater na trave e nas costas de Drommel). Aí, a sorte ajudou um pouco o Twente: não só o time escapou várias vezes de tomar o segundo gol, mas empatou aos 43'. Adam Maher cobrou falta, e Thomas Lam subiu livre para cabecear e fazer 1 a 1.

Na etapa complementar, contudo, o time da casa viu o mesmo destino aziago: teve ótimas chances de passar à frente no placar, não as aproveitou, e tomou o gol como "punição". Tsimikas evitou Fredrik Jensen de marcar aos 58', Maher bateu para fora aos 68', e o Willem II virou aos 73': Fran Sol passou no meio de dois, fez 2 a 1 para os visitantes de Tilburg e se igualou a Hirving Lozano no topo da tábua de goleadores da Eredivisie (nada mal para quem chegou a ficar algumas rodadas de fora por um tumor nos testículos...). O desastre do Twente só não foi maior porque, aos 87', o zagueiro Peet Bijen ainda empatou. Mesmo assim, o destino segue sendo duro: o time que em 2009/10 foi campeão holandês agora é o último colocado, pela vitória do Roda JC.



O PSV temia possível tropeço, após o forte solavanco contra o Willem II. Van Ginkel começou a mostrar: não haveria mais problemas. Outra vitória (ANP/Pro Shots)
PSV 3x0 VVV-Venlo (sábado, 17 de março)

O PSV esperava se distanciar da vergonha passada com a goleada sofrida para o Willem II, e teria um bom passo para isso, com a volta de Jorrit Hendrix (recuperado de lesão) e Hirving Lozano (após suspensão. Foi o próprio Lozano que iniciou a primeira chance de gol, aos 5': o mexicano cruzou para a área, Luuk de Jong ajeitou, e Steven Bergwijn finalizou da entrada da área, para a defesa do goleiro Lars Unnerstall. No minuto seguinte, a bola passou até mais perto: Bergwijn "retribuiu" cruzando, e o cabeceio de Luuk de Jong mandou a esférica rente à trave direita. O VVV respondeu aos 7', numa falta: cobrança para a área, e Jerold Promes apareceu livre na área para desviar, perto do gol de Jeroen Zoet. Aos 11', enquanto a torcida aplaudia a louvável iniciativa de Lennart Thy, atacante do VVV (desfalcando a equipe na rodada para ser doador de células, ajudando uma vítima de leucemia), Bergwijn quase fez, chutando da entrada da área, para fora.

Os donos da casa persistiam. Aos 18', Lozano fez jogada individual pela direita, cruzou, e a bola foi direto ao gol, mas Unnerstall foi atento o suficiente para defender. O mexicano reapareceu aos 20', numa sequência de dois lances: finalizando da meia-lua para Unnerstall rebater no susto, e depois batendo mais fraco para a defesa do goleiro alemão. Veio outra tentativa de Bergwijn - aos 32', mais fraca, fácil para Unnerstall. Santiago Arias foi mais efetivo aos 37': o colombiano forçou Unnerstall a rebater, num chute cruzado de fora. E na sequência, a bola voltou à área, para Lozano tentar um voleio, que saiu por pouco. Aos 40', a maior chance de todas: Lozano cruzou, Luuk de Jong escorou de cabeça à queima-roupa, e Unnerstall teve de se esticar no canto esquerdo para evitar o que seria gol. Porém, com até cinco homens na área, o miolo de zaga do VVV parecia inexpugnável. Os visitantes de Venlo só se arriscaram no ataque aos 33', quando Nils Röseler desviou de cabeça, sozinho na área - a bola foi fraca para Zoet, mas foi um aviso.

O VVV-Venlo até se virava bem na defesa. Mas a expulsão de Ralf Seuntjens dificultou demais as coisas (VI Images)
Porém, nos acréscimos da etapa inicial (45' + 1), o destino da partida começaria a mudar, com um cartão amarelo para Ralf Seuntjens. E os Eindhovenaren seguiram insistindo no segundo tempo - como aos 51', num chute de Bergwijn, que mandou a bola para fora. Ao mesmo tempo, um susto ocorreu aos 56': Luuk de Jong desarmou Romeo Castelen na área de defesa dos Boeren (!), quando o atacante do VVV estava pronto para finalizar. Mas a coisa ficaria um pouco mais fácil para os de Eindhoven, aos 58'. Lembram-se do cartão amarelo de Seuntjens, nos acréscimos do 1º tempo? Pois é: o atacante empurrou Hendrix na entrada da área aos 58', levou o segundo amarelo de Serdar Gözübüyük e, por consequência, o cartão vermelho. Mas as chances foram se avolumando. Aos 60', num escanteio, Daniel Schwaab desviou de cabeça, e a bola foi ao travessão.  Aos 66', Bergwijn ficou livre na esquerda após passe de Van Ginkel, mas o goleiro alemão do VVV rebateu. E aos 67', Hendrix bateu de fora para Unnerstall espalmar.

No escanteio resultante, já aos 68', enfim a resistência dos Venlonaren caiu. Não sem algum sofrimento: a bola foi parar com Van Ginkel na pequena área, e o camisa 10 dominou mal. Mas conseguiu evitar a saída da bola, completou de cabeça e fez o 1 a 0 da salvação para o líder da Eredivisie.  Mais tranquilo, o PSV ainda teve algumas chances antes de encaminhar a vitória com o 2 a 0, aos 80', que veio pelos pés de Lozano, escorando para as redes cruzamento de Bergwijn e mantendo a artilharia do campeonato - 14 gols, junto a Fran Sol, do Willem II. E aos 83', Van Ginkel fez seu segundo gol (cobrança de pênalti, após Röseler derrubar Luuk de Jong na área), para garantir: o vexame da rodada passada foi apenas um susto.

Vitesse e Heracles se esforçaram em campo... e a torcida se esforçou para achar alguma empolgação no jogo. Bem, pelo menos o Vitesse buscou mais o gol (ANP/Pro Shots)
Vitesse 0x0 Heracles Almelo (sábado, 17 de março)

Com as duas falhas de Remko Pasveer na rodada passada, o Vitesse entrou em campo de goleiro novo: Jeroen Houwen estava debaixo das traves contra o Heracles. Mas nem trabalhou muito: os Heraclieden é que tiveram o arqueiro forçado a mostrar serviço. Felizmente para eles, Bram Castro estava atento: no primeiro tempo, o goleiro belga evitou gols em cabeceios de Guram Kashia (aos 6') e Matt Miazga, sem contar excelente defesa num arremate de Vyacheslav Karavaev (aos 21') e outra boa intervenção para evitar o gol de Tim Matavz (aos 39').

No segundo tempo, nem mesmo o Heracles sofreu muito com as tentativas dos mandantes. Apenas aos 54' Navarone Foor ameaçou um pouco, num chute interceptado por Robin Pröpper. No fim do jogo, apenas tentaram algo Mason Mount - aos 79', um chute do inglês foi à rede pelo lado de fora - e Mitchell van Bergen - nos acréscimos, Castro defendeu um arremate do suplente vindo do banco. E ficou mesmo no 0 a 0 uma partida desanimada a ponto de John Stegeman (prestes a ser sucedido pelo técnico alemão Frank Wormuth na próxima temporada) brincar com os jornalistas: "Ainda estão aí? Hoje não foi bom...".

O Utrecht até comemorou seus gols, como este, de Van der Maarel. Mas saiu perdendo com o empate (Maurice van Steen/VI Images)
Heerenveen 2x2 Utrecht (sábado, 17 de março)

Dentro ou fora de casa, o Utrecht costuma se fazer valer como um dos times mais ofensivos do Campeonato Holandês. E provou isso no começo do jogo em (e contra o) Heerenveen. Podia ter feito 1 a 0 aos cinco minutos, mas Sander van de Streek errou o alvo. Podia ter feito aos 8', quando Dario Dumic mandou a bola na rede pelo lado de fora. Fez, enfim, aos 18', quando Yassin Ayoub desviou escanteio, Ramon Leeuwin ajeitou para o meio e Mark van der Maarel abriu o placar. Só que aí os Utregs passaram a se defender, enquanto o Heerenveen insistiu. Tentou com Yuki Kobayashi, com Arber Zeneli... até que Morten Thorsby empatou aos 39', completando cruzamento de Denzel Dumfries desviado por Reza Ghoochannejhad.

Dali por diante, o jogo já ficou mais equilibrado. Antes mesmo do intervalo, Leeuwin quase fez 2 a 1, já aos 41'. Na volta dos vestiários, de um lado, Martin Odegaard forçou o goleiro David Jensen a trabalhar; e do outro, o arqueiro Martin Hansen evitou que Mateusz Klich recolocasse os Utregs na frente. Quem fez 2 a 1 foi mesmo o time mandante da Frísia: foi aos 76', quando Reza se livrou de Leeuwin com um giro e mandou para as redes. Aí o Utrecht recuperou sua origem ofensiva. E pressionou nos minutos finais, até fazer 2 a 2 aos 88', com Cyriel Dessers, vindo do banco. Todavia, se algum time saiu perdendo com o empate, foram os Utregs: afinal, viram o Feyenoord igualar a pontuação - e tomar a quarta posição, pelo melhor saldo de gols.

Svensson (2) abriu o placar com classe. E Alireza, de frente, novamente chamou para si o destaque na vitória do AZ (Ronald Bonestroo/VI Images)
AZ 3x2 Groningen (domingo, 18 de março)

O AZ veio a campo com três nomes no centro das atenções: caberia ao goleiro Marco Bizot, ao meio-campista Guus Til e ao atacante Wout Weghorst, todos convocados para a seleção holandesa, provarem que mereceram a lembrança. Bizot apareceu pouco, mas foi porque o AZ teve mais chances de ataque. Weghorst teve duas oportunidades de marcar em sequência, aos 14' e aos 16' - na primeira, chegou atrasado demais para o cruzamento de Thomas Ouwejan, e na segunda, chutou forte em cima do goleiro Sergio Padt. Depois, Alireza Jahanbakhsh mandou para fora, aos 23'. Aos 28', Padt salvou o Groningen, de novo, defendendo dois arremates de Teun Koopmeiners. Porém, se o Groningen ficou a maior parte do tempo da defesa, foi dos visitantes a maior oportunidade de gol: aos 43', Mike te Wierik cabeceou a bola na trave.

Nem foi necessário esperar muito, no segundo tempo: aos 53', Alireza cruzou da direita, e Jonas Svensson tocou de letra para o 1 a 0 do AZ. O iraniano voltou a buscar o gol duas vezes, mas a bola foi às redes aos 66': Guus Til chutou, Padt rebateu, e o meio-campista fez 2 a 0. Jogo resolvido, certo? Errado. A atuação razoável do Groningen foi premiada aos 70', com Tom van Weert finalizando. E o que os Alkmaarders pensavam ser uma vitória fácil se transformou num empate, aos 83', graças ao belo e forte chute de Ritsu Doan, de fora da área. Mas quando o terceiro colocado do campeonato pensou que tropeçaria e perderia terreno para o Ajax, Alireza apareceu: o iraniano fez 3 a 2 nos acréscimos (90' + 2), seu 13º gol na temporada, rendendo a vitória numa partida animada.

À frente de todos, Avdijaj foi preciso: um voleio, um gol, e a vitória que manteve a esperança do Roda JC (Joep Leenen)
NAC Breda 0x1 Roda JC (domingo, 18 de março)

Diante de duas vitórias que ajudaram muito na esperança da permanência na primeira divisão, o NAC Breda começou tentando encaminhar mais um triunfo. Rai Vloet cabeceou por cima do gol, aos 11'. Aos 18', Thierry Ambrose foi mais preciso, cabeceando a bola nas mãos do goleiro Hidde Jurjus. Todavia, ao aproveitar um único contragolpe, o Roda marcou seu gol: aos 37', Dani Schahin levantou a esférica, e Donis Avdijaj finalizou com um bonito voleio, estufando o filó de Nigel Bertrams. Foi quase uma "kriptonita": os mandantes de Breda se desanimaram, e terminaram o primeiro tempo debaixo de vaias.

Na etapa complementar, os Koempels quase resolveram o jogo já no primeiro minuto, quando Simon Gustafson acertou a trave. E o susto serviu para o time de Breda novamente fortalecer seu ataque. E coube ao destaque das vitórias recentes quase empatar: aos 59', Sadiq Umar acertou a trave. Sete minutos depois, o atacante nigeriano ficou frente a frente com Jurjus, mas perdeu a chance do chute. Surpreendentemente, contudo, o Roda JC é que terminou melhor a partida: quase fez o segundo aos 80', com Tsiy William Ndenge, e no minuto seguinte, com Gyliano van Velzen. E enfim, pôde celebrar a vitória que o tirou da última posição, alimentando a esperança de se salvar via repescagem.


Novamente, Ziyech pôde mostrar alguma marra: dois gols na goleada que manteve o fio de esperança do Ajax (Pro Shots)
Sparta Rotterdam 2x5 Ajax (domingo, 18 de março)

Mesmo afligido pela disputa contra a repescagem/rebaixamento, o Sparta mostrou rapidamente que venderia caro a derrota para o Ajax. Tanto pelos ataques (aos 6', Thomas Verhaar arriscou um chute de média distância, defendido firmemente por André Onana) quanto pela defesa, bem fechada na área. Se não dava pelo meio, o Ajax insistia pelas pontas - como num cruzamento de David Neres, no qual Justin Kluivert fracassou ao tentar concluir de cabeça, aos 10'. Só que os Spartanen também faziam o goleiro adversário trabalhar mais: aos 12', de novo chegaram, num lançamento de Verhaar dominado na área e finalizado por Robert Mühren, para boa defesa de Onana, espalmando. A pressão dos mandantes seguiu: aos 20', após Michiel Kramer ser derrubado por Matthijs de Ligt (que levou o cartão amarelo), a cobrança de falta bem feita de Soufyan Ahannach mandou a bola perto do gol. Ahannach apareceu de novo aos 23', finalizando para fora, de média distância, em chute cruzado.

Lentos e diante de uma defesa fechada, os visitantes de Amsterdã só voltaram a arriscar aos 30', quando Kluivert cruzou e Huntelaar tentou um voleio desajeitado, para fora. Mais do que nunca, o perigo da surpresa estava presente. E ele se concretizou aos 31', quando o Sparta fez 1 a 0 - numa bola parada, como previsível: Ahannach cobrou escanteio, Frederik Holst desviou na primeira trave, e Kramer estava livre para concluir no poste oposto, colocando os Kasteelheren na frente. Como que provando que os Ajacieden precisariam de mais velocidade, logo no rápido ataque da saída, veio o empate, aos 33'. Em troca de passes acelerada, Lasse Schöne lançou David Neres, que entrou na grande área pela direita e cruzou. Dividindo a bola com o zagueiro, Huntelaar escorou levemente para o gol vazio, marcando pela 11ª vez no campeonato. E o Ajax quase teve motivo para comemorar, no minuto final: Maximilian Wöber chegou a marcar, aproveitando rebote, mas o juiz Dennis Higler anulou o gol alegando impedimento - inexstente, já que o pé de Wöber estava atrás da linha da bola.

Em que pese a derrota, não faltou dedicação do Sparta durante o jogo (ANP/Pro Shots)
Já no primeiro minuto do segundo tempo, o Sparta tentou assustar de novo numa bola parada: um escanteio quase encobriu Onana, mas o goleiro camaronês conseguiu socar a bola para fora da área. Aos 48', Ahannach finalizou de longe, mas a bola foi fraca demais para assustar. Mas quem se assustou mesmo foi Huth, aos 50': o goleiro alemão do Sparta viu três chutes, dos quais teve de rebater dois (Ziyech e Justin Kluivert) - no terceiro, Donny van de Beek estava impedido. E aos 53', nem Huth conseguiu impedir a virada dos Amsterdammers. Até porque ela veio de um dos pontos fortes dos visitantes: Sander Fischer derrubou Kluivert na entrada da área, e Lasse Schöne provou novamente seu talento com a bola parada. O dinamarquês a mandou no ângulo direito, e só restou a Huth ver a bola balançar as redes no 2 a 1.

O domínio do Ajax estava, enfim, estabelecido. Huntelaar quase marcou o terceiro aos 56', arriscando de média distância, mas aí Huth voltou a trabalhar bem, espalmando para fora. Mas ele não demorou para vir - aos 59', numa bonita triangulação: Ziyech cruzou a bola para a área, Van de Beek dominou, livrou-se de três zagueiros num giro, tocou para o meio, e Justin Kluivert entrou livre na pequena área para completar e fazer 3 a 1. O Sparta já era presa fácil nos contra-ataques. Num deles, tomou o quarto gol, aos 66', em outra finalização de estilo: Ziyech trouxe a bola pela direita, ajeitou-a quando chegava à área, e arriscou chute colocado, mandando no canto direito para o 4 a 1. Outra vez, Huth só pôde olhar. Assim como teve de olhar a bola indo ao ângulo esquerdo, na cobrança de falta em que Ziyech fez 5 a 1, aos 86'. Embora tenha tido um gol de consolação - Ryan Sanusi, nos acréscimos, também de falta - o Sparta só lamenta a esperança perdida, enquanto o Ajax ainda sonha com o título, embora sem expectativas.

Novamente titular, Van Persie disse "presente". E fez dois gols que encaminharam a vitória do Feyenoord, mesmo com susto no fim (feyenoord.nl)
Zwolle 3x4 Feyenoord (domingo, 18 de março)

Tentando se recuperar de uma sequência ruim, o Zwolle até deu um susto aos oito minutos: Mustafa Saymak errou um chute, só que o recuo de Karim El Ahmadi também foi ruim, a saída de Brad Jones foi ainda pior... e a chance foi para Youness Mokhtar, que tocou por cima do gol. Porém, havia uma novidade nos visitantes: após alguns jogos ficando no banco de reservas por 90 minutos, Robin van Persie recebeu de novo a oportunidade de começar como titular no Feyenoord. E a aproveitou, começando a justificar a escolha logo aos dez minutos: a jogada começou com Nicolai Jorgensen, que ajeitou para Jean-Paul Boëtius cruzar da esquerda. Na área, Steven Berghuis ajeitou a bola no lado oposto, e deixou o veterano livre para fazer 1 a 0. Como se não fosse suficiente, um lance de sorte rendeu o segundo gol a Van Persie - e ao Feyenoord, aos 15'. A sorte do atacante foi o azar de Ryan Thomas: o meio-campista neozelandês escorregou e perdeu a bola para Boëtius, que teve campo aberto pela esquerda para o contragolpe. Chegou perto da linha, cruzou, Van Persie finalizou, 2 a 0.

Aos 17', os Zwollenaren ainda tiveram um último momento mais perigoso, num chute colocado de Queensy Menig, para fora. Mas Van Persie já tranquilizara mais os visitantes de Roterdã. E o camisa 32 poderia ter feito o terceiro aos 32 minutos: num escanteio de Berghuis, se livrou da marcação e escorou na primeira trave, mas a bola foi para fora. Aos 39',  Boëtius trouxe a bola da esquerda para o meio e arriscou o chute, mas este saiu fraquíssimo, sem dar problema algum a Boer. Segundos depois, numa rara tentativa dos Zwollenaren nos primeiros 45 minutos, Sepp van den Berg (substittuo do lesionado Philippe Sandler na zaga - 16 anos e 88 dias, o segundo titular mais jovem da história da Eredivisie) tentou desviar de cabeça, mas não deu rumo algum à bola.

No fim, o Zwolle foi derrotado. Mas não se entregou sem luta (Niels Boersema)
No segundo tempo, Younes Namli tentou fazer o Zwolle voltar a vida logo aos 49', num chute perigoso, rebatido por Brad Jones meio no susto. Todavia, o susto de Diederik Boer foi mais desastroso. E resultou no terceiro gol do Feyenoord, aos 51':  um defensor tentou sair jogando com um chutão, mas um desvio deixou a bola à feição para o chute de Karim El Ahmadi. Ele arriscou, Boer foi tentar defender... e ficou com as penas do frango na mão, numa inegável falha. Menos mal, para os Dedos Azuis, que já na saída tenha vindo um gol para reanimá-los: Kingsley Ehizibue veio rápido pela direita, cruzou para trás, e na área Mustafa Saymak chegou batendo forte e firme, no contrapé de Jones, diminuindo a vantagem Feyenoorder. O gol manteve o Zwolle buscando mais coisas no jogo - e causando até alguns problemas à defesa visitante, como num recuo de Sven van Beek em que Brad Jones se complicou, aos 57'. Aos 60', a jogada de ataque foi mais "voluntária", por assim dizer, com Saymak arrematando por cima do gol. Finalmente, aos 69', a grande chance dos mandantes voltarem de vez para o jogo, num lançamento despretensioso que acabou deixando Ryan Thomas livre na área, frente a frente com Jones. Para sorte do Feyenoord, o goleiro australiano saiu com rapidez e rebateu a finalização de Thomas.

Só aos 75' o Feyenoord teve chances para o quarto gol, após troca de passes: Jorgensen cruzou para Toornstra, que deixou a El Ahmadi, que tocou para Boëtius, que recuou para Tonny Vilhena arrematar à direita de Boer. Com espaços cada vez maiores para o contra-ataque, era questão de aproveitar uma chance. E o Stadionclub a aproveitou aos 78': El Ahmadi achou Berghuis livre, passou ao ponta, este chegou à área e cruzou. Vilhena entrou na pequena área, completou para o gol vazio e encaminhou Feyenoord. Porém, a goleada relaxou o Stadionclub, e o Zwolle impôs sérios sustos. Começou aos 85': Boëtius perdeu o domínio da bola na área, Ehizibue chegou para dominá-la e foi agarrado, o juiz marcou pênalti, e Piotr Parzyszek o converteu para o segundo do Zwolle. E ficou ainda mais forte aos 88': Namli mandou a bola para a área numa falta, Mokhtar escorou de cabeça, e Parzyszek diminuiu para 4 a 3 à queima-roupa. A ânsia do empate cresceu entre a torcida, mas aí Eric Botteghin entrou em campo para fechar a defesa nos minutos finais, e a primeira vitória do Feyenoord fora de casa neste ano foi mantida.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Feyenoord City: diretoria x torcida

A diretoria quer acelerar a construção da Feyenoord City. Falta combinar com a torcida (ANP)

Há algum tempo, o Feyenoord voltou a viver em paz interna. Independentemente das decepções desta temporada dentro de campo (que podem até ser minoradas, caso o time ganhe a Copa da Holanda que decidirá com o AZ em abril), a situação financeira do Stadionclub está relativamente tranquila – longe se vão dias como os de 2010, quando o dinheiro doado por um grupo de empresários foi muito bem vindo para ajudar a salvar o clube. Porém, por baixo dessa tranquilidade, há uma turbulência vindo aí. Com possibilidade de ser explosiva – para o clube e para a torcida.

Se havia dúvidas disso, elas acabaram justamente na rodada passada do Campeonato Holandês. O resultado até agradou - após duas derrotas em sequência, o Feyenoord fez 2 a 1 justamente no AZ -, mas o mais impressionante do jogo foram as faixas levantadas em vários setores de De Kuip. Iam de um singelo “I love De Kuip” até o trocadilho jocoso “Goldman Sucks” (logo será explicado), passando por “Feyenoord ja, City nee” (em holandês, “Feyenoord sim, City não”). Foi a eclosão definitiva de algo que já se via aqui e ali, entre uma partida e outra: a oposição aberta de parte considerável da torcida a um projeto ambicioso, que tentará fazer do clube um alvo mais atraente para grandes contratações e investimentos pesados. Trata-se da Feyenoord City.

Projeto apresentado no meio do ano passado pela diretoria do clube, tem uma grandeza impressionante, a princípio. Parte da intenção da construção de um novo estádio – De Nieuwe Kuip, “a nova banheira”, à beira do rio Maas, na zona sul de Roterdã – para construir um verdadeiro complexo de entretenimento ao redor dele: hotel quatro estrelas, spa, ancoradouro para barcos (possibilitando até que os torcedores possam ir ao estádio de transporte... marítimo). Tudo isso, sem deixar de lado o velho De Kuip, que teria uma parte transformada em praça pública – e a outra seria mantida para competições poliesportivas, aberta à população de Roterdã e também servindo de sede para a ampliação do museu do Feyenoord. Valor do projeto: vultosos 422 milhões de euros.

A Feyenoord City e sua intenção ambiciosa: unir o velho e o novo Kuip para mobilizar Roterdã (feyenoordcity.nl)
Tudo muito bom, tudo muito bem, tudo muito moderno. E a princípio, agradou a torcida. Em 2016, Gerard Hoetmer, presidente do Conselho Deliberativo do clube, apresentava uma enquete na qual 84 por cento dos torcedores se dizia a favor da Feyenoord City. E terminava: “Se isso não der certo, teremos problemas. Eu não quero problemas, então dará certo”. E a previsão da presença dos adeptos nos rumos do projeto, ao longo dos anos seguintes, fazia crer que o projeto era altamente promissor para elevar o Feyenoord.

Tal crença mudou drasticamente quando o conselho de torcedores do clube viu a que estava restrita a presença, nas reuniões sobre a Feyenoord City: era apenas para consultas sobre mobilidade e acessibilidade, como se tudo já estivesse definido de antemão. Se alas de De Kuip eram realmente ouvidas, eram apenas as alas reservadas aos diretores do clube, que têm visíveis poltronas vermelhas reservadas a eles no estádio. O torcedor comum, que fica nos lances inferiores de arquibancada – em geral, cadeiras de ferro pintadas de azul, muito próximas ao campo – passava em branco. E não era consultado nem mesmo quando eram reveladas coisas que podem resultar num futuro preocupante, se mal administradas.

Por exemplo, o empréstimo financeiro para a construção, que o clube já alinhavou com dois bancos de investimento que dispensam apresentações a quem entenda de economia: Goldman Sachs e IMG. Parceiros caso a Feyenoord City saia do papel, os fundos obviamente pressionam a diretoria para acelerar a resolução dos trâmites burocráticos e o início da construção. Escaldada pelos tempos de dívidas astronômicas (afinal, em algum momento o empréstimo terá de ser pago pelo Feyenoord), a torcida teme que o clube assuma compromissos que não poderá pagar posteriormente.

E pouco a pouco, direciona aos parceiros parte de sua discordância – daí o “Goldman Sucks” supracitado da faixa vista no domingo passado, contra o AZ. Chefe do departamento esportivo do banco norte-americano, Greg Carey riu, ao jornal Algemeen Dagblad: “Tudo bem, as pessoas têm dificuldades com mudanças. Mas falar ‘Goldman Sucks’?! Ora, nem sabíamos que o Feyenoord queria um estádio novo. Nós só fazemos aquilo que somos bons em fazer”. De fato, nesse ponto, não há o que questionar sobre a competência da organização financeira. Basta citar o envolvimento dela na construção do novo estádio do Tottenham – e no futebol americano, com o erguimento do Levi’s Stadium, a nova casa do San Francisco 49ers.

“Então, qual a sugestão da ala popular?”, pode-se perguntar. Pois é uma sugestão singela, mas desconsiderada da direção do Feyenoord. Uma sugestão expressa numa das faixas expostas no domingo passado, contra o AZ: “Renoveer De Kuip” (dá para entender o que significa, não?). De fato, embora não seja o mais novo dos estádios – são 80 anos -, a casa do Feyenoord ainda tem plenas condições de atender aos adeptos em tudo que for necessário. É o típico caso de estádio que ficaria como novo com uma reforma.

De mais a mais, é preciso entender: mesmo que a Feyenoord City saia do papel, se mostre viável e os empréstimos sejam pagos, será inevitável certo lamento da torcida. Não é à toa que o apelido do Feyenoord é “Stadionclub” (em holandês, “o clube do estádio”): por incrível que possa parecer a quem nasceu vendo a modernidade da Amsterdam Arena, o De Kuip é o estádio mais tradicional do futebol holandês. Motivos não faltam: lá foram jogadas dez finais de torneios continentais de futebol, incluindo duas decisões de Copas dos Campeões. Lá a França conquistou a Euro 2000. Lá a seleção holandesa ainda atua na maioria das partidas. Sem contar as várias apresentações musicais feitas sobre o gramado da “banheira”. Tudo isso, registrado nos muros de cada lado do corredor que leva os jogadores até a escada para o gramado. Só esse caminho já dá uma ideia da tradição que De Kuip tem no futebol europeu.

Após as manifestações da torcida, a administração do estádio e a diretoria do Feyenoord já se apressaram em emitir uma nota, afirmando que nada está certo, que todos os estudos sobre a viabilidade financeira serão refeitos, que os parceiros são de plena confiança (e até são) etc. Enfim, a torcida mostrou: estará de olho. Já que o Campeonato Holandês rende ao clube um melancólico 5º lugar até o momento, e a final da Copa da Holanda faz prever um jogo equilibrado com o AZ, o Feyenoord já pensa neste jogo, fora de campo. Que será ainda mais debatido do que os vistos dentro das quatro linhas.


(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 16 de março de 2018)

segunda-feira, 12 de março de 2018

810 minuten: como foi a 27ª rodada da Eredivisie

No clássico regional, o Heracles Almelo se valeu do desespero crescente do Twente para a virada (Pro Shots)
Heracles Almelo 2x1 Twente (sexta-feira, 9 de março)

Só o fato do primeiro cartão amarelo no clássico da região do Twente ter vindo com apenas 45 segundos de jogo (Adam Maher, ao derrubar Jamiro com um carrinho) já mostrava o tamanho da tensão vivida no estádio Polman - principalmente pelo Twente, cada vez mais desesperado com o perigo do rebaixamento. E a tensão foi tão grande que acabou resultando num primeiro tempo quase sem chances. Mesmo superior tecnicamente, o Heracles só arriscou algo com Brandley Kuwas (num chute aos 2' e num cruzamento aos 41'). O Twente, então, só teve chance com arremate de Maher, aos 32', espalmado pelo goleiro Bram Castro.

Mas a animação se fez presente na etapa complementar logo a partir dos cinco minutos dela: aos 50', Tom Boere fez o pivô para Danny Holla, e este lançou para Adnane Tighadouini finalizar e fazer 1 a 0 para os mandantes. O alívio durou pouco, todavia: aos 57', Kuwas cruzou, e Kristoffer Peterson finalizou - na primeira, o goleiro Joël Drommel ainda rebateu, mas na segunda Peterson garantiu o 1 a 1. Mais um pouco, e aos 63' o Heracles virou o jogo, no azar de Adam Maher: em escanteio, o zagueiro Robin Pröpper cabeceou, e o meio-campista dos Tukkers anfitriões tentou tirar em cima da linha. Apenas a mandou para o alto das redes, no 2 a 1 que aumentou as esperanças do time de Almelo com vistas à repescagem pela Liga Europa - e aumentou o drama do Twente, com somente nove pontos ganhos em 2018.

Como no sábado passado, o NAC Breda foi intenso. E teve outra vez a recompensa: a vitória que o ajuda a se aproximar da permanência (Maurice van Steen/VI Images)
ADO Den Haag 0x2 NAC Breda (sábado, 10 de março)

Mesmo que o jogo fosse no estádio de Haia, parecia que a ótima atuação do NAC Breda contra o Feyenoord, na rodada passada, não tinha acabado. Após uma chance inicial do Den Haag - aos 3', Nasser El Khayati finalizou em cima do goleiro Nigel Bertrams -, os visitantes de Breda se reanimaram no ataque. E enfim, coroaram a boa atuação com o bonito gol de Mounir El Allouchi para abrir o placar, aos 18', num voleio na entrada da área. Depois, aos 39', Sadiq Umar novamente se destacou, como no sábado passado: soube usar o corpo numa dividida com Wilfried Kanon, foi atingido na área, e viu o pênalti marcado por Danny Makkelie (que ainda expulsou Kanon - o zagueiro marfinense acertara Umar sem bola). Thierry Ambrose cobrou com precisão: 2 a 0 para os visitantes de Breda.

Descontente com o pênalti marcado, a torcida do Den Haag já começou seus protestos antes mesmo do intervalo, vaiando Makkelie incessantemente. No começo do segundo tempo, o juiz chegou até a interromper a partida, por alguns minutos, ameaçando suspendê-la. Só então as coisas ficassem pacificadas. Ainda assim, o time auriverde só voltou a trazer algum perigo aos 79', quando Nick Kuipers cabeceou a bola na trave e Donny Gorter finalizou a sobra em cima de Bertrams. De resto, o NAC Breda manteve sem problemas a segunda vitória seguida, que o coloca em ótima situação para  se salvar na primeira divisão (já são nove pontos de distância para as três últimas posições). Ao time de Haia, não bastasse a derrota e a zaga dilapidada (além da expulsão de Kanon, saíram lesionados Tom Beugelsdijk e Tyronne Ebuehi), a vaga na repescagem por Liga Europa ficou mais difícil.

O Excelsior, em sua doce rotina fora de casa: mais uma vitória, permanência na Eredivisie praticamente assegurada - e até a possibilidade de sonhar com a Liga Europa (Gerrit van Keulen/VI Images)
VVV-Venlo 2x3 Excelsior (sábado, 10 de março)

Era o encontro entre dois daqueles clubes-pequenos-com-campanhas-honrosas. E com detalhe importante: quem vencesse não só praticamente asseguraria a permanência na primeira divisão, mas também se aproximaria ligeiramente da zona de repescagem para a Liga Europa. Pois o Excelsior se valeu de sua proverbial capacidade para obter bons resultados fora de casa nesta temporada para sair na frente: Levi Garcia fez seu primeiro gol pelos Kralingers, abrindo o placar aos 35'. Só que o VVV-Venlo conseguiu o empate aos 41', de modo inesperado: um gol contra do zagueiro Jürgen Mattheij "à Oséas", pulando sozinho em escanteio e mandando a bola para as redes, de cabeça.

No segundo tempo, o início foi equilibrado, até Hicham Faik recolocar o Excelsior na frente aos 61', com um tremendo chute de fora da área - talvez, o mais bonito tento da rodada. Vinte minutos depois, Mike van Duinen fez 3 a 1 e deixou claro que o time de Roterdã chegaria à sua oitava vitória fora de casa na temporada. Lennart Thy até mostrou outra vez a valia que tem para o time de Venlo, diminuindo para 3 a 2 aos 85', mas os visitantes conseguiram manter a vantagem que lhes deu os objetivos primordiais daquele que seria o vencedor: com 35 pontos, em 11º lugar, deverão ficar na primeira divisão - e só a cinco pontos da zona de play-offs por Liga Europa, podem sonhar com ela.


A imagem inimaginável antes do começo do jogo: PSV inconsolável, humilhado por um fervilhante Willem II (Tom Bode/VI Images)
Willem II 5x0 PSV (sábado, 10 de março)

O Willem II estava abatido antes da partida: afinal, a saída do técnico Erwin van de Looi, prevista apenas para o fim da temporada, fora antecipada na quinta passada, em decisão do próprio treinador - sucedido pelo interino Reinier Robbemond. E o PSV (sem os suspensos Hirving Lozano e Jorrit Hendrix) tentou aproveitar tal abatimento no começo do jogo - logo aos 3', com Santiago Arias batendo rasteiro para fora, e aos 11', quando, da esquerda, Gastón Pereiro (definitivamente reabilitado na equipe) finalizou de fora da área - a bola saiu, mas passou perto da meta defendida por Mattijs Branderhorst. Só que a primeira boa chance da partida veio num contra-ataque dos mandantes, aos 14': Konstantinos Tsimikas cruzou da esquerda, e Rienstra completou na grande área, para a rebatida do goleiro Jeroen Zoet, meio no susto. A resposta dos Boeren veio de um modo bonito. Aos 20', Luuk de Jong tentou marcar contra o Willem II como já fizera na rodada passada, contra o Utrecht: Marco van Ginkel cruzou a bola, e o atacante arriscou uma puxeta, mandando a bola perto do travessão de Branderhorst.

Só que, no contra-ataque seguinte, aos 21', o Willem II chegou para marcar. Thom Haye lançou novamente - mas desta vez, quem pegou a bola foi Fernando Lewis, pela direita. E o lateral cruzou rasteiro, para Rienstra dominar na pequena área, se antecipando à zaga, e tocar por baixo de Zoet, fazendo 1 a 0. Era o início de um dia diferente na Eredivisie (no melhor dos sentidos). Ainda vivo no jogo, o PSV buscou o empate aos 25'. Pereiro cobrou falta, que saiu após desvio na defesa - e no escanteio surgido, Steven Bergwijn cobrou para Branderhorst pular e pegar a bola. Aos 40', Luuk de Jong reclamou de pênalti existente (foi visivelmente puxado por Freek Heerkens na área), mas o juiz Bjorn Kuipers até cartão amarelo deu ao atacante, pela queixa. A última chance para o empate ainda no primeiro tempo veio nos acréscimos: Ramselaar cruzou, e Pereiro completou com chute forte, que desviou em Branderhorst e foi para o lado. Ainda sofrendo de dores musculares iniciadas após cobrar um tiro de meta no primeiro tempo, o goleiro dos Tilburgers foi substituído pelo reserva Timon Wellenreuther após o intervalo.

Fran Sol, a prova da reação do Willem II: do tumor testicular extirpado aos três gols e ao posto de goleador da Eredivisie (ANP/Pro Shots) 
E os Eindhovenaren seguiram pressionando no começo da etapa final: aos 49', Arias cobrou escanteio, e Luuk de Jong cabeceou na pequena área - a bola passou pouco acima do travessão. Aumentando as dificuldades do Willem II, Reinier Robbemond precisou mudar mais um na defesa: também lesionado, Tsimikas saiu para a vinda de Giliano Wijnaldum (irmão mais novo do jogador do Liverpool). Mas os mandantes seguiam esbanjando esforço em campo, aumentando a já enorme empolgação da torcida nas cadeiras e arquibancadas do Willem II Stadion. Quase encaminharam de vez a vitória aos 58': Lewis recebeu a bola na direita, livre, e bateu colocado e cruzado, na trave direita de Zoet. A jogada seguiu, o PSV se descuidou na defesa, e no minuto seguinte veio a merecida ampliação da vantagem para o time de Tilburg. Elmo Lieftink ganhou a dividida com Pereiro no campo de ataque, dominou a bola e a passou a Fran Sol. E o espanhol fez o que a torcida do Willem II sempre espera dele: um chute preciso, no canto esquerdo de Zoet, que até pulou, mas amargou mesmo a esférica no seu filó para o 2 a 0 surpreendente - mas muito justo. Com Mauro Júnior vindo para o jogo quase imediatamente após o segundo gol (no lugar de Arias) e Luuk de Jong perdendo boa chance aos 64' - após escanteio e bate-rebate, o atacante dominou e arrematou forte, mas Wellenreuther pegou -, o PSV ainda tentou evitar a derrota que se avizinhava.

Mas estava difícil: o miolo de zaga estava vulnerável, as laterais abertas, o meio-campo dando espaço. Cada vez mais empolgado, o Willem II buscava o ataque. E foi premiado aos 70': Thom Haye completou cruzamento, e a bola foi às mãos de Derrick Luckassen. Pênalti marcado por Bjorn Kuipers, cartão amarelo para Luckassen, e Fran Sol bateu sem problemas para fazer 3 a 0. Estava iniciada a festa. Que teve sequência aos 76': Lieftink deixou a Rienstra, que superou Daniel Schwaab no jogo de corpo, entrou na área e bateu no canto esquerdo de Zoet para fazer 4 a 0. E se era necessária uma nota de rodapé para abrilhantar o dia histórico do Willem II, ela veio no último minuto: após escanteio, Luckassen puxou Lachman na área. Bjorn Kuipers viu, marcou o pênalti e deu o segundo cartão amarelo a Luckassen - logo, o cartão vermelho. Fran Sol bateu, fez seu terceiro gol no jogo - 13º na temporada, levando-o à artilharia do campeonato - e completou os 5 a 0, maior goleada da história do time de Tilburg sobre os visitantes de Eindhoven, que desde novembro de 1964 não sofriam derrota por tais números na Eredivisie. Certo, o PSV ainda está tranquilo na liderança do campeonato. Mas definitivamente, não esperava pelo vexame lamentável que sofreu.

Ao vencer o Roda JC no jogo direto, o Sparta provou: pode até ser rebaixado na repescagem, mas não se entregará sem luta (ANP/Pro Shots)
Roda JC 0x2 Sparta Rotterdam (sábado, 10 de março)

A partida no Parkstad Limburg Stadion, em Kerkrade, talvez fosse a mais fundamental desta rodada: na disputa pela fuga da última colocação, o duelo direto entre o vice-lanterna e o lanterna daria um impulso valioso ao vencedor (se vencedor houvesse, claro) para, pelo menos, buscar a chance da repescagem na reta final da temporada. E o Sparta começou em ótimas condições: já aos 12', fez 1 a 0, com o veterano zagueiro Sander Fischer fazendo apenas seu quinto gol em 122 partidas pela Eredivisie - mas, talvez, o mais importante deles. O Roda só teve chances de empate aos 39', quando uma finalização de Simon Gustafson, perto do gol, foi impedida pela zaga dos Spartanen.

No segundo tempo, antes que houvesse surpresa desagradável para os visitantes de Roterdã, Robert Mühren definiu a vitória aos 65': recebeu passe de Thomas Verhaar, chegou livre à área e finalizou para fazer com que o Sparta abrisse quatro pontos de vantagem em relação à lanterna. Surpresa desagradável mesmo tiveram os mandantes: aos 68', Donis Avdijaj recebeu em profundidade, tocou para o meio da pequena área, e Mikhail Rosheuvel teve o gol vazio para marcar, só que fez isto (aos que não clicaram: perdeu o gol, inacreditavelmente). Só restou ao atacante lamentar, na entrevista após o jogo: "A bola escorregou quando eu ia desviar". Avdijaj e Schahin também perderam chances. E o Roda ficou estacionado perigosa e aflitivamente na lanterna, com o Sparta celebrando uma das vitórias mais importantes que poderia ter.

O desvio acidental de Ryan Thomas colocou o Groningen no rumo de uma merecida vitória (Pro Shots)
Groningen 2x0 Zwolle (domingo, 11 de março)

A crise de um dos clubes já era aberta: afinal, o Groningen já não vencia havia seis jogos. Porém, os três pontos também não cairiam mal para o Zwolle, com apenas uma vitória e um empate nas sete rodadas anteriores. Entre os dois, os donos da casa se deram melhor no Noordlease Stadion. Desde o começo da partida, os Groningers rondavam a defesa adversária. Quase conseguiram o gol aos 21', num chute de Tom van de Looi, que saiu sem direção. Mas aos 25', a sorte ajudou os anfitriões alviverdes a fazerem 1 a 0: Tom van Weert cruzou forte, e Ryan Thomas desviou acidentalmente, cometendo gol contra. Amplamente superior, o Groningen poderia ter chegado ao segundo gol ainda antes do intervalo, na bela tentativa de Mimoun Mahi, aos 43' (um toque sutil, que encobriu o goleiro Diederik Boer e foi rumo ao travessão).

Para resolver seu problema, o Zwolle viu a entrada em campo do quarto mais jovem jogador da história da Eredivisie - que por sinal, se tornaria o mais jovem da história a tomar um cartão amarelo: aos 16 anos e 81 dias, Sepp van den Berg substituiu Erik Bakker no meio-campo. Até deu certo: os Zwollenaren foram mais ofensivos no segundo tempo. Mustafa Saymak perdeu gol cara a cara com o arqueiro Sergio Padt, aos 60', ao passo que Thomas quase marcou a favor, aos 73'. Só que os "Dedos Azuis" perderam suas chances. O Groningen, não: no último minuto, Ajdin Hrustic fez 2 a 0, num chute que desviou na defesa do Zwolle. E enquanto os mandantes ganharam certo respiro em relação à zona de repescagem/rebaixamento, uma das surpresas mais agradáveis do primeiro turno já se preocupa: o Zwolle até segue na zona da repescagem pela vaga na Liga Europa, mas na última posição da região (7º lugar), quatro pontos à frente do ADO Den Haag.

Pasveer tem motivos mais profundos para querer esquecer a goleada do Utrecht: falhou em dois dos cinco gols (Maurice van Steen/VI Images)
Utrecht 5x1 Vitesse (domingo, 11 de março)

"Acontece." Depois do jogo no estádio Galgenwaard, o Vitesse poderia se contentar com esse triste consolo. Afinal de contas, uma rodada depois de vencer o Ajax, o time de Arnhem foi facilmente superado pelo Utrecht. Desde o começo, o time de Jean-Paul de Jong mandou na partida. Aos 13', Mark van der Maarel tentou abrir o placar com um chute, pego pelo goleiro Remko Pasveer. Depois, tanto Yassin Ayoub quanto Zakaria Labyad tiveram chances para marcar. Finalmente, aos 36', coube a um zagueiro colocar os Utregs na frente: Labyad ajeitou, e Willem Janssen mandou a esférica para o filó. E só para encaminhar a vitória, o 2 a 0 do Utrecht foi ainda mais bonito, aos 44': rápido contra-ataque, de Gyrano Kerk para Sander van de Streek, deste para Labyad, de Labyad para o gol.

Na volta para o segundo tempo, o Vitesse até mostrou mais presença no ataque. E ganhou leves esperanças de reação ao diminuir, com Navarone Foor fazendo belo gol aos 55' (como na rodada passada, após Mason Mount passar, Foor acertou chute preciso e colocado nas redes). Só que tais esperanças foram definitivamente soterradas por duas falhas de Pasveer. Aos 60', o goleiro do Vites rebateu facilmente a bola cruzada nos pés de Van de Streek, que fez 3 a 1. Pasveer nem teve como fazer nada no quarto gol - Ayoub, aos 74', completando escanteio -, mas voltou a falhar dramaticamente no 5 a 1, três minutos depois: ao tentar dominar bola recuada, deixou-a passar sob seus pés, e a meta ficou livre para Ayoub marcar o segundo. Só restou aos colegas destinarem um consolo maior ainda a Pasveer, como fez o capitão Guram Kashia: "Já aconteceu algo assim comigo".


David Neres completou a goleada: após algum sofrimento, afinal o Ajax reduziu um pouco a distância ao PSV (Jasper Ruhe/ajax.nl)

Ajax 4x1 Heerenveen(domingo, 11 de março)

Joël Veltman foi o bode expiatório da derrota para o Vitesse: o capitão do Ajax foi para o banco, dando a lateral direita a Rasmus Kristensen e a braçadeira de capitão a Matthijs de Ligt (19 anos!). Porém, a pesada goleada sofrida pelo PSV reabriu os caminhos do Ajax. Que já poderia ter marcado aos 3': Donny van de Beek cobrou escanteio, e Morten Thorsby desviou acidentalmente na trave. Só que o Heerenveen deu sua primeira estocada com rapidez, também, aos 5': Denzel Dumfries chegou pela direita, cruzou, e Pele van Amersfoort escorou para fora, dividindo a bola com André Onana. Ainda assim, a primeira chance real de gol foi dos Ajacieden, aos 19', graças a Justin Kluivert. O camisa 45 driblou Dumfries, cruzou para o meio da área, e Huntelaar escorou por cima do gol. No minuto seguinte, novamente o camisa 9 tentou: dominou a bola na área após cruzamento, arrematando para a defesa de Hansen.

Aos poucos, o ritmo dos anfitriões diminuiu, e parecia que a partida entraria na perigosa e repetida tendência do Ajax nas partidas recentes: tocar e tocar, esperando o grande espaço. Aos 31', ele apareceu. E Ziyech aproveitou: o camisa 10 lançou a bola pelo alto, com perfeição, para De Ligt entrar no meio da área e desviar de cabeça, à direita de Hansen, fazendo 1 a 0. Parecia tudo bem, só que a vantagem dos Amsterdammers durou exatamente dois minutos. Foi o tempo que demorou para que os visitantes da Frísia tivessem espaço, e Thorsby tocasse a bola para Martin Odegaard. O norueguês dominou e finalizou bem para empatar o jogo: um chute firme, preciso, no canto esquerdo de Onana. E os mandantes de Amsterdã tiveram de voltar à estaca zero, buscando gols em momentos esparsos - como num cruzamento de Rasmus Kristensen, aos 43', ou num chute de Van de Beek afastado pela defesa no minuto seguinte.

Ajax voltou para o segundo tempo bem mais ofensivo. Insistiu, insistiu, e se tranquilizou com o gol de Tagliafico (ANP/Pro Shots)
Já na volta do intervalo, o Ajax buscou passar à frente novamente: com alguns segundos, David Neres deixou a bola com Huntelaar, que apenas escorou para Van de Beek entrar na área e finalizar à esquerda de Hansen. Mais um minuto, e foi a vez de Huntelaar perder chance até mais perigosa: David Neres cruzou, o atacante dominou no centro da área, girou, e bateu por cima do gol, sozinho. E aos 48', Ziyech arriscou, fora da área, mas Hansen conseguiu evitar o frango: segurou com a parte de trás das pernas a bola que passara por elas. Huntelaar teve outra grande oportunidade aos 50': estava sozinho na área, de novo, e finalizou de primeira o cruzamento de Kluivert, num voleio que mandou a esférica no travessão. Aos 53', foi a vez de Van de Beek voltar à carga, num cabeceio. Aí apareceu Hansen, com ótima defesa, espalmando a bola. Até que a insistência deu certo, aos 59'. Foram quatro chutes a gol. O primeiro, com Ziyech cobrando falta, foi na barreira. O segundo, com Schöne aproveitando a sobra, acertou o travessão de Hansen após desvio. O terceiro, de Maximilian Wöber, foi rebatido pelo goleiro do Heerenveen. E o quarto, enfim, de Nicolás Tagliafico, tomou o caminho desejado pelo Ajax: a rede (após bater na trave), sacramentando o 2 a 1, no primeiro gol do lateral argentino pelo clube que defende desde janeiro.

Batido e abatido após o gol, o Fean só tentou novamente o empate aos 69': Arber Zeneli, havia apenas alguns minutos em campo, veio da esquerda para o meio, chegou à beira da área e finalizou arrematando, para Onana pegar firmemente. No minuto seguinte, Henk Veerman entrou no ataque alviazul, para ter a alta estatura usada nas bolas aéreas. Mas foi o Ajax que quase fez o terceiro gol - aos 70', num contra-ataque com três contra um, em que Ziyech foi impedido por Hansen. Foi o Ajax que achou tempo e espaço para o 3 a 1, aos 88': mais um lançamento de Ziyech, para Van de Beek finalizar - e que transformou a vitória em goleada nos acréscimos, com David Neres. E foi o Ajax que conseguiu a vitória, mesmo com alguns sustos, cumprindo a expectativa de encurtar para sete pontos a distância para o líder PSV. A esperança de título segue diminuta, mas acesa. Enquanto houver vida (ou bambu)...

Feyenoord aliviado: após duas derrotas seguidas, uma vitória contra o AZ, para oferecer perspectivas rumo à final da Copa da Holanda (Tom Bode/VI Images)
Feyenoord 2x1 AZ (domingo, 11 de março)

Claro, Campeonato Holandês e Copa da Holanda são torneios diferentes, com situações diferentes. Na Eredivisie, o AZ vive situação mais tranquila que a do Feyenoord: terceiro colocado, 14 pontos à frente do Stadionclub, considerado um time melhor (coletivamente falando) do que o atual campeão holandês. Mas era impossível evitar a lembrança de que os dois times se encontrarão no próximo dia 22 de abril, para a final da KNVB Beker. Mais impossível ainda evitar lembrar que, no primeiro turno, os Feyenoorders haviam imposto um categórico 4 a 0 em plena Alkmaar. E era óbvio que o time da casa iria tentar mostrar força ofensiva desde o começo em De Kuip, para provar que não é nem um pouco inferior aos Alkmaarders. Pelo menos no primeiro tempo, o objetivo foi plenamente atingido. Já aos seis minutos, o Feyenoord teve grande chance de abrir o placar: Karim El Ahmadi cruzou, e Nicolai Jorgensen só não finalizou certo porque seu toque de calcanhar saiu mal feito.

Aos 11', Oussama Idrissi ainda deu o sinal de vida dos visitantes, num chute bem defendido por Brad Jones no gol. E mais: aos 23', o AZ teve todos os motivos para reclamar do juiz Dennis Higler, que deixou passar o claro pênalti cometido por Jan-Arie van der Heijden, cuja mão impediu a bola de avançar num cruzamento rasteiro de Guus Til - as queixas foram tantas que Alireza Jahanbakhsh até levou cartão amarelo. Depois, a oportunidade dos mandantes foi ainda mais concreta: aos 30', Jorgensen cabeceou à queima-roupa, para Marco Bizot espalmar no reflexo, provando por quê foi um dos três goleiros pré-convocados por Ronald Koeman para os amistosos da seleção holandesa. Todavia, aos 33', Bizot nada pôde fazer: o zagueiro Pantelis Hatzidiakos errou um recuo e deixou a bola nos pés de Jean-Paul Boëtius, que veio da esquerda para o meio e finalizou com chute rasteiro para fazer 1 a 0.

Motivos não faltaram para o AZ de Weghorst reclamar: chances perdidas, erros graves da arbitragem, outra derrota contra os grandes... (Tom Bode/VI Images)
Ainda antes do intervalo, Steven Berghuis quase marcou o segundo gol: em cobrança de falta, o ponta-direita acertou a trave de Bizot. Para resolver a pressão ofensiva, o técnico John van den Brom fortaleceu tanto a defesa (com a entrada de Ron Vlaar, enfim recuperado de lesão) quanto a criação de jogadas, com a vinda de Mats Seuntjens para o campo. De nada adiantou: fora um cabeceio de Wout Weghorst, a defesa do Feyenoord sequer foi pressionada. E o ataque demorou um pouco, mas enfim fez o segundo gol, aos 73': Berghuis passou, Tonny Vilhena fez o corta-luz, e Jorgensen ficou livre para marcar seu primeiro gol em 2018, encaminhando a vitória do Stadionclub.

No final, o AZ teve outra razão para reclamar de Dennis Higler: uma bola vinda dos pés de Kevin Diks foi pega por Brad Jones com as mãos, mas o juiz também não marcou tiro livre indireto, após a infração do goleiro australiano. Ainda houve tempo para Weghorst diminuir, já nos acréscimos, mas o fato é que o AZ amargou, de novo, outra derrota contra o Trio de Ferro - nos onze jogos recentes contra Ajax, PSV ou Feyenoord, o time de Alkmaar só conseguiu um ponto. Retrospecto negativo, para um time tão agradável de se ver jogar nesta temporada. Bem, pelo menos já há uma data marcada para reencontrar o Feyenoord e mostrar valor...