domingo, 5 de maio de 2024

A análise do campeão: deu match

O PSV enfim pôde fazer a festa do título holandês que tanto mereceu. E mereceu, principalmente, pela coesão das partes: diretoria inteligente, técnico adequado, jogadores que cumpriram expectativas (PSV/Divulgação)
 
"Das trevas se fez a luz." Certo, certo, é exagerado escrever isso sobre o PSV: o clube de Eindhoven passava longe da crise antes do 25º título holandês conquistado neste domingo. Quando nada, porque vinha de um bicampeonato na Copa da Holanda. Entretanto, é justo dizer que os Boeren sentiam falta de ter a salva de prata dada ao campeão dos Países Baixos na sala de troféus do museu dentro do Philips Stadion, em Eindhoven. E voltarão a tê-la, depois de seis anos, porque a formação de uma equipe que fez temporada tão dominante na Eredivisie começou antes mesmo que a temporada passada acabasse. Talvez por isso, o que se viu e se vê do PSV em campo foi tão encaixado.

É possível dizer que essa formação surgiu a partir da escolha dos dois "cabeças" que comandam os rumos atuais do PSV. Para começo de conversa, o diretor geral Marcel Brands fora o diretor de futebol do clube entre 2010 e 2018, período que contou com três títulos nacionais (2014/15, 2015/16 e 2017/18). Após a passagem - algo malograda - pelo Everton, Brands voltou a Eindhoven em 2022. Desta vez, para ser o diretor geral. E coube a ele uma escolha pacificadora para dirigir o futebol. Afinal de contas, o antecessor John de Jong entrara em rota de colisão com o Conselho Deliberativo do PSV, em relação à venda de Cody Gakpo, ainda em 2022 - o conselho recomendava a venda, De Jong queria manter Gakpo. Manteve-o, é verdade. Mas foi demitido naquele ano mesmo. Para trabalhar com Marcel Brands, chegou o ex-atacante norte-americano (nascido nos Países Baixos) Earnie Stewart, então diretor de seleções da federação dos Estados Unidos. 

Earnie Stewart (à esquerda) como diretor de futebol, Marcel Brands como diretor geral: enfim, o PSV teve uma diretoria remando para o mesmo lado (Maurice van Steen/ANP/Getty Images)

Quando Stewart foi anunciado no PSV, ainda em janeiro do ano passado, já sabia que teria o generoso montante - 37 milhões de euros - da venda de Gakpo ao Liverpool, logo após a Copa de 2022, para montar um grupo de jogadores. Àquela altura, já chegara um jogador fundamental para o que se vê atualmente nos Eindhovenaren: o meio-campo Joey Veerman, vindo do Heerenveen também em janeiro de 2023. E o PSV terminou aquela temporada até razoavelmente: bicampeão da Copa da Holanda, vice-campeão holandês. Entretanto, ruídos com o grupo de jogadores quanto ao método de trabalho levaram à saída abrupta do técnico Ruud van Nistelrooy. Abatido por perder quem mais o inspirava dentro do PSV (Van Nistelrooy era considerado por ele um "tutor", um conselheiro), Xavi Simons - o grande destaque de 2022/23 em Eindhoven, um dos goleadores da Eredivisie - preferiu voltar ao Paris Saint-Gérmain. 

Problemas? Nem tanto. Porque, além do dinheiro de Cody Gakpo, chegava também o dinheiro da venda de Noni Madueke ao Chelsea - mais 40 milhões de euros. Se as transferências fossem bem pensadas, era um valor considerável. Até porque a dupla Marcel Brands-Earnie Stewart já sabia o que desejava antes dos jogadores: um técnico ofensivo, que fizesse o PSV se impor dentro de campo. Aproveitou a chance da disponibilidade de Peter Bosz, a hesitação do Ajax (que teria até mais chances de trazer Bosz de volta a Amsterdã, já que o próprio até se colocara à disposição quando a temporada passada acabou), e apostou no treinador de 60 anos, que já deixou claro na coletiva de apresentação, em julho: iria querer ofensividade. As contratações do PSV que o dissessem: se foi impossível manter Xavi Simons, o PSV conseguiu seu grande objetivo - Noa Lang, badalado pela boa passagem pelo Club Brugge belga. Era necessário mais um ponta confiável? Oras, voltou mais um ídolo, Hirving Lozano, com experiência para estar a postos, mesmo sem ser titular como foi em sua primeira passagem. Havia uma lacuna de um ponta-de-lança rápido, que pudesse jogar pelo meio e pelos lados e até ajudar o ataque? Pois bem: o norte-americano Malik Tillman foi emprestado pelo Bayern de Munique.

Peter Bosz foi trazido para fazer do PSV um time ofensivo. Teve os jogadores que desejava para isso. E... fez isso (Pieter van der Woude/BSR Agency/Getty Images)

E o PSV começava a mostrar uma de suas principais qualidades: a inteligência para atender aos desejos de Peter Bosz, sem gastar excessivamente com transferências. Lateral esquerdo? Pois bem: Sergiño Dest veio emprestado do Barcelona, e Patrick van Aanholt teve o empréstimo prolongado junto ao Galatasaray-TUR. Um atacante que pudesse ser opção confiável caso Luuk de Jong estivesse impossibilitado? Que viesse outro promissor norte-americano, Ricardo Pepi, encostado no Augsburg alemão. Joey Veerman estava sobrecarregado como volante - e nem era tão defensivo quanto necessário? Muito bem: Jerdy Schouten sinalizou que desejava voltar a jogar na Holanda (Países Baixos), para ficar mais perto de uma convocação à seleção, o PSV "captou" esses sinais e o repatriou. Já foi o suficiente para que, mesmo com a temporada em início, viessem o título da Supercopa da Holanda e a vaga na fase de grupos de 2022/23. Criou-se, então, um círculo virtuoso. Porque, ao verem que as contratações eram ambiciosas e fortaleciam o time, os remanescentes preferiam ficar em Eindhoven a aceitarem ofertas de centros mais competitivos. Que o diga Johan Bakayoko: o ponta-direita belga foi cortejado pelo Brentford-ING, foi cortejado até pelo PSG... mas preferiu apostar em mais um ano jogando pelos alvirrubros de Eindhoven.

Veio, então, a prova definitiva do citado círculo virtuoso. Qual foi o resultado da equação "dupla de diretores precavida em contratações + técnico atendido em seus desejos pela dupla de diretores + jogadores que se encaixaram no que o técnico desejava"? O melhor primeiro turno da história do Campeonato Holandês, igualando o que o próprio PSV fizera em 1987/88: cem por cento de aproveitamento - em 17 jogos, 17 vitórias, goleadas a granel (incluindo um 5 a 2 no Ajax, na 10ª rodada, deixando os rivais de Amsterdã momentaneamente na última posição da Eredivisie), atuações primorosas (contra o AZ, na 16ª rodada, o placar estava em 3 a 0 já nos primeiros 15 minutos de jogo - fora de casa). Ao vencer o Feyenoord, também fora - 2 a 1, na 14ª rodada -, disparando na liderança, já ficava a impressão de que o PSV seria o time a ser batido nos Países Baixos. Até no grupo B da Liga dos Campeões, vieram bons augúrios: se a equipe começou sendo goleada pelo Arsenal - 4 a 0 -, conseguiu a classificação às oitavas de final já na quinta rodada, numa partida marcante. Afinal, fora de casa, o Sevilla fazia 2 a 0... até que Lucas Ocampos foi expulso aos 66', logo depois o PSV diminuiu, e Peter Bosz colocou o time como prefere: atacando incessantemente. Veio o empate, e nos acréscimos, Ismael Saibari fez o gol da comemorada virada por 3 a 2, que classificou o time às oitavas. Com tudo isso, era até previsível que Peter Bosz falasse repetidas vezes que era "o melhor grupo com quem já havia trabalhado".

Está certo que Luuk de Jong se confirmou como ídolo eterno em Eindhoven, mas foi Joey Veerman o melhor do PSV na temporada, comandando plenamente o meio-campo (Soccrates/Getty Images)

2023 acabou, 2024 chegou, e com ele alguns solavancos. O sonho de Tríplice Coroa acabaria em 24 de janeiro, com a eliminação nas quartas de final da Copa da Holanda, para o Feyenoord. O sonho de conseguir a maior sequência de vitórias da história da Eredivisie também: na 18ª rodada, a primeira do returno, o primeiro empate (1 a 1 com o Utrecht). Algumas lesões começaram a perturbar jogadores importantes, como Lozano, Noa Lang ou até o novato Isaac Babadi. Nada que atrapalhasse muito um time seguro e confiante. Por sinal, Jordan Teze exibia essa confiança: ainda jovem, enfim desabrochava, virando nome versátil na direita da defesa (na lateral ou na zaga). Mas o grande símbolo disso tudo em campo era a primorosa dupla de volantes, entrosada a não mais poder - enquanto Jerdy Schouten ajudava muito a diminuir o trabalho da defesa (às vezes, até, era recuado para o miolo de zaga, em detrimento de André Ramalho), Joey Veerman ditava o ritmo da equipe, criando jogadas, tendo qualidade nos passes e lançamentos. E Luuk de Jong, livre de lesões, sem precisar defender a seleção da Holanda (anunciara o abandono definitivo dela logo após a Copa de 2022), vivia o esplendor de sua carreira, reforçando o status de ídolo em Eindhoven, subindo para disputar a artilharia da Eredivisie e entrando na lista dos dez maiores goleadores da história da liga. Mesmo em momentos mais difíceis, como os clássicos - 1 a 1 contra o Ajax na 20ª rodada, 2 a 2 contra o Feyenoord na 24ª, chegando a ficar atrás no placar -, o PSV parecia nunca perder a confiança.

Disputando a artilharia do Campeonato Holandês, quarto título nacional pelo PSV, entrando na lista dos dez maiores goleadores da Eredivisie, subindo na lista de maiores goleadores do PSV: Luuk de Jong tem em Eindhoven o porto seguro de sua carreira (Getty Images)

Se houve um período de mais dificuldade, este foi em março. Mesmo tendo sido adversário valoroso para o Borussia Dortmund nas oitavas de final da Liga dos Campeões, um mau começo no jogo de volta, saindo atrás logo aos quatro minutos e perdendo chances, pesou demais para a eliminação. Dias depois, em jogo árduo pela 26ª rodada (contra o Twente, em Eindhoven), o 1 a 0 da vitória veio só nos acréscimos. Porém, na rodada seguinte, contra um NEC que evoluía, o PSV se deixou levar pelo cansaço, pelo desleixo, talvez por uma certa "arrogância" criticada por Peter Bosz - e tomou sua primeira, e até agora única, derrota na Eredivisie: 3 a 1, de virada. O choque seria pesado, diante de um Feyenoord que também fazia bom papel? Nada disso: dali por diante, só três gols sofridos nas cinco rodadas seguintes. Uma sequência de goleadas: 5 a 1 no AZ (29ª rodada), 6 a 0 no Vitesse (30ª rodada), 8 a 0 no Heerenveen (31ª rodada - simplesmente a maior vitória fora de casa que o PSV teve em sua história na Eredivisie). E até mesmo no susto do jogo do título, ao sair atrás diante do Sparta Rotterdam, o time se aprumou e impôs sua superioridade técnica, para fazer 4 a 2 e confirmar o título.

Confirmar de fato, bem entendido. Porque, de direito, o PSV já provara havia muito tempo que era o melhor time do Reino dos Países Baixos nesta temporada. Ainda pode se tornar, em termos numéricos, o melhor campeão da história da Eredivisie (mais pontos, mais gols marcados, menos gols sofridos). Porque, entre diretores, técnico e jogadores, "deu match" no PSV. Deu título. Deu show.

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