domingo, 26 de abril de 2026

Segunda divisão: uma festa para dois

O ADO Den Haag já era favorito ao acesso antes mesmo da segunda divisão da Holanda (Países Baixos) começar. Logo estabeleceu seu domínio na liderança. E além de promovido, terminou campeão (Angelo Blankespoor/Soccrates/Getty Images)

Antes mesmo que qualquer bola rolasse na temporada 2025/26 da Eerste Divisie, a segunda divisão da Holanda (Países Baixos), ADO Den Haag e Cambuur já eram fortes favoritos a conseguirem o acesso à Eredivisie, fosse diretamente - como campeão ou vice-campeão -, fosse por meio da repescagem de pós-temporada. Pois bem: antes mesmo das 38 rodadas regulares acabarem, já se desconfiava que os dois subiriam diretamente. Porque, pela qualidade que ambos demonstraram, pelas sequências de invencibilidade, pela regularidade em campo, logo ficou claro que a disputa pelo acesso direto seria uma festa restrita a dois clubes. O resto que disputasse lugar na repescagem.

É bem certo que, além ainda dos dois que monopolizaram a maioria da disputa da temporada, um clube chamou a atenção em especial, entre os 20 que jogaram a Keuken Kampioen Divisie: o Vitesse. Afinal de contas, poucas vezes se viu na história do futebol holandês uma montanha-russa de sentimentos tão grande. Antes da temporada começar, o clube de Arnhem parecia destinado a disputá-la como um zumbi: embora vivo, já começando com uma dedução de 12 pontos, como punição da federação holandesa pela falta de comprovação de condições financeiras. Também por elas, às vésperas da segunda divisão começar, teve a licença profissional definitivamente extinta. Parecia o triste fim de 134 anos de história da segunda agremiação mais antiga a jogar futebol profissionalmente no Reino dos Países Baixos. Só não foi o fim porque a junta que tomou conta do Vites decidiu levar a briga que estava na Justiça Desportiva à Justiça Comum holandesa. 

Depois de praticamente ser extinto, o Vitesse entrou atrasado na disputa da Eerste Divisie. Reagiu, chegou até a sonhar com o acesso... e mesmo com o sonho acabado, terminou de cabeça erguida, graças às boas atuações de gente como Dillon Hoogewerf (Gerrit van Keulen/Soccrates/Getty Images)

Nela, o veredito foi de que a federação exagerara, era suspeita em sua sanção - logo, licença restabelecida para os Arnhemmers recomeçarem dos escombros (as rodadas já eram disputadas sem eles). De volta a partir da quinta rodada - as partidas das quatro primeiras rodadas foram reagendadas -, o Vitesse já deu sinal de que viria forte com a primeira vitória: 3 a 1 no Helmond Sport, na 7ª rodada. Aos poucos, jogadores como o lateral esquerdo Alexander Büttner (ídolo do clube, ainda mais por ficar nele em meio a toda a barafunda), o meio-campo Adam Tahaui e os atacantes Dillon Hoogewerf e Naoufal Bannis fundamentaram um time esforçado sob o comando do técnico Rüdiger Rehm. O Vites descontou a punição de 12 pontos, deixou a lanterna para trás... e na reação constante, chegou às últimas rodadas disputando ativamente o posto de melhor do 4º período (30ª a 38ª rodadas), o que o colocaria na repescagem de acesso, com chance de voltar à Eredivisie, dois anos após a queda. Um empate sem gols contra o MVV Maastricht, em casa, na penúltima rodada, já dificultou as coisas, e a queda para o Cambuur na última rodada acabou com o sonho. Mas a trajetória de reação do Vitesse mereceu aplausos. Até o julgamento do recurso que vem aí...

De volta aos outros 19 competidores da Eerste Divisie, no entanto, bem que clubes como Den Bosch e o time B do PSV tentaram sonhar com o título. Só que, a partir da 8ª rodada, o ADO Den Haag tomou a liderança. Foi o melhor do 1º período (entre a 1ª e a 10ª rodadas) e do 2º (11ª a 19ª rodadas) também. E dali por diante, o time de Haia só perderia a liderança por um fugaz momento na 30ª rodada. O trabalho do técnico Robin Peter, originado no RB Leipzig, se ancorou numa defesa segura (com 37 gols, a única a sofrer menos de um gol por rodada na temporada), a começar pelo goleiro burquinês Kilian Nikiema e a continuar por Steven van der Sloot, até um inesperado goleador - 8 gols - para um lateral direito. No meio, um nome experiente em termos de Eredivisie: Jari Vlak, ex-Willem II, 11 gols (goleador do Den Haag na temporada), tendo a seu lado coadjuvante confiável no finlandês Juho Kilo. E no ataque, meia adiantado, estava o austríaco Luka Reischl, com outro nome conhecedor do futebol holandês em campo, Daryl van Mieghem, ex-Volendam. Reischl e Vlak foram os abre-alas do melhor ataque desta segunda divisão, com 90 gols.

O técnico Henk de Jong (segurando o troféu de acesso) caiu com o Cambuur. Superou problemas de saúde, e ficou para cumprir o que a torcida queria, aumentando sua idolatria: o acesso, como vice-campeão (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Se o ADO Den Haag passou 30 das 38 rodadas como líder, tinha a persegui-lo por todo esse tempo o Cambuur. Que se orgulhava de um bom impulso fora de campo: seu novo estádio, o Kooi (que se por um lado é próprio, por outro aumentou as dívidas). No campo, mas não exatamente dentro dele, um ídolo: o técnico Henk de Jong, que treinava o clube no rebaixamento de 2022/23 - e, durante ele, superou uma cirurgia para remover um cisto no cérebro -, seguiu no comando dos auriazuis de Leeuwarden, e contou com bons jogadores. Na zaga, um nome que pode até estar na Copa do Mundo: o marroquino Oscar Baouf, campeão mundial sub-20 em 2025, já frequentando as convocações da seleção principal de Marrocos - e Baouf ainda tinha parceiro regular no finlandês Tomas Galvez. No meio-campo, a referência - e um dos fortes candidatos a craque do campeonato: o experiente capitão Mark Diemers, ex-Feyenoord. E no ataque, Ichem Ferrah, ótimo nos chutes colocados. Bastou também para enfileirar vitórias, incluindo duas sobre o campeão Den Haag, em casa e fora.

Enquanto Willem II e De Graafschap iam bem, praticamente se garantiam na repescagem de acesso, mas passavam longe de ameaçar a dupla, outros clubes iam e vinham. O Emmen teve o goleador da temporada - Romano Postema, emprestado pelo Groningen, 24 gols -, pensou em entrar na repescagem pela posição na tabela, mas escorregou e ficou de fora. O Almere City viveu o rumo oposto: teve altos e baixos, mas afinal embalou na reta final (incluindo fazer 1 a 0 no ADO Den Haag, na 30ª rodada), e conseguiu a vaga na repescagem. Mesmo caso do Den Bosch, há mais tempo (21 anos) fora da primeira divisão, que começou bem, decaiu aos poucos, mas se aprumou e foi o último a garantir vaga nos play-offs de acesso. Entre os times B, talvez, o destaque negativo da temporada: o Jong Ajax, que foi ainda pior do que o "irmão principal". Se este está ameaçado de ficar sem competições europeias na primeira divisão, o time B Ajacied foi o último colocado da temporada na segunda divisão.

Contudo, desde o começo deste 2026, com a segunda metade da temporada, já se sabia: o título, o vice-campeonato e as duas vagas diretas na Eredivisie eram assunto privativo de ADO Den Haag e Cambuur. O Den Haag deixou as decepções dos anos recentes na repescagem para trás a partir da 32ª rodada, quando garantiu o acesso ao fazer 1 a 0 no time B do Utrecht, em 17 de março. O Cambuur esperou um pouco mais: uma semana - em 24 de março, por jogo atrasado da 22ª rodada, 4 a 1 no Emmen, e acesso garantido. Faltava ver quem seria o campeão. Foi o Den Haag: com apenas uma derrota e todo o restante de vitórias nas cinco rodadas finais, o time de Haia celebrou com taça o acesso, após cinco anos.

Mas o Cambuur também não teve do que reclamar. Nenhum dos dois, aliás. Afinal, a festa da segunda divisão holandesa era só para eles. E terão muito o que comemorar até agosto, quando começa a Eredivisie. Tensão, agora, só para os times da repescagem (Willem II, De Graafschap, Almere City, RKC Waalwijk, Roda JC e Den Bosch)...

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