Embora ainda seja um estádio controverso (há ainda quem prefira o clima dos estádios antigos - mesmo os torcedores mais idosos do Ajax, ainda saudosos do velho De Meer -, e De Kuip, menos falado, é também um templo do futebol europeu), a Johan Cruyff Arena, antiga Amsterdam Arena, é inegavelmente marcante no futebol europeu e mundial, tendo sido um dos primeiros estádios a trazer o conceito hoje comum de "arena multiuso", com lanchonetes, lojas e até estacionamentos internos. Pois bem: sua existência tem sido celebrada neste 2026, ao completar 30 anos, desde a inauguração com um amistoso em 14 de agosto de 1996, entre Ajax e Milan (Milan 3 a 0). Contudo, foi outro amistoso de seu início que teve participação brasileira. Mais precisamente, da Seleção Brasileira. E aquele 2 a 2, que completa 30 anos exatamente nesta segunda-feira, teve traços interessantes.
Para a Laranja, era um recomeço, sendo o primeiro jogo após a turbulenta participação na Euro 1996 (e, em aspectos mais genéricos, era a primeira partida da Laranja usando uniformes da Nike, parceria que segue 30 anos depois, anterior até à parceria com o Brasil). A Euro 1996 deixava marcas: Edgar Davids, principal protagonista de toda a confusão, estava ainda punido pelo técnico Guus Hiddink, sem ser convocado, e assim seguiria por todas as Eliminatórias da Copa de 1998. No entanto, Hiddink - que divulgara pouco antes uma cartilha de comportamento, tentando mitigar os riscos de problemas internos explodirem como haviam explodido na Euro - seguia contando com boa parte dos jogadores que fariam bonito no Mundial de dois anos depois. Alguns deles ficaram no caminho daquele trabalho da qualificação, como o meio-campo Jean-Paul van Gastel e o atacante Jordi Cruyff (desnecessário dizer de quem ele é filho, certo?). Outros já eram titulares absolutos, e assim seguiriam, como Edwin van der Sar, Frank de Boer e Dennis Bergkamp. E outros, ainda, foram chegando e já estiveram na Copa. Como um certo Giovanni van Bronckhorst, que fez naquele amistoso contra o Brasil a primeira das 106 partidas de sua carreira pela Laranja.
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| O amistoso contra a Seleção foi a primeira das 106 partidas de Van Bronckhorst pela Laranja (Richard Sellers/Sportsphoto/Allstar/Getty Images) |
Se o Brasil, tetracampeão mundial que era então, não precisava se preocupar com as eliminatórias da Copa - até 2002, quem vencia o Mundial ganhava automaticamente a vaga na edição seguinte -, também tinha o que mudar. Se não tinha a ver com a seleção principal, o fim lamentável da campanha da Seleção no torneio olímpico daquele 1996 aumentava a pressão sobre Zagallo (1931-2024). Com relação à equipe principal, a intenção do "Velho Lobo", dita à televisão holandesa no pré-jogo, era iniciar definitivamente "o trabalho de preparação para a Copa de 1998".
O amistoso era parte de uma pequena "turnê europeia" da Seleção, iniciada três dias antes, com outro 2 a 2, contra a Rússia, em Moscou. E o Brasil chegava à novíssima Amsterdam Arena, vestindo ainda uniformes da Umbro (a parceria com a Nike começou em 1997), com alguns titulares absolutos que o seriam no vice mundial de 1998, como Cafu e Ronaldo; com gente que até iria à Copa, mas como coadjuvante (casos do goleiro Carlos Germano - Taffarel estava afastado da Seleção, por vontade própria, até o ano seguinte -, do ponta-de-lança Giovanni, substituído por Leonardo, outro presente, e dos zagueiros Gonçalves e André Cruz); e, finalmente, com nomes até experimentados, mas logo deixados de lado, como o lateral esquerdo André Luis, o volante Zé Elias - estes, titulares no bronze dos Jogos Olímpicos daquele ano -, o meio-campo Sérgio Manoel, e os atacantes Donizete (o célebre "Pantera") e Jardel.
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| Num Brasil começando a preparação para a Copa de 1998 no amistoso, Carlos Germano acabou ficando daquele 31 de agosto de 1996 até o Mundial, mesmo sendo reserva (Mark Thompson/Allsport/Getty Images) |
E, em tempos pré-data FIFA - não existia esse conceito -, obter a liberação de jogadores era coisa complicada. Mauro Silva que o dissesse: o meio-campo estava convocado, mas foi impedido de jogar pela FIFA, por ter pedido a liberação, já que o Deportivo tinha, no mesmo dia, partida contra o Real Madrid, pelo Campeonato Espanhol (o jogo terminou empatado em 1 a 1). Ronaldinho e Giovanni, então, teriam de fazer sacrifícios: jogariam pelo Brasil, e pegariam o avião imediatamente depois do amistoso, para voarem à Espanha e defenderem o Barcelona no dia seguinte, contra o Oviedo, também por La Liga. Não era a única complicação brasileira: outro remanescente do tetracampeonato de 1994, o zagueiro Márcio Santos, estava retornando aos poucos do rompimento do tendão de Aquiles, sofrido em setembro de 1995. Jogando justamente pelo Ajax, estava sem muito espaço. Em visita à delegação brasileira, até ouviu crítica leve de Zagallo: "Gosto do futebol dele, mas não posso chamar um defensor de um time, que, há poucos dias atrás, tomou de 6 a 0 da Juventus, da Itália [pelo Troféu Teresa Herrera, torneio amistoso]. Além disso, estou gostando dos meus beques".
Contudo, mais até do que o amistoso, a Amsterdam Arena era uma novidade gigante - uma "coisa de século XXI", nas palavras com que Galvão Bueno, então narrador da TV Globo, abriu a transmissão daquele jogo, ocorrido num sábado, às 15h de Brasília. Por mais que fossem visíveis problemas como o gramado ainda problemático, com tufos saindo a cada chute - o gramado seria um problema da Amsterdam/Johan Cruyff Arena por muito tempo, ainda -, ver um estádio sendo um centro de entretenimento geral e não só algo para a prática de esportes impressionava os brasileiros. Basta citar o destaque dado à abertura do estádio (também citando a questão do gramado) na matéria de Arnaldo Ribeiro, para a Folha de S. Paulo no dia do jogo.
Ou então, lembrar a matéria "Campo dos Sonhos", publicada pela revista Placar na edição de outubro de 1996. Nela, Paulo Vinícius Coelho - sim, o repórter hoje estabelecido como comentarista -, o fotógrafo Alexandre Battibugli e o infografista Mario Kanno destrinchavam como funcionava a Amsterdam Arena. Para o trabalho, tiveram sorte. Inicialmente, chegaram poucos dias antes do 31 de agosto de 1996, e sabiam que o Ajax não seria muito colaborativo na visita guiada permitida para que conhecessem o estádio. Até que, em certo momento, dando a volta no estádio, encontraram um portão entreaberto. Encostaram na porta, ela se abriu, nenhum segurança apareceu barrando, Battibugli (apelidado "Batti") começou a tirar fotos, Mario Kanno mediu as cadeiras com trenas, PVC fez suas anotações, assim ficaram mais alguns dias... e o trio praticamente destrinchou todo o estádio novo. Quando o Ajax comandou a visita guiada de uma hora, sem permitir acesso a muitos lugares, nada de problemas: o trio já tinha apurado o suficiente para a matéria que rendeu a PVC o Prêmio Abril de Jornalismo, premiação cedida pela editora homônima a reportagens de suas revistas.
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| A matéria da Placar sobre a Amsterdam Arena dava boa mostra de como o estádio novo interessava (Reprodução) |
Jogo iniciado, após os dois hinos serem cantados por um casal de cantores líricos e um pianista - a cantora entoou o Hino Nacional Brasileiro, e o cantor, "Het Wilhelmus", o hino holandês -, a Holanda começou assustando mais: logo aos dois minutos de jogo, Jonk chutou de longe, e Carlos Germano rebateu. Com avanços dos laterais Michael Reiziger e Arthur Numan, a ofensividade holandesa era maior. Porém, praticamente no primeiro ataque brasileiro, o primeiro gol: aos 13', Zé Elias lançou a bola do meio-campo, Giovanni dominou na área e finalizou. Edwin van der Sar ainda desviou, mas insuficiente para evitar o 1 a 0 do Brasil.
Foi aí que a Seleção cresceu. Enquanto Donizete marcava a saída de bola holandesa, Giovanni encaminhava as jogadas, Ronaldo se mexia mais para finalizar, e as chances apareciam. Às vezes, em bolas paradas, como na cobrança de falta de André Cruz, aos 19', por cima do gol. Às vezes, em iniciativas individuais, como a de Ronaldo aos 35': ao receber lançamento de Giovanni, ele ajeitou de cabeça, passou por Van der Sar, e só não fez o gol porque, ao finalizar, Stam afastou a bola em cima da linha.
Só que a Laranja seguia ativa. Terminou o primeiro tempo reagindo em um chute de Michael Reiziger (boa atuação), para fora. Passou por uma alteração no intervalo, com Gaston Taument substituindo Jordi Cruyff, que mais fez faltas do que criou chances de ataque. E o crescimento holandês foi premiado com um empate até rápido: logo aos 51', Bergkamp cruzou da direita, e Ronald de Boer entrou finalizando para fazer 1 a 1. Só não foi mais rápido do que a reação brasileira: três minutos depois, escanteio ensaiado, Leonardo cruzou a bola, e Gonçalves fez 2 a 1 com um leve desvio, que tirou a bola do alcance de Van der Sar.
Só que a Laranja seguiu tendo mais a bola, sem que o Brasil aproveitasse as chances de contra-atacar (chance perigosa brasileira, só aos 81', quando Ronaldo recebeu de Leonardo, chegou à área e bateu para Van der Sar defender). Os holandeses é que tentaram, como aos 64', num cruzamento de Taument que Van Bronckhorst completou para fora. Contudo, só nos acréscimos veio o empate. E num pênalti suspeito: André Luís derrubou Bergkamp, na linha divisória da área, e o juiz escocês Hugh Dallas apitou o pênalti convertido por outro estreante: o meio-campo Jean-Paul van Gastel, que substituiu Ronald de Boer.
E assim terminou o Brasil x Holanda que inaugurou a então Amsterdam Arena (hoje, Johan Cruyff Arena) na história da seleção masculina dos Países Baixos. Aliás, o esadio chamou mais a atenção do que o jogo.
(Os melhores momentos de Holanda 2x2 Brasil, amistoso em 31 de agosto de 1996, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno. Postado no YouTube por Dane)
FICHA DO JOGO
Amistoso
Holanda 2x2 Brasil
Data: 31 de agosto de 1996
Local: Johan Cruyff Arena/Amsterdam Arena (Amsterdã)
Árbitro: Hugh Dallas (Escócia)
Gols: Giovanni, aos 12', Ronald de Boer, aos 51', Gonçalves, aos 54', e Jean-Paul van Gastel, aos 90' + 3
HOLANDA
Edwin van der Sar; Michael Reiziger, Jaap Stam, Frank de Boer e Arthur Numan; Wim Jonk (Jean-Paul van Gastel, aos 77'), Ronald de Boer, Clarence Seedorf e Giovanni van Bronckhorst; Jordi Cruyff (Gaston Taument, aos 46') e Dennis Bergkamp. Técnico: Guus Hiddink
BRASIL
Carlos Germano; Cafu, Gonçalves, André Cruz e André Luis; Zé Elias, Amaral e Leonardo; Giovanni; Donizete (Sérgio Manoel, aos 83') e Ronaldo (Jardel, aos 86'). Técnico: Zagallo




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