De certa forma, a situação da seleção da Holanda não se alterou muito entre a Copa de 1934, primeira participação da Laranja num Mundial, e 1938, quando ela estaria de novo numa edição do torneio. Na federação dos Países Baixos, o presidente podia ser ainda Dirk van Prooije (1881-1942), que comandou a KNVB entre 1930 e 1942, mas o diretor Karel Lotsy continuava tendo tanta ou mais autoridade na entidade (até demais, costumeiramente). Se a situação não mudou fora de campo, teve uma leve alteração nele - para pior. Com azar logo no começo daquela Copa, sem causar a expectativa levemente positiva que atraíra quatro anos antes, a Holanda também foi eliminada rapidamente.
Houve um outro fator a prejudicar a seleção dos Países Baixos: o apego excessivo de Karel Lotsy ao amadorismo, regime que o futebol do país ainda seguia. Se algum dos jogadores da Laranja - ou mesmo atuando em qualquer clube do futebol neerlandês - se interessasse em ganhar dinheiro ao praticar a modalidade, seria prontamente barrado da equipe nacional pelo diretor de seleções. Foi o que aconteceu com um dos principais destaques holandeses para a Copa de 1934: o atacante "Beb" Bakhuys. Em 1937, Bakhuys aceitou a proposta do Metz, da França - país que já adotara o profissionalismo no esporte. Bastou: aquele também foi o último ano em que jogou pela seleção holandesa. Tudo pela proibição imposta por Lotsy sobre profissionais na Holanda.
A não ser pelo afastamento de Bakhuys, porém, o cenário na seleção mudara pouco. A começar pelo técnico: muito próximo a Karel Lotsy, o inglês Robert "Bob" Glendenning (1888-1940) seguia treinando a Holanda - aliás, comandando a equipe desde 1923, tal proximidade com a federação faria de Glendenning o técnico que mais treinou a Laranja em todos os tempos: 87 partidas, recorde que dura até hoje, quase cem anos depois. No campo, os destaques liderados por Glendenning eram muito semelhantes aos da Copa de 1934: Wim van Anderiesen e Puck van Heel no meio-campo, cuja experiência se somava à juventude ainda mantida por "Leen" Vente e "Kick" Smit no ataque - que possuiria ainda duas novidades.
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Bob Glendenning foi um técnico marcante nos primeiros tempos da seleção da Holanda. De certa forma, continua sendo, por seu recorde que ainda vige (Arquivo Nacional) |
Nas eliminatórias, o caminho da Holanda ficaria mais fácil do que se supunha. A princípio, haveria um triangular regional com Bélgica e Luxemburgo: três nações disputando uma vaga. Poderia ser dramático, mas com a desistência de vários países da América do Sul em tentar jogar a Copa, uma vaga adicional que "sobrou" dos sul-americanos foi destinada ao grupo 9 da qualificação europeia, que teria o triangular do Benelux. Desde aquela época, Holanda e Bélgica já tinham seleções francamente superiores a Luxemburgo. E com três seleções para (agora) duas vagas, era fácil imaginar quais equipes iriam à Copa. No caso da Holanda, bastou vencer Luxemburgo (4 a 0 em De Kuip/Roterdã, em 28 de novembro de 1937) para garantir lugar no Mundial. Em 3 de abril de 1938, apenas cumprindo tabela, um empate (1 a 1) com a Bélgica, também assegurada entre as 16 seleções classificadas.
Como preparação antes da viagem à França, um amistoso com derrota (3 a 1 para a Escócia, em Amsterdã, no dia 21 de maio de 1938). E daquela vez, a expectativa já baixa da torcida em sua seleção ficou ainda mais abalada pelo mau destino no sorteio. Numa Copa outra vez disputada com "mata-mata" desde o começo, caberia à Holanda enfrentar a Tchecoslováquia, vice-campeã mundial em 1934, com uma brilhante e experiente geração de jogadores: o goleiro Frantisek Planicka, o zagueiro Ferdinand "Fernando" Daucik, o meia Vlastimil Kopecky, o atacante Oldrich Nejedly.
Não deu outra: a queda previsível aconteceu no Estádio Municipal de Le Havre, em 5 de junho de 1938. Se serve de consolo, a Holanda (que tinha o mais jovem - Bertus de Harder, 18 anos - e o mais velho - Wim Anderiesen, 34 anos - jogadores daquela Copa) se esforçou demais. Conteve os tchecos durante todo o tempo normal, conseguindo alcançar a prorrogação. Porém, já na reta final dos 90 minutos, o meia "Freek" van der Veen torceu o tornozelo, e precisou sair do jogo. Com dez em campo, numa época em que ainda não havia substituições no futebol, a Laranja sucumbiu na prorrogação: Josef Kostalek fez aos 96', Nejedly marcou aos 102', Josef Zeman completou aos 104', Tchecoslováquia 3 a 0, classificada para as quartas de final - nas quais seria eliminada pelo Brasil.
Pelo menos, aquele mês de junho terminou com um momento curioso na história da seleção da Holanda: um amistoso não-oficial, em 26 de junho. Explique-se: a região onde atualmente se localiza a Indonésia era colonizada na época pelo Reino dos Países Baixos - tratavam-se das Índias Holandesas Orientais (onde, aliás, havia nascido o citado "Beb" Bakhuys), que... também haviam jogado a Copa de 1938 - e também tinham sido eliminadas logo na estreia, goleadas pela Hungria (6 a 0). Porém, pelo território ser considerado "parte do reino", o amistoso com a seleção índica não entrou nas estatísticas oficiais. E o 9 a 2 da Holanda na sua colônia distante virou apenas uma memória distante.
Como virariam memórias distantes as próprias participações da Holanda nas Copas de 1934 e 1938. No ano seguinte, começaria a Segunda Guerra Mundial. Os Países Baixos sofreriam barbaramente, em muitos casos. Em outros, haveria colaboração com o Eixo nazifascista (a começar pela relação - contestada aqui e ali - de Karel Lotsy, o todo-poderoso presidente da federação, com os nazistas). De todo modo, o caráter amador que persistiu por muito tempo retardou bastante o desenvolvimento da Holanda. Craques como os atacantes Faas Wilkes e Abe Lenstra nunca passariam nem perto de uma Copa do Mundo. E o Reino dos Países Baixos era, para todos os efeitos, uma nação de segundo/terceiro escalão no futebol masculino.
Até a sua volta a uma Copa do Mundo, 36 anos depois. Quase uma "reestreia". Que seria antológica.
Os convocados da Holanda para a Copa de 1938
Goleiros
Adri van Male (Feyenoord) - 1 jogo
Niek Michel (VSV Velsen) - não jogou
Zagueiros
Mauk Weber (ADO Den Haag) - 1 jogo
Bertus Caldenhove (DWS Amsterdam) - 1 jogo
Dick Been (Ajax) - não jogou
Hendrikus Plenter (Be Quick 1887) - não jogou
Meio-campistas
Wim Anderiesen (Ajax) - 1 jogo
Puck van Heel (Feyenoord) - 1 jogo
Bas Paauwe (Feyenoord) - 1 jogo
Frans Hogenbirk (Be Quick 1887) - não jogou
René Pijpers (RFC Roermond) - não jogou
Atacantes
Frank Wels (Unitas) - 1 jogo
Leen Vente (Feyenoord) - 1 jogo
Kick Smit (HFC Haarlem) - 1 jogo
Bertus de Harder (VUC Den Haag) - 1 jogo
Frans "Freek" van der Veen (Heracles Almelo) - 1 jogo
Arie de Winter (HFC Haarlem) - não jogou
Daaf Drok (RFC Rotterdam) - não jogou
Klaas Ooms (DWB) - não jogou
Piet de Boer (KFC) - não jogou
Piet Punt (DFC Dordrecht) - não jogou
Henk van Spaandonck (Neptunus) - não jogou
Técnico: Bob Glendenning
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