domingo, 19 de março de 2017

Perto de "vvvoltar"


O VVV-Venlo já prepara a festa da volta à primeira divisão (Daniel van den Berg/vvv-venlo.nl)
Quick Boys, Achilles ’29, Go Ahead Eagles… vez por outra, há nomes pitorescos nos clubes do futebol holandês. Outro fenômeno comum nas nomenclaturas das agremiações daquele país é a “sopa de letrinhas”: PSV, NEC, NAC (Breda), MVV, ADO, o falido AGOVV Apeldoorn... Pois bem: geralmente, nessas siglas, as letras “V” são referentes a “voetbal” (futebol) e “vereniging” (união, associação). Bastou que fosse fundado um clube, na cidade de Venlo, em 7 de fevereiro de 1903, para que ficasse previsível o nome: Venlose Voetbal Vereniging, Associação de Futebol de Venlo. O tempo e a coincidência pitoresca encarregaram-se de tornar o VVV-Venlo um clube que conseguiu unir, em um só nome, a curiosidade e as letras.

E é justamente a equipe aurinegra que está às portas do retorno à Eredivisie. Assim como ocorreu com os últimos campeões da segunda divisão holandesa, o VVV conseguiu disparar num certo momento da temporada. E atualmente, com a Eerste Divisie já na 30ª rodada (a ser iniciada hoje), a oito do final, os Venlonaren já ostentam 69 pontos. Na teoria, uma vantagem já gigante para o segundo colocado: 11 pontos. Na prática, quase inalcançáveis 15 pontos para o único time que possa impedir o acesso direto à primeira divisão, luxo único para o campeão. “Como assim? Quem é o segundo colocado?”, há de perguntar o leitor. Calma, que ele já virará assunto. Sexta-feira, no Espreme a Laranja (sabe como é, piada sem graça e pênalti não se perdem...).

A curiosidade do VVV-Venlo em sua campanha já na rota do título é que o clube não possui muitos destaques individuais em sua equipe. Goleador? Longe disso: o topo da lista está com Tom Boere, do FC Oss, clube nas últimas posições da tabela, autor de 28 gols. Depois, vem Piotr Parzyszek, do De Graafschap (que caiu da Eredivisie, via repescagem), com 19 gols. E jogadores do VVV só aparecerão na sétima posição da lista, com os atacantes Ralf Seuntjens e Vito van Crooy, cada um com 13 gols. Clube com mais gols marcados? Não, também não é: é o segundo, com 65. O líder da Eerste Divisie só ponteia na defesa menos vazada (18 gols sofridos) e no número de chutes a gol (255).

Desta forma, é possível dizer que o principal mérito do VVV-Venlo em sua campanha está na coesão do time – e no equilíbrio entre experiência e juventude. Mesmo tendo se frustrado na busca do acesso, em 2015/16 (foi eliminado na segunda fase dos play-offs, pelo Go Ahead Eagles), a diretoria seguiu confiando no trabalho de Maurice Steijn como técnico. Manteve no elenco Ralf Seuntjens, o principal destaque da temporada passada. Algumas perdas foram contrabalançadas com contratações razoáveis para os baixos padrões técnicos da segunda divisão – os meio-campistas Clint Leemans e Joey Sleegers são bons exemplos.

E os reforços entrosaram-se bem com a base que já existia, fosse com os mais experientes no clube (o volante Danny Post e o zagueiro Jerold Promes), fosse com as novidades (das quais o atacante Vito van Crooy, 20 anos, é a mais satisfatória). Assim, o caminho foi aberto para a volta à primeira divisão, após quatro anos. Já se fala abertamente que é questão de tempo a comemoração da “vvvolta” do VVV-Venlo – onde, só para continuar com os “v”, já jogou VV...Vampeta, que passou o primeiro semestre de 1995 cedido ao clube de Venlo.

Contudo, se o VVV-Venlo é o destaque mais claro desta temporada na segunda divisão holandesa, o vice-líder supracitado também tem lá suas razões para merecer atenção. Não que também seja barbada para subir: afinal de contas, as equipes B que disputam a Eerste Divisie já sabem que a promoção à elite é proibida para elas. Até por isso, o Jong Ajax, time de aspirantes dos Amsterdammers, dá oportunidade constante a gente que logo aparecerá no time de cima. E o nível da geração tem sido bom o suficiente para ocupar a segunda posição, com 58 pontos – quatro à frente do MVV Maastricht, único clube a poder ameaçar na prática o título do VVV.

Van de Beek, Nouri, Kluivert, De Ligt e Sierhuis (de cima para baixo, da esquerda para direita): a nova geração do Ajax já dá capa de revista, é é considerada "o futuro" (Reprodução/Voetbal International)
Basta citar a lista de jogadores jovens que, nesta temporada, já atuaram no Jong Ajax e também receberam as primeiras oportunidades entre os comandados por Peter Bosz: o zagueiro Matthijs de Ligt, os meio-campistas Frenkie de Jong e Abdelhak Nouri, os atacantes Pelle Clement e Justin Kluivert – sem contar David Neres, que vai sendo “treinado” no Jong Ajax antes de ser mais usado no time de cima. Com mais ritmo de jogo, os novatos ganham mais confiança e preparação para serem opções imediatas para Peter Bosz, além de virarem apostas quase imediatamente. Nouri já esteve sob os holofotes nesta temporada; Kluivert também; e a “febre da vez” é De Ligt, 17 anos, que teve atuação primorosa contra o Copenhague, nesta quinta, pela Liga Europa – a ponto dos exagerados já pedirem sua presença na convocação de Danny Blind para os jogos contra Bulgária (eliminatórias da Copa) e Itália (amistoso). E até mesmo gente exclusiva do Jong Ajax, como o atacante Kai Sierhuis, tem merecido certa atenção.

Além dos novatos, já falados a ponto de merecerem capa da revista Voetbal International, há também o caso de gente mais velha que, para ganhar ritmo após se recuperar de lesão, joga algumas partidas antes de voltar ao time de cima. Ou mesmo ganha nos aspirantes as oportunidades que não recebe na equipe principal. O que já aconteceu com muita gente, nesta temporada, pelo Jong Ajax: Jaïro Riedewald, Davinson Sánchez, Heiko Westermann, Thulani Serero, Mateo Cassierra, Vaclav Cerny... aconteceu até mesmo com Tim Krul, que fez duas solitárias partidas pelo Jong Ajax na segunda divisão antes de deixar o clube. E também acontece com outro exemplo de equipe B que faz boa campanha: o Jong PSV, quarto colocado. Pelos aspirantes de Eindhoven, já estiveram Oleksandr Zinchenko, Siem de Jong, Steven Bergwijn, Jürgen Locadia...

O que não quer dizer que os Eindhovenaren também não desovem na equipe de jovens suas “cartas na manga”. Uma vez ou outra, Phillip Cocu já se valeu dos préstimos dos atacantes Sam Lammers e Ramon-Pascal Lundqvist. E já se fala que, para 2017/18, mais gente do Jong PSV aparecerá no grupo de cima para não sair mais: o zagueiro Jurich Carolina, o volante Pablo Rosario, o meio-campista Kenneth Paal, além dos citados. Pelo menos para isso, a inclusão das equipes B dos grandes clubes na segunda divisão tem servido: para dar ritmo de jogo aos novatos holandeses – que assim, quem sabe, rendam o que não têm rendido nas seleções de base.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 17 de março de 2017)

quarta-feira, 15 de março de 2017

810 minuten: como foi a 26ª rodada da Eredivisie

Kruiswijk foi o herói do dia: enfim, sentiu o gosto de balançar as redes na carreira (Jeroen Putmans/VI Images)

Vitesse 5x0 Sparta Rotterdam (sexta-feira, 10 de março)

O Sparta Rotterdam vinha de duas vitórias seguidas no Campeonato Holandês - inclusive, surpreendendo com a vitória sobre o Feyenoord, na rodada passada. No entanto, os Spartanen ainda tinham contas a acertar em Arnhem: afinal de contas, os mandantes os eliminaram na semifinal da Copa da Holanda. Para tentar o terceiro triunfo consecutivo, os Kasteelheren vieram com o mesmo esquema visto contra o Feyenoord: um 5-3-2, com Mathias Pogba na frente. Porém, não demorou para o Sparta ver que esta rodada não seria igual àquelas que passaram. Um erro do lateral Denzel Dumfries rendeu o 1 a 0 ao Vitesse: aos 22', Dumfries tentou recuar a bola de cabeça para o goleiro Roy Kortsmit. Deixou-a nos pés de Ricky van Wolfswinkel, que conferiu. Estava aberta a porteira para a vitória categórica do Vitesse. Aos 34', bela jogada de Navarone Foor rendeu o segundo gol: o meio-campista driblou Dumfries no meio das pernas, e tabelou com Nathan antes de concluir.

Porém, o grande momento do dia veio com o terceiro gol, aos 40'. Havia algumas rodadas, o zagueiro/lateral Arnold Kruiswijk batera o duvidoso recorde de jogador da Eredivisie com mais tempo sem marcar gols em toda a carreira. Pois bem: de cabeça, Kruiswijk colocou pela primeira vez a bola nas redes, após 25.318 minutos, desde que começou a atuar, em 2002, no Groningen. O 3 a 0 virou goleada de vez no minuto final do primeiro tempo, com Marvelous Nakamba. Com a vitória garantida, só veio mais um gol na etapa final: Guram Kashia, aos 61', completando escanteio escorado. Mas o herói do dia já era Kruiswijk, que saiu de campo aplaudido após, enfim, ter acabado com sua seca pessoal. E até fez piada: "Os outros comemoraram mais o meu gol do que eu!".


O ADO Den Haag agradeceu tanto a sua primeira vitória no returno que Havenaar até mereceu um beijo ao marcar (Laurens Lindhout/adodenhaag.nl)

ADO Den Haag 1x0 NEC (sábado, 11 de março)

Do modo como a partida começou em Haia, parecia que a via-crúcis do ADO Den Haag iria continuar. Como último colocado da Eredivisie, o time da casa sofreu com os ataques mais frequentes e perigosos dos visitantes de Nijmegen. Eles começaram cedo (aos 15', Mohamed Rayhi chutou para fora, perto do gol defendido por Robert Zwinkels), mas os mais perigosos vieram na parte final. Aos 35', Rayhi mandou a bola mais perto: chutou-a no travessão. Aos 37', Gregor Breinburg tentou em chute semelhante: arrematou da entrada da área, forçando Zwinkels a espalmar para fora. E aos 42', Jay-Roy Grot saiu em posição legal para a finalização, livre, mas chutou fracamente, nas mãos do goleiro.

Na etapa complementar, os Nijmegenaren começaram mais ofensivos. Rayhi tentou um chute aos 47', mas arrematou por cima do gol; no minuto seguinte, Grot voltou a ter chances; aos 52', Ali Messaoud tentou cruzar, mas a bola veio fácil para Zwinkels defender. Ao Den Haag, franco-atirador, só restavam tentativas esparsas. Para sorte dos mandantes auriverdes, uma delas rendeu o gol sonhado. Aos 72', Mike Havenaar (que saíra da reserva, substituindo Guyon Fernandez) completou para as redes, de cabeça, um cruzamento de Ruben Schaken. No último minuto, Zwinkels ainda evitou o empate, agarrando bola vinda no cabeceio de Messaoud. E o ADO Den Haag pôde, enfim, comemorar sua primeira vitória no returno. Na hora certa para manter chances de permanência na primeira divisão.

PSV teve suas dificuldades, mas fez o que lhe resta: venceu mais uma e manteve-se tranquilo (ANP/Pro Shots)
Go Ahead Eagles 1x3 PSV (sábado, 11 de março)

Enfrentando um adversário que tenta se livrar da zona de repescagem/rebaixamento, o PSV sofreu no primeiro tempo. Nem tanto com a pressão dos mandantes, mas com algumas polêmicas de arbitragem. A primeira delas, aos 11': numa cobrança de escanteio, Gastón Pereiro cabeceou para o gol, mas o tento foi invalidado pelo juiz Kevin Blom (na jogada, Héctor Moreno deu um empurrão num marcador). Depois, o volante Marcel Ritzmaier chutou a bola de propósito nas costas de Luuk de Jong, que reclamou - sem que ninguém fosse punido. Finalmente, aos 34', Sam Hendriks deu uma dura entrada em Siem de Jong, mas apenas a falta foi marcada, sem que um cartão fosse dado. Luuk reclamou, e quem levou o amarelo foi ele.

Então, houve muita briga e pouco futebol em Deventer? Não foi bem assim. Claro que os visitantes de Eindhoven tentaram o gol. Primeiramente, aos 19', num chute de Pereiro que saiu pela linha de fundo. Aos 24', o atacante uruguaio apareceu de novo: arrematou para difícil defesa do goleiro Theo Zwarthoed. O GAE só avançou no final da primeira etapa: aos 38', Jarchinio Antonia arriscou de fora da área, por cima do gol, enquanto Elvis Manu apareceu livre, dois minutos depois, tocando em cima do arqueiro Jeroen Zoet. Por fim, aos 40', os Boeren visitantes abriram o placar: Rochdi Achenteh agarrou Davy Pröpper na área, Kevin Blom marcou o pênalti, e Siem de Jong (começando como titular, novamente) converteu para o 1 a 0 do PSV.

Todavia, novamente os Eindhovenaren tiveram dificuldades para manter a vantagem. Já aos 48', veio o empate do Kowet: Sam Hendriks tabelou com Daniel Crowley, recebeu pela direita da grande área e cruzou para o meio, onde já estava Manu, que completou para o gol vazio. Restou aos visitantes correrem atrás. Pereiro quase fez de novo, Siem de Jong perdeu chance ainda maior, mas quem marcou o segundo foi mesmo o irmão mais novo de Siem: aos 61', Santiago Arias cruzou rasteiro para o camisa 9 escorar, sendo outro De Jong a marcar no jogo, fazendo o 2 a 1. Quatro minutos mais tarde, Pereiro perdeu uma daquelas chances imperdíveis: driblou Zwarthoed e ficou com a meta inteira à sua frente, mas chutou em cima do lateral Joey Groenbast. Pelo menos, o gol não fez falta aos visitantes. Até porque, aos 84', num chute colocado, Andrés Guardado fez o terceiro, para assegurar a vitória. Fora ou dentro de casa, não restam muitos objetivos ao PSV nesta temporada, a não ser tentar beliscar o vice-campeonato holandês - de outro modo, a terceira colocação já é quase uma certeza. Assim, pelo menos, veio mais uma vitória.



O Heracles levou um susto no primeiro tempo, mas batalhou até conseguir a vitória contra o Utrecht (ANP/Pro Shots)
Heracles Almelo 2x1 Utrecht (sábado, 11 de março)

O retrospecto do Utrecht nesta temporada, jogando em campos de grama sintética, era admirável: sem derrotas (quatro vitórias - três pelo Holandês, uma pela Copa da Holanda -, dois empates). E na grama sintética do estádio Polman, em Almelo, os ofensivos Utregs resistiram a um chute de Brandley Kuwas, logo no primeiro minuto de jogo, para arriscarem um pouco mais, ainda que num primeiro tempo desanimado. Sébastien Haller e Nacer Barazite chutaram, até que, aos 26', saiu o gol dos visitantes. Thomas Bruns perdeu a bola no meio-campo, para Sofyan Amrabat. O volante passou a Haller, e deste para seu parceiro de ataque, Gyrano Kerk, que bateu. O goleiro Bram Castro ainda rebateu, mas Yassin Ayoub estava a postos para aproveitar a sobra e pespegar o 1 a 0 nos mandantes. O Heracles ainda tinha motivos para reclamar: no primeiro tempo, Kuwas sofreu falta dura de Mark van der Maarel, mas o zagueiro do Utrecht sequer levou o que seria seu segundo cartão amarelo no jogo.

Restou voltar a buscar o empate. Que foi conseguido pelos mandantes de Almelo já no primeiro minuto do segundo tempo: o zagueiro Justin Hoogma deu um chutão, que só parou com o ótimo domínio de Kuwas, arrematando para as redes, da entrada da área. O 1 a 1 empolgou a partida: as duas equipes passaram a buscar chances para a vitória em Almelo. Aos poucos, os Heraclieden chegavam mais. Quase viraram o jogo em dois chutes consecutivos, de Tim Breukers e Kevin Conboy, ambos rebatidos pelo goleiro David Jensen. Todavia, aos 86', os Almelöers se impuseram: Kuwas lançou Bruns em profundidade, o meio-campista finalizou para a defesa de Jensen, mas a sobra ficou para o próprio camisa 10 do Heracles impor a primeira derrota do Utrecht em grama sintética nesta temporada do futebol holandês.

Elbers (segundo da esquerda para a direita) agradece: o Excelsior viveu o dia que sonhava em Heerenveen (ANP/Pro Shots)
Excelsior 4x1 Heerenveen (sábado, 11 de março)

12 jogos sem vitória para o Excelsior, mais uma vez brigando para não cair na Eredivisie. Enquanto isso, se caiu de produção neste returno (só vencera duas das nove partidas), o Heerenveen continua brigando mesmo assim na zona dos play-offs por vaga na Liga Europa. Porém, pelo que se viu no estádio Woudestein, parecia que os Kralingers é que faziam a temporada sem muitos problemas. Depois de muito tempo, o Excelsior fez ótima partida. Impôs respeito desde o começo, e não demorou para abrir o placar: aos 15', Stanley Elbers driblou Lucas Bijker pela direita, arriscou o chute quase sem ângulo e se deu bem, enganando o goleiro Erwin Mulder e fazer 1 a 0. Mais cauteloso, o time da casa dava a posse de bola ao Heerenveen, apostando nos contra-ataques. Em um deles, veio o segundo gol: aos 42', Hicham Faik cobrou escanteio, e o zagueiro Jürgen Mattheij se antecipou à marcação de Joost van Aken, cabeceando para ampliar a vantagem dos anfitriões.

E bastou o segundo tempo começar para que o Excelsior deixasse ainda mais clara a sua superioridade em campo: aos 47', o lateral esquerdo Milan Massop fez o terceiro gol dos Kralingers. Nos visitantes da Frísia, o técnico Jürgen Streppel insistiu em acelerar o ataque: tirou de campo Sam Larsson, Martin Odegaard e Arber Zeneli, o trio mais criativo de meio-campo/ataque do Fean. Não mudou muito as coisas: Ryan Koolwijk quase fez 4 a 0. Porém, serviu para que um dos que entraram, Luciano Slagveer, diminuísse o placar, em voleio, aos 77'. Sem problemas: nos acréscimos, aos 90' + 2, Nigel Hasselbaink apareceu sozinho na cara do gol, para confirmar a goleada que, pelo menos por uma rodada, tirou o Excelsior da zona de repescagem/rebaixamento.

Em Willem II x Zwolle, pelo menos esse lance não foi polêmico: Falkenburg abre o placar (Henry Dijkman/VI Images)
Willem II 2x0 Zwolle (domingo, 12 de março)

Tanto os Tricolores mandantes quanto os "Dedos Azuis" visitantes parecem ter aprendido a lição no returno: afastaram os perigos de repescagem/rebaixamento no returno, vivendo um período de ascensão para a segurança do meio de tabela. O estádio em Tilburg veria qual dos dois estava mais avançado nessa reação. E pelo que se viu na etapa inicial, o Willem II foi o vencedor inquestionável deste "confronto direto". Já aos 4', o atacante Obbi Oularé forçou o arqueiro Mickey van der Hart a fazer boa defesa. E os Tilburgers controlaram o jogo, até abrirem o placar, aos 24': Dico Koppers (lateral esquerdo convertido em ponta) arriscou o chute, Van der Hart rebateu, mas Erik Falkenburg estava alerta para pegar o rebote e fazer 1 a 0. Aos 36', Falkenburg quase marcou mais um, só que ficou outra polêmica do futebol holandês sobre "gol ou não" na temporada: a bola vinda do cabeceio foi tirada por Ouasim Bouy, em cima da linha, e Bjorn Kuipers mandou o jogo seguir. Como o Willem II Stadion não tem a tecnologia "olho-de-gavião", ficou o dito pelo não validado.

Trocar dois jogadores aos 40 minutos do primeiro tempo, como o técnico Ron Jans fez, já era sinal claro de como o Zwolle estava frágil em campo. No ataque, a entrada de Kingsley Ehizibue até deu mais posse de bola aos Zwollenaren, mas criar chances de gol, que são boas, os visitantes só criaram aos 61', num arremate de Nicolai Brock-Madsen, defendido sem problemas por Kostas Lamprou. No minuto seguinte, Lamprou agarrou bola vinda em cabeceio de Danny Holla. E aos 74', Ryan Thomas teve a grande chance do empate, mas chutou nas mãos do guarda-metas grego. Depois disso, o Willem II passou a controlar o jogo, tentando encaixar um contra-ataque. Que veio nos acréscimos, aos 90' + 1, para Thom Haye finalizar, fazendo 2 a 0 e colocando o time da casa na nona colocação do Campeonato Holandês, afastando de vez o perigo de rebaixamento - que voltou às preocupações do Zwolle, pelas vitórias de Excelsior e ADO Den Haag. Nada grande, mas é bom tomar cuidado.


Jorgensen estava adormecido? Pois escolheu ótima hora para "acordar": três gols, um passe para outro, e destaque absoluto na goleada do Feyenoord (Pro Shots)
Feyenoord 5x2 AZ (domingo, 12 de março)

Derrotado na rodada anterior. Sem alguns importantes jogadores: lesionados, Brad Jones, Terence Kongolo e Eljero Elia desfalcariam a equipe. Tonny Vilhena, um dos melhores jogadores do time e do campeonato, pressionado por uma sanção à sua espera: quatro jogos, por uma cotovelada em Mathias Pogba, na derrota para o Sparta. E enfrentando um adversário sempre exigente. De fato, o líder do Campeonato Holandês tinha o que responder à sua torcida. E tentou impor sua superioridade como se deve: sendo ofensivo desde o começo. Já aos 4', Jens Toornstra passou a bola a Miquel Nelom. E o lateral esquerdo chegou à grande área e chutou, quase sem ângulo, na rede pelo lado de fora. Ainda assim, no espaço dado para contragolpes, o AZ trazia algum perigo. Aos 7', Alireza Jahanbakhsh fez jogada individual pela direita, passando a Joris van Overeem. Todavia, o meio-campista não conseguiu dominar bem a bola, que chegou fácil para a defesa de Kenneth Vermeer  (de volta, substituindo Brad Jones após se recuperar do rompimento no tendão de Aquiles, por meio ano).

Mas o embalo do Feyenoord precisava de um gol. Que não demorou a acontecer, como em outras partidas. Derrick Luckassen colocou a mão na bola, rente à grande área, e o juiz marcou falta. Na cobrança, Toornstra mandou na barreira. Porém, a jogada seguiu, a bola voltou, e aos 11', Rick Karsdorp dominou no meio-campo, lançando em profundidade. Na área, estava Nicolai Jorgensen, pronto para dominar e bater cruzado, na saída de Tim Krul, fazendo seu 16ª gol no campeonato.  

Se o atacante dinamarquês reapareceu para mostrar o tamanho de sua importância na campanha do Stadionclub, outro velho conhecido participou da bonita jogada do segundo gol, aos 21. Novamente titular, Dirk Kuyt passou de calcanhar a Jorgensen, que também devolveu de taquito a El Ahmadi. O marroquino cruzou, e a bola foi para o outro lado, onde Toornstra pegou, tabelou com Jorgensen e bateu da entrada da área, no ângulo direito de Krul, ampliando a vantagem.

Pressionado, o AZ só ganhou chances em alguns momentos. Uns, em jogadas individuais: aos 27', Ridgeciano Haps arriscou de fora da área, mandando a bola perto do gol. Outros, em erros dos jogadores adversários: aos 36', Eric Botteghin tentou sair com a bola, mas seu passe errado deixou a posse nos pés de Levi García. O trinitário avançou com campo livre à sua frente, mas bateu para fora, sobre o gol de Vermeer. De resto, seguiu o domínio do Feyenoord. Que teve grande oportunidade aos 32':  Karsdorp apareceu livre e cruzou. A defesa do AZ rebateu, mas Steven Berghuis apareceu rápido para aproveitar a sobra, batendo de primeira. Krul rebateu, e Jorgensen perdeu grande chance de gol, arrematando para fora.

Confiante, o Feyenoord parecia determinado a provar que a derrota para o Sparta Rotterdam fora apenas um acidente de percurso. Não demorou para tranquilizar de vez a torcida no segundo tempo: aos 59', fez o terceiro gol. Toornstra fez lançamento da direita, e Jorgensen deu uma assistência primorosa: com o peito, o dinamarquês ajeitou a bola à feição para Kuyt bater cruzado, no canto direito, e voltar a marcar no Campeonato Holandês.

Junto a Jorgensen, o capitão Dirk Kuyt foi outro a reaparecer bem, com um gol e a luta de sempre (feyenoord.nl)
Mas bastaram quatro minutos para o AZ lembrar que merecia respeito. Aos 63', após falta de Berghuis em Haps, Dabney dos Santos levantou para a área na cobrança, e Derrick Luckassen cabeceou na segunda trave, sem marcação, para diminuir: 3 a 1. Se houve algum momento de certo susto do Feyenoord no jogo, foi esse. Nada de fazer a torcida temer, mas foi o suficiente para erros ofensivos: aos 69', Berghuis escorregou ao chutar, para fora. E para avanços mais frequentes do AZ - o mais perigoso, aos 70', quando Van Overeem cruzou para a área, Wout Weghorst se antecipou à marcação de Eric Botteghin, chegou livre à área e escorou a bola por cima do gol, trazendo certo perigo.

Bastaram esses sustos para o primeiro colocado da Eredivisie se recompor e retomar o tranquilo domínio que teve no jogo. Aos 78', Tonny Vilhena (livre para jogar, com o recurso contra a suspensão) passou a bola a Bart Nieuwkoop, que bateu rasteiro, rente à trave, em grande chance. Mais dois minutos, e veio o quarto gol. Jorgensen tentou dominar a bola na área, quando foi puxado por Luckassen. O juiz Pol van Boekel não pestanejou: marcou o pênalti. E a cobrança de Jorgensen foi perfeita: deslocando Krul, mandando a bola no canto direito, para fazer seu 17º gol no campeonato. Tinha mais? Tinha mais: aos 82', Toornstra lançou Jorgensen, que estava livre e em posição legal. Krul tentou sair rápido da área, mas o goleador da Eredivisie driblou rápido o goleiro para tocar suavemente e fazer logo seu 18ª tento na Eredivisie, terceiro no jogo, provando sua reação, seu valor neste determinado Feyenoord - e confirmando a goleada que não seria perturbada nem mesmo pelo segundo gol do AZ (aos 90' + 1, um lançamento em profundidade após desarme pegou Weghorst livre para dominar a bola, entrar na área e tocar na saída de Vermeer).

O Groningen até criava chances, mas não fazia gols. Sorte do Roda JC, que criou as chances, marcou e venceu (Jeroen Putmans/VI Images)
Roda JC 3x1 Groningen (domingo, 12 de março)

O Parkstad Limburg Stadion sediou um jogo em que oportunidades perdidas e eficiência definiram o vencedor. Curiosamente, a primeira chance perdida veio do time que conseguiu os três pontos: aos 20', Mitchel Paulissen cabeceou, forçando o goleiro Sergio Padt a espalmar a bola. Depois, aos 30', Mimoun Mahi quase deu o primeiro gol ao Groningen: saiu da linha de impedimento em boas condições para o chute, mas finalizou para fora. Bastou: no minuto seguinte, Mikhail Rosheuvel cruzou, e Abdul Ajagun cabeceou para colocar o Roda JC na frente do placar.

O segundo tempo transcorreu no mesmo ritmo. Quem começou criando chances foram os Koempels mandantes: aos 47', Dani Schahin arrematou para fora, em jogada na qual poderia ter passado a Ajagun, em melhor posição para chutar. Aos 49', o Groningen chegou, de novo com Mahi, de novo para fora. E o Roda novamente levou vantagem: aos 54', de cabeça, Christian Kum fez 2 a 0. E a história repetiu-se finalmente, aos 66': Bryan Linssen perdeu uma chance, e no contragolpe seguinte, Rosheuvel deixou a Paulissen, que cruzou para Schahin escorar e marcar o terceiro dos donos da casa. Linssen ainda minorou os danos para o Groningen, marcando aos 73', em bonito chute da entrada da área, mas sequer terminou o jogo: foi expulso aos 89'. E o Roda JC comemorou a vitória.


Não, Dolberg não está lamentando. Ao contrário: está comemorando o segundo gol na vitória do Ajax (Maurice van Steen/VI Images)

Ajax 3x0 Twente (domingo, 12 de março)

O Ajax entrou em campo para fechar a rodada sabendo o que tinha de fazer: como sempre, ganhar, para manter em acessíveis quatro pontos a desvantagem para o líder Feyenoord. Também como sempre, os Godenzonen iniciaram a partida na Amsterdam Arena tentando pressionar o Twente em sua defesa. Logo aos 5', Kasper Dolberg saiu livre da linha de impedimento, após receber passe de Hakim Ziyech, e entrou na grande área pela esquerda, finalizando para a defesa de Nick Marsman, que saiu bem do gol e espalmou pela linha de fundo. Aos 8', Dolberg apareceu de novo: o camisa 25 passou por Kamohelo Mokotjo e Stefan Thesker antes de arriscar chute rasteiro, defendido por Marsman.

Contudo, o forte ritmo ofensivo do Ajax nos primeiros minutos foi dando lugar às jogadas individuais mais esporádicas. Aos 14', após passe de Bertrand Traoré, Hakim Ziyech arriscou chute rasteiro, perto do canto esquerdo de Marsman. Mesmo com a desaceleração, porém, o Twente só trouxe perigo numa bola parada: aos 16', Bersant Celina cobrou falta, por cima do gol de André Onana. Depois, o Ajax voltou. Aos 24', após um escanteio, Joël Veltman tentou mandar para o gol com um voleio, mas a bola saiu por cima. Mas a chance mais palpável de gol para os Ajacieden veio já aos 43'. Amin Younes fez a jogada tradicional: pela esquerda, carregou a bola driblando vários jogadores, e cruzou. Chegando livre na pequena área, Traoré perdeu a grande chance da etapa inicial: escorou para fora. No minuto seguinte, o atacante burquinês ainda tentou marcar, mas seu chute saiu fraco.

Na etapa final, o Ajax tinha 45 minutos para conseguir a vitória. Voltou a tentar desde o começo. Aos 47', Ziyech cruzou da direita, mas Marsman saiu do gol com segurança para defender. Aos 50', em cobrança ensaiada de córner, Ziyech de novo alçou a bola na área, e Marsman deixou sua meta para socar a bola. Davinson Sánchez e, depois, Davy Klaassen ainda pegaram as sobras para o chute, mas mandaram para fora. Mais um minuto, e Traoré fez o que normalmente tem feito: puxou o ataque pela direita, chegou perto da área e arriscou o chute, mandando para fora.

De tanto tocar, o Ajax enfim abriu o espaço que precisava - e foi eficiente para abrir o placar, aos 55'. Ziyech iludiu Mokotjo com um drible de corpo, e lançou Klaassen. O capitão Ajacied chegou à linha de fundo e tocou para trás. No meio, entrava pela área Younes, que bateu de primeira, no canto esquerdo do Marsman, para fazer 1 a 0. No minuto seguinte, Ziyech chutou colocado, mandando pela linha de fundo, perto do gol

Acompanhado por Schöne, Amin Younes parece apontar e pedir a lembrança: foi ele quem abriu o caminho da vitória (Maurice van Steen/VI Images)
Aos 61', Dolberg voltou a aparecer: mandou a bola para a área, ela passou por cima de Klaassen, e ficou à feição para Justin Kluivert (que substituíra Traoré) cabecear. Todavia, Marsman foi mais rápido e tirou a esférica da área - Kluivert caiu, e houve alguns pedidos (injustificados) de pênalti. Novamente, o Ajax estava mais rápido em campo. E aos 67', a marcação por pressão rendeu resultado prático: o 2 a 0. Ziyech desarmou Celina no campo de ataque, e já passou a Younes. Da esquerda, o alemão lançou Dolberg, e o dinamarquês resolveu sozinho: entrou pelo meio da área, driblou Marsman e tocou para as redes.

Vitória praticamente garantida, o Ajax deu-se ao luxo de perder algumas chances seguidas. Aos 87', um voleio de Dolberg, para fora; no minuto seguinte, após driblar dois jogadores, Ziyech concluiu e Marsman espalmou. Nos acréscimos, enfim, o terceiro gol dos Amsterdammers: aos 90' + 1, Younes tocou, Ziyech driblou Joachim Andersen pela esquerda e cruzou, e Dolberg entrou pelo meio da área para o 3 a 0 - no início, pensou-se que o camisa 25 estivesse em impedimento, mas o tento foi validado. E o Ajax cumpriu sua tarefa: manteve-se perto do Feyenoord. Segue a briga dos arquirrivais, até o esperado Klassieker de 2 de abril.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Briga de foice

O equilíbrio ainda permite salvações, mas a expressão de Beugelsdijk deixa claro: o ADO Den Haag está a perigo na Eredivisie (Maurice van Steen/VI Images)

No mês passado, o site Trivela (de certa forma, irmão deste Espreme a Laranja) publicou uma curiosa variante para as típicas tabelas dos campeonatos de futebol. Tratava-se de um gráfico, feito pelo inglês Will Griffiths (disponível aqui), mostrando a pontuação das equipes nas mais tradicionais – e também nas menos - ligas europeias. Claro, os leitores comentaram. E um deles (Roberto Alvarenga) palpitou, com base no que o jornalista Leandro Stein comentou: “A luta contra o rebaixamento na Holanda vai ser uma briga de foice no escuro”. Outro leitor, Lucas Silva, concordou. E ainda acrescentou: “Parece-me que nessas últimas temporadas, as equipes holandesas, excetuando-se PSV e Ajax, estão mais fracas, especialmente Vitesse e Twente”.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Primeiro, porque o Campeonato Holandês tem clubes que não estão nem mais fracos, nem mais fortes; simplesmente, ficam na zona em que se espera que fiquem, no início da temporada. Um bom exemplo disso está na região que dá lugar nos play-offs após a temporada regular, por vaga na Liga Europa: excetuando-se o Twente (que está na 6ª posição, mas não participará dos play-offs, punido que foi pela federação holandesa no ano passado), estão Utrecht, AZ, Heerenveen e Vitesse – todos clubes médios, participantes comuns desses play-offs, que se raras vezes desafiam os três grandes do país para valer, tampouco sofrem com a ameaça de rebaixamento. E até aparecem numa fase preliminar de Liga Europa, aqui e ali. 

Segundo, porque nem os clubes realmente fracos são tão fracos que não consigam surpreender. Que o diga o líder Feyenoord: no domingo passado, o Stadionclub sofreu sua segunda derrota nesta Eredivisie, com o 1 a 0 para o Sparta Rotterdam - promovido nesta temporada, como campeão da segunda divisão. O fenômeno fica ainda mais notável quando se constata que a outra derrota dos Feyenoorders na temporada foi para... o outro clube promovido da Eerste Divisie, o Go Ahead Eagles (outro 1 a 0). Certo, tratam-se de times deficientes (basta lembrar que o Feyenoord pespegara 6 a 1 no Sparta, no turno). Ainda assim, proporcionam surpresas como estas – que tornam o primeiro colocado do Campeonato Holandês o segundo clube com piores resultados ao pegar os clubes que subiram de divisão nesta temporada.

E talvez seja por essa capacidade de pregar peças que a Eredivisie, de fato, esteja extremamente equilibrada na zona de rebaixamento – e de repescagem (o leitor deve-se lembrar do regulamento, no mínimo, intrincado dos play-offs de acesso/descenso – caso não se lembre, eis aqui esta coluna de 2015). Do 15º ao 18º e último colocado, há apenas um ponto de diferença – sendo que há empate triplo entre o 15º e o 17º colocado. E até mesmo clubes mais sossegados ainda precisam tomar cuidados antes de garantirem a salvação na divisão de elite do futebol holandês. Uma possível razão para o equilíbrio é o fato de nenhum dos times ameaçados de queda ser completamente desprovido de talento, ser irremediavelmente ruim – enfim, nenhum deles é “saco de pancadas”, sendo esmurrado rodada após rodada. 

Na verdade, o lanterna atual do Holandês viveu até uma “queda meteórica”. Não que ela não estivesse anunciada: já se abordou aqui o caos interno que vive o ADO Den Haag. A crise já estava indo para dentro de campo, e o início do returno deflagrou isso de vez: nada de vitórias para o clube de Haia, nas oito rodadas disputadas após a pausa de inverno. Foram dois empates e seis derrotas. Já houve consequências: previsivelmente, sobrou para o técnico (Zeljko Petrovic caiu, dando lugar a Alfons Groenendijk). Ainda assim, a sensação é de que o Den Haag pode reagir. Jogadores para isso, tem: na defesa (o duro zagueiro Tom Beugelsdijk, ídolo da torcida) e no ataque (Édouard Duplan, Sheraldo Becker, Ruben Schaken, Guyon Fernandez, até Mike Havenaar).

Do Roda JC, penúltimo colocado, também já se comentou aqui. Só que o ânimo ganho com a injeção de dinheiro do suíço-russo Aleksei Korotaev ainda não resultou em muita coisa dentro das quatro linhas: só duas vitórias no returno, e o time segue transitando entre as últimas posições. Pelo menos, ainda teria chance de segurar-se na Eredivisie, indo para a repescagem. Mesmo caso de outro clube que também é afligido pela ameaça do descenso há várias temporadas, e continua não aprendendo: o Excelsior, em 16º colocado. O clube de Roterdã nem perdeu tanto assim no returno. Mas também não ganhou, exagerando nos empates: quatro, nestas nove rodadas do segundo turno.

Esta é a sorte do Go Ahead Eagles: duas vitórias seguidas já bastaram para o clube de Deventer conseguir ficar no 15º lugar, o primeiro fora da zona de rebaixamento. E é até merecido, já que a equipe tem alguns jogadores de relativo talento – principalmente no ataque, com Jarchinio Antonia e Sam Hendriks, que periodicamente salvam o GAE numa ou noutra partida. No entanto, com o mesmo número de pontos dos dois clubes que vêm logo abaixo (20) e nove rodadas a disputar, sossegar não é uma opção.

Talvez não seja uma opção nem para os clubes que vêm acima dos quatro mais ameaçados pelo rebaixamento. Embora tenha uma equipe muito coesa (e tenha, ora bolas, vencido o líder do campeonato), o Sparta Rotterdam (14º, com 25 pontos) ainda procura afastar o temor. Após passar o turno ameaçado, sendo uma das grandes decepções da Eredivisie, enfim o Zwolle reagiu: alguns jogadores subiram de produção, o técnico Ron Jans anunciou demissão – na moda de “técnicos demissionários tranquilizam o clima no elenco” -, algumas vitórias vieram, e os Zwollenaren foram aos 27 pontos, na 13ª posição. A mesma coisa ocorre com o NEC: a equipe de Nijmegen ainda sofre com a irregularidade dentro de campo, mas está em 12º lugar, com 28 pontos. Todas essas, pontuações que dão mais segurança. Ainda assim, precisando de mais cuidados antes da salvação definitiva. 

Caso contrário, serão mais clubes a se juntar aos quatro que já são afligidos pela necessidade de fazer contas e jogar o futuro a cada rodada. De fato, como preconizou o leitor da Trivela, a disputa contra o rebaixamento na Holanda promete ser uma briga de foice no escuro.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 10 de março de 2017)

segunda-feira, 6 de março de 2017

810 minuten: como foi a 25ª rodada da Eredivisie

Mulder erra na saída de gol. E o Heerenveen perde uma vitória com a qual já contava (Peter Lous/VI Images)

Heerenveen 2x2 Go Ahead Eagles (sexta-feira, 3 de março)

Com duas equipes tentando a vitória para melhorarem as respectivas situações (o Heerenveen tentando vencer pela segunda vez seguida, para manter-se bem na zona dos play-offs por vaga na Liga Europa; o Go Ahead Eagles contando os pontos na disputa contra o rebaixamento), o primeiro tempo foi até animado. Pelo time da Frísia, Pelle van Amersfoort mandou a bola na trave aos 16'; o GAE devolveu com Jarchinio Antonia, que chutou para fora, perto do gol, aos 18'. Os visitantes foram mais felizes na oportunidade seguinte: aos 32', Sander Fischer lançou a bola a Sam Hendriks, o atacante finalizou, o goleiro Erwin Mulder rebateu, e Hendriks pegou a sobra para pespegar o 1 a 0.

No segundo tempo, mesmo com mais volume ofensivo, o Heerenveen não conseguia as finalizações. A torcida no estádio Abe Lenstra começou a pedir um "talismã": o atacante Henk Veerman, que geralmente sai do banco de reservas. Veerman entrou aos 62', e aos 65' retribuiu os pedidos da torcida: Sam Larsson tentou, perdeu a bola, mas ela ficou para o atacante bater e empatar. Aos 70', Odegaard deu passe milimétrico para Luciano Slagveer virar o jogo. Mas justamente quando a torcida do Heerenveen parecia tranquila, veio o empate. Também com um vindo da reserva: aos 89', em cruzamento da direita, Mulder falhou ao sair do gol, e a meta ficou vazia para Leon de Kogel decretar o 2 a 2 final.

Enes Ünal prepara o chute que dará no segundo gol do Twente: brilhando de novo (Pro Shots)

Twente 2x1 Willem II (sábado, 4 de março)

Nas últimas semanas, o Willem II vinha se notabilizando por uma defes firme - que lhe permitiu não só três jogos sem derrotas (duas vitórias e um empate), mas também ter uma defesa só não menos vazada que as dos três clubes grandes. Porém, isso acabou no sábado. Desde o começo da partida, o Twente foi melhor atuando em seu estádio - ainda mais com a volta do polonês Mateusz Klich ao meio-campo. E isso foi provado com os gols. Aos 27', Bersant Celina cruzou, e o zagueiro Darryl Lachman cabeceou por acidente contra a própria meta. E aos 42', Enes Ünal brilhou novamente: o atacante turco bateu forte, de fora da área, para o gol defendido por Kostas Lamprou - 11º gol dele nesta Eredivisie, marca que nenhum outro compatriota alcançara antes.

Aos 54', Lamprou ainda salvou o Willem II em sequência: espalmou o chute do lateral Hidde ter Avest, e depois ainda pegou o rebote arrematado por Fredrik Jensen. Os visitantes de Tilburg já haviam saído no lucro, e até ganharam mais esperança aos 70': em córner batido para a área, a bola ficou no meio sem que ninguém a pegasse, até que Jordy Croux mandou-a onde queria: na rede, diminuindo a vantagem do Twente. Aí, os Tricolores partiram em busca do empate. Quase o conseguiram aos 81', quando Thom Haye mandou a bola na trave. Ainda assim, o Twente conseguiu segurar-se na defesa, e assegurou o triunfo que o mantém na zona dos play-offs por Liga Europa (que não disputará, punido pela federação que foi, ainda no ano passado).

Siem de Jong se apresenta: enfim, uma boa partida pelo PSV (Jeroen Putmans/VI Images)
PSV 4x0 Roda JC (sábado, 4 de março)

Os próprios jogadores (e o técnico também) admitiram: o sonho do tricampeonato holandês acabou para o PSV, com a derrota para o Feyenoord, no clássico da 24ª rodada. Resta, então, a disputa pelo vice-campeonato, contra o Ajax. Pelo menos nesta 25ª rodada, começou bem. Porque num Philips Stadion onde a chuva caiu incessantemente, o Roda JC só chegou uma vez com perigo ao ataque: logo aos 3', quando Mitchel Paulissen cruzou, e Dani Schahin cabeceou perto do gol. Logo depois, o PSV começou a se impor. Aos 10', Davy Pröpper arriscou o chute, e Benjamin van Leer estava atento para defender. No minuto seguinte, a defesa de Van Leer foi ainda mais bonita: à queima-roupa, num chute de Gastón Pereiro.

Aos 26', enfim, a pressão deu resultado: Pröpper cobrou escanteio, e Héctor Moreno cabeceou para as redes, fazendo 1 a 0. Não demorou muito, e uma aposta de Cocu na escalação deu ótimo resultado. Substituindo o lesionado Marco van Ginkel, Siem de Jong começou a se destacar aos 32'. No meio-campo, Gyliano van Velzen, do Roda, perdeu a bola. A jogada seguiu, Jetro Willems dominou pela esquerda, e cruzou para Siem dominar, driblar dois defensores e concluir, ampliando a vantagem dos Boeren.

No segundo tempo, os dois responsáveis pela vantagem dos Eindhovenaren em casa transformaram a vitória em goleada. Aos 62', Moreno fez seu segundo gol, numa jogada que quase copiou a do gol feito na etapa inicial: Andrés Guardado bateu o córner, e o mexicano mandou de cabeça para marcar pela segunda vez no jogo (e pela sexta vez na temporada, mais do que qualquer outro zagueiro atuando na Eredivisie). Aos 71', Siem de Jong reapareceu: Frédéric Ananou cometeu pênalti sobre Jürgen Locadia - que novamente saiu do banco -, e o irmão mais velho de Luuk converteu o penal para o 4 a 0. Que deu ao PSV um pouco mais de animação para tentar o vice.

Vencendo o Vitesse, o Zwolle começa a ganhar mais esperança de que o perigo de queda foi só um susto (Pro Shots)
Zwolle 3x1 Vitesse (sábado, 4 de março)

Foi a melhor semana do Vitesse em muito tempo. Enfim, após, no mínimo, sete anos de ambições que o tempo foi adequando e até diminuindo, com várias confusões no meio, o clube aurinegro de Arnhem conseguiu a chance definitiva de ter em sua estante o primeiro troféu desde a segunda divisão em 1988/89: chegou à final da Copa da Holanda, ao superar o Sparta Rotterdam na semifinal da quarta passada. Todavia, quando o jogo contra o Zwolle se encerrou, o técnico Henk Fräser reconheceu pesaroso: "Não sei que motivo temos para a arrogância que alguns jogadores mostraram". De fato. Porque, desde o começo, os Zwollenaren mandaram na partida que sediaram, no Mac³Park Stadion.

Já começaram bem aos 10': Bram van Polen recebeu a bola e fez o pivô para que Mustafa Saymak entrasse finalizando para o 1 a 0 dos "Dedos Azuis". Mais oito minutos, e veio o segundo gol: Philippe Sandler cruzou, e Nicolai Brock-Madsen venceu o goleiro Michael Tornes (substituto do lesionado Eloy Room) na disputa aérea, mandando para as redes. No segundo tempo, a esperança do Vites cresceu aos 48': Milot Rashica concluiu, o goleiro Mickey van der Hart rebateu, e Ricky van Wolfswinkel aproveitou o rebote. Todavia, o volante Danny Holla logo "cortou as asinhas" dos visitantes, ao fazer 3 a 1 numa cobrança de falta daquelas que servem de exemplo: passando ao largo da barreira, no ângulo de Tornes. Depois, Ryan Thomas quase fez o quarto gol, em chute de fora da área. E o Zwolle é que ganhou razões para comemorar: com a quarta vitória no returno, já vai se firmando no meio da tabela, com o 12º lugar, um pouco mais seguro.

O jogo era em Alkmaar, e o AZ estava motivado pela vaga na final da Copa da Holanda. Mas o Excelsior comemorou um pouco mais no empate (Pro Shots)

AZ 1x1 Excelsior (domingo, 5 de março)

Mesmo com a vaga garantida na final da Copa da Holanda, o AZ tinha algo a mostrar à sua torcida: afinal, vencera apenas um dos últimos oito jogos, em todas as competições que disputou (vale lembrar que a semifinal da KNVB só foi vencida nos pênaltis). O começo deu motivos para temor, mas aos poucos os Alkmaarders foram melhorando. Aos 19', a primeira chance: Dabney dos Santos cobrou falta, e Ron Vlaar desviou de cabeça, para boa defesa do goleiro Warner Hahn. E no minuto seguinte, veio o gol, em jogada até confusa: Joris van Overeem lançou Dabney dos Santos, e o atacante finalizou para Hahn rebater. Porém, na sobra, a bola bateu no zagueiro Milan Massop, e sobrou de novo para Dos Santos, que arrematou. Hahn ainda tentou defender, mas a bola balançou as redes.

A partir do gol, a partida ficou acelerada, com chances para ambas as equipes. E o Excelsior já começou a trazer perigo, aos 40': Ryan Koolwijk arriscou de fora da área, mandando a bola perto da meta defendida por Tim Krul. Já após a pausa, Krul teve de fazer duas defesas quase em sequência, em chutes de Fredy e Luigi Bruins. Até que, aos 60', uma falha deu o empate aos visitantes de Roterdã: Ron Vlaar tentou afastar um cruzamento, mas falhou, "ajeitando" a bola para Mike van Duinen dominar, driblar e chutar para fazer o 1 a 1. Depois, aos 71', Bruins quase virou o jogo, numa cobrança que bateu na parte de cima da rede, sobre o gol. No AZ, Wout Weghorst saiu do banco para ser a referência no ataque, mas os anfitriões não criaram muitas chances. E ficou no placar o 1 a 1 que minorou a alegria da torcida pela vaga na final da copa nacional. Os Alkmaarders decepcionaram.


Mathias Pogba surpreendeu o Feyenoord: o Sparta impôs dura derrota ao líder da Eredivisie (Maurice van Steen/VI Images)

Sparta Rotterdam 1x0 Feyenoord (domingo, 5 de março)

A princípio, após o palpitante jogo contra o Feyenoord, achava-se que o Sparta Rotterdam, rival citadino, seria tarefa menos difícil para o líder do Campeonato Holandês. Bastaram 51 segundos de partida em Het Kasteel para o Sparta mostrar que não seria assim. Pela esquerda, Jerson Cabral recebeu a bola, dominou e alçou para a área, onde estava Mathias Pogba. No meio dos dois zagueiros, o francês subiu mais alto e cabeceou sem chances de defesa para Brad Jones. 1 a 0, tão rápido quanto surpreendente. Ficava uma tarefa única para o Stadionclub: tentar virar o jogo nos 89 minutos restantes, mais acréscimos.

Mantendo posse de bola massiva, o Feyenoord começou a atacar aos 14'. Na área, Nicolai Jorgensen segurou a bola na área, e a recuou para Tonny Vilhena. O meio-campista bateu forte, e Roy Kortsmit rebateu - na sobra, Jens Toornstra perdeu a chance do chute. A pressão seguiu aos 17': após escanteio, a bola voou na área. Quando caiu, Eljero Elia bateu de primeira, e ela passou por cima do gol. Nova bola aérea traria boa chance de empate para os Feyenoorders aos 20': em outra cobrança de escanteio, Jorgensen cabeceou na primeira trave, e Kortsmit teve de mergulhar ali para agarrar.

Porém, além de muito compactado na defesa (jogava com até três zagueiros, e o meio-campo estava sempre próximo no recuo), o Sparta avançava com muita rapidez. Assim, sempre oferecia perigo nos contra-ataques. Como aos 25', quando Ryan Sanusi recebeu na área, de Jerson Cabral. O atacante caminhou e arriscou, para a defesa de Brad Jones. Aos 27', Pogba fez o corta-luz, e a bola de Zakaria El Azzouzi foi direto para Cabral, que bateu à direita do gol, em lance perigoso para Jones. Para piorar, Terence Kongolo precisou deixar o jogo, com lesão muscular, dando lugar a Miquel Nelom.

Aos poucos, mesmo com a compactação defensiva dos Spartanen, o Feyenoord começou a chegar mais perto da área. Aos 31', Vilhena recebeu de Karsdorp, perto da área, e passou a Steven Berghuis, que bateu rasteiro, rente à trave esquerda de Kortsmit. Berghuis foi o protagonista das jogadas seguintes: aos 40', o atacante cruzou da direita, e Jorgensen mandou de cabeça, para fora, e aos 44', o camisa 19 cortou para o meio, nas proximidades da grande área, e bateu para Kortsmit defender.

No segundo tempo, seguiu a via-crúcis do Feyenoord: tinha a posse de bola, sabia o que fazer, mas não achava espaço. As coisas ficaram ainda mais difíceis aos 53', com a saída de Elia, também por lesão, forçando a entrada de Bilal Basaçikoglu. Só restavam mais e mais jogadas aéreas. Aos 59', Toornstra cobrou escanteio, fácil para a defesa de Kortsmit. No minuto seguinte, outro escanteio: a bola foi rebatida, e Vilhena aproveitou a sobra, para fora. O meio-campista voltou à ação aos 65': pegou a bola fora da área, e bateu no contrapé do goleiro, mas errou o alvo: para fora, por pouco.

De resto, seguiu a rotina das bolas aéreas para tentar o empate. Aos 67', Toornstra bateu aproveitando sobra de escanteio, e Kortsmit espalmou para novo pontapé de canto. No minuto seguinte, Berghuis deu lugar a Dirk Kuyt, para tentar dar mais calma à equipe. Cinco minutos depois, em falta, veio talvez a grande chance para o empate em toda a etapa complementar: a bola foi mandada para a área. Eric Botteghin ajeitou, Jorgensen buscou-a quase saindo pela linha de fundo, e tocou para Basaçikoglu, que chutou livre, por cima do gol, perdendo a grande chance. Cabia continuar martelando em busca do gol. Aos 73', Nelom cobrou mais um escanteio, Kuyt escorou, e de carrinho, Botteghin mandou para fora. Dois minutos depois, outro pontapé de canto: a bola veio para a área, foi rebatida, e sobrou para Kuyt bater de primeira - ela desviou no zagueiro Michel Breuer e foi para fora. Em novo tiro de canto na sequência, Jorgensen cabeceou, e Kortsmit defendeu.

E na sequência, veio um lance que poderia ter aliviado o Stadionclub - e evocou as lembranças do gol da vitória contra o PSV. De novo, a bola foi mandada para a área, aos 76'. Basaçikoglu dividiu pelo alto com Kortsmit, a bola escapou de ambos e foi entrando, mas Sherel Floranus tirou-a do gol, em cima da linha. Para sempre ficará a dúvida se a bola já tinha passado, já que Het Kasteel não tinha a "tecnologia do olho-de-gavião", como De Kuip tinha. Provavelmente, passara da linha. Quem com ferro feriu... No entanto, diante de muita polêmica, o juiz Danny Makkelie afirmou à FOX Sports holandesa que só reconhecia falta de Basaçikoglu em Kortsmit, na disputa pelo alto: "Seguramente foi falta. De onde eu estava, não podia ver se a bola passou a linha ou não. Meu auxiliar estava numa ótima posição, e mantivemos contato. Achamos que a bola não passou totalmente da linha".

O Feyenoord reclama da bola passando da linha, quando Floranus já a tirava: a sorte não ajudou (ANP)

Sem o gol, o "abafa" do Feyenoord se tornava cada vez mais dramático - até porque Basaçikoglu se lesionou, mas não podia sair (todas as substituições já haviam sido feitas). E os visitantes só levaram perigo por mais duas vezes. Aos 80', num chute de El Ahmadi, para fora. E nos acréscimos, aos 90' + 3, quando Jorgensen completou de voleio na pequena área, Kortsmit foi no contrapé e espalmou, fazendo a defesa que praticamente confirmou a segunda derrota do Feyenoord nesta Eredivisie. O Sparta comemorava o triunfo - o meio-campista Craig Goodwin citou o sentimento de "revanche", lembrando os 6 a 1 sofridos no 1º turno. E os representantes do Stadionclub lamentavam. El Ahmadi reconhecia que o Feyenoord "não foi eficiente" nem "jogou como time que pode ser campeão", enquanto Giovanni van Bronckhorst dava de ombros para o possível gol: "Não podemos esquentar a cabeça. Semana passada havia a tecnologia, hoje não". Coube a Dirk Kuyt a declaração definitiva: "Não estamos tremendo. Apenas não mostramos o que normalmente podemos fazer". Foi uma derrota, não um desastre.

A lamentação de Onana, após sua infelicidade, é a lamentação do Ajax: chance perdida (ANP/Pro Shots)

Groningen 1x1 Ajax (domingo, 5 de março)

A derrota do Feyenoord abria a possibilidade para o Ajax: era vencer o Groningen, fora de casa, e ficar apenas a dois pontos do arquirrival na disputa da primeira posição do campeonato. Assim, os Godenzonen já começaram pressionando. Logo no primeiro minuto, Bertrand Traoré já chutou perigosamente: de fora da área, arriscou no alto, e a bola passou perto do ângulo direito defendido por Sergio Padt.

O maior toque de bola dos Ajacieden rendia jogadas perigosas. E numa delas, aos 12', Amin Younes entrou pela área e caiu após choque com Samir Memisevic, reclamando de pênalti, não dado por Bas Nijhuis. Pouco depois, uma chance parecida para os visitantes de Amsterdã: aos 18', de novo Traoré, de novo em chute de fora da área. A única diferença foi o final da jogada: Padt, desta vez, teve de trabalhar factualmente, rebatendo para fora.

Só então o Groningen saiu mais para o jogo. E teve seu momento perigoso aos 25': Oussama Idrissi tabelou com Mimoun Mahi e recebeu já na grande área. O atacante cruzou, e Simon Tibbling completou de primeira para defesa de André Onana, que espalmou para escanteio. Pouco depois, aos 29', Traoré veio pela esquerda, e passou para Davy Klaassen, que vinha mais atrás. O camisa 10, contudo, perdeu a boa chance: bateu por cima do gol.

O Ajax voltou, aos poucos, a monopolizar as chances. Aos 34', Younes tentou jogada individual pela esquerda, mas recuou a Hakim Ziyech. O camisa 22 tentou mais um chute de fora, que teve o mesmo destino dos outros: para fora, por cima do gol. No minuto seguinte, Ziyech quase teve mais sorte: Daley Sinkgraven aproveitou má saída de bola e passou ao meio-campista, que chutou rasteiro, perto da trave.

Aos 39', enfim, o momento em que o Ajax mais chegou perto do gol. Younes fez o que quase sempre faz: pegou a bola, cortou da esquerda para o meio e bateu colocado, na entrada da área. Quase mandou no alvo: a bola bateu na trave esquerda de Padt. Outra boa oportunidade veio aos 43': Klaassen carregou a bola pelo meio e passou a Traoré. O camisa 9 vinha livre e entrou na área com a bola, mas na hora de finalizar, foi travado por Etienne Reijnen. E o primeiro tempo terminou com a sensação de uma partida igual até demais: por mais que o Ajax tenha tido posse de bola muito maior (71%), as duas equipes tentavam jogadas pelas pontas e troca de passes, mas sem muita velocidade, sem empolgar a torcida.

Com um jogo sem gols, restava ao Ajax continuar tentando aproveitar o tropeço do Feyenoord, no segundo tempo. Logo aos 47', na entrada da área, Traoré bateu, mas Padt encaixou a bola em dois tempos. O Groningen lembrou que não era adversário desprezível no minuto seguinte, quando Tibbling arrematou de fora da área, mandando para fora. Mais tarde, aos 55', em cruzamento para a área, Klaassen quase escorou à queima-roupa, mas Kasper Larsen se antecipou, cortando para fora.

Mas de uma jogada que parecia controlada, numa falha inegável de alguém que raramente tem se saído mal, veio o surpreendente gol do Groningen. Aos 56', André Onana saiu da área para dominar a bola, como quase sempre faz. E o goleiro camaronês até deu um corte seco em Bryan Linssen antes de tentar reiniciar a jogada. Todavia, deu-se muito mal: Linssen levantou-se rápido do gramado, desarmou Onana fora da área (para muitos, cometendo falta), e ficou com o campo e o gol livres para tocar e colocar o Groningen na frente do placar. Acostumado a jogar fora da área, Onana cometia um erro - na pior hora possível. E reconheceu isso, após o jogo, à FOX Sports holandesa: "A culpa foi toda minha".

O que Onana tantas vezes fez deu errado: Linssen o desarmou e fez o gol do Groningen (Peter Lous/VI Images)

Bastou tomar o gol, e passar a precisar, no mínimo, do empate, para que Peter Bosz alterasse o ataque, colocando Justin Kluivert para acelerar as jogadas. Aos 62', Kluivert passou a bola a Lasse Schöne, que bateu por cima do gol, rente ao travessão. Pouco depois, Schöne reapareceu: passou a esférica a Dolberg, que bateu rasteiro, fraco, fácil para Padt defender. A partir daí, o jogo virou "ataque contra defesa": só o Ajax avançava. Aos 73', Younes mandou rasteira a bola, da esquerda, e Dolberg escorou para fora, com desvio na defesa. No escanteio subsequente, Davinson Sánchez cabeceou por cima do gol. Pouco depois, o próprio Sánchez deu lugar a Donny van de Beek, configurando um 3-4-3 para os visitantes.

O Ajax seguia tocando a bola à espera de um espaço. E ele apareceu, aos 82', diminuindo a intensidade do tropeço que se desenhava: Sinkgraven cruzou da esquerda, e Klaassen estava livre na área, para apenas desviar no contrapé de Padt, igualando o placar. Já totalmente no meio-campo do Groningen, os visitantes tornaram-se ainda mais ofensivos. E ganharam mais espaço a partir dos 87', com o cartão vermelho de Memisevic, por falta (dura) em Sinkgraven. Aos 90' + 4, quase veio o gol: Van de Beek bateu de fora da área, e Padt rebateu. Na sobra, além de queda de Mateo Cassierra na área (muitos pediram um inexistente pênalti), Schöne arriscou, por cima. E restou ao Ajax lamentar uma grande chance perdida para reabrir definitivamente a disputa pela liderança. Certo, a diferença para o Feyenoord caiu para quatro pontos, e os Amsterdammers pelo menos saíram do Noordlease Stadion com um ponto. Podia ser pior. Mas também podia ser melhor...

O ADO Den Haag confiava na vitória para sair da lanterna. Mas não contava com um pênalti não marcado (fcutrecht.nl)
  
Utrecht 1x1 ADO Den Haag (domingo, 5 de março)

O jogo no estádio Galgenwaard foi de erros. Não de sete, mas de três. Todos eles, de certa forma, decisivos. O primeiro, aos 16', colocou o ADO Den Haag na frente do placar: Ramon Leeuwin falhou, permitindo que o meio-campista Dion Malone dominasse a bola e finalizasse para as redes. O segundo, aos 40', rendeu o empate ao Utrecht: Giovanni Troupée cruzou da direita, e a bola estava fácil para que Danny Bakker ou Tom Beugelsdijk a tirassem da área, mas Richairo Zivkovic (substituto de Sébastien Haller, que tornou-se pai horas antes do jogo) passou no meio dos dois para se antecipar, completar e empatar.

O último erro, porém, foi mais grave. No minuto final do primeiro tempo, Guyon Fernandez fez jogada individual pela direita e chegou em boas condições para o chute, mas foi derrubado na área por Robin van der Meer. O pênalti foi claro para todos - menos para o juiz Serdar Gözübüyük, que mandou a jogada seguir, para ira do técnico dos visitantes de Haia, Alfons "Fons" Groenendijk. Na etapa complementar, mais erros ocorreram. Pelo menos, foram meramente dos jogadores - como um chute na trave de Yassin Ayoub, logo aos 47', ou um chute de Sofyan Amrabat, defendido pelo goleiro Robert Zwinkels, aos 75'. E o jogo ficou num empate - para o ADO Den Haag, ainda lanterna do campeonato, poderia ter sido vitória, não fosse o pênalti não marcado...


O NEC temeu por nova decepção. Mas Von Haacke (socando o ar) abriu o caminho da vitória (Photo News)

NEC 3x1 Heracles Almelo (domingo, 5 de março)

Após cinco derrotas seguidas, o time de Nijmegen começou o jogo pensando que amargaria o sexto revés seguido. Logo aos 14 minutos do primeiro tempo, André Fomitschow derrubou Brandley Kuwas na área, e o juiz Pol van Boekel marcou o pênalti. Samuel Armenteros acertou da primeira vez, mas Van Boekel pediu a repetição da cobrança, pela invasão de vários jogadores. Sem problemas: Armenteros partiu de novo, bateu de novo, e fez 1 a 0, marcando seu 13º gol na temporada. Mas a coisa começou a mudar a partir dos 27': Michael Heinloth cruzou a bola da direita, e Julian von Haacke entrou pela área para completar, empatando o jogo. E a mudança ficou completa aos 33': Heinloth chutou de fora da área, a bola resvalou no zagueiro Mike te Wierik, e foi para as redes, consumando o 2 a 1.

Antes do intervalo, o volante Arnaut Groeneveld ainda tentou o terceiro gol, mas o goleiro Bram Castro manteve os visitantes de Almelo no jogo, defendendo com o pé. Depois, aos 52', quase veio o empate dos Heraclieden: Kuwas cobrou escanteio direto para o gol, mandando a bola no travessão. Mas tal perigo foi afastado de vez pelos Nijmegenaren, aos 69'. Bem, não exatamente pelos Nijmegenaren: numa cobrança de falta, o zagueiro Justin Hoogma, do Heracles, desviou de cabeça, acidentalmente, para o próprio gol, consolidando no placar o 3 a 1 que manteve o NEC mais perto do meio da tabela, no jogo derradeiro da 25ª rodada da Eredivisie.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abrindo o caminho

O lance do erro que Zoet que definiu o clássico: se não fosse a tecnologia... (Pim Ras)

A imagem correu o mundo nesta semana, mas convém lembrá-la novamente, aqui: domingo, 26 de fevereiro, De Kuip, Roterdã. Empatado em 1 a 1, válido pela 24ª rodada do Campeonato Holandês, o clássico entre Feyenoord e PSV encaminhava-se para um final dramático: caso o Ajax conseguisse a esperada vitória sobre o Heracles Almelo (e conseguiu: 4 a 1 para os Amsterdammers), a vantagem do Feyenoord na liderança da Eredivisie cairia para três pontos – o que obviamente reabriria a disputa pelo título holandês.

Até que aos 37 minutos do segundo tempo, Bilal Basaçikoglu (substituto de Eljero Elia) cobrou escanteio, e o zagueiro Jan-Arie van der Heijden cabeceou firme para a meta. O goleiro Jeroen Zoet conseguiu manter a bola em cima da linha, impedindo o gol num primeiro momento. Aí deu-se o erro incrível do arqueiro do PSV: convencidos de que não havia sido gol, os jogadores do Feyenoord já voltavam frenéticos, quando Zoet abraçou a bola para repô-la em jogo, sendo que seu tronco estava atrás da linha do gol. Foi o bastante para soar o sinal no aparelho que o árbitro Bas Nijhuis trazia em seu bolso: a bola tinha entrado. Nijhuis prontamente apontou o gol. 

Os jogadores do Feyenoord puderam correr atrás de Van der Heijden, que saiu comemorando como se fosse o autor do gol, antes da confirmação de que Zoet havia cometido um gol contra. Pouco depois, a transmissão da FOX Sports holandesa deixava claro que a bola passara totalmente da linha do gol – por muito pouco, mas passara, graças ao erro do goleiro do PSV. Era o gol da vitória que faria o Feyenoord passar da “primeira fase” de seu vestibular: não só mantinha a vantagem na liderança (cinco pontos em relação ao Ajax), mas também deixava um rival praticamente fora da disputa do título – agora, o time de Eindhoven está onze pontos atrás do Stadionclub.

Todavia, a vitória no fervilhante clássico tornara-se menos importante até do que o marco tecnológico. Uma partida importantíssima para os rumos do Campeonato Holandês havia sido decidida por meio da tecnologia. E rendia a primeira e necessária prova de que a aposta na tecnologia como meio de auxílio ao árbitro, cada vez mais disseminada no futebol holandês, poderia dar certo e merecia mais aprofundamento. Mais do que isso: pode ser uma forma do futebol holandês representar a vanguarda para o mundo, como algumas vezes já fez.

Essa capacidade ficou clara em outro fator: a sabedoria de todos os envolvidos em reconhecer que, sem a tecnologia do “olho-de-gavião”, um gol válido teria sido deixado de lado. Embora a demora na validação do gol de Van der Heijden pudesse render alguma polêmica, ela não resistiu. O próprio Zoet reconheceu: “Azar o meu, e sorte do Feyenoord, porque eles tinham a tecnologia aqui”. Bas Nijhuis mostrou humildade, ao reconhecer que os aparatos o haviam ajudado a tomar a decisão certa: “Estou muito aliviado”.

É até curioso pensar que esse fascínio que a Holanda tem mostrado pela introdução da tecnologia no auxílio à arbitragem tenha se dado mais por birra do que por qualquer outra coisa. Afinal de contas, Michael van Praag, presidente da KNVB (federação holandesa), foi apoiador de primeira hora, quando o International Board anunciou que, enfim, começaria a abrir caminho para o árbitro assistente de vídeo. Não deixava de soar como se Van Praag estivesse dizendo a Joseph Blatter, então ainda presidindo a Fifa (e a quem o holandês se opunha cada vez mais), que ele desejava a modernidade e a transparência.

Porém, o gosto pelo brinquedo foi tamanho que superou quaisquer pinimbas políticas – até porque Blatter se tornou carta fora do baralho, após maio de 2015 (e ficou claro que Van Praag não tinha grandeza política para realizar a aspiração de se tornar presidente da Fifa). E já na temporada passada, extraoficialmente, a FOX Sports holandesa – detentora dos direitos de transmissão – começou a dar subsídio para os testes da federação: o quinteto de arbitragem atuava, e um trio de arbitragem assistia aos jogos no caminhão de edições de imagem, no próprio estádio, com câmeras e mais câmeras à disposição.

Não houve grande influência, mas o primeiro passo já havia sido dado. E nesta temporada, a KNVB decidiu usar o “árbitro assistente de vídeo” nas partidas da Copa da Holanda – e em alguns estádios, adotar a tecnologia para lances em que a bola tenha ou não passado da linha. Deu certo, como mostrou o lance do domingo passado em Roterdã. E serviu para que o diretor de futebol profissional, Gijs de Jong, se orgulhasse no início desta semana, em sua coluna no site da federação: “Até onde se sabe, somos o único país onde pode se testar [o auxílio tecnológico à arbitragem] em jogos oficiais, junto da MLS. (...) O esporte melhora com isso, e estou orgulhoso que nós, na Holanda, estejamos um passo à frente neste desenvolvimento”.

De Jong ainda lembrava dos jogos pelas semifinais da Copa da Holanda, que ocorreriam nesta semana: “Pela primeira vez, testaremos a videoarbitragem não num caminhão perto dos estádios em Alkmaar e Roterdã, mas num estúdio em Hilversum”. Mal sabia o diretor que uma das partidas da KNVB Beker daria novos motivos para orgulho. Não o 2 a 1 sobre o Sparta Rotterdam, que levou o Vitesse à final do próximo dia 30 de abril. Mas o 0 a 0 do AZ contra o Cambuur, nesta quinta. Porque, aos 49 minutos do segundo tempo, Stijn Wuytens marcou o gol que daria a vitória ao time de Alkmaar. Daria, se Levi Garcia não tivesse cometido falta no goleiro do Cambuur, Leonard Nienhuis. Juiz no campo, Kevin Blom não viu, validando o gol. No estúdio, Dennis Higler viu a falta de Garcia, aconselhou Blom, e este o anulou. E o AZ precisou esperar até os pênaltis para eliminar o Cambuur (3 a 2 nas cobranças, com Tim Krul defendendo o último chute) e passar à final da copa holandesa.

Claro, a Holanda ainda tem muito o que aprimorar. Quando nada, porque a própria decisão da anulação do gol de Wuytens demorou bastante. Sem contar que a própria federação já advertiu: a Amsterdam Arena não contará com a tecnologia do “olho-de-gavião” no clássico ainda mais decisivo contra o Feyenoord, em 2 de abril. Ainda assim, o objetivo continua: a federação pretende implantar o "árbitro auxiliar de vídeo" em todos os jogos da Eredivisie, a partir da temporada 2018/19. Enfim: não dá para não reconhecer que, se é questão de tempo para a tecnologia entrar de vez no auxílio à arbitragem, a Holanda está abrindo o caminho nesse aspecto. Talvez, sendo até pioneira.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 3 de março de 2017)