Quando saiu o resultado do sorteio dos grupos - e do consequente chaveamento - da Copa de 2022, na maioria das vezes, as apostas e os "bolões" indicavam que a seleção da Holanda (Países Baixos) avançaria até as quartas de final, e nelas seria eliminada pela Argentina. Pois foi exatamente o que aconteceu. O que não se sabia, então, é que a Laranja cumpriria esta campanha de modo tão burocrático, tão avessa a riscos. Também, pudera: poucas vezes a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) teve tantos altos e baixos até chegar a um Mundial. Talvez por causa desses desgastes, tenha jogado no Catar em "modo de segurança".
Chegar ao Mundial, aliás, não é bem o termo: é voltar às grandes competições, porque a Laranja estivera fora da Euro 2016 e da Copa de 2018 (nesta, o grupo das eliminatórias tinha França e Suécia), no que foi um fim gradual e traumático da geração de tanto sucesso em 2010 e 2014. Àquela altura, quatro técnicos já tinham passado pela equipe desde após a Copa de 2014: Guus Hiddink, Danny Blind, Fred Grim (este, interino em um jogo, após a demissão de Blind, em março de 2017) e Dick Advocaat. Mas era com Ronald Koeman, contratado no início de 2018, que se apostava num recomeço. E ele efetivamente aconteceu, ao longo daquele ano: a Laranja cresceu paulatinamente, ganhou de Portugal num amistoso - 3 a 0, em março -, e comprovou sua reação na primeira Liga das Nações: num grupo com Alemanha e França (esta, consagrada campeã do mundo no meio de 2018), a Laranja conseguiu passar para a semifinal, como líder de seu grupo. Melhor ainda: mostrava um líder nascendo em Virgil van Dijk, enfim embalando como zagueiro pela seleção, mostrava uma nova geração crescendo em Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong - ambos símbolos da marcante campanha do Ajax semifinalista da Liga dos Campeões, em 2018/19 -, mostrava Memphis Depay um pouco mais focado.
![]() |
| Ronald Koeman veio treinar a Holanda uma primeira vez, entre 2018 e 2020. Comandando uma geração que se firmou sob seu comando... (Getty Images) |
![]() |
| ... a Laranja superou as traumáticas ausências na Euro 2016 e na Copa de 2018, reagindo ao longo de 2018 e 2019. Só a pandemia e a saída de Koeman interromperam isso (Jan Kruger/Getty Images) |
2019 simbolizou isso: a Holanda foi à final da Liga das Nações (perdeu para Portugal, mas isso não chegou a desanimar), passou com segurança pelas eliminatórias da Euro 2020 (com direito a vencer a Alemanha fora de casa), e terminou aquele ano com a autoconfiança totalmente recuperada. Talvez pudesse até ser considerada uma das favoritas ao título da Euro... se o começo de 2020 não trouxesse a pandemia de COVID-19 junto com ele, causando o adiamento do torneio continental de seleções por um ano. Pior para os Países Baixos: em agosto, Ronald Koeman recebeu uma proposta do Barcelona pela terceira vez. Decidiu fazer uso da cláusula em seu contrato com a KNVB (se fosse chamado pelo clube espanhol, onde tinha muita história, seria liberado para treiná-lo). E a Laranja ficou sem técnico, naquele turbulento 2020. Pior ainda: após dois jogos com o interino Dwight Lodeweges, decidiu-se contratar Frank de Boer, que já chegou contestado pelos maus trabalhos anteriores. Como se não bastasse, lesões graves vitimavam nomes importantes daquela reação. No fim de 2019, Memphis Depay rompera o ligamento cruzado anterior. Ficaria fora da Euro, ela foi adiada... mas aí, o machucado (com a mesma lesão, por sinal) foi Virgil van Dijk. E a primeira fase da Liga das Nações 2020/21 simbolizava o fim deste sonho: se fora finalista em 2018/19, a Laranja jogou sem brilho e perdeu o lugar nas semifinais para a Itália.
Exatamente durante esta queda de produção sob Frank de Boer é que começaram as eliminatórias para a Copa de 2022, em março de 2021. E o início só aumentou as desconfianças naquela fase da Laranja, no grupo G da qualificação europeia: fora de casa, contra a Turquia (adversária habitualmente árdua), uma derrota por 4 a 2. Nem mesmo as vitórias subsequentes contra Letônia (2 a 0) e Gibraltar (7 a 0) aumentavam a confiança num embalo. Foi assim que a Laranja chegou à Eurocopa, enfim disputada na metade daquele 2021. E os resultados na Euro... deram razão à altíssima desconfiança da torcida: mesmo após 100% de aproveitamento, num grupo considerado inferior (3 a 2 na Ucrânia, 2 a 0 na Áustria e 3 a 0 na Macedônia do Norte foram os adversários da Laranja), a queda já veio nas oitavas de final, com um 2 a 0 sofrido para a Tchéquia (República Tcheca). Frank de Boer foi demitido dois dias depois da eliminação. O sinal amarelo acendia para as eliminatórias da Copa em setembro de 2021, haveria sequência de partidas contra Noruega, Montenegro e Turquia, sendo noruegueses e turcos os adversários mais exigentes. Ou a Holanda convencia, ou correria sério risco de ficar fora da Copa pela segunda vez seguida.
Ronald Koeman ainda estava no Barcelona, mesmo contestado - só seria demitido em outubro. Os melhores técnicos holandeses da época, segundo a maioria, estavam empregados (Erik ten Hag, no Ajax; Peter Bosz, no Bayer Leverkusen - Arne Slot era visto ainda como promessa, no Feyenoord). As outras opções não empolgavam, nativos dos Países Baixos ou não. E a federação acabou "engolindo" o único nome que aceitou aquele desafio, num momento de encruzilhada: já praticamente aposentado, vivendo em sua casa de veraneio em Portugal, Louis van Gaal sucumbiu à tentação que sempre teve (fazer da Holanda campeã mundial), aceitando ir para a terceira passagem comandando a seleção masculina holandesa - o oitavo técnico da Holanda, interinos incluídos, em sete anos! Nos três jogos de setembro de 2021, teve êxito: em nove pontos disputados, a Holanda ganhou sete - 1 a 1 contra a Noruega, 4 a 0 em Montenegro e notáveis 6 a 1 na Turquia -, embalando nas eliminatórias. Mais duas vitórias em outubro, contra Letônia (1 a 0) e Gibraltar (6 a 0), colocaram a Laranja na rota da volta aos Mundiais.
Contudo, na penúltima rodada, mais um susto: podendo garantir a vaga por antecipação contra Montenegro, fora de casa, a equipe neerlandesa fazia 2 a 0, mas tomou o empate nos dez minutos finais. Resultado: para ter certeza do lugar na Copa de 2022, a Laranja precisaria vencer a Noruega, em casa e sem torcida - com a pandemia ainda em vigor, havia restrições sanitárias quanto à presença de público em Roterdã. Se empatasse, provavelmente ainda se classificaria, pela grande vantagem no saldo de gols. Mas se perdesse para a Noruega - que estava sem Erling Haaland, machucado naqueles dias -, não restaria nem o direito à repescagem, em caso de vitória da Turquia sobre os montenegrinos (vitória que ocorreu, de fato). Talvez ali, em 16 de novembro de 2021, tenha se iniciado o "modo de segurança" com que a Holanda encarou a Copa de 2022. Porque ela passou boa parte dos 90 minutos apenas controlando o jogo, sem correr riscos na defesa, nem atacar loucamente. Mas quando atacou, foi eficiente: dois gols nos últimos dez minutos de jogo, 2 a 0 na Noruega em De Kuip, susto afastado, Holanda de volta a uma Copa do Mundo.
Só então, com a vaga confirmada, é que Van Gaal pôde colocar em prática seu plano pragmático para tentar fazer da Laranja uma campeã mundial. Àquela altura, no começo de 2022, já se sabia que o grupo de jogadores tinha uma defesa muito sólida - com destaque, claro, para Van Dijk, com Nathan Aké e a revelação Jurriën Timber crescendo -, um desafogo ofensivo na lateral direita (Denzel Dumfries), mas um meio-campo que dependia demais de Frenkie de Jong, e um ataque definitivamente inferior (somente Memphis Depay atraía alguma confiança, e mesmo assim, passando por maus momentos no Barcelona). Então, Van Gaal - num comportamento bem mais tranquilo do que em outros momentos da carreira - decidiu escalar a equipe com três zagueiros. Começou a testar isso nos amistosos de março de 2022, com sucesso: uma vitória contra a Dinamarca (4 a 2) e um empate contra a Alemanha (1 a 1).
Mas seria ao longo da fase de grupos da Liga das Nações, quase toda em junho de 2022, que a seleção nacional neerlandesa se mostraria pronta para enfrentar o grupo A da Copa, no fim do ano, com o Catar como um frágil anfitrião, mas Senegal e Equador como candidatos a surpresas. Naquela Nations League, a Laranja estreou já pespegando 4 a 1 na Bélgica, fazendo talvez seu melhor jogo na terceira passagem de Van Gaal. De resto, mesmo sem brilhar, mostrava espírito de luta. Na segunda rodada, contra o País de Gales, fez 2 a 1 em Cardiff, com o gol da vitória nos acréscimos - e logo após tomar o empate; na terceira rodada, recebendo a Polônia em casa, tomou 2 a 0 mas buscou o empate em 2 a 2; na quarta rodada, novamente contra os galeses (agora em De Kuip), também fez o gol da vitória - 3 a 2 - nos acréscimos. Nas duas últimas rodadas do grupo da Liga das Nações, em outubro de 2022, foi momento de mostrar eficiência: 2 a 0 na Polônia fora de casa, 1 a 0 na Bélgica em Amsterdã, vaga nas semifinais da competição - em 2023. Invicta desde a chegada de Van Gaal, mostrando espírito de luta, eficiência, tendo alguns bons jogadores... sim, a Laranja estava capacitada para uma boa campanha no Catar, mesmo sem ser favorita ao título. Superava até problemas como a falta de um goleiro confiável: Justin Bijlow, Jasper Cillessen, Mark Flekken, Remko Pasveer... todos testados, nenhum aproveitou a chance.
Convocação para o Catar feita, com o destaque Memphis Depay se recuperando de lesão muscular na coxa, sem goleiro titular definido, Van Gaal decidiu apostar no menos badalado, que só despontara naquele 2022. E Andries Noppert, do Heerenveen, teria sua estreia na seleção justamente na estreia na Copa, em 21 de novembro, contra Senegal. Muito se desconfiava de uma "zebra", e de fato a partida no estádio Al Thumama foi bem equilibrada. Talvez, até, um empate fosse o resultado mais adequado. Só que o goleiro senegalês Édouard Mendy falhou duas vezes, Cody Gakpo e Davy Klaassen aproveitaram, e a Laranja estreou com vitória: 2 a 0. Uma vitória burocrática, sem empolgar, até decepcionante para quem se impressionava com a sequência invicta da Laranja e esperava uma seleção ofensiva.
Pior ainda foi o jogo seguinte, no estádio International Khalifa, em 25 de novembro: mesmo saindo na frente com gol rápido - Cody Gakpo marcou, já se credenciando ali como um dos destaques jovens da Copa, passando a ser nome importante para a Laranja ali -, o Equador reagiu, teve gol erradamente anulado (Jackson Porozo, supostamente impedido, teria atrapalhando Noppert - não atrapalhou), empatou afinal com Enner Valencia, mandou bola no travessão... e mesmo com o 1 a 1 no placar final, ficava a impressão de que a seleção sul-americana merecia ter vencido. A Holanda ficava do lado das decepções. E não melhoraria na terceira partida dos grupos, dia 29 de novembro, no estádio Al-Bayt: mesmo com o Catar já eliminado, a Oranje se contentou com um protocolar 2 a 0, sem se esforçar em golear. Só Gakpo era considerado destaque, como primeiro holandês a fazer três gols numa fase de grupos de Mundiais. De resto, pouquíssimos estavam contentes com o que se via do time neerlandês, mesmo que ele entregasse os resultados.
![]() |
| Numa fase de grupos altamente contestada da Laranja na Copa de 2022, Cody Gakpo foi o único a escapar de críticas (Cui Nan/China News Service/Getty Images) |
Entre esses contentes, estava Louis van Gaal, para quem as atuações dos Países Baixos estavam dentro do esperado. A quem reclamasse, Van Gaal retrucava coisas como "O futebol evoluiu e se tornou muito mais difícil do que 20 anos atrás jogar tão ofensivamente quanto o Ajax costumava fazer". Pelo menos nas oitavas de final, o treinador respondeu bem aos críticos. Porque a Laranja foi exemplar em seu pragmatismo, em seu jogo reativo, contra os Estados Unidos, em 3 de dezembro de 2022, no International Khalifa: para uma seleção considerada decepcionante e até ameaçada de "zebra", a Laranja controlou a partida contra os norte-americanos. Teve Dumfries fazendo talvez sua melhor atuação vestindo laranja, com um gol e passes para outros dois. E bastava os EUA ameaçarem, para mais um gol aparecer. Com os 3 a 1 no placar, os Países Baixos já estavam nas quartas de final da Copa. Exatamente contra a Argentina. Exatamente o que previam as apostas antes do torneio. Era a hora de se superar.
Contudo, na maioria do tempo normal daquele jogo em 9 de dezembro de 2022, a Laranja não se superou. Jogando com três zagueiros, "espelhando" o esquema tático holandês (comenta-se que o técnico Lionel Scaloni decidiu isso após conversa com o compatriota Gustavo Alfaro, que treinara o Equador naquela Copa em que causou tantos problemas à Oranje), a Argentina controlava a partida. O time de Van Gaal mal conseguia espaço para chutar a gol. E a Albiceleste só precisava esperar algo de Lionel Messi. Algo que veio duas vezes. No primeiro tempo, com passe milimétrico para que Nahuel Molina invadisse a área e fizesse 1 a 0 para os argentinos; no segundo, convertendo pênalti (Dumfries agarrara Marcos Acuña) e fazendo 2 a 0. Parecia o ponto final de uma insípida campanha holandesa.
Só que, se se jogava no "modo de segurança", aquela desvantagem foi o "reset": com Luuk de Jong e Wout Weghorst em campo, a Laranja apostaria nas bolas altas para tentar o empate. Numa delas, aos 38 minutos do segundo tempo, Weghorst cabeceou e diminuiu para 2 a 1. Mais alguns minutos, Leandro Paredes chutou de propósito uma das bolas em campo ao banco de reservas holandês, e o tempo ficou ainda mais quente, no jogo com mais cartões na história das Copas masculinas (17 amarelos, um vermelho). Mais os acréscimos... e numa falta perto da área, no penúltimo dos 11 (!) minutos de acréscimo, logo após pensar em bater direto, Teun Koopmeiners viu Weghorst ficando desmarcado na área, com Enzo Fernández se afastando. Ali decidiu rolar a bola para a área. Rolou, Luuk de Jong obstruiu um marcador argentino, Weghorst dominou e empatou: 2 a 2. Era quase inacreditável: num jogo em que merecia estar eliminada, a Laranja levava tudo para a prorrogação. Era a chance de renascer. Era um raro lance de brilho que a Holanda trouxe naquela Copa.
Chance perdida. Porque a Argentina voltou a crescer nos 30 minutos de tempo extra. Porque o ataque holandês quase inexistia: com Luuk de Jong e Weghorst, mas sem mobilidade (apenas Noa Lang e Steven Berghuis tentavam algo). Nas cobranças da marca do pênalti que vieram, Emiliano "Dibu" Martínez começaria seu caminho para a eternidade, pegando o chute inicial de Van Dijk, mais o de Berghuis. Noppert, tão badalado na estreia, de Copa correta, não defendeu nenhuma cobrança - até o chute de Enzo Fernández foi para fora. E a Argentina afinal avançou (e seguiu seu rumo ao terceiro título mundial), com os 4 a 3 nos chutes.
Mesmo com seu "modo de segurança" dando certo, a Holanda (Países Baixos) precisava(m) de um diferencial para poder(em) sonhar com aquela Copa de 2022. Um diferencial inexistente. A Laranja fez apenas o normal, e seu destino foi exatamente o esperado nos bolões mundo afora: perder para a Argentina, nas quartas de final.
Os convocados da Holanda para a Copa de 2022
Goleiros
1-Remko Pasveer (Ajax) - não jogou
13-Justin Bijlow (Feyenoord) - não jogou
23-Andries Noppert (Heerenveen) - 5 jogos, 4 gols sofridos
Defensores
22-Denzel Dumfries (Internazionale-ITA) - 5 jogos, 1 gol
2-Jurriën Timber (Ajax) - 4 jogos
4-Virgil van Dijk (Liverpool-ING) - 5 jogos
5-Nathan Aké (Manchester City-ING) - 5 jogos
17-Daley Blind (Ajax) - 5 jogos, 1 gol
3-Matthijs de Ligt (Bayern de Munique-ALE) - 2 jogos
6-Stefan de Vrij (Feyenoord) - não jogou
16-Tyrell Malacia (Manchester United-ING) - não jogou
26-Jeremie Frimpong (Bayer Leverkusen-ALE) - não jogou
Meio-campistas
21-Frenkie de Jong (Barcelona-ESP) - 5 jogos, 1 gol
14-Davy Klaassen (Ajax) - 4 jogos, 1 gol
15-Marten de Roon (Atalanta-ITA) - 5 jogos
20-Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA) - 5 jogos
24-Kenneth Taylor (Ajax) - 1 jogo
25-Xavi Simons (PSV) - 1 jogo
Atacantes
8-Cody Gakpo (PSV) - 5 jogos, 3 gols
10-Memphis Depay (Barcelona-ESP) - 5 jogos, 1 gol
19-Wout Weghorst (Besiktas-TUR) - 4 jogos, 2 gols
7-Steven Bergwijn (Ajax) - 4 jogos
11-Steven Berghuis (Ajax) - 4 jogos
18-Vincent Janssen (Royal Antwerp-BEL) - 2 jogos
9-Luuk de Jong (PSV) - 1 jogo
12-Noa Lang (PSV) - 1 jogo
Técnico: Louis van Gaal
Campanha
Fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 2x0 Senegal
Holanda (Países Baixos) 1x1 Equador
Holanda (Países Baixos) 2x0 Catar
Oitavas de final
Holanda (Países Baixos) 3x1 Estados Unidos
Quartas de final
Holanda (Países Baixos) 2x2 Argentina - Argentina 4x3 nos chutes da marca do pênalti





