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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Passos foram dados

Miedema sendo saudada por seus gols, como fazia tempo que não acontecia. Também fazia tempo que as impressões sobre a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) não eram tão promissoras (ProShots)

"Passos foram dados", resumiu alegremente a meio-campista Ella Peddemors, na entrevista à repórter Rivkah op het Veld, da emissora NOS. "Terminamos com um bom sentimento", comemorou o técnico Arjan Veurink, também à NOS. De fato, inegavelmente, a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) terminou 2025 com uma impressão boa como havia tempos que não deixava. Com as duas vitórias nos dois últimos amistosos do ano - 2 a 1 em Portugal, em Braga, e 5 a 0 na Coreia do Sul, em Waalwijk -, ainda sem perder sob o comando de Arjan Veurink (quatro jogos, três vitórias, um empate - e só um gol sofrido), de fato se confirmaram as evoluções ensaiadas neste começo de trabalho, mesmo com problemas aqui e ali.

Com algumas ausências - entre elas, Vivianne Miedema, preservada para evitar a piora de dores leves -, as Leoas Laranjas tiveram experiências na escalação contra Portugal. Por exemplo, Ella Peddemors começando como titular pela primeira vez, no meio-campo. Ou Ilse van der Zanden na lateral esquerda. Ou a experiência de mais sucesso: Lynn Wilms na lateral direita. Com Chasity Grant e Romée Leuchter (outra titular incomum) muito ativas no ataque, o trio colaborou para um bom começo da Holanda. Foi com triangulação de ambas que Leuchter fez gol anulado por impedimento, aos 17'. Foi assim que saíram os dois gols holandeses: aos 21', Wilms lançou, Leuchter cruzou e Grant completou para o 1 a 0, e dois minutos depois, foi Grant quem cruzou, da esquerda, para Wilms fazer 2 a 0, após Peddemors desviar.

Porém, esse ótimo começo, com um time mais dinâmico e eficiente no ataque, foi perturbado com as desatenções ainda persistentes da defesa. Começaram com um chute de Telma Encarnação, aos 27', que Lize Kop (novamente titular no gol) agarrou firme. Aos 32', Dominique Janssen, a nova capitã, falhou no meio-campo, e Telma arriscou o gol do meio-campo, mas a goleira das Leoas Laranjas estava atenta. Depois, Portugal sofreu o duro golpe aos 35': lesão aparentemente grave de Francisca "Kika" Nazareth, ao torcer o joelho esquerdo. Entretanto, aos 42', Kerstin Casparij (atuando pela esquerda) deixou espaço para Beatriz Fonseca cruzar, e Andreia Faria cabecear, diminuindo para 2 a 1. Foi a senha para Portugal deixar quaisquer abatimentos pela lesão de "Kika" Nazareth e buscar o empate na etapa final. 

Com Telma Encarnação, como quase sempre foi no jogo em Braga: aos 48' (voleio para fora), aos 54' (chute bloqueado por Wilms) e, principalmente, aos 57' (cabeceio, após escanteio, para grande defesa de Kop). Aí entrou o mérito de Arjan Veurink: suas alterações surtiram efeito, com as boas entradas de Nina Nijstad, dominando bem a bola e fazendo jogadas na esquerda, e Danique Tolhoek (outra estreante), retendo mais a bola no ataque. Com isso, a Holanda neutralizou mais Portugal, que só teve chances com Dolores Silva, aos 77' (Kop espalmou o chute, com desvio em Nijstad), e Jéssica Silva (aos 86', finalizando por cima do gol). No mais, a Holanda também apareceu com Tolhoek, finalizando contra-ataque por cima do gol, aos 89'. Com Nijstad, também errando a finalização. E as Leoas Laranjas puderam celebrar vitória duplamente importante: por ser contra rival de qualidade e por mostrar algumas jogadoras aproveitando a chance que tiveram, como Peddemors e Leuchter.

Peddemors já deixou boa impressão contra Portugal, e a confirmou contra a Coreia do Sul (Stan Oosterhof/Soccrates/Getty Images)

Por sinal, tais chances continuaram sendo aproveitadas no amistoso para fechar as datas FIFA (e o ano de 2025 como um todo), contra a Coreia do Sul. Algumas vezes, por necessidade: com Jackie Groenen e Kaptein cortadas por preservação para dores leves, o meio-campo teve novamente Damaris e Peddemors. Outras vezes, por oportunidade. Enfim podendo jogar - escalada, a princípio, como "falsa 10", partindo do meio-campo e se alternando de posições com Pelova -, Miedema já mostrou do que é capaz aos nove minutos de jogo, fazendo 1 a 0 num chute da entrada da área. Colaborava como meio-campista também, aos 12', ao passar para Leuchter bater na trave. Mas foi na finalização, em que é tão capacitada, que "Viv" mostrou sua qualidade como havia tempos não fazia. Aos 18', fez o segundo gol holandês, ao receber passe de Peddemors e driblar Kim Mi-yeoh. Aos 32', o terceiro de Miedema, em chute da entrada da área. E aos 38', seu quarto, complementando triangulação iniciada por Pelova e continuada por Lynn Wilms. Pela primeira vez, uma atacante da seleção feminina neerlandesa fez quatro gols no primeiro tempo. Sinal inequívoco do que Miedema ainda pode dar. E ainda poderia ser mais: a goleira Kim Min-jung pegou firme o arremate da camisa 9, aos 27 minutos.

Mesmo com o destaque absoluto de Miedema, outras reapareceram. Como Peddemors, com um passe para gol, ela mesma fazendo o quinto e completando a goleada ainda antes do intervalo, aos 42'. Ou Pelova, que quase fez, já no segundo tempo, chutando no travessão aos 50'. Ou até Leuchter, que mesmo perdendo muitas chances, teve novamente boa atuação. Ou Chasity Grant, oferecendo velocidade pela ponta esquerda. 

Enfim, várias jogadoras fundamentaram a boa impressão que a Holanda deu nestas datas FIFA femininas que encerraram 2025. No ano que vem, será necessário crescer já no começo, com o início das eliminatórias da Copa de 2027. E a impressão é de que as Leoas Laranjas já crescerão. 

Amistosos

Portugal 1x2 Holanda
Data: 28 de novembro de 2025
Local: Estádio Municipal (Braga)
Árbitra: Laura Mauricio (Suíça)
Gols: Chasity Grant, aos 21', Lynn Wilms, aos 24', e Andreia Faria, aos 42'

PORTUGAL
Patrícia Morais; Beatriz Fonseca (Lúcia Alves, aos 60'), Carole Costa, Diana Gomes e Catarina Amado; Dolores Silva, Tatiana Pinto (Fátima Pinto, aos 61') e Andreia Faria (Érica Cancelinha, aos 79'); Francisca Nazareth (Andreia Jacinto, aos 39'), Ana Capeta (Carolina Santiago, aos 79') e Telma Encarnação (Jéssica Silva, aos 61'). Técnico: Francisco Neto

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms (Caitlin Dijkstra, aos 61'), Dominique Janssen (Lieske Carleer, aos 61'), Ilse van der Zanden (Veerle Buurman, aos 61') e Kerstin Casparij; Damaris Egurrola Wienke, Wieke Kaptein (Lynn Groenewegen, aos 84') e Ella Peddemors; Victoria Pelova (Nina Nijstad, aos 61'), Romée Leuchter e Chasity Grant (Danique Tolhoek, aos 84'). Técnico: Arjan Veurink


Holanda 5x0 Coreia do Sul
Data: 2 de dezembro de 2025
Local: Mandemakers Stadion (Waalwijk)
Árbitra: Frederikke Sokjaer (Dinamarca)
Gols: Vivianne Miedema, aos 9', aos 18', aos 31' e aos 38', e Ella Peddemors, aos 42'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms (Kerstin Casparij, aos 64'), Caitlin Dijkstra (Veerle Buurman, aos 64'), Dominique Janssen (Lieske Carleer, aos 70') e Marisa Olislagers; Damaris Egurrola Wienke, Vivianne Miedema (Lynn Groenewegen, aos 64') e Ella Peddemors (Nina Nijstad, aos 64'); Chasity Grant, Romée Leuchter e Victoria Pelova (Kayleigh van Dooren, aos 80'). Técnico: Arjan Veurink

COREIA DO SUL
Kim Min-jung; Kim Jin-hui, Kim Min-ji (Kang Chae-rim, aos 46'), Kim Mi-yeon e Hoh Jin-young; Lee Min-hwa, Ji So-yun (Lee Eun-young, aos 82') e Lee Su-bin (Choe Joo-ri, aos 64'); Son Hwa-yeon (Casey Phair Yu-jin, aos 70'), Park Soo-jeong (Soo Jae-eun, aos 64') e Cho Hyo-joo. Técnica: Shin Sang-woo

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Últimos preparativos

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) terá nos amistosos contra Portugal e Coreia do Sul a última chance para se ajustar, rumo às eliminatórias da Copa de 2027 (KNVB Media/Divulgação)

No começo, era... o começo. Era conhecer as jogadoras, dar as linhas gerais do trabalho, começar uma reestruturação. Agora, já se tem uma ideia do que se pode esperar da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) sob o comando do técnico Arjan Veurink. Já se sabe, principalmente, que ela terá França, Polônia - coincidência pegar a adversária do primeiro amistoso sob Veurink - e Irlanda como adversárias nas eliminatórias da Copa de 2027, a serem disputadas no primeiro semestre do próximo ano. Aliás, já começam em março. É por isso que, mesmo ainda no início, já parece que as Leoas Laranjas terão de fazer certas definições nos últimos amistosos de 2025, contra Portugal (nesta sexta, 28, às 16h45 de Brasília, em Braga) e Coreia do Sul (na terça-feira, 2 de dezembro, também às 16h45 de Brasília, em Waalwijk).

E para essas definições, o técnico já tem suas primeiras dificuldades. Resumidas numa palavra: lesões. Foi por causa delas que Daphne van Domselaar e Lineth Beerensteyn, duas titulares absolutas em condições normais, nem foram incluídas na lista original (Van Domselaar, inclusive, nem jogou ainda sob Veurink). Já com a lista feita, três convocadas foram desligadas na apresentação ao centro de treinamentos da federação, na segunda-feira passada: Janou Levels, Jill Roord e Lotte Keukelaar. 

Problemático? Nem um pouco, nas palavras tranquilas de Arjan Veurink na entrevista coletiva, se valendo até dos oito anos como auxiliar de Sarina Wiegman, na Holanda e na Inglaterra: "Nos últimos anos, já aprendi que novembro é um mês desafiador, e este é um pouquinho mais. Só que isso também traz coisas positivas, porque posso deixar algumas garotas felizes [com a convocação]". Foi o que aconteceu com a meio-campista Nina Nijstad, destaque no PSV, nome já habituado com a seleção sub-21 dos Países Baixos, que já fazia por merecer um retorno à seleção principal. Ou mesmo com outro retorno, o da meio-campista Kayleigh van Dooren.

Também feliz estava a estreante da vez: outra meio-campista, Lynn Groenewegen, do Twente. Groenewegen vive avanço notável na carreira: há dois anos, estava no Excelsior (que normalmente sofre nas últimas posições do Campeonato Holandês feminino), foi para o Twente no começo de 2024, e agora chega à seleção. Claro, ela comemorou a chegada, ao site oficial da seleção feminina holandesa: "Ainda não acredito. Achei que, quando chegasse, eu ia me tocar, mas 'a ficha não caiu' completamente".

Depois dos últimos anos turbulentos, Vivianne Miedema parece pronta para seguir com a carreira. Começa bem a temporada no Manchester City, e quer seguir assim na seleção (ProShots)

Mais importante: a alegria segue nas palavras de quem talvez seja o maior valor técnico das Leoas Laranjas - claro, Vivianne Miedema. Enfim tendo uma sequência de jogos razoável pelo Manchester City, enfim deixando de sofrer (por ora...) com tantas lesões, a atacante reconheceu na entrevista coletiva: "Acho que todos podem ver que estou sorrindo de novo em campo. Os últimos anos foram difíceis para minha forma física. Tentei jogar o máximo possível nas datas FIFA, mas nem sempre consegui. Houve momentos em que eu tinha perdido o prazer com o futebol, totalmente. Depois da Euro passada, decidi me 'resetar': não fiz absolutamente nada por três semanas, e aí voltei de novo ao City". E voltou também à seleção, e voltou também a ficar animada: "Na época da Euro, estávamos aborrecidas. Precisávamos de um recomeço. Com a vinda de Arjan, e a energia da nova comissão técnica, tivemos esse recomeço".

Com esse bom clima - Jackie Groenen, outra veterana, celebrou mais ("Todo mundo está com uma boa impressão aqui dentro") -, a Holanda (Países Baixos) parte para os últimos preparativos de 2025. Incluindo até questões menores, como quem será a capitã, agora que Sherida Spitse já não faz mais parte do grupo ("Já decidi", revelou, sem revelar, Arjan Veurink). Afinal de contas, já será necessário entrar com tudo em 2026, para estar na Copa de 2027.

As 24 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIRAS: Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING), Daniëlle de Jong (Juventus-ITA) e Regina van Eijk (Ajax)

DEFENSORAS: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Aston Villa-ING), Veerle Buurman (Chelsea-ING), Lieske Carleer (Twente), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Ilse van der Zanden (Fiorentina-ITA), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE) e Marisa Olislagers (Brighton-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Victoria Pelova (Arsenal-ING), Damaris Egurrola Wienke (OL Lyonnes-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Ella Peddemors (Wolfsburg-ALE), Kayleigh van Dooren (Milan-ITA), Nina Nijstad (PSV) e Lynn Groenewegen (Twente)

ATACANTES: Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Danique Tolhoek (Ajax), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA) e Chasity Grant (Aston Villa-ING)

domingo, 23 de julho de 2023

Campo dos sonhos

Superior no primeiro tempo, calma no segundo, a Holanda estreou com a vitória que desejava na Copa feminina (KNVB Media/FIFA)

Nos dias que antecederam a estreia da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) na Copa do Mundo, o principal tema de reclamações do técnico Andries Jonker foi a dureza do campo de treinamentos do Bay Oval, na cidade neozelandesa de Tauranga, quartel-general das Leoas Laranjas no Mundial - até porque, em campo, nem havia muitos problemas, já que as jogadoras estavam prontas, sem lesões. Na ida ao campo de Dunedin, para começar a trajetória na Copa contra Portugal, porém, o gramado estava melhor. Assim como a seleção laranja, que conseguiu se impor no primeiro tempo, suportar a pressão maior no segundo e estrear com a vitória por 1 a 0.

Talvez a imposição holandesa no começo do jogo se deva a dois fatores. O primeiro veio do adversário. Porque, se as titulares de Portugal eram nomes conhecidos e habituais nas Navegadoras, algumas posições foram diferentes. E para pior: decisões do técnico Francisco Neto (colocar Ana Borges na ala direita, deixar Fátima Pinto no miolo de zaga e demorar para colocar Tatiana Pinto em sua posição normal) foram altamente contestadas. E nos 45 minutos iniciais, cobraram seu preço, com o time português acanhado em campo, quase sem causar problemas.

Van der Gragt começou sua "despedida" imponente no ataque, ao fazer o gol. E na defesa, ao impedir Jéssica Silva de causar maiores danos (Matthew Lewis/FIFA/Getty Images)

O segundo fator foi o mérito da própria Holanda. Para começar, mantendo a posse de bola sem perdê-la facilmente, evitou que a pressão de Portugal no início fizesse efeito. Para isso, colaborou que o trio de zagueiras se mostrasse muito seguro em campo. A começar por Stefanie van der Gragt: começando as últimas partidas de sua carreira, a zagueira abriu o placar na bola aérea (como já fizera na Euro feminina do ano passado, aos 13', num escanteio cobrado por Sherida Spitse). Mais do que isso: quando as neerlandesas sofreram mais, Van der Gragt mostrou precisão nas antecipações, impedindo que passes em profundidade alcançassem Jéssica Silva - bem no ataque -, para que ela fizesse as jogadas pelas pontas nas quais vai tão bem.

Além disso, pareceu diminuído um defeito comum da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) nos últimos anos: o excesso de contra-ataques cedidos. Com mais marcação no meio - graças a Jackie Groenen, com a ajuda de Daniëlle van de Donk e Esmee Brugts -, a equipe alaranjada conseguiu ganhar mais a bola nas divididas. Logo, conseguiu chegar mais ao ataque. E sobraram chances para ter uma vantagem até maior no primeiro tempo: Lieke Martens chutou fraco aos 37', Van de Donk cabeceou também fracamente aos 39', Lineth Beerensteyn chutou para fora aos 44'.

As chances fizeram falta - assim como a perdida por Van de Donk já aos 49', na qual Inês Pereira fez grande defesa. Porque Portugal começou a ter mais espaço nos 45 minutos finais em Dunedin. A entrada de "Kika" Nazareth (ainda se recuperando de leve lesão muscular) devolveu Tatiana Pinto à ponta direita, onde se sai melhor. E vieram a campo nomes como Andréia Jacinto e Telma Encarnação para aumentarem as chances de empate. Telma, inclusive, teve a melhor oportunidade para isso, aos 82', driblando Janssen e chutando para a defesa de Van Domselaar.

Só que a Holanda se aguentou, mesmo nesse momento de baixa. A entrada de Damaris estabilizou o meio-campo; Victoria Pelova, em queda física (e mesmo antes disso, sem velocidade para dar sequência a alguns ataques), deu lugar a Kerstin Casparij nos acréscimos. E veio a vitória, melhor jeito de resolver o nervosismo de uma partida de estreia numa Copa do Mundo.

A Holanda vai voltar ao gramado duro do Bay Oval, em Tauranga, para seus treinos. Mas segue no campo dos sonhos, na Copa do Mundo feminina.

Copa do Mundo Feminina da FIFA 2023 - fase de grupos - Grupo E

Holanda 1x0 Portugal
Data: 23 de julho de 2023
Local: Estádio Dunedin (Dunedin)
Juíza: Kateryna Monzul (Ucrânia)
Gols: Stefanie van der Gragt, aos 13'

Holanda
Daphne van Domselaar; Sherida Spitse, Stefanie van der Gragt e Dominique Janssen; Jackie Groenen; Victoria Pelova (Kerstin Casparij, aos 90' + 4), Jill Roord, Daniëlle van de Donk (Damaris Egurrola, aos 80') e Esmee Brugts; Lineth Beerensteyn (Katja Snoeijs, aos 87') e Lieke Martens. Técnico: Andries Jonker

Portugal
Inês Pereira; Catarina Amado (Lúcia Alves, aos 79'), Fátima Pinto, Diana Gomes e Carole Costa; Tatiana Pinto, Dolores Silva (Francisca "Kika" Nazareth, aos 67'), Andreia Norton (Andréia Jacinto, aos 79') e Ana Borges; Diana Silva (Telma Encarnação, aos 79') e Jéssica Silva. Técnico: Francisco Neto

quarta-feira, 13 de julho de 2022

A duras penas

A Holanda penou, correu muito risco de tomar a virada de Portugal... mas Van de Donk foi quem trouxe o talento individual decisivo da vez. E as Leoas Laranjas venceram na Euro (KNVB Media)


Os fatos ruins só aumentaram os distúrbios que tomam conta da participação da Holanda na Euro feminina. Eram as lesões de Sari van Veenendaal (fora da Euro pelo problema no ombro) e Aniek Nouwen; a reclamação de Vivianne Miedema sobre a excessiva interação das jogadoras com familiares/jornalistas, aumentando o perigo da COVID; os testes positivos de Jackie Groenen e da própria Miedema para o coronavírus; e a entrevista de Jill Roord ao diário De Volkskrant, comentando com certa ironia sobre o comportamento do técnico Mark Parsons. Só uma vitória contra Portugal diminuiria os comentários crescentes. Ela veio. A duras penas, mas veio. E a situação fica sob controle, pelo menos por enquanto, com o 3 a 2 feito em Portugal - dando até a liderança do grupo C da Euro, para um time que ainda está sofrendo.

E a gangorra - ou será montanha-russa? - entre dor e prazer para a seleção laranja ficou clara tão logo o jogo começou. Primeiro, a dor: com a lentidão de Lynn Wilms na direita, diante de um time tão intenso quanto Portugal foi no estádio Sports Village, bastaram apenas cinco minutos para uma defesa de Daphne van Domselaar, a nova titular do gol, num chute de Tatiana Pinto (jogada só anulada por impedimento de Ana Borges, na origem), e para um gol de Ana Borges, também anulado por impedimento. Para, no minuto seguinte, vir o prazer: a velha eficácia de Sherida Spitse nas bolas paradas, o cabeceio de Damaris Egurrola - titular, na ausência de Groenen -, 1 a 0. E Damaris não ficou só no gol: a camisa 21 exibia segurança na posse de bola, capacidade nos lançamentos em profundidade - quase sempre desperdiçados por Lineth Beerensteyn, preenchendo a lacuna da ausência de Miedema -, ajudava bastante Spitse. E na frente, não só Daniëlle van de Donk fazia boa partida, com tentativas - como aos 13', num voleio -, como as falhas portuguesas nas bolas paradas abriram espaço para o 2 a 0, aos 16', em cabeceio que rendeu dores a Stefanie van der Gragt, pelo pé alto de Catarina Amado, que atingiu o nariz da zagueira. 

Porém, nada disso queria dizer que Portugal caíra definitivamente. Sempre que tinham a bola nos pés, e encontravam a defesa neerlandesa desguarnecida, as lusitanas traziam perigo. Principalmente pelas pontas, opção que a Holanda raramente aproveitava. Com velocidade e força física, Jéssica Silva causava problemas a Marisa Olislagers. E Diana Silva tomava o protagonismo de Ana Borges (tornando-se recordista de partidas pela seleção - 146) para driblar constantemente Wilms e Dominique Janssen. Até que esta cometeu pênalti, aos 38', flagrado pelo VAR e convertido por Carole Costa, muito bem na lateral esquerda. E mesmo ganhando ao final do primeiro tempo, a Holanda perdia terreno para a intensa seleção feminina das quinas.

Portugal pode ter tomado dois gols pelas falhas em escanteios, mas a intensidade e a velocidade de seu ataque - bem personificados em Jéssica Silva (à direita) - mereceram aplausos (Daniel Mihailescu/AFP/Getty Images)

Se havia alguma expectativa de que o intervalo pudesse oferecer um tempo para a Holanda se assentar, ela se acabou nos dois primeiros minutos da etapa final. No primeiro, Jéssica Silva novamente driblou Olislagers com facilidade e cruzou, para Daphne van Domselaar (outra atuação segura, agora como titular definitiva do gol) espalmar; no escanteio da sequência, após rebote parcial, Carole Costa cruzou, e Diana Silva cabeceou à queima-roupa, fazendo 2 a 2, com liberdade, diante de uma defesa holandesa mal posicionada. Seguia a velocidade de Diana, a habilidade de Jéssica Silva, a experiência de Ana Borges... a reação portuguesa encurralava a Holanda, passando mais dificuldades até do que as sofridas contra a Suécia. Nem o gol anulado de Roord (impedimento de Beerensteyn na origem da jogada, aos 50') freava a péssima sensação.

Só o talento individual salvou as Leoas Laranjas. Na forma de um chute perfeito de Daniëlle van de Donk, coroando a recuperação pela qual tanto se esforçou ao fazer o gol de uma difícil vitória. E com as alterações de Mark Parsons, que efetivamente ajudaram a seleção na partida. Na defesa, Kerstin Casparij diminuiu os problemas que Jéssica Silva causava na direita; no ataque, Esmee Brugts manteve mais a posse de bola, e até experimentou mais jogadas, quando entrou no lugar de uma Lieke Martens que pouco fez. De quebra, Spitse foi de grande valia nos desarmes, no meio, impedindo que a defesa sofresse tanto com os ataques portugueses.

E a Holanda venceu. Com sofrimento. Pelo visto, ele será a tônica na campanha das Leoas Laranjas durante toda a Euro feminina. Quem sabe ele diminua se as positivadas para a COVID voltarem rápido, ou se a defesa se aprumar, ou se o time souber manter as vantagens que consegue...

Euro feminina 2022 - fase de grupos - Grupo C
Holanda 3x2 Portugal
Data: 13 de julho de 2022
Local: Sports Village (Leigh)
Juíza: Ivana Martincic (Sérvia)
Gols: Damaris Egurrola, aos 7', Stefanie van der Gragt, aos 16', Carole Costa, aos 38', Diana Silva, aos 47', e Daniëlle van de Donk, aos 62'

Holanda
Daphne van Domselaar; Lynn Wilms, Stefanie van der Gragt, Dominique Janssen e Marisa Olislagers (Kerstin Casparij, aos 63'); Sherida Spitse, Jill Roord e Damaris Egurrola (Victoria Pelova, aos 69'); Daniëlle van de Donk, Lineth Beerensteyn e Lieke Martens (Esmee Brugts, aos 82'). Técnico: Mark Parsons

Portugal
Inês Pereira; Catarina Amado, Diana Gomes, Carole Costa e Joana Marchão (Francisca "Kika" Nazareth, aos 65'); Dolores Silva (Fátima Pinto, aos 65'), Andreia Norton e Tatiana Pinto (Vanessa Marques, aos 86'); Diana Silva (Carolina Mendes, aos 86'), Ana Borges e Jéssica Silva. Técnico: Francisco Neto

domingo, 9 de junho de 2019

Há coisa mais preocupante

Mais do que a derrota na final da Liga das Nações, problemas de ataque preocupam a seleção da Holanda (ANP)
Antes mesmo da bola rolar no Estádio do Dragão, pela final da Liga das Nações, o favoritismo da seleção de Portugal perante a Holanda era um pouco maior. Por vários motivos: a regularidade maior dos Tugas, a presença de Cristiano Ronaldo (sempre importante, para indicar o rumo a seguir), o fato de ter se classificado à decisão sem uma prorrogação e, em menor escala, o "fator casa". Por isso, a conquista portuguesa só é triste para a Laranja por ser mais uma derrota em final. O problema é que há coisas mais preocupantes que a decisão da Nations League revelou.

Claro, assim como perder a final não era o fim do mundo, ganhar não significaria que a Holanda está pronta para o que der e vier. E o próprio Ronald Koeman lembrou disso, na entrevista coletiva do sábado: "Eu não posso ser comparado a Rinus Michels [técnico da Holanda campeã da Euro 1988] se vencermos. A ordem de importância é esta: Copa, Euro e Liga das Nações. Ninguém vai fazer uma festa gigante se ganharmos. Só tomaremos um vinho e sairemos de férias". Porém, era possível esperar que a capacidade coletiva da Oranje pudesse segurar Portugal - e, quem sabe, esperar que a circulação dos três atacantes na frente atrapalhasse a defesa da seleção da casa, desfalcada de Pepe.

Fracasso total. Que fique claro: o problema holandês não esteve na defesa, com mais uma boa atuação de Virgil van Dijk e Matthijs de Ligt (este até apareceu mais). Nem no meio-campo, onde Georginio Wijnaldum fez o que foi possível, buscando avançar mais para ajudar na armação. O problema foi no ataque. É o caso de dizer que, mais do que ser eficiente na finalização, faltou a Holanda... criar. Fazer Rui Patrício trabalhar. Nenhum dos três atacantes nederlandeses fez isso: nem Ryan Babel, nem Steven Bergwijn, nem Memphis Depay, todos facilmente neutralizados. Wijnaldum avançava, Denzel Dumfries chegava com vitalidade pela direita, a posse de bola era mantida... mas os visitantes não traziam perigo algum a Portugal. Quando traziam, vinham os erros - como de Bergwijn, aos 30': após roubar a bola, o camisa 7 chegou à área, mas demorou para passar, e Rúben Dias o desarmou.

Wijnaldum foi dos raros holandeses a tentarem qualquer coisa no ataque (TF Images/Getty Images)

Claro, o cansaço da semifinal desgastante contra a Inglaterra se fez sentir. E os espaços começaram a aparecer para que Portugal fizesse o que desejava: contra-atacasse. Houve precipitação no começo, quando os perigos vinham mais dos chutes de Bruno Fernandes (aos 12', para fora, e aos 30', quando Cillessen espalmou). No entanto, os lusos chegaram mais e mais, com a boa partida de Bernardo Silva, com a velocidade de Gonçalo Guedes, com a presença sempre temível de Cristiano Ronaldo. Cillessen até mostrou segurança, com defesas firmes. Mas estava claro: se a Holanda não melhorasse, o gol lusitano seria questão de tempo.

Ronald Koeman notou isso, e tentou resolver com a entrada de Quincy Promes. Ajudou por um tempo: a Holanda teve mais a bola no ataque, e até conseguiu uma chance meio acidental (aos 57', Memphis Depay cruzou, e Rui Patrício teve de afastar para escanteio). A entrada de Donny van de Beek, três minutos depois, poderia acelerar ainda mais. Porém, segundos após a vinda do meio-campista ao gramado, o erro fatal: um corta-luz de Gonçalo Guedes enganou De Ligt, abrindo espaço para Bernardo Silva avançar. Ele o fez, devolveu a bola a Gonçalo, este chutou, Cillessen cometeu pequena falha, e era o 1 a 0 português.

Só restou à Holanda buscar o gol. Às vezes, com perigo, como na excelente defesa de Rui Patrício para o cabeceio de Memphis aos 65'. Posteriormente, Luuk de Jong entrou, e já ajudou aos 82': ajeitou a bola, de cabeça, para desvio de Marten de Roon, providencialmente afastado para escanteio por Rui Patrício. Mas mesmo nesse momento, a Laranja nunca deu impressão real de poder ameaçar o título português. O próprio Frenkie de Jong reconheceu, após a partida: "Nunca consegui criar uma situação de superioridade numérica com meus passes, sempre tinha de ir para os lados". E a Holanda perdeu. Se serve de consolo, conseguiu achar uma base. Mas ficou claro que há coisas a melhorar, com o ataque sendo a mais gritante dessas coisas. Outras são a lateral direita (Dumfries tem vitalidade física notável, mas ainda não exibiu muita técnica) e, vá lá, o gol (em condições normais, Cillessen é titular, mas seguir sem ritmo de jogo pode lhe fazer ser mais ameaçado).

E a melhora precisa ser urgente, porque, nas Eliminatórias da Euro 2020, Alemanha e Irlanda do Norte podem abrir vantagem no grupo da Laranja. Que voltará sem margem de erro: precisará vencer os norte-irlandeses, Estônia, Belarus (já vencida uma vez) para se classificar à Euro sem sustos. Passar sufoco na qualificação, sim, seria uma coisa bem mais preocupante do que a derrota deste domingo.

Liga das Nações da UEFA - final
Portugal 1x0 Holanda
Data: 9 de junho de 2019
Local: Estádio do Dragão (Porto)
Árbitro: Alberto Undiano Mallenco (Espanha)
Gol: Gonçalo Guedes, aos 60'

Portugal
Rui Patrício; Nélson Semedo, José Fonte, Rúben Dias e Raphaël Guerreiro; Danilo Pereira, William Carvalho (Rúben Neves), Bernardo Silva e Bruno Fernandes (João Moutinho); Gonçalo Guedes (Rafa Silva) e Cristiano Ronaldo. Técnico: Fernando Santos

Holanda
Jasper Cillessen; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Daley Blind; Marten de Roon (Luuk de Jong), Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum; Steven Bergwijn (Donny van de Beek), Memphis Depay e Ryan Babel (Quincy Promes). Técnico: Ronald Koeman

segunda-feira, 26 de março de 2018

Viram só?

Quem diria? Portugal, de Cristiano Ronaldo, reclamou. A Holanda, de Cillessen e Pröpper, consolou - e, tranquila, venceu (Reuters)
De certa forma, é até comum nos tempos recentes: mesmo que esteja fora da Copa do Mundo, a seleção da Holanda costuma oferecer dificuldades nos amistosos contra adversários que se preparam com vistas ao Mundial. Em 2002, a Laranja empatou com a Inglaterra e ganhou de Espanha e Estados Unidos. Neste 2018, mesmo com a derrota para a Inglaterra mostrando preocupante inação ofensiva, já se via uma definição tática promissora. E o amistoso desta segunda-feira, com Portugal, mostrando sete mudanças em relação ao jogo da sexta passada, deixou claro que há possibilidades para a Laranja, com a elogiável vitória por 3 a 0.

Curiosamente, no começo, o 5-3-2 que se viu parecia ter os mesmos problemas do amistoso contra os ingleses. Mesmo com Tonny Vilhena experimentado na lateral esquerda, a linha de cinco defensores seguia retida no campo de defesa, enquanto Portugal mantinha posse de bola. Todavia, os Tugas também não criavam muitas chances - apenas projetos delas, como aos cinco minutos, em bola cruzada da direita por Ricardo Quaresma, mas recuada sem problemas por Matthijs de Ligt, sem problemas para Jasper Cillessen (que teve a chance no gol).

Mas na primeira vez que teve espaços para buscar o ataque, a Oranje já conseguiu seu primeiro gol, aos 11', contando justamente com a ajuda do setor que melhor impressão causou na sexta: a defesa. Afinal, após boa inversão de jogo de Davy Pröpper - seguro no meio-campo -, foi de Virgil van Dijk, mais avançado, o passe que chegou a Kenny Tete. O lateral cruzou, Donny van de Beek chutou fraco, mas Memphis Depay "consertou" e bateu mais forte para o 1 a 0 - de certa forma, um bom augúrio para a melhor atuação do atacante, enfim mais ativo para jogadas (assim como Ryan Babel trouxe mais mobilidade do que Bas Dost).

Memphis Depay teve, enfim, uma atuação para provar que pode ser útil (ANP/Pro Shots)
O gol abriu o caminho para uma Holanda diferente da que se viu na sexta-feira: mais confiante, ousada, ofensiva. Não a ponto de jogar aberta, mas a ponto de ser consistente na defesa - e de, a partir dela, chegar a mais gols. Até porque partiram de De Ligt os passes para o segundo gol, aos 32' (veio pela direita, cruzou forte - quase chutou, a bem da verdade - e Babel arriscou um desvio "corajoso" na bola veloz, sendo "premiado" com o gol), e também para o terceiro, nos acréscimos (Memphis Depay cobrou falta para a área, De Ligt ajeitou e Virgil van Dijk chutou para o terceiro gol). Aliás, o tento poderia ter vindo até mais cedo - aos 43', Vilhena cruzou da esquerda, e Memphis Depay apareceu livre para cabecear à queima-roupa, causando ótima defesa de Anthony Lopes. Os portugueses? Só tentaram algo aos 39', quando Bruno Fernandes desviou a bola de pé direito, em cima de Cillessen.

No segundo tempo, a seleção das Quinas até viu um início promissor, com as entradas de André Silva e Gonçalo Guedes. Cristiano Ronaldo, até então meio isolado, já teve mais a bola nos pés - e começou a causar os problemas que pode causar, dando trabalho a Nathan Aké. Aí apareceu outro destaque: Cillessen, que fez ótimas defesas em sequência - aos 48', num leve desvio de Cristiano Ronaldo, de cabeça, e no minuto seguinte, quando Quaresma arrematou de fora da área. Mas a expulsão de João Cancelo - por carrinho violento, de fato, no tornozelo de Vilhena, aos 61' - praticamente acabou com o jogo. Portugal teve seu ímpeto ofensivo amainado definitivamente; e a Holanda apenas conservou a vantagem que já tinha, além de fazer algumas alterações. Steven Berghuis e Timothy Fosu-Mensah levaram o time a tentar alguns minutos no 4-3-3 velho de guerra; e tiveram seus primeiros minutos pela Oranje adulta Guus Til e Justin Kluivert.

Assim, o amistoso terminou no 3 a 0 do primeiro tempo. E a Holanda deixou claro que, se não é páreo para as maiores seleões europeias, não é de se jogar fora. Viram só?

Amistoso
Portugal 0x3 Holanda
Data: 26 de março de 2018
Local: Estádio de Genebra (Genebra, na Suíça)
Árbitro: Ruddy Buquet (França)
Gols: Memphis Depay, aos 12', Ryan Babel, aos 32', e Virgil van Dijk, aos 45' + 2

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete (Guus Til), Matthijs de Ligt (Timothy Fosu-Mensah), Virgil van Dijk, Nathan Aké e Tonny Vilhena (Stefan de Vrij); Donny van de Beek, Davy Pröpper e Georginio Wijnaldum (Marten de Roon); Ryan Babel (Steven Berghuis) e Memphis Depay (Justin Kluivert). Técnico: Ronald Koeman

Portugal
Anthony Lopes; João Cancelo, Rolando (Luis Neto), José Fonte e Mário Rui; Manuel Fernandes e André Gomes (André Silva); Ricardo Quaresma (Gelson Martins), Bruno Fernandes (João Mário) e Adrien Silva (Gonçalo Guedes); Cristiano Ronaldo (João Moutinho). Técnico: Fernando Santos

sexta-feira, 23 de março de 2018

O ano é 2018, o exemplo é 2014

Ronald Koeman deixou bem claro: neste começo de trabalho, a seleção holandesa precisa de foco, acima de tudo (Pa Photos/VI Images)
Já era algo conhecido de todos – talvez, até, esta coluna tenha citado algo a respeito. E nesta semana, confirmou-se algo que fora falado por Eric Gudde, diretor técnico da federação holandesa, durante a entrevista coletiva que apresentou Ronald Koeman como novo técnico da seleção: “O padrão deve ser o da Copa de 2014”. O tempo mostrou: aquela equipe laranja (ou azul, como nos jogos contra Espanha, Austrália e Brasil) tinha mais esforço do que talento, mas assim obteve bons resultados e foi elogiada. É exatamente tal objetivo que guia esta nova fase da Laranja, que será começada nesta sexta, com o amistoso contra a Inglaterra, em Amsterdã, e seguirá na segunda, em outra partida amigável, contra Portugal, em Genebra - a princípio, seria contra a Espanha.

Aliás, as novidades não ficam só dentro de campo. As que ocorrem fora parecem indicar, no fundo, uma coisa só: a Holanda quer se assumir como uma seleção... média, que não merece tanta atenção nem tanta celebração, que deseja apenas foco total no trabalho. Algo exemplificado até na mudança da sede da preparação para as datas Fifa. Antes, a apresentação dos convocados era feita no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk – e havia uma curta viagem de ônibus até Katwijk, para os treinamentos no campo do Quick Boys, clube amador. Agora, a mudança de pessoas motivou a federação a também mudar de lugares: treinamentos e concentração serão feitos no KNVB Campus, espécie de centro nacional de desenvolvimento do futebol holandês (com alojamento para os atletas, claro), construído em anexo à sede da federação, em Zeist.

Um lugar mais discreto, para uma preparação mais discreta. Tanto nas entrevistas – Ronald Koeman só concedeu duas delas, na segunda e na quinta desta semana, além de ter enviado a convocação final dos 23 jogadores num simples e-mail à imprensa – quanto nos treinamentos. Conforme já preconizara em sua apresentação, Koeman trouxe à seleção os treinos fechados. Por dois motivos, segundo a imprensa: um óbvio (trazer mais concentração ao grupo de jogadores, livrando-os de chateações de imprensa ou excessivos assédios) e outro implícito, até decorrente do primeiro (fazer com que os jogadores sejam mais... profissionais, tenham mais dedicação enquanto estiverem na seleção – uma das grandes preocupações do novo treinador).

Tudo isso, de certa forma, remete ao exemplo que guiará a seleção holandesa: a supracitada Copa de 2014. Se Eric Gudde foi claro ao citá-la, Koeman aprofundou mais a explicação: “Pode-se dizer que ela deve ser um padrão pelo resultado prático, com a terceira posição que alcançamos. Mas acho que Eric também se referia ao que ocorreu fora de campo. Todos sabiam quem era o técnico, então, e mesmo com uma qualidade menor, o coletivo alcançou um feito maravilhoso. Naquela época, em todos os setores, havia clareza. E acho que clareza é uma de minhas qualidades”.

De fato, Koeman foi claro para assumir várias coisas. A primeira: de fato, a seleção dificilmente jogará no 4-3-3 sob seu comando. Adivinhem: voltarão os três zagueiros – seja no 5-3-2 de 2014, seja no 3-5-2. A justificativa foi até óbvia: “Com todo respeito, não temos mais os melhores de verdade. Então, procuram-se outras coisas, como um outro esquema. Na minha convocação, procurei escolher jogadores que pudessem ir bem nesse sistema [com três zagueiros]. Trabalhamos duro, treinamos duro, e quero ver o resultado contra a Inglaterra”.

Procuraram-se “outras coisas...”, mas Koeman também procurou os três jogadores que eram símbolos de talento em 2014. Para cada um deles, uma conversa diferente. Com Wesley Sneijder, o objetivo foi dizer que ele não faria parte dos novos planos – até por isso, o anúncio do fim da carreira do meio-campista na seleção, após 15 anos e o recorde de 133 partidas pela Laranja. O meio-campista ficou ligeiramente sentido. Ficou ainda mais desapontado com sua ausência dos amistosos – esperava fazer deles uma espécie de “despedida”, mas novamente o técnico foi claro: “Ele terá uma despedida como merece, mas, com todo respeito a Wesley, isso [um jogo pela seleção] fica para outra hora”. Restou a Sneijder, de folga do Al Gharafa, uma visita aos compatriotas que treinam em Zeist, nesta quinta.

Com Arjen Robben, a prosa foi ligeiramente diferente. Koeman assumiu: queria saber se o atacante realmente havia fechado o capítulo da Oranje em sua carreira contra a Suécia, nas Eliminatórias da Copa, em outubro passado. “No momento em que ele jogou sua última partida, parecia que ele tinha deixado a porta entreaberta. Foi uma das razões pelas quais fui falar com ele”. Robben fechou a porta de vez, mas ainda assim, foi útil: “Acima de tudo, quis saber o que ele achou desses últimos tempos da seleção”. E caso o calvo precoce de Bedum mude de ideia, o técnico já abriu o caminho: “Robben ainda me pareceria um ganho de valor para a seleção”.

Quem também pode pensar numa eventual volta é o terceiro da lista de “decisivos” em 2014: Robin van Persie. Desde que sob certas condições, conforme o treinador alertou: “Estive no Feyenoord, falei com ele, quis saber sua opinião. Ele não disse que havia parado com a seleção. E mostrou de novo sua classe [com os dois gols contra o Zwolle, na rodada do Campeonato Holandês]. Só que, mesmo que a qualidade seja o critério principal, primeiro ele precisa entrar em forma”.

Em meio a várias caras novas, Virgil van Dijk (em primeiro plano) já desponta como um dos possíveis símbolos da Laranja (ANP/Pro Shots)
Enquanto isso, os convocados da vez tentam mostrar a vontade vista nas palavras de Bas Dost: “Eu quero demais mostrar o valor que tenho”. Caras novas, não faltam: há Justin Kluivert (pode estrear na Oranje adulta aos 18 anos, como o pai fez em 1994), Hans Hateboer (ótimo na Atalanta, o ala é forte candidato a tomar a lateral direita de Timothy Fosu-Mensah e Kenny Tete, outros relacionados da posição), Guus Til (merecida convocação deste novato meio-campista, destaque na ótima campanha do AZ na Eredivisie), Wout Weghorst (mais um membro do AZ – por sinal, junto de Dost, mostrando uma certa tendência de atacantes holandeses altos e corpulentos, sem o maior dos talentos com a bola nos pés). Se alguma ausência surpreende, é a de Daley Blind, somente.

Simultaneamente, Koeman já começa a escolher os jogadores que sustentarão sua base. Um deles já dizia durante os treinos em Zeist: “Ser capitão da seleção é um sonho”. Pois bem, Virgil van Dijk teve a quimera realizada, e certamente será o sustentáculo da defesa de cinco homens, provavelmente ao lado de Stefan de Vrij e Matthijs de Ligt. No ataque, o treineiro holandês carregou mais nas palavras: confiará em Memphis Depay, desconfiando simultaneamente. Afinal, Koeman é daqueles que tanto admira o talento do atacante quanto lamenta a falta de foco às vezes apresentada por ele na carreira: “Eu quis trazê-lo para o Everton. Ele tem muita qualidade. E tive ótima impressão na conversa com ele. Mas é um caminho de mão dupla: eu trabalharei duro para ajudá-lo, mas ele também precisará fazer isso”.

E há os nomes previsíveis: Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum, Davy Pröpper, Quincy Promes... 
A única dúvida de Koeman, a bem da verdade, está no gol. Nenhum dos dois nomes mais cogitados inspira total confiança. Quem escolher? Jeroen Zoet, com ritmo total de jogo (é titular absoluto do PSV), mas num campeonato de nível técnico baixo? Ou Jasper Cillessen, melhor no jogo com os pés, acostumado ao altíssimo nível de competição (reserva do Barcelona que é), mas não só acomodado na suplência, como jogando apenas na Copa do Rei – por mais que tenha ido bem em suas atuações recentes? Pelo menos nos amistosos, Zoet ganhará a escolha.

As condições estão dadas: trabalho duro e foco no coletivo, como na Copa de 2014. Assim, Ronald Koeman e os jogadores tentarão fazer a Holanda recuperar algum respeito. Afinal, se ela não faz frente às grandes forças europeias – Alemanha, França, Espanha, Bélgica -, também não é pior do que Islândia ou Dinamarca ou Polônia, como muita gente tem achado.

(Ou será que é? Vai saber...)

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 23 de março de 2018)