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terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Na hora de tirar o dez...

Nos últimos amistosos de 2024, a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) até mostrou boas atuações. Só que faltou a grande mostra de capacidade... (Divulgação/KNVB Media)

Se havia alguma intenção com os amistosos derradeiros de 2024 para a seleção feminina da Holanda (Países Baixos), eram duas, na verdade: dar ainda mais espaço às jogadoras mais novas, e terminar o ano com mais duas vitórias para confirmar a evolução insinuada nas duas vitórias de outubro, contra Indonésia e Dinamarca. Bem, a primeira foi plenamente cumprida, indicando até alguns nomes que são candidatas a titulares. A segunda... quase. Se a virada para a goleada por 4 a 1 sobre a China confirmou a melhor atuação das Leoas Laranjas, na sexta passada, o esperado encontro contra os Estados Unidos mostrou uma boa atuação... mas nada de vitória - as norte-americanas é que viraram o placar, para 2 a 1, nesta terça-feira.

Pelo que se viu das escalações, o amistoso contra as estadunidenses era encarado como a grande prova. Contra a China, a primeira intenção foi mais vista. Claro que algumas titulares estiveram presentes, como Jackie Groenen e Dominique Janssen, mas o espaço foi das reservas (como a goleira Lize Kop e a zagueira Ilse van der Zanden) e das novatas (como a meio-campista Nina Nijstad e, principalmente, da atacante Chimera Ripa, titular pela primeira vez). Até que começou dando certo, com as neerlandesas criando chances, pressionando, se aproximando do gol. Porém, no único erro que a defesa cometeu no primeiro tempo em Roterdã, Van der Zanden, com a bola dominada na área, permitiu que Jin Yun a roubasse, protegesse a posse dela e chutasse na saída de Lize Kop para o 1 a 0 chinês. Diante do modo como as chinesas resistiam na defesa, era temeroso ver tanta ineficiência ofensiva das donas da casa em Het Kasteel, o popular estádio do Sparta Rotterdam.

Só restava acelerar cada vez mais as jogadas ofensivas. Foi assim, inclusive, que o empate saiu, aos 66', numa boa jogada entre nomes que se destacaram entre as novatas: Lotte Keukelaar ajeitou na entrada da área, Chimera Ripa apareceu rápida para cruzar, e Wieke Kaptein (começando a mostrar algum protagonismo) completou na pequena área para o 1 a 1. Jogo empatado, mais titulares saíram do banco de reservas para jogarem: Daniëlle van de Donk, Jill Roord, Esmee Brugts... e aí, a virada ficou clara. Roord já virou três minutos após entrar em campo, num chute da entrada da área; Beerensteyn estufou a rede para o terceiro gol das Leoas Laranjas; e Brugts virou o grande destaque final, transformando a vitória em goleada com um tremendo chute, de primeira, acertando o ângulo esquerdo da goleira Xu Huan. Certo, as titulares tinham ajudado. Mas os nomes menos falados aproveitaram suas chances.

A Holanda pressionou até conseguir o empate contra a China. Daí, vieram as titulares. E a goleada, completada num grande chute de Esmee Brugts (Divulgação/KNVB Media)

Todavia, se sabia: a prova definitiva de respeito seria a equipe dos Países Baixos vencer a seleção feminina dos Estados Unidos, que começa a retomar seu domínio habitual na modalidade (até pela medalha de ouro olímpica que ostenta), pela primeira vez desde 1996. Aí, sim, se viu a escalação titular da Holanda. Que começou bem, muito bem. Com três chances de Jill Roord, pressionando um "Team USA" que se equilibrava entre uma homenageada - a goleira Alyssa Naeher, fazendo sua última partida pela equipe da América do Norte -, algumas velhas conhecidas (Lindsey Horan, Rose Lavelle) e as novatas que recebem espaço pela orientação da técnica Emma Hayes, como a lateral esquerda Jenna Nighswonger e a meio-campista Yazmeen Ryan.

Nem demorou tanto assim para o gol holandês sair. E saiu da novata que mais impressiona: zagueira destacada no Mundial Sub-20 feminino, já com transferência garantida para o Chelsea em 2025/26, Veerle Buurman fez 1 a 0, de cabeça. Mais do que isso: Buurman mostrava segurança na zaga, detendo Ryan e Jaedyn Shaw sem muitos problemas. Na frente, as chances se avolumavam: Van de Donk quase fez o segundo de cabeça aos 28', Beerensteyn acertou a trave pouco depois... ao mesmo tempo em que tais oportunidades simbolizavam o domínio das Leoas Laranjas no estádio em Haia, também mostravam um desperdício preocupante, quando o adversário são os Estados Unidos. A consequência foi dolorosa. Até por vir justamente do destaque: Buurman tentou afastar a bola para a linha de fundo, de cabeça, após cobrança de falta... e acabou encobrindo a goleira Daphne van Domselaar e cometendo o gol contra do 1 a 1.

Veerle Buurman (número 4) recebeu outra chance importante. E até aproveitou, fazendo gol e indo muito bem na zaga. Só o gol contra era dispensável... (KNVB Media/Divulgação)

Era o que os Estados Unidos desejavam. Nomes mais experientes entraram, com Emily Sonnett e Lynn Williams vindo a campo. E houve leve melhora das visitantes no Bingoal Stadion. Ainda assim, as holandesas tentavam aqui e ali: com Romée Leuchter, por exemplo, em chute (fraco) aos 54'. Tiveram outra grande chance aos 69', quando Leuchter ajeitou a bola para Van de Donk bater muito perto do gol. Outra chance perdida holandesa? Bastou: no minuto seguinte, Lily Yohannes (recém-entrada em campo, agora definitivamente com a seleção norte-americana como sua escolha) roubou a bola, passou-a a Yazmeen Ryan, e esta cruzou para Lynn Williams entrar e, de carrinho, virar o jogo para o 2 a 1 final. No qual, talvez, tenha faltado mais ousadia de Andries Jonker, que só fez uma alteração.

Certo, nem tudo estava perdido. Longe disso: as atuações da Holanda foram agradáveis em campo. Van de Donk até se surpreendeu, à ESPN holandesa ("Não esperáva que jogássemos tão bem. O primeiro tempo que fizemos merece parabéns. Eles [Estados Unidos] tiveram sorte que a bola entrou para eles, por isso saíram com a vitória"). E o técnico Andries Jonker enfatizou: "Foi um dos melhores jogos que a seleção da Holanda já fez. Teve esforço, ganhamos as divididas, tivemos boas jogadas individuais, criamos chances". Só que, na hora de "tirar o dez"... o próprio treinador reconheceu: "No futebol, o importante é marcar". A Holanda precisará desta eficiência. E muito, já que o grupo que virá na Eurocopa - sorteio no dia 16 - deverá ser difícil.


Amistosos

Holanda 4x1 China
Data: 29 de novembro de 2024
Local: Het Kasteel (Roterdã)
Árbitra: Ugne Smitaite (Lituânia)
Gols: Jin Kun, aos 34', Wieke Kaptein, aos 66', Jill Roord, aos 72', Lineth Beerensteyn, aos 81', e Esmee Brugts, aos 84'

HOLANDA
Lize Kop; Chasity Grant (Lynn Wilms, aos 69'), Ilse van der Zanden, Sherida Spitse e Dominique Janssen; Jackie Groenen (Esmee Brugts, aos 69'), Wieke Kaptein e Nina Nijstad (Daniëlle van de Donk, aos 69'); Romée Leuchter (Renate Jansen, aos 89'), Lotte Keukelaar (Lineth Beerensteyn, aos 70') e Chimera Ripa (Jill Roord, aos 69'). Técnico: Andries Jonker

CHINA
Xu Huan; Li Meng Wen, Wu Hai Yan, Yao Wen e Chen Qiao Zhu; Wang Yanwen (Fangxin Sun, aos 85'), Zhang Rui (Gao Chen, aos 61'), Zhang Xin (Yuexin Huo, aos 61') e Liu Jing (Shen Mengyu, aos 85'); Tang Jiali (Wu Chengshu, aos 71') e Jin Kun (Wang Shuang, aos 71'). Técnico: Ante Milicic


Holanda 1x2 Estados Unidos
Data: 3 de dezembro de 2024
Local: Bingoal Stadion (Haia)
Árbitra: María Eugenia Gil Soriano (Espanha)
Gols: Veerle Buurman, aos 15' e aos 44' (contra), e Lynn Williams, aos 70'

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Kerstin Casparij (Chasity Grant, aos 85'), Veerle Buurman, Dominique Janssen e Esmee Brugts; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Wieke Kaptein; Jill Roord; Romée Leuchter e Lineth Beerensteyn. Técnico: Andries Jonker

ESTADOS UNIDOS
Alyssa Naeher; Emily Fox, Naomi Girma, Tierna Davidson e Jenna Nighswonger (Emily Sonnett, aos 46'); Corbin Albert (Hal Hershfelt, aos 66') e Sam Coffey; Yazmeen Ryan (Ally Sentnor, aos 85'), Lindsey Horan (Lily Yohannes, aos 66') e Rose Lavelle (Alyssa Thompson, aos 66'); Jaedyn Shaw (Lynn Williams, aos 46'). Técnica: Emma Hayes

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Continue a mudar

A Holanda (Países Baixos) tem cada vez mais novatas em sua seleção feminina. E tentará seguir com a boa impressão, nos amistosos contra China e Estados Unidos (KNVB/Divulgação)

Por necessidade ou por tentativa, o fato é que a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) passa por mudanças. Não só nas titulares, mas nas convocações, de um modo geral. Isso já foi visto, de certa forma, nas datas FIFA de outubro, na goleada "de exibição" contra a Indonésia e, principalmente, na vitória contra a Dinamarca, fora de casa. Para dar mais confiança na preparação rumo à Eurocopa de mulheres, em 2025, na Suíça, as Leoas Laranjas tentarão seguir unindo essas mudanças a bons resultados, tendo mais desafios nos amistosos contra China (nesta sexta, às 16h45 de Brasília, em Roterdã) e Estados Unidos (na próxima terça, 3 de dezembro, em Haia, também às 16h45).

Algumas dessas caras novas já estavam na convocação anterior do técnico Andries Jonker, como a zagueira Veerle Buurman (PSV), destacada no Mundial Sub-20 - e causando boa impressão pelo que se viu contra a Dinamarca. Outras são velhas conhecidas, que estiveram numa e noutra partida pela seleção principal de mulheres, e agora voltam: como a zagueira Lisa Doorn, de volta às listas após algum tempo, e a meio-campista Kayleigh van Dooren, começando a recuperar seu espaço após voltar a despontar no Twente (mais no Campeonato Holandês feminino do que na Liga dos Campeões de mulheres, é verdade). E uma delas é a estreante da vez na seleção holandesa: a atacante Ella Peddemors, mais uma representante do Twente. A própria se surpreendeu, na apresentação: "Quem me contou foi Joram [Pot, técnico do Twente]. Eu não esperava, mas fiquei muito feliz". Peddemors já foi elogiada por Andries Jonker: "Ela é muito talentosa, tem boa visão de jogo, um bom passe, chuta bem".

Entretanto, a estreante mais badalada não vestirá o uniforme laranja. Se vestir algum uniforme, será o dos Estados Unidos, justamente contra a Holanda. É Lily Yohannes, meio-campista do Ajax, das mais badaladas revelações atuais do futebol feminino no mundo. Há cerca de duas semanas, Yohannes (norte-americana de nascimento, descendente de eritreus, há seis anos vivendo nos Países Baixos) anunciou sua escolha definitiva por defender as estadunidenses, campeãs olímpicas: "É o meu país natal, lá vivem muitos familiares, tenho forte ligação com os Estados Unidos", justificou ao canal oficial do Ajax no YouTube. Era previsível: a jovem de 17 anos até teve neste ano um jogo - e um gol - pelo USWNT, na She Believes Cup, não oficial, e já até fora parabenizada pela agora colega de seleção Naomi Girma, ao ser premiada pela ESPN holandesa como revelação da Eredivisie feminina, alguns meses atrás. 

Como se previa, a novata Lily Yohannes preferiu defender a seleção dos Estados Unidos, pela qual poderá jogar justamente contra... a Holanda, que também a queria (Brad Smith/ISI Photos/USSF/Getty Images)

Ainda assim, a federação holandesa mantinha esperanças de acelerar o processo de naturalização de Yohannes. Esperanças frustradas, restou a Andries Jonker uma alfinetada algo desnecessária na jovem, durante entrevista coletiva na segunda-feira passada: "Eu li que ela disse que sonhou em jogar pelos EUA por toda a vida. Podia ter dito imediatamente, porque teria poupado trabalho de Nigel [de Jong, diretor de seleções da federação holandesa, muito envolvido com tentativas de naturalizar Yohannes]". Mais elegante foi outra naturalizada que também poderia escolher entre Estados Unidos e Holanda - e defende as Leoas Laranjas: Damaris Egurrola, opinando à ESPN holandesa. "Eu não conheço Yohannes, mas se trata de uma ótima jogadora. Por um lado, é chato que ela não venha jogar junto com a gente, mas todo mundo é livre para fazer o que quiser".

Por falar nela, Damaris tem alguns problemas no joelho, e sua escalação é incerta contra a China ("Veremos dia a dia com os médicos. Na segunda, fiz trabalhos internos, hoje [terça] também. (...) Já tive problemas no local há uns anos. É mais para cuidados, não queremos correr riscos"). Por essas e outras ausências, sejam por precaução (Katja Snoeijs) ou machucados (Caitlin Dijkstra, Vivianne Miedema e Victoria Pelova - esta até se juntou às colegas de seleção para treinos, na quarta), Andries Jonker segue abrindo espaço nas convocações, para que as Leoas Laranjas continuem a mudar. E nada será melhor para comprovar a mudança do que vencer chinesas e, principalmente, norte-americanas, algozes habituais.

As 26 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Leicester City-ING) e Femke Liefting (AZ)

Defensoras: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE), Sherida Spitse (Ajax), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Lisa Doorn (Hoffenheim-ALE), Veerle Buurman (PSV) e Ilse van der Zanden (Utrecht)

Meio-campistas: Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Damaris Egurrola Wienke (Lyon-FRA), Nina Nijstad (PSV), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Kayleigh van Dooren (Twente), Jill Roord (Manchester City-ING) e Danique Noordman (Ajax) 

Atacantes: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Renate Jansen (PSV), Chasity Grant (Aston Villa-ING), Chimera Ripa (PSV), Lotte Keukelaar (Ajax) e Ella Peddemors (Twente)

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Valeu

Não, não foi a foto de uma vitória. Mas que a Holanda jogou bem em boa parte do empate contra os Estados Unidos, jogou. E pelo menos, se aguentou na hora da pressão (ANP)

Pegar a seleção feminina dos Estados Unidos era um desafio traumático para a equipe da Holanda (Países Baixos), nos últimos anos. Mostrar a segurança vista no primeiro tempo do encontro entre ambas, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, trouxe a esperança de apagar esses traumas, com o que seria a primeira vitória contra as norte-americanas desde 1996. Só que, no segundo tempo, veio a inferioridade, o empate, o medo de tudo se perder. Medo controlado, ficou uma impressão boa e até tranquila: o 1 a 1 teve momentos bons, momentos ruins, mas a Holanda mostrou valor e fez sua parte naquele que foi considerado um dos melhores jogos da Copa, até agora. No fim, valeu.

Parecia que não ia valer, pelo menos nos 15 primeiros minutos de jogo em Wellington. Jogando lentamente, sem espaço para pelo menos buscar a bola, a Holanda se viu com a temida pressão do ataque dos Estados Unidos. Alex Morgan poderia ter finalizado, aos 3', mas fracassou ao tentar dominar. Pelos lados, tanto Trinity Rodman quanto Sophia Smith superavam Esmee Brugts e Victoria Pelova. E Savannah DeMelo se destacava: forçando erros, dominando o jogo na esquerda, quase fazendo gol aos 9' (desvio na área, para fora). O desastre parecia próximo.

Até Lieke Martens, aos 17', escapar do bote de Andi Sullivan no meio-campo. Passar para Victoria Pelova. Da primeira, ela não conseguiu chutar; da segunda, passou a Jill Roord, que arrematou para fazer o 1 a 0 - após doze anos e duas Copas do Mundo, os Estados Unidos voltavam a estar em desvantagem no placar. Foi a senha para a Holanda crescer no jogo. Não só na frente, em que Martens começou a aparecer como havia tempos não aparecia, além de Roord aparecer bastante (até para compensar a atuação muito decepcionante de Katja Snoeijs, sem aproveitar a chance com a ausência da machucada Lineth Beerensteyn, sem participar). Mas também atrás, com Jackie Groenen seguindo incansável nos desarmes, além da atenção notável de Sherida Spitse e Stefanie van der Gragt no miolo de zaga, compensando os erros aqui e ali. A posse de bola era mantida sem desespero. A Holanda voltava a passar uma impressão segura. A façanha parecia próxima.

Só que Van der Gragt, golpeada involuntariamente pela cabeça de Julie Ertz num escanteio, precisou ser substituída - "quando um médico fala que a jogadora precisa ser substituída imediatamente, eu preciso respeitar", descreveu o técnico Andries Jonker após a partida. Sua substituição, por Aniek Nouwen, já abaixava bastante o nível da defesa holandesa ("Nouwen foi aceitável, mas é um mundo de diferença em relação a Van der Gragt", reconheceu Jonker). Paralelamente, nos Estados Unidos, Rose Lavelle veio a campo. E sua presença voltou a tornar o USWNT dominante no setor, segurando mais a posse de bola.

Após o susto de perder o domínio do jogo com o gol da Holanda, Lavelle entrou, Horan cresceu... e os Estados Unidos passaram a etapa final bem perto da virada (Daniela Porcelli/Eurasia Sport Images/Getty Images)

Daí decorreu o melhor começo norte-americano. Pela esquerda, Smith começou a ter mais espaço para avançar - e mais velocidade, nas trocas de passes com Lindsey Horan (também crescendo na partida). Algo desestruturada, a Holanda foi punida pelo gol de Horan, aos 62', na desatenção de um escanteio. Com Janssen e Nouwen sem se entenderem (e Spitse sobrecarregada), a desorganização só não deixou resultados piores porque Alex Morgan, de fato, estava impedida no gol anulado que fez, três minutos depois. Contudo, mesmo escapando, a Holanda precisava de mudanças.

Andries Jonker começou com elas, trazendo Damaris Egurrola, que até trouxe mais equilíbrio no meio-campo. Só que a equipe laranja voltou a trazer ecos de um período frágil: nos cerca de vinte minutos finais, não conseguia dominar um rebote, não conseguia um contra-ataque, sofria tentando se segurar - com a exceção quase honrosa de um avanço em que Roord cruzou e Brugts teve o chute interceptado por Ertz, aos 79'. As entradas de Casparij e Renate Jansen, nos minutos finais, tinham exatamente essa intenção: segurar mais a bola.

Enfim, a Holanda conseguiu. Se não venceu, manteve as chances de terminar com a primeira posição do grupo. A tranquilidade de todos quantos foram entrevistados - Roord, Van de Donk, Spitse, o próprio Andries Jonker - deixou claro que o empate foi visto como um resultado válido, tendo em vista que a partida contra o Vietnã tende a ser mais amena do que o jogo altamente competitivo desta quarta-feira (quinta, na madrugada dos Países Baixos). A Holanda pode não ter recuperado o respeito total de quem acompanhe a Copa, mas teve exatamente o que Roord descreveu em suas palavras: "Um bom sentimento para o resto da Copa". 

Copa do Mundo Feminina da FIFA 2023 - fase de grupos - Grupo E

Estados Unidos 1x1 Holanda
Data: 26 de julho de 2023
Local: Estádio Regional (Wellington)
Juíza: Yoshimi Yamashita (Japão)
Gols: Jill Roord, aos 17', e Lindsey Horan, aos 62' 

Holanda
Daphne van Domselaar; Sherida Spitse, Stefanie van der Gragt (Aniek Nouwen, aos 46') e Dominique Janssen; Jackie Groenen; Victoria Pelova (Kerstin Casparij, aos 87'), Jill Roord (Renate Jansen, aos 90' + 3), Daniëlle van de Donk e Esmee Brugts; Katja Snoeijs (Damaris Egurrola, aos 70') e Lieke Martens. Técnico: Andries Jonker

Estados Unidos
Alyssa Naeher; Crystal Dunn, Julie Ertz, Naomi Girma e Emily Fox; Savannah DeMelo (Rose Lavelle, aos 46'), Lindsey Horan e Andi Sullivan; Trinity Rodman, Alex Morgan e Sophia Smith. Técnico: Vlatko Andonovski

sábado, 3 de dezembro de 2022

O lado bom do pragmatismo

Agora, sim: Holanda enfim jogou bem na Copa, neutralizou os Estados Unidos com um bom plano tático, e alcançou as quartas de final que se esperava para elas (MB Media/Getty Images)

Desde o começo desta Copa do Mundo, a seleção da Holanda (Países Baixos) desejava buscar suas vitórias com pragmatismo, com eficiência, sem correr mais riscos além dos inevitáveis. Na fase de grupos, acabou exibindo a face criticável disso: atuações lentas, problemáticas, com alguns sofrimentos desnecessários, sem nunca convencer quem viu seus jogos. Só restava a Virgil van Dijk, líder inconteste do grupo de convocados, esperar: "Quem sabe o mata-mata nos desperte". Pois despertou. Contra os Estados Unidos, a Laranja foi pragmática do jeito certo: calma, eficiente, neutralizando os principais jogadores do Team USA, e aproveitando suas chances para conseguir a vitória por 3 a 1 - e a vaga nas quartas de final da Copa.

A rigor, tal tranquilidade já era visível na escalação: afinal de contas, Louis van Gaal repetia a escalação que iniciara a vitória contra o Catar, com Marten de Roon liberando mais Frenkie de Jong no ataque, e Memphis Depay iniciando o jogo no ataque ao lado de Cody Gakpo. Só que ela quase foi surpreendida pessimamente: logo aos 3', Timothy Weah passou a Christian Pulisic, que, livre na esquerda, chutou cruzado para grande defesa de um Andries Noppert que, cada vez mais, justifica a pesada aposta de Van Gaal (e do treinador de goleiros Frans Hoek) nele como goleiro titular. Continuava a lentidão de Denzel Dumfries e de Daley Blind na marcação pelas laterais. E, no meio-campo, perdia-se excessivamente a bola.

Mas nada disso causou problemas. Se avançava bastante, se tentava impor a velocidade habitual em suas partidas (com Sergiño Dest na direita, principalmente), a seleção dos Estados Unidos dava o espaço que a Holanda não tivera em suas partidas. Bastou encaixar uma jogada, aos 10', quando ainda sofria, para o 1 a 0: após 17 passes trocados, Cody Gakpo recebeu lançamento, passou, Dumfries cruzou, Memphis Depay fez o seu primeiro gol na Copa. De lá até o fim do primeiro tempo, a Laranja sofreu um pouco (Weah fez Noppert trabalhar aos 43', com chutes de fora), mas tinha os cruzamentos neutralizados pelas ótimas atuações de Virgil van Dijk e, principalmente, Nathan Aké. Anulava Pulisic e McKennie, responsáveis pelas jogadas ofensivas. Assustava outras tantas vezes - como num chute de Blind, aos 18', além das constantes perseguições a Tim Ream e Walker Zimmerman, que tiveram dia ruim no miolo de zaga. E o segundo gol provou isso, como se fosse uma "cópia" do primeiro: nos acréscimos, Dumfries recebeu, cruzou, Blind chegou pelo meio e finalizou, bola na rede.

Os criticados foram exaltados: Dumfries e Blind, contestados nas laterais, tiveram tremenda atuação em seus lados (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

O placar deixava o jogo à feição para a Holanda. E Van Gaal notou isso: no intervalo, as entradas de Teun Koopmeiners e Steven Bergwijn buscavam deixar o ataque holandês mais rápido, para aproveitar os espaços que os adversários norte-americanos certamente deixariam em busca do gol. Pois bem: houve inúmeras ocasiões para que o terceiro gol viesse. Principalmente no começo da etapa complementar. Aos 48', num toque fraco de calcanhar de Frenkie de Jong (outra boa atuação, em que pesem algumas perdas de bola); aos 50', num desvio de Memphis Depay após Dumfries cruzar; aos 71', numa ótima sequência de defesas de Matt Turner. Funcionava a formação de ataque habitual na Liga das Nações - Gakpo mais atrás, Memphis e Bergwijn na frente.

Só que os Estados Unidos, aqui e ali, sinalizavam que ainda viviam no jogo. Mesmo que o meio-campo fosse bem neutralizado - nem Tyler Adams nem Weston McKennie mostravam as atuações da fase de grupos -, havia chutes aqui e ali: Pulisic aos 53', McKennie no minuto seguinte. A entrada de Haji Wright dava mais força e altura, contra uma defesa que resistia nos cruzamentos. Alguns atos de desleixo da Holanda traziam perigo desnecessário - como aos 75', quando Memphis Depay errou recuo de bola, Wright driblou Noppert, mas Dumfries afastou em cima da linha. Porém, no escanteio subsequente, o gol norte-americano, num lance de sorte de Wright - a bola bateu em seu calcanhar e encobriu Noppert.

Poderia ter aumentado o drama. Mas a Holanda não deixou: pouco depois, os seus melhores aspectos na partida apareceram. Manutenção da posse de bola no campo de ataque, na troca de passes entre De Jong, Memphis Depay e Blind. E as chegadas ofensivas dos laterais - Blind cruzou, Dumfries chegou de voleio, 3 a 1. 

A Holanda pode ser eliminada, nas quartas de final da próxima sexta. Mas já não passará vergonha nesta Copa do Mundo. Afinal, era o seu "teto" nos prognósticos. E de mais a mais, hoje ela mostrou em campo o lado bom do pragmatismo.

COPA DO MUNDO FIFA 2022 - OITAVAS DE FINAL

Holanda 3x1 Estados Unidos

Data: 3 de dezembro de 2022
Local: Khalifa International Stadium (Al Rayyan)
Árbitro: Wilton Pereira Sampaio (Brasil)
Gols: Memphis Depay, aos 10', Daley Blind, aos 45' + 1, Haji Wright, aos 76', e Denzel Dumfries, aos 81'

HOLANDA
Andries Noppert; Jurriën Timber, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Matthijs de Ligt, aos 90' + 3); Denzel Dumfries, Marten de Roon (Teun Koopmeiners, aos 46'), Frenkie de Jong e Daley Blind; Davy Klaassen (Steven Bergwijn, aos 46'); Memphis Depay (Xavi Simons, aos 82') e Cody Gakpo (Wout Weghorst, aos 90' + 3). Técnico: Louis van Gaal

ESTADOS UNIDOS
Matt Turner; Sergiño Dest (DeAndre Yedlin, aos 75'), Walker Zimmerman, Tim Ream e Antonee Robinson (Jordan Morris, aos 90' + 2); Tyler Adams, Yunus Musah e Weston McKennie (Haji Wright, aos 67'); Tim Weah (Brenden Aaronson, aos 67'), Jesús Ferreira (Giovanni Reyna, aos 46') e Christian Pulisic. Técnico: Gregg Berhalter

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Ainda não dá

No futebol feminino olímpico, a Holanda mostrou mais valor diante dos Estados Unidos. Superou as falhas da defesa, com um ataque personificado na fenomenal Miedema. Mas errou na hora decisiva, e foi eliminada pelas experientíssimas americanas (Pim Ras)


A boa participação na fase de grupos do torneio olímpico de futebol feminino animou a Holanda (Países Baixos). A ponto do sonho de poder superar os Estados Unidos nas quartas de final ter motivado até palavras mais otimistas - Lieke Martens dizia que "tinha chegado a hora de tirá-las do torneio". E as Leoas Laranjas até que se esforçaram: se a defesa continuou falhando, o ataque (mais precisamente, Vivianne Miedema) deu problemas ao Team USA. Só que os momentos decisivos do jogo mostraram: as neerlandesas ainda têm o que aprender na hora da pressão. Por isso, estão eliminadas.

Poderiam ter sido eliminadas até durante o tempo normal, a bem da verdade. O que se esperava - até se temia - aconteceu: as norte-americanas começaram mostrando a força e a intensidade habitual em campo, pressionando uma zaga reconhecidamente frágil, deixando as atacantes da Holanda isoladas. Tanto que Tobin Heath até fez um gol anulado, aos 10', e quase marcou de cabeça, aos 14', sendo impedida por Sari van Veenendaal (e a trave). Porém, na primeira vez em que a Holanda escapou da pressão, aos 18', veio o gol. Com Miedema mostrando seu talento habitual: o domínio para cima de Abby Dahlkemper, o giro, o chute preciso no canto.

Seria notável manter uma vantagem no placar. Ainda mais diante do que os Estados Unidos seguiam mostrando no jogo, com os avanços de Samantha Mewis, a experiência de Tobin Heath, e principalmente, a habilidade de Lynn Williams, que renasceu no torneio olímpico. Titular pela primeira vez, coube a ela traduzir a superioridade ampla do Team USA ao fazer o cruzamento para que Mewis empatasse o jogo, aos 28', de cabeça, e marcar ela mesma o gol da virada, aos 31'. Diante de um miolo de zaga totalmente atarantado, com Stefanie van der Gragt dando muitos sustos e Dominique Janssen sendo superada por Williams na esquerda, era possível que houvessem mais gols estadunidenses.

A Holanda perdeu, mas Miedema ganhou: causou problemas à seleção norte-americana, com uma tremenda atuação, totalmente dominante no ataque (Pro Shots)

Não houve. Mais do que isso: houve a sequência da excepcional atuação que Miedema fazia no ataque. Mantinha a posse de bola, era marcada de perto (e superava a marcação), dava dores de cabeça às norte-americanas. Quase marcou antes do intervalo, aos 43', num cabeceio defendido por Alyssa Naeher. E logo no começo do segundo tempo, aos 54, num momento que parecia desanimado em Yokohama, o chute da camisa 9 entrou, após falha de Naeher. Era seu décimo gol em quatro jogos no torneio olímpico. Estava justificada a opinião da maioria holandesa que assistia ao jogo: "Miedema 2, Estados Unidos 2".

E o jogo ficou sério, muito sério. De um lado, Lineth Beerensteyn entrou no lugar de Van de Sanden, e foi enfim uma opção válida para fazer jogadas com Miedema. Do outro, as veteranas vieram a campo nos Estados Unidos, para resolver a parada: Christen Press, Alex Morgan, Megan Rapinoe... e vieram bem, atormentando a defesa laranja - tanto que Press fez mais um gol anulado, aos 63'. O jogo ficou muito igual. Poderia ter sido desempatado na bola do jogo, aos 81', quando Beerensteyn foi puxada por Dahlkemper. Lieke Martens bateu para aproximar os Países Baixos da consagração... mas bateu mal. Naeher pegou.

O drama até seguiu nos nove minutos restantes - e nos 30 minutos da prorrogação. De um lado, já no tempo extra, Miedema começou com duas chances nos dois primeiros minutos, e Martens chegou a um gol anulado. Do outro, mesmo com Aniek Nouwen melhorando na marcação, os espaços da Holanda na defesa eram um convite a ataques perigosos dos Estados Unidos: dois gols anulados no tempo extra (Press aos 109', Morgan aos 111'), e só Nouwen impediu um gol de Rapinoe no fim.

Porém, o pênalti perdido no tempo normal já dera um sinal: nos momentos agudos, a Holanda não teria frieza para fazer o que desejava diante dos Estados Unidos. E o time norte-americano, extremamente calejado em decisões, esperaria até o momento de resolver isso. Foi o que se viu na decisão por pênaltis: Naeher, contestada no gol, se transformou no destaque da partida, pegando as cobranças de Miedema (grande pena para a melhor holandesa em campo, incontestavelmente) e Nouwen. Cobranças perfeitas de Lavelle, Heath, Morgan e Rapinoe.

E Estados Unidos classificados às semifinais, encerrando os cinco anos de Sarina Wiegman no comando da seleção feminina, mergulhando holandesas como Martens, Miedema e Jackie Groenen em lágrimas. Porque a Holanda cresceu no futebol feminino, sim. Mas ainda não dá para superar as grandes seleções.

Jogos Olímpicos - futebol feminino - quartas de final

Holanda 2x2 Estados Unidos - Estados Unidos 4x2 nas cobranças de pênalti

Data: 30 de julho de 2021
Local: Estádio Internacional (Yokohama)
Árbitra: Kate Jacewicz (Austrália)
Gols: Vivianne Miedema aos 18' e 54', Samantha Mewis, aos 28', e Lynn Williams, aos 31'

Holanda
Sari van Veenendaal; Lynn Wilms, Stefanie van der Gragt, Aniek Nouwen e Dominique Janssen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Jill Roord (Victoria Pelova); Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Estados Unidos
Alyssa Naeher; Kelley O'Hara, Abby Dahlkemper, Becky Sauerbrunn, e Crystal Dunn; Lindsey Horan, Julie Ertz e Samantha "Sam" Mewis (Christen Press); Lynn Williams (Rose Lavelle), Carli Lloyd (Alex Morgan) e Tobin Heath (Megan Rapinoe). Técnico: Vlatko Andonovski 

domingo, 7 de julho de 2019

Fizeram o possível

A Holanda mudou para tentar conter os Estados Unidos. Mas um erro pôs tudo a perder. Tudo bem: o vice-campeonato merece aplausos (FIFA/Getty Images)

Era possível a Holanda ganhar dos Estados Unidos, na final da Copa do Mundo feminina? Até era... desde que as Leoas Laranjas tivessem uma atuação perfeita, daquelas inesquecíveis, diante de uma seleção tão favorita quanto eram as norte-americanas, com seus três títulos mundiais (incluindo o da Copa passada, em 2015). Pelo menos na defesa, tudo deu certo. Mas estava faltando o ataque holandês funcionar. Uma hora, a fechada zaga holandesa fraquejou. E o caminho se abriu para o 2 a 0 do merecido título da equipe de Jill Ellis. Se serve de consolo (minúsculo), a Holanda tentou o que podia, com as armas que tinha.

Sarina Wiegman foi inesperadamente ousada na escalação. Sabedora de que seria caminho certo para a derrota dar espaço para a pressão quase irrespirável dos Estados Unidos no começo do jogo, a técnica da Holanda se preocupou em fechar a defesa: colocou Anouk Dekker (1,82m, mais alta do que Merel van Dongen, de 1,70m) no miolo de zaga, ao lado de Stefanie van der Gragt (1,78m), para inibir o jogo aéreo adversário. De quebra, Dominique Bloodworth foi deslocada para a lateral esquerda, para perseguir um dos grandes nomes ofensivos das norte-americanas - e da Copa: Megan Rapinoe.

Tudo começou bem. Ou quase. Afinal de contas, quase tudo que a Holanda fez nos primeiros 45 minutos foi se defender dos avanços dos Estados Unidos. Dekker e Van der Gragt mostravam precisão ao afastarem as bolas da área, de cabeça. Nas laterais, Desiree van Lunteren agia corretamente na direita, enquanto Bloodworth conseguia neutralizar Rapinoe, após alguma dificuldade para se readaptar.

Mas nenhuma dessas se destacava tanto quanto Sari van Veenendaal. Entre tantas goleiras de atuação elogiável na Copa do Mundo, a camisa 1 das Leoas Laranjas começou a despontar em Lyon. Saía bem do gol nos cruzamentos - como o de Tobin Heath, aos 17'. E estava sempre atenta nos chutes de longe, como provou em três grandes defesas, aos 28' (afastando um arremate de Samantha Mewis, meio no reflexo), aos 38' (pegando com dificuldades a bola, após desvio de Alex Morgan na pequena área) e aos 40' (em chute colocado da própria Morgan). Fez por merecer o prêmio que ganhou, como a melhor goleira da Copa.

Van Veenendaal fez o que pôde, talvez mais do que todas as outras holandesas em campo. Mereceu o prêmio de melhor goleira da Copa (FIFA/Getty Images)

Com todo esse esforço, a Holanda conseguiu conter os habituais começos sufocantes das norte-americanas. E passou o primeiro tempo sem sofrer gols. O problema foi na hora da bola ir para o meio-campo: Jackie Groenen perseguia as meio-campistas adversárias sem conseguir desarmá-las, Sherida Spitse não conseguia controlar o ritmo (afinal, não tinha a bola nos pés), só raramente Daniëlle van de Donk tinha espaço para avançar, Lieke Martens estava completamente sem ritmo. Mas as mudanças táticas que Sarina Wiegman pensara também ajudavam no desempenho de dois nomes: Vivianne Miedema mostrava capacidade inesperada para auxiliar na criação de jogadas, e Lineth Beerensteyn perturbava mais a marcação. Mas de chutes a gol, só a falta batida por Spitse para fora, aos 43'.

Entretanto, a Holanda se aguentava na defesa. A seleção dos Estados Unidos começava a se cansar de tanto tentar atacar, de tanto cruzar bolas à área, sem que viessem as finalizações. A zaga holandesa seguia precisa nas antecipações. Se não houvessem erros, a prorrogação era uma possibilidade - ou quem sabe, até, viesse a chance que Miedema e Beerensteyn tanto esperavam para marcarem o gol. Até que, aos 58', Heath cruzou da direita, Morgan tentou finalizar, mas Van der Gragt afastou a bola para escanteio com o pé alto. Tão alto que atingiu a atacante norte-americana - após o jogo, a zagueira holandesa reconheceu: "Eu não vi a chegada dela e fui com o pé para tentar acertar a bola, mas não acertei. Talvez ela tenha caído fácil demais, mas eu a acertei. Não peguei forte nela [Morgan], mas houve o contato".

Era um erro. Que foi punido: com a ajuda do VAR, a juíza francesa Stéphanie Frappart apitou o pênalti, convertido por Megan Rapinoe para o 1 a 0 dos Estados Unidos. Grosso modo, o jogo estava resolvido. A Holanda teria de avançar mais, deixar os cuidados defensivos que vinham dando certo - e isso abriu o espaço que as norte-americanas tanto desejavam para chegar a mais gols. Com isso, a Oranje até trouxe perigo uma vez, aos 65', quando Miedema fez excelente jogada, driblando três jogadoras, mas ficou com o ângulo bloqueado pelo chute e foi enfim desarmada por Becky Sauerbrunn. Mas os Estados Unidos chegavam com mais perigo, e encaminharam o título com o gol de Rose Lavelle, aos 69', em boa jogada individual da meio-campista, concluída com um chute forte no canto esquerdo de Van Veenendaal. Houve chance para mais, mas elas pararam nas boas atuações defensivas (Van der Gragt e Van Veenendaal à frente). Foi assim aos 71', quando Spitse evitou a finalização de Rapinoe. Ou aos 76', quando Van Veenendaal evitou o gol de Crystal Dunn.

E os Estados Unidos ganharam. Porque as jogadoras holandesas fizeram o possível, quase sem erros, por 58 minutos. Até que erraram. E aí, as agora tetracampeãs mundiais do futebol feminino não perdoam. Tudo bem: a Holanda fez o que pôde.

(FIFA/Getty Images)
Copa do Mundo feminina - final
Estados Unidos 2x0 Holanda
Data: 7 de julho de 2019
Local: Groupama Stadium/Parc OL (Lyon)
Árbitra: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Megan Rapinoe, aos 61', e Rose Lavelle, aos 69'

Estados Unidos 
Alyssa Naeher; Kelley O'Hara (Ali Krieger), Abby Dahlkemper, Becky Sauerbrunn e Crystal Dunn; Samantha Mewis, Julie Ertz e Rose Lavelle; Tobin Heath (Carli Lloyd), Alex Morgan e Megan Rapinoe (Christen Press). Técnica: Jill Ellis

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Anouk Dekker (Shanice van de Sanden), Stefanie van der Gragt e Dominique Bloodworth; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Sherida Spitse; Lineth Beerensteyn, Vivianne Miedema e Lieke Martens (Jill Roord). Técnica: Sarina Wiegman