Antes mesmo de poder erguer a taça em campo, o PSV já é o campeão holandês. Ou melhor: tricampeão. Dando toda a impressão de que está pronto para mais (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)
Exagero falar que o PSV é o "campeão da pobreza", apelido pejorativo dado no futebol da Holanda (Países Baixos) a um time que seja campeão nacional com a concorrência em má fase. Desde a chegada de Peter Bosz, há quase três anos, o clube da "Cidade das Luzes" voltou a dominar o Campeonato Holandês, e ser o clube com mais títulos da Eredivisie neste século - o 13º foi confirmado com cinco rodadas de antecipação, como se sabe, neste domingo, 5 de abril - só mostra a constância maior que os Eindhovenaren têm até agora. E tendo em vista que o clube já teve um tetracampeonato neste século, de 2005 a 2008, é muito plausível pensar que isso pode acontecer de novo.
Basta ter em vista todo o seu ambiente interno, com a dupla Marcel Brands (diretor geral) e Earnie Stewart (diretor de futebol) dando respaldo e condições de trabalho ao técnico Peter Bosz - que tem pleno respeito do grupo, ainda mais com contrato renovado até 2028. Além do mais, o ambiente do PSV costuma ser, e está, bem menos turbulento do que os dos arquirrivais Ajax (preso ao velho dilema do "DNA Ajax", tentando se reconstruir sob o novo diretor geral, Jordi Cruyff) e Feyenoord (com as escolhas cada vez mais criticadas de Dennis te Kloese, acumulando as direções gerais e de futebol, e do técnico Robin van Persie - a permanência de ambas será muito bem avaliada no fim da temporada).
Earnie Stewart (diretor de futebol) e Marcel Brands (diretor geral) deixam o caminho plano, o técnico Peter Bosz sabe o que fazer, os jogadores têm clareza... e o PSV segue no rumo certo (Joris Verwijst/BSR Agency/Getty Images)
Contudo, se o título de 2023/24 teve uma dominância até maior do que agora (vale lembrar do melhor primeiro turno dos 69 anos de profissionalismo do futebol neerlandês, 17 vitórias em 17 jogos) e o bicampeonato de 2024/25 teve a grande emoção como seu trunfo (o PSV chegou a abrir nove pontos de vantagem na liderança, despencou e ficou nove pontos atrás do Ajax, mas arrancou e viu o Ajax cair para confirmar a conquista na última rodada), inegavelmente o 27º título holandês chega à sala de troféus do Philips Stadion com sorrisos amarelos e a sensação de que falta alguma coisa. Talvez, o que falte seja uma ocasião que mostre esse domínio fora do nicho que acompanha o futebol holandês. Afinal, o PSV até chegou às semifinais da Copa da Holanda, mas caiu para o NEC, já considerado a surpresa mais agradável da temporada holandesa de futebol antes mesmo do fim dela. E na Liga dos Campeões, mostrando fragilidades defensivas e inconstância, ficou na fase de liga - queda decepcionante, para um clube que conseguira ir às oitavas de final na temporada passada. Se é tão dominante na liga, fica a impressão de que poderia tentar a "dupla coroa" que não consegue desde a temporada 2024/25. E se é tão dominante no futebol holandês, falta ao PSV uma campanha marcante em torneio europeu.
Porque, se o bicampeonato teve uma dose de drama tão tormentoso quanto gostoso a qualquer torcedor, o tricampeonato chegou ao natural. Mesmo que a pré-temporada tenha trazido saídas esperadas - Malik Tillman, Noa Lang, Johan Bakayoko, o ídolo Luuk de Jong -, as reposições trouxeram jogadores de qualidade inquestionável para o nível técnico do futebol holandês, como o atacante marfinense Alassane Pléa e o ponta-direita romeno Dennis Man (este, vindo por empréstimo). E de quebra, nomes fundamentais permaneceram em Eindhoven, como a dupla Joey Veerman-Jerdy Schouten, Mauro Júnior, Sergiño Dest (este, de contrato renovado mesmo após séria lesão no joelho), Guus Til, Ismael Saibari. Foi o suficiente para já abrir a temporada vencendo a Supercopa da Holanda, fazendo 2 a 1 no Go Ahead Eagles. Foi o suficiente para estrear no Campeonato Holandês já pespegando 6 a 1 no Sparta Rotterdam. Foi o suficiente para vencer três jogos nas três primeiras rodadas. Nem mesmo o sério problema de perder o recém-contratado Pléa logo na segunda rodada - no 2 a 0 no Twente, fora de casa, o marfinense sofreu grave lesão na cartilagem do joelho - tirou o PSV do prumo.
Entretanto, a primeira derrota da temporada já deixou claro o principal problema do PSV dentro de campo: suas desatenções defensivas, e a dificuldade para encarar equipes boas no contra-ataque. O Telstar, que não jogava a Eredivisie desde 1978, deixou tudo isso a nu em pleno Philips Stadion, na quarta rodada, fazendo 2 a 0 em 30 de agosto de 2025, no que foi considerado o jogo mais surpreendente da temporada atual. Pelo menos, o PSV contrabalançou sobrepujando, fora de casa, o supracitado NEC: em jogo muito ofensivo, digno dos dois melhores ataques do campeonato, os visitantes de Eindhoven fizeram 5 a 3 em Nijmegen, controlando o tranco na quinta rodada da Eredivisie, em 13 de setembro. Contudo, o começo na fase de liga da Champions exemplificou até melhor este PSV inconstante: o mesmo time que estreava tomando 3 a 1 do Union Saint-Gilloise belga em casa impunha 6 a 2 ao Napoli, também em Eindhoven.
Momentos como as duas derrotas para o Telstar deixam claro que o PSV ainda tem problemas a melhorar. Isso, sem contar a eliminação precoce na Liga dos Campeões... (ProShots/Getty Images)
Pelo menos no Campeonato Holandês, o PSV logo deixou esse problema para trás no decorrer da campanha. Se permitiu o empate do Ajax na 6ª rodada - 2 a 2, em 21 de setembro de 2025 -, fazer 3 a 2 no Feyenoord, outro clássico, na 10ª rodada, em 26 de outubro, já indicou a abertura de vantagem na liderança. Assim como já fora na temporada passada, golear de novo o AZ em Alkmaar - 5 a 1, na 12ª rodada, em 9 de novembro - deixou claro que o Campeonato Holandês tinha um favorito ao título. E mesmo em jogos com atuações inferiores, o PSV fazia o que um time campeão precisa fazer: vencer, compensar dias ruins com o resultado. Exemplos assim sobraram: na 13ª rodada, na única chance fora de casa contra o NAC Breda, 1 a 0, e assim o placar ficou. Nas duas últimas partidas de 2025 pela Eredivisie, o PSV também superou suas dificuldades (fez 2 a 0 no Heracles Almelo, tomou o empate e ainda fez 4 a 3, na 16ª rodada, em 13 de dezembro; e virou para 2 a 1 no Utrecht, fora de casa, na 17ª rodada, fechando o turno).
2025 terminou, 2026 começou, e ficava a dúvida lembrando de 2025: se o PSV despencara na virada de temporada passada ao perder muitos jogadores machucados, como seria agora, vendo nomes como Ricardo Pepi novamente fora de combate (vítima de fratura no braço)? Simples: seria melhor. A primeira rodada do returno começou com 5 a 1 no Excelsior, fora de casa, em 10 de janeiro. Em 17 de janeiro, fora de casa, um jogo mais difícil do que se pensava contra o Fortuna Sittard teve vitória (2 a 1). Mesmo quando a vitória não vinha, pelo menos um ponto acontecia - contra o NAC Breda, em casa, na 20ª rodada, o zagueiro Armando Obispo foi buscar o gol do empate em 2 a 2 nos acréscimos.
Paralelamente, tentativas do técnico Peter Bosz tinham mais sucesso. Se os atacantes "de ofício" (Alassane Pléa, Ricardo Pepi, Myron Boadu) estavam machucados, Guus Til era improvisado no meio da área... e chegava a 11 gols. Se o miolo de defesa sofria, Jerdy Schouten era recuado para ele - e dava certo. Assim como dava certo contar com os avanços de Ismael Saibari, forte candidato a melhor jogador do Campeonato Holandês. E se dava certo, era pela segurança habitual que traziam nomes como Mauro Júnior (o brasileiro com mais partidas na história do PSV, um ídolo do clube) e Perisic. Enquanto o NEC oscilava, enquanto Feyenoord e Ajax mergulhavam na crise, o PSV seguia. E quando fez 3 a 0 ainda no primeiro tempo do clássico contra o Feyenoord, na 21ª rodada, em 1º de fevereiro, abrindo dezessete pontos de vantagem na liderança, o título virou questão de tempo. E pouco tempo: começou a se falar da possibilidade de quebrar o recorde de maior precocidade na conquista do título holandês, coisa que o PSV mesmo fizera, em abril de 1978.
Ismael Saibari - talvez o melhor do campeonato - brilhou nos 3 a 0 contra o Feyenoord, na 21ª rodada. E o tricampeonato virou questão de pouco tempo (Marcel ter Bals/DeFodi Images/DeFodi via Getty Images)
Se as eliminações na Liga dos Campeões e na Copa da Holanda decepcionavam, também deixavam mais tempo para o PSV se concentrar no título que viria. Se havia mais derrotas no caminho - 2 a 1 tomados do Volendam, na 23ª rodada; 3 a 2 do NEC, na 27ª rodada, em outro jogo altamente equilibrado; e os 3 a 1 do Telstar, na 28ª rodada, que já poderia ter terminado com o título -, elas pareciam apenas adiar um pouco a conquista.
Mas o PSV fez sua parte para que ela viesse com o recorde. Contra o Utrecht, ficou com 2 a 0 atrás, buscou a virada, e ainda tomou mais um empate antes de que Couhaib Driouech - coadjuvante útil sempre - fizesse o gol do 4 a 3. No dia seguinte, o Feyenoord fracassou contra o Volendam (0 a 0). E o título veio. Como provavelmente viria, tamanha era a confiança interna no PSV. Em campo, segundo disse Jerdy Schouten - ausência nesta reta final e nos próximos meses, com lesão ligamentar no joelho: "Em nenhum momento pensei que não seríamos campeões". Fora dele também, com o diretor de futebol Earnie Stewart apregoando: "Trabalho todos os dias é para isso mesmo".
Vêm aí mais desafios: as prováveis saídas de Schouten, de Veerman, de Saibari. Mas o PSV parece estar pronto para elas. Típico de um campeão em melhoria contínua, em que todo mundo - diretoria, técnico, jogadores - parece saber exatamente o que fazer. Para fazer o que sempre dá prazer: erguer a taça.
O PSV tinha tudo para terminar como terminou: bicampeão holandês. Só não se imaginava que o caminho até o título seria tão tortuoso (ProShots/Getty Images)
Antes mesmo do Campeonato Holandês desta temporada começar, era relativamente unânime que o PSV tinha o melhor e mais técnico grupo de jogadores do futebol da Holanda (Países Baixos). Diante de um Feyenoord que passaria por reformulações com novo técnico e de um Ajax em plena reestruturação, o time de Eindhoven partiria do começo como franco favorito ao bicampeonato, ao 26º título de liga da sua história. E isso aconteceu, de fato. O surpreendente foi que o título tenha acontecido com tantas reviravoltas. Ainda mais quando a referência é o que se viu no primeiro turno. Está certo que o PSV teve duas derrotas nas primeiras 17 rodadas - o 3 a 2 sofrido no clássico para o Ajax (11ª rodada) e 1 a 0 para o Heerenveen (16ª rodada). Ainda assim, de resto, foram 16 vitórias, num domínio quase tão avassalador quanto o da temporada passada, em que o aproveitamento no turno foi 100%.
Sobravam goleadas, aqui e ali: a campanha já começara com um 5 a 1 no RKC Waalwijk, seguiu-se depois um 7 a 1 no Almere City (3ª rodada), um 6 a 0 no Zwolle (10ª rodada), 5 a 0 no Groningen (13ª rodada)... e a ofensividade típica dos times treinados por Peter Bosz era notável. Já começava nas laterais: pela direita, se Sergiño Dest se machucou, o ponta improvisado Richard Ledezma (outro norte-americano) assumiu o lugar, enquanto Mauro Júnior tinha na esquerda a utilidade muito elogiada por Peter Bosz ("Não é todo time que tem um polivalente como ele"). Num time com a dupla de volantes cada vez mais entrosada - Joey Veerman e Jerdy Schouten eram daqueles pares que se completavam dentro de campo -, as opções de ataque sobravam. Ismael Saibari e Guus Til já eram conhecidos; Malik Tillman ficou de vez para, enfim, começar a cumprir as expectativas sobre ele; Noa Lang, enfim, deixava as lesões que o vitimaram em 2023/24 para ser o nome de técnica insinuante (e de comportamento provocador) que se previa desde que pisou em Eindhoven; se Hirving Lozano ficava em segundo plano, à beira da saída já anunciada para quando 2025 começasse (rumo ao San Diego FC-EUA), o croata Ivan Perisic foi contratação fortuita - sem contrato após deixar o Hajduk Split, Perisic pôde chegar com a temporada já em andamento.
Se havia problema, estava em Ricardo Pepi. Não que o atacante norte-americano estivesse em má fase. Longe, mas muito longe disso: afinal de contas, mesmo vindo da reserva na maioria das vezes, Pepi acumulava 11 gols na Eredivisie. Exatamente por isso, ele queria ser titular. Mas Peter Bosz, embora compreensivo, deixava claro: seu titular era Luuk de Jong. De fato, como deixar de fora aquele que, talvez, seja o mais representativo jogador do PSV até agora no século XXI - e ainda marcando gols (foram sete)? Acabou até sendo providencial, diante da séria lesão no joelho que tirou Pepi de combate pelo resto da temporada. De todo modo, com duas categóricas vitórias no final do 1º turno - 6 a 1 no Twente (15ª rodada) e 3 a 0 no Feyenoord (17ª rodada) -, classificação assegurada na segunda fase da Liga dos Campeões, o PSV parecia rumar para um bicampeonato tranquilo.
Aí tudo mudou.
Porque mais nomes ficaram machucados na virada do ano: Olivier Boscagli (lesão muscular), Jerdy Schouten (lesão no joelho), Malik Tillman (lesão ligamentar), a já citada ausência de Pepi... e a queda foi brusca no começo de 2025. A retomada da Eredivisie teve um empate com o AZ Alkmaar (2 a 2, 18ª rodada). Depois, uma derrota para o Zwolle (3 a 1, 19ª rodada). Aí, um refresco: 3 a 2 no NAC Breda (20ª rodada). Seguido por mais quedas, com o péssimo "hábito" de sofrer gols nos minutos finais: empate em 3 a 3 com o NEC após vencer por 3 a 1 (21ª rodada), empate em casa com o Willem II (1 a 1, gol sofrido aos 38 minutos do segundo tempo), derrota de virada para o Go Ahead Eagles (3 a 2, na 24ª rodada, com dois gols após os 30 minutos da etapa final)... a queda era incontrolável.
A crise na Eredivisie foi exemplificada na Liga dos Campeões: 7 a 1 sofridos para o Arsenal em plena Eindhoven. Àquela altura, a reviravolta parecia impossível (Marcel ter Bals/DeFodi Images/DeFodi via Getty Images)
E o "estabaco" no chão talvez tenha vindo com os 7 a 1 sofridos do Arsenal, em pleno Philips Stadion, na ida das oitavas de final da Liga dos Campeões, igualando a maior derrota que um clube holandês sofreu por competições europeias. Àquela altura, as críticas se avolumavam a Peter Bosz, pela falta de cuidados defensivos. Sem Schouten, Joey Veerman sofria. Assim como Ledezma, que tinha suas fragilidades na marcação, e Ryan Flamingo, falhando vez por outra nas saídas de bola. Com o Ajax sólido dentro de campo, fazendo 2 a 0 no clássico direto (27ª rodada) e abrindo nove pontos de vantagem na liderança da Eredivisie, parecia que o PSV veria os rivais de Amsterdã, com um grupo mais humilde, conquistarem o título. Só restava manter o vice-campeonato holandês.
Mas só parecia.
Àquela altura, Tillman e Boscagli já estavam de volta. Logo, Dest voltaria. Perisic assumia protagonismo valioso. Por mais que o Feyenoord engatasse uma sequência de vitórias e até sonhasse em tomar a segunda posição, o PSV mantinha em controle. Tinha uma tabela mais difícil do que o Ajax nas sete rodadas restantes, mas foi vencendo: 3 a 1 no Groningen (28ª rodada, fora), 5 a 0 no lanterna Almere City (29ª rodada)... e o 3 a 1 no Twente, primeiro adversário difícil na reta final (30ª rodada), somada a uma surpreendente goleada tomada pelo Ajax em jogo adiantado da 31ª rodada (Utrecht 4 a 0), fez a desvantagem cair para seis pontos. Não era muito, mas era algo - e ficou maior ainda com a goleada por 4 a 1 sobre o Fortuna Sittard, no jogo atrasado da 31ª rodada, fazendo a desvantagem cair para três pontos. O Ajax ainda tinha controle. Mas foi se atrapalhando: 1 a 1 com o Sparta Rotterdam na 30ª rodada, derrota para o NEC na 32ª rodada... e nesta, aliás, o PSV mostrou que estava vivo: no clássico contra o Feyenoord, o desafio mais respeitável, um péssimo começo - 2 a 0 sofridos em De Kuip, em dez minutos do 1º tempo - foi revertido num segundo tempo voluptuoso, com Noa Lang catalisando a reação, concretizada no último minuto dos acréscimos, quando houve a virada (3 a 2).
A goleada no Heracles Almelo já seria celebrada. Foi ainda mais: com o empate do Ajax, a liderança estava retomada. E a reviravolta, consolidada (ProShots/Getty Images)
Àquela altura, o péssimo meio de temporada já estava "perdoado". O time já voltara a ser ofensivo como se sabia que podia ser. Mesmo se a goleada sobre o Heracles Almelo na penúltima rodada (4 a 1) houvesse sido infrutífera, o bom clima já se restabelecera. Só que não foi infrutífera: como os torcedores presentes ao Philips Stadion naquela tarde/noite de 14 de maio de 2025 se lembrarão, o Ajax tomou o empate do Groningen nos acréscimos do 2º tempo (2 a 2). O PSV voltava a ser líder. Só perderia o título se tropeçasse no Sparta Rotterdam, e o Ajax vencesse o Twente, na última rodada. Houve esse risco. Mas o ataque trabalhou quando precisava - com gols de Perisic, o veterano que virou fundamental; de Luuk de Jong, o ídolo confiável de sempre; de Malik Tillman, para muitos o melhor jogador da temporada, mesmo perdendo parte dela. E o PSV fez 3 a 1. E foi campeão.
Quem diria, diante da queda vivida no começo do ano? E quem não diria, diante do fato de que em Eindhoven está o grupo de jogadores mais técnico do futebol da Holanda (Países Baixos) na atualidade?
O PSV enfim pôde fazer a festa do título holandês que tanto mereceu. E mereceu, principalmente, pela coesão das partes: diretoria inteligente, técnico adequado, jogadores que cumpriram expectativas (PSV/Divulgação)
"Das trevas se fez a luz." Certo, certo, é exagerado escrever isso sobre o PSV: o clube de Eindhoven passava longe da crise antes do 25º título holandês conquistado neste domingo. Quando nada, porque vinha de um bicampeonato na Copa da Holanda. Entretanto, é justo dizer que os Boeren sentiam falta de ter a salva de prata dada ao campeão dos Países Baixos na sala de troféus do museu dentro do Philips Stadion, em Eindhoven. E voltarão a tê-la, depois de seis anos, porque a formação de uma equipe que fez temporada tão dominante na Eredivisie começou antes mesmo que a temporada passada acabasse. Talvez por isso, o que se viu e se vê do PSV em campo foi tão encaixado.
É possível dizer que essa formação surgiu a partir da escolha dos dois "cabeças" que comandam os rumos atuais do PSV. Para começo de conversa, o diretor geral Marcel Brands fora o diretor de futebol do clube entre 2010 e 2018, período que contou com três títulos nacionais (2014/15, 2015/16 e 2017/18). Após a passagem - algo malograda - pelo Everton, Brands voltou a Eindhoven em 2022. Desta vez, para ser o diretor geral. E coube a ele uma escolha pacificadora para dirigir o futebol. Afinal de contas, o antecessor John de Jong entrara em rota de colisão com o Conselho Deliberativo do PSV, em relação à venda de Cody Gakpo, ainda em 2022 - o conselho recomendava a venda, De Jong queria manter Gakpo. Manteve-o, é verdade. Mas foi demitido naquele ano mesmo. Para trabalhar com Marcel Brands, chegou o ex-atacante norte-americano (nascido nos Países Baixos) Earnie Stewart, então diretor de seleções da federação dos Estados Unidos.
Earnie Stewart (à esquerda) como diretor de futebol, Marcel Brands como diretor geral: enfim, o PSV teve uma diretoria remando para o mesmo lado (Maurice van Steen/ANP/Getty Images)
Quando Stewart foi anunciado no PSV, ainda em janeiro do ano passado, já sabia que teria o generoso montante - 37 milhões de euros - da venda de Gakpo ao Liverpool, logo após a Copa de 2022, para montar um grupo de jogadores. Àquela altura, já chegara um jogador fundamental para o que se vê atualmente nos Eindhovenaren: o meio-campo Joey Veerman, vindo do Heerenveen também em janeiro de 2023. E o PSV terminou aquela temporada até razoavelmente: bicampeão da Copa da Holanda, vice-campeão holandês. Entretanto, ruídos com o grupo de jogadores quanto ao método de trabalho levaram à saída abrupta do técnico Ruud van Nistelrooy. Abatido por perder quem mais o inspirava dentro do PSV (Van Nistelrooy era considerado por ele um "tutor", um conselheiro), Xavi Simons - o grande destaque de 2022/23 em Eindhoven, um dos goleadores da Eredivisie - preferiu voltar ao Paris Saint-Gérmain.
Problemas? Nem tanto. Porque, além do dinheiro de Cody Gakpo, chegava também o dinheiro da venda de Noni Madueke ao Chelsea - mais 40 milhões de euros. Se as transferências fossem bem pensadas, era um valor considerável. Até porque a dupla Marcel Brands-Earnie Stewart já sabia o que desejava antes dos jogadores: um técnico ofensivo, que fizesse o PSV se impor dentro de campo. Aproveitou a chance da disponibilidade de Peter Bosz, a hesitação do Ajax (que teria até mais chances de trazer Bosz de volta a Amsterdã, já que o próprio até se colocara à disposição quando a temporada passada acabou), e apostou no treinador de 60 anos, que já deixou claro na coletiva de apresentação, em julho: iria querer ofensividade. As contratações do PSV que o dissessem: se foi impossível manter Xavi Simons, o PSV conseguiu seu grande objetivo - Noa Lang, badalado pela boa passagem pelo Club Brugge belga. Era necessário mais um ponta confiável? Oras, voltou mais um ídolo, Hirving Lozano, com experiência para estar a postos, mesmo sem ser titular como foi em sua primeira passagem. Havia uma lacuna de um ponta-de-lança rápido, que pudesse jogar pelo meio e pelos lados e até ajudar o ataque? Pois bem: o norte-americano Malik Tillman foi emprestado pelo Bayern de Munique.
Peter Bosz foi trazido para fazer do PSV um time ofensivo. Teve os jogadores que desejava para isso. E... fez isso (Pieter van der Woude/BSR Agency/Getty Images)
E o PSV começava a mostrar uma de suas principais qualidades: a inteligência para atender aos desejos de Peter Bosz, sem gastar excessivamente com transferências. Lateral esquerdo? Pois bem: Sergiño Dest veio emprestado do Barcelona, e Patrick van Aanholt teve o empréstimo prolongado junto ao Galatasaray-TUR. Um atacante que pudesse ser opção confiável caso Luuk de Jong estivesse impossibilitado? Que viesse outro promissor norte-americano, Ricardo Pepi, encostado no Augsburg alemão. Joey Veerman estava sobrecarregado como volante - e nem era tão defensivo quanto necessário? Muito bem: Jerdy Schouten sinalizou que desejava voltar a jogar na Holanda (Países Baixos), para ficar mais perto de uma convocação à seleção, o PSV "captou" esses sinais e o repatriou. Já foi o suficiente para que, mesmo com a temporada em início, viessem o título da Supercopa da Holanda e a vaga na fase de grupos de 2022/23. Criou-se, então, um círculo virtuoso. Porque, ao verem que as contratações eram ambiciosas e fortaleciam o time, os remanescentes preferiam ficar em Eindhoven a aceitarem ofertas de centros mais competitivos. Que o diga Johan Bakayoko: o ponta-direita belga foi cortejado pelo Brentford-ING, foi cortejado até pelo PSG... mas preferiu apostar em mais um ano jogando pelos alvirrubros de Eindhoven.
Veio, então, a prova definitiva do citado círculo virtuoso. Qual foi o resultado da equação "dupla de diretores precavida em contratações + técnico atendido em seus desejos pela dupla de diretores + jogadores que se encaixaram no que o técnico desejava"? O melhor primeiro turno da história do Campeonato Holandês, igualando o que o próprio PSV fizera em 1987/88: cem por cento de aproveitamento - em 17 jogos, 17 vitórias, goleadas a granel (incluindo um 5 a 2 no Ajax, na 10ª rodada, deixando os rivais de Amsterdã momentaneamente na última posição da Eredivisie), atuações primorosas (contra o AZ, na 16ª rodada, o placar estava em 3 a 0 já nos primeiros 15 minutos de jogo - fora de casa). Ao vencer o Feyenoord, também fora - 2 a 1, na 14ª rodada -, disparando na liderança, já ficava a impressão de que o PSV seria o time a ser batido nos Países Baixos. Até no grupo B da Liga dos Campeões, vieram bons augúrios: se a equipe começou sendo goleada pelo Arsenal - 4 a 0 -, conseguiu a classificação às oitavas de final já na quinta rodada, numa partida marcante. Afinal, fora de casa, o Sevilla fazia 2 a 0... até que Lucas Ocampos foi expulso aos 66', logo depois o PSV diminuiu, e Peter Bosz colocou o time como prefere: atacando incessantemente. Veio o empate, e nos acréscimos, Ismael Saibari fez o gol da comemorada virada por 3 a 2, que classificou o time às oitavas. Com tudo isso, era até previsível que Peter Bosz falasse repetidas vezes que era "o melhor grupo com quem já havia trabalhado".
Está certo que Luuk de Jong se confirmou como ídolo eterno em Eindhoven, mas foi Joey Veerman o melhor do PSV na temporada, comandando plenamente o meio-campo (Soccrates/Getty Images)
2023 acabou, 2024 chegou, e com ele alguns solavancos. O sonho de Tríplice Coroa acabaria em 24 de janeiro, com a eliminação nas quartas de final da Copa da Holanda, para o Feyenoord. O sonho de conseguir a maior sequência de vitórias da história da Eredivisie também: na 18ª rodada, a primeira do returno, o primeiro empate (1 a 1 com o Utrecht). Algumas lesões começaram a perturbar jogadores importantes, como Lozano, Noa Lang ou até o novato Isaac Babadi. Nada que atrapalhasse muito um time seguro e confiante. Por sinal, Jordan Teze exibia essa confiança: ainda jovem, enfim desabrochava, virando nome versátil na direita da defesa (na lateral ou na zaga). Mas o grande símbolo disso tudo em campo era a primorosa dupla de volantes, entrosada a não mais poder - enquanto Jerdy Schouten ajudava muito a diminuir o trabalho da defesa (às vezes, até, era recuado para o miolo de zaga, em detrimento de André Ramalho), Joey Veerman ditava o ritmo da equipe, criando jogadas, tendo qualidade nos passes e lançamentos. E Luuk de Jong, livre de lesões, sem precisar defender a seleção da Holanda (anunciara o abandono definitivo dela logo após a Copa de 2022), vivia o esplendor de sua carreira, reforçando o status de ídolo em Eindhoven, subindo para disputar a artilharia da Eredivisie e entrando na lista dos dez maiores goleadores da história da liga. Mesmo em momentos mais difíceis, como os clássicos - 1 a 1 contra o Ajax na 20ª rodada, 2 a 2 contra o Feyenoord na 24ª, chegando a ficar atrás no placar -, o PSV parecia nunca perder a confiança.
Disputando a artilharia do Campeonato Holandês, quarto título nacional pelo PSV, entrando na lista dos dez maiores goleadores da Eredivisie, subindo na lista de maiores goleadores do PSV: Luuk de Jong tem em Eindhoven o porto seguro de sua carreira (Getty Images)
Se houve um período de mais dificuldade, este foi em março. Mesmo tendo sido adversário valoroso para o Borussia Dortmund nas oitavas de final da Liga dos Campeões, um mau começo no jogo de volta, saindo atrás logo aos quatro minutos e perdendo chances, pesou demais para a eliminação. Dias depois, em jogo árduo pela 26ª rodada (contra o Twente, em Eindhoven), o 1 a 0 da vitória veio só nos acréscimos. Porém, na rodada seguinte, contra um NEC que evoluía, o PSV se deixou levar pelo cansaço, pelo desleixo, talvez por uma certa "arrogância" criticada por Peter Bosz - e tomou sua primeira, e até agora única, derrota na Eredivisie: 3 a 1, de virada. O choque seria pesado, diante de um Feyenoord que também fazia bom papel? Nada disso: dali por diante, só três gols sofridos nas cinco rodadas seguintes. Uma sequência de goleadas: 5 a 1 no AZ (29ª rodada), 6 a 0 no Vitesse (30ª rodada), 8 a 0 no Heerenveen (31ª rodada - simplesmente a maior vitória fora de casa que o PSV teve em sua história na Eredivisie). E até mesmo no susto do jogo do título, ao sair atrás diante do Sparta Rotterdam, o time se aprumou e impôs sua superioridade técnica, para fazer 4 a 2 e confirmar o título.
Confirmar de fato, bem entendido. Porque, de direito, o PSV já provara havia muito tempo que era o melhor time do Reino dos Países Baixos nesta temporada. Ainda pode se tornar, em termos numéricos, o melhor campeão da história da Eredivisie (mais pontos, mais gols marcados, menos gols sofridos). Porque, entre diretores, técnico e jogadores, "deu match" no PSV. Deu título. Deu show.
O Feyenoord começou a temporada 2022/23 pensando se as saídas afetariam. Na base da inteligência, essas saídas foram compensadas. E nada simboliza mais isso do que o título (Peter Lous/BSR Agency/Getty Images)
Domingo, 14 de maio de 2023, De Kuip, Roterdã. O Feyenoord já tinha 3 a 0 no placar contra o Go Ahead Eagles. Já começava a festa pelo 16º título do Campeonato Holandês que viria para o Stadionclub, como de fato veio. A certa altura, as imagens focaram um homem. É o dinamarquês Frank Arnesen, ex-diretor de futebol do clube de Roterdã. Arnesen deixou o clube no meio da temporada, por razões de saúde. Pois é o símbolo da inteligência que dominou todo o caminho do Feyenoord, mesmo depois de sua saída, pavimentando um título muito merecido, ganho até com mais autoridade do que o anterior, em 2016/17.
E talvez nenhum outro ponto do caminho do Feyenoord nesta Eredivisie ganha simbolize tanto a inteligência quanto o mercado de transferências, antes da temporada começar. Como sói acontecer com clubes dos Países Baixos, as saídas eram bem mais simbólicas do que as chegadas. Só que algumas eram contrabalançadas. Que o diga o Ajax, que vinha de três títulos: perdeu o técnico Erik ten Hag, perdeu vários nomes fundamentais das temporadas recentes (Noussair Mazraoui, Lisandro Martínez, Nicolás Tagliafico, Ryan Gravenberch, Antony). O arquirrival de Amsterdã estava fragilizado, como poucas vezes nos anos recentes. Mas, por outro lado, teve dinheiro à farta para remontar a equipe - só os 100 milhões de euros recebidos do Manchester United por Antony, recorde absoluto na história do futebol holandês, já eliminavam esse problema. E o Ajax comprou: Calvin Bassey, Owen Wijndal, Steven Bergwijn, Brian Brobbey (já emprestado, voltou em definitivo). O PSV, além de manter Cody Gakpo momentaneamente, ainda ostentou com uma contratação ambiciosa, Xavi Simons.
Frank Arnesen sedimentou as bases da mudança do Feyenoord, organizando o método de contratações (Pieter Stam de Jonge/ANP/Getty Images)
E o Feyenoord? Após o fim honroso da temporada passada, com o terceiro lugar na liga e o vice-campeonato na Conference League, também foi "depenado" pelo mercado. É certo que algumas saídas foram de veteranos que desejavam outras experiências - como Bryan Linssen, atacante útil, que foi passar um tempo no Japão, e de Jens Toornstra, meio-campo querido da torcida, mas que já perdia espaço e preferiu voltar ao Utrecht. Mas praticamente todos os destaques de 2021/22 deixaram o Stadionclub. O zagueiro Marcos Senesi? Partiu para o Bournemouth, em saída até esperada. Tyrell Malacia? O lateral esquerdo ia para o Lyon, mas o Manchester United o levou por mais dinheiro na última hora. Fredrik Aursnes? O meio-campo norueguês tomou o rumo do Benfica. Guus Til? Esta doeu um pouco: emprestado pelo Freiburg-ALE, o meia saiu indicando que poderia voltar após negociações... e voltou mesmo - voltou à Holanda, para o PSV. Reiss Nelson? Após meio ano em Roterdã, por empréstimo, também retornou ao Arsenal. Cyriel Dessers? O belga, goleador da Conference League, sequer pôde ser comprado do Racing Genk-BEL (mesmo com "vaquinha virtual" da torcida), e o clube belga o revendeu à Cremonese-ITA. Luis Sinisterra? O ponta colombiano rumou para o Leeds United.
Aí entrou a inteligência. Mesmo já próximo de deixar o Feyenoord, Frank Arnesen já conseguira fazer o clube assimilar seu método preferencial de contratações: baixo custo, observação alta. E assim o clube conseguiu trazer nomes de qualidade parecida àqueles que saíram (embora ninguém soubesse disso quando a temporada começava, claro). Senesi saiu? Pois bem, chegou o eslovaco Dávid Hancko, elogiado no Slavia Praga. Malacia estava fora? A lateral esquerda seria disputada por um reforço, o peruano Marcos López, e por Quilindschy Hartman, revelação da base frutífera do centro de treinamentos de Varkenoord. Aursnes e Til desfalcariam o meio-campo pesadamente? Pois o Feyenoord buscou Mats Wieffer no Excelsior, recém-promovido à Eredivisie, e ainda aproveitou a facilidade de negociação com clubes russos pela guerra contra a Ucrânia para trazer, por empréstimo, o polonês Sebastian Szymanski. No ataque, se Cyriel Dessers faltaria, o esforço a mais para "cavar" o cofre foi fundamental para trazer o mexicano Santiago "Bebote" Giménez - embora o mais badalado, àquela altura, fosse o brasileiro Danilo, vindo do arquirrival Ajax após fim de contrato. E tanto Javairô Dilrosun quanto Oussama Idrissi eram opções válidas para o lugar de Sinisterra, e vieram antes mesmo de Igor Paixão, que chegou já na reta final de agosto, mais como aposta.
A competência para remontar rapidamente o Feyenoord fez de Arne Slot um técnico definitivamente respeitado na Holanda (Dennis Bresser/Soccrates/Getty Images)
Paralelamente aos novos reforços, havia uma base já estabelecida. Com Justin Bijlow, Lutsharel Geertruida, Gernot Trauner, Orkun Kökcü. E havia Arne Slot, técnico mais e mais estabelecido e respeitado na nova geração de treinadores holandeses. Porém (ai, porém), as saídas eram em tal volume que o Feyenoord começou a temporada com uma pergunta a lhe simbolizar: seria possível uma temporada tão elogiável quanto a passada? O clube perderia tempo no começo do Campeonato Holandês? Nem perdeu tanto - foram quatro vitórias e um empate nas primeiras cinco rodadas. Mas a estreia na Liga Europa acendeu o alerta: derrota por 4 a 2 para a Lazio-ITA, com um começo péssimo da defesa. Para piorar, quase simultaneamente, no começo de setembro de 2022, Frank Arnesen, já licenciado da diretoria de futebol, anunciou a saída definitiva.
Só que algo já era notável: o Feyenoord podia até perder, mas não lhe faltaria esforço. Isso começou a ser provado nos 4 a 3 sobre o Go Ahead Eagles (5ª rodada), quando o time chegou a tomar 2 a 0 fora de casa antes de virar. O esforço foi exibido até na sua única (por ora) derrota pelo Campeonato Holandês na temporada: no 4 a 3 sofrido para o PSV no clássico - 7ª rodada -, o time de Roterdã saiu na frente, Orkun Kökcü teve ótima atuação, os anfitriões sofreram demais para vencerem o emocionante clássico em Eindhoven. Melhor ainda era a sensação de que, aos poucos, Arne Slot achava o time, achava a melhor formação. Hancko se entrosava cada vez mais com Trauner, minimizando a falta que Senesi poderia fazer na zaga; o trio Wieffer-Szymanski-Kökcü já se encaixava no meio (Wieffer comandando a saída de bola, Kökcü sendo um "motorzinho", Szymanski chegando ao ataque). E aos poucos, "Bebote" Giménez ganhava a posição de Danilo no ataque. Até fora de campo o Feyenoord superava as turbulências: o diretor esportivo, Dennis te Kloese, assumia o comando do futebol sem alterar os preceitos deixados por Frank Arnesen.
Orkun Kökcü deixou de ser apenas um bom armador: incansável na ajuda à marcação, hábil na criação, perigoso nos chutes de fora, o turco mereceu ser o líder do Feyenoord em campo (Pim Waslander/Soccrates/Getty Images)
Em outubro, duas vitórias dignas de nota no Campeonato Holandês, contra adversários difíceis (2 a 0 no Twente, na 9ª rodada, e 3 a 1 no AZ, fora de casa, na 10ª rodada). Em novembro, a primeira impressão de que o Feyenoord embalara. Primeiro na Liga Europa: num grupo equilibrado, o clube poderia ter até sido eliminado, mas se superou contra a Lazio, na última rodada do grupo F, se valendo do ambiente fervilhante de De Kuip e de um gol de Giménez para vitória emocionante (1 a 0), que rendeu a primeira posição e a classificação direta às oitavas de final. Depois, na Eredivisie: antes da pausa para a Copa, em novembro, três vitórias seguidas. Na 14ª rodada, a última de 2022, com o Ajax empatando (3 a 3 com o Emmen) e o PSV perdendo (AZ 1 a 0), o Feyenoord conseguiu a liderança ao golear o Excelsior (5 a 1). Era um bom sinal.
Santiago "Bebote" Giménez começou a temporada na reserva de Danilo. Termina, talvez, como o melhor jogador do campeonato ( NESimages/Geert van Erven/DeFodi Images/Getty Images)
A Copa passou, 2023 começou, a Eredivisie retornou (tendo um empate no Klassieker contra o Ajax - 1 a 1, na 17ª rodada, no primeiro gol de Igor Paixão pelo clube, marcando reação do atacante após dificuldades de adaptação), e a hora foi da equipe de Roterdã "maltratar" o coração da torcida. Pelo menos, quase sempre o final foi feliz. Porque a sequência de gols decisivos em minutos finais foi impressionante. Senão, veja-se. Na 20ª rodada, em 5 de fevereiro, no clássico contra o PSV, os rivais de Eindhoven abriram 2 a 0 em pleno De Kuip, mas o Stadionclub buscou o 2 a 2 no "abafa" (Alireza Jahanbakhsh fez dois gols, o último aos 90' + 6). Na 22ª rodada, contra o AZ, mesmo em casa, o time saiu atrás, empatou, e só um gol de Marcus Pedersen, aos 90', decretou o 2 a 1. Contra o Groningen, na 24ª rodada, o 1 a 0 da vitória foi feito por Idrissi aos 88'. Na rodada seguinte, contra o Volendam, outra vez o time saiu atrás - e outra vez virou só na etapa final, se bem que o gol do 2 a 1 demorou menos, vindo aos 74'. A tendência de gols "agônicos" vinha na Copa da Holanda (impressionante 4 a 4 com o NEC, com 5 a 3 nos pênaltis, nas oitavas de final) e até na Liga Europa - certo, o Shakhtar Donetsk-UCR foi despachado com 7 a 1 na volta, também nas oitavas, mas na ida fizera 1 a 0 e só um gol do argentino Ezequiel Bullaude aos 88' garantiu o empate útil.
Mas a certeza, tão serena quanto alegre, de que nesta temporada o Feyenoord estava pronto veio em 19 de março de 2023, na 26ª rodada. Era um desafio: vencer o arquirrival Ajax, na Johan Cruyff Arena, pelo Campeonato Holandês, o que não ocorria desde agosto de 2005. Naquele dia, o Feyenoord orgulhou sua torcida. Abriu o placar rapidamente com "Bebote" Giménez, tomou a virada ainda no primeiro tempo, mas não deixou de atacar. Empatou já na etapa final, com Szymanski. Se o time se impunha na frente, o goleiro Timon Wellenreuther (substituindo Justin Bijlow, novamente lesionado no pé) fazia ótimas defesas. Uma delas, num chute de Mohammed Kudus à queima-roupa, veio pouco antes do gol do desafogo. Nos minutos finais, como a torcida se acostumou: aos 86', escanteio, Hancko desviou, e Geertruida completou para o histórico 3 a 2. O Feyenoord voltava a vencer um Klassieker pela Eredivisie na casa do adversário mais detestado. E aqui, o clichê cabe: a comemoração dos Feyenoorders ao fim do jogo parecia de título. Porque não deixava de ser, um pouco: a vantagem se ampliava para seis pontos na liderança do Holandês.
Nem mesmo a queda na Liga Europa (nas quartas de final, para a Roma, algoz da Conference League, quando a classificação chegou a parecer possível antes que um gol de Paulo Dybala arruinasse tudo na reta final da volta) perturbou a alegria e a segurança que o Feyenoord ostentou na liga nacional. Na 27ª rodada, o que poderia ter sido difícil contra o Sparta Rotterdam, no clássico citadino, foi salvo por Wellenreuther, que pegou pênalti quando o jogo estava em 1 a 1, e por Giménez, que recolocou o time na frente - depois, Dávid Hancko ainda fez 3 a 1. E nem a queda para o arquirrival, na turbulenta semifinal da Copa da Holanda, abalou a firmeza ostentada na Eredivisie: desde aquele histórico 3 a 2 no Ajax, o caminho foi de vitórias. Até o consagrador 3 a 0 no Go Ahead Eagles, nesta 32ª rodada, confirmando o 16º título holandês. Conquistado na base da inteligência de tanta gente: Frank Arnesen para contratar, Arne Slot para treinar, Orkun Kökcü para capitanear, Santiago Giménez para marcar gols...
O Ajax conseguiu chegar a mais um título no Campeonato Holandês. Mas este mostrou os desgastes de um ciclo que chega ao fim (Pro Shots/Getty Images)
Quarta-feira, 11 de maio de 2022. Johan Cruyff Arena, em Amsterdã. Após a goleada por 5 a 0 sobre o Heerenveen, a delegação do Ajax festeja o 36º título holandês da história do clube. Obviamente, o clima de festa predominava. Mas certas declarações de personagens importantes dos Ajacieden indicavam, mais do que alegria, um sofrimento até inesperado para uma equipe que começara a temporada 2021/22 do Campeonato Holandês como franca favorita a ser o que foi: campeã - ou melhor, tricampeã (2018/19, 2020/21 e 2021/22 - sem contar 2019/20, a temporada sem vencedor). O treinador Erik ten Hag comentava à ESPN dos Países Baixos: "Sim, essa conquista foi mais difícil do que as outras duas". O diretor geral Edwin van der Sar desabafava: "Falando esportivamente, cumprimos o objetivo. Mas foi muito difícil, principalmente nestes últimos três meses". Por quê tanto alívio? Talvez porque o Ajax tenha mostrado fragilidades antes invisíveis. Que deixaram claro: a salva de prata conquistada indica, como as outras não indicavam antes, que um ciclo se acabou.
A impressão que o início da temporada passava era contrária. Certo, havia uma incômoda goleada sofrida na Supercopa da Holanda (PSV 4 a 0 em plena Johan Cruyff Arena, em 7 de agosto de 2021). Ainda assim, o poderio do Ajax estava claro em várias coisas. Na manutenção dos destaques, como Antony e Dusan Tadic. Na expectativa que Sébastien Haller poderia causar, na primeira temporada completa que passaria em Amsterdã. Na prova de poder que foi a humilhação imposta ao arquirrival Feyenoord: contratar dele o principal destaque em campo, Steven Berghuis. No modo bem azeitado como o clube funcionava internamente, com o diretor de futebol Marc Overmars trabalhando em parceria com Ten Hag, enquanto Van der Sar liderava os rumos do clube.
Essa expectativa positiva se confirmou na primeira metade da temporada. No Campeonato Holandês, as goleadas se avolumavam. Basta dizer que a rodada inicial trouxe um 5 a 0 indubitável sobre o NEC (14 de agosto). Viriam mais: 5 a 0 no Vitesse (3ª rodada, 29 de agosto), 9 a 0 no Cambuur (5ª rodada, 18 de setembro), 5 a 0 no Fortuna Sittard (6ª rodada, três dias depois da vitória extravagante sobre o Cambuur). Os destaques cumpriam plenamente a expectativa: Haller fazia gols e mais gols, Antony encantava a torcida com dribles úteis, Tadic era a liderança técnica inquestionável, Berghuis se entrosava à perfeição como principal criador de jogadas ao deixar Davy Klaassen, lesionado, no banco.
E o destaque do Ajax ia além. Se ainda eram jovens se afirmando no título de 2021/22, tanto Jurriën Timber quanto Ryan Gravenberch comprovavam o grande talento que tinham em suas respectivas posições - Timber como um zagueiro ofensivo, Gravenberch como um meio-campista de muita inteligência. Mesmo com a lesão de Maarten Stekelenburg no gol, o também veterano Remko Pasveer assumia o lugar às pressas - e tinha sucesso. Tudo isso era visto, mais do que na Eredivisie, na Liga dos Campeões.
Brilhando na fase de grupos, seis vitórias em seis jogos, triunfos respeitabilíssimos (como estrear impondo 5 a 1 no Sporting em Lisboa, ou fazer 3 a 1 no Borussia Dortmund em pleno Signal Iduna Park - em que pesem erros inegáveis da arbitragem naquele jogo -, sem contar os 4 a 0 no Dortmund): os Amsterdammers davam a promissora impressão de que era possível sonhar em virar moda no futebol mundial de novo, como o time fora em 2018/19. Aliás, a atuação na fase de grupos fora até melhor desta vez. Em suma: mesmo perdendo a primeira no fim de 2021 (o AZ fez 2 a 1 em plena Johan Cruyff Arena, na 16ª rodada), mesmo mostrando aqui e ali a insistente dificuldade em encarar times fechados (algo notável no Go Ahead Eagles segurando o 0 a 0, pela 12ª rodada), o Ajax era absolutamente dominante. Na Holanda e, quem sabe, na Europa. Se já fora assim em 2021, a confirmação em 2022 poderia ser impressionante.
Mas essa confirmação não veio.
Erik ten Hag (à esquerda) deixa o Ajax com mais um título, para se arriscar decisivamente no Manchester United. E o diretor geral Van der Sar terá de coordenar muitas mudanças (Jasper Ruhe/Pro Shots)
A dificuldade no clássico contra o PSV (2 a 1 em Eindhoven, 20ª rodada - com um gol polêmico de Noussair Mazraoui para definir a vitória) indicou que o Ajax começava a ficar mais manjado do que se supunha. Isso começou a ficar preocupantemente claro para os Ajacieden no 1 a 0 contra o Willem II (23ª rodada do Holandês): diante de um clube que sofria com a ameaça de rebaixamento - e que terminou caindo para a segunda divisão -, o Ajax teve seríssimas dificuldades. Tanto para segurar contra-ataques, quanto para fazer gols em defesas fechadas. A consequência final não poderia ser mais dolorosa. Nas oitavas de final da Liga dos Campeões, contra o Benfica - contra o qual foi considerado favorito -, o Ajax começou bem em Lisboa. Mas o excesso de avanço da defesa (Timber e Daley Blind que o digam) cedeu espaço para os ataques benfiquistas, que conseguiram o empate em 2 a 2. Entre um jogo e outra, uma surpresa péssima: perder para o Go Ahead Eagles, algo que não acontecia ao Ajax na Eredivisie havia 43 anos (2 a 1, na 24ª rodada). Mais duas vitórias que pareciam fáceis e se tornaram dramáticas (3 a 2 no RKC Waalwijk, na 25ª rodada, e no Cambuur, na 26ª rodada). E na volta das oitavas da Champions, em Amsterdã, a repetição de uma velha história: um Ajax cada vez mais desesperado e precipitado ao fracassar nos ataques, enquanto o adversário se continha, até aproveitar a chance, ganhar e se classificar. Foi o que o Benfica fez, indo às quartas de final com uma atuação defensivamente perfeita e uma vitória - 1 a 0.
A essas alturas, mais furos apareciam no casco do barco. O maior deles, o anúncio feito na noite de 13 de fevereiro: a saída imediata do diretor de futebol. Mas se Marc Overmars fazia trabalho tão bom, por quê sair? A causa chocou ainda mais: Overmars teve comprovadas condutas de assédio sexual contra funcionárias e ex-funcionárias do clube - e assumiu isso. De certa forma, retratava um pouco o que era o Ajax: um clube dominante, que de tanto domínio, se perdeu ao se imaginar iniciando uma hegemonia. A queda traumática de Overmars ("Não voltei a falar com ele desde então, lamentou o diretor geral Van der Sar) sinalizou que a intenção estava a perigo - até porque abria a porta para a saída de Ten Hag, tantas vezes ensaiada. Outra polêmica foi a volta de André Onana ao gol do Ajax. Terminada a suspensão por doping, em novembro do ano passado, o goleiro camaronês se manteve com a intenção de sair do clube. Soou como ingratidão para a torcida - que nunca perdoou Onana. A falha no gol de Darwin Núñez que definiu o 1 a 0 e a classificação do Benfica na Liga dos Campeões só arruinou mais a relação. E revelações como o acordo encaminhado com a Internazionale, saindo de graça ao fim do contrato, só tornaram Onana persona non grata para muitas pessoas.
Como o Ajax poderia se recuperar de impactos tão duros? Meramente com eficiência. Foi o feito no Campeonato Holandês: se o PSV ensaiava se aproximar na tabela, o negócio era ganhar, mesmo jogando mal. Foi a tônica Ajacied nas últimas rodadas: ganhar como fosse. E uma sequência de vitórias com más atuações colocou o Ajax às portas de mais um título: a virada suada no Klassieker contra o Feyenoord (3 a 2, na 27ª rodada), outras viradas de placar (3 a 1 no Groningen, na 28ª rodada, e 2 a 1 no Sparta Rotterdam, na 29ª rodada). Triunfos que amorteceram mais um duro impacto: a perda da Copa da Holanda, para o PSV. Porque colocavam o Ajax na rota do título holandês. Título afinal ganho, com duas vitórias que evocaram o domínio da primeira metade da temporada (3 a 0 no Zwolle, na 31ª rodada, e 5 a 0 no Heerenveen, na 33ª rodada) - com um empate salvador no meio (2 a 2 com o AZ).
E veio mais um título holandês para o Ajax. Mais um final feliz. Mas sem tanta felicidade quanto em temporadas anteriores, porque indica: um ciclo se acabou. Erik ten Hag sairá, tendo a chance para catapultar decisivamente sua carreira (ou ter um fracasso pouco recomendável) no Manchester United. Outros nomes símbolos destes anos vitoriosos também devem deixar Amsterdã com boas lembranças: Noussair Mazraoui, Ryan Gravenberch, talvez Antony, talvez Sébastien Haller. Todas mudanças necessárias. Porque se sabe, na Johan Cruyff Arena, que algo precisa mudar para que o Ajax continue campeão como está.
O Ajax já começou o Campeonato Holandês como favorito. Teve algumas dificuldades no caminho, mas as superou - e comprovou o favoritismo: mais um título (Soccrates/Getty Images)
Quando o Campeonato Holandês desta temporada 2020/21 estava para começar, este blog fez o guia da temporada. E o texto de apresentação tinha um mote: "Certas coisas nunca mudam". Claro, a pandemia de COVID-19 transformou o mundo num emaranhado de incertezas, que continuarão aí por muito tempo. Ainda assim, já era previsível que o Ajax seria o principal favorito ao título da Eredivisie, como vinha sendo nas temporadas anteriores. Pois bem: após um começo com certas inconstâncias, o time de Amsterdã se estabilizou na metade da temporada. E foi exatamente a estabilidade que o catalisou para o 35º título holandês de sua história, confirmando a expectativa: atualmente, nos Países Baixos, os rivais estão incapazes de fazerem frente à superioridade do clube da Johan Cruyff Arena.
É verdade que as saídas de Donny van de Beek e Hakim Ziyech eram solavancos, deixando definitivamente os sonhos da temporada 2018/19 como boas lembranças. E mesmo que já chegassem como nomes altamente promissores, Antony e Mohammed Kudus não passavam disso: promessas. Mais importante prometia ser a chegada de Davy Klaassen: a tentação de voltar ao clube que lhe viu nascer e crescer no futebol (e que tem mais possibilidades esportivas, atualmente) foi maior do que o desejo de permanência no Werder Bremen. Ou mesmo a permanência de Dusan Tadic, aquele de quem a torcida Ajacied já se acostumou a esperar o melhor possível.
Todavia, existiam coisas a serem consolidadas na equipe de Amsterdã quando o Campeonato Holandês começava. A atuação na estreia - 1 a 0 contra o Sparta Rotterdam, fora de casa - deixou essas duas coisas claras: a qualidade elogiável dos contratados (Antony foi o autor do gol) e a fragilidade defensiva (Nicolás Tagliafico foi expulso naquela primeira rodada). E se houvesse qualquer dúvida sobre isso, ela foi apagada num daqueles jogos-chave de uma temporada: o 2 a 1 no Vitesse, já na terceira rodada. Mesmo na Johan Cruyff Arena, o Ajax teve seríssimas dificuldades, aumentadas pela expulsão de Edson Álvarez - àquela altura, o mexicano destoava seriamente no meio-campo, sem definir seu posicionamento, enfraquecendo a marcação. A vitória só veio pelo poder de decisão de Antony, que começava fulgurante sua passagem pelo clube. Quando a primeira derrota veio (para o Groningen, por 1 a 0, na rodada seguinte ao triunfo contra o Vitesse), foi até previsível.
Pelo menos, de um modo ou de outro, o Ajax seguia se mantendo próximo à liderança. A partir da sexta rodada, já a tomou para não mais perdê-la - se não em pontos, num saldo de gols que se tornou inigualável, pela maior goleada dos 65 anos de profissionalismo no Campeonato Holandês: os 13 a 0 no VVV-Venlo (nos quais Lassina Traoré despontou como revelação, com quatro gols feitos). A façanha deu início a um momento mais sólido: quatro vitórias seguidas, sem gols sofridos, com duas goleadas por 5 a 0, contra Emmen e Heracles Almelo. Porém, logo veio um baque para lembrar que o Ajax ainda não estava equilibrado: a derrota para o Twente, em plena Johan Cruyff Arena (2 a 1, na 11ª rodada), mostrou que a defesa ainda sofria com adversários rápidos. A ineficiência do ataque também irritou a torcida, no empate contra o Willem II que fechou 2020 - 1 a 1, na 14ª rodada.
De fato, era algo temerário para os objetivos do Ajax, com a aproximação do "Super Janeiro", trazendo uma sequência de clássicos que definiria de vez os destinos de quem buscava coisas sérias no Campeonato Holandês. No primeiro desses clássicos - contra o PSV, em Amsterdã, pela 15ª rodada, em 10 de janeiro - o começo foi o pior possível para os Ajacieden: os rivais de Eindhoven pressionaram, Eran Zahavi fez dois gols, e o 2 a 0 poderia ser de consequências preocupantes. Mas no fim do primeiro tempo, um gol de Quincy Promes assentou as coisas. E no segundo tempo, os Godenzonen foram firmes no ataque: não cessaram a pressão sobre o PSV, até que Antony empatasse. O que poderia ser uma derrota pesada, que aumentaria desconfianças de torcida e imprensa, virou um empate aceitável.
O clássico contra o PSV definiria os rumos do Ajax na Eredivisie. Começou pessimamente, com os rivais de Eindhoven na frente. Mas o Ajax se recuperou, empatou - e virou uma máquina de regularidade na liga, dali por diante (Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)
Foi a partir da resiliência mostrada nesse 2 a 2 do clássico que o Ajax se catapultou de vez para o título. Superou todo e qualquer problema que aparecesse. O reforço Sébastien Haller ficou de fora da Liga Europa, por uma falha inacreditável no organograma interno? Pois o franco-marfinense teve sua ajuda no Campeonato Holandês, fazendo alguns gols importantes e decisivos (como o do 1 a 0 no RKC Waalwijk, na 29ª rodada) para suprir a perda de Klaas-Jan Huntelaar. A suspensão de André Onana - um ano, por uso de substância proibida - pegou todos de surpresa? Pois não pegou Maarten Stekelenburg: outro velho conhecido, nascido e criado futebolisticamente no Ajax, cumpriu exatamente o que se esperava com sua contratação - tornou-se o goleiro titular e mostrou segurança. Edson Álvarez decepcionava no meio-campo? Pois o mexicano se motivou com a vinda da família para acompanhá-lo em Amsterdã, e cresceu de produção na reta final. Perr Schuurs seguia inconstante na zaga? Jurriën Timber estava a postos para assumir a posição e não largá-la mais. Noussair Mazraoui se machucou seriamente? Devyne Rensch foi outro jovem a estar pronto para assumir a tarefa e cumpri-la bem na lateral direita.
Paralelamente, havia as fontes de confiança de sempre. No meio-campo, Ryan Gravenberch e Klaassen formavam uma dupla cada vez mais entrosada no meio-campo, capaz de comandar o recuo para marcar e de se alternar à perfeição nas ajudas ao ataque. Por falar nele, Tadic seguiu confiável. Se Antony caiu um pouco de produção, David Neres subiu: o paulistano do bairro de Pirituba superou as insistentes lesões, e foi crescendo gradativamente de produção. Tudo isso fez do Ajax uma máquina de regularidade, justamente no momento mais importante do Campeonato Holandês. Clássico com o Feyenoord sempre traz algum temor, por mais prejudicado que o arquirrival esteja? Pois bem: no 1 a 0 da 17ª rodada, o Ajax atacou até pouco, mas não correu riscos. O AZ poderia assustar? Pois bem: 3 a 0 em Alkmaar, na 20ª rodada, só para não deixar dúvidas sobre qual era o maior time. O time estava pior do que o PSV, no outro clássico da 24ª rodada, em Eindhoven? Um pênalti surgiu nos acréscimos, e Tadic fez o 1 a 1 que garantiu um ponto valioso.
Todos os citados no parágrafo anterior eram potenciais adversários na disputa do título. Todos abatidos, de um jeito ou de outro. Afinal, contra os times médios e pequenos, o Ajax fazia o que era praticamente sua obrigação: vencia com facilidade, maior (5 a 0 no ADO Den Haag, na 27ª rodada) ou menor (2 a 1 no Heerenveen, na 28ª rodada). Por tudo isso, há pelo menos umas três rodadas, já se preparava para comemorar o título, afinal garantido com os 4 a 0 do Emmen neste domingo. Porque o fato está confirmado: certas coisas nunca mudam. Com ou sem pandemia, o Ajax é o mais confiável time da Holanda na atualidade. E nada indica que isso mude, a curto prazo. A torcida que aproveite.
Entrosado, o PSV não se perturbou em nenhum momento da temporada. Foi premiado com o bi (Pieter Stam de Jonge/VI Images)
Terça-feira, 11 de agosto de 2015. Na primeira rodada do Campeonato Holandês 2015/16, o PSV ia vencendo o ADO Den Haag por 2 a 1, fora de casa, confirmando seu habitual favoritismo - e iniciando bem uma campanha que, muito provavelmente, o levaria a ser um dos candidatos ao título nacional. Só que, aos 48 minutos do segundo tempo, indo para a área tentar o empate, o goleiro dinamarquês Martin Hansen foi o herói: desviou de calcanhar a bola vinda de falta, decretando o 2 a 2 final e ganhando (justamente) seus quinze minutos de fama na imprensa esportiva mundo afora.
O azar dos Boeren naquela estreia pela Eredivisie poderia indicar uma temporada turbulenta, daquelas em que o time demoraria para conseguir engrenar rumo à disputa do título, em que quase sempre está. Não foi assim. Na verdade, o entrosamento dos novos reforços foi tão rápido que permitiu ao time de Phillip Cocu manter seu estilo de jogo habitual. Com um pouco de aplicação extra (e sorte), foi possível fazer o que nenhum time holandês conseguia desde a temporada 2006/07: passar da fase de grupos da Liga dos Campeões. E, finalmente, a sorte que faltara naquela longínqua partida em Haia chegou na última rodada, deste domingo passado, trazendo um bicampeonato holandês muito merecido.
E foi merecido porque o PSV trabalhou. Além disso, como já se disse aqui, os jogadores trazidos nesta temporada foram buscados com eficiência, permitindo rápido entrosamento. Há dois claros exemplos. O maior deles é Davy Pröpper: ao vir para De Herdgang (centro de treinamento do PSV), o meio-campista potencializou as qualidades que já mostrara no Vitesse, em 2014/15. Capaz de roubar a bola (menos) e sair com velocidade para o ataque (bem mais), Pröpper tinha qualidades semelhantes às de Andrés Guardado - e chegava até melhor ao ataque do que o mexicano, arriscando chutes para o gol (assim marcou contra Roda JC e Vitesse). Com as lesões que perturbaram Guardado no returno, a importância de Pröpper no time aumentou. Não à toa, está presente constantemente nas seleções do campeonato, feitas pela imprensa holandesa.
Outro é Héctor Moreno. É verdade que o zagueiro mexicano começou a temporada exagerando em algumas jogadas violentas - Luke Shaw sabe bem disso, mas também cabe lembrar a entrada em Oussama Tannane, ainda no Heracles Almelo, em partida da Eredivisie ocorrida dias depois da estreia dos Boeren pela Liga dos Campeões, onde Moreno causara a fratura na perna do lateral esquerdo do Manchester United. Mas aos poucos o zagueiro foi se assentando, e não só foi para Jeffrey Bruma um companheiro de zaga tão valioso quanto Karim Rekik já fora em 2014/15, mas também oferecia a opção de atuar esporadicamente na lateral esquerda. O que abria vaga para o reserva Nicolas Isimat-Mirin entrar na zaga, formando um 5-3-2 quando a situação exigia (foi assim, por exemplo, no jogo de volta das oitavas de final da Champions League, quando o time holandês chegou a deixar o Atlético de Madrid em maus lençóis).
Maxime Lestienne até poderia estar na lista. Suas primeiras atuações pela ponta-esquerda foram promissoras. Só que o falecimento repentino e seguido de seus pais o forçou a passar algumas semanas na Bélgica, seu país natal, amparando e reorganizando a família, liberado pelo clube. Quando Lestienne voltou, já era tarde: perdera espaço para Jürgen Locadia. E embora tenha tido algumas boas atuações vindo do banco (bom exemplo foi o 3 a 2 no Zwolle, na última partida do turno), termina a temporada com papel secundário no elenco. E sem possibilidades de recuperar espaço: afinal, o alto preço cobrado pelo Al Arabi-QAT para sua compra em definitivo inviabiliza a manutenção do empréstimo, e ele provavelmente deixará o PSV. Aliás, por falar em empréstimo: como esquecer Marco van Ginkel? Chegou apenas para o returno e fez oito gols em treze jogos, assumindo com merecido destaque o lugar que Guardado deixava.
De contratações acertadas, ainda houve Gastón Pereiro. Entrando numa situação difícil (substituiu justamente Lestienne, ausente pela morte da mãe), em clássico contra o Ajax, na 8ª rodada, o atacante uruguaio precisaria provar ali seu valor. Provou: fez os dois gols da vitória por 2 a 1, em plena Amsterdam Arena, e trouxe força física pelo lado esquerdo do ataque, além de habilidade. Até caiu na irregularidade no decorrer da temporada, e perdeu espaço para Luciano Narsingh, recuperado de lesão (e mais experiente). Ainda assim, até pela idade (20 anos, a fazer 21 em 11 de junho), e pela constante presença nos jogos - no banco ou nos titulares, esteve em 29 jogos pelo Campeonato Holandês -, Pereiro merece observação e oportunidades no PSV, nas próximas temporadas.
Como merecem mais chances Jürgen Locadia e Jorrit Hendrix. Se era apenas um corpulento finalizador antes, Locadia aprendeu a jogar pelos lados (pela esquerda, para ser mais preciso), desenvolvendo sua técnica, e parou de reclamar pelos cantos à espera de uma transferência, como ocorreu com seu amigo de base Memphis Depay. Viveu a melhor temporada de sua curta carreira - mesmo caso de Hendrix, que até permitiu que Guardado e Pröpper saíssem mais para o ataque, dando segurança na marcação, dentro do 4-3-3.
Houve ainda Jeroen Zoet, único presente nos 34 jogos do PSV, consolidado como goleiro promissor na Holanda - até em termos de seleção, assumindo o posto de reserva imediato de Jasper Cillessen na Oranje após a lesão de Tim Krul. Houve Jeffrey Bruma, surpreendente: o antes "xerifão" deu lugar a um zagueiro seguro, com tempo de bola impecável, esbanjando confiança para a torcida. Houve Jetro Willems, cada vez melhor nos cruzamentos - e um pouco melhor na marcação (o que o ajudou a recuperar a posição do discreto Joshua Brenet). Houve Guardado, sempre presente na criação das jogadas enquanto as lesões não o perturbavam. E acima de tudo, houve Luuk de Jong, que teve em Eindhoven o porto seguro para atuar num campeonato mais alcançável a seu nível técnico após fracassos em Alemanha e Inglaterra. De Jong só não foi o goleador do Holandês porque havia Vincent Janssen, mas merece o posto de melhor jogador do campeonato. Até por mostrar um insuspeito espírito de liderança, como não mostrara ainda na carreira.
Com um elenco entrosado, que dava espaço a jogadores da base, e as contratações acertadíssimas, Phillip Cocu pôde trabalhar para minorar ao extremo o possível impacto das saídas de Memphis Depay e Georginio Wijnaldum. Mostrou, ainda, capacidade rara no futebol holandês: saber mudar o esquema do time em função dos jogos que teria pela frente. O que muito o ajudou na campanha pela Liga dos Campeões - além da "fortaleza" que o Philips Stadion segue sendo: os Boeren não perderam nenhum jogo ali pela Champions, e só caíram uma vez pela Eredivisie, contra o Ajax, na mesma semana da eliminação traumática (porque a classificação foi possível) no torneio continental.
Mesmo com o revés contra os Ajacieden, que o fez perder a liderança da liga, o PSV continuou trabalhando. Não se desviou de seu estilo de jogo, calcado nos contragolpes e na rápida saída de bola ("transição", como se diz atualmente). Continuou sendo mais constante e seguro em campo do que o Ajax, que tinha ataque bom e defesa insegura. E a sorte ajudou quem merecia, na última rodada. Pelas circunstâncias, o bicampeonato holandês foi surpreendente. Mas repita-se: foi muito merecido.