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terça-feira, 9 de junho de 2026

Não era para ser assim

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha plenas condições de já se garantir na Copa do Mundo de 2027. Desnecessariamente, se colocou em dificuldades, e terá de jogar sua sorte na repescagem (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) chegou às últimas rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina de 2027 com a faca e o queijo na mão: bastariam duas vitórias para assegurar a vaga direta na competição, sem precisar da repescagem. Porém, as Leoas Laranjas, novamente, fizeram do jeito mais difícil: se jogaram bem na vitória final, os 3 a 1 na Polônia, ficou na memória a dura derrota por 3 a 2 para a Irlanda, na penúltima rodada, quando repetiram erros que se julgavam superados - lentidão, dificuldade de adaptação ao jogo, perda de chances - e perderam a condição de controlar o próprio destino nas Eliminatórias. Ficou a pesarosa impressão de que, por melhor que o time seja, não precisava ser assim.

Até porque já se sabia de antemão que o cenário do primeiro jogo seria adverso às holandesas: o estádio Páirc Uí Chaoimh teria suas dimensões diminuídas ao mínimo exigido pela FIFA, o gramado estaria afetado pelo mau tempo, a Irlanda mostraria o esforço e a força física de sempre (além do talento vindo de Katie McCabe). Mas as holandesas em campo pareceram ignorar tais problemas, com lentidão, com desatenção defensiva... tiveram o castigo rápido, aos 19', quando Lynn Wilms perdeu a bola para Abbie Larkin, esta passou a Kyra Carusa, e sua finalização, mesmo lenta, passou pela goleira Lize Kop para o 1 a 0 irlandês.

Mesmo lenta, a bola do primeiro gol da Irlanda passou pela goleira Lize Kop, considerada um dos "bodes expiatórios" da derrota por 3 a 2 (Brendan Moran/Sportsfile/Getty Images)

Só mesmo em desvantagem é que a Holanda começou a tentar. Vieram boas chances, como um cabeceio de Romée Leuchter que mandou a bola para fora, aos 23', ou um chute de Wieke Kaptein que mandou a bola na trave, pouco depois. Ainda assim, a lentidão e a pouca força nas disputas de bola mantinham as Leoas Laranjas abaixo no jogo, mesmo criando bem mais chances de ataque. Cenário pouco auspicioso, num ambiente que ganhava um fator complicador adicional: a fortíssima chuva que caiu sobre Cork no segundo tempo. Diante disso, entraram as veteranas: somaram-se a Dominique Janssen Daniëlle van de Donk e Jackie Groenen. Pois viria delas a efetividade. Jackie Groenen quase acertou, aos 65', num chute da entrada da área (a goleira Courtney Brosnan pegou). E aos 70', elas participaram da jogada do empate: Groenen recebeu a bola de Lineth Beerensteyn, foi derrubada por Aoife Mannion na área, pênalti marcado, e Dominique Janssen cobrou para o 1 a 1. 

Seria aliviante... se a Holanda não cometesse o pecado crônico da desatenção: Groenen era atendida e demoraria um minuto para voltar a campo - são as novas regras da FIFA -, Larkin recebeu cruzamento logo na saída de bola, superou Janssen na corrida e fez o 2 a 1 irlandês. Talvez o baque tivesse sido definitivamente superado com a excelente entrada de Victoria Pelova: vinda do banco, superando o terrível drama particular da morte da mãe no começo da semana, a meio-campista fez boa jogada individual para empatar. E a Holanda, cercando o ataque diante da fechada defesa irlandesa, seguia rondando o gol. Porém, num escanteio no minuto final, a defesa fracassou ao rebater a bola, um cruzamento, e a atacante Amber Barrett coroou a impressionante eficiência irlandesa: três arremates a gol, três gols, 3 a 2, o sonho holandês de manter a liderança do grupo virava queda para o terceiro lugar.

E pelo menos no primeiro tempo, as Leoas Laranjas passaram algum sufoco contra a Polônia. É verdade que tinham mais a posse de bola, e rondavam mais o ataque. Às vezes, até tentavam, como em dois chutes sequenciais, de Romée Leuchter e Lynn Wilms, logo aos 4'. Ainda assim, o espaço para contra-ataques era aproveitado por nomes como Paulina Tomasiak (que tentou o gol aos 17', com Lize Kop defendendo) e Ewelina Kamczyk, que arriscou chute de fora aos 27'. Pelo menos, a essa altura, a Holanda já tinha 1 a 0 no placar, graças a Wieke Kaptein, a melhor da partida em Almelo, que cabeceou para as redes o cruzamento de Esmee Brugts. Ainda assim, sem aproveitar as chances, o risco de empate existia. Está certo que a vitória não adiantaria para a vaga direta, já que a França vencia a Irlanda e garantia a liderança do grupo e a vaga direta na Copa. Mas tropeçar de novo seria pior.

Contra a Polônia, as Leoas Laranjas se recompuseram. E Kaptein se destacou na vitória por 3 a 1 (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Quase piorou para as neerlandesas, mesmo, aos 48', quando só o impedimento de Kamczyk causou a anulação do gol que marcaria o empate. Só então o time deslanchou. Se Kaptein seguia bem, Romée Leuchter enfim fazia boa atuação novamente vestindo laranja. Quase levou a um gol contra, aos 53', quando seu cruzamento levou a zagueira polonesa Oliwia Wos a "espirrar o taco". E enfim, aos 61', Leuchter fez o gol do desafogo holandês, em grande estilo, num belo voleio, após cruzamento de Kerstin Casparij.

Só aí a Holanda ficou leve em campo. Os espaços para atacar surgiram, com a Polônia aberta. Lineth Beerensteyn, por exemplo, quase fez seu gol, aos 73'. E Liz Rijsbergen, em sua segunda partida pelas Leoas Laranjas, conseguiu o terceiro gol, aos 81'. Nem mesmo o gol de honra polonês - Kamczyk, aos 83', de pênalti surgido de falta de Damaris Egurrola Wienke sobre Tomasiak - abalou as donas da casa em Almelo. Que deixaram claro: podem jogar bem, como se ouviu em quase todas as entrevistas pós-jogo. 

Além de jogar bem, será preciso ter mais atenção e competitividade em cenários adversos na repescagem de outubro. Porque a Holanda já poderia ter se livrado do trabalho de tentar a vaga na Copa do Mundo Feminina.

Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Irlanda 3x2 Holanda
Data: 5 de junho de 2026
Local: Páirc Uí Chaoimh (Cork)
Árbitra: Katalin Kulcsár (Hungria)
Gols: Kyra Carusa, aos 19', Dominique Janssen, aos 70', Abbie Larkin, aos 71', Victoria Pelova, aos 80', e Amber Barrett, aos 90'

IRLANDA
Courtney Brosnan; Aoife Mannion, Anne Patten, Caitlin Hayes, Megan Connolly (Saoirse Noonan, aos 85') e Chloe Mustaki; Abbie Larkin (Leanne Kiernan, aos 76'), Marissa Sheva, Ruesha Littlejohn (Jessica Ziu, aos 46') e Katie McCabe; Kyra Carusa (Amber Barrett, aos 76'). Técnica: Carla Ward

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Dominique Janssen e Janou Levels (Marisa Olislagers, aos 56'); Damaris Egurrola Wienke (Jackie Groenen, aos 56'), Wieke Kaptein (Victoria Pelova, aos 74') e Ella Peddemors (Daniëlle van de Donk, aos 56'); Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Liz Rijsbergen, aos 74') e Esmee Brugts. Técnico: Arjan Veurink


Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Holanda 3x1 Polônia
Data: 9 de junho de 2026
Local: Polman/Asito Stadion (Almere)
Árbitra: Fabienne Michel (Alemanha)
Gols: Wieke Kaptein, aos 24', Romée Leuchter, aos 61', Liz Rijsbergen, aos 81', e Ewelina Kamczyk, aos 83'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms (Kerstin Casparij, aos 60'), Veerle Buurman, Dominique Janssen (Renée van Asten, aos 46') e Marisa Olislagers; Damaris Egurrola Wienke, Wieke Kaptein e Daniëlle van de Donk (Victoria Pelova, aos 60'); Lineth Beerensteyn (Liz Rijsbergen, aos 75'), Romée Leuchter e Esmee Brugts. Técnico: Arjan Veurink

POLÔNIA
Kinga Seweryn (Kinga Szemik, aos 67'); Wiktoria Zieniewicz, Paulina Dudek, Oliwia Wos e Jagoda Cyraniak (Julia Walentowicz, aos 79'); Adriana Achcínska (Wiktoria Zawistowka, aos 46'), Patrycja Sarapata (Gabriela Grzybowska, aos 67') e Milena Kokosz; Paulina Tomasiak, Ewelina Kamcyzk e Nadia Krezyman (Claudia Macjaska, aos 67'). Técnica: Nina Patalon

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Duas gerações por uma vaga

A Holanda (ou os Países Baixos) está focada na Copa do Mundo masculina. Mas a seleção feminina, contando com as veteranas junto às novatas, está muito perto da vaga no Mundial feminino (KNVB/Divulgação)

Está certo que o foco, para quem acompanha futebol na Holanda (Países Baixos), já está na seleção masculina que caminha para disputar a Copa do Mundo, na América do Norte. Entretanto, um pouco do foco está na seleção feminina neerlandesa, também. Afinal de contas, a vaga direta na Copa do Mundo de 2027 está mais perto do que se pensava. Em primeiro lugar no grupo A2 das Eliminatórias Europeias, bastará que as Leoas Laranjas vençam Irlanda (sexta-feira, 5, às 15h45 de Brasília, na cidade irlandesa de Cork) e Polônia (próxima terça, 9, às 16h de Brasília, em Almelo) - no caso do jogo contra a Irlanda, uma vitória holandesa e outra da Polônia, contra a França, também resolve tudo por antecipação - para garantirem a vinda ao Brasil no ano que vem. E elas estão divididas claramente em duas gerações, na convocação para as duas decisões.

Se os grandes resultados contra a França nas duas rodadas passadas - vitória em 2 a 1 e empate por 1 a 1 - dependeram em grande parte das novatas (a estreante Renée van Asten na defesa; Wieke Kaptein no meio; Esmee Brugts no ataque), agora várias das veteranas estão de volta. E várias delas, superando problemas pessoais. Se Dominique Janssen retornou naturalmente ao se recuperar de lesão, Daniëlle van de Donk reconheceu o quanto a demora para voltar de problemas físicos no London City Lionesses, clube em que joga, a afetou mentalmente: "Na última vez [em que me machuquei], estava com minha esposa quando ouvi a notícia. Eu não aguentava mais, só queria chorar, foi muito duro, acho que foi o período mais duro da minha vida". Mesmo mais alegre, Jackie Groenen - também de volta à seleção - reconheceu os problemas com lesões no Paris Saint Germain: "Eu precisava passar tempo na academia, não entrava em campo. Então, isso me fazia sentir menos parte do grupo. Mas estou em forma, posso jogar". Além delas, também voltaram - e também podem jogar - Kerstin Casparij e Caitlin Dijkstra.

O técnico Arjan Veurink celebrou o retorno dos nomes experientes. Mas alertou, diante do ótimo resultado com as novatas contra a França: elas precisarão garantir a vaga (KNVB/Divulgação)

O técnico Arjan Veurink comemorou os retornos: "Experiência sempre é importante, que dirá para os jogos desta semana. Jogadoras acostumadas com partidas importantes podem ajudar. Daí, o valor de nomes como Van de Donk". Ao mesmo tempo, o treinador se valeu das grandes atuações das mais novas - e da boa fase delas, que o diga Veerle Buurman, eleita revelação da temporada na Inglaterra - para alertar: "Elas [veteranas] não estão todas garantidas de seus lugares, não importa o quanto sejam experientes". Além do mais, dois nomes importantes para as Leoas Laranjas ficarão fora dos jogos. Ainda sofrendo com dores renitentes no tornozelo, Daphne van Domselaar passou por cirurgia no local, e novamente desfalcará a Holanda (Países Baixos). E Vivianne Miedema, às voltas com problemas particulares - acompanha a mãe, em tratamento de problema de saúde -, falou com Arjan Veurink e foi liberada pelo próprio: "Se teve uma coisa que aprendi nos últimos anos, é que boa forma física e mental são importantes em jogos cruciais".

De fato, são jogos cruciais. Ainda mais a partida contra a Irlanda, nesta sexta: também podendo ter a vaga direta na Copa (está em terceiro lugar no grupo, com 6 pontos, só dois abaixo da Holanda), a equipe anfitriã conta com o destaque absoluto de Katie McCabe - a capitã fez cinco gols nos últimos sete jogos pelas irlandesas. Foi adversária dura nas rodadas de março, quando a Holanda só fez 2 a 1 nos minutos finais. E tentará impor seu jogo até em medidas pequenas, como reduzir as dimensões do estádio Páirc Uí Chaoimh, em Cork, ao mínimo exigido pela FIFA. O técnico Arjan Veurink minimizou tal medida ("Se elas acham que conseguem ganhar assim, tudo bem"), mas também manteve o alerta alto: "A Irlanda é um time com muita velocidade pelo meio, e muito difícil de ser superado quando recua". Parte de uma conclusão básica do técnico da Holanda: "Não há mais seleções pequenas, não na Europa. O que é ótimo, mostra como o futebol feminino se desenvolveu. Não há mais jogos fáceis".

Se é assim, é com as veteranas e as novatas que as Leoas Laranjas vão para as duas rodadas finais. Todas por uma vaga direta na Copa. Até para que continuem ouvindo elogios como os que o técnico ouviu de alguém que conhece bem: Sarina Wiegman, de quem foi auxiliar entre 2017 e 2025. "Ela tem achado a campanha ótima. Mandou uma mensagem e disse que está orgulhosa de mim".

As 23 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIRAS: Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING), Daniëlle de Jong (Juventus-ITA) e Regina van Eijk (Ajax)

DEFENSORAS: Lynn Wilms (Aston Villa-ING), Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Veerle Buurman (Chelsea),  Dominique Janssen (Manchester United-ING), Renée van Asten (Ajax), Ilse van der Zanden (Fiorentina-ITA), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE, se transferindo para o Tottenham Hotspur-ING), Janou Levels (Wolfsburg-ALE) e Marisa Olislagers (Brighton-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Damaris Egurrola Wienke (OL Lyonnes-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Victoria Pelova (Arsenal-ING), Ella Peddemors (Wolfsburg-ALE), Lotte Keukelaar (Real Madrid-ESP), Daniëlle van de Donk (London City Lionesses-ING), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA) e Nina Nijstad (PSV)

ATACANTES: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA), Esmee Brugts (Barcelona-ESP) e Liz Rijsbergen (PSV)

sábado, 18 de abril de 2026

Testadas e aprovadas

Com um time jovem, a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) se saiu muito bem contra a França, nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Até melhor do que as expectativas. Está na frente, na disputa pela vaga direta (Tobias Kleuver/ANP/Getty Images)

Com jogadoras tão jovens, tendo de substituir nomes de experiência indiscutível, seria até esperado ver a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) fraquejando nas duas partidas contra a França, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina. Só que a nova geração deu a impressão de que já está pronta. Deu ao técnico Arjan Veurink uma daquelas "dores-de-cabeça" de que todo treinador gosta. Porque várias jogadoras jovens aproveitaram a chance para se afirmar: de Veerle Buurman, na defesa, a Esmee Brugts, no ataque, passando por Wieke Kaptein e Damaris Egurrola Wienke, no meio. E tanto a vitória por 2 a 1, em casa, quanto o empate por 1 a 1 contra as francesas, fora, deixaram grande satisfação em quem acompanha o futebol de mulheres nos Países Baixos.

No primeiro jogo, em Breda, o começo deu a impressão de que as desatenções decisivas seguiriam: um erro de Veerle Buurman, e Marie-Antoinette Katoto ficou livre - perdeu o gol, mas de qualquer forma, estava impedida. Porém, aos poucos a Holanda ousou mais. Como num chute de Victoria Pelova, por cima do gol, aos 7'. Ou como no minuto seguinte, quando Esmee Brugts já deu o sinal do destaque ofensivo que teria, arriscando o gol chutando antes do meio-campo - a bola foi para fora. E finalmente, aos 11', uma jogada de bola parada foi aproveitada, consolidando um "conto de fadas": Lynn Wilms mandou a bola para a área, em falta, e Renée van Asten - justamente ela, justamente a estreante em convocações, justamente a titular pela primeira vez - completou para fazer 1 a 0 para as Leoas Laranjas. Os abraços de todas as companheiras de time, celebrando o gol de Van Asten, poderia ter sido um final feliz. Mas havia muito jogo pela frente.

Van Asten (de frente): a estreante viveu um conto de fadas no primeiro jogo contra as francesas, ao começar como titular e marcar o primeiro gol (Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto/Getty Images)

E neste jogo, aos poucos, a França ficou com a bola, como até esperado para um time tão ofensivo, com atacantes experientes. Porém, também se viu uma Holanda organizada defensivamente, como poucas vezes. Além das quatro defensoras escaladas, as meio-campistas retornavam frequentemente, com Damaris Egurrola sendo muito elogiada pela atenção e precisão nos desarmes. Era organização... mas também era risco. Por mais que a equipe dos Países Baixos resistisse, por mais que a França só houvesse criado uma chance de gol em todo o primeiro tempo (aos 26', Kadidiatou Diani cruzou e Katoto cabeceou para fora), era necessário ter uma saída para contra-atacar - até porque Wieke Kaptein, atenta no meio-campo, poderia acelerar a jogada para Brugts ou mesmo Lineth Beerensteyn. Ela não surgiu, e depois do intervalo, um azar de Daphne van Domselaar - de volta ao gol das Leoas Laranjas - abriu o caminho do empate francês, aos 54': Sandy Baltimore passou por Lynn Wilms na direita da área, chutou quase sem ângulo, mas a bola bateu na perna esquerda da goleira holandesa e entrou.

Noutros tempos, o empate teria aberto o caminho para a França crescer. Não abriu no primeiro jogo, porque Van Domselaar se recuperou da falha no gol, do melhor jeito possível: duas excelentes defesas, aos 61' (bloqueando chute de Diani à queima-roupa, após cruzamento de Anaële Le Moguedec) e aos 66' (Baltimore arriscou de fora da área, no ângulo). As Leoas Laranjas seguiam concentradas defensivamente. E num lance que uniu três das melhores holandesas em campo, veio o gol da vitória: Van Asten dominou e tocou, Kaptein lançou em profundidade, Brugts dominou, correu livre até a área e chutou cruzado para fazer 2 a 1. Com espaço aberto, os Países Baixos até poderiam ter feito o terceiro gol (aos 82', Wilms lançou, Chasity Grant completou, mas Griedge Mbock-Bathy conseguiu bloquear na pequena área). Ainda assim, conseguiram bloquear todo e qualquer espaço das francesas para chute. E após onze anos, festejaram em Breda a primeira vitória sobre as Azuis. Já era muita coisa. Poderia ser mais.

Para que fosse mais, a vitória seria necessária em Auxerre. Só que a França, novamente, começou pressionando desde o começo. A Holanda se ancorava demais em Brugts para acelerar suas (raras) tentativas de ataque - Lineth Beerensteyn só tentou algo aos 8', num cruzamento para fora. Pelo menos, houve uma boa chance das Leoas Laranjas, aos 11': Wieke Kaptein cruzou, Brugts finalizou de primeira (da entrada da área), e a goleira Pauline Peyraud-Magnin espalmou para fora. 

De todo modo, as francesas seguiam pressionando mais. Tiveram uma boa chance aos 16', quando Clara Matéo arriscou chute da entrada da área, e a bola só saiu após desvio em Brugts, para escanteio. Contudo, não só a defesa holandesa seguia bem postada, como aos poucos, havia espaço para Wieke Kaptein aparecer e tentar acelerar as saídas de bola para Brugts, ou Beerensteyn, ou mesmo para Romée Leuchter (das três atacantes, a que menos se destacou). Só aí a França decidiu voltar a usar uma de suas principais qualidades ofensivas: as bolas paradas. Assim conseguiu fazer 1 a 0, nos acréscimos do 1º tempo: após escanteio ensaiado, Sandy Baltimore - novamente com boa atuação - cruzou, e Marie-Antoinette Katoto cabeceou para as redes.

Pelo menos no começo do segundo tempo, a pressão francesa foi a mesma. Só que, na hora da finalização, na hora de acertar o gol, as Azuis perdiam chances. Foi assim com Grace Geyoro, logo aos 49'; com Sandy Baltimore, aos 61'; e com Sakina Karchaoui (fazendo 100 jogos pela seleção francesa), aos 74'. Por mais que a saída da Holanda para os contra-ataques tivesse sérias dificuldades - Beerensteyn caiu de produção no segundo tempo -, a França perdia suas chances de resolver a partida. Teve a punição.

Crescendo no decorrer do jogo, muito segura no meio-campo, capitã por alguns minutos (aos 20 anos de idade!): Wieke Kaptein se credenciou como líder das Leoas Laranjas (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Porque, aos 76', Élisa de Almeida transformou uma jogada que seria tiro de meta (a bola sairia pela linha de fundo após Brugts cruzar) em sequência. Brugts correu, dominou pela esquerda, cruzou, e Wieke Kaptein coroou um dia marcante em sua carreira - capitã das Leoas Laranjas aos 20 anos, após a substituição de Beerensteyn -, cabeceando ("Acho que foi meu primeiro gol de cabeça, sou ruim nisso", brincou com a ESPN holandesa) para empatar o jogo. O valioso ponto poderia ser posto a perder logo após o gol, aos 78', após a própria Kaptein errar na saída de bola, mas Geyoro mandou a bola no travessão. Cada vez mais nervosas, as francesas erraram a maioria dos ataques. E só tiveram chance numa jogada polêmica, já nos acréscimos, em que Renée van Asten puxou Mélvine Malard, que a pisou na área... e o suposto pênalti de Van Asten foi ignorado pela juíza italiana Maria Caputi.

Nada mais perturbaria os dois ótimos resultados, que deixaram a Holanda no controle de sua condição para ir à Copa do Mundo Feminina, em 2027, líder isolada que agora é de seu grupo. A impressão final era indiscutível: as jovens tinham sido testadas e aprovadas. Estão prontas para as partidas decisivas de junho, contra Irlanda (dia 5, fora de casa) e Polônia (dia 9, em casa), que valem a vaga no Mundial.

Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Holanda 2x1 França
Data: 14 de abril de 2026
Local: Rat Verlegh (Breda)
Árbitra: Marta Huerta de Aza (Espanha)
Gols: Renée van Asten, aos 11', Sandy Baltimore, aos 54', e Esmee Brugts, aos 67'

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Renée van Asten e Marisa Olislagers (Janou Levels, aos 60'); Victoria Pelova (Ella Peddemors, aos 69'), Damaris Egurrola Wienke e Wieke Kaptein; Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Chasity Grant, aos 60') e Esmee Brugts (Lotte Keukelaar, aos 90' + 1). Técnico: Arjan Veurink 

FRANÇA
Pauline Peyraud-Magnin; Melween N'Dongala (Kelly Gago, aos 87'), Griedge Mbock-Bathy, Maëlle Lakrar e Mélvine Malard (Clara Matéo, aos 78'); Sandy Baltimore, Anaële Le Moguedec e Oriane Jean-François (Grace Geyoro, aos 61'); Marie-Antoinette Katoto, Sakina Karchaoui (Naomie Feller, aos 87') e Kadidiatou Diani. Técnico: Laurent Bonadei


França 1x1 Holanda
Data: 18 de abril de 2026
Local: Abbé-Deschamps (Auxerre)
Árbitra: Maria Caputi (Itália)
Gols: Marie-Antoinette Katoto, aos 45' + 1, e Wieke Kaptein, aos 76'

FRANÇA
Pauline Peyraud-Magnin; Alice Sombath (Laurina Fazer, aos 85'), Élisa de Almeida, Griedge Mbock-Bathy e Sandy Baltimore; Grace Geyoro, Oriane Jean-François (Kelly Gago, aos 85') e Sakina Karchaoui; Clara Matéo (Delphine Cascarino, aos 61'), Marie-Antoinette Katoto (Mélvine Malard, aos 71') e Kadidiatou Diani (Thiniba Samoura, aos 61'). Técnico: Laurent Bonadei

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Renée van Asten e Janou Levels; Wieke Kaptein, Damaris Egurrola Wienke e Victoria Pelova; Esmee Brugts (Ella Peddemors, aos 90' + 2), Romée Leuchter (Chasity Grant, aos 46') e Lineth Beerensteyn (Lotte Keukelaar, aos 64'). Técnico: Arjan Veurink 


sexta-feira, 10 de abril de 2026

A hora da provação

Com a maioria das jogadoras veteranas fora da convocação por estarem machucadas, as jovens serão provadas nos difíceis jogos da Holanda (Países Baixos) contra a França, nas Eliminatórias da Copa Feminina (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Dominique Janssen, escolhida como capitã? Está fora, machucada. Daniëlle van de Donk, de volta? Nada: também lesionada. Vivianne Miedema? Novamente e lamentavelmente, com problemas físicos. Assim como Jackie Groenen e Jill Roord, também veteranas. Dias depois da apresentação das convocadas no centro de treinamentos da federação, na cidade de Zeist, Caitlin Dijkstra também foi cortada. E a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) terá várias jogadoras jovens - não necessariamente inexperientes, mas jovens - para se provarem justamente nos dois momentos mais cruciais de seu grupo nas Eliminatórias Europeias da Copa do Mundo Feminina de 2027: os jogos contra a França, considerada favorita à vaga direta, em casa (na próxima terça, 14, às 15h45 de Brasília, em Breda) e fora (no sábado, 18, às 16h10 de Brasília, na cidade francesa de Auxerre).

Ter tantas jogadoras importantes e experientes machucadas foi um fator obviamente lamentado pelo técnico Arjan Veurink, na entrevista coletiva da quarta-feira passada: "Toda vez que a médica da comissão me telefonava, eu me arrependia de atender. O fato de perdermos nomes experientes e precisarmos de novas convocações fala por si. Mas tento seguir calmo, e manter o foco nas jogadoras que estão aqui, porque isso abre espaço para elas". E Veurink repetiu uma queixa feita muitas vezes por seu antecessor, Andries Jonker: o perigo de lesões a que o suposto excesso de jogos leva. "Há jogadoras que, a estas alturas, já jogaram mais minutos do que na temporada passada inteira. O calendário está se desenvolvendo muito rápido (..) Temos pouca influência nisso. Precisamos ser ouvidos, porque é pelo bem estar das jogadoras. Não que não nos ouçam, mas podemos ser mais ouvidos".

De todo modo, antes mesmo das ausências (ou até por causa delas), Veurink abre caminho para mais jovens nas convocações. Como duas estreantes nelas, a defensora Renée van Asten, do Ajax - joga como zagueira, mas pode ser colocada na lateral esquerda - e a atacante Liz Rijsbergen, do PSV (ainda estreia a zagueira Linde Veefkind, do OH Leuven belga, chamada com o corte de Dijkstra). Van Asten mostrou o tamanho de sua alegria com uma frase na chegada: "É realmente uma sensação maravilhosa. Quando recebi a ligação do técnico, atendi com a mão tremendo. Foi incrível. Ainda é difícil acreditar, mas estou muito grata". Já Rijsbergen, um pouco mais experiente, vinda de passagem pelo Twente para o PSV líder da liga holandesa feminina, foi mais serena em sua celebração: "Claro que é um sonho realizado. Ao ver que estou indo bem, só me dá mais autoconfiança".

Porém, se há jogadoras jovens estreantes, há outras que, mesmo ainda com tempo pela frente, já começam a ocupar lugar de destaque por força das lesões. Será o caso de Veerle Buurman: cada vez mais elogiada por suas atuações no Chelsea, a zagueira deve ter papel importante nos jogos contra as francesas. Aliás, segundo Buurman opinou à ESPN holandesa, o peso está nas próprias partidas em si: "Acho que são os jogos mais importantes sob o novo técnico, até agora. A França é uma das principais seleções que se tem". Outra jovem que já tem grande experiência pelas Leoas Laranjas, Esmee Brugts, ainda mantém reservas quanto a ser uma líder: "Não sou muito de falar, prefiro deixar que meus pés falem por mim". Mas reconheceu que sua importância e suas condições cresceram, com a boa fase que vive no Barcelona: "Fui escalada três vezes, e nas três joguei os noventa minutos [em sequência de três jogos do Barcelona contra o Real Madrid, por Liga dos Campeões e Campeonato Espanhol feminino]. É pesado. Mas estou um pouco mais forte para isso".

Em boa fase no Barcelona, Esmee Brugts pode ser uma das líderes, muito embora se defina como de poucas palavras (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

É com Brugts e com outras "jovens experientes" em ótima fase, como a goleira Daphne van Domselaar (ficou um dia sem treinar, adoentada, mas já voltou aos treinos e já está em ritmo de jogo no Arsenal), a lateral direita Lynn Wilms (em grande momento no Aston Villa) e a atacante Romée Leuchter (ainda no Paris Saint-Germain, mas já cogitada em outros clubes competitivos), que as Leoas Laranjas contam para tentarem superar as más memórias de jogos recentes contra a França, como Brugts reconheceu, lembrando os 5 a 2 pespegados pelas francesas que selaram a eliminação na fase de grupos da Euro feminina passada. Até porque Arjan Veurink sinalizou confiança: "Quero mostrar a essas jogadoras que também podemos desafiar a França com este grupo". Pois bem: é a hora da provação para todas elas.

As 24 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIRAS: Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING), Daphne van Domselaar (Arsenal-ING) e Daniëlle de Jong (Juventus-ITA)

DEFENSORAS: Lynn Wilms (Aston Villa-ING), Veerle Buurman (Chelsea), Linde Veefkind (OH Leuven-BEL), Ilse van der Zanden (Fiorentina-ITA), Marisa Olislagers (Brighton-ING), Janou Levels (Wolfsburg-ALE) e Renée van Asten (Ajax)

MEIO-CAMPISTAS: Damaris Egurrola Wienke (OL Lyonnes-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Victoria Pelova (Arsenal-ING), Ella Peddemors (Wolfsburg-ALE), Lotte Keukelaar (Real Madrid-ESP), Lynn Groenewegen (Twente), Kayleigh van Dooren (Milan-ITA) e Nina Nijstad (PSV)

ATACANTES: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Chasity Grant (Aston Villa-ING) e Liz Rijsbergen (PSV)

segunda-feira, 9 de março de 2026

Começaram as dificuldades

Após o respiro dos amistosos, a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) teve seus problemas nas primeiras rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina. Mas até que se saiu bem (Marcel Bonte/Soccrates/Getty Images)

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha começado bem sua passagem sob o comando do novo técnico, Arjan Veurink, com um empate e três vitórias nos quatro amistosos que fecharam o turbulento 2025. Mas se sabia: as duas primeiras rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina, nestas datas FIFA, é que mostrariam o grau de dificuldade a ser encarado pela equipe. E o grau foi relativamente grande. De todo modo, se é para animar, a equipe neerlandesa de mulheres conseguiu superá-lo. Se não no empate em 2 a 2 contra a Polônia, certamente na vitória por 2 a 1 sobre a Irlanda.

Para que as dificuldades começassem, praticamente bastou a bola rolar na Plus Arena de Gdansk, para a estreia nas Eliminatórias, na terça passada, contra a Polônia. Pressionando a saída de bola, a seleção da casa colocou as holandesas em dificuldades (como até já fizera no amistoso em 0 a 0 entre ambos). Tanto que, aos 8', teve a primeira chance, com Tanja Pawollek cabeceando a bola no travessão. E aos 24', coube a quem poderia trazer mais perigo fazer 1 a 0: Ewa Pajor pressionou na esquerda, roubou a bola de Vivianne Miedema, superou a marcação de Caitlin Dijkstra, chegou à área e bateu forte, no ângulo de Lize Kop - seguindo titular no gol, mesmo com a volta de Daphne van Domselaar. Com a primeira chance real de gol só vindo aos 34' (chute de Jill Roord, defendido pela goleira Kinga Szemik), a Holanda voltava a passar dificuldades. Que só não foram maiores por causa do empate, pouco antes do intervalo: num escanteio mal rebatido, Damaris Egurrola Wienke ajeitou, e Veerle Buurman bateu para o 1 a 1. 

Na estreia pelas Eliminatórias, as Leoas Laranjas até mostraram capacidade ofensiva, mas a defesa teve dificuldades contra a Polônia no empate em 2 a 2 (Mateusz Slodkowski/UEFA/Getty Images)

O empate após primeiro tempo tão problemático deu tranquilidade para que certos erros fossem corrigidos - como a entrada de Lynn Wilms, melhor defensivamente, no intervalo, para a lateral direita. E melhor ainda foi ver a virada logo nos primeiros lances do segundo tempo: com apenas dois minutos de bola voltando a rolar, Lineth Beerensteyn deu a bola para que Jill Roord fizesse 2 a 1, chutando da entrada da área. O que não quer dizer que as Leoas Laranjas se impuseram definitivamente. A defesa seguiu dando espaços dentro da área, e as chances contrárias apareciam: Ewelina Kamczyk teve chute bloqueado por Wilms, e Ewa Pajor cabeceou a bola no travessão (outra vez!) aos 55'. Aos poucos, a pressão polonesa amainou, nomes como Jackie Groenen entraram, os Países Baixos até tiveram suas chances (Miedema forçou a defesa de Szemik, aos 71'), a vitória parecia assegurada... até novo erro render o empate, a seis minutos do fim: Roord perdeu a bola, Kamczyk e Paulina Tomasiak tabelaram no meio da defesa, Tomasiak driblou Lize Kop e fez 2 a 2. 

Era uma dor de cabeça que precisaria ser neutralizada no jogo do sábado, contra a Irlanda - que perdeu por 2 a 1 para a França em sua estreia, mas fez jogo duro. E também começou fazendo jogo duro em Utrecht: dois cruzamentos (um escanteio aos 4', e um cruzamento com bola rolando, aos 7'), dois cabeceios de Caitlin Hayes, e a bola passou perto do gol em ambos. Além do mais, as irlandesas faziam o esperado: se fechavam na defesa, evitando as trocas de passes holandesas. Restavam chutes de fora da área, como o de Wieke Kaptein, aos 9', que passou rente à trave. Ou uma jogada individual, como a que Lineth Beerensteyn tentou aos 10', vindo pela esquerda, entrando na grande área e demorando para finalizar, com a goleira Courtney Brosnan pegou. Só aos 20 minutos é que houve espaço para troca de passes. E saiu o gol das Leoas Laranjas: Jill Roord passou, Lynn Wilms cruzou, e Beerensteyn completou na pequena área. Podia não ser uma superioridade tão grande, mas era uma superioridade.

A Irlanda se protegeu em sua defesa, e coube a Beerensteyn (centro) aparecer de novo para garantir a primeira vitória neerlandesa na qualificação (Sonny Lensen/ANP/Getty Images)

Que passou a correr riscos quando a Irlanda conseguiu uma chance: após falta cobrada para a área, a goleira Lize Kop saiu do gol, acertou a zagueira Anna Patten, e o pênalti foi marcado - talvez com certo exagero, mas foi marcado. Destaque absoluto das visitantes, a capitã Katie McCabe cobrou, fez 1 a 1 aos 50', e seria duro para os Países Baixos conseguirem voltar à frente do placar. Não que não tentassem: Romée Leuchter cobrou falta aos 54' (Brosnan pegou), novamente a dupla Roord-Wilms funcionou na direita, com esta cruzando para Vivianne Miedema perder boa chance aos 58'. Só que a Irlanda estava muito bem postada defensivamente. Até que, a oito minutos do fim do tempo regulamentar, um escanteio cobrado, e Beerensteyn novamente apareceu quando era necessário: Brosnan rebateu na primeira trave, a atacante se virou e aproveitou a sobra para fazer 2 a 1.

Ou seja: mesmo com dificuldades, a Holanda conseguiu se manter invicta, conseguiu vencer, conseguiu ocupar o segundo lugar de seu grupo nas Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina. De certa forma, cumpriu o que o técnico Arjan Veurink esperava: "Na semana passada, falamos sobre controlar os jogos. Cumprimentei a equipe por isso. Futebol bonito não conta tanto, mas os resultados contam". A ver se os resultados virão nas rodadas de abril, com os dois jogos contra a França, favorita do grupo. Se vierem, a Copa fica mais perto...

Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Polônia 2x2 Holanda
Data: 3 de março de 2026
Local: Plus Arena (Gdansk)
Árbitra: Ivana Projkovska (Macedônia do Norte)
Gols: Ewa Pajor, aos 24', Veerle Buurman, aos 44', Jill Roord, aos 47', e Paulina Tomasiak, aos 84'

POLÔNIA
Kinga Szemik; Wiktoria Zieniewicz, Oliwia Wos, Paulina Dudek e Martyna Wiankowska; Adriana Achcinska, Ewelina Kamczyk (Gabriela Grzybowska, aos 90') e Tanja Pawollek (Milena Kokosz, aos 66'); Nadia Krezyman (Weronika Zawistowska, aos 66'), Ewa Pajor e Paulina Tomasiak (Natalia Padilla, aos 90' + 3). Técnica: Nina Patalon

HOLANDA
Lize Kop; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 46'), Veerle Buurman, Dominique Janssen e Caitlin Dijkstra; Damaris Egurrola Wienke (Jackie Groenen, aos 62'), Vivianne Miedema e Wieke Kaptein; Jill Roord, Lineth Beerensteyn (Romée Leuchter, aos 74') e Esmee Brugts (Chasity Grant, aos 62'). Técnico: Arjan Veurink 


Holanda 2x1 Irlanda
Data: 7 de março de 2026
Local: De Galgenwaard (Utrecht)
Árbitra: Frida Klarlund (Dinamarca)
Gols: Lineth Beerensteyn, aos 20' e aos 82', e Katie McCabe, aos 50'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Dominique Janssen e Marisa Olislagers; Wieke Kaptein (Jackie Groenen, aos 65'), Vivianne Miedema (Chasity Grant, aos 90' + 1) e Damaris Egurrola Wienke; Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Daniëlle van de Donk, aos 65') e Jill Roord (Esmee Brugts, aos 65'). Técnico: Arjan Veurink 

IRLANDA
Courtney Brosnan; Aoife Mannion, Caitlin Hayes, Anna Patten e Chloe Mustaki; Marissa Sheva (Saoirse Noonan, aos 90' + 1), Megan Connolly e Katie McCabe; Emily Murphy, Kyra Carusa  (Abbie Larkin, aos 84') e Lucy Quinn (Amber Barrett, aos 65'). Técnica: Carla Ward

sábado, 28 de fevereiro de 2026

À espera da confirmação

As expressões no treino podem até ser sérias, mas a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) está de bem com a vida. E quer provar isso no começo das eliminatórias da Copa (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Foram só quatro jogos amistosos, no fim do ano passado. Mas vencer três deles, tomar só um gol neles (para uma seleção que sempre teve a defesa como seu ponto fraco... é algo notável), mostrar o nascimento de algum entrosamento aqui e ali, superar seleções de algum respeito como Canadá e Portugal, enfim, tudo isso serviu para trazer de volta uma boa impressão em torno da seleção feminina da Holanda (Países Baixos). Mas amistosos apenas amistosos são. E a melhor confirmação de que as Leoas Laranjas entraram em novos tempos sob o técnico Arjan Veurink viria com atuações categóricas nas primeiras datas FIFA de mulheres neste 2026, abrindo as eliminatórias da Copa de 2027, contra Polônia - dia 3 de março, na cidade polonesa de Gdansk, às 14h de Brasília - e Irlanda - 7 de março, às 16h45 de Brasília, em Utrecht.

Nesse começo da caminhada para tentar garantir uma vaga no Mundial a ser sediado no Brasil, há dois reforços que havia muito tempo não vestiam laranja. Uma delas, talvez, nem vestisse mais: era a possibilidade mais forte. Mas Daniëlle van de Donk aproveitou um fato (a homenagem a ser feita a ex-jogadoras da seleção holandesa, como Sherida Spitse e Lieke Martens, após o jogo contra a Irlanda) para anunciar seu retorno, com uma brincadeira: "Como vocês sabem, algumas das ex-jogadoras estarão em Utrecht para uma despedida. Eu também estarei... mas não é para me despedir!". Pois é: aos 34 anos - completará 35 em 5 de agosto -, recuperada de lesão que atrapalhou seus primeiros tempos no London City Lionesses, Van de Donk se colocou à disposição de Arjan Veurink para as convocações. 

Van de Donk "desistiu de desistir": uma conversa com o técnico Arjan Veurink bastou para que a veterana meio-campista decidisse seguir nas Leoas Laranjas (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Falando mais seriamente, na data da convocação, "Daantje" justificou: "Acho que ainda há algo especial que posso dar para este time". Sem sinalizar se ela ficará mais no banco ou jogará, Veurink celebrou: "Estou muito feliz por ela estar no grupo. Depois da Euro [2025], conversamos, ela estava machucada, e decidimos esperar para conversar de novo, até ela se recuperar. Isso aconteceu, nos falamos, e ela está se recuperando, está voltando a ter ritmo de jogo". Na coletiva de apresentação, no centro de treinamentos da federação, a meio-campista se aprofundou: "O foguinho se acendeu de novo em mim. É bom demais [estar na seleção] para já encerrar tudo. Deixei minhas colegas quietas, senão é claro que elas diriam que eu deveria voltar, e isso nunca é um bom conselho. Você deve se focar em você: é isso mesmo que quer?". Arjan Veurink facilitou: "Fomos abertos e honestos um com o outro. Estou feliz que o 'fogo' dela esteja aceso de novo, é sempre bom contar com alguém com as qualidades dela".

Outro nome importante a retornar é Daphne van Domselaar. Enfim livre das dores de um tendão no tornozelo, lesão que dificultou a sua situação desde antes da Euro ("Uma lesão assim não se cura antes de algumas semanas. E continua causando atenção, mas agora estou me sentindo bem, completamente pronta para estar aqui"). Voltando a ter ritmo de jogo - e alguma segurança, após falhas aqui e ali - no Arsenal, Van Domselaar chega com Lize Kop tendo sido titular nos primeiros amistosos sob Arjan Veurink. Mas a titular habitual do gol das Leoas Laranjas não só demonstrou boa impressão do clima entre as convocadas, à ESPN holandesa ("Ouvi boas histórias das outras, e mal posso esperar para estar nos jogos e viver isso"), como também mostrou tranquilidade sobre qual será a goleira titular ("Lize está indo bem, então, dependerá do treinador").

Van Domselaar é outro retorno para a seleção neerlandesa de mulheres (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Mas é possível que seja Vivianne Miedema o grande símbolo da impressão promissora que causa a seleção feminina neerlandesa. Até porque, depois de muitos anos de lesões, enfim ela retoma o ritmo de jogo, enfim ela retoma as boas atuações (agora, jogando mais recuada, como uma "camisa 10"), enfim ela retoma o brilho no Manchester City, em que renovou seu contrato até 2027. E a capitã das Leoas Laranjas comemora tudo isso, também à ESPN NL: "Eu me sinto em forma, posso jogar bastante e estou nos campos com um sorriso no rosto. Isso é o mais importante. Sinto que posso ajudar em algo de novo". Vieram elogios ao novo técnico ("Arjan [Veurink] nos traz experiência. Ele teve muito sucesso, tanto como auxiliar técnico aqui, como depois na Inglaterra. Acho muito bacana ver o crescimento pessoal dele ao longo dos anos"). E vieram até palavras amenas sobre como prefere jogar, se como atacante - Miedema fez quatro gols no amistoso contra a Coreia do Sul, vale lembrar - ou como meia ("Antes das lesões eu só jogava como atacante, no City jogo de '10' ou até mais recuada (...) Eu disse ao Arjan 'pode me escalar onde você quiser', a escolha é dele").

Nem mesmo uma polêmica em potencial tirou a paz do grupo de convocadas. Principalmente das veteranas, mais relacionadas ao fato: em sua autobiografia, Open Kaart ("Cartão aberto", em holandês), lançada nesta semana, Sherida Spitse contou que uma convocada da Holanda na Euro feminina passada - nome não revelado - levou ao técnico daquela vez, Andries Jonker, críticas sobre ela e Van de Donk. Envolvida na história, esta reconheceu ("Sabia que meu nome estaria no livro"), mas fez questão de deixar tudo no passado ("Por mim, isso não precisava vir para a mídia. Tem coisas que acontecem num grupo, e se resolvem internamente. Aí você deixa para lá, e segue em frente. Nem penso mais nisso"). Arjan Veurink foi compreensivo ("Sempre há chateadas no grupo, porque você trabalha com 23 jogadoras, 22 integrantes na comissão... sempre tem algo, mesmo quando está tudo bem. Mas o que aconteceu no passado não me importa"). E Miedema encerrou de vez ("A gente reconhece que a Euro foi ruim, foi difícil. Mas o grupo atual combinou manter tudo entre quatro paredes. É começar de novo").

Então, neste começo, as Leoas Laranjas esperam confirmar a boa impressão que os amistosos de 2025 passaram. Para isso, vencer Polônia e Irlanda já será de grande serventia.
 
As 23 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIRAS: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING) e Daniëlle de Jong (Juventus-ITA)

DEFENSORAS: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Aston Villa-ING), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE), Veerle Buurman (Chelsea-ING), Janou Levels (Wolfsburg-ALE), Ilse van de Zanden (Fiorentina-ITA) e Marisa Olislagers (Brighton-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Daniëlle van de Donk (London City Lionesses-ING), Victoria Pelova (Arsenal-ING), Damaris Egurrola Wienke (OL Lyonnes-FRA), Ella Peddemors (Wolfsburg-ALE), Wieke Kaptein (Chelsea-ING) e Nina Nijstad (PSV)

ATACANTES: Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Jill Roord (Twente), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA) e Chasity Grant (Aston Villa-ING)

sábado, 22 de novembro de 2025

1978-1988: a década quase perdida da Laranja

O atacante Van Loen deixa o gramado de De Kuip após a queda da Holanda (Países Baixos) na repescagem das eliminatórias da Copa de 1986: entre 1978 e 1988, várias decepções e azares (Alamy)

Certo, na Copa de 1978 a seleção da Holanda já não era a mesma que marcara época no vice-campeonato mundial de 1974. Ainda assim, a campanha que terminou em outra segunda colocação, após a derrota para a Argentina na decisão, rendia alguma honra, e sinalizava que a seleção batava chegara ao grupo das equipes nacionais prestigiosas – e era para ficar.

Pelo menos, era o que parecia. Porque, entre o 25 de junho de 1978 em que se jogou a final da Copa do Mundo no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, e o 25 de junho de 1988 em que ganhou seu único título de vulto (a Euro, no Estádio Olímpico de Munique), a equipe masculina dos Países Baixos viveu exatamente dez anos cheios de decepções, de esperanças frustradas – algumas, de maneira até incrível. Hora de ver o que ocorreu nesse hiato.

A Laranja até foi à Euro 1980, mas entre o envelhecimento da geração "Futebol Total" e novas promessas que não embalavam, ficou na fase de grupos. Era o começo da queda. Aqui, a foto do time na derrota por 3 a 2 para a Alemanha Ocidental, na Euro. Em pé, Schrijvers, Krol, Van de Korput, Stevens, Hovenkamp eWijnstekers. Agachados: Rep, Rene van de Kerkhof, Kist, Willy van de Kerkhof e Haan (ProShots).

1978-1980: uma troca confusa de gerações

Logo após a Copa do Mundo, uma troca foi oficializada: o auxiliar técnico Jan Zwartkruis virou o treinador principal da Holanda, sucedendo o austríaco Ernst Happel – que só fora treinar a Laranja durante a Copa, aliás. Antigo comandante da seleção neerlandesa das Forças Armadas, Zwartkruis já teria de começar o trabalho no fim de 1978, com o início das eliminatórias para a Eurocopa. Ainda teria à disposição a geração que começava a envelhecer (Ruud Krol, os Van de Kerkhof, Willem van Hanegem, Arie Haan, Johnny Rep, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink), mas poderia convocar jovens promissores – como o atacante Jan Peters, do AZ.

A Holanda começou impondo respeito, num grupo acessível na qualificação: em três jogos, três vitórias (contra Islândia, Suíça e Alemanha Oriental). Porém, quando encarava adversários mais fortes em amistosos, fraquejava. Foi assim no jogo derradeiro de 1978, quando caiu para a Alemanha Ocidental (3 a 0). Foi assim na primeira partida da Laranja em 1979 (outro revés por 3 a 0, para a Itália, também num amistoso). Se os problemas fossem só em jogos amigáveis, tudo bem. Mas uma queda para a Polônia, única adversária mais forte nas eliminatórias da Euro (2 a 0, na quinta rodada), acendeu o sinal amarelo. Que quase ficou vermelho com as defecções que vinham entre velhos conhecidos: Van Hanegem, Rensenbrink e Neeskens tiveram suas últimas partidas vestindo a camisa alaranjada naquele 1979, e Arie Haan decidira deixar a seleção, sentindo-se desprestigiado por Zwartkruis - e expondo isso numa carta aberta.

Só restavam as convocações de mais novidades: o lateral direito Ben Wijnstekers, o zagueiro Michel van de Korput, o atacante Simon Tahamata (guarde este nome). Parecia insuficiente: um empate contra a Polônia, na penúltima rodada das eliminatórias da Euro – 1 a 1 -, deixava a Holanda na segunda colocação do grupo 4. Se não vencesse a Alemanha Oriental, na última rodada, em Leipzig, em 21 de novembro de 1979, a vice-campeã mundial estaria fora do torneio continental a ser sediado na Itália.

Em 33 minutos, os germânicos do lado leste fizeram 2 a 0. Pior, muito pior: após um entrevero em campo, ainda antes do intervalo, cada equipe ficou com um homem a menos (pela Holanda, Tshen La Ling levou o cartão vermelho; pela Alemanha Oriental, Konrad Weise). Pois bem: diante daquela decepção que se delineava, Simon Tahamata chamou a responsabilidade. Logo após as expulsões, também ainda no primeiro tempo, ele fez a jogada com que Frans Thijssen diminuiu o placar, para 2 a 1. Na etapa final, a Holanda foi à frente, carregada pelos dribles de Tahamata. Coube a um atacante sem presença em Copas do Mundo mas recheado de respeito no futebol europeu – Kees Kist, presente na Euro 1976, Chuteira de Ouro europeia – empatar o jogo, já aos cinco minutos do segundo tempo. E aos 25 minutos, Willy van de Kerkhof marcou o gol da virada. Graças ao “Milagre de Leipzig”, como a imprensa celebrou no dia seguinte, a Holanda estava na Euro 1980.


Mas quando enfim chegou a hora do torneio para valer, as pequenas fissuras vistas sob Zwartkruis ficavam maiores. Certo, Arie Haan se reconciliara com o treinador e voltara à seleção. Mas os mais experientes tinham pequenos estranhamentos com os mais novos – por exemplo, entre os goleiros, o titular Piet Schrijvers (34 anos) e o reserva Willem “Pim” Doesburg (37 anos) tinham um comportamento áspero com o terceiro arqueiro convocado para a Euro, Hans van Breukelen (chegando à Laranja, aos 24 anos). Alguns outros se perdiam com as questões das próprias carreiras: Van de Korput, por exemplo, concluiu a transferência para o Torino no aeroporto em que embarcaria para a Itália.

Não deu outra: a Holanda chegou ao certame europeu sem brilho. Na estreia pela Euro, contra a Grécia, um insípido 1 a 0 (gol de pênalti de Kees Kist). No jogo seguinte, num clássico contra a Alemanha Ocidental, o placar de 3 a 2 foi enganoso: naquela que foi a primeira partida de Lothar Matthäus pela seleção germânica, Klaus Allofs roubou a cena, marcando três gols e simbolizando o domínio dos alemães. Nos últimos dez minutos, Rep e Willy van de Kerkhof até diminuíram, mas o nervosismo neerlandês impressionou negativamente.


A derrota deixava dificuldades. Mas ainda se podia chegar até a decisão: seria questão de vencer a Tchecoslováquia, e esperar que a Alemanha Ocidental tropeçasse contra a Grécia. Este tropeço veio (0 a 0), mas a Holanda nunca passou perto de poder vencer os tchecos, que saíram na frente. Kist até empatou, mas a igualdade por 1 a 1 foi o ponto final da Holanda naquela Euro. Uma campanha esquecível. Que indicava os tempos duros que estavam vindo.

1980-1982: de volta ao passado

Tão logo começou a campanha para as eliminatórias da Copa de 1982, com boa parte dos nomes dos anos 1970 deixados de lado, vieram duas derrotas por 1 a 0, para Irlanda e Bélgica, no grupo 2. Mal visto pelos veteranos que ainda persistiam (como Ruud Krol), desprestigiado pelos mais novos, Jan Zwartkruis ficava em situação periclitante. Às pressas, ainda teve de comandar a Holanda no Mundialito da virada de ano – com a recusa da Inglaterra em participar do torneio com campeões mundiais no Uruguai, a Laranja foi convidada e viajou, ainda que sob protestos de entidades da sociedade civil, queixosas de ver a seleção ir a um país que estava sob o governo ditatorial de Juan María Bordaberry.

Em campo, Zwartkruis apostou na base do AZ que furaria o domínio do trio Ajax-PSV-Feyenoord para ser campeão holandês em 1980/81: o zagueiro Ronald Spelbos, o meio-campo Hugo Hovenkamp, os supracitados Jan Peters e Kist. Não adiantou: duas derrotas para Uruguai e Itália, ambas por 2 a 0. E o Mundialito foi o ponto final para Jan Zwartkruis, demitido da seleção tão logo a delegação retornou do Uruguai.

Após um respiro nas eliminatórias da Copa (3 a 0 no Chipre, na terceira rodada, sob o comando do interino Rob Baan), a federação holandesa ganhou algum tempo para escolher o novo técnico. A opção recaiu sobre Kees Rijvers, elogiado pelo trabalho nos oito anos (1972 a 1980) que catapultaram o PSV à posição de clube grande na Holanda e na Europa. Com uma mudança notável – trazer de volta à seleção, após três anos, o meio-campo Arnold Mühren -, Rijvers viu um primeiro jogo altamente promissor: vitória por 1 a 0 sobre o adversário mais forte no grupo 2 das eliminatórias da Copa, a França, na quarta rodada, em 25 de março de 1981.

Com Kees Rijvers como técnico, a Laranja teve grupo muito equilibrado nas eliminatórias da Copa de 1982. Em decadência, tentou recuperar Cruyff, até trouxe Neeskens de volta, mas ficou de fora, vendo Bélgica e França garantirem vaga no Mundial. Na foto, o time que venceu a França por 1 a 0. Em pé, Schrijvers, Krol, Thijssen, Hovenkamp e Ophof. Agachados: Rene van de Kerkhof, Willy van de Kerkhof, Poortvliet,Peters, Mühren e Rep (Gerard Bedeau/Onze/Icon Sport/Getty Images)

O que não queria dizer que os problemas tinham se acabado. Naquela partida de estreia, Kees Rijvers pensou em convocar... Johan Cruyff, já ausente da seleção havia quatro anos, tentando retomar a carreira após rapidíssima passagem pelo Levante espanhol (e até um jogo fugaz, pelo Milan, num torneio amistoso). Cruyff até topou conversar. Mas logo colocou suas condições: só aceitaria a convocação se pudesse vestir roupas da Cruyff Court, sua marca de material esportivo, e não da Adidas, empresa patrocinadora da federação holandesa. A condição aborreceu Rijvers, que deixou a ideia do retorno de lado.

Na quinta rodada das eliminatórias, outro triunfo sobre o Chipre (1 a 0, com gol de uma aposta de Kees Rijvers – o atacante Kees van Kooten, 32 anos, do Go Ahead Eagles). Aí viriam três jogos decisivos para tentar a vaga na Copa: nas rodadas derradeiras da qualificação, seriam enfrentados justamente os adversários mais fortes – Irlanda, Bélgica e França. Contra a Irlanda, nem um ataque experiente (Johnny Rep, Ruud Geels e Van Kooten) evitou um tropeço: empate por 2 a 2, em Roterdã. Então, Kees Rijvers tentou atrair mais um veterano para voltar à Laranja. Desta vez, conseguiu: mesmo em queda física e técnica no New York Cosmos, mesmo até sofrendo com a bebida naquele momento de sua vida, Johan Neeskens, 30 anos em 1981, aceitou ser convocado, para ser um nome de referência no meio-campo, nas “decisões” contra Bélgica e França.

Pressionado nas Eliminatórias da Copa de 1982 - a bem da verdade, em toda a sua passagem -, o técnico Kees Rijvers (à esquerda) até convenceu Neeskens para uma volta fugaz à Laranja. Não adiantou (Fotocollectie Anefo)

Contra os belgas, na penúltima rodada, num time que tinha veteranos (Krol, Neeskens, Johnny Rep) a nomes mais novos que ganhavam espaço (o goleiro Van Breukelen, o zagueiro John Metgod), um triunfo promissor: 3 a 0 em Roterdã. A Holanda ia para a segunda posição do grupo 2, com nove pontos. Assim iria ao Parc des Princes, em Paris, para enfrentar a França, na última rodada, em 18 de novembro de 1981. Se vencesse, abriria quatro pontos de vantagem para os franceses, e se garantiria na Copa de 1982.


A seleção neerlandesa suportou a pressão dos Bleus. Até os seis minutos do segundo tempo. Falta na entrada da área: Michel Platini foi cobrar, e Van Breukelen descobriu o seu canto, para ficar mais avançado. Foi nesse átimo de desatenção que Platini bateu: bola no ângulo, França 1 a 0. Aquele lance deu a má indicação aos Países Baixos: a Holanda ficaria de fora do Mundial. Partindo para o ataque, ela deixou espaços aos franceses. Num contra-ataque, aos 35 minutos, Didier Six fez 2 a 0. A tentativa de trazer os veteranos de volta fracassara: Bélgica e França foram à Copa, e os Países Baixos amargaram o quarto lugar do grupo. Era a volta a um passado sem Mundiais.

1982-1984: pareceu piada, pareceu mutreta, mas foi só azar para os jovens

No meio dos veteranos que voltaram para ajudar, pouca gente notou, mas Kees Rijvers começou a fazer o que mais gostava em sua carreira de técnico: revelar jovens jogadores. Com isso, começou indiretamente a dar espaço a nomes que acabariam com o hiato vivido pela Laranja. Um jogo simboliza isso: num amistoso contra a Suíça (que venceu por 2 a 1, em 1º de setembro de 1981), estrearam dois jovens que eram amigos de infância, no bairro de Jordaan, em Amsterdã. Um deles já era volante pelo Ajax: Frank Rijkaard, 19 anos. O outro era atacante, no Haarlem: Ruud Gullit, também 19 anos.

Após a ausência do Mundial, Kees Rijvers teve mais espaço para abrir aos novatos – muitos deles frequentando as seleções de base da Holanda. 1982 começou mal para a Laranja, com derrotas para Escócia e Inglaterra em amistosos, mas outros dois jovens entravam nas convocações para não saírem mais: os atacantes Wim Kieft, 20 anos, e Gerald Vanenburg, 18 anos. Dos nomes que evocavam os dois vices em Copas, só restavam o goleiro Schrijvers (cedendo cada vez mais espaço a Van Breukelen), Krol e Willy van de Kerkhof.

Sim, alguns nomes de mais idade persistiram na seleção sob Rijvers, como Kees van Kooten. Mas seriam os jovens que teriam mais espaço no começo da campanha das eliminatórias para a Euro 1984, no grupo 7. Campanha que começou bem: um empate contra a Islândia (1 a 1), duas vitórias (2 a 1 na Irlanda, 6 a 0 em Malta), dando chances até a gente de brilho fugaz, como o atacante René van der Gijp, do Sparta Rotterdam.

Durante as eliminatórias da Euro 1984, a nova geração começou a tomar conta da Laranja: Van Basten, Rijkaard (que não estão na foto), Gullit, os irmãos Koeman, Vanenburg. Parecia suficiente para ir à Euro. Mas o azar de ver a Espanha fazer 12 a 1 em Malta foi gigante. Aqui, o time que começou jogando na vitória por 2 a 1 sobre a Espanha, naquelas eliminatórias. Em pé: Schrijvers, Ronald Koeman, Van de Kerkhof, Boeve, Vanenburg e Gullit. Agachados: Erwin Koeman, Brocken, Houtman, Ophof e Wijnstekers (ANP)

Em 1983, a primeira dificuldade apareceu: logo em 16 de fevereiro, derrota por 1 a 0 para a Espanha, a adversária mais forte da chave de qualificação. Uma pesada queda para a Suécia, em amistoso (3 a 0), não melhorou as coisas. Ainda assim, Rijvers seguiu com algum respaldo na seleção. Teve espaço até para treinar a equipe sub-20 da Holanda que disputou o Mundial da categoria naquele 1983. Eliminada pela Argentina (vice-campeã do torneio) nas quartas de final, a equipe neerlandesa teve como destaque um atacante tecnicamente promissor – Marco van Basten, 19 anos. Ele já entrou no radar da seleção principal: estreou na quinta rodada das eliminatórias da Euro – 3 a 0 contra a Islândia, em 7 de setembro. Outros dois nomes que começaram na Laranja em 1983 também eram garotos, e irmãos: o zagueiro Ronald Koeman, 20 anos, e o volante Erwin Koeman, 22 anos.

A juventude tomava conta da seleção holandesa em 1983. A tal ponto que Kees Rijvers deixava de fora das convocações Ruud Krol, o jogador com mais partidas pela Laranja até então (para decepção do próprio Krol, que desejava continuar). Os resultados justificavam isso. Principalmente o visto em 12 de outubro de 1983, na sexta rodada das eliminatórias da Euro: contra a Irlanda, em Dublin, a Holanda saiu perdendo por 2 a 0, no primeiro tempo. Pois Gullit e Van Basten, que tanto sucesso fariam, explodiram ali: carregaram a Laranja para a virada, no segundo tempo. Dois gols do primeiro, um do segundo, Holanda 3 a 2.


De quebra, nas duas últimas rodadas da qualificação para o torneio continental, duas vitórias: 2 a 1 na Espanha, em novembro, e 5 a 0 em Malta, em 17 de dezembro. Com 13 pontos, dois à frente dos espanhóis, e tranquila vantagem no saldo de gols, primeiro critério de desempate (+16 contra +5 da Espanha), a Holanda esperava estar na Euro 1984. Só um triunfo da Fúria por 11 gols de diferença, na última rodada, contra Malta, tiraria os Países Baixos da competição.

21 de dezembro de 1983. Naquela noite, em Amsterdã, se apresentava Freek de Jonge, popular cantor e humorista neerlandês. A certa altura de seu espetáculo, De Jonge falou aos espectadores que riam com sua performance: a Espanha ganhara de Malta por 12 a 1, e estaria na Euro 1984. A risada foi generalizada: todos acharam que era mais uma piada de Freek. Não era. Enquanto todos viam o show, a Espanha, que só vencia Malta por 3 a 1 ao fim do 1º tempo, fez nove gols na etapa final em Sevilha (quatro de Hipólito “Poli” Rincón, dois de Antonio Maceda, um de Carlos Alonso Santillana, um de Manuel Sarabia, um de Juan Antonio Señor). Chegou-se a suspeitar de que os jogadores malteses haviam facilitado o resultado: nada foi encontrado nas investigações de apostas.

Jantando na casa de um amigo, Kees Rijvers viu ali o tamanho do azar holandês. Acontecia o quase inimaginável: a Holanda estaria fora da Euro 1984, pelo mérito da Espanha – e o demérito de Malta. Seu cargo passava a correr perigo. Ainda mais pelas ambições cada vez menos escondidas do diretor técnico Rinus Michels.

Esta Holanda já poderia ter ido à Copa de 1986, mas falhou quando não podia na repescagem contra a Bélgica... aqui, a escalação da vitória que não adiantou (2 a 1, no jogo de volta da repescagem - os belgas, com o 1 a 0 da ida, foram à Copa pelo gol fora de casa). Em pé: Wijnstekers, Houtman, Gullit, Spelbos, Rijkaard e Van Breukelen. Agachados: De Wit, Van Tiggelen, Van de Korput, Tahamata e Valke. (VI Images)

1984-1986: faltou atenção no momento final

Quando 1984 começou, já era claro: Kees Rijvers estava sob pressão. Sob seu comando, a Holanda já ficara fora de uma Copa do Mundo e uma Euro. De quebra, no começo do ano, a federação holandesa tomou decisão polêmica: trouxe Rinus Michels para ser o diretor técnico da entidade. Mesmo que não o fosse abertamente, era uma sombra respeitável para o trabalho de Kees Rijvers. E mesmo que o ano tivesse começado com uma goleada na Dinamarca (6 a 0, num amistoso em 14 de março), a campanha no grupo 5 das eliminatórias da Copa do Mundo deveria começar muito bem, se o treinador quisesse evitar a demissão. Não foi o que aconteceu: em 17 de outubro de 1984, a Hungria já começou ganhando em pleno De Kuip, em Roterdã (2 a 1). A pressão tinha sua gota d’água: Kees Rijvers foi demitido.

Nas eliminatórias da Copa de 1986, Rinus Michels voltou a ser de fato o que já era "nas sombras": técnico da seleção holandesa (Marcel Antonisse/Anefo)

Na segunda rodada das eliminatórias, contra a Áustria, em 14 de novembro de 1984, Rinus Michels já voltava a treinar a Laranja, dez anos após comandar a seleção nos sete jogos que impressionaram o mundo na Copa de 1974. Só o resultado destoou: com gol contra de Michel Valke, derrota para os austríacos – 1 a 0. De quebra, uma aposta de Michels na convocação se frustrou: iniciado na reserva, o temperamental meio-campista Mario Been ralhou ao só entrar aos 28 minutos do segundo tempo. Nunca mais foi convocado. A primeira vitória nas eliminatórias da Copa veio só na terceira rodada: 1 a 0 no Chipre, em 23 de dezembro de 1984.

A saúde impediu que Rinus Michels pudesse continuar seu trabalho ali: logo que 1985 começou, um grave problema cardíaco o forçou a passar por uma operação e a se licenciar do comando da seleção. Às pressas, a federação teve de achar um técnico para a Laranja. Achou em Leo Beenhakker, do Volendam, admirador confesso de Michels, que seguiria o trabalho nas eliminatórias.

Leo Beenhakker - à direita, com Dick Advocaat como auxiliar - teve de terminar em 1985 o que Rinus Michels começara nas eliminatórias da Copa (VI Images)

“Don Leo” seguiu o que Rinus vinha fazendo: intercalando a nova geração (Van Breukelen, Gullit, Van Basten) com os nomes frequentes daquele hiato (Michel Valke, Ronald Spelbos, os zagueiros Peter Boeve e Ernie Brandts – este, egresso da Copa de 1978 -, um raro veterano em Willy van de Kerkhof). Veio uma ligeira reação na quarta rodada da qualificação: 7 a 1 no Chipre, em 27 de fevereiro de 1985. Porém, enquanto a Hungria garantia a primeira colocação e a vaga direta na Copa, um empate com a Áustria (1 a 1, em 1º de maio, em Roterdã) diminuía novamente as expectativas. Se quisesse manter alguma chance de tentar lugar no Mundial, via repescagem, a Holanda teria de vencer a Hungria em Budapeste, para manter a segunda posição da chave. Poucos acreditaram.

Eis que, em 14 de maio de 1985, a sorte esteve do lado laranja. Por obra e graça de um nome tão fugaz quanto talentoso: o atacante Rob de Wit, 21 anos, do Ajax. Contra a Hungria, De Wit fazia seu segundo jogo pela seleção da Holanda. Aos 23 minutos do segundo tempo, iniciou uma sequência de dribles, que só parou com um toque sutil para o 1 a 0. Houve suspeitas de facilitação dos resultados por parte dos húngaros (que viviam momentos de polêmicas sobre corrupção no futebol). Mas a Laranja ganhava sua segunda chance: iria à repescagem por vaga na Copa de 1986. Contra a Bélgica, a vizinha e rival tradicional.


No primeiro jogo, em Bruxelas, Wim Kieft cometeu um erro fatal: agrediu um adversário aos quatro minutos de jogo, e foi expulso. Com superioridade numérica, a Bélgica fez 1 a 0 e levou a vantagem para a volta, em Roterdã, no dia 20 de novembro de 1985. Mesmo com nomes como Rijkaard e Gullit em campo (e no banco, um veterano Willy van de Kerkhof), Rob de Wit quase foi o herói da vaga na Copa: se Peter Houtman abriu o placar, De Wit fez 2 a 0. O lugar no México estava garantido. Mas a cinco minutos do fim, uma desatenção defensiva em De Kuip, e o zagueiro Georges Grün fez o gol da Bélgica. A vitória podia ser holandesa, mas os belgas é que iriam ao Mundial, pelo gol fora de casa.

Mais um trauma. Por falta de atenção no momento final. Falta de atenção que causou fortes críticas de Leo Beenhakker àquela geração: "Eles são ingênuos, nunca terão maturidade".


1986-1988: uma bomba ameaçou, mas o hiato acabou

Recuperado do problema no coração que o tirou dos campos em 1985, Rinus Michels pôde voltar a treinar a Holanda no ano seguinte. O destino tiraria um forte candidato a ser titular em sua equipe: grande destaque na reta final das eliminatórias da Copa, Rob de Wit sofreu um acidente vascular cerebral que inviabilizou sua carreira (De Wit sobreviveu, e ainda vive, embora com pequenas sequelas motoras, aos 58 anos). No entanto, Rinus já sabia: formaria a seleção rumo às eliminatórias da Euro 1988 com base em Frank Rijkaard, Ronald Koeman, Ruud Gullit e Marco van Basten. Todos já relativamente calejados, pelos traumas das qualificações na Euro 1984 e na Copa de 1986.

Os amistosos no primeiro semestre de 1986 reduziram as expectativas: em quatro jogos, só uma vitória. Ainda assim, quando a qualificação começou, a Holanda despontou bem no grupo 5: duas vitórias (1 a 0 na Hungria, 2 a 0 no Chipre) e um empate (0 a 0 com a Polônia). Rinus Michels ia encontrando a convocação mais confiável, pouco a pouco: reintegrava Arnold Mühren, aos 37 anos, após seis anos de ausência das convocações, dava a última chance (não aproveitada) a Simon Tahamata, abria espaço para nomes como Adri van Tiggelen e Jan Wouters.

E os Países Baixos pareceram um time maduro quando 1987 começou. Duas vitórias por 2 a 0, contra a Hungria (em 29 de abril) e a Polônia (em 14 de outubro), colocaram a Laranja na rota da Euro, mesmo com um empate contra a Grécia (1 a 1). Faltava pouco para voltar a uma grande competição. Um triunfo contra o Chipre, em 28 de outubro de 1987, em Roterdã, selaria a classificação.

Todavia, ainda no primeiro tempo, quando a Holanda já vencia por 1 a 0, atirou uma pequena bomba caseira, envolta numa casca de laranja. O artefato caiu na área cipriota, e explodiu perto do goleiro Andris Charitou, que desmaiou. Jogo interrompido por alguns minutos, para ser retomado e terminar em goleada neerlandesa: 8 a 0. De nada adiantaria: a UEFA não só anulou o resultado, como decretou vitória do Chipre a princípio (3 a 0). Tal punição devolveria chances de classificação à Grécia, vice-líder do grupo – e justamente a adversária holandesa na rodada final das eliminatórias da Euro.


O “bomincident” (incidente da bomba, em holandês) aumentou o temor da torcida. Aí, a federação entrou em campo: com um recurso contra a punição, alegou que ela era injustificada – afinal, Andris Charitou nem fora atingido pela bomba caseira. A UEFA aceitou: transformou a sanção da derrota numa obrigação de um novo jogo contra o Chipre, a portas fechadas, em De Meer, o estádio do Ajax na época. Aí, sim, a vaga na Euro foi garantida: Holanda 4 a 0, com três gols de John Bosman, atacante que andava até acima de Van Basten (então lesionado) nas preferências de Rinus Michels para o time. De quebra, na última rodada da qualificação, nova vitória holandesa: 3 a 0 na Grécia.

O hiato acabava. E o fio da meada, parado no vice-campeonato da Copa de 1978, seria retomado em grande estilo na Euro 1988. Mas essa história já não faz parte dos tempos difíceis. E a Holanda nunca mais ficou tanto tempo sem ir a Euros ou a Copas do Mundo, resolvendo rapidamente os hiatos (Copa de 2002, Euro 2016, Copa de 2018). Que nunca mais haja uma década perdida...

Versão revista e ampliada de texto publicado na edição nº 14 da revista Corner, em 2021