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sábado, 12 de maio de 2018

Melhor do que a Eredivisie

Mount (à esquerda) foi o destaque de uma das surpresas das repescagens: a fácil vitória do Vitesse (vitesse.nl)
Sabe-se que a temporada de futebol não acaba na Holanda com a 34ª e última rodada do Campeonato Holandês. Já nesta semana, estão acontecendo as duas repescagens. Uma em cima: pela vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa, a última à disposição do país nas competições continentais, entre o quinto e o oitavo colocados da Eredivisie - a rigor, entre o quarto e o sétimo colocados, mas o Feyenoord, ocupante da quarta posição, já tinha seu lugar, campeão da Copa da Holanda que é. A outra é mais dramática, na qual Roda JC (antepenúltimo colocado) e Sparta Rotterdam (penúltimo) jogam a salvação contra outros seis times, vindos da segunda divisão. Pois bem: as duas começaram de modo surpreendente. Para muitos, até mais do que a temporada toda.

Buscando o lugar na Liga Europa, estão Utrecht, Vitesse, ADO Den Haag e Heerenveen. E as partidas que fizeram, na quarta recente, já esquentaram inesperadamente o clima que parecia morno. Vitesse e ADO Den Haag abriram a disputa, com o jogo de ida, em Haia. Mesmo terminando uma posição abaixo (7º lugar), o Den Haag parecia num crescimento mais promissor: com o atacante Bjorn Johnsen marcando muitos gols – foram dois do norueguês de ascendência americana nos 3 a 2 contra o Roda JC, na última rodada, ficando como vice-goleador da temporada –, Nasser El Khayati chamando a responsabilidade na criação das jogadas e uma zaga extremamente esforçada e fisicamente forte, o favoritismo leve pendia para os auriverdes, contra um Vitesse meio irregular, tentando se refazer em meio à reta final, até com troca de técnico (já com demissão anunciada, Henk Fräser deixou o time rodadas antes do fim da Eredivisie, e o auxiliar Edward Sturing assumiu).

Só que, mesmo numa montanha-russa de desempenho em campo, o Vites possui bons jogadores, também. O defeito no gol, com as falhas do veterano Remko Pasveer, foi minorado: o reserva Jeroen Houwen substituiu Pasveer nas oito rodadas finais e não decepcionou. No ataque, os gols são tarefa cumprida tanto por Tim Matavz quanto por Bryan Linssen. Finalmente, do meio-campo do time de Arnhem saiu o homem que definiu o jogo de ida. Emprestado pelo Chelsea, como se espera: Mason Mount. O armador inglês de 19 anos fez três gols, Matavz e Linssen ajudaram com um tento cada, o Vitesse abriu 4 a 0 já no primeiro tempo... e o 5 a 2 deixa o time aurinegro em excelentes condições para a volta, neste sábado, em seu GelreDome. 

Se o primeiro jogo para definir o finalista do play-off “de cima” surpreendeu pela facilidade, o segundo surpreendeu duplamente. Afinal, o Utrecht não é considerado só franco favorito contra o Heerenveen, mas também à própria vaga na Liga Europa (quando nada, porque decidiu a repescagem nas duas últimas temporadas – e ganhou a vaga, na passada). Pois bem: no primeiro tempo da ida, mais eficiente e sortudo, o Heerenveen fez 2 a 0, com um gol de falta contando com desvio (Yuki Kobayashi) e outro com erro dos Utregs na saída de bola (Reza “Gucci” Ghoochannejhad). Mais do que isso: fez 3 a 0 no início do segundo tempo (Daniel Hoegh).

Utrecht batido? Nada disso: o time visitante diminuiu para 3 a 1 logo após sofrer o terceiro gol, com Zakaria Labyad. Veio um revés até pior: a expulsão de Yassin Ayoub, exatamente um minuto depois do gol da esperança, de modo tolo (Ayoub fez falta, levou o primeiro amarelo, aplaudiu ironicamente o juiz Ed Janssen, e levou o segundo amarelo). Mas os Utregs cresceram... e empataram, com dez jogadores: Labyad fez de falta, e um arremate de Urby Emanuelson com desvio na zaga rendeu o 3 a 3. Aí, tentando manter um resultado que seria até admirável, o quinto colocado da temporada se fechou na defesa. Mas não adiantou: o Heerenveen fez 4 a 3 no final do jogo, com Denzel Dumfries. Seja como for, a partida de volta, neste sábado, em Utrecht, para definir o outro “finalista” pelo lugar na Liga Europa é altamente promissora.

O Dordrecht quebrou a banca nos play-offs pela vaga na Eredivisie: reverteu a grande vantagem do Cambuur (Pro Shots)
Se um mata-mata mais “normal” como o da parte superior da tabela já rendeu duas partidas empolgantes, o da definição de promovidos/mantidos/rebaixados tem fornecido momentos dignos das melhores finais de campeonato – como é comum na repescagem para tal fim, diga-se de passagem. Tome-se por exemplo a primeira fase, na qual Cambuur e Dordrecht fizeram uma das partidas. Na ida, fora de casa, o Cambuur pareceu encaminhar sua classificação à segunda fase, goleando os mandantes por 4 a 1. 

Como se não bastasse, no primeiro tempo da partida de volta, sábado passado, a equipe de Leeuwarden abriu o placar. O que aconteceu? Isso mesmo: o Dordrecht protagonizou uma emocionante reação. No segundo tempo, em 25 minutos, os “Cabeças de Cabra” viraram exatamente para 4 a 1, causando a necessidade de prorrogação, de disputa por pênaltis... e nela fizeram o impressionante: 5 a 3 nas cobranças, e classificação merecidamente comemorada.

As dificuldades do Dordrecht seguem na segunda fase: afinal, o time pega o Sparta Rotterdam, vindo da Eredivisie. E mesmo em casa, a equipe era superada até com facilidade pelo adversário de Roterdã, que fazia 1 a 0 e controlava o jogo... até o “golaço contra” de Stijn Spierings, dando o 1 a 1 de graça aos mandantes em Dordrecht. Pelo menos, o Sparta consertou as coisas, com o 2 a 1 que lhe devolveu vantagem para a volta, no que pode ser o jogo final da carreira do técnico Dick Advocaat, em caso de rebaixamento dos “Spartanen” (pelo menos, é o que o próprio promete).

Também mereceu destaque a alta movimentação das coisas em Telstar x De Graafschap. Há 40 anos sem jogar a Eredivisie, o Telstar fez 2 a 0 no primeiro tempo – e ainda ficou com um homem a mais. Novamente, outro jogo que parecia definido tomou o caminho inverso: em dois minutos da etapa final, entre os 27 e os 29 minutos, os visitantes da cidade de Doetinchem empataram. O Telstar ainda fez 3 a 2, mas já se anseia pelo que poderá vir do estádio De Vijverberg, no próximo domingo.

Assim como certamente será cercado de tensão o Roda JC x Almere City da volta, com o empate sem gols que se viu na cidade de Almere. E até mesmo o FC Emmen, que nunca jogou na elite, e viu o sonho de disputar uma das vagas aumentar com a goleada sobre o experiente NEC (4 a 0 num time que jogou a Eredivisie em 2016/17!), deve manter cautela. É o que também recomendou Edward Sturing para a repescagem pela Liga Europa, ao Vitesse que comanda: “O Cambuur também pensava que estava tudo definido”. Razões para essas precauções, não têm faltado.

E é por isso, até, que a “Nacompetitie” (nome que os holandeses dão às repescagens) tem empolgado. A ponto de haver quem brinque, mídias sociais afora, que ela está sendo melhor do que a própria Eredivisie. Ou quem sugira a adoção do mata-mata...

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 11 de maio de 2018)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Briga de foice

O equilíbrio ainda permite salvações, mas a expressão de Beugelsdijk deixa claro: o ADO Den Haag está a perigo na Eredivisie (Maurice van Steen/VI Images)

No mês passado, o site Trivela (de certa forma, irmão deste Espreme a Laranja) publicou uma curiosa variante para as típicas tabelas dos campeonatos de futebol. Tratava-se de um gráfico, feito pelo inglês Will Griffiths (disponível aqui), mostrando a pontuação das equipes nas mais tradicionais – e também nas menos - ligas europeias. Claro, os leitores comentaram. E um deles (Roberto Alvarenga) palpitou, com base no que o jornalista Leandro Stein comentou: “A luta contra o rebaixamento na Holanda vai ser uma briga de foice no escuro”. Outro leitor, Lucas Silva, concordou. E ainda acrescentou: “Parece-me que nessas últimas temporadas, as equipes holandesas, excetuando-se PSV e Ajax, estão mais fracas, especialmente Vitesse e Twente”.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Primeiro, porque o Campeonato Holandês tem clubes que não estão nem mais fracos, nem mais fortes; simplesmente, ficam na zona em que se espera que fiquem, no início da temporada. Um bom exemplo disso está na região que dá lugar nos play-offs após a temporada regular, por vaga na Liga Europa: excetuando-se o Twente (que está na 6ª posição, mas não participará dos play-offs, punido que foi pela federação holandesa no ano passado), estão Utrecht, AZ, Heerenveen e Vitesse – todos clubes médios, participantes comuns desses play-offs, que se raras vezes desafiam os três grandes do país para valer, tampouco sofrem com a ameaça de rebaixamento. E até aparecem numa fase preliminar de Liga Europa, aqui e ali. 

Segundo, porque nem os clubes realmente fracos são tão fracos que não consigam surpreender. Que o diga o líder Feyenoord: no domingo passado, o Stadionclub sofreu sua segunda derrota nesta Eredivisie, com o 1 a 0 para o Sparta Rotterdam - promovido nesta temporada, como campeão da segunda divisão. O fenômeno fica ainda mais notável quando se constata que a outra derrota dos Feyenoorders na temporada foi para... o outro clube promovido da Eerste Divisie, o Go Ahead Eagles (outro 1 a 0). Certo, tratam-se de times deficientes (basta lembrar que o Feyenoord pespegara 6 a 1 no Sparta, no turno). Ainda assim, proporcionam surpresas como estas – que tornam o primeiro colocado do Campeonato Holandês o segundo clube com piores resultados ao pegar os clubes que subiram de divisão nesta temporada.

E talvez seja por essa capacidade de pregar peças que a Eredivisie, de fato, esteja extremamente equilibrada na zona de rebaixamento – e de repescagem (o leitor deve-se lembrar do regulamento, no mínimo, intrincado dos play-offs de acesso/descenso – caso não se lembre, eis aqui esta coluna de 2015). Do 15º ao 18º e último colocado, há apenas um ponto de diferença – sendo que há empate triplo entre o 15º e o 17º colocado. E até mesmo clubes mais sossegados ainda precisam tomar cuidados antes de garantirem a salvação na divisão de elite do futebol holandês. Uma possível razão para o equilíbrio é o fato de nenhum dos times ameaçados de queda ser completamente desprovido de talento, ser irremediavelmente ruim – enfim, nenhum deles é “saco de pancadas”, sendo esmurrado rodada após rodada. 

Na verdade, o lanterna atual do Holandês viveu até uma “queda meteórica”. Não que ela não estivesse anunciada: já se abordou aqui o caos interno que vive o ADO Den Haag. A crise já estava indo para dentro de campo, e o início do returno deflagrou isso de vez: nada de vitórias para o clube de Haia, nas oito rodadas disputadas após a pausa de inverno. Foram dois empates e seis derrotas. Já houve consequências: previsivelmente, sobrou para o técnico (Zeljko Petrovic caiu, dando lugar a Alfons Groenendijk). Ainda assim, a sensação é de que o Den Haag pode reagir. Jogadores para isso, tem: na defesa (o duro zagueiro Tom Beugelsdijk, ídolo da torcida) e no ataque (Édouard Duplan, Sheraldo Becker, Ruben Schaken, Guyon Fernandez, até Mike Havenaar).

Do Roda JC, penúltimo colocado, também já se comentou aqui. Só que o ânimo ganho com a injeção de dinheiro do suíço-russo Aleksei Korotaev ainda não resultou em muita coisa dentro das quatro linhas: só duas vitórias no returno, e o time segue transitando entre as últimas posições. Pelo menos, ainda teria chance de segurar-se na Eredivisie, indo para a repescagem. Mesmo caso de outro clube que também é afligido pela ameaça do descenso há várias temporadas, e continua não aprendendo: o Excelsior, em 16º colocado. O clube de Roterdã nem perdeu tanto assim no returno. Mas também não ganhou, exagerando nos empates: quatro, nestas nove rodadas do segundo turno.

Esta é a sorte do Go Ahead Eagles: duas vitórias seguidas já bastaram para o clube de Deventer conseguir ficar no 15º lugar, o primeiro fora da zona de rebaixamento. E é até merecido, já que a equipe tem alguns jogadores de relativo talento – principalmente no ataque, com Jarchinio Antonia e Sam Hendriks, que periodicamente salvam o GAE numa ou noutra partida. No entanto, com o mesmo número de pontos dos dois clubes que vêm logo abaixo (20) e nove rodadas a disputar, sossegar não é uma opção.

Talvez não seja uma opção nem para os clubes que vêm acima dos quatro mais ameaçados pelo rebaixamento. Embora tenha uma equipe muito coesa (e tenha, ora bolas, vencido o líder do campeonato), o Sparta Rotterdam (14º, com 25 pontos) ainda procura afastar o temor. Após passar o turno ameaçado, sendo uma das grandes decepções da Eredivisie, enfim o Zwolle reagiu: alguns jogadores subiram de produção, o técnico Ron Jans anunciou demissão – na moda de “técnicos demissionários tranquilizam o clima no elenco” -, algumas vitórias vieram, e os Zwollenaren foram aos 27 pontos, na 13ª posição. A mesma coisa ocorre com o NEC: a equipe de Nijmegen ainda sofre com a irregularidade dentro de campo, mas está em 12º lugar, com 28 pontos. Todas essas, pontuações que dão mais segurança. Ainda assim, precisando de mais cuidados antes da salvação definitiva. 

Caso contrário, serão mais clubes a se juntar aos quatro que já são afligidos pela necessidade de fazer contas e jogar o futuro a cada rodada. De fato, como preconizou o leitor da Trivela, a disputa contra o rebaixamento na Holanda promete ser uma briga de foice no escuro.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 10 de março de 2017)