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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Nos 30 anos da Johan Cruyff Arena, um encontro Brasil-Holanda: o estádio chamou mais a atenção

Brasil e Holanda (Países Baixos) fizeram vários jogos marcantes na década de 1990. Este amistoso de 1996, o primeiro jogo da Laranja na Amsterdam Arena (atual Johan Cruyff Arena), acabou ficando meio apagado na memória, mas até que teve sua animação (Steve Bardens/Offside/Getty Images)

Embora ainda seja um estádio controverso (há ainda quem prefira o clima dos estádios antigos - mesmo os torcedores mais idosos do Ajax, ainda saudosos do velho De Meer -, e De Kuip, menos falado, é também um templo do futebol europeu), a Johan Cruyff Arena, antiga Amsterdam Arena, é inegavelmente marcante no futebol europeu e mundial, tendo sido um dos primeiros estádios a trazer o conceito hoje comum de "arena multiuso", com lanchonetes, lojas e até estacionamentos internos. Pois bem: sua existência tem sido celebrada neste 2026, ao completar 30 anos, desde a inauguração com um amistoso em 14 de agosto de 1996, entre Ajax e Milan (Milan 3 a 0). Contudo, foi outro amistoso de seu início que teve participação brasileira. Mais precisamente, da Seleção Brasileira. E aquele 2 a 2, que completa 30 anos exatamente nesta segunda-feira, teve traços interessantes.

Para a Laranja, era um recomeço, sendo o primeiro jogo após a turbulenta participação na Euro 1996 (e, em aspectos mais genéricos, era a primeira partida da Laranja usando uniformes da Nike, parceria que segue 30 anos depois, anterior até à parceria com o Brasil). A Euro 1996 deixava marcas: Edgar Davids, principal protagonista de toda a confusão, estava ainda punido pelo técnico Guus Hiddink, sem ser convocado, e assim seguiria por todas as Eliminatórias da Copa de 1998. No entanto, Hiddink - que divulgara pouco antes uma cartilha de comportamento, tentando mitigar os riscos de problemas internos explodirem como haviam explodido na Euro - seguia contando com boa parte dos jogadores que fariam bonito no Mundial de dois anos depois. Alguns deles ficaram no caminho daquele trabalho da qualificação, como o meio-campo Jean-Paul van Gastel e o atacante Jordi Cruyff (desnecessário dizer de quem ele é filho, certo?). Outros já eram titulares absolutos, e assim seguiriam, como Edwin van der Sar, Frank de Boer e Dennis Bergkamp. E outros, ainda, foram chegando e já estiveram na Copa. Como um certo Giovanni van Bronckhorst, que fez naquele amistoso contra o Brasil a primeira das 106 partidas de sua carreira pela Laranja.

O amistoso contra a Seleção foi a primeira das 106 partidas de Van Bronckhorst pela Laranja (Richard Sellers/Sportsphoto/Allstar/Getty Images)

Se o Brasil, tetracampeão mundial que era então, não precisava se preocupar com as eliminatórias da Copa - até 2002, quem vencia o Mundial ganhava automaticamente a vaga na edição seguinte -, também tinha o que mudar. Se não tinha a ver com a seleção principal, o fim lamentável da campanha da Seleção no torneio olímpico daquele 1996 aumentava a pressão sobre Zagallo (1931-2024). Com relação à equipe principal, a intenção do "Velho Lobo", dita à televisão holandesa no pré-jogo, era iniciar definitivamente "o trabalho de preparação para a Copa de 1998". 

O amistoso era parte de uma pequena "turnê europeia" da Seleção, iniciada três dias antes, com outro 2 a 2, contra a Rússia, em Moscou. E o Brasil chegava à novíssima Amsterdam Arena, vestindo ainda uniformes da Umbro (a parceria com a Nike começou em 1997), com alguns titulares absolutos que o seriam no vice mundial de 1998, como Cafu e Ronaldo; com gente que até iria à Copa, mas como coadjuvante (casos do goleiro Carlos Germano - Taffarel estava afastado da Seleção, por vontade própria, até o ano seguinte -, do ponta-de-lança Giovanni, substituído por Leonardo, outro presente, e dos zagueiros Gonçalves e André Cruz); e, finalmente, com nomes até experimentados, mas logo deixados de lado, como o lateral esquerdo André Luis, o volante Zé Elias - estes, titulares no bronze dos Jogos Olímpicos daquele ano -, o meio-campo Sérgio Manoel, e os atacantes Donizete (o célebre "Pantera") e Jardel.

Num Brasil começando a preparação para a Copa de 1998 no amistoso, Carlos Germano acabou ficando daquele 31 de agosto de 1996 até o Mundial, mesmo sendo reserva (Mark Thompson/Allsport/Getty Images)

E, em tempos pré-data FIFA - não existia esse conceito -, obter a liberação de jogadores era coisa complicada. Mauro Silva que o dissesse: o meio-campo estava convocado, mas foi impedido de jogar pela FIFA, por ter pedido a liberação, já que o Deportivo tinha, no mesmo dia, partida contra o Real Madrid, pelo Campeonato Espanhol (o jogo terminou empatado em 1 a 1). Ronaldinho e Giovanni, então, teriam de fazer sacrifícios: jogariam pelo Brasil, e pegariam o avião imediatamente depois do amistoso, para voarem à Espanha e defenderem o Barcelona no dia seguinte, contra o Oviedo, também por La Liga. Não era a única complicação brasileira: outro remanescente do tetracampeonato de 1994, o zagueiro Márcio Santos, estava retornando aos poucos do rompimento do tendão de Aquiles, sofrido em setembro de 1995. Jogando justamente pelo Ajax, estava sem muito espaço. Em visita à delegação brasileira, até ouviu crítica leve de Zagallo: "Gosto do futebol dele, mas não posso chamar um defensor de um time, que, há poucos dias atrás, tomou de 6 a 0 da Juventus, da Itália [pelo Troféu Teresa Herrera, torneio amistoso]. Além disso, estou gostando dos meus beques".

Contudo, mais até do que o amistoso, a Amsterdam Arena era uma novidade gigante - uma "coisa de século XXI", nas palavras com que Galvão Bueno, então narrador da TV Globo, abriu a transmissão daquele jogo, ocorrido num sábado, às 15h de Brasília. Por mais que fossem visíveis problemas como o gramado ainda problemático, com tufos saindo a cada chute - o gramado seria um problema da Amsterdam/Johan Cruyff Arena por muito tempo, ainda -, ver um estádio sendo um centro de entretenimento geral e não só algo para a prática de esportes impressionava os brasileiros. Basta citar o destaque dado à abertura do estádio (também citando a questão do gramado) na matéria de Arnaldo Ribeiro, para a Folha de S. Paulo no dia do jogo. 

Ou então, lembrar a matéria "Campo dos Sonhos", publicada pela revista Placar na edição de outubro de 1996. Nela, Paulo Vinícius Coelho - sim, o repórter hoje estabelecido como comentarista -, o fotógrafo Alexandre Battibugli e o infografista Mario Kanno destrinchavam como funcionava a Amsterdam Arena. Para o trabalho, tiveram sorte. Inicialmente, chegaram poucos dias antes do 31 de agosto de 1996, e sabiam que o Ajax não seria muito colaborativo na visita guiada permitida para que conhecessem o estádio. Até que, em certo momento, dando a volta no estádio, encontraram um portão entreaberto. Encostaram na porta, ela se abriu, nenhum segurança apareceu barrando, Battibugli (apelidado "Batti") começou a tirar fotos, Mario Kanno mediu as cadeiras com trenas, PVC fez suas anotações, assim ficaram mais alguns dias... e o trio praticamente destrinchou todo o estádio novo. Quando o Ajax comandou a visita guiada de uma hora, sem permitir acesso a muitos lugares, nada de problemas: o trio já tinha apurado o suficiente para a matéria que rendeu a PVC o Prêmio Abril de Jornalismo, premiação cedida pela editora homônima a reportagens de suas revistas.

A matéria da Placar sobre a Amsterdam Arena dava boa mostra de como o estádio novo interessava (Reprodução)

Jogo iniciado, após os dois hinos serem cantados por um casal de cantores líricos e um pianista - a cantora entoou o Hino Nacional Brasileiro, e o cantor, "Het Wilhelmus", o hino holandês -, a Holanda começou assustando mais: logo aos dois minutos de jogo, Jonk chutou de longe, e Carlos Germano rebateu. Com avanços dos laterais Michael Reiziger e Arthur Numan, a ofensividade holandesa era maior. Porém, praticamente no primeiro ataque brasileiro, o primeiro gol: aos 13', Zé Elias lançou a bola do meio-campo, Giovanni dominou na área e finalizou. Edwin van der Sar ainda desviou, mas insuficiente para evitar o 1 a 0 do Brasil.

Foi aí que a Seleção cresceu. Enquanto Donizete marcava a saída de bola holandesa, Giovanni encaminhava as jogadas, Ronaldo se mexia mais para finalizar, e as chances apareciam. Às vezes, em bolas paradas, como na cobrança de falta de André Cruz, aos 19', por cima do gol. Às vezes, em iniciativas individuais, como a de Ronaldo aos 35': ao receber lançamento de Giovanni, ele ajeitou de cabeça, passou por Van der Sar, e só não fez o gol porque, ao finalizar, Stam afastou a bola em cima da linha.

Só que a Laranja seguia ativa. Terminou o primeiro tempo reagindo em um chute de Michael Reiziger (boa atuação), para fora. Passou por uma alteração no intervalo, com Gaston Taument substituindo Jordi Cruyff, que mais fez faltas do que criou chances de ataque. E o crescimento holandês foi premiado com um empate até rápido: logo aos 51', Bergkamp cruzou da direita, e Ronald de Boer entrou finalizando para fazer 1 a 1. Só não foi mais rápido do que a reação brasileira: três minutos depois, escanteio ensaiado, Leonardo cruzou a bola, e Gonçalves fez 2 a 1 com um leve desvio, que tirou a bola do alcance de Van der Sar.

Só que a Laranja seguiu tendo mais a bola, sem que o Brasil aproveitasse as chances de contra-atacar (chance perigosa brasileira, só aos 81', quando Ronaldo recebeu de Leonardo, chegou à área e bateu para Van der Sar defender). Os holandeses é que tentaram, como aos 64', num cruzamento de Taument que Van Bronckhorst completou para fora. Contudo, só nos acréscimos veio o empate. E num pênalti suspeito: André Luís derrubou Bergkamp, na linha divisória da área, e o juiz escocês Hugh Dallas apitou o pênalti convertido por outro estreante: o meio-campo Jean-Paul van Gastel, que substituiu Ronald de Boer.

E assim terminou o Brasil x Holanda que inaugurou a então Amsterdam Arena (hoje, Johan Cruyff Arena) na história da seleção masculina dos Países Baixos. Aliás, o esadio chamou mais a atenção do que o jogo.

(Os melhores momentos de Holanda 2x2 Brasil, amistoso em 31 de agosto de 1996, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno. Postado no YouTube por Dane)

FICHA DO JOGO

Amistoso

Holanda 2x2 Brasil

Data: 31 de agosto de 1996
Local: Johan Cruyff Arena/Amsterdam Arena (Amsterdã)
Árbitro: Hugh Dallas (Escócia)
Gols: Giovanni, aos 12', Ronald de Boer, aos 51', Gonçalves, aos 54', e Jean-Paul van Gastel, aos 90' + 3

HOLANDA
Edwin van der Sar; Michael Reiziger, Jaap Stam, Frank de Boer e Arthur Numan; Wim Jonk (Jean-Paul van Gastel, aos 77'), Ronald de Boer, Clarence Seedorf e Giovanni van Bronckhorst; Jordi Cruyff (Gaston Taument, aos 46') e Dennis Bergkamp. Técnico: Guus Hiddink

BRASIL
Carlos Germano; Cafu, Gonçalves, André Cruz e André Luis; Zé Elias, Amaral e Leonardo; Giovanni; Donizete (Sérgio Manoel, aos 83') e Ronaldo (Jardel, aos 86'). Técnico: Zagallo

sábado, 28 de dezembro de 2024

Laranja Mecânica, primeira e única: 9º capítulo - na bola e no pau

Foi somente ao vencer o Brasil que a Holanda se deu conta do que tinha conseguido na Copa de 1974. E a vitória comemorada foi dupla: na bola e nas faltas... (Reprodução/Fanpictures.ru)

Introdução









No fim do oitavo capítulo, soube-se da história ocorrida na festa de confraternização da delegação da Holanda (Países Baixos) na Copa de 1974, repercutida por jornais alemães em 2 de julho - e, só por isso, dando alguma dor de cabeça aos membros dela. Não tão grande, porque alguns meios holandeses se abstiveram de informar sobre evento particular. Mas grande a ponto de Rinus Michels ter pedido por uma entrevista coletiva no Waldhotel-Krautkrämer (já incluindo jornalistas brasileiros no recinto), para desdenhar: "Relatos como os que saíram nos jornais alemães pertencem a uma 'guerra fria', e ela vai começar de novo. Essa guerra fria começou, eu esperava até que começasse antes. O único objetivo é causar confusão, e qualquer coisa que eu diga a mais sobre isso será ridículo".

Da parte da imprensa holandesa, não só ela tomou o lado de sua seleção local (até obviamente), como alguns meios até mesmo romperam relações com veículos alemães - o De Telegraaf, por exemplo, deixou de compartilhar notícias com o Bild, como vinha fazendo até então. Já o Algemeen Dagblad, jornal concorrente, organizou outro evento para descontrair a delegação holandesa, em parceria com a emissora de televisão TROS. Um evento muito mais ameno, apenas reunindo cantores e humoristas se apresentando aos jogadores e à comissão técnica. Tanto que Rinus Michels até se arriscou a cantar.

Ainda assim, houve um jogador que amargou tudo aquilo: Johan Cruyff. A notícia chegara aos olhos da esposa Danny, e reza a lenda que ambos tiveram telefonema tenso já no dia 2. Para piorar, o principal jogador da Holanda (e da Copa, como pensava a maioria dos que acompanhavam o torneio) ficara doente na véspera do jogo contra o Brasil, por causa de uma gripe. Tudo isso influiu na declaração que Cruyff deu no dia 2, à emissora NOS e ao jornalista Joop Niezen, da revista Voetbal International, ressaltando o que já falava aqui e ali: "Esta é minha primeira e minha última Copa. Daqui a quatro anos, já terei 31 anos de idade, e vou encerrar minha carreira. Sempre disse isso, e continuo com a decisão".

Muito sendo falado fora de campo... mas havia ainda o Brasil no caminho da final, como adversário no último jogo do grupo A da segunda fase.

E o Brasil, como chegava?

Para a torcida brasileira, o mau humor predominava na Copa de 1974. Desde a primeira fase daquele torneio, o Brasil era considerado cauteloso demais (no popular: "retranqueiro"), e havia um culpado para a opinião pública: o técnico Zagallo. Na primeira fase, de fato, os resultados preocuparam, com empates sem gols contra Iugoslávia e Escócia - só uma vitória por 3 a 0 sobre o então Zaire, atual República Democrática do Congo, fez com que o Brasil chegasse à segunda fase, mas na segunda posição do grupo 2.

Na segunda fase, as coisas melhoraram um pouco para a Seleção. Se não brilhara nas duas vitórias - 1 a 0 na Alemanha Oriental, 2 a 1 na Argentina -, era unânime que as entradas de Zé Maria (lateral direita), Paulo César Carpegiani e Dirceu (ambos no meio-campo) haviam tornado o time mais rápido e mais esforçado em campo. Além do mais, havia Rivellino, Paulo César Caju e Jairzinho, sempre merecedores de respeito, destaques técnicos e remanescentes da fabulosa campanha do terceiro título mundial em 1970. E havia uma defesa respeitável, com Leão como um dos bons goleiros do Mundial, e Luís Pereira com status igual no miolo de zaga. Tanto que o Brasil só tomara um gol até ali na Copa, contra a Argentina.

Num Brasil contestado mas que reagia durante a Copa de 1974, o ataque era respeitado, mas a defesa da Seleção impressionava mais a Holanda (Masahide Tomikoshi)

Era esta defesa brasileira, e não o ataque, que mais preocupava os holandeses. Pelo menos é o que se nota nas declarações de imprensa. Como esta, de Rensenbrink, ao Algemeen Dagblad de 2 de julho de 1974: "O Brasil é muito forte, acima de tudo, na defesa. E esse time, fisicamente forte, só precisa de uma chance para fazer o gol". No mesmo diário, Johnny Rep alertava: "Defensivamente, [o Brasil] é um time muito forte, e atacando, é muito perigoso. Como nós. não perderam nenhum jogo na Copa, ainda". E Rinus Michels dava o alerta definitivo, ao De Telegraaf da mesma data: "Desde a estreia contra a Iugoslávia, eu já notei que o Brasil poderia ir longe na Copa. Há muita disciplina no time. Na Copa do México [1970], eles sempre ditavam o ritmo do jogo. Isso acontece menos agora, mas continua sendo um time muito perigoso".

Do lado brasileiro, os salamaleques eram elegantemente devolvidos. O De Volkskrant de 2 de julho de 1974, por exemplo, dava destaque à declaração de Marinho Chagas - considerado até ali um dos melhores laterais esquerdos da Copa: "O time [Holanda] joga de uma maneira muito diferente. Todo mundo fica se mexendo em zigue-zague, e quando você vê, você nem sabe quem são os zagueiros e quem são os atacantes. Para mim, este é o futebol do futuro". No Jornal do Brasil do 3 de julho da partida, Paulo César Caju alertava que o time não era só Cruyff: "Se a gente se preocupa com o Cruyff, o Neeskens acaba fazendo gol. No time deles ninguém tem posição definida. O negócio é marcarmos por zona, trabalharmos o dobro e partirmos com rapidez para o gol". Era exatamente a indefinição das posições que Zagallo elogiava, no mesmo JB: "Por isso é que gosto do futebol que os holandeses apresentam. O futebol da Holanda é alegre, e tenho certeza de que a partida de hoje será excelente".

Outra certeza que Zagallo dava: Cruyff não receberia marcação especial. Aliás, "Cruyff sem marcação" era uma das manchetes d'O Globo no dia da partida. O técnico brasileiro se justificava: "Sei que Cruyff é muito bom, mas da mesma maneira os holandeses devem estar preocupados com o Jairzinho, o Rivellino e o Marinho [Chagas]. Cruyff será marcado, sim. Porém, não teremos nada de especial para ele." O Algemeen Dagblad do dia da partida também trazia declarações do técnico brasileiro: "Não jogamos contra um jogador, jogamos contra um time. Cruyff não é o único bom jogador da Holanda". Finalmente, dias antes da partida, o De Volkskrant de 1º de julho de 1974 trazia a lembrança de Zagallo: "Não podemos esquecer que a Holanda enfrentou adversários mais frágeis do que nós".

Mas ficavam nisso, pelo menos oficialmente, os alertas de Zagallo a favor do Brasil. Não se encontraram declarações repercutidas depois, de que ele teria dito que Cruyff se chamava "Crush" (refrigerante de laranja popular à época), ou a frase "a Holanda é muito tico-tico no fubá, que nem o América dos anos 1950", ou mesmo que tivesse dito "já estou pensando na final contra a Alemanha". O único registro mais enfático foi o de Zagallo brincando com a torcida holandesa, em maior número no Waldstadion de Dortmund, indicando que tentaria transformar o mar laranja em suco.

Começa o jogo - e a briga

Jogo iniciado, a Holanda parecia mostrar que tentaria ser dominante como fora contra Argentina (mais) e Alemanha Oriental (menos). Tanto que a primeira falta da partida seria brasileira (Valdomiro em Neeskens, aos 2'). Mais alguns minutos, e aos 6', viria a primeira grande chance de gol, repetida até hoje em reportagens sobre aquele jogo - e sobre Johan Cruyff, de modo geral: Van Hanegem deixou a bola com Jansen, que cruzou da direita. Zé Maria rebateu parcialmente, Cruyff chutou e Leão fez defesa ótima - até hoje, o goleiro brasileiro se orgulha (com justiça) do "Número 14" achar aquela uma das melhores defesas que viu na carreira. E Leão não teria de prestar atenção só ali, porque, no escanteio da sequência, Van Hanegem mandou de voleio, por cima do gol. Só que o bom começo holandês ficou por ali.

Pausa incomum feita aos 10' - minuto de silêncio, impecável, em memória do presidente argentino Juan Domingo Perón, dois dias antes -, começou algo que só o tempo deixou claro: sim, o Brasil tentou atacar a Holanda. Do lado da Laranja, era unânime, como sempre foi: mais do que cuidados na defesa, o impacto psicológico de enfrentar o tricampeão mundial pesou por algum tempo em campo. E a Seleção, jogando de azul, se aproximou do ataque. Aos 11', dois impedimentos: primeiro de Paulo César Caju, depois de Valdomiro (aparecendo bastante na ponta direita). Logo depois, aos 13', Valdomiro chegou livre à área com a bola, mas hesitou na finalização, a bola passou por baixo de Jongbloed, e só então Krol afastou o perigo. Mais um pouco, e aos 16', Valdomiro bateu de fora da área, e o goleiro holandês defendeu.

Do meio do primeiro tempo adiante, mais um aspecto que só o tempo deixaria claro: as tantas faltas trocadas entre Brasil e Holanda (Países Baixos), com os holandeses cometendo mais faltas (30, contra 25 brasileiras), mesmo sem levarem cartões amarelos na etapa inicial, contra três brasileiros. Começou aos 18', com Van Hanegem derrubando Paulo César Caju no meio. Depois, aos 30', após Leão rebater chute de Rensenbrink, começaram as brigas, originadas por empurrão de Suurbier em Zé Maria: outros brasileiros tomaram as dores do zagueiro, holandeses também entraram no meio, e no fim, só Luís Pereira levou cartão amarelo. Foi a senha. Sem bola, Rivelino foi golpeado por Van Hanegem; aos 39', após disputa dura entre Rep e Zé Maria, o lateral direito brasileiro seguiu na jogada e agarrou Cruyff pelas pernas, também levando cartão amarelo. Mais dois minutos, e também sem bola, Marinho Peres bateu na cabeça de Neeskens, que caiu aparentemente desmaiado. 


Por sinal, na sequência deste último lance, o Brasil teve mais uma grande chance: Zé Maria cruzou, Dirceu ajeitou na entrada da área, Paulo César Caju bateu, a bola ricocheteou em Rijsbergen na área, e sobrou para Jairzinho bater para fora, rente à trave esquerda de Jongbloed. Antes disso, aos 25', já houvera uma chance que poderia ter colocado o time de Zagallo em vantagem: Rivellino passou a bola no meio, Dirceu ajeitou, e Paulo César Caju finalizou cruzado, também rente à trave direita. O lance foi invalidado, por impedimento de Caju. Impedimento por muito pouco.

Era claro, até por Jansen não ter aparecido tanto para ajudar o meio-campo, mais recuado, enquanto Cruyff ditava o jogo e Neeskens o acelerava: o Brasil estava pressionando a Holanda no ataque, tanto quanto a Holanda o fazia (em lances como chute de Rensenbrink, de fora da área, aos 33', pego por Leão). Se a torcida holandesa gritava mais - Neeskens era festejado, e quando deu a pancada na cabeça, Marinho Peres foi ofendido com o "hi, ha, hondelul" (no popular, "pinto de cachorro") -, o Brasil também tinha sua torcida aparecendo mais. De certa forma, um cenário que dava razão ao que Leão falou, em 2011, em depoimento aos pesquisadores Bernardo Borges Buarque de Hollanda e Bruno Romano Rodrigues, para o projeto de memória "Futebol, Memória e Patrimônio", parceria do Museu do Futebol com a Fundação Getúlio Vargas: "Nós só não ganhamos da Holanda e eliminamos a Holanda no primeiro tempo por uma questão de erros individuais. Poderíamos ter ganho".

Só no segundo tempo a Holanda se aprumaria.

A vitória mais comemorada

A Laranja tentara o gol, mas estivera nervosa no primeiro tempo. Como nunca tinha estado naquela Copa. Teria de resolver isso no segundo tempo. A tarefa seria facilitada por ótima atuação de Cruyff, superando a gripe para fazer o que já sabia: ditar o jogo, apontar posicionamentos, acelerar o jogo com passes em profundidade. Foi assim que surgiu o melhor jeito dos neerlandeses se acalmarem: um gol. Aos 50', após Dirceu cometer falta, Van Hanegem cobrou rápido, Neeskens ajeitou para Cruyff, este cruzou, e após leve desvio em Marinho Peres, a bola ficou à feição para Neeskens fazer 1 a 0, de carrinho, encobrindo Leão.

O gol de Neeskens foi a calma de que a Holanda precisava para, enfim, dominar o Brasil, somente no segundo tempo da partida (Bert Verhoeff/Anefo)

Ficar na frente do placar fez com que a Holanda tivesse mais espaço para atacar - algo notado pelos avanços mais frequentes de Jansen, e por tentativas como o chute de Neeskens, de fora da área, que Leão pegou aos 54'. O que não quer dizer que o Brasil não tentasse o ataque, ainda. Aos 59', Valdomiro ficara à feição para finalizar após cobrança de falta, mas estava impedido. E aos 63', um cruzamento despretensioso de Marinho Chagas foi espalmado, meio atabalhoadamente, por Jongbloed (que, como se nota, se tinha qualidades na reposição de bola e nas antecipações, era um goleiro desajeitado no posicionamento). Precisando virar o jogo para chegar à final, já que o empate era vantagem da Laranja, o Brasil tentou mudar o ataque, com a entrada de Mirandinha no lugar de Paulo César Caju.

Mas aos 65', veio o lance que para sempre estará na cabeça dos holandeses, como símbolo de que nada impediria a chegada à final. Ruud Krol, por exemplo, se emocionou ao descrever a jogada ao jornalista Auke Kok: teve liberdade para avançar (coisa que não vinha acontecendo na partida), tabelou com Rensenbrink, cruzou, e Cruyff chegou para escorar na pequena área e fazer o 2 a 0. Foi a senha para a torcida holandesa celebrar mais e mais. A vitória contra o Brasil estava próxima.

Só que algo comum em todo o jogo também continuou, mesmo com a vantagem holandesa: as brigas. Aos 67', Haan atingiu sem bola a virilha de Zé Maria; aos 69', após derrubar Rivellino, Rep levou cartão amarelo, e deu motivo para mais uma briga rápida entre brasileiros e holandeses. Mais quatro minutos, e Marinho Chagas foi derrubado por trás, por Suurbier - para revidar a falta, deu com as travas da chuteira na cara do lateral direito holandês. Mas somente o brasileiro levou amarelo do juiz alemão ocidental Kurt Tschenscher - criticado principalmente por dar cartões preferencialmente aos brasileiros, deixando apenas nas broncas as faltas holandesas, em maior número. Zagallo, inclusive, criticou a postura de Tschenscher, em declarações estampadas ao Jornal do Brasil: "Perdemos a possibilidade de conquistar o título, numa partida altamente técnica, mas várias vezes desvirtuada pela violência. Quero deixar claro que não foram os jogadores brasileiros que a iniciaram. O que os nossos fizeram foi apenas revidar as entradas brutais de alguns adversários, e que estavam sendo permitidas pelo juiz".

De todo modo, o cartão mais simbólico da violência daquele jogo veio depois, aos 84', e foi justo: com espaço e bola para seguir avançando, Neeskens foi atingido por um carrinho alto de Luís Pereira, prontamente expulso com o cartão vermelho. O zagueiro brasileiro saiu do campo tentando manter o Brasil por cima: contra a torcida holandesa que lhe atirava copos (no banco de reservas em frente, imediatamente os holandeses pediram que parassem com aquilo), "Luís Chevrolet" mostrava a camisa azul e fazia o número três com os dedos, indicando que a tradição maior no futebol era brasileira, três vezes campeões mundiais. O médico da delegação holandesa, Frits Kessel, chegou a exagerar, imaginando que Luís Pereira estivesse dopado, tal era a raiva do zagueiro.

Mesmo expulso, Luís Pereira (acalmado por Rivellino) fez questão de ressaltar aos torcedores holandeses: o Brasil é que já tinha tradição. Mas a vaga na final era da Laranja (Bert Verhoeff/Anefo)

Só que a final era holandesa. A comemoração da vaga na final era da Laranja. Jogo terminado em Dortmund, os brasileiros reconheceram que, jogo duro à parte, ela merecera (Rivellino: "Eles possuem um grande time, não resta a menor dúvida"; Paulo César Carpegiani: "A Holanda pratica um futebol que tem espetáculo e é de competição"). Rinus Michels falou ao diário Algemeen Dagblad de 4 de julho, dia seguinte, da suposta violência brasileira (por mais que, repita-se, a Holanda tivesse cometido mais faltas, em número): "O Brasil não perdeu só no futebol, perdeu também sua cara. A máscara dos brasileiros caiu". Neeskens, a vítima maior das faltas, também se impressionou, no mesmo jornal: "Eu já estou acostumado, mas nunca vivi nada igual. Eles faziam de tudo, principalmente se fosse sem bola. Faltas horríveis". Muitos anos depois, Ruud Krol se "orgulhou" da dureza da partida, em depoimento a Auke Kok: "O jogo teve tudo. Jogadas bonitas, briga, dureza. Foi uma luta. O juiz deixou muita coisa acontecer, e gosto disso, ver até onde posso ir. (...) É o bacana do futebol de alto nível. Éramos ótimos jogadores, podíamos jogar bem e bater. Faz parte do jogo".

E a Holanda vencera o Brasil. Na bola e no pau. Estava na final.


COPA DO MUNDO FIFA 1974 - SEGUNDA FASE - GRUPO A

Holanda 2x0 Brasil

Data: 3 de julho de 1974
Local: Waldstadion (Dortmund)
Árbitro: Kurt Tschenscher (Alemanha Oriental)
Gols: Johan Neeskens, aos 50', e Johan Cruyff, aos 65'

HOLANDA
Jan Jongbloed; Wim Suurbier, Arie Haan, Wim Rijsbergen e Ruud Krol; Wim Jansen, Willem van Hanegem e Johan Neeskens (Rinus Israël, aos 81'); Johan Cruyff; Robert Rensenbrink (Theo de Jong, aos 67') e Johnny Rep. Técnico: Rinus Michels

BRASIL
Leão; Zé Maria, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas; Paulo César Carpegiani, Rivellino e Paulo César Caju (Mirandinha, aos 61'); Valdomiro, Jairzinho e Dirceu. Técnico: Zagallo

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O Brasil x Holanda de 1989: sobre expectativa e realidade

Van Breukelen cai lamentando, Romário comemora: Careca tinha acabado de fazer o gol da vitória do Brasil, num amistoso contra a Holanda que poderia ter sido muito mais (Arquivo)

Nos idos de 1989, um amistoso entre as seleções de Brasil e Holanda (Países Baixos) era de causar ansiedade em quem acompanhasse futebol. Ainda mais no final daquele ano. Também, pudera. Tratar-se-ia - bela mesóclise - do encontro entre o campeão sul-americano e o campeão europeu daquela época. De um lado, Ronald Koeman, Frank Rijkaard, Ruud Gullit, Marco van Basten e companhia bela; do outro, Careca, Romário, Bebeto, Branco, Taffarel e outra companhia não menos capacitada. Essa era a expectativa. A realidade do amistoso ocorrido há exatos 35 anos, para celebrar os 100 anos de fundação completados então pela KNVB (Koninklijk Nederlandse Voetbalbond, a federação holandesa), com vitória brasileira (1 a 0), foi um pouco diferente.

E foi diferente, principalmente, pelo lado da Laranja. Em primeiro lugar, porque o time neerlandês já não brilhava como na Euro 1988. O técnico Thijs Libregts enfrentava dificuldades no relacionamento com os jogadores - seria demitido antes mesmo da Copa de 1990. Um pouco por isso, um pouco pela autossuficiência dos jogadores, a campanha nas eliminatórias da Copa foi inferior ao que se esperava: mesmo com a classificação garantindo a volta da Oranje a um Mundial, após 12 anos de ausência, ela marcou menos gols na qualificação do que a Alemanha Ocidental, adversária de grupo (e futura campeã mundial). Para completar, vários dos destaques holandeses acabariam ausentes do amistoso em De Kuip, o estádio do Feyenoord. 

Em primeiro lugar, Ruud Gullit ficaria fora de qualquer maneira: a "Tulipa Negra" se recuperava de uma cirurgia no joelho, que perturbaria até sua participação na Copa do Mundo. Também por cirurgia no joelho, o atacante (ponta) Gerald Vanenburg seria mais um ausente. Marco van Basten e Frank Rijkaard até foram convocados, mas três dias antes do amistoso, disputaram pelo Milan a final do Mundial Interclubes, contra o Atlético Nacional colombiano. Final difícil, mas vencida (Milan 1 a 0, na prorrogação, gol marcado a um minuto do fim), a federação esperava que a dupla fosse liberada pelo clube italiano - mas, até obviamente, o Milan censurou, e os dois foram desfalques. No caso de Ronald Koeman, se dependesse de Johan Cruyff (técnico do Barcelona, onde Koeman jogava), o zagueiro também teria de ficar no clube. Por fim, Koeman foi liberado, mas só jogaria o primeiro tempo. 

Já que não era possível contar com Gullit, nem com Rijkaard, nem com Van Basten, a Holanda teve estreantes contra o Brasil: Laamers (à esquerda) e Sturing, por exemplo (Arquivo ANP)

De todo modo, Thijs Libregts usaria mais o jogo para testar novidades, como o lateral direito Edward Sturing e o atacante Bart Latuheru, ambos do Vitesse, ambos convocados pela primeira vez. Outro estreante era o meio-campista Adri van Rooy, do Antuérpia-BEL. Que motivou até uma gafe: Van Rooy já tinha agendada uma operação na virilha, o Antuérpia cobrou que a federação bloqueasse a convocação, e Van Rooy foi liberado (nunca mais voltaria a ser convocado). De quebra, mais dois seriam dispensados pelo mesmíssimo caso (operação na virilha): o meio-campo Henk Fräser e o atacante Pieter Huistra. Para repor a lacuna do corte deste, aliás, foi chamado outro atacante: o ponta-esquerda Frank Berghuis, do Volendam, pai de Steven Berghuis, atual atacante do Ajax.

Para o Brasil, que nunca tinha vencido a Holanda (dois jogos oficiais e duas derrotas até ali), também haveria cansados. Mais precisamente, dois: Bebeto e Ricardo Rocha. Se do lado europeu, o Milan disputara a final do Mundial Interclubes, o lado brasileiro teve a final do Campeonato Brasileiro, em 16 de dezembro, sábado anterior, com um nome de cada lado - Bebeto pelo Vasco (que seria campeão), Ricardo Rocha pelo São Paulo. Ambos seriam os únicos liberados para viajarem aos Países Baixos: Mazinho, lateral esquerdo vascaíno e da Seleção, também chegou a ser liberado, mas o clube da Colina negou que a CBF o convocasse, momentos antes da viagem. Ainda assim, a impressão brasileira era de otimismo. Quando nada, porque o título da Copa América tinha minimizado bastante as desconfianças sobre o trabalho de Sebastião Lazaroni à frente da Seleção - incluindo suas novidades, como jogar com três zagueiros, algo (muito) incomum no futebol brasileiro da época. Além do mais, em outubro, o Brasil já vencera outro amistoso badalado naquele ano: 1 a 0 na Itália, sede da Copa-1990, em Bolonha.

Além do mais, 13 dos 16 convocados brasileiros (lista abaixo) já tinham trajetória elogiada em clubes europeus. Bastava citar Careca, só abaixo de Maradona em importância no badalado Napoli, campeão da Copa da UEFA naquele 1989 - também contando com o meio-campo Alemão. Ou Dunga, já então estabilizado na Fiorentina e na Seleção. Ou Mozer, bem no Olympique de Marselha francês, que teria sua chance como líbero entre os três zagueiros, já que Mauro Galvão (titular sob Lazaroni, na maioria das vezes) estava machucado. Ou alguns reservas, como o zagueiro Júlio César (elogiado na Copa de 1986, convocado pela primeira vez por Lazaroni, atuava pelo Montpellier-FRA, e iria para a Juventus no ano seguinte) e o meio-campo Geovani (que tivera chances aqui e ali na Seleção, fora o destaque no torneio olímpico de Seul-1988, e estava no Bologna-ITA). Ou... Romário, a grande estrela justamente do Campeonato Holandês naquela época, pelo PSV. Aliás, Romário elogiou um adversário holandês que era seu colega de clube em Eindhoven: o atacante Juul Ellerman. "É um craque".

Entre tantos brasileiros jogando no exterior em 1989, Romário era o mais marcante do amistoso. Também, pudera: brilhava no PSV (Jeroen van Bergen/Soccrates Images)

Antes do jogo, Sebastião Lazaroni ansiava, ao Jornal do Brasil, querendo que Van Basten e Rijkaard jogassem: "Os dois são estrelas no clube e na seleção. Quero ver como nossa defesa cerca o caminho deles. No último jogo que fizemos contra o Milan [empate em 0 a 0, amistoso em junho de 1989], Mozer acabou com Van Basten. Quero ver Mozer novamente contra ele". Viagem feita para terras holandesas, as baixas temperaturas - Roterdã teve temperatura de dois graus positivos - preocupavam Lazaroni, que lembrou experiência anterior com frio, num amistoso do Flamengo, que treinava, contra a Fiorentina ("Com dez minutos, já perdíamos de 3 a 0. Depois reagimos, fizemos dois gols, mas não houve como empatar"). Por isso, sua escalação traria Dunga e Alemão para proteger o meio-campo. E Lazaroni elogiava a Holanda para justificar a cautela: "É uma seleção forte, técnica, criativa e que marca muito bem. Está no mesmo nível de 1974".

De todo modo, após um longo pré-jogo (incluiu até cumprimentos dos jogadores das duas equipes à rainha Beatriz, monarca dos Países Baixos na época), o começo da partida em De Kuip chamou mais a atenção pela placa de propaganda da Opel que mencionava Romário (a fabricante de carros perguntava "Romário, hoe bevalt je nieuwe Opel?" - em holandês, "Romário, o que achou do seu novo Opel?") do que pelo nível técnico. Se alguma equipe chamou mais a atenção, foi o Brasil. Primeiro, pelos vários avanços de Jorginho na lateral direita. Depois, pelo entrosamento do ataque - que causou as primeiras chances, como aos 6', num chute cruzado de Careca, para fora, após passe de Romário. Essas duas características vistas em De Kuip também se fizeram notar aos 24', quando Jorginho cruzou, Careca tentou completar para o gol, mas chegou atrasado. 

A placa de publicidade que evocava Romário: "O que achou do seu novo Opel?" (Reprodução)

No meio-campo, a Holanda já desfalcada sofreu ainda mais: aos 17', Ellerman se machucou ao ser atingido por Dunga, tentou seguir por mais alguns minutos, mas não aguentou e teve de dar lugar a Aron Winter, tornando o meio mais defensivo. Do lado holandês, perigo só ocorreu aos 37': Berghuis chutou cruzado, Taffarel soltou a bola na área, e Mozer afastou. Mas a última chance brasileira, aos 41', pode ser considerada até "premonitória". Afinal, Branco bateu falta de fora da área, e o goleiro Hans van Breukelen rebateu forte, meio no susto. Uma falta de Branco, contra a Holanda (Países Baixos). Cinco anos depois, seria exatamente assim que sairia o gol da vitória brasileira, por 3 a 2, no marcante jogo entre ambas, pelas quartas de final da Copa de 1994.

Antes do intervalo, Pelé (comentando o jogo na transmissão da TV Globo), até alertou que, para o gosto dele, o Brasil tinha "atacado demais pela direita". Ainda assim, a impressão da atuação brasileira tinha sido melhor do que a da holandesa. Melhoraria ainda mais no segundo tempo. Porque, em que pese o começo da chuva em Roterdã, a substituição de Ronald Koeman (que iniciava todas as saídas de bola holandesas) fez a qualidade pequena da Laranja naquele amistoso cair ainda mais. E logo após uma tentativa de Romário, aos 51', após falta cobrada por Branco, surgiu o gol: aos 54', Dunga acelerou a jogada com um lançamento para Jorginho. O lateral direito cruzou, e Careca cabeceou no contrapé de Van Breukelen para o 1 a 0 brasileiro.

Foi, praticamente, o último lance de emoção no amistoso. Mesmo com as entradas de alguns nomes importantes, como John van't Schip e Danny Blind, a Holanda seguiu mostrando pouco em campo, vitimada por tantos desfalques. O Brasil, mesmo sem pressionar demais, teve mais atacantes entrando (Bebeto e Muller) e até teve chances para ampliar (aos 75', Bebeto chutou de fora da área, forçando a defesa de Van Breukelen). Chegou à vitória que ampliou ainda mais o otimismo com que a Seleção terminou 1989 rumo à Copa: na edição do dia seguinte, em sua coluna no jornal O Globo, Juca Kfouri comentou que "o tetra está tão perto que dá até medo".

Ainda assim, a impressão tinha sido de um jogo monótono. A opinião mais frequente era citada no Jornal do Brasil, também de 21 de dezembro de 1989: "Todos afirmaram que, estivesse a Holanda com seu time completo, mesmo com o frio, as duas equipes teriam realizado um dos melhores jogos do ano". Mas a expectativa tinha se chocado com a realidade: os machucados e os não liberados tinham inviabilizado isso. E as duas seleções decepcionariam na Copa de 1990. Só que dessa realidade ninguém tinha como saber ainda...


(Os melhores momentos de Brasil 1x0 Holanda, amistoso, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno, e os comentários de Pelé e Arnaldo Cezar Coelho. Postado no YouTube por Flávio Baccarat)

FICHA DO JOGO

Holanda 0x1 Brasil

Data: 20 de dezembro de 1989
Local: De Kuip (Roterdã)
Árbitro: Werner Föckler (Alemanha Ocidental)
Gol: Careca, aos 54'

BRASIL
Taffarel; Aldair (Júlio César, aos 46'), Mozer e Ricardo Rocha; Jorginho, Dunga (Silas, aos 74'), Alemão, Valdo e Branco; Romário (Bebeto, aos 58') e Careca (Müller, aos 74'). Técnico: Sebastião Lazaroni
 
HOLANDA
Hans van Breukelen; Edward Sturing, Ronald Koeman (Martin Laamers, aos 46') e Adri van Tiggelen; Berry van Aerle, Jan Wouters (Danny Blind, aos 69'), Rob Reekers e Frank Berghuis (John van't Schip, aos 58'); Bart Latuheru, Wim Kieft (John van Loen, aos 78') e Juul Ellerman (Aron Winter, aos 21'). Técnico: Thijs Libregts

OS CONVOCADOS

BRASIL (em negrito, os cortados)
Goleiros: Taffarel (Internacional) e Zé Carlos (Flamengo)
Defensores: Jorginho (Bayer Leverkusen-ALE), Aldair (Benfica-POR), Mozer (Olympique de Marselha-FRA), Ricardo Rocha (São Paulo), Júlio César (Montpellier-FRA), Branco (Porto-POR), Mazinho (Vasco) e Dida (Palmeiras)
Meio-campistas: Dunga (Fiorentina-ITA), Alemão (Napoli-ITA), Valdo (Benfica-POR), Silas (sem clube na época) e Geovani (Bologna-ITA)
Atacantes: Careca (Napoli-ITA), Romário (PSV-HOL), Bebeto (Vasco) e Muller (Torino-ITA)

HOLANDA (em negrito, os cortados)
Goleiros: Hans van Breukelen (PSV) e Joop Hiele (Feyenoord)
Defensores: Berry van Aerle (PSV), Edward Sturing (Vitesse), Danny Blind (Ajax), Ronald Koeman (Barcelona-ESP), Frank Rijkaard (Milan-ITA), Rob Reekers (Bochum-ALE) e Adri van Tiggelen (Anderlecht-BEL)
Meio-campistas: Jan Wouters (Ajax), Aron Winter (Ajax), Adri van Rooy (Antuérpia-BEL), Martin Laamers (Vitesse) e Henk Fräser (Roda JC)
Atacantes: Marco van Basten (Milan-ITA), Wim Kieft (PSV), Frank Berghuis (Volendam), Bart Latuheru (Vitesse), Juul Ellerman (PSV), John van't Schip (Ajax) e John van Loen (Roda JC)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

O Brasil x Ajax de 1979: uma goleada, dois destaques

O Brasil goleou o Ajax em junho de 1979. E foi com dois gols e entrosamento com Zico que Sócrates, aniversariante deste 19 de fevereiro, começou a exibir seu talento nacionalmente (Gazeta Press)

Este é um texto que poderia ser publicado no dia 3 de março, quando Zico completará 71 anos de idade. Mas também pode - e será - publicado neste 19 de fevereiro, em que Sócrates (1954-2011) completaria 70 anos. Em primeiro lugar, porque qualquer coletânea de imagens retrospectivas da carreira do "Doutor" dentro de campo sempre destaca o gol com que ele abriu o placar, na goleada da Seleção Brasileira sobre o Ajax, num amistoso em 21 de junho de 1979 - aqui, o jogo na íntegra. Em segundo lugar, porque o gol foi só o começo: esta foi uma das primeiras partidas em que o meio-campista que se tornaria ícone na história do Corinthians chamou a atenção pela Seleção. Dividindo o espaço com Zico (que superou até um boicote). Embora ninguém soubesse, a dupla mostraria boa parte da técnica que impressionaria na Copa do Mundo, três anos depois. Aliás, é possível dizer que ninguém sabia, mas aquele momento de 1979 marcava o nascimento da equipe que faria papel elogiável na Copa de 1982, após idas e vindas. 

Antes do jogo: um Brasil que começava, um Ajax que iria mudar

Ainda técnico da Seleção no ano de 1979 - dividia-a com o comando do Flamengo -, Cláudio Coutinho (1939-1981) já pensava e adotava um tipo de jogo mais ofensivo do que as atuações cautelosas, até em excesso, na campanha da Copa de 1978. Tanto que muitos dos escalados para enfrentar o Ajax estariam na Espanha, três anos depois. Na zaga, Oscar e Edinho - este, reserva na Copa de 1982; no meio-campo, Falcão (a ausência mais criticada no Mundial do ano anterior), Toninho Cerezo e Zico; e Sócrates sendo experimentado como atacante. Além deles, havia outras experiências com nomes de frente. Jogariam o ponta direita Nilton Batata, um dos destaques do Santos campeão paulista de 1978 havia algumas semanas (sim, a decisão do título estadual de 1978 foi em junho de 1979); o ponta esquerda Joãozinho, causando furor no Cruzeiro com seus dribles; e tanto o meio-campo Zenon como o atacante Renato, ambos símbolos do Guarani campeão brasileiro do ano anterior. Isso, sem contar mais nomes da Copa de 1978, como o lateral direito Toninho, e o goleiro Leão, já considerado um símbolo de sua posição no país, naquela época. Em suma, o amistoso contra o Ajax era um teste importante para o Brasil. Até porque, no mês seguinte, viria a Copa América.

No Ajax, o clima era de férias, já que a temporada 1978/79 estava terminada. E ela estava bem terminada, até porque o clube comemorava mais um título holandês. De quebra, o nível técnico era elogiável, tanto que o time de Amsterdã seria semifinalista da Copa dos Campeões (o formato antigo da Liga dos Campeões) na temporada seguinte. Ainda assim, se sabia: era uma equipe muito, muito diferente do "Gloria Ajax" que impressionara o mundo no começo daquela década de 1970, com Johan Cruyff à frente. O único remanescente daqueles tempos era Ruud Krol. Ainda assim, o próprio Krol, já experiente (30 anos em 1979), já declarara que pensava em correr mundo, após tanto tempo em Amsterdã. Em 5 de junho daquele ano, ao diário Het Vrije Volk, Krol reconhecia: "Não consigo mais ter a vontade exigida para jogar por este clube. Uma mudança de ares faria bem. Já tive de jogar o suficiente neste mundinho".

Após o título holandês na temporada 1978/79, o Ajax partiria para uma excursão pela América do Sul antes das férias. Mas mudanças viriam (Voetbal International)

Mas Krol só deixaria o Ajax no ano seguinte, 1980, rumando para o Napoli-ITA. Em 1979, ele ainda capitanearia o clube, que ganhou o título holandês com goleada na última rodada - 8 a 1 no Twente, em 10 de junho - e rumou quase imediatamente para uma excursão sul-americana. Antes, a imprensa informou que ela começaria na Argentina, passaria pelo Uruguai, e terminaria no Brasil (o diário Algemeen Dagblad ainda disse que o jogo contra a Seleção estava indefinido, mas ele foi confirmado). E a delegação do Ajax veio à América do Sul pensando numa escalação quase titular. Os destaques jogariam: além de Krol, os mais falados eram os pontas Simon Tahamata (esquerda - considerado o grande talento técnico do Ajax, Tahamata começava sua passagem rápida pela seleção da Holanda) e Tscheu La Ling (direita). No meio-campo, estavam dois nomes dinamarqueses que se tornariam mais conhecidos nos anos 1980: Soren Lerby e Frank Arnesen. Porém, um dos principais destaques Ajacieden da época, o atacante inglês Ray Clarke, seria poupado da viagem. E entre os goleiros, o reserva Peter Jager teria preferência sobre o experiente Piet Schrijvers, que ficara em Amsterdã, machucado.

Com a passagem pelo Uruguai cancelada, o Ajax acabou ficando mais tempo do que esperava na Argentina. Fez três amistosos, com duas derrotas por 3 a 2, para River Plate (em 12 de junho - ao diário De Telegraaf, Ruud Krol se queixou: "O River Plate nos recebeu com dureza, foi um jogo tipicamente sul-americano") e Racing (em 14 de junho, no estádio do Vélez Sarsfield - o Racing se sagrara campeão argentino). Só haveria uma vitória do Ajax em campos argentinos, igualmente por 3 a 2, contra o Talleres, em 16 de junho de 1979. 

E depois, a delegação do Ajax já veio para o Brasil. A curiosidade era mútua, como Ruud Krol deixou claro ao De Telegraaf: "Na Argentina, só conhecem os jogadores do Ajax que também estão na seleção. O Ajax é mais famoso no Brasil, mas acho que as pessoas esperam uma equipe tão forte como a que tínhamos há seis anos. Também estamos muito curiosos com o nível técnico do Brasil". Do lado brasileiro, a curiosidade maior ia para um jogador: Simon Tahamata. Em relato para a revista Placar sobre o amistoso contra o River Plate, o jornalista argentino Pedro Urquiza alertou: "[Tahamata é] miúdo, de notável habilidade. Craque, irá dar muito trabalho a Toninho. Sabe lançar com precisão e fazer tabelas". Ao De Telegraaf, Cláudio Coutinho era até simpático ao atacante descendente de indonésios: "Gosto de ver Tahamata jogar. Ele devia vir jogar aqui [no Brasil], iria se dar bem".

Tahamata causava boa impressão, em seu surgimento no Ajax, naqueles idos (ANP)

Enfim, por mais que o favoritismo fosse do Brasil, havia respeito pelo Ajax, como a revista Placar resumiu: "O Ajax versão 1979 nada tem a ver com o time histórico da era Cruyff. Mas continua perigoso".

O jogo: Sócrates brilha no 1º tempo, Zico vence o boicote na etapa final

Contudo, bastou o jogo começar no estádio do Morumbi para que se visse: o Ajax estava em marcha lenta demais para aguentar o ritmo ofensivo que a Seleção Brasileira impôs desde que a bola rolou - só criou uma chance, aos 45', num voleio de La Ling para fora. Krol e seu companheiro de zaga, Piet Wijnberg, até tentaram sair com a bola para alguns ataques. E tanto o falado Tahamata quanto La Ling tentaram criar jogadas pelas pontas. Mas Oscar e Edinho, a dupla de zaga brasileira, nem sofreu muito para contê-los. No meio-campo, Falcão começava a se destacar, com passes longos, e Cerezo mostrou velocidade.

Só que, também desde os primeiros minutos, Sócrates deixou claro: o teste com ele como atacante (não se usava essa gíria, mas era um "falso 9") daria muito certo. Voltando para buscar a bola, o "Doutor" acelerava jogadas com seus habituais toques de calcanhar. E coroou essa ótima atuação já no primeiro gol, aos 9'. Foi o gol citado no começo deste texto. E será sempre evocado em qualquer coletânea de imagens que mostre a inteligência do "Magrão", como os mais próximos o chamavam. Falcão lançou a bola do meio-campo. Sócrates a dominou. Com um giro de corpo, se livrou da marcação de Krol e Wijnberg. E chutou colocado, no canto esquerdo de Jager, para fazer o golaço do 1 a 0.

(O primeiro gol de Brasil 5x0 Ajax, marcado por Sócrates, na transmissão da TV Cultura de São Paulo, com a narração de Luis Noriega. Exibido em 1992, no programa "Grandes Momentos do Esporte")

Sócrates não parou por aí na partida. Era sempre opção de jogo, principalmente com Nílton Batata: isso se veria aos 10', quando ele passou para Nílton chutar por cima do gol de Jager. Pouco depois, aos 14', e um chute do camisa 9 (sem usar a 8 que o tornou conhecido, principalmente, no Corinthians) atingiu o travessão. Os outros destaques do Brasil apareceram ao longo dos 45 minutos iniciais: Falcão tentou aos 21', Zico cobrou bem falta aos 34', e Jager apareceu com duas defesas. Mas Sócrates terminou o primeiro tempo ressaltando o "cartão de visitas" que dava em seu segundo jogo pela Seleção. Aos 44', após troca de passes, Toninho lançou pela direita, Nílton Batata cruzou, e o paraense fez 2 a 0 completando para o gol vazio. Já fazia por merecer a manchete que o diário De Volkskrant estampou, em 23 de junho de 1979, na notícia sobre o amistoso: "De uitblinker Socrates leest Ajax de les" (em holandês, "O destaque Sócrates dá lição ao Ajax").

Com a vantagem no placar, Cláudio Coutinho já começou o segundo tempo fazendo mais alterações. No gol, Carlos substituiu Leão; no meio-campo, Zenon estreava pela Seleção, substituindo Toninho Cerezo. E se viram dois méritos brasileiros. Em primeiro lugar, Zico e Sócrates começaram a trocar mais de posição no ataque, complicando ainda mais o Ajax. Em segundo lugar, Toninho, lateral bastante ofensivo (já jogara assim na Copa de 1978), teve o prêmio de seu gol, aos 54', após passe em profundidade de Joãozinho. E aí, foi a vez de Zico ser o destaque, superando um boicote que andava popular por aqueles tempos. Mesmo que já tivesse destaque desde o seu primeiro jogo pela Seleção Brasileira (em 25 de fevereiro de 1976, fez os dois gols da vitória por 2 a 1 sobre o Uruguai, em Montevidéu, na Taça do Atlântico, triangular amistoso que tinha ainda a Argentina), o "Galinho de Quintino" ainda era visto fora do Rio de Janeiro como alguém que tinha fama demais e bola de menos. Fora dos domínios fluminenses, era chamado pejorativamente de "craque de Maracanã".

Mesmo já a passos firmes no caminho de se tornar o maior jogador da história do Flamengo, mesmo já nome fundamental na Seleção, muitos paulistas duvidavam de Zico. Em matéria no programa Esporte Espetacular, da TV Globo, em 2021, o ex-jogador comentou que apenas dois jornalistas de rádio lhe enalteciam em São Paulo: Fausto Silva, então repórter esportivo da Rádio Globo paulista, e Wanderley Nogueira, já ativo então na Rádio Jovem Pan em que ainda está. Nos treinos antes do amistoso, já no Morumbi, ele chegou a ser vaiado ao perder um pênalti. E o boicote teve um capítulo negativo no segundo tempo. Zico fez o quarto gol (aos 70', tocando na saída do goleiro após Renato ajeitar lançamento) e o quinto (aos 75', após jogada individual de Joãozinho). Obviamente, o placar estava em 5 a 0 para o Brasil. Entretanto, por pura birra, o placar do Morumbi ficou fixo em 3 a 0, como se omitisse os gols de Zico, como se não servissem de nada. Na reportagem citada, Zico diz que só notou o boicote quando Zenon veio festejar um dos gols com ele e lhe falou que não ligasse, que ignorasse a deselegância.

Naquela época, Zico sofria com o boicote de parte - até grande - de quem acompanhava futebol em São Paulo. Começou a vencer isso com dois gols contra o Ajax, mesmo sem o registro no placar do Morumbi (Gazeta Press)

Houve outros bons momentos do Brasil, como aos 67', num chute de Nílton Batata que Jager rebateu. O Ajax só chegou duas vezes, num chute de Tahamata aos 55' (Carlos pegou) e num arremate de Soren Lerby para fora após escanteio, aos 85'. O time de Amsterdã foi completo coadjuvante, numa ótima atuação do Brasil (o De Telegraaf estampou na manchete de 23 de junho: "Um Ajax sem chances contra o Brasil"). Aquela goleada indicou um caminho. Que passaria por solavancos: a Seleção seria eliminada nas semifinais da Copa América de 1979, Cláudio Coutinho seria trocado por Telê Santana com o advento da CBF (entidade originada naquele ano)... Mas, afinal, a boa impressão seria confirmada com alguns bons momentos na Copa de 1982.

Em grande parte, com a dupla Sócrates-Zico. Que começou a brilhar contra o Ajax.


Brasil 5x0 Ajax

Data: 21 de junho de 1979
Local: Estádio Cícero Pompeu de Toledo/Morumbi (São Paulo)
Árbitro: José Roberto Wright
Gols: Sócrates, aos 9' e aos 44', Toninho, aos 54', e Zico, aos 70' e aos 75'

BRASIL
Leão (Carlos, aos 46'); Toninho, Oscar, Edinho e Júnior; Falcão, Toninho Cerezo (Zenon, aos 46') e Zico; Nílton Batata, Sócrates (Renato, aos 62') e Joãozinho. Técnico: Cláudio Coutinho

AJAX
Peter Jager; Wim Meutstege, Piet Wijnberg, Ruud Krol e Peter Boeve; Søren Lerby, Dick Schoenaker e Frank Arnesen; Tscheu La Ling (Ton Blanker, aos 68'), Karel Bonsink (Ruud Kaiser, aos 72') e Simon Tahamata. Técnico: Cor Brom

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O dia em que a Holanda venceu o Brasil - com Pelé

O grande momento: Peet Petersen faz o gol de uma (na época) surpreendente vitória da Holanda contra o Brasil, na única vez em que Pelé enfrentou a Laranja (De Nieuwe Limburger/Arquivo)

A rigor, este é um texto que poderia (e deveria) ter sido feito em 2 de maio passado, quando a partida a ser relembrada completou 60 anos. Passou. Só que, se há um ótimo jeito de lembrarmos para sempre Edison Arantes do Nascimento (1940-2022), falecido há exatamente um ano, é lembrarmos uma partida dele com a camisa da Seleção Brasileira, da qual é o grande símbolo dos quase 110 anos de história. Mais: lembrar uma partida dele contra a seleção da Holanda, a única vez em que Pelé enfrentou a Laranja, a primeira partida oficial entre a Seleção e a Oranje. Mais ainda: uma partida em que a Laranja, na época uma seleção de terceiro escalão, ganhou da seleção que era então a bicampeã mundial.

O contexto antes do jogo: problemas aqui, defesa lá

A partida amistosa fazia parte de uma excursão que a Seleção Brasileira empreendia pela Europa. Excursão que já trazia muitos problemas à delegação, antes mesmo do desembarque em Amsterdã. Afinal de contas, os resultados eram ruins. Começando com uma derrota para Portugal (1 a 0, em Lisboa, em 21 de abril). O pior viria na segunda partida, contra a Bélgica, em Bruxelas, três dias depois. Nela, ocorreu um resultado que já traria problemas e críticas nos tempos atuais - e naquela época, 1963, com as memórias do bicampeonato mundial ainda recentes, era uma zebra inacreditável: uma goleada dos Diabos Vermelhos sobre a Seleção (5 a 1), impulsionada pelo ótimo preparo físico dos belgas (obra e graça do preparador físico Raoul Mollet). E mesmo na vitória de 28 de abril - 3 a 2 na França, em Paris -, a Seleção sofreu com tudo: sofreu com a defesa francesa, sofreu com o esforço, sofreu para vencer.

Preparo físico era justamente o grande problema daquela delegação brasileira. As constantes viagens daquelas semanas minavam a força do grupo convocado pelo técnico Aimoré Moreira (com Vicente Feola como uma espécie de "supervisor técnico"), que mesclava experiência (Gylmar, Djalma Santos, Zito, Pelé - mesmo com 23 anos, já tinha duas Copas na carreira -, Zagallo, Pepe e Mengálvio - estes dois, reservas no título na Copa de 1962) e juventude (além de Eduardo e Nei, promessas do Corinthians, e do botafoguense Rildo, lateral esquerdo na Copa de 1966, estavam naquela convocação futuros craques: o zagueiro Roberto Dias, do São Paulo, e Gérson, meio-campo que surgia no Flamengo, antes mesmo de migrar para o Botafogo e se eternizar como o "Canhotinha de Ouro"). A tal ponto de Pelé sequer ter jogado na goleada sofrida para os belgas, por causa de uma distensão muscular, que o perturbou por toda a excursão - e trazia fortes dúvidas sobre sua presença na escalação brasileira contra a Holanda. Elas só diminuíram quando o camisa 10 participou dos treinos leves em 30 de abril, no Estádio Olímpico de Amsterdã. Curiosidade: antes do treino, os jogadores brasileiros assistiram à goleada do Blauw-Wit (5 a 0) no De Graafschap, pela terceira fase da Copa da Holanda em 1963/64, no próprio estádio. Só depois da partida encerrada, eles treinaram - sob aplausos de torcedores holandeses. Durante o treino, Pelé teve fotos tiradas, para publicidade no Brasil. Chefe da delegação brasileira, João Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista de Futebol, apregoou - com erro involuntário: "Perdemos dos belgicanos [sic], mas vamos ganhar da Iolanda [sic]".

Mesmo em meio ao cansaço profundo, o Brasil arrumou força para treinar em Amsterdã (ANP Archief)

Falando na "Iolanda", e a Holanda, como estava? Muito, mas muito diferente de como ela apareceria de vez para o mundo do futebol, na Copa do Mundo, onze anos depois. Em primeiro lugar, porque era unânime: a Laranja jogaria defensivamente contra o Brasil. De acordo com o relato do jornalista Dácio de Almeida, que acompanhava aquela excursão pelo Jornal do Brasil, o técnico Elek Schwarz acreditava que a Holanda poderia render mais se ficasse fechada na defesa, porque era "a seu ver, o melhor [esquema] para derrotar a seleção brasileira, cujos jogadores apresentavam sempre um rendimento maior quando seu adversário os enfrenta em igualdade de condições, no 4-2-4, enquanto perdem a calma e se atrapalham quando têm que abrir um sistema defensivo compacto". Além do mais, faltava também força ofensiva, como alertava Aimoré Moreira ao Jornal do Brasil: "O ataque da Holanda dribla mal e chuta de longe, sem dar grandes preocupações. E isto eu não temo, pois Gylmar está em grande forma e tem sido o melhor da excursão".

O acúmulo de jogos também causava seus impactos aos neerlandeses. Quando nada, porque os jogadores vinham de uma rodada cheia do Campeonato Holandês, que rumava para o fim da temporada 1962/63, na qual o PSV seria o campeão. Curiosamente, o time de Eindhoven nem tinha nomes presentes na escalação de Elek Schwarz. Os destaques vinham do Feyenoord - como o experiente goleiro Eddy Pieters Graafland e o atacante Coen Moulijn, que ficou de fora da partida, exatamente por se machucar no 1 a 1 contra o ADO (futuro ADO Den Haag), pelo Campeonato Holandês, em 28 de abril, dias antes do amistoso. Ou então, do Ajax, que teria mais nomes entre os titulares: o zagueiro Tonnie Pronk, o meio-campo Bennie Muller, o atacante Henk Groot (outro destaque Ajacied, Sjaak Swart, estava machucado). Muitos deles estavam num ótimo resultado da Holanda, semanas antes: a vitória por 1 a 0 sobre a França, num amistoso. Muitos estariam num ponto baixo da história da Laranja, meses depois: a queda para Luxemburgo, nas eliminatórias da Euro 1964. Um símbolo de como eram outros tempos, e de como a Holanda era um país de terceiro escalão no futebol europeu.

O amistoso: Pelé por pouco tempo, goleiros destacados, Petersen herói na frente

Quando as duas seleções entraram em campo no Estádio Olímpico de Amsterdã, Pelé ia para o sacrifício: mesmo com o médico da delegação brasileira, Hilton Gosling, ainda tendo amplos cuidados - Coutinho estava pronto para ser titular -, o camisa 10 começaria jogando. Sorte que Djalma Santos não teria: Lima, ganhando espaço no Santos, teria chance na lateral direita, enquanto Zequinha, bom volante do Palmeiras (também presente no grupo da Copa de 1962), substituiria Zagallo, sem condições.

O Brasil que jogou contra a Holanda, em 2 de maio de 1963. Em pé: Aimoré Moreira (técnico), Lima, Zequinha, Roberto Dias, Rildo, Eduardo e Gylmar. Agachados: Marcos, Gérson, Pelé, Nei, Pepe e Mário Américo (massagista) (Alamy Stock Photos)

Contudo, a julgar pelos primeiros minutos, nem parecia que o Brasil estava esfalfado. O time de Aimoré Moreira se impôs, com trocas de passes rápidas, que renderam chances de gol. A primeira, logo aos três minutos: Pelé e Nei tabelaram, Nei entrou na área com a bola e finalizou, e Pieters Graafland defendeu bem. Só que a Holanda começou a usar de passes mais longos, e também rapidamente chegou ao ataque: aos 8', cruzamento de Peet Petersen (substituto de Coen Moulijn entre os titulares), e Henk Groot - dos melhores atacantes holandeses daquele começo de década - cabeceou, para grande defesa de Gylmar.

Pelé e Nei seguiram tabelando para tentar furar a defesa holandesa - aos 14', Nei só não chutou porque Bennie Muller bloqueou na hora exata. Só que, logo depois, Pelé voltou a sentir as dores fortes da distensão muscular. Ainda tentou seguir no jogo, mas logo aos 30', foi substituído por Mengálvio. E a Holanda começou a ficar mais ousada no ataque - já aos 15', Petersen teve boa chance. E o primeiro tempo terminou equilibrado. De um lado, Pieters Graafland salvou a Holanda aos 30', em dois chutes, de Zequinha e Nei. Do outro, aos 43', Henk Groot perdeu boa chance, ao cabecear mal.

No segundo tempo, a Holanda começou retraída. Pieters Graafland fez duas defesas: aos 47', em chute de Gérson, e aos 55', em arremate de Marcos. Só que aí, Peet Petersen impulsionou a Laranja - jogando com calções brancos e meias azuis, contra um Brasil de uniforme habitual. O atacante fez Gylmar trabalhar bastante - como aos 63', num chute dele que o goleiro brasileiro pegou. Henk Groot também apareceu de novo, aos 82', num arremate que Gylmar espalmou. Àquela altura, o Brasil já passara por uma mudança no ataque, com a entrada de Amarildo no lugar de Nei. Não dava certo: a Holanda estava melhor.

O gol da vitória viria numa falha, no minuto final do jogo. Com a posse de bola, o Brasil trocava passes na defesa. Aí... Peet Petersen, o autor do gol, descreveu ao De Telegraaf: "Foi uma falha de Eduardo. Num segundo momento, Lima também errou, quando chutou a bola em cima de Henk Groot. Henk me passou a bola, eu driblei Eduardo e chutei". Bola na rede, no ângulo direito de Gylmar. Festa, com fotógrafos e torcedores invadindo o campo do Estádio Olímpico de Amsterdã. Alegria na imprensa: "Triunfo merecido da Laranja" foi a manchete do De Telegraaf. Gozação dos jogadores holandeses - ao mesmo De Telegraaf, o zagueiro Piet Ouderland zombou: "Zequinha não foi nenhum Garrincha". Tristeza profunda na delegação do Brasil: Eduardo chorou nos vestiários, após a falha no gol. E Pelé resumiu, dias depois, numa "reportagem-diário" da Folha de S. Paulo: "A derrota para a Holanda doeu mais do que a goleada da Bélgica".


Vida que segue. No dia seguinte, o Brasil viajou a Eindhoven, para um amistoso não oficial contra o PSV (vitória por 1 a 0). Mas ficou a lembrança: na única vez em que Pelé enfrentou a seleção da Holanda (Países Baixos), foi a Laranja que ficou com a vitória.

FICHA DO JOGO

Holanda 1x0 Brasil

Data: 2 de maio de 1963
Local: Estádio Olímpico de Amsterdã
Árbitro: Johan Einar Boström (Suécia)
Gol: Peet Petersen, aos 89'

BRASIL
Gylmar; Lima, Eduardo, Roberto Dias e Rildo; Zequinha, Gérson e Marcos; Nei (Amarildo, aos 70'), Pelé (Mengálvio, aos 30') e Pepe. Técnico: Aimoré Moreira

HOLANDA
Eddy Pieters Graafland; Guus Haak (Cor Veldhoen, aos 66'), Tonnie Pronk, Piet Ouderland e Bennie Muller; Jan Klassens, Rinus Bennaars e Gerard Bergholtz; Henk Groot, Tonny van der Linden e Peet Petersen. Técnico: Elek Schwartz