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segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Caminho suave

Van Dijk extravasa ao fazer o gol da vitória: a Holanda está muito longe de ser a melhor das seleções europeias, mas deverá ir à Euro (UEFA/Getty Images)

É opinião quase unânime que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) está num segundo escalão, atualmente. E a derrota contra a França, na sexta passada, deixou isso claro. Entretanto, a opinião tem sido exagerada a ponto de apostar que a Laranja seria presa fácil para a Grécia, nesta segunda-feira, nas eliminatórias da Euro 2024. Apostar até que a equipe ficaria fora da Euro. Não era para tanto exagero, e o jogo em Atenas deixou claro. Não que os holandeses tenham brilhado - longe, muito longe disso. Mas foram melhores, conseguiram a vitória por 1 a 0 e também o objetivo desejado: ter caminho suave na reta final da qualificação. Bastará uma vitória, em novembro, em uma das últimas rodadas, contra Irlanda (casa) ou Gibraltar (fora), e o lugar na Euro estará garantido.

A bem da verdade, já ficou claro que a Grécia se protegeria na defesa desde a escalação, somente com Fotis Ioannidis no ataque, abrindo mão de Georgios Giakoumakis (destaque na vitória contra a Irlanda) e Vangelis Pavlidis. E a Holanda, também com suas mudanças - Mats Wieffer titular no meio, Steven Bergwijn titular no ataque -, já teve a bola desde o começo. E também cercou bem mais a área grega em busca do gol. Que poderia ter vindo em uma jogada ensaiada, num escanteio em que a bola sempre ia para Tijjani Reijnders (aproveitando bem suas chances como titular, novamente jogando bem) chutar. Na primeira, aos 19', Reijnders mandou para fora; na segunda, no minuto seguinte, o goleiro Odisseus Vlachodimos espalmou com uma "manchete" típica de vôlei.

Só que a grande chance da Holanda se tranquilizar e confirmar sua superioridade veio aos 25', num pênalti - em jogada aérea, Van Dijk foi puxado por Konstantinos Koulierakis. Chance perdida, porque Wout Weghorst, escolhido como cobrador nestas datas FIFA, após os treinos (e com os vários desfalques...), bateu mal, e Vlachodimos pegou. Nem assim a Grécia se agigantou em campo, apostando somente nos lançamentos longos, de preferência para a direita, na esperança de que Anastasios Bakasetas ou Giorgos Masouras ajeitassem a bola e criassem uma jogada. Só a Holanda seguiu tentando - Koulierakis bloqueou chute de Weghorst aos 38', e Steven Bergwijn bateu para fora aos 44'. 

Na falta de Frenkie de Jong, Tijjani Reijnders aproveitou bem sua chance: outra boa atuação (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

O que também não quer dizer que a pressão neerlandesa era gigante. Nem que a equipe não corria riscos. Tanto que, no intervalo, Donyell Malen entrou no lugar de um Lutsharel Geertruida que novamente marcou com fragilidades no trio de zagueiros. Além do mais, a Holanda ficou retraída além da conta no segundo tempo. Só atacou no começo, com Bergwijn (contra-ataque veloz aos 47', chute espalmado por Vlachodimos para fora) e Xavi Simons (após um rebote de Vlachodimos em chute de Reijnders, Malen e Bergwijn ajeitaram, e o camisa 10 também perdeu), Azares também influíram, como a lesão muscular que tirou Wieffer do jogo. Marten de Roon entrou para fechar o meio, Micky van de Ven já tinha substituído Quilindschy Hartman - outra boa atuação -, os visitantes recuaram... e a Grécia ousou mais. Giakoumakis e Pavlidis vieram para o jogo, Petros Mantalos deu um susto aos 79' (chutou, a bola desviou, mas o goleiro Bart Verbruggen defendeu antes de Giakoumakis chegar). E o alerta máximo veio aos 84': Van de Ven errou na saída de bola, um cruzamento, e Ioannidis cabeceou para fora.

Curiosamente, foi nesse momento de mais sufoco que a Holanda enfim aproveitou sua chance. Brian Brobbey enfim teve a bola para cumprir sua função (ser o "pivô" para quem vinha de trás), Denzel Dumfries teve espaço para avançar e foi derrubado por Pavlidis na área. Pênalti. Mais um. Como se não bastasse, o VAR opinou que Dumfries caíra mais do que fora derrubado - e o juiz espanhol Alejandro Hernández ainda reviu o lance antes de confirmar o pênalti. Sem Weghorst nem Xavi Simons, cobradores preferenciais, o capitão Van Dijk assumiu a responsabilidade ("nem pensei na Copa", comentou à emissora NOS, lembrando a cobrança perdida na disputa contra a Argentina). E fez o gol do alívio. Que até teve outra ameaça: o juiz chegou a rever suposto pênalti de Panos Retsos em Brobbey, sem marcá-lo.

De todo modo, mesmo em mais um jogo longe de brilhar, a Holanda conseguiu o que queria: encaminhar um lugar na Euro 2024. Precisa melhorar muita coisa, continua sendo uma equipe mediana... mas não é para tanta desconfiança assim.

Eliminatórias da Euro 2024
Grécia 0x1 Holanda 
Data: 16 de outubro de 2023
Local: OPAP Arena/Agia Sophia (Atenas)
Juiz: Alejandro Hernández (Espanha)
Gols: Virgil van Dijk, aos 90' + 4

Grécia
Odisseas Vlachodimos; Lazaros Rota, Konstantinos Koulierakis (Manolis Sioplis, aos 61') e Panos Retsos; Anastasios Bakasetas (Taxiarchis Fountas, aos 60'), Konstantinos Mavropanos, Dimitris Kourbelis (Andreas Bouchalakis, aos 60') e Petros Mantalos (Vangelis Pavlidis, aos 81'); Giorgos Masouras (Georgios Giakoumakis, aos 77') e Kostas Tsimikas; Fotis Ioannidis. Técnico: Gustavo Poyet

Holanda
Bart Verbruggen; Lutsharel Geertruida (Donyell Malen, aos 46'), Virgil van Dijk e Nathan Aké; Denzel Dumfries, Mats Wieffer (Marten de Roon, aos 81'), Tijjani Reijnders e Quilindschy Hartman (Micky van de Ven, aos 74'); Xavi Simons (Joey Veerman, aos 62'); Steven Bergwijn e Wout Weghorst (Brian Brobbey, aos 62'). Técnico: Ronald Koeman

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Os desafios continuam. As lesões também

Não haverá De Jong, nem De Ligt, nem Memphis Depay, nem Gakpo... mas Van Dijk é um dos "sobreviventes" de uma Holanda que pegará França e Grécia com muitos machucados (Rene Nijhuis/BSR Agency/Getty Images)

As vitórias contra Grécia e Irlanda, nas rodadas mais recentes das eliminatórias da Euro 2024, deram a leve impressão de que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) começou a encontrar caminhos para melhorar, após o mau começo de ano. Entretanto, a certeza do momento atual da Laranja só virá mesmo após as rodadas que vêm por aí na qualificação. Rodadas que têm um jogo dificílimo - contra a França, nesta sexta (13), em Amsterdã - e outro traiçoeiro - contra a Grécia, na segunda (16), em Atenas. E se os desafios continuam, os problemas também seguem para a equipe neerlandesa. Problemas que podem ser resumidos numa palavra: lesões. De novo, o técnico Ronald Koeman tem muitos desfalques machucados, em relação ao que pode ser considerado uma convocação "ideal". 

A começar pelo gol, posição por si só problemática (daqui a pouco se falará disso): titular contra Grécia e Irlanda, Mark Flekken pediu dispensa das datas FIFA, por estar adoentado. Na zaga, de uma vez só, três desfalques: além de Jurriën Timber - este fica fora até 2024, com o rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho direito -, Matthijs de Ligt (choque) e Sven Botman (joelho) também ficaram fora da convocação. Pior ainda foi o impacto no meio-campo: um problema no tornozelo deixará de fora das partidas Frenkie de Jong, cada vez mais indispensável para a Holanda - e um possível substituto, Teun Koopmeiners, foi cortado logo após a apresentação, sem condições físicas de jogo. No ataque, além de Memphis Depay ser ausência de novo por problema muscular na coxa, Cody Gakpo - outro nome cuja importância aumenta - também está fora, por causa de contusão no joelho. E bastou Steven Berghuis se apresentar na segunda-feira para ser prontamente desligado da delegação, pela lesão na panturrilha que já o afastara da partida do Ajax na rodada passada do Campeonato Holandês.

Só restou a Ronald Koeman fazer piada, na entrevista coletiva da data de apresentação, ao já começá-la informando o corte de Koopmeiners: "Já temos um time inteiro de ausências". Depois, falando sério, Koeman colocou sua opinião, na relação sempre tensa entre datas de clubes e datas de seleções: "A culpa é puramente do calendário. Já reclamamos há anos. Veja como todo mundo se machucou. A França perdeu três jogadores no fim de semana, na última hora". No entanto, na hora de resolver o problema, o técnico reconheceu: "Este é um trabalho que ainda não começou". 

De novo, os goleiros: entre o estreante Olij (esquerda), o provável titular Verbruggen (de costas, com o treinador da posição, Patrick Lodewijks) e o contestado Noppert (direita), a Laranja segue com problemas (Rene Nijhuis/BSR Agency/Getty Images)

Por falar em trabalho, os problemas da Holanda vão além dos machucados. E estão focados numa posição (há muito tempo, por sinal): o gol. Como já citado, Flekken fora o titular contra Grécia e Irlanda - e não só não passou a impressão mais segura, principalmente contra os irlandeses, como pediu dispensa, adoentado que estava. E a roda-viva debaixo das três traves continuará, para desalento de Ronald Koeman: "Não é bacana [a alternância], mas preciso continuar fazendo escolhas". Até porque Andries Noppert, o mais experiente dos três presentes, dificilmente jogará: em primeiro lugar, porque continua falhando vez por outra no Heerenveen, e em segundo lugar, porque já não fora originalmente convocado, só entrando após o corte de Flekken ("Patrick Lodewijks [treinador de goleiros] veio com algumas sugestões, quando os goleiros se machucaram. Daí, escolhemos", explicou Koeman). Então, sobram dois nomes que nunca jogaram pela Holanda: Bart Verbruggen e Nick Olij. Aí, pelo menos, começam alguns alívios. Porque tanto um quanto o outro se mostram merecedores da provável chance. 

Um dos titulares do Brighton que chama alguma atenção no Campeonato Inglês, considerado o candidato mais preponderante a ser titular, Verbruggen é considerado promissor: surgido na base do NAC Breda (não jogou em nenhum dos clubes grandes), começou a se destacar no Anderlecht, na temporada passada. Foi um raro nome a escapar ileso da má campanha da Holanda na Euro sub-21 deste anos. E mostra talento nas defesas cara-a-cara, com bom posicionamento, além da capacidade no jogo com os pés - Ronald Koeman até brincou com isso, na coletiva: "Ele só precisa sair jogando com passes menos curtos na área, porque aí o treinador fica mais tranquilo no banco". Já Nick Olij, o primeiro jogador convocado para a Holanda atuando pelo Sparta Rotterdam desde 1996, é uma convocação que até tardou. Olij, 28 anos, surgido na base do AZ, vive grande ascensão nos últimos dois anos: eleito o melhor goleiro da segunda divisão holandesa em 2021/22, pelo NAC Breda, transferiu-se para o Sparta Rotterdam... e se estabeleceu como um dos melhores goleiros da Eredivisie, com boa impulsão e bons reflexos. Qualidades que faziam a torcida do Sparta gritar "Olij in Oranje, o-o-o-o-o" ("Olij na Laranja", com a melodia de "Vamos a la playa"). Que faziam o arqueiro esperar pela convocação. Que afinal veio, e foi comemorada por ele ao diário Algemeen Dagblad: "É incrível, se você vê de onde eu vim".

Outra convocação comemorada foi a de Jeremie Frimpong. Enfim, o lateral direito foi anistiado de seu "castigo" por recusar a convocação para disputar a Euro sub-21 ("Não foi a melhor ideia, não foi bom da minha parte. Mas agora quero seguir em frente", reconheceu Frimpong ao perfil oficial da seleção holandesa). E ele chega embalado, como o melhor de sua posição na atualidade, no Campeonato Alemão - são dois gols e três passes para gol no Bayer Leverkusen, atual líder da Bundesliga. Reserva na Copa passada, Frimpong só não será titular porque tem como "concorrente" na posição Denzel Dumfries, participante das jogadas nos últimos cinco gols que a Holanda fez, nome fundamental quando o time joga com três zagueiros, já apelidado pela imprensa ("A locomotiva de Barendrecht", em referência à cidade onde começou a jogar). 

Constrangimentos superados, Frimpong está de volta à seleção da Holanda. E em grande fase. Só não será titular porque há Dumfries (Rene Nijhuis/BSR Agency/Getty Images)

Há outros nomes que deixam uma boa impressão. Tijjani Reijnders, de bom começo no meio-campo do Milan ("Minha paciência foi premiada", celebrou o meio-campo à revista Voetbal International); Xavi Simons, mostrando plenamente no RB Leipzig o destaque que apenas começa a ter na seleção; Calvin Stengs, de volta à seleção após dois anos, ostentando bom momento no Feyenoord - agora jogando no meio-campo; Wout Weghorst, que sempre aproveita muito bem as chances de jogar pela Laranja e, por causa dos desfalques, deverá ter a titularidade que reclamou contra a Irlanda ("Ele se desculpou, mas nem liguei tanto para isso. Quero mais é que todos os reservas fiquem tristes por não jogar. Ele é um ótimo jogador para se trabalhar", perdoou Ronald Koeman). Serão esses nomes que tentarão ajudar a Holanda contra uma França que, mesmo oscilando, é a melhor seleção europeia - basta citar que, nas eliminatórias da Euro, são cinco jogos e cinco vitórias dos Azuis, sem nenhum gol sofrido. E que, mais importante, tentarão vencer a Grécia - esta, sim, adversária mais direta da Holanda por uma vaga na Euro.

Ganhar a partida da próxima segunda, aliás, encaminharia de vez a Holanda ao torneio europeu, tendo em vista as rodadas finais (contra Irlanda, em casa, e Gibraltar). E apesar dos pesares, é por isso que a Laranja supera os problemas rumo aos desafios. Além do mais, se as lesões grassam por lá, a França também não terá William Saliba, Jules Koundé, Dayot Upamecano, e Kylian Mbappé teve lá suas contusões. Quem sabe...

Os 23 convocados da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiros: Andries Noppert (Heerenveen), Bart Verbruggen (Brighton-ING) e Nick Olij (Sparta Rotterdam)

Laterais: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Jeremie Frimpong (Bayer Leverkusen-ALE), Quilindschy Hartman (Feyenoord) e Daley Blind (Girona-ESP)

Zagueiros: Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Micky van de Ven (Tottenham-ING), Stefan de Vrij (Internazionale-ITA), Lutsharel Geertruida (Feyenoord) e Nathan Aké (Manchester City-ING)

Meio-campistas: Tijjani Reijnders (Milan-ITA), Marten de Roon (Atalanta-ITA), Joey Veerman (PSV) e Mats Wieffer (Feyenoord)

Atacantes: Donyell Malen (Borussia Dortmund-ALE), Xavi Simons (RB Leipzig-ALE), Steven Bergwijn (Ajax), Calvin Stengs (Feyenoord), Brian Brobbey (Ajax), Wout Weghorst (Hoffenheim-ALE) e Ian Maatsen (Chelsea-ING)

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Agora, sim

De Jong (21) e Weghorst indicaram o que a torcida comprovou: Dumfries foi "o cara". E a Holanda, enfim, conseguiu uma vitória convincente (Pro Shots)

A desconfiança em relação à seleção masculina da Holanda (Países Baixos) era tão grande que, no programa pré-jogo que a ESPN holandesa fez antes da partida contra a Grécia, nas eliminatórias da Euro 2024, um torcedor que chegava ao Philips Stadion, em Eindhoven, fez menção de desistir de ir ao jogo quando soube que a escalação de Ronald Koeman traria de volta os três zagueiros, como visto nas Copas de 2014 e 2022, e que nomes como Daley Blind seriam titulares. Se desistiu de ir ao jogo, ele perdeu. E Koeman ganhou. A Laranja também: dominando uma partida como não fazia havia muito tempo, fez 3 a 0 e voltou a lembrar que é plenamente capaz de chegar à Euro sem sustos.

Sustos que até se insinuaram no começo do primeiro tempo: com algum espaço nas laterais para avançar, os gregos bem que tentaram - com Vangelis Pavlidis, saindo da área para tentar algo na esquerda, enquanto Konstantinos Tsimikas buscava a maioria das jogadas pela direita (aliás, o lateral grego foi quem mais tentou, da equipe helênica). Só que, nos poucos escanteios que teve, a Holanda sinalizava um ponto positivo, pelos jogadores de alta estatura e/ou boa impulsão - para citar exemplos, Virgil van Dijk, Nathan Aké e Wout Weghorst (voltando a ser titular). Num deles, Denzel Dumfries escorou, e Marten de Roon chutou para fazer o seu primeiro gol pela seleção holandesa. Já ajudava bastante a desanuviar a pressão.

Mas Dumfries faria mais, bem mais. E não seria de cabeça: com espaço para avançar pela direita, o ala da camisa 22 voltou a ter grande atuação pela Laranja. Cada avanço seu oferecia opção de jogadas de ataque. Com a ótima atuação de Xavi Simons (se alternando entre o meio e a ponta direitos, enfim se impondo e criando chances - como aos 28', quando quase fez um golaço após sequência de dribles), o ala direito virou o centro da maioria das jogadas da Holanda. E fez isso muito bem, nos dois gols restantes do time da casa. Aos 31', após receber a bola ajeitada de Xavi Simons, Dumfries cruzou para Cody Gakpo fazer o que tantas vezes fez no Philips Stadion pelo PSV - ajeitar, concluir, gol. Pouco depois, aos 35', Dumfries teve ousadia até para avançar à entrada da área, no meio, mandando a bola na trave. E aos 39', outro cruzamento preciso do ala, para Weghorst fazer 3 a 0, de cabeça.

Só mesmo segurando os gregos conseguiram parar Xavi Simons, dos melhores da Laranja em Eindhoven (Pro Shots)

A Grécia bem que tentou reagir imediatamente - Anastasios "Tasos" Bakasetas trouxe algum perigo aos 43', em cobrança de falta espalmada por Mark Flekken, escolhido como o goleiro titular da Holanda nestas datas FIFA. Porém, a atuação defensiva da Laranja foi tão segura em Eindhoven ("Fomos como uma casa, tomar tantos gols deixava a gente pensando", comemorou Van Dijk) que os visitantes não tiveram o que fazer. E a Holanda pôde até passar por mudanças aqui e ali. Já começara no intervalo, com Stefan de Vrij substituindo na zaga Nathan Aké, que tomara cartão amarelo. Continuou com as entradas de Noa Lang e Tijjani Reijnders (este até teve sua chance de gol, aos 83', mas Odisseas Vlachodimos defendeu o arremate rasteiro). Todas as alterações, sem perder um minuto de controle da partida.

Fazia tempo que a Holanda não vencia com tanta imposição, mesmo que o placar nem seja tão elástico. É claro que caberá prestar atenção à Irlanda, adversária do domingo - que, embora inferior tecnicamente, sempre vende caro as suas derrotas, ainda mais jogando em casa. Todavia, agora, sim, a Laranja mostrou que tem capacidade de se classificar à Euro sem problemas. O caminho foi reencontrado.

Eliminatórias da Euro 2024
Holanda 3x0 Grécia
Data: 7 de setembro de 2023
Local: Philips Stadion (Eindhoven)
Juiz: Michael Oliver (Inglaterra)
Gols: Marten de Roon, aos 17', Cody Gakpo, aos 31', e Wout Weghorst, aos 39'

Holanda
Mark Flekken; Lutsharel Geertruida, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Stefan de Vrij, aos 46'); Denzel Dumfries (Matthijs de Ligt, aos 84'), Marten de Roon (Tijjani Reijnders, aos 65'), Frenkie de Jong (Joey Veerman, aos 77') e Daley Blind; Cody Gakpo (Noa Lang, aos 65'), Wout Weghorst e Xavi Simons. Técnico: Ronald Koeman

Grécia
Odisseas Vlachodimos; Lazaros Rota (Dimitris Giannoulis, aos 69'), Panos Retsos, Pantelis Hatzidiakos e Kostas Tsimikas; Anastasios Bakasetas (Andreas Bouchalakis, aos 77'), Manolis Siopis e Dimitris Kourbelis (Konstantinos Koulierakis, aos 69'); Giorgos Masouras (Taxiarkis Fountas, aos 69'), Vangelis Pavlidis (Georgios Giakoumakis, aos 73') e Petros Mantalos. Técnico: Gustavo Poyet

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Um formigueiro atrás da orelha

O técnico Ronald Koeman sabe: a seleção masculina da Holanda tem problemas. E precisa superá-los contra Grécia e Irlanda, se quiser ir à Euro sem sustos (Pro Shots/Icon Sport/Getty Images)

Definitivamente, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) anda em má fase neste ano de 2023. Nas primeiras rodadas das eliminatórias da Euro 2024, uma goleada dura sofrida para a França - piorada por várias ausências, causadas por infecção estomacal - e uma vitória protocolar contra Gibraltar. Veio a Liga das Nações, o sonho de um título (menor, mas um título) após 35 anos... e a Laranja foi a pior das quatro seleções que disputaram as partidas decisivas em Roterdã e Enschede. Pior: até agora, mesmo com bons jogadores, a segunda passagem de Ronald Koeman como técnico da equipe holandesa tem uma equipe lenta e frouxa em campo. Já nem é o caso de dizer que a pulga está atrás da orelha: há um verdadeiro formigueiro sendo "coçado" por quem acompanhe a equipe. Eis a grande tarefa nestas datas FIFA, com os jogos da qualificação da Euro, contra duas seleções tradicionalmente esforçadas - Grécia, nesta quinta (7), em Eindhoven, e Irlanda, no domingo (10), em Dublin: trazer mais confiança de que a Holanda não passará sufoco para tentar a vaga na copa europeia de seleções.

Para tentar trazer essa confiança, os obstáculos continuam aparecendo. Alguns deles, até, involuntários. Por exemplo, a nova lesão muscular na coxa direita que tirou as chances de Memphis Depay estar na convocação. Tal situação já aborrece Ronald Koeman, como ele deixou claro na entrevista coletiva de segunda-feira: "A lesão dele [Memphis] é ruim, mas infelizmente já estamos acostumados. (...) A princípio, a tendência a se machucar não coloca a posição dele em risco no time, mas ele precisa estar numa situação em que possa jogar por mais tempo". Como não está - assim como Steven Bergwijn, também machucado -, há alguma dúvida sobre como o ataque da Laranja entrará em campo. Dúvida grande a ponto de trazer uma cogitação de que talvez o experiente Luuk de Jong pudesse retornar à seleção da qual desistiu logo após a Copa. De Jong piscou, na semana passada: "Nunca diga nunca (...) sei que sempre posso tomar um café com Ronald Koeman". Depois, voltou atrás no sábado, logo após a vitória do PSV no Campeonato Holandês: "Para mim, acabou, há outras boas opções". Mas Koeman respondeu positivo, na coletiva: "A porta sempre estará aberta. Depende dele". Só para constar, o treinador também manteve portas abertas para Georginio Wijnaldum, na berlinda após decidir rumar para o Al-Ettifaq (Arábia Saudita): "Eu falei com ele (...) Jogadores como Brozovic, Mitrovic e Cristiano Ronaldo jogam lá, e também estão em suas seleções. Então, a porta não está fechada".

Noppert, Verbruggen e Flekken (da esquerda para a direita, junto ao treinador de goleiros Patrick Lodewijks): os três goleiros da vez na roda-viva da Laranja na posição (Pro Shots/IconSport/Getty Images)

Se há dúvidas no ataque, dúvidas maiores ainda seguem no gol. Justin Bijlow se convertera em titular na Liga das Nações, era o nome escolhido de Ronald Koeman para seguir assim... mas outra vez, está lesionado - fratura no pulso (levantamento da ESPN neerlandesa informou que, de 2019 até agora, Bijlow já perdeu 61 partidas do Feyenoord por estar machucado). Espaço aberto para Andries Noppert, o titular da Copa, voltar às convocações, após passar o primeiro semestre em recuperação de lesão muscular. Só que Noppert também não passa total segurança, ainda que seja o mais cotado para jogar contra Grécia e Irlanda: na derrota do Heerenveen para o Sparta Rotterdam (3ª rodada do Campeonato Holandês), ele falhou em dois gols. Além disso, Mark Flekken ainda não parece ter sido devidamente testado na Laranja - e o jovem Bart Verbruggen, reserva no Brighton, indica ser goleiro de futuro, tendo escapado ileso da má participação da Holanda na Euro sub-21. O que Koeman escolherá? A julgar por suas palavras, nada muito definitivo, diante de tantos azares: "Em junho, tínhamos a ideia de escolher um goleiro titular fixo. Não deu totalmente certo, pelas lesões. Então, outras opções precisam ser feitas, e faremos isso de novo".

De novo, aliás, Koeman foi cobrado por uma ausência: Jeremie Frimpong, vivendo grande momento no Bayer Leverkusen (em três jogos pelo Campeonato Alemão, o lateral direito fez um gol e deu passe para três, e já jogava bem desde a temporada passada). Ainda assim, Frimpong segue fora das convocações. E se o técnico indicou ao começar o trabalho que Denzel Dumfries era seu nome preferido num esquema com quatro jogadores na defesa, Koeman deixou claro desta vez que a negativa do lateral de ascendência ganesa em defender a Holanda na Euro sub-21 pesou: "Expliquei que ele não foi chamado antes por jogarmos com quatro na defesa. Depois, em nome da federação, Nigel de Jong [diretor de futebol] falou com ele: estamos chateados com quem nega as convocações da sub-21. Ele ainda quer jogar pela Holanda, mas decidimos deixá-lo de fora agora. Fica como uma 'multa'". 

Sobrou até para Ryan Gravenberch - também chamado para a seleção sub-21 agora, o meio-campo pediu dispensa para se focar no Liverpool ao qual acaba de chegar, e Koeman disparou: "Também não estamos contentes com Gravenberch. Nigel [de Jong] falou com ele. A seleção sub-21 também serve para representar seu país, e se você atuar bem lá, você pode dar o salto". Declarações pouco pacientes com jogadores que ainda podem ser úteis à seleção principal. De mais a mais, é compreensível que nomes já com experiência considerável - Gravenberch esteve na Euro passada, e Frimpong foi chamado à Copa - tenham mais ambição do que defender a Laranja Jovem, seleção que é habitualmente um "laboratório".

A boa fase de Reijnders pode fazer dele titular no meio-campo da Holanda, já com outros nomes em boa fase (Pro Shots/IconSport/Getty Images)

Koeman tateou à procura de mais justificativas para o mau momento da seleção masculina. Lamentou até mesmo uma certa falta de autoexigência da geração atual: "Os tempos mudaram, não se pode viver de passado. Mas, no meu tempo, éramos mais duros. Às vezes sinto falta disso, nesse grupo. Eles se corrigem pouco. Faz parte da geração, ser amável. Mas se o desejo é vencer, isso precisa melhorar muito nesse time". Contudo, em termos mais práticos, está claro que a má fase de alguns nomes importantes, como Virgil van Dijk, o azar das lesões (Bijlow, Memphis Depay e também Jurriën Timber - este, fora até 2024, pelo ligamento cruzado anterior do joelho) e a própria lentidão que a Holanda mostra em campo parecem os problemas mais urgentes a serem resolvidos.

Se serve de consolo, há nomes aqui e ali indicando que dias melhores podem vir. Principalmente no meio-campo: para não falar de Frenkie de Jong, já um líder do grupo, e Teun Koopmeiners, com margem de melhora pela seleção, há vários convocados da posição que estão em ótima fase. Como Joey Veerman, que já teve alguns minutos na Liga das Nações, um destaque no começo promissor do PSV. Ou mais ainda, Tijjani Reijnders, iniciando de modo esplendoroso sua passagem pelo Milan, sinalizando que deseja a estreia na seleção - mesmo convocado, não foi inscrito na Nations League: "Agora estou de vez na convocação, é diferente. Depende de mim mostrar que também posso ser titular na Laranja". E há Xavi Simons, também começando bem no RB Leipzig, nome elogiado pelo próprio Ronald Koeman ("Ele ainda não atingiu o melhor pela seleção, mas nem me preocupo, ele ainda é jovem"), que pode tanto criar jogadas de ataque como ser um dos titulares do trio da frente.

Pequenas mostras de que a Holanda ainda pode tirar o formigueiro atrás da orelha. Se há jogos em que ela deve fazer isso, são os desta semana.

Os 25 convocados da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiros: Andries Noppert (Heerenveen), Mark Flekken (Brentford-ING) e Bart Verbruggen (Brighton-ING)

Laterais: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Lutsharel Geertruida (Feyenoord), Quilindschy Hartman (Feyenoord), Ian Maatsen (Chelsea-ING) e Nathan Aké (Manchester City-ING)

Zagueiros: Mickey van de Ven (Tottenham-ING), Daley Blind (Girona-ESP), Matthijs de Ligt (Bayern de Munique-ALE) e Virgil van Dijk (Liverpool-ING)

Meio-campistas: Frenkie de Jong (Barcelona-ESP), Tijjani Reijnders (Milan-ITA), Marten de Roon (Atalanta-ITA), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Joey Veerman (PSV) e Mats Wieffer (Feyenoord)

Atacantes: Donyell Malen (Borussia Dortmund-ALE), Cody Gakpo (Liverpool-ING), Xavi Simons (RB Leipzig-ALE), Steven Berghuis (Ajax), Noa Lang (PSV) e Wout Weghorst (Hoffenheim-ALE)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Falta (e falha) atrás

Janssen (nº 9) foi promissor no ataque. Mas a defesa de Zoet e Bruma (último à direita) falhou. E a Holanda decepcionou (Koen van Weel/ANP)

Já se disse aqui que a seleção holandesa - cuja renovação está quase completa - tem, sim, jogadores de alguma qualidade, que podem levar a Laranja à Copa do Mundo de 2018. As vitórias contra Polônia e Áustria, em amistosos, indicavam uma tímida evolução, o nascimento de um esboço de time. O começo do amistoso desta quinta, em Eindhoven, contra a Grécia, também mostrava algumas razões para esperança, principalmente no setor de ataque. Mas... a defesa pôs tudo a perder, com suas desatenções - também cometidas pelo meio-campo, é justo dizer. Por elas, aconteceu a derrota por 2 a 1, tão desalentadora que parece ter colocado tudo de volta à estaca zero na Oranje.

O pior é que os primeiros minutos de jogo no Philips Stadion (após cinco anos distante da cidade do PSV) indicavam mais uma atuação promissora. Claro, a Grécia jogava como a maioria das pessoas esperava que ela jogasse: um 4-5-1 extremamente compactado, com Kostas Mitroglou isolado na frente, tentando encurtar os espaços. Só que os jogadores holandeses conseguiram vencer a fechada equipe helênica treinada pelo alemão Michael Skibbe, graças a algo que já se via aos poucos: uma troca mais rápida de passes no ataque. E essa aceleração na posse de bola também fazia crescer o desempenho de alguns jogadores. 

Vincent Janssen dava razões para otimismo: não só servia de referência na frente, mas também voltava para fazer jogadas com os meio-campistas. Por sinal, no meio, Georginio Wijnaldum assumia papel importante de liderança técnica: criava jogadas, e até avançava para finalizar - mais do que Wesley Sneijder, que apenas ajudava com rapidez no toque. Enquanto isso, Kevin Strootman cuidava da proteção à defesa com a eficiência e a dedicação que todos esperam (e a seleção precisa) dele. Sem contar as pontas, onde Steven Berghuis e - principalmente - Quincy Promes ajudavam Janssen. Por tudo isso, a Holanda começou melhor. Merecia as chances criadas, como chutes de Sneijder (aos 8', em chute travado defendido pelo goleiro Orestis Karnezis) e Wijnaldum (aos 13', de longe). E mereceu, enfim, o primeiro gol, aos 14': o zagueiro Stelios Manolas saiu mal e entregou a bola nos pés de Berghuis. Este deu a Janssen, que driblou outro defensor na linha de fundo, cruzou na pequena área, e a bola bateu em Wijnaldum, autor "sem querer" do 1 a 0.

Era o cenário perfeito: com o gol sofrido, a compactação da Grécia estava ferida. Os visitantes estavam forçados a avançar. Porém, aí também se abriu algum espaço no meio-campo, com Strootman sobrecarregado. De quebra, a linha de quatro marcadores já dava mostras de uma temerária e excessiva falha de posicionamento: algumas inversões gregas de jogo deixavam os atacantes livres. Na primeira chance da "Ethniki" (a seleção grega), aos 21, Kostas Fortounis arrematou de fora da área, e forçou Jeroen Zoet a fazer boa defesa, em mais uma chance recebida como titular da Laranja. Na segunda, aos 29', as falhas não tiveram perdão: passe errado de Sneijder, Fortounis dominou e inverteu com Vassilis Torosidis. O capitão grego cruzou, Joël Veltman - escalado como lateral direito - falhou ao não seguir Mitroglou, e o atacante ficou livre para empatar, de cabeça. Mais uma falha de Veltman... e também de Jeffrey Bruma, que não se antecipou na zaga.

A partir daí, o jogo ficou moroso demais em grande parte do tempo. E isso continuou no segundo tempo, até pelas quatro alterações que a Grécia fez - três delas já no intervalo, uma por lesão (Fortounis teve dores no tornozelo aos 55', e deu lugar a Giannis Gianniotas). Aos poucos, Danny Blind também foi mudando o time, com alterações duplas - entraram Davy Pröpper e Jorrit Hendrix, depois Luciano Narsingh e Davy Klaassen. E parecia que a partida caminhava para um empate. Já seria decepcionante, mas pelo menos a defesa holandesa ia se mantendo. Além do mais, dava para testar alguns jogadores que começaram bem a temporada, como o estreante Hendrix, que poderia usar na Oranje o entrosamento que esbanja com Pröpper no PSV.

A situação atual da Oranje merece o olhar duro de Van Basten, ainda auxiliar - e das reclamações de Danny Blind (Photo News)

Isso, até os 74'. Porque mais uma desatenção rendeu o gol da vitória para a Grécia: quando o meio-campo e ataque ainda se reagrupavam após as entradas de Klaassen e Narsingh, dois minutos antes, Jeffrey Bruma tentou dar um carrinho para trás contra um grego. Falha decisiva: com a defesa holandesa desguarnecida, Mitroglou ficou livre com a bola. Chegou à área, chutou cruzado, Zoet também falhou (rebateu para o meio da área), e Gianniotas confirmou a virada no placar. Mais uma derrota. Para a Grécia, lanterna de seu grupo nas eliminatórias da Euro 2016, com derrotas para Ilhas Faroe e Luxemburgo. O quinto revés da Laranja sob o comando de Danny Blind, em onze partidas - o quarto SEGUIDO em terras holandesas. 

Nada bom. E pior ainda quando se nota que o técnico holandês apela para outros modos táticos mais no desespero do que como algo pensado - algo comprovado com a entrada de Bas Dost em lugar de Jetro Willems, aos 80', configurando um 3-4-3 estranho e improvisado. A torcida puniu com as justas vaias ao final do jogo, e Sneijder reconheceu as falhas à SBS6, emissora holandesa de tevê: "Após fazermos 1 a 0, devíamos ter matado o jogo. Perdemos essa chance. Nós demos espaço. Dar os gols de presente como demos, neste nível, é inaceitável". A Zoet, restou lamentar, também à SBS6: "Poderia ter sido um bom dia para mim".

Pelo menos, foram mais lúcidos do que Daley Blind, que sugeriu: "Precisamos confiar no que mostramos durante o primeiro tempo. Sim, este jogo foi uma decepção. Mas se perdermos agora e ganharmos da Suécia, todo mundo fica feliz de novo". Eis o problema: com tanta desatenção defensiva, dá para pensar que a Holanda terá dificuldades até contra uma equipe sueca desfalcada definitivamente de várias estrelas. Na frente, até há perspectivas, de fato. Mas falta confiança (e sobram falhas) atrás.