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sábado, 6 de julho de 2024

Aproveitando a sorte

A Holanda começou ameaçando decepcionar contra a Turquia, nas quartas de final da Eurocopa. Mas a sorte apareceu, a Laranja aproveitou... e está na semifinal (Image Photo Agency/Getty Images)

Numa das entrevistas coletivas após passar das quartas de final da Eurocopa, Daley Blind reconheceu que a seleção da Holanda (Países Baixos) teve sorte em seu caminho, eliminando a Romênia nas oitavas de final... e tendo a Turquia, adversária aparentemente acessível, nas quartas de final. Pois bem: contra os turcos, em Berlim, a Laranja teve problemas. Num momento, pareceu que a decepção seria novamente seu destino. Contudo, a sorte presente reapareceu. E a Holanda, de novo, a aproveitou. E premiou seu inegável esforço - e a aparição dos destaques, em horas importantes - com uma virada por 2 a 1, que a leva à semifinal da Euro, após 20 anos, já configurando uma campanha satisfatória.

No começo da partida, a Laranja conseguiu o que Ronald Koeman queria: controlar a posse de bola, até pressionar a Turquia na defesa, comandar o rumo do jogo. No primeiro minuto, até houve uma chance: após vir da esquerda, Memphis Depay chutou para fora. De quebra, Memphis, Xavi Simons e Cody Gakpo cercavam bem os laterais turcos - principalmente Mert Müldür, pela direita, impedindo que a Turquia saísse. Só mesmo Ferdi Kadioglu era um "desafogo" turco, carregando a bola para alguém finalizar - como aos 11', quando entregou a bola para Salih Özcan (substituto do suspenso Ismail Yüksek) mandar para fora. Entretanto, foi só. 

Ao cansar da pressão, a Holanda "entregou" a bola para a Turquia. Que não criava muitas chances, mas começava a cercar mais a defesa holandesa. Hakan Çalhanoglu começou arriscando aos 21' (chute que desviou em Virgil van Dijk e saiu para escanteio - na cobrança, Bart Verbruggen pegou). Se só a esquerda era opção de jogadas, Arda Güler trocou de lugar com Baris Yilmaz e começou a aparecer pela direita, mais do que Mert Müldür conseguia. E de tanto cercar, a Turquia conseguiu o gol como queria, e como é a maior fragilidade da Laranja: bolas aéreas. Aos 35', Arda Güler cruzou, Verbruggen demorou para sair... e por trás, o zagueiro Samet Akaydin fez 1 a 0, de cabeça. E nem mesmo ficar atrás no placar fez com que o selecionado dos Países Baixos voltasse a acelerar mais o jogo. Ou voltasse a criar chances, mesmo diante de uma Turquia fechada, com os constantes recuos de Kaan Ayhan do meio para a defesa. Era preciso mudar.

Weghorst entrou, e mesmo sem fazer gols, conseguiu ser uma referência de que o ataque da Laranja, estéril até ali, precisava para virar o jogo (Boris Streubel/UEFA/Getty Images)

E Ronald Koeman até mudou, colocando Wout Weghorst no lugar de Bergwijn, dando uma referência que o ataque holandês precisava. A tal ponto que logo veio uma chance, aos 52', num cabeceio após Nathan Aké cruzar (quase Memphis Depay alcançou). Ainda assim, o jogo tinha ficado mais rápido, mais veloz. Justamente como a Turquia queria. Era Aké levando amarelo ao derrubar Arda Güler (ótima atuação), aos 55', originando falta que o próprio Güler mandou à trave direita; era Virgil van Dijk também tomando cartão amarelo, aos 64' (falta em Baris Yilmaz)... por mais que a Holanda tentasse, num chute de Memphis Depay aos 63', ainda parecia pouco.

Deixou de ser pouco aos 70': quando a Holanda apenas começava a querer cruzar, já aproveitou uma oportunidade: Memphis Depay cruzou, Stefan de Vrij (que já rondava mais o ataque) cabeceou firme e livre, 1 a 1. E aí a partida seguiu acelerada, mas como a representação dos Países Baixos preferia: com mais confiança, mais ataque, mais pressão. E a sorte, aquela do começo deste texto, reapareceu pouco depois, aos 76', quando Denzel Dumfries enfim cruzou. Ninguém interceptou. E... não se sabe se Cody Gakpo finalizou - seria seu quarto gol nesta Euro -, se Mert Müldür (dia infeliz do lateral) completou contra o patrimônio, como a UEFA creditou... mas era a virada da Holanda. Que passou por testes de resistência com os atacantes que Vincenzo Montella empilhou na Turquia. Nela já estavam Arda Güler e Baris Yilmaz. Vieram Cenk Tosun, Keren Akturköglu e Semih Kiliçsoy. Coube a Akturköglu ajudar no primeiro susto turco, aos 85', num chute rebatido por Micky van de Ven na área, sem goleiro. Coube a Kiliçsoy mostrar que a Holanda encontrou seu arqueiro, nos acréscimos: se errou no gol sofrido, Verbruggen defendeu a bola do jogo, rebatendo desvio à queima-roupa do atacante turco.

E aí está a Holanda. Que aproveitou bem sua sorte. E está nas semifinais da Euro. A Inglaterra tem mais nomes que despontam, mas... como bem alertou Ronald Koeman, "quem chegou à semifinal, quer chegar à final". E a Holanda, depois desta virada, mostrou que quer. Muito.

UEFA Euro 2024 - Oitavas de final

Holanda 2x1 Turquia
Local: Estádio Olímpico (Berlim)
Data: 6 de julho de 2024
Árbitro: Clément Turpin (França)
Gols: Samet Akaydin, aos 35', Stefan de Vrij, aos 70', e Mert Müldür (contra), aos 76'

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Micky van de Ven, aos 73'); Jerdy Schouten e Tijjani Reijnders (Joey Veerman, aos 73'); Steven Bergwijn (Wout Weghorst, aos 46'), Xavi Simons (Jeremie Frimpong, aos 87') e Cody Gakpo; Memphis Depay (Joshua Zirkzee, aos 87'). Técnico: Ronald Koeman

TURQUIA
Mert Günok; Mert Müldür (Zeki Çelik, aos 82'), Kaan Ayhan (Semih Kiliçsoy, aos 89'), Samet Akaydin (Cenk Tosun, aos 82'), Abdülkerim Bardakci e Ferdi Kadioglu; Baris Alper Yilmaz, Salih Özcan (Okay Yokuslu, aos 77'), Hakan Çalhanoglu e Kenan Yildiz (Keren Akturköglu, aos 77'); Arda Güler. Técnico: Vincenzo Montella

terça-feira, 7 de setembro de 2021

O horizonte se abriu

A atuação de Memphis Depay mereceu aplausos. Que podem ser estendidos à seleção da Holanda como um todo: contra a Turquia, goleada para comprovar a capacidade da equipe (Pro Shots)

A seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tinha chegado à encruzilhada. O jogo contra a Turquia, na sexta rodada das eliminatórias da Copa de 2022, era daqueles que definem rumos: enfrentando a líder do grupo G da qualificação, ou a Laranja se impunha e provava que é um time capacitado para estar na Copa, ou voltava a sombra das decepções que tanto deixaram a torcida calejada, nos últmos anos. Pois bem: em campo, como deve ser, a Oranje dizimou as desconfianças. Foi o que a torcida quis ver em Amsterdã: um time ofensivo, vivaz, que não descansou em nenhum dos 90 minutos. Imposição cravada na forma de uma goleada inapelável nos turcos: 6 a 1, indo à liderança do grupo, aumentando muito as esperanças de retornar a um Mundial.

E as esperanças nem demoraram muito para florescerem: bastaram 59 segundos de bola rolando na Johan Cruyff Arena, para as qualidades aparecerem numa jogada bem encaixada. A velocidade de Denzel Dumfries nas chegadas pela direita. A colaboração de Steven Berghuis nas jogadas ofensivas, vista em mais um cruzamento. A classe de Memphis Depay, na tabela com Davy Klaassen. E a segurança do próprio Klaassen, que coroou a jogada com o chute cruzado, que bateu na trave antes do 1 a 0. Se houvesse qualquer dúvida do entendimento primoroso entre Klaassen e Memphis no jogo, ele se acabou com a jogada mais bonita ainda do 2 a 0, aos 16': Depay passou, Klaassen devolveu de calcanhar, e o atacante completou com chute cruzado.

Não que a Turquia estivesse amedrontada: os visitantes buscavam tentar equilibrar na força física, avançavam ao menor sinal de fragilidade da defesa holandesa, tentavam arremates de fora da área (como Orkun Kökcü tentou, aos 10'). Mas a Holanda simplesmente não dava espaço. Quando tinha a bola, se mexia, ia para o ataque, acelerava as jogadas. Quando não fazia o gol, fazia o goleiro Ügürcan Çakir trabalhar, em chutes da entrada da área - como Depay fez, aos 22'. O pênalti em Klaassen, aos 37', coroado com a cavadinha de Memphis Depay para o terceiro gol, deixou claro como a equipe da casa dominou as ações, num primeiro tempo como não se via dos neerlandeses havia muito tempo. E a expulsão de Çaglar Soyüncü - segundo cartão amarelo aos 44', após derrubar Memphis - simbolizou como a Turquia estava atordoada diante de um anfitrião tão imperioso.

Malen foi impetuoso com a bola nos pés. Simbolizou uma Laranja que não descansou um minuto sequer, acuando a Turquia e construindo goleada inquestionável (ANP)

Tentou-se uma mudança do lado dos visitantes, com Ozan Tufan vindo a campo para tentar acelerar as jogadas (Hakan Çalhanoglu foi neutralizado por Frenkie de Jong e Stefan de Vrij), e Ozan Kabak tentaria fechar o espaço irremediavelmente aberto pela expulsão de Soyüncü. Pelo menos no começo, até que a Turquia melhorou - Yilmaz enfim teve uma chance, aos 48'. Mas a Holanda também teve mudanças nela - a entrada de Teun Koopmeiners, enfim ganhando uma chance substancial. E continuou igual, como indicou o 4 a 0 aos 54', feito por um Memphis Depay imparável, confirmando o excelente início de temporada.

Koopmeiners cuidou da proteção à defesa, fazendo bem o que Frenkie de Jong já fazia. E as outras entradas também melhoraram a Laranja: Guus Til mostrou movimentação no meio-campo, e a confiança com a bola nos pés fez Donyell Malen chegar constantemente à área. Quem continuava em campo também seguia buscando o gol - como Berghuis, que chutava a gol vez por outra (como aos 62'). Até mesmo o goleiro Justin Bijlow aparecia bem, uma vez, aos 68', num chute de Cengiz Ünder. Curiosamente, o segundo tempo foi terminando como o primeiro começara: uma Holanda ofensiva, encurralando a Turquia. Resultou em mais dois gols: o passe milimétrico de Koopmeiners para Til fazer 5 a 0, aos 80', e a impetuosidade de Malen o premiando com o sexto, no último minuto.

A volúpia neerlandesa em campo ficou notável até na lamentação geral do time com o gol de honra turco, surgido numa desatenção entre Bijlow e Van Dijk (ainda com algo de ritmo e tempo de bola a recuperar). Mas qualquer traço de condenação seria injusto, diante de uma seleção que deu o passo que faltava. Tendo Letônia, Gibraltar e Montenegro, os três adversários mais fracos do grupo, nas próximas três rodadas, a sensação é de que o horizonte se abriu para a Holanda. Após turbulências, a rota da Copa aparentemente foi encontrada.

Eliminatórias para a Copa de 2022 - Europa
Holanda 6x1 Turquia
Data: 7 de setembro de 2021
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Juiz: Daniele Orsato (Itália)
Gols: Davy Klaassen, a 1', Memphis Depay, aos 16', aos 37' e aos 54', Guus Til, aos 80', Donyell Malen, aos 90', e Cengiz Ünder, aos 90' + 1

Holanda
Justin Bijlow; Denzel Dumfries (Devyne Rensch, aos 71'), Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Tyrell Malacia; Georginio Wijnaldum (Guus Til, aos 61'), Frenkie de Jong (Teun Koopmeiners, depois do intervalo) e Davy Klaassen (Ryan Gravenberch, aos 71'); Steven Berghuis, Memphis Depay e Steven Bergwijn (Donyell Malen, aos 61'). Técnico: Louis van Gaal

Turquia
Ugurcan Çakir; Kaan Ayhan, Merih Demiral, Çaglar Soyüncü e Mert Müldür; Okay Yokuslu e Orkun Kökcü (Ozan Tufan, depois do intervalo); Cengiz Ünder, Hakan Çalhanoglu (Halil Dervisoglu, aos 86') e Kenan Karaman (Ozan Kabak, depois do intervalo); Burak Yilmaz (Kerem Aktürkoglu, aos 65'). Técnico: Senol Günes

quarta-feira, 24 de março de 2021

Coisas que acontecem - e não deviam

Azar em algumas jogadas, culpa própria em outras. E a Holanda já começa as eliminatórias da Copa do Mundo tendo com que se preocupar (Thomas Bakker/Pro Shots)

Quando foram sorteados os grupos das eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2022, foi relativamente unânime: o grupo em que a seleção masculina da Holanda caíra era traiçoeiro, com Turquia e Noruega oferecendo alguma dificuldade. Mas que, se a Laranja tivesse atenção e jogasse o que tem capacidade para jogar, poderia chegar à Copa. Pelo menos na estreia, contra a Turquia, fora de casa, no entanto, certas coisas aconteceram, por erros ou por acidente. Por elas, a Laranja começou a qualificação com muita preocupação, por causa da derrota por 4 a 2 em Istambul.

Curiosamente, o jogo no Olimpic Atatürk começou dando a impressão de que a equipe neerlandesa seria superior. Tanto que, já aos 2', Memphis Depay recebeu de Donyell Malen e já fez o goleiro Ugurcan Çakir trabalhar. Se atacava mais, a seleção visitante obviamente tinha mais gente no campo de ataque. Eis o problema: a marcação para contra-ataques ficou muito prejudicada. Prato cheio para uma Turquia firme na defesa - e contando com o iluminado dia de Burak Yilmaz. Prova disso foi o lance do primeiro gol turco, aos 15': imediatamente após jogada aérea em que se pediu pênalti em Malen, um contragolpe, Hakan Çalhanoglu passou, Yilmaz bateu de fora, a bola desviou em Matthijs de Ligt e dificultou bastante a situação de Tim Krul, indo direto para o canto direito. O desvio aconteceu por azar; a falha defensiva, nem tanto.

Foi o bastante para a Holanda revelar um problema crônico: muita posse de bola e pouca efetividade. A competência para superar a firme linha de cinco na defesa turca - os quatro defensores, mais o recuo de Okay Yokuslu (em ótima atuação, indo e voltando rapidamente) - era quase nenhuma. E quando havia chance de chute, Çakir agia: o goleiro turco pegou um chute perigoso de Malen aos 20', e agarrou cobrança de Memphis aos 27'. Ao mesmo tempo, nas raras vezes em que ousava, a seleção da casa seguia achando espaço livre no meio. Marten de Roon estava lento na volta para a defesa, tanto De Ligt quanto Daley Blind se atrapalhavam no miolo... e quem queria ajudar, atrapalhava. Foi o caso de Malen: tentando voltar para ajudar na marcação aos 34', acabou cometendo pênalti, que Yilmaz converteu para o 2 a 0 da Turquia. Já era um grande problema - e azares como o cabeceio de De Ligt bater na trave, aos 45' (houve reclamação de que a bola teria circulado atrás da linha), não ajudavam.

Um gol de fora da área, outro de pênalti, outro de falta: Burak Yilmaz voltou a dar dor de cabeça à Holanda (EPA)

Bastou o segundo tempo começar, e com 33 segundos de bola voltando a rolar, Çalhanoglu fazia 3 a 0 - o chute foi preciso, no canto esquerdo, mas Krul pareceu mal posicionado. E a partida parecia perdida, para uma Holanda desanimada, que só chegou perto do gol aos 58' (cobrança de falta do esforçado Steven Berghuis), e ainda viu o gol de Ozan Tufan aos 63' só impedido pelo bloqueio preciso de De Ligt. Uma grande mudança era necessária. Ela veio. Primeiro, com a entrada de Luuk de Jong, fazendo com que o velho e bom "abafa" se antecipasse, com cada vez mais cruzamentos para a área. Depois, com as vindas de Ryan Gravenberch e Davy Klaassen: a dupla do Ajax tornou o meio-campo mais rápido e ativo em campo.

Talvez por isso, vieram os gols que devolveram a esperança de reação à Laranja. Klaassen aos 74', em bonita jogada: recebeu já ajeitando o corpo, e finalizou muito bem. Dois minutos depois, Luuk de Jong diminuiu para 3 a 2, desviando cobrança de falta ao partir para dividir a bola com Çakir e se antecipar ao goleiro. Mas justamente aí, quando a Holanda fazia o que precisava fazer e começava a pensar em arrancar um ponto, para compensar tanta posse de bola, Burak Yilmaz mostrou o tamanho da importância no time da Turquia: aos 81', o capitão da equipe da casa cobrou falta com precisão para o 4 a 2, esfriando de vez os visitantes. Quando tentaram de novo, na reta final, aí Çakir mostrou seu valor. Defendendo chutes de Luuk de Jong, de Patrick van Aanholt (vindo para ser ainda mais ofensivo do que Owen Wijndal já tentara ser, sem sucesso, na lateral esquerda)... e principalmente, agarrando o pênalti que Memphis Depay bateu, já nos acréscimos.

Klaassen entrou e, pelo menos, ajudou a Laranja a ter alguma esperança em Istambul (Pro Shots/Thomas Bakker)

E ficou no placar uma derrota preocupante. Não só o ataque mostrou excessiva dependência de Memphis Depay (que começou bem, mas decaiu com o jogo), como a defesa sofreu com a lentidão do meio e a insegurança demonstrada por Krul no gol. Com isso, aumentam ainda mais as dúvidas crônicas sobre o trabalho de Frank de Boer. Nada está perdido: foi a primeira de dez rodadas, os próximos adversários são plenamente acessíveis - Letônia e Gibraltar -, ainda há possibilidade da Holanda reagir. Ainda assim, já voltam os temores da Laranja ficar fora de outra Copa. Por coisas que acontecem, seja por azar ou por erros. Mas não deviam acontecer. Nem uma, nem outra.

Eliminatórias para a Copa de 2022 - Europa
Turquia 4x2 Holanda
Data: 24 de março de 2021
Local: Olimpic Atatürk (Istambul)
Juiz: Michael Oliver (Inglaterra)
Gols: Burak Yilmaz, aos 15', 34' e 81', e Hakan Çalhanoglu, aos 46'; Davy Klaassen, aos 74', e Luuk de Jong, aos 76' 

Turquia
Ugurcan Çakir; Zeki Çelik, Ozan Kabak, Caglar Söyüncü e Umut Meras; Okay Yokuslu; Kenan Karaman (Kaan Ayhan), Ozan Tufan (Taylan Antalyali) e Hakan Çalhanoglu (Enes Ünal); Burak Yilmaz (Deniz Türüç) e Yusuf Yazici (Caner Erkin). Técnico: Senol Günes

Holanda
Tim Krul; Kenny Tete (Denzel Dumfries), Matthijs de Ligt, Daley Blind (Ryan Gravenberch) e Owen Wijndal (Patrick van Aanholt); Marten de Roon (Luuk de Jong), Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum; Steven Berghuis, Memphis Depay e Donyell Malen (Davy Klaassen). Técnico: Frank de Boer


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Agora não houve desculpas

A desilusão de Jeffrey Bruma reflete bem a desilusão da Oranje: ausência da Euro é bem provável (VI Images)

15 de outubro de 2013. Já classificada para a Copa do Mundo, a Holanda ainda tinha um desafio em sua última partida pelas eliminatórias: enfrentar a Turquia, em Istambul, com o adversário sedento pela última chance de ganhar a segunda posição do grupo D, disputada com Hungria e Romênia. Pois bem: naquela que foi a primeira partida de Memphis Depay pela Oranje, a equipe não tomou conhecimento da pressão, e fez tranquilos 2 a 0 nos turcos, acabando com as esperanças de chegarem à Copa. Atuação segura a ponto de merecer aplausos da fervilhante torcida turca ao fim dos 90 minutos.

Um ano, dez meses e 21 dias depois, o cenário é bem diferente. A Holanda enfrentou a Turquia, pelas eliminatórias da Euro 2016. Não mais em Istambul, mas em Konya. E a equipe que levou o jogo como bem quis foi a anfitriã, não mais a Oranje. Algo estampado nos categóricos 3 a 0 do placar, que trouxe o cenário que tanto a torcida temia: cair para a quarta posição do grupo A da qualificação, dois pontos atrás dos turcos, competidores diretos pela terceira posição que leva à repescagem. Em suma: nunca foi tão grande o perigo da Holanda perder sua primeira competição grande desde a ausência na Copa de 2002. 

E se o destino ainda fora um adversário a mais, pela lesão de Robben e a expulsão de Martins Indi que jogaram a partida de quinta passada nas mãos da agora classificada Islândia, agora não houve desculpas holandesas para a atuação ainda pior que se viu na Torku Arena. Danny Blind manteve o 4-3-3 velho de guerra, trouxe Van Persie de volta aos titulares (era necessário), e jogou as fichas na improvisação de Jaïro Riedewald, 18 anos (fará 19 nesta quarta), zagueiro do Ajax, na lateral esquerda.

De nada adiantou. Os mesmos defeitos que são vistos desde a segunda passagem de Guus Hiddink foram repetidos: um time excessivamente espaçado, que permitia a troca de passes entre os turcos - e a fácil marcação dos atacantes. Na parte ofensiva, aliás, as tentativas foram estéreis e repetitivas: apenas esforços de Memphis Depay e Luciano Narsingh pelas pontas, e jogadas nas quais Robin van Persie fazia o pivô para Wesley Sneijder chutar, vindo de trás. Não só o destino era sempre o mesmo (ora a linha de fundo, ora as mãos do goleiro Volkan Babacan), como a atuação apagada de Van Persie e Sneijder faz crer, de fato, que já é hora de pensar a seleção sem suas presenças. E que a geração deles está perto de dizer adeus sem um título. Como tantas outras, de tantos outros craques, no caso laranja.

Na defesa? Novamente, ingenuidades gritantes que facilitaram a vida turca. Com a subida da linha de quatro marcadores, o excessivo avanço de De Vrij ao meio-campo abriu o espaço para que Arda Turan (o melhor do jogo, com apenas 55 minutos em campo) lançasse a bola que Oguzhan Özyakup (nascido em Zaandam, e atleta da seleção holandesa sub-17 no mundial da categoria, em 2009) tocou na saída de Cillessen para abrir o placar. O segundo gol, então, foi ainda pior, com mais erros. 1) Van der Wiel cobrou um lateral para Daley Blind, que estava cercado por turcos; 2) Blind estava "na fogueira", mas perdeu a bola facilmente para Arda Turan; 3) A falha de Cillessen, que deixou passar um chute fraco; 4) A inacreditável preocupação de Jeffrey Bruma com um impedimento - que não existe em cobranças de lateral, como se sabe.

No segundo tempo, com a vitória garantida, a Turquia mostrou porque ganhava. Se estava no 4-4-2, isso não impedia de mostrar proximidade entre seus jogadores, envolvendo facilmente a Oranje em sua marcação. Restou a entrada de Luuk de Jong, para o famoso "abafa", que se revelou infrutífero. E o terceiro gol dos turcos, no fim do jogo, só foi a pá de cal numa Holanda ainda mais desalentadora do que fora contra a Islândia. O abatimento era tamanho que Van Persie só conseguiu dizer: "É terrível". O outro veterano, Sneijder, teorizou: "Talvez estejamos numa fase de muito azar". Danny Blind, de novo, atribuiu o revés a falhas individuais ("A Turquia se aproveitou delas").

Torcida e imprensa, atônitos, são catastróficos. O AD Sportwereld, caderno de esportes do diário  Algemeen Dagblad, foi definitivo na manchete desta segunda: "Fracos demais para a Euro". Dentro, a coluna do ex-jogador Willem van Hanegem foi virulenta contra os jogadores: "Na Oranje há alguns jogadores que só se preocupam com eles mesmos. Memphis é um exemplo, com os sapatos bonitos dele, parece Goldfinger. Do jeito que os jogadores se vestem, parecem ir a um jogo amistoso de bodyboarders. (...) A culpa é toda nossa, colocamos os jogadores num pedestal. Memphis toca a bola de calcanhar e o narrador já exagera. (...) Não quero culpar Danny Blind, é fácil demais".

Com tudo isso, incrível é saber que a Holanda ainda pode muito bem chegar à repescagem. Não é nada irreal voltar à terceira posição do grupo, ao vencer o Cazaquistão e ver a República Tcheca superar a Turquia, na próxima rodada. E os tchecos já fizeram isso uma vez, na fase de grupos da Euro 2004. Para ir às quartas de final, a Oranje precisava vencer a Letônia, e também de uma vitória deles, já classificados, contra a Alemanha. Desconfiava-se da motivação do time de Nedvěd, Poborský e cia, que já tinha a vaga assegurada. Mas fez 2 a 1 e despachou os germânicos da Euro, enquanto a Oranje fez 3 a 0 nos letões e foi às quartas.

Pode até acontecer. Mas não depende mais da Holanda. E ela não anda fazendo por merecer tal sorte dentro de campo.