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sexta-feira, 30 de junho de 2023

A Holanda na Copa feminina - as 23 convocadas: Van Dongen

 
Van Dongen deixou de ser titular absoluta, mas sua experiência e sua ascendência perante o grupo de jogadoras a tornam figura importante na convocação da Holanda (KNVB Media)

Ficha técnica
Nome: Merel van Dongen
Posição: Zagueira/lateral esquerda
Data e local de nascimento: 11 de fevereiro de 1993, em Amsterdã (Holanda)
Clubes na carreira: ADO Den Haag (2011 a 2012), Crimson Tide-EUA (2012 a 2015), Ajax (2015 a 2018), Betis-ESP (2018 a 2020) e Atlético de Madrid-ESP (desde 2020)
Desempenho na seleção: 60 jogos e 2 gols, desde 2015
Torneios pela seleção: Copa de 2015 (3 jogos, nenhum gol), Copa de 2019 (6 jogos, nenhum gol), torneio olímpico de 2020+1 (2 jogos, nenhum gol) e Euro 2022 (não jogou)

(Versão revista e ampliada do texto de apresentação para o guia deste blog na Copa de 2019)

Merel van Dongen já não é a titular da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) que foi na Copa de 2019. Em clubes, até continua com ritmo de jogo considerável no Atlético de Madrid. Ainda assim, com a afirmação de novos nomes (Lynn Wilms, Aniek Nouwen, Esmee Brugts) e a mudança de esquema tático implantada na equipe, a jogadora de 30 anos anda frequentando mais o banco de reservas do que o jogo. Então, sua importância diminuiu bastante, certo? Errado: mesmo com espaço menor, Van Dongen ainda é nome certo nas convocações das Leoas Laranjas. Em campo, por sua versatilidade, ela sempre está a postos como uma opção a Dominique Janssen - seja na zaga, seja na lateral esquerda. Fora dele, sua postura é de uma das líderes do grupo habitual de convocadas: integrando as mais novas, auxiliando constantemente as mais experientes... enfim, mesmo sem ser titular, é plenamente explicável que a psicóloga formada esteja na terceira Copa do Mundo de sua carreira.

Carreira que teve os primeiros passos ainda na infância: logo aos cinco anos de idade, Van Dongen começou a jogar recreativamente num clube amador de Amsterdã, o Buitenveldert. E foi nesse clube que a nativa da capital holandesa seguiu, sem aspirações profissionais - até porque se dividia entre o futebol e o basquete, jogando no Mosquitos, equipe amadora da modalidade em Amsterdã. Por ela, Van Dongen até fez parte de equipes campeãs holandesas de base no bola-ao-cesto. E a divisão entre campos e quadras durou até 2007: aos 14 anos, ela se transferiu para outra agremiação amadora: o RKSV Pancratius, de Badhoevedorp, pequena vila próxima ao lago Haarlemmer, perto de Amsterdã. 

Ali, sim, uma oportunidade mais séria no futebol começou a se tornar possibilidade real. Que praticamente se concretizou após três anos: em 2010, como último passo antes de se profissionalizar, a zagueira foi para o Ter Leede, da cidade de Sassenheim. Paralelamente a tudo isso, Merel já atuava pelas seleções de base da Holanda desde os 12 anos de idade. Finalmente, em 2011, a defensora chegou a seu primeiro clube profissional: o ADO Den Haag, cuja equipe feminina já disputava a Eredivisie. No clube de Haia, conquistou os dois primeiros títulos da carreira - a "dupla coroa" holandesa, com as vitórias tanto no campeonato quanto na copa nacionais. Porém, fez-se necessária uma outra formação profissional para a jovem. E Van Dongen se tornou mais uma holandesa a partir para os Estados Unidos, buscando tanto um diploma quanto a continuação da carreira no futebol. Encontrou as duas coisas a partir do segundo semestre de 2012.

Van Dongen conseguiu duas coisas nos Estados Unidos: um diploma - é formada em Psicologia - e um impulso em sua carreira de jogadora (The Tuscaloosa News)

Na vida acadêmica, Van Dongen conseguiu o diploma de bacharel em Psicologia, pela Universidade do Alabama. No futebol, jogou pelo Alabama Crimson Tide, equipe da própria universidade, entre 2012 e 2014. E o ritmo de jogo que manteve pelo time do local em que estudava já serviu para que ela chamasse a atenção da seleção holandesa: foi uma das 23 convocadas para a malograda campanha na Euro 2013, na qual ficou o tempo todo no banco de reservas (até porque fora cortada numa primeira convocação, sendo chamada de vez só após a lesão de Mandy van den Berg).

Em 2015, três anos depois, a carreira da zagueira teve o primeiro salto. Diplomada, ela voltou à Holanda - e já voltou de contrato assinado com a equipe feminina do Ajax, seu clube do coração, ainda a tempo de disputar a reta final da temporada 2014/15. Na seleção, enfim teve a primeira chance jogando nas Leoas, em 7 de fevereiro, num amistoso contra a Tailândia. Pouco depois, fez seu primeiro gol, num amistoso contra a Estônia (vitória holandesa, 7 a 0). E agradou a ponto de ser convocada para a Copa do Mundo. E já provou valor durante a campanha holandesa no Mundial: começou no banco, mas entrou no lugar da experiente Petra Hogewoning, e se tornou titular da zaga a partir da segunda partida das Leoas, contra a China.

Em 2015, Van Dongen enfim teve espaço na seleção holandesa de mulheres, indo a seu primeiro torneio por ela - e logo a primeira participação do país na Copa feminina (Maddie Meyer/FIFA/Getty Images)

Mas a manutenção no grupo constante de convocadas da seleção feminina teve lá seus percalços. Se Van Dongen seguiu titular absoluta da zaga do Ajax, fortalecendo sua posição com os títulos da Eredivisie e da Copa da Holanda na temporada 2016/17, na seleção a concorrência fez com que Sarina Wiegman a deixasse de fora da convocação para a Euro 2017, que terminaria com o título. A própria Wiegman reconheceu que a concorrência foi fator fundamental para Van Dongen ficar de fora daquela campanha.

Só que, se o destino atrapalhou Van Dongen em 2017, ajudou no ano seguinte. Antes capitã, Mandy van den Berg começou a Euro titular, mas se lesionou, se desentendeu com Sarina Wiegman e foi afastada da seleção holandesa. Stefanie van der Gragt sofreu cada vez mais com lesões. E Van Dongen, confiável no Ajax, passou a ser convocada durante as Eliminatórias da Copa. Passou a ser titular já na conquista da Copa do Algarve, torneio amistoso, em 2018. E no clube do qual se tornava símbolo na equipe feminina, comemorou mais ainda: a dupla coroa - campeonato e copa dos Países Baixos -, na temporada 2017/18.

O título da Copa da Holanda, em 2017/18, foi mais um passo para consolidar Van Dongen como um dos destaques do Ajax (Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)

Em clubes, o ápice nacional foi o sinal de que era hora de mudar para um cenário mais competitivo - e Van Dongen tomou o caminho do Real Betis, no meio de 2018. Em seleções, o ápice ainda viria. E no momento mais destacado em que isso poderia acontecer: a Copa do Mundo de mulheres, em 2019. A defensora começou o ano novamente na reserva da seleção holandesa, com Kika van Es titular da lateral esquerda. Até o amistoso contra a Austrália, despedida da equipe antes do Mundial começar. Nos primeiros minutos da vitória por 3 a 0, Van Es sofreu uma microfratura na mão, precisando ser substituída. Van Dongen entrou em seu lugar. 

Mesmo voltando à reserva na estreia na Copa, contra a Nova Zelândia, ela não só entrou em campo aos 71', como cruzou para Jill Roord fazer o gol da vitória por 1 a 0. Com Van Es, a titular original, ainda hesitante na recuperação da fratura, Van Dongen acabou virando titular na terceira partida na fase de grupos (2 a 1 no Canadá), estabilizando a lateral esquerda da Holanda ao longo competição. E só saiu do time na escalação da final contra os Estados Unidos, pela preferência de Sarina Wiegman por uma defesa mais fisicamente forte. De resto, esteve em vários momentos importantes daquela histórica trajetória. Da qual se lembrou com uma frase, após as quartas de final: "Marta [Brasil] foi eliminada, Renard [França] foi eliminada... e eu fiquei".

Van Dongen começou a Copa de 2019 na reserva. Terminou titular e sendo importante numa campanha marcante (Baptiste Fernandez/Icon Sport/Getty Images)

Van Dongen continuou sendo titular constante do Betis e da seleção na temporada 2019/20. Aí, os cenários se tornaram diferentes. Na interrupção forçada da temporada, pela pandemia, a defensora se transferiu para um clube até mais visto na Espanha, o Atlético de Madrid. Contudo, na seleção, começou a perder espaço gradativamente ao longo de 2021, voltando a se alternar entre campo e banco, com a aparição de novatas como Aniek Nouwen e Kerstin Casparij. Foi convocada para o torneio olímpico de futebol feminino, mas sua presença se resumiu a dois jogos completos - e os outros dois no banco, após algumas falhas de marcação e a boa fase de Dominique Janssen na lateral esquerda. 

Com a chegada de Mark Parsons como novo técnico, Van Dongen ainda fez alguns jogos nas eliminatórias da Copa, em 2021. Mas perdeu a titularidade definitivamente no início de 2022, logo após o Torneio da França. Contudo, deixar de vez a seleção? Nem pensar: ela pode não ter jogado nenhum minuto na Euro do ano passado, segue costumeiramente na reserva sob o comando de Andries Jonker, contudo segue muito respeitada entre as colegas, como uma das mais experientes do grupo. No Atlético de Madrid, Van Dongen também perdeu algum ritmo - uma lesão no joelho a atrapalhou, no meio da temporada 2022/23 -, mas retomou algum espaço na reta final. E terminou comemorando, enfim, mais um título na carreira: jogando 67 minutos na final, Van Dongen fez parte da conquista da Copa da Rainha, sobre o arquirrival Real Madrid. E comemorou bastante, como mostrou em seu perfil no Twitter.

Na Espanha, após duas temporadas no Real Betis, Van Dongen se estabeleceu no Atlético de Madrid - e nele voltou a comemorar um título, com a Copa da Rainha (Angel Martinez/Getty Images)

Falando em mídias sociais, as posturas fora de campo só consolidam a imagem respeitada que Van Dongen conseguiu entre suas colegas de time. Recém-casada com a meio-campista espanhola Ana Romero, do Betis (parceira desde os tempos de Ajax), Van Dongen sempre usa o Twitter para se manifestar sobre mazelas do futebol feminino. Podem ser pequenas, como a falta de atualização constante do perfil oficial da Eredivisie feminina, em outubro de 2018: "Comparem [o perfil da Eredivisie feminina] com o perfil do campeonato dos homens: cheio de atualizações, curiosidades, retuítes. Isso não tem a ver com investimento em dinheiro, tem a ver com promover a Eredivisie Vrouwen. Isso cria uma valorização, e não custa (quase) nada. É só uma questão de querer". Podem ser grandes - ao saber que o Ajax, clube pelo qual mantém carinho, desistiu de fazer festas pela conquista da Eredivisie feminina em razão da má fase do time de homens, não pestanejou: "Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos... é triste se sentir assim no meu clube". Podem ser de apoio: em 2020, ela demonstrou que apoiaria um jogador caso este decidisse se assumir homossexual - "Ele tem medo, mas tenho certeza que muita gente o apoiaria". Ou até comemorarem, como no primeiro clássico entre as equipes femininas de Ajax e Feyenoord na Johan Cruyff Arena, no ano passado: "Estou incrivelmente orgulhosa. É o primeiro de muitos, estou certa".
Por tudo isso, Van Dongen continua sendo convocada, mesmo que já indique aqui e ali o fim do caminho nos campos ("Meu sonho, quando eu parar de jogar - e essa hora está mais perto - é talvez passar uns meses viajando de 'mochilão'"). Porque é respeitada pela firmeza. Em campo e fora dele.

(ProShots/Icon Sport/Getty Images)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

As 23 Leoas: Van Dongen

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 

Van Dongen teve alguns solavancos na carreira, mas se valeu da firmeza em campo para, enfim, conquistar a titularidade na zaga da Holanda (onsoranje.nl)
Até que demorou para Merel van Dongen ocupar um lugar fixo na seleção feminina da Holanda. Desde a primeira aparição das Leoas Laranjas numa Copa do Mundo, em 2015, a zagueira de 26 anos rondava as convocações, mas ainda faltava a chance definitiva para virar nome certo entre as titulares. A chance chegou mesmo a estar bem distante. Só que algumas coisas aconteceram, entre o título europeu de 2017 e esta fase de preparação rumo à Copa do Mundo. E tais coisas fizeram com que a defensora rumasse ao Mundial como favorita para ser titular, no miolo de zaga.

Essa carreira que está prestes a ter o seu auge teve os primeiros passos ainda na infância: logo aos cinco anos de idade, Van Dongen começou a jogar recreativamente num clube amador de Amsterdã, o Buitenveldert. E foi nesse clube que a nativa da capital holandesa seguiu, sem aspirações profissionais - até porque se dividia entre o futebol e o basquete, jogando no Mosquitos, equipe amadora da modalidade em Amsterdã.

Tal divisão durou até 2007: aos 14 anos, ela se transferiu para outra agremiação amadora: o RKSV Pancratius, de Badhoevedorp, pequena vila próxima ao lago Haarlemmer, perto de Amsterdã. Ali, sim, uma oportunidade mais séria no futebol começou a se tornar possibilidade real. Que praticamente se concretizou após três anos: em 2010, como último passo antes de se profissionalizar, a zagueira foi para o Ter Leede, da cidade de Sassenheim. Paralelamente a tudo isso, Merel já atuava pelas seleções de base da Holanda desde os 12 anos de idade.

Finalmente, em 2011, a defensora chegou a seu primeiro clube profissional: o ADO Den Haag, cuja equipe feminina já disputava a Eredivisie. No clube de Haia, conquistou os dois primeiros títulos da carreira - a "dupla coroa" holandesa, com as vitórias tanto no campeonato quanto na copa nacionais. Porém, fez-se necessária uma outra formação profissional para a jovem. E Van Dongen se tornou mais uma holandesa a partir para os Estados Unidos, buscando tanto um diploma quanto a continuação da carreira no futebol. Encontrou as duas coisas a partir do segundo semestre de 2012.

Na vida acadêmica, Van Dongen conseguiu o diploma de bacharel em Artes, pela Universidade do Alabama. No futebol, jogou pelo Alabama Crimson Tide, equipe da própria universidade, entre 2012 e 2014. E o ritmo de jogo que manteve pelo time do local em que estudava já serviu para que ela chamasse a atenção da seleção holandesa: foi uma das 23 convocadas para a malograda campanha na Euro 2013, na qual ficou o tempo todo no banco de reservas (até porque fora cortada numa primeira convocação, sendo chamada de vez só após a lesão de Mandy van den Berg).

Em 2015, três anos depois, a carreira da zagueira teve o primeiro salto. Diplomada, ela voltou à Holanda - e já voltou de contrato assinado com a equipe feminina do Ajax, seu clube do coração, ainda a tempo de disputar a reta final da temporada 2014/15. Na seleção, enfim teve a primeira chance jogando nas Leoas, em 7 de fevereiro, num amistoso contra a Tailândia. De quebra, já agradou a ponto de ser convocada para a Copa do Mundo. E já provou valor durante a campanha holandesa no Mundial: começou no banco, mas entrou no lugar da experiente Petra Hogewoning, e se tornou titular da zaga a partir da segunda partida das Leoas, contra a China.

Foi jogando no Ajax que Van Dongen (dando o carrinho) despontou de vez na carreira (Aaron van Zandvoort/Soccrates/Getty Images)
A partir disso, a carreira só evoluiu, certo? Errado. Se Van Dongen seguiu titular absoluta da zaga do Ajax, fortalecendo sua posição com os títulos da Eredivisie e da Copa da Holanda na temporada 2016/17, na seleção a concorrência fez com que Sarina Wiegman a deixasse de fora da convocação para a Euro 2017, que terminaria com o título. A própria Wiegman reconheceu que a concorrência foi fator fundamental para Van Dongen ficar de fora daquela campanha.

Mas logo aconteceram as coisas mencionadas no começo do texto. Antes capitã, Mandy van den Berg começou a Euro titular, mas se lesionou, se desentendeu com Sarina Wiegman e foi afastada da seleção holandesa. Stefanie van der Gragt sofreu (e ainda sofre) com lesões. E Van Dongen, confiável no Ajax, passou a ser convocada durante as Eliminatórias da Copa. Passou a ser titular já na conquista da Copa do Algarve, torneio amistoso, em 2018. E chega à Copa como opção preferencial do time holandês, no miolo de zaga.

O crescimento de Van Dongen não se deu só na seleção, muito menos só dentro de campo. Em clubes, ela teve a transferência para o Betis, da Espanha, no meio de 2018. Fora de campo, não só ela se afirmou no campo pessoal (foi para o Betis junto da meio-campista espanhola Ana Romero, sua companheira de Ajax e de vida), como também pediu mais atenção da Holanda ao futebol feminino. Ativa usuária do Twitter, a zagueira holandesa alfinetou a falta de atualização constante do perfil oficial da Eredivisie feminina, em outubro do ano passado: "Comparem [o perfil da Eredivisie feminina] com o perfil do campeonato dos homens: cheio de atualizações, curiosidades, retuítes. Isso não tem a ver com investimento em dinheiro, tem a ver com promover a Eredivisie Vrouwen. Isso cria uma valorização, e não custa (quase) nada. É só uma questão de querer".

E Van Dongen quis chegar aonde está: na zaga da seleção holandesa, cada vez mais respeitada pela firmeza. Em campo e fora dele.

Ficha técnica
Nome: Merel van Dongen
Posição: Zagueira
Data e local de nascimento: 11 de fevereiro de 1993, em Amsterdã (Holanda)
Clubes na carreira: ADO Den Haag (2011 a 2012), Crimson Tide-EUA (2012 a 2015), Ajax (2015 a 2018) e Betis-ESP (desde 2018)
Desempenho na seleção: 26 jogos e 1 gol, desde 2015