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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Continua faltando

Na retrospectiva do ano do futebol na Holanda (Países Baixos) para 2024, publicada há exatamente 364 dias, havia até um certo otimismo na análise. Afinal de contas, à seleção masculina, só faltava ganhar mais de seleções grandes para ganhar respeito e até confiança rumo à Copa de 2026; à seleção feminina, faltava abrir mais espaço para novatas (e não seria nada má uma boa campanha na Eurocopa de mulheres); e aos clubes, em geral, fazendo campanhas dignas aqui e ali nos torneios continentais, faltava uma campanha definitivamente respeitável.

De certa forma, 2025 termina com uma impressão mais preocupada no futebol laranja. Em todas as frentes. A seleção masculina cumpriu seu principal objetivo no ano, é verdade: estará na Copa do Mundo. Mas não só seguiu sem vencer outras grandes equipes nacionais, como começou a tropeçar preocupantemente contra seleções inferiores. Resultado: embora se reconheça que os jogadores da Laranja são bons, também se considera que ela é muito suscetível a surpresas. Com relação aos clubes, então, a decepção é ainda maior: com a temporada 2025/26 chegando à metade, apenas PSV (na Liga dos Campeões), Go Ahead Eagles (Liga Europa) e AZ (na Conference League) podem aspirar a desempenhos razoáveis. A seleção feminina, por sua vez, até termina o ano um pouco mais otimista. Só que isso veio depois de um péssimo primeiro semestre, seguido das mudanças necessárias.

Numa frase: continua faltando muita coisa no futebol do Reino dos Países Baixos. O quê, especificamente?

Nos homens, a Holanda até conseguiu a vaga na Copa sem muitos problemas. Só que as oscilações fizeram com que ela terminasse 2025 atraindo desconfiança - até mesmo sobre o que ocorrerá no Mundial (KNVB Media/Divulgação)

Seleção masculina: regrediu. Antes de avançar?

Impossível dizer que 2024 tinha sido um mau ano para a seleção masculina da Holanda (Países Baixos): afinal de contas, por mais que o desempenho tivesse sido oscilante, ela tinha sido semifinalista da Euro e estava classificada na Liga das Nações. Certo, faltava vencer seleções grandes. Mas não era nada que não se pudesse resolver em 2025. Até porque ele começaria com as partidas das quartas de final da Nations League, em março, nas quais a adversária era... a Espanha, atual campeã europeia. E novamente, a Laranja caiu. Mas exigiu bastante dos espanhóis, nos 2 a 2 da ida em Roterdã e, principalmente, nos 3 a 3 em Valência, com notáveis atuações de Tijjani Reijnders, Cody Gakpo e de Memphis Depay, de volta à forma com o ritmo de jogo ganho no Corinthians. Perder nos chutes da marca do pênalti (Espanha 5 a 4 nas cobranças) fazia parte: com o grupo nas Eliminatórias da Copa sendo muito acessível - Polônia, Finlândia, Lituânia e Malta -, a perspectiva era a melhor possível. E ela foi fortalecida pelo começo categórico nas eliminatórias da Copa: nas duas primeiras rodadas, duas vitórias sem gols sofridos (2 a 0 na Finlândia, 8 a 0 em Malta), uma goleada muito útil em termos de saldo de gols. E nada indicava que seria diferente nas rodadas seguintes. Só que... foi.

No primeiro jogo contra a Polônia, na terceira rodada da qualificação para a Copa, em Roterdã, em setembro, a Holanda nem foi tão mal. Nomes como Denzel Dumfries e o citado Memphis cresceram muito de produção. Porém, de tanto controlar o jogo ao ter a vantagem, sem buscar mais gols, a Laranja foi pessimamente surpreendida ao tomar o 1 a 1 em casa. Bem, bastaria dominar a Lituânia, mesmo fora de casa, dias depois, para tranquilizar a situação, certo? Erradíssimo: a Laranja até abriu 2 a 0 no primeiro tempo, mas antes mesmo do intervalo, tomou o empate dos lituanos. Pior ainda: a Lituânia, 146ª colocada no ranking da FIFA, jogava melhor e tinha chances de virar o jogo. Só não virou porque Memphis Depay, além de se isolar naquele 7 de setembro como maior goleador da história da seleção holandesa masculina, fez o gol de um 3 a 2 salvador, mas que também mudava para pior a impressão de torcida e imprensa sobre a seleção laranja.

Retomado o ritmo de jogo no Corinthians, mesmo com lesões aqui e ali, Memphis Depay retomou sua titularidade na Laranja. E retomou com algumas ótimas atuações (ProShots/Getty Images)

O mau humor não mudou com as duas goleadas por 4 a 0, sobre Malta e Finlândia, nas rodadas de outubro das eliminatórias. Não mudou nem com os testes periódicos que o técnico Ronald Koeman começou a fazer nas convocações, com alguns estreantes (o goleiro Robin Roefs, para a reserva; Sem Steijn, Luciano Valente e Emmanuel Emegha, mais à frente). Talvez só tivesse mudado em caso de vitória contra a Polônia, em Varsóvia, na penúltima rodada da qualificação - mas o 1 a 1 tenso trouxe uma preocupação adicional: a lentidão da defesa para voltar e marcar contra-ataques, vista no gol de Jakub Kaminski. Pelo menos, o primeiro lugar no grupo G das eliminatórias e a vaga direta na Copa não corriam riscos, pela grande vantagem neerlandesa no saldo de gols, primeiro critério de desempate. E tudo isso se confirmou com uma goleada na rodada final: 4 a 0 na Lituânia. Após algum tempo (desde 2014), a Holanda voltou a se classificar para uma Copa do Mundo masculina sem sufocos.

Porém, nem o final feliz das eliminatórias tira a impressão de que a Laranja é uma seleção excessivamente displicente. Melhor do que estava na Copa de 2022, mas displicente. Mesmo com um meio-campo ótimo (Frenkie de Jong, Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch nada deixam a dever a nenhuma outra grande seleção), a fragilidade crescente da defesa - os dois laterais têm no apoio a melhor qualidade, e Virgil van Dijk sente cada vez mais o peso dos 34 anos - faz crer que, talvez, Ronald Koeman volte a experimentar um esquema com três zagueiros, nos amistosos que iniciarão 2026, contra Noruega e Equador, em março. E o grupo na Copa do Mundo, com o elogiado Japão, uma europeia vinda de repescagem (entre Ucrânia, Suécia, Polônia e Albânia) e Tunísia, é traiçoeiro demais para uma seleção que atrai menos confiança no fim de 2025 do que atraía há um ano. A esperança de torcida e imprensa é que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tenha regredido neste ano, para avançar em 2026. Quem sabe, avançar até o título mundial, caso embale no decorrer da Copa...

A dor de Weghorst, contra a Internazionale (Liga dos Campeões), simboliza: está difícil a situação para os clubes holandeses em 2025/26 (ProShots/Getty Images)

Clubes: o sonho não acabou, mas passou

Coeficiente melhor que o de Portugal e França, desde a temporada passada. Dois times nas oitavas de final da Liga dos Campeões, algo que não ocorria desde a temporada 2005/06. Nível promissor de times como o Utrecht, nas fases preliminares desta temporada atual. A saudável novidade do Go Ahead Eagles, novamente brilhando - e agora com uma fase de liga garantida, indo diretamente à Liga Europa ao conquistar a Copa da Holanda. Sim, a Holanda (Países Baixos) acreditava poder manter a vantagem. Ainda mais com a reta final incrível que o campeonato teve na temporada passada: com nove pontos de vantagem na virada do ano passado, o PSV desmoronou no começo de 2025, viu o Ajax abrir nove pontos, estar com eles a cinco rodadas do fim... para então, ser ele a desmoronar, com uma arrancada notável do time de Eindhoven para o bicampeonato, ganho na última rodada.

Mas o sonho acabou logo que as fases de liga começaram. Certo, há as exceções à regra: com boas vitórias contra Napoli (6 a 2 impressionante) e Liverpool (aproveitando a crise dos Reds para fazer 4 a 1 em Anfield), o PSV está firme para tentar ir à segunda fase da Liga dos Campeões, antes das oitavas. Uma surpreendente vitória sobre o Aston Villa turbinou o Go Ahead Eagles para seguir se esforçando em busca da vaga na Liga Europa. E bem ou mal, o AZ cumpriu a perspectiva de avançar na Conference League. Ainda assim, nem mesmo essas exceções escapam de críticas. Ao PSV, por exemplo, falta constância (se houve as vitórias citadas, houve derrota para o Union Saint-Gilloise belga em casa na estreia). Ao AZ, falta ofensividade: o time de Alkmaar não brilha nem nas vitórias.

O PSV é uma das raras exceções promissoras. Mas mesmo assim, ainda patina na Champions (ProShots/Getty Images)

Em vez de serem promissores, os times holandeses decepcionam. Que o diga, principalmente, o Feyenoord: as chances de avançar na Liga Europa se esvaem, e o time sofre com escolhas estranhas de escalação e derrotas pouco previstas (como o 1 a 0 sofrido para o Braga, na estreia em Portugal, e a virada para o 4 a 3 sofrida para o FCSB na Romênia, após ter 3 a 1 de vantagem). O Utrecht tinha mais dificuldades previstas, mas também não depõe a favor do clube ter somente um ponto em seis rodadas. E o Ajax teve na péssima campanha na Liga dos Campeões um símbolo do momento turbulento em que vive: chegou a ser último colocado na fase de liga, só teve derrotas em casa, e a vitória inicial só chegou na rodada passada (e mesmo assim, numa virada difícil: 4 a 2 sobre o Qarabag, no Azerbaijão).

Tudo isso se reflete no coeficiente: é cada vez mais provável que os Países Baixos sejam ultrapassados por Portugal, já que na próxima temporada serão descartados os pontos ganhos em 2018/19, quando o Ajax foi semifinalista da Champions - e, por tabela, turbinou os desempenhos do país. De quebra, uma das vagas a que o país tem direito na fase de liga do principal torneio europeu será perdida. E fica a impressão amarga: a Holanda perdeu uma ótima chance. O sonho não acabou em definitivo, já que sempre há a chance de reagir. Mas ele... passou.

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) começou o ano amuada, teve o ápice do baixo astral na eliminação precoce na Eurocopa... mas termina mais animada (KNVB Media/Divulgação)

Seleção feminina: depois da tempestade, a bonança pode vir

Os Países Baixos têm jogadoras de boa qualidade. Sempre tiveram. E as seleções femininas neerlandesas de base mostram ótima situação: que o diga a equipe sub-17, campeã europeia e vice-campeã mundial neste ano que se acaba. Entretanto, quando este 2025 começava, o grupo dificílimo em que o sorteio da Eurocopa feminina jogara as Leoas Laranjas - tendo, além de País de Gales, a França (sempre tradicional) e a Inglaterra (então campeã europeia - seria bicampeã -, e vice mundial) - já dava a impressão de que seria um ano complicado. Porque, mesmo com boas jogadoras, a seleção laranja de mulheres não passava a impressão consistente que precisaria passar para superar francesas e inglesas, ambas com mais qualidade técnica, mais opções e, no caso das inglesas, mais sabedoria em horas decisivas.

A impressão ficou pior ainda com o anúncio da saída do técnico Andries Jonker, antes mesmo da Euro - em janeiro, mais precisamente. Talvez fosse a atitude certa, mas foi tomada do jeito errado, sem nem um sucessor anunciado simultaneamente, nem explicações claras da federação (o que irritou ainda mais Jonker, que já demonstrou seu descontentamento com o anúncio nas datas FIFA de fevereiro - só no segundo semestre, o motivo seria "explicado", com um genérico "clima ruim com o grupo"). Nem influiu tanto nas rodadas iniciais do grupo da Liga das Nações - a Holanda pegava Alemanha, Escócia e Áustria, empatou com as alemãs na estreia, e conseguiu superar escocesas em um jogo de fevereiro, e austríacas, nas duas partidas de abril.

Porém, aí os problemas começaram. Primeiro, algumas lesões de nomes importantes. Que o diga a goleira Daphne van Domselaar, que sofreu uma lesão no tornozelo nos 3 a 1 feitos em casa contra as austríacas - e desde então, nunca mais esteve no auge da forma, mesmo se esforçando e até tendo um título europeu com o Arsenal. Que o diga, principalmente, Vivianne Miedema: conseguindo iniciar uma sequência de jogos na seleção, a atacante entrou em outros 3 a 1 contra a Áustria - fora de casa -, fez um belo gol... e minutos depois, com lesão muscular na parte posterior da coxa, já precisou ser substituída. 

Pior ainda foi ver a fragilidade defensiva crônica das holandesas ser posta a nu nos 4 a 0 sofridos para a Alemanha, na penúltima rodada do grupo 1 da Liga A, tirando as chances de classificação às semifinais, quando as Leoas Laranjas sequer chutaram ao gol de Ann-Katrin Berger. Entretanto, se houve uma partida em que o sinal de alerta ficou aceso, quase indo para o sinal vermelho, foi mesmo no empate em casa com a Escócia, por 1 a 1, na última rodada. Era só para cumprir tabela, mas indicava uma Holanda sem conseguir compensar no ataque (quantas chances perdidas!) a fraqueza da defesa. E nem mesmo a vitória no amistoso de despedida rumo à Euro (2 a 1 na Finlândia) apagou a forte desconfiança, aumentada ainda mais pela lesão no tornozelo que quase causou o corte de Lineth Beerensteyn.

Euro iniciada, houve a "folga" esperada na estreia, com tranquilos 3 a 0 no País de Gales. Diante da derrota e da má atuação da Inglaterra na sua estreia respectiva (França 2 a 1), a Holanda teve esperanças de vencer e, quem sabe, superar o "Grupo da Morte". Para o azar laranja, porém, Sarina Wiegman sabia exatamente o que fazer, diante de um grupo que (ainda) conhece como a palma da mão, mesmo com as renovações. E mesmo com inegável esforço, as Leoas Laranjas foram presas fáceis para os 4 a 0 que reabilitaram as Lionesses: nem conseguiram marcar no meio-campo, muito menos ameaçaram no ataque. Era a abertura de várias fissuras entre Andries Jonker, já sem muita autoridade desde o anúncio da saída, e o grupo: Wieke Kaptein reclamou de ter sido deixada no banco, Daniëlle van de Donk negou que uma lesão fosse grave como o técnico lamentou, Romée Leuchter depois diria que nunca teve a melhor das relações com Jonker. Se fez seu 100º gol pela seleção, Miedema novamente penou com as dores. E mesmo com um início esperançoso contra a França, precisando vencer por três gols de diferença para ir às quartas de final, o poderoso ataque francês rumou para a virada por 5 a 2, decretando a eliminação da Holanda na fase de grupos. Sinceramente, era até esperado, diante da desastrada decisão da federação e da má fase das jogadoras.


A depressão pós-Euro era tamanha que, já neste fim de ano, Miedema comentou que chegou a pensar em abandonar a seleção neerlandesa em definitivo. Pelo menos, houve um nome que simbolizou e assumiu a necessidade de renovação: o novo técnico, Arjan Veurink, anunciado desde abril. Ele chegava motivado e embalado: afinal, além de um histórico vitorioso em campeonatos holandeses femininos (quatro títulos, com o Twente), Veurink foi o auxiliar de Sarina Wiegman nos vitoriosos trabalhos na própria Holanda e na Inglaterra. E o treinador chegou tranquilizando: bastaria mostrar mais intensidade e mais cuidados defensivos, que logo as Leoas Laranjas voltariam a jogar bem. Chegou assumindo tarefas: convenceu Miedema a seguir na seleção, e afinal ajudou Sherida Spitse, após 248 jogos em 19 anos, a anunciar a saída definitiva das Leoas Laranjas, de forma tranquila. E chegou abrindo espaço para novatas.

Elas já começaram a aproveitar o espaço dado: nomes como Ella Peddemors e Lieske Carleer surpreenderam bem nos quatro amistosos finais de 2025. A própria Holanda mostrou um frescor havia muito tempo não visto em campo. E os resultados comprovaram: um empate (na estreia sob Veurink, 0 a 0 com a Polônia), três vitórias, só um gol sofrido nesses quatro jogos, Miedema voltando a brilhar (foram quatro gols nos 5 a 0 sobre a Coreia do Sul). O nível de exigência aumentará nas eliminatórias para a Copa de 2027, num grupo com França, Polônia e Irlanda, começando em março. Mas depois de um primeiro semestre tempestuoso, está presente a esperança de que a bonança virá para as Leoas Laranjas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

O que falta?

A torcida da Holanda (Países Baixos) brilhou na Eurocopa dos homens, neste 2024. Só que falta algo, em todos os quesitos, para que o brilho seja carregado de vitórias (Eric Verhoeven/Soccrates/Getty Images)

Vendo em perspectiva, neste penúltimo dia do ano de 2024, fazia tempo que o futebol não vivia na Holanda (Países Baixos) um ano... normal. Em todos os sentidos. No âmbito de clubes, é comum que haja uma "alternância de hegemonias" - e após anos do Ajax dando as cartas, com o Feyenoord imperando em 2023, o PSV começa a ensaiar ser o time a ser batido dentro do Campeonato Holandês (masculino e, talvez, feminino). 

No âmbito das seleções de homens, a Laranja tem a fama de ter boas seleções, de fazer papéis decentes nas competições de que participa... mas fraquejar na hora final. A Eurocopa colocou mais um capítulo nesse estereótipo. E nas seleções de mulheres, após a fase fulgurante que a colocou na ribalta entre 2017 e 2019, a equipe neerlandesa segue como uma das mais aparecidas de um "segundo escalão" - e mesmo nele, este 2024 foi ano de grandes dificuldades.

Enfim, no geral, o Reino dos Países Baixos até aparece bem no futebol europeu, mas faz tempo que não desponta impondo respeito real. O que falta, em cada um destes âmbitos, para que isso aconteça?

O PSV brilhou mais na primeira metade do ano. Na segunda, menos. Mas segue dominando o Campeonato Holandês, por enquanto (NESimages/Perry vd Leuvert/DeFodi Images via Getty Images)

Futebol masculino de clubes: falta uma boa campanha europeia

O domínio do PSV no futebol interno da Holanda se dividiu em duas fases. No primeiro semestre - isto é, na reta final da temporada 2023/24 -, o domínio foi absoluto. É certo que isso se deveu, em grande parte, ao primeiro turno esplendoroso que o clube de Eindhoven fizera no ano passado (17 jogos, 17 vitórias). Mas nada disso diminui a soberania ostentada pelos Boeren, que pareciam destinados ao 25º título nacional de sua história muito antes de efetivamente o conquistarem, com três rodadas de antecedência. Com um time que teve vários destaques: André Ramalho e Olivier Boscagli na zaga, Joey Veerman e Jerdy Schouten no meio-campo, Malik Tillman, Johan Bakayoko e Guus Til avançando e, acima de todos, Luuk de Jong, goleador do torneio (ao lado de Vangelis Pavlidis, com 29 gols cada um), um dos maiores jogadores do PSV neste século.

Se houve algum time que mais chegou perto de desafiar o domínio do PSV, foi o Feyenoord, campeão da Copa da Holanda em 2023/24, vice-campeão da Eredivisie, também tendo bons jogadores despontando (ênfase em três nomes: Quinten Timber no meio-campo, Santiago Giménez e Igor Paixão no ataque), um trabalho constante a ponto de conduzir o técnico Arne Slot ao Liverpool. E na primeira parte desta temporada 2024/25, se o novo treinador, Brian Priske, demorou um pouco para colocar o Stadionclub nos eixos, isso parece começar a acontecer. Se nesta temporada do Holandês ainda há alguns tropeços, se o time tem pontos a corrigir, na Liga dos Campeões há indicações de que o clube pode ir além.

Assim como ocorre com o Ajax, que começa a se aliviar. Se a primeira metade do ano foi apenas para os Ajacieden controlarem os danos de um começo terrível de temporada - símbolo de um dos piores momentos da história recente do clube, no mínimo -, aparentemente o técnico Francesco Farioli (em campo) e o diretor de futebol Alex Kroes (fora dele) ajustaram os rumos do clube. Que recebeu algumas contratações - se é que nomes como o velho conhecido Davy Klaassen são contratações novatas. Que se firmou num estilo de jogo um pouco mais sólido, mais parecido com o que a torcida gosta de ver. Que já teve bons momentos, em 2024/25: vitórias sobre os arquirrivais PSV e Feyenoord (Eredivisie), uma boa campanha na Liga Europa, um time que, se não faz bonito, feio também não faz.

Francesco Farioli chegou para treinar o Ajax. Que, se não está novamente imponente, está bem mais confiável do que na primeira metade do ano (Rene Nijhuis/MB Media/Getty Images)

E outros clubes também não fazem feio. Que o diga o Utrecht: enfim, os Utregs chegaram onde queriam, há muito tempo. Como terceiros colocados da Eredivisie, estão inseridos na grande disputa pelo título, ao invés de figurarem apenas nas zonas de vagas em competições europeias. AZ e Twente, por suas vezes, fazem o papel a que estão habituados: o "sub-topo", e presenças nos torneios continentais. E aí é que falta algo aos clubes holandeses. Na reta final da temporada passada, mesmo avançando às oitavas de final da Liga dos Campeões, o PSV poderia ter feito mais contra o Borussia Dortmund. Feyenoord e Ajax duraram pouco, tanto na Liga dos Campeões, quanto na Liga Europa (ou mesmo na Conference League, onde o Ajax caiu, já sendo eliminado de cara na segunda fase).

Há quem diga que o problema é que nem sempre a Holanda manda seus melhores times de fato para as competições continentais. "Culpa", por exemplo, da repescagem por vaga na Conference League: em 2023/24, o Go Ahead Eagles (9º lugar na temporada regular) superou o Utrecht (7º colocado), ganhou o lugar na segunda fase preliminar da Conference... e já caiu, para o SK Brann norueguês. Prejudica o coeficiente, é verdade. Mas não parece ser esta a razão. Em primeiro lugar, porque o Go Ahead Eagles faz novamente campanha belíssima para seus padrões de time pequeno (7º lugar na pausa de inverno). Em segundo lugar, porque tanto PSV quanto Feyenoord quanto Ajax, no mínimo, poderiam suar menos para figurarem nas fases seguintes de Liga dos Campeões (caso dos dois primeiros) e Liga Europa (o terceiro).

Pois bem: falta, na verdade, os clubes que se destacam na Eredivisie se destacarem mais na Europa. É possível, e exemplos não faltam. O mais recente foi o Feyenoord, finalista da Conference em 2021/22. Quem tiver competência que se estabeleça. A Holanda precisa. Até porque Portugal segue nos calcanhares...

O cenário da mais recente decepção da seleção masculina da Holanda (Países Baixos): na semifinal da Eurocopa, a Inglaterra fez o gol de sua vitória no último minuto. Nada da Laranja vencer as grandes... (Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images)

Seleção masculina: falta ganhar das maiores

O 2024 da seleção de homens da Holanda (Países Baixos) foi ruim? Claro que não, impossível e até injusto falar isso. Uma seleção semifinalista de Eurocopa não está exatamente em crise. Entretanto, quando o técnico Ronald Koeman avaliou que a Laranja merecia uma nota "7, talvez 8, como semifinalista de Euro" para o seu ano, o estranhamento foi grande. Compreensível: afinal de contas, por mais que tenha bons jogadores, um nível técnico razoável... falta "a" vitória". Falta a Oranje convencer contra seleções tão tradicionais e grandes - até maiores - do que ela. Contra as menores, está tudo no lugar, como a vaga nas quartas de final da Liga das Nações indica. Mesmo a campanha na Euro indica isso. Parecia não indicar, diante de como a fase de grupos terminou: uma derrota por 3 a 2 para a Áustria, com a defesa frágil demais para o que os nomes (Virgil van Dijk, Nathan Aké, Stefan de Vrij, Matthijs de Ligt...) sugeriam. Mas àquela altura, a Laranja estava já classificada para as oitavas de final. E a sorte rendeu a ela um caminho bem mais suave do que poderia ter acontecido.

Romênia nas oitavas de final, Turquia nas quartas de final: a Holanda bateu ambas. A Romênia, facilmente; contra os turcos, se houve dificuldades, houve ainda mais desejo de vitória para a virada por 2 a 1. Ir longe ampliava a "onda laranja" que tomou conta da Alemanha, com centenas de milhares de torcedores neerlandeses viajando ao país-sede da Euro. Porém, contra a Inglaterra, na semifinal... o começo de sonho, com o rápido 1 a 0 de Xavi Simons, logo foi superado por uma clara superioridade da Inglaterra, que empatou ainda no primeiro tempo. E quando virou para ir à final da Euro, foi para não dar chances: no minuto final do tempo regulamentar. O que mostrou um dos erros que Ronald Koeman tem em seu trabalho: excesso de cautela. Somente ao tomar o segundo gol é que o técnico decidiu fazer mudanças, colocando Brian Brobbey e Joshua Zirkzee no ataque para tentarem o empate... nos acréscimos. Sendo que a jogada do segundo gol inglês veio justamente dos reservas colocados minutos antes por Gareth Southgate: Cole Palmer lançou, Ollie Watkins fez o gol. Mais uma decepção na reta final.

Ronald Koeman avaliou o ano da seleção holandesa masculina com nota 7, "talvez 8", mas torcida e imprensa são mais exigentes (Srdjan Stevanovic/Getty Images)

Mas o problema da Laranja não conseguir vencer seleções "do seu tamanho" é claro desde o começo do "segundo reinado" de Koeman. Tome-se por exemplo a França, seleção grande mais vezes enfrentada desde 2023: em três jogos, duas derrotas (eliminatórias da Euro) e um empate (na fase de grupos da Euro). A Inglaterra venceu na supracitada semifinal da Euro. E na fase de grupos da Liga das Nações, em que a Alemanha foi a adversária a ser batida, se o empate em 2 a 2 (segunda rodada) deu alguma perspectiva, a derrota por 1 a 0 (4ª rodada) poderia ter sido até maior. Sem contar alguns tropeços periódicos contra seleções inferiores: a citada derrota para a Áustria na fase de grupos da Eurocopa, o empate contra a Bósnia com que a fase de grupos da Nations League - e 2024 de modo geral - foi fechado. Basta citar uma estatística: a seleção masculina da Holanda só venceu metade de seus jogos, 8 de 16, no ano de 2024.

Bons jogadores, há: os zagueiros citados, Denzel Dumfries, Tijjani Reijnders, Teun Koopmeiners, Ryan Gravenberch, Frenkie de Jong, Xavi Simons, Cody Gakpo... e se os atacantes testados, Joshua Zirkzee e Brian Brobbey, decepcionaram, Memphis Depay parece à disposição para voltar, remoçado pelo bom começo no Corinthians. Para nem citar a geração mais jovem, que fez campanha perfeita nas eliminatórias da Euro sub-21 de 2025, terá grupo acessível na competição e pode, sim, sonhar em ser campeã. Entretanto, falta a vitória grande. Uma sequência de vitórias grandes, quem sabe, para a Holanda poder deixar a "segunda prateleira". Que chance melhor haveria do que a colocada: vencer a Espanha, campeã da Euro, nas quartas de final da Liga das Nações que virão em março?

Esmee Brugts é a jovem que mais se destaca na seleção feminina da Holanda. Aos poucos, mais jovens precisarão aparecer, porque algumas veteranas se retiram. Nada melhor do que uma Euro que se promete dificílima (Hans van der Valk/BSR Agency/Getty Images)

Futebol feminino: falta as jovens se estabelecerem

Terça-feira, 16 de julho de 2024, Brann, Noruega. Fim de jogo, na última rodada das eliminatórias da Eurocopa feminina. A seleção de mulheres da Holanda (Países Baixos) estava classificada para o torneio, após suado empate (1 a 1) contra as norueguesas. Nas entrevistas pós-jogo, tanto a capitã Sherida Spitse quanto Vivianne Miedema - autora do gol de empate, a dez minutos do fim - choraram. Nada muito exagerado, mas as lágrimas de ambas deixaram claro como 2024 foi um ano árduo no futebol holandês de mulheres. Pelo menos, na seleção.

Também, pudera. O começo de 2024 trazia esperanças, com as decisões da Liga das Nações podendo render uma vaga olímpica. Só que as Leoas Laranjas foram tendo uma dificuldade após a outra. Em janeiro, Jill Roord rompendo seu ligamento cruzado anterior no joelho direito; convocadas, Miedema e Pelova sentiram dores e chegaram em más condições; e na semifinal contra a Espanha, as Leoas Laranjas foram presas fáceis, num 3 a 0 com total domínio espanhol. Havia ainda uma chance de vaga em Paris-2024, na decisão de 3º e 4º lugares, contra a Alemanha, em casa... e nada feito: a equipe dos Países Baixos foi pressionada, tomou mais 2 a 0, e ficou de fora do torneio olímpico. Uma pena.

Pena maior ainda porque as dificuldades foram se avolumando, durante a campanha nas eliminatórias da Euro. Em primeiro lugar, tanto pela decepção na Liga das Nações quanto pela sensação própria de que seu ciclo tinha passado, Lieke Martens colocou fim à sua vitoriosa trajetória nas Leoas Laranjas. Em segundo lugar, porque justamente no último jogo de Martens pela seleção (1 a 1 contra a Finlândia, na quarta rodada), mais uma gravemente lesionada: Victoria Pelova, outra com o ligamento cruzado anterior rompido. Em terceiro lugar, pela falta de gols: foram apenas quatro, nas eliminatórias.

A vaga na Eurocopa veio, mas a trajetória das Leoas Laranjas nas eliminatórias foi sofrida (Divulgação/KNVB Media)

Mas, afinal, a vaga veio. Bem como a impressão de que a Holanda está "trocando de casca". Afinal de contas, aos poucos as veteranas vão abrindo espaço: Martens parou com a seleção, Spitse e Daniëlle van de Donk devem fazer o mesmo após a Euro (Spitse deixou de ser titular nas datas FIFA passadas, inclusive), e são somente quatro as veteranas que devem tentar a vaga na Copa de 2027 (a saber: Dominique Janssen, Jackie Groenen, Roord e Miedema). De resto, as novatas estão aí. Estão na boa campanha no Mundial Sub-20, novamente com a quarta colocação, mesmo com um time limitado. Estão na quantidade de jogadoras abaixo dos 25 anos que brilham na equilibrada disputa do Campeonato Holandês feminino: Lotte Keukelaar no Ajax (há Lily Yohannes, claro, mas esta se definiu por defender os Estados Unidos); Veerle Buurman, Nina Nijstad e Chimera Ripa no PSV; Elisha Kruize e Nikita Tromp no Utrecht; Femke Liefting, no AZ.

Ainda há as novatas que têm seu espaço firme em ligas mais competitivas. Daphne van Domselaar e Chasity Grant, na Inglaterra; Caitlin Dijkstra, na Alemanha; Damaris Egurrola Wienke e Romée Leuchter, na França; Esmee Brugts, na Espanha. Já está na hora delas começarem a assumir o protagonismo nas Leoas Laranjas. E por mais que as veteranas sejam de imensa ajuda - ainda mais no grupo duríssimo que virá na Euro, em que Inglaterra e França não permitirão erros -, as jovens precisam se destacar para confirmarem e completarem a "mudança de casca" por que a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) passará em 2025.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Está ruim, mas está bom

Nathan Aké, talvez o melhor jogador holandês de 2023, manteve a constância que o país não teve em campo, com metades diferentes (Icon Sport/Getty Images)

É possível dizer, como em poucos anos recentes, que o futebol no Reino dos Países Baixos - para sempre chamado de Holanda - viveu um 2023 com duas metades diferentes. Em todos os setores. Por exemplo: na primeira parte do ano, a seleção masculina se mostrou bem preocupante em campo, correndo riscos de muitos sustos. Na segunda, se a Laranja não melhorou bastante, pelo menos restabeleceu firmeza suficiente para manter o seu status atual - uma equipe mediana e razoável, que não brilha, mas dificilmente passa vergonha. 

De certa forma, foi semelhante ao que viveu a seleção feminina da Holanda, em ano de Copa das mulheres: se a desconfiança era fortíssima antes dos jogos em Austrália/Nova Zelândia, bastou o Mundial começar para as Leoas Laranjas recuperarem grande parte do respeito perdido após o vice-campeonato em 2019 - e a reta final do ano restabeleceu isso plenamente. Entre clubes, a gangorra foi diferente: se os primeiros seis meses do ano indicaram esperança de que a Eredivisie virasse a "melhor do resto", com mais uma boa campanha europeia (AZ semifinalista na Conference League 2022/23) e a ultrapassagem sobre Portugal no ranqueamento europeu, o segundo semestre - primeira metade de 2023/24 mostrou oscilações maiores. Bons exemplos são o AZ, já eliminado na Conference League, e o Ajax, também abatido na Liga Europa - e ainda atraindo desconfianças sobre o que fará na segunda fase na Conference.

Por outro lado, a esperança está posta, com o avanço do PSV na Liga dos Campeões. E mesmo o Feyenoord merece um voto de confiança. É bom explicar tudo isso nos tópicos que vêm, nesta retrospectiva que já é tradicional por aqui. De um ano que teve coisas ruins, mas que poderia ter sido pior. Em suma: para a Holanda, no futebol, está ruim, mas está bom.

Na seleção masculina, Ronald Koeman quis trazer o "velho estilo" de volta. A realidade o forçou a retomar jeito antigo. E a Holanda se retomou como uma seleção, pelo menos, razoável (Pro Shots/Getty Images)

Seleção masculina: dias (um pouco) melhores virão

Já se sabia desde abril de 2022, e começou a partir de 1º de janeiro: Ronald Koeman vinha para sua segunda passagem no comando da Laranja. E vinha prometendo, até apregoando, que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) voltaria a ser ofensiva, voltaria a ostentar sua escola tática, em suma, que a Oranje não seria tão pragmática quanto fora na Copa do Mundo passada. Tinha todo o direito, desde que isso se visse em campo. Pelo menos no primeiro semestre, passou longe disso. É certo que a estreia nas eliminatórias da Euro 2024 seria ingrata - contra a França, talvez a melhor seleção de toda a Europa. É mais certo ainda que um polêmico (até engraçado) problema estomacal vitimou boa parte do grupo de jogadores naquelas datas FIFA de março. Porém, mesmo com todos esses atenuantes, começar 2023 sofrendo uma goleada por 4 a 0 sem resistência não era a coisa mais promissora. Até mesmo na segunda partida, com vitória, houve razões para preocupação. Razões justas. Afinal de contas, pegando Gibraltar (talvez a mais fraca equipe nacional europeia), chutando a gol por 52 vezes, fazer só 3 a 0 no placar era, no mínimo, sinal de ineficiência. No mínimo.

O sinal amarelo estava aceso. A Holanda seguia, no futebol masculino, como uma seleção de defesa boa e ataque ruim. Tinha um meio-campo oscilante. E o sinal amarelo ficou "laranja" (como se sabe, mistura de amarelo e vermelho) justamente quando menos poderia ficar assim: na fase final da Liga das Nações. Mesmo sendo torneio de menor importância, as semifinais e a final seriam nos Países Baixos. E um título é um título, para uma seleção com sala de troféus tão pequena como é a holandesa. Havia esperanças. Fortemente desmanchadas na semifinal: em pleno De Kuip de Roterdã, a Croácia impôs a qualidade de seu meio-campo até com facilidade. Mesmo repetindo o que fizera na Copa - buscando o empate em 2 a 2 no fim do tempo normal -, a desorganizada Holanda foi presa fácil para a vitória croata. Pior ainda seria na (já desimportante) decisão do terceiro lugar: lenta, com espaços amplos na defesa, a Laranja foi superada sem problemas pela Itália, que conquistou a posição ao vencer por 3 a 2. Até ali - junho -, a seleção masculina da Holanda jogava no seu velho estilo. E estava completamente desorganizada. Na defesa, mesmo com bons jogadores, muitos espaços; no meio-campo, ninguém que preenchesse a falta que Frenkie de Jong fazia, quando fazia; no ataque, as lesões tirando o espaço de Memphis Depay à força na equipe. As preocupações eram gigantes. Ou a Holanda se aprumava logo, ou a vaga na Euro corria riscos. Sérios riscos.

Se ainda se acostumava na primeira metade do ano, Xavi Simons terminou 2023 como titular absoluto da Holanda. E indicando: a Laranja melhora no meio-campo (Seb Daly/Sportsfile via Getty Images)

Só restou a Ronald Koeman reconhecer, implicitamente: o jeito de jogar na Copa de 2022 podia ser pragmático, podia ser sem graça, mas Louis van Gaal (seu desafeto) tinha razão. Com o grupo atual de jogadores, ou a Holanda jogava com três zagueiros, ou ficaria abaixo até de seleções tão medianas quanto ela. A péssima fase final da Liga das Nações fez Koeman aprender à força: na volta das eliminatórias da Euro, em setembro, a Holanda já jogou com três zagueiros. Ganhou facilmente da Grécia (3 a 0), virou bem para cima da Irlanda (2 a 1 em Dublin), viu novamente Denzel Dumfries aparecer bem, viu Wout Weghorst crescer de importância. Dali por diante, só houve derrota para a França (2 a 1, em Amsterdã). Mesmo com alguns momentos difíceis, alguns jovens começaram a aparecer: Xavi Simons cresceu de importância, Tijjani Reijnders aproveitou para virar titular no meio-campo, Brian Brobbey já se faz notar no ataque. A Holanda ganhou os três jogos que precisava ganhar - dois contra a Grécia, um contra a Irlanda, com uma goleada mais digna sobre Gibraltar no último jogo (6 a 0). Garantiu lugar na Euro sem muitos problemas. E restabeleceu o que é, hoje em dia: uma seleção mediana, mas que não compromete. É plenamente capaz de fazer na Euro o que fez na Copa: uma campanha decente - não de título, mas decente. E com o surgimento de alguns jogadores que, se não são craques, podem qualificar a equipe. Indicando que dias (um pouco) melhores virão.

Phillip Cocu, demitido: o técnico pagou pela crise profunda que o Vitesse, clube da "classe média" da Holanda, vive (Rene Nijhuis/BSR Agency/Getty Images)

Clubes: a crise da classe média - e do mais rico

Há os três grandes clubes da Holanda (Ajax, Feyenoord e PSV). E há, como sempre houve, uma "classe média" no Campeonato Holandês. AZ, Twente, Vitesse, Groningen, Heerenveen: todos clubes que nem sonham com título - embora ele possa acontecer em ocasiões especiais -, mas que fazem boas campanhas, aparecem de vez em quando em competições europeias, podem até surpreender como o AZ surpreendeu na Conference League. Porém, quando se vê o sexto colocado atual do Campeonato Holandês... é o Go Ahead Eagles, que sofria com ameaças de rebaixamento há não muito tempo. O sétimo colocado é... o Sparta Rotterdam, que quase foi rebaixado na temporada 2021/22. E o rebaixamento do Groningen foi o primeiro sinal: essa "classe média" do futebol holandês vive crise.

Não se sabe se a crise vem das limitações naturais de clubes médios, que têm "tetos" e não conseguem ter os mesmos sonhos que o Trio de Ferro tem. Ou mesmo se elas decorrem de dificuldades internas. Tome-se por exemplo o Vitesse: em 2022, o ucraniano Valeriy Oyf vendeu o clube de Arnhem tão logo a guerra Rússia-Ucrânia começou. Meses depois, o norte-americano Coley Parry comprou o clube. Mas não mexeu com ele ainda: sim, há mais de um ano a federação holandesa não deu o "sinal verde" para Parry poder assumir o clube de vez. Logo, o Vitesse tem poucas condições de investir em contratações. Logo, está em péssima fase: é o lanterna do Campeonato Holandês. Outro exemplo: o Utrecht. Que mantém investimentos e investimentos (por obra e graça do empresário Frans van Seumeren, mecenas do clube), mas também está em dificuldades na tabela - 13º lugar, teve três técnicos na temporada.

Demissões, problemas, má fase: a crise do Ajax foi (e ainda é, de certa forma) histórica (Olaf Kraak/ANP/Getty Images)

Se fosse só a "classe média", até se compreendia. Porém, a crise mais assustadora do ano ocorreu com o clube mais rico (e mais famoso) da Holanda. O Ajax ainda se segurou na primeira metade do ano. Porém, na segunda, tudo desandou: o diretor geral Edwin van der Sar preferiu sair, o técnico Maurice Steijn chegou sem respaldo pleno, e o diretor de futebol Sven Mislintat chegou com caminho livre para decidir o que fazer. Resultado: más contratações, alcançar um ponto baixo em sua história ao ficar na lanterna da Eredivisie, eliminação na Liga Europa, demissão de Steijn e Mislintat... só a vinda de nomes conhecidos e conhecedores do clube (Van Gaal como conselheiro, John van't Schip como técnico) estabilizou as coisas. Um pouco, só um pouco, como indicou o histórico vexame da eliminação da Copa da Holanda para o Hercules, clube amador da 4ª divisão.

Mas se houve crise, houve ganhadores. O ganhador do primeiro semestre foi o Feyenoord, campeão após seis anos, coroando excelente trabalho que Arne Slot fez - e continua fazendo. Só não continua ponteando porque há o esplendoroso segundo semestre do PSV, começando a colher os frutos de investimento correto: 16 vitórias nos 16 jogos da Eredivisie 2023/24 até agora, classificado para as oitavas de final da Liga dos Campeões, vários destaques. Sempre há quem passe incólume pelas crises.

Andries Jonker falou e pôs ideias em prática. As jogadoras compraram. E a seleção feminina da Holanda retomou o respeito que havia perdido (Jeroen van den Berg/Soccrates/Getty Images)

Seleção feminina: o respeito voltou

"Podemos ganhar de qualquer um." É uma frase que o técnico Andries Jonker repete às jogadoras da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) desde que assumiu o comando das Leoas Laranjas, em setembro de 2022. Era necessário, após a passagem curta e turbulenta de Mark Parsons, na qual se via uma equipe cautelosa até demais em campo, até hesitante, embora com o mérito de começar a abrir espaço para jogadoras mais novas. Era o desejo claro das "líderes" do grupo (Sherida Spitse, Daniëlle van de Donk, Jill Roord, Vivianne Miedema) - que, se não brigaram com Parsons, discordavam às escondidas do seu estilo de jogo. Mas de nada adiantaria Jonker falar isso sem medidas práticas. Aí, Jonker decidiu escalar a seleção com um trio de zagueiras. Fez mais: decidiu improvisar meio-campistas avançadas nas laterais - Victoria Pelova na direita, Esmee Brugts na esquerda -, rejuvenescendo o grupo. Antes da Copa do Mundo feminina, a primeira metade de 2023 foi feita de testes. Que não tiraram as desconfianças gigantes de quem acompanhasse, ainda mais depois do rompimento de ligamento cruzado anterior no joelho esquerdo que tirou as chances de Miedema estar na Copa. Antes dela começar, algumas opiniões até apostavam que Portugal, seleção aguerrida, faria as Leoas Laranjas serem eliminadas na fase de grupos. Até porque, no mesmo grupo de ambas, estavam os Estados Unidos.

A Copa começou e... a Holanda mostrou que não era para tanto. Nem tanto na estreia, magro 1 a 0 contra Portugal. Mas sim no segundo jogo, contra as norte-americanas: abriu o placar, mostrou valentia ofensiva, e se segurou quando os EUA empataram. O 1 a 1 deixou claro: sim, a seleção feminina da Holanda recuperara a firmeza. Provou isso ao se tornar a líder de seu grupo na Copa, goleando o Vietnã por 7 a 0 enquanto as norte-americanas se assustavam com as portuguesas. Mais do que isso: o talento das jogadoras aparecia. As veteranas se destacavam (Stefanie van der Gragt, firme na zaga em suas últimas partidas na carreira; Jackie Groenen e Lieke Martens, redivivas; Jill Roord, boa no ataque), e as jovens despontavam. Que o diga Daphne van Domselaar, que se afirmou como goleira de ponta nas oitavas de final da Copa, ao fazer várias defesas contra a África do Sul, enquanto a Holanda fez 2 a 0. Que o diga também Esmee Brugts, talentosa na ala esquerda. A Holanda caiu nas quartas de final da Copa com justiça: a Espanha tinha jogadoras melhores e mais decisivas, e foi melhor na partida. Todavia, a impressão da saída foi bem melhor do que a entrada. Poderia ser confirmada na Liga das Nações de mulheres, embora fosse difícil: afinal, na fase de grupos, vinha a vice-campeã mundial Inglaterra, treinada por Sarina Wiegman, conhecedora da seleção pelo avesso. E até a Bélgica se mostrou capaz de surpresas - como na estreia, ao vencer as holandesas (2 a 1).

Na Copa do Mundo de mulheres, a Holanda mostrou que as desconfianças não tinham razão de ser: jogou bem, e só foi eliminada porque é inferior à campeã Espanha (Buda Mendes/Getty Images)

E não é que a Holanda conseguiu? O talento continuou. Miedema voltou a campo - sem tanta presença jogando, mantendo a liderança técnica fora dele. O esforço foi inegável, como na Copa. Já teve grande mostra na vitória contra a Inglaterra, na segunda rodada (2 a 1, em casa). E teve a prova definitiva na comovente última rodada do grupo na Liga das Nações: as inglesas até tiraram diferença em saldo de gols ao golearem a Escócia, mas as holandesas fizeram dois gols nos acréscimos. Golearam a Bélgica (4 a 0). E estão nas semifinais, contra a Espanha algoz da Copa. O grupo atual buscará seu objetivo maior: ir ao torneio nos Jogos Olímpicos. Mesmo sem ser favorita, a Holanda aprendeu muito bem o que Andries Jonker indica desde o começo: ela pode ganhar de qualquer um. O respeito voltou.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Qual o caminho?

Esta expressão é de tristeza da seleção masculina da Holanda, após a eliminação na Copa do Mundo. Mas pode ser de dúvida: qual o caminho a seguir para ser campeã? (Stefan Matzke/Sampics/Corbis via Getty Images)

Um lado: daqui a dois dias, em 1º de janeiro de 2023, Ronald Koeman voltará a treinar a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) sabendo que a diretora geral da federação, Marianne van Leeuwen, já estipulou uma meta - a Laranja precisa ser campeã, de alguma coisa, qualquer coisa. Outro lado: após a participação da mesma seleção na Copa do Mundo, a impressão foi de uma campanha tão digna (afinal, chegou-se ao quinto lugar, invicto) quanto banal (talvez só tenha havido algum brilhantismo contra os Estados Unidos, nas oitavas de final, e no gol que empatou o jogo contra a Argentina). De certa forma, esta dualidade resumiu o 2022 do futebol holandês: uma encruzilhada entre o desejo de ser campeão e o desejo de jogar bem, de divertir a torcida. Qual o caminho a seguir?

Seleção masculina: tudo, exceto o principal

A rigor, poucos foram os momentos em que a Holanda encantou como seleção, neste ano que acabará no sábado. Houve "agrado", é verdade. Os amistosos em março - vitória contra a Dinamarca, por 4 a 2, e empate em 1 a 1 com a Alemanha - deram a confiante impressão de que a equipe estava capacitada para ir bem na Copa do Mundo. Nunca foi o caso de falar em título, mas a Laranja estava a postos para fazer uma boa campanha. Os jogadores eram bons, como já eram na Euro (Denzel Dumfries, Virgil van Dijk, Georginio Wijnaldum, Frenkie de Jong, Memphis Depay), e a organização que lhes faltou no torneio continental havia voltado sob o comando de Louis van Gaal. Isso se provou na Liga das Nações. Brilho, só nos 4 a 1 sobre a Bélgica - e ainda assim, depois de um começo em que os Diabos Vermelhos, rivais regionais, chegaram a mandar uma bola na trave. 

Ainda assim, a Holanda foi consistente. Mesmo em jogos mais difíceis - as duas vitórias contra País de Gales (2 a 1 e 3 a 2, ambas com os gols da vitória nos acréscimos), o 2 a 2 com a Polônia -, o time ia buscar o que precisava. Uma base sólida era formada. Sem deixar de dar a chance a novatos, aproveitassem (Teun Koopmeiners, Noa Lang, Cody Gakpo) ou não (Jerdy Schouten, Hans Hateboer). Terminar liderando o grupo, invicta, classificada para as semifinais em 2023 - na qual será o país-sede - já foi um fruto do trabalho de Van Gaal. Que perdeu um jogador importante: Wijnaldum havia caído de nível com a má passagem pelo Paris Saint-Germain, mas quando disputaria a vaga na convocação para os jogos de setembro (2 a 0 na Polônia, 1 a 0 na Bélgica), sofreu a fratura na tíbia que tirou suas chances de estar no segundo Mundial da carreira. Mesmo assim, se esperava o ápice na Copa.

Não foi bem o caso. Resultado, a Holanda teve: passou invicta pela fase de grupos no Catar, com duas vitórias e um empate. Passou pelos Estados Unidos com facilidade até maior do que se esperava, nas oitavas de final. Mas nunca chegou a agradar: teve momentos de inferioridade na estreia contra Senegal, foi definitivamente pior do que o Equador na segunda partida, e nem exibiu a autoridade que se esperava contra o Catar. E a partida da eliminação, nas quartas de final, contra a Argentina, exibiu esses dois lados. Durante 83 minutos, o que se viu foi uma Holanda estéril, incapaz de causar perigo contra a defesa argentina, totalmente vencida pela genialidade de Lionel Messi e por algumas boas atuações (Enzo Fernández, Nahuel Molina, Marcos Acuña). Aí, quando entraram dois atacantes altos, Wout Weghorst se sobressaiu. No gol de cabeça, na brilhante jogada individual do empate. Porém, na hora de aproveitar o bom momento, na hora de se agigantar para vencer... a Holanda se retraiu. A Argentina voltou a dominar o jogo na prorrogação. E venceu, até merecidamente, nos pênaltis.

De novo, mesmo com um bom ano, a Holanda terminou deixando a impressão de que faltara algo. O próprio país deixou isso claro: a torcida nunca ligou muito para a campanha, a imprensa criticou o excesso de pragmatismo ("Onde foi parar aquele futebol reconhecível? A tendência para ser aventureira e ofensiva?', indagou a revista Voetbal International). Não adianta: a Holanda pode jogar bem ou mal, mas só um título fará com que se perdoe a mudança de postura.

O Feyenoord se reanimou gradativamente, na ótima campanha pela Conference League 2021/22. E segue esperançoso na temporada atual (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Os times: a esperança continua

No ano passado, esta retrospectiva era intitulada "portas da esperança". Afinal, houvera indícios de que o futebol doméstico da Holanda (Países Baixos) poderia sonhar. Não, a situação não mudou muito: aqui e ali, há indícios de que os clubes do país podem ocupar um posto de relativo destaque. Só que o símbolo disso não foi o Ajax, cuja classificação categórica na fase de grupos da Liga dos Campeões passada foi revertida com uma eliminação algo inesperada e melancólica para o Benfica, nas oitavas de final. Foi o Feyenoord.

Nem se prestava muita atenção no Stadionclub, dentro da Conference League. O foco maior ia para PSV (destinado à Conference, após cair na fase de grupos da Liga Europa) e até para o AZ. Só que o clube de Alkmaar foi eliminado pelo Bodo/Glimt-NOR. O PSV avançou um pouco mais, porém também caiu, para o Leicester-ING, nas quartas de final. E o Feyenoord, no mesmo dia, se consolidou, eliminando o Sparta Praga-TCH na capital tcheca, indo às semifinais da Conference League.

Só aí, de certa forma, passaram a prestar atenção no time que Arne Slot tinha montado. Com vários nomes em grande fase: Marcos Senesi, Tyrell Malacia, Fredrik Aursnes, Orkun Kökcü, Cyriel Dessers, Luis Sinisterra... nomes que conseguiram grandes atuações na semifinal, contra o Olympique de Marselha, no 3 a 2 da ida e no 0 a 0 na volta, que devolveu o Feyenoord a uma final europeia, após 20 anos. Nela, contra a Roma, uma falha foi aproveitada pelo clube italiano, que fez 1 a 0 e se sagrou o primeiro campeão da história da Conference League. Mas o clube de Roterdã ganhara algo a mais: a confiança, um novo ânimo.

Ânimo confirmado agora, no Campeonato Holandês. Porque o Ajax viveu um fim de ciclo, com muitas saídas (André Onana, Noussair Mazraoui, Lisandro Martínez, Ryan Gravenberch, Antony, o técnico Erik ten Hag...). Está numa temporada relativamente apática: caiu melancolicamente na fase de grupos da Liga dos Campeões, e está na segunda posição do Campeonato Holandês. Mais preocupado do que o PSV, classificado para as oitavas de final da Liga Europa, com várias boas atuações (Xavi Simons, Luuk de Jong, Joey Veerman e Cody Gakpo, agora um nome que deixa saudades). 

E do que o... Feyenoord. Que já se remontou com novos candidatos a destaque: Dávid Hancko, Sebastian Szymanski, Danilo, Santiago "Bebote" Giménez. Que lidera o Campeonato Holandês. Que está nas oitavas de final da Liga Europa. E que sonha, de novo, em repetir a bonita história que viveu.

Van de Donk ainda é uma das veteranas na seleção feminina, mas Esmee Brugts (esquerda) e Romée Leuchter (direita) simbolizam a nova geração da Holanda que chega (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Seleção feminina: a hora das jovens se aproxima

Mesmo começando bem, a seleção feminina da Holanda estava mal. Nas vitórias, não convencia; nas derrotas e empates, preocupava. Foi assim no Torneio da França, em que ela terminou em segundo lugar, mas só vencendo a Finlândia, empatando com o Brasil e perdendo da França, seleções que lhe faziam frente. Mas o 3 a 0 nas finlandesas já dava um sinal: o técnico Mark Parsons experimentou várias novatas. A goleira Daphne van Domselaar, a atacante Esmee Brugts, a volante Jill Baijings: todas elas foram titulares. E o destino daria a elas o começo de um protagonismo.

A participação na Euro feminina ampliou isso. Em meio às turbulências de uma primeira fase em que até as duas vitórias foram sofridas (sem contar o 1 a 1 da estreia com a Suécia), os destaques não foram Vivianne Miedema (testou positivo para a COVID após a estreia), Lieke Martens (lesionada no pé, foi cortada da Euro após a fase de grupos), Sari van Veenendaal (a goleira lesionou o ombro e foi substituída também contra as suecas). Foram Romée Leuchter, Victoria Pelova, a supracitada Brugts, a supracitada Van Domselaar - esta, uma das melhores goleiras da Euro, responsável quase direta pela eliminação nas quartas de final, para a França, só ter acontecido na prorrogação.

Num trabalho dificultado por muitos fatores, Mark Parsons foi demitido logo após a Euro. Com mais boa vontade e interesse do que experiência no futebol feminino, Andries Jonker chegou para concluir uma campanha nas eliminatórias da Copa que tinha mais dificuldade do que se esperava. E que teve no jogo da vaga o símbolo disso. Precisando vencer a Islândia para passar à liderança do grupo, no jogo direto da última rodada, a Holanda foi muito superior. Criou muitas chances. Todas elas, parando na espessa defesa islandesa. Até que, aos 90' + 3, praticamente no último lance do jogo, coube a Brugts fazer o gol da salvação, da classificação para a terceira Copa da história das Leoas Laranjas.

Para elas, alguns caminhos já começam a se insinuar. Nos amistosos, Andries Jonker já começa a experimentar uma equipe com três zagueiras, recuando Sherida Spitse para a zaga. As novatas começam a ganhar destaque - como exemplifica, por exemplo, o quarto lugar no Mundial Sub-17 de mulheres. E o destino, de novo, apareceu nisso - de modo lamentável, com o rompimento de ligamento cruzado anterior que tirará Vivianne Miedema da Copa feminina. Que deverá servir, seja qual for o resultado, para a mudança definitiva de geração. Deverá ser a última Copa de Stefanie van der Gragt, Daniëlle van de Donk, Spitse, Martens. E a primeira de Van Domselaar, Kerstin Casparij, Brugts, Leuchter, Fenna Kalma... a geração que pode manter a Holanda uma seleção competitiva no futebol feminino mundial.

Que todas essas histórias tenham o melhor caminho possível. Que seja um feliz 2023 a todos - inclusive a quem ler este texto.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Portas da esperança

Final feliz: a seleção masculina da Holanda sintetizou os (des)caminhos do futebol do país em 2021. Por sua própria desorganização, sofreu demais. Mas conseguiu os objetivos (KNVB Media)

Pode a seleção masculina de futebol de um país atrair desconfianças, ter decepcionado pesadamente no grande torneio do ano... mas poder considerar que a grande missão do ano foi cumprida? Pode a seleção feminina dessa mesma nação ser vista com um olhar também fortemente duvidoso, ainda que conte com algumas das melhores jogadoras do mundo? Pode o cenário de clubes do país seguir com a liga masculina tendo nível técnico questionável... e, ao mesmo tempo, ver todos os times presentes em competições europeias classificados para os mata-matas delas? Pode, tudo isso pode. Pelo menos na Holanda (Países Baixos). Por lá, o futebol segue sendo conduzido de uma maneira muito mais desorganizada do que possa parecer, mas certos movimentos trazem motivos para se pensar que o futebol neerlandês pode estar se preparando para subir de nível nos próximos anos.

Seleção masculina: por enquanto, o alívio

Nada mostrou melhor esse vai-e-vem em 2021 do que a trajetória da seleção masculina. Bastou começar o ano com derrota logo na estreia pelas eliminatórias da Copa de 2022 (4 a 2 para a Turquia, em março) para que a desconfiança crônica sobre o trabalho de Frank de Boer no comando chegasse a níveis irrespiráveis. Nem mesmo vencer Letônia (2 a 0, em casa) e golear Gibraltar (7 a 0, fora) nas rodadas seguintes diminuía a impressão de que o único modo do substituto de Ronald Koeman ser perdoado por torcida e imprensa era... ganhar a Euro que vinha. Para tanto - e para superar problemas como a previsível ausência de Virgil van Dijk -, De Boer fazia o que podia. Como, por exemplo, decidir a mudança polêmica para três zagueiros, pouco antes da estreia no torneio continental. Por um lado, isso permitiu um melhor aproveitamento de nomes como Stefan de Vrij e Wout Weghorst, que vinha em boa fase na época. Por outro, não melhorou muito as coisas em campo, como se viu em amistosos como o 2 a 2 contra a Escócia e o 3 a 0 contra a Geórgia.

Sob Frank de Boer, a Laranja só tinha um jeito de vencer as desconfianças: vencendo também a Euro 2020(+1). Começou bem na fase de grupos. Mas quando encarou adversidades, contra a República Tcheca... teve o final esperado e lamentável (Pim Ras Fotografie)

Enfim, a Laranja chegava à Euro sob a impressão pesarosa de que não iria muito longe. Medidas como o polêmico corte de Jasper Cillessen (infectado pelo coronavírus) no gol - possibilitando um inesperado retorno de Maarten Stekelenburg - deixavam Frank de Boer sob desconfiança quase insuportável. A fase de grupos minorou isso, é verdade: a Holanda mostrou alguma segurança, venceu seus três jogos, ficou com um caminho aparentemente acessível rumo às semifinais, e até exibiu destaques inesperados, personificados em Denzel Dumfries. Mas... ela não havia sido testada de verdade na primeira fase. Jogara sem ter de enfrentar muitas adversidades. Quando as enfrentou, contra a República Tcheca, nas oitavas de final - o gol perdido por Donyell Malen no começo do segundo tempo, a expulsão de Matthijs de Ligt, poucos minutos depois -, desmilinguiu inacreditavelmente, sendo eliminada de modo inquestionável. A queda brusca na Euro, e as queixas de familiares de jogadores à esposa Helen, ainda no estádio, deixaram claro: Frank de Boer era uma demissão esperando para acontecer. Aconteceu, dois dias depois da eliminação.

Entre uma variedade de nomes holandeses à disposição que não empolgavam muito (e os que empolgavam estavam empregados) e uma dúvida sobre a hipótese de um técnico estrangeiro (e se a experiência válida terminasse com a Holanda fora da Copa?), a federação preferiu fazer o que não fizera após a saída de Ronald Koeman: trazer Louis van Gaal para a "terapia de choque". E Van Gaal saiu da confortável "semiaposentadoria" em sua casa do Algarve, em Portugal, para tentar mostrar que sua inegável competência não se enferrujara. Teria três rodadas decisivas nas eliminatórias, em setembro, contra os três principais concorrentes por vaga na Copa (Noruega, Montenegro e Turquia) e não poderia perder nenhum jogo. 

Pois bem: duas vitórias e um empate sinalizaram que Van Gaal conseguiria cumprir a tarefa. Nomes como Virgil van Dijk, Frenkie de Jong, Georginio Wijnaldum e Memphis Depay jogavam suficientemente - sem brilhar, mas com correção. Havia até como Van Gaal abrir espaço para novidades (Justin Bijlow no gol; Arnaut Danjuma, Cody Gakpo e Noa Lang, nas pontas). Houve um tropeço assustador na penúltima rodada, contra Montenegro, é verdade. Mas a Holanda se aprumou, venceu a Noruega e, por paus ou por pedras, conseguiu voltar a uma Copa, após oito anos. Mas se sabe: há muito o que melhorar, até o Mundial começar. Tempo para isso, Van Gaal terá. Os amistosos e a fase de grupos da Liga das Nações indicarão se isso será feito. Por enquanto, o que há é o alívio.

Na seleção feminina, a queda progressiva desde 2019 continuou - e nem a mudança de técnico tirou a incômoda impressão de que o tempo passou (Pim Ras Fotografie)

Seleção feminina: o carro bom precisa de conserto

Nem mesmo estar classificada para a Euro das mulheres, a ser disputada na Inglaterra em 2022, tirava a incômoda impressão de que a seleção feminina da Holanda vivia um fim de ciclo. Aliás, literalmente, já que a disputa do torneio olímpico, nos Jogos de Tóquio, marcaria os últimos jogos da marcante passagem de Sarina Wiegman como treinadora das Leoas Laranjas. Sarina faria falta, claro: a estátua de sua imagem, inaugurada pouco antes das Olimpíadas, era a prova de como seus quatro anos de trabalho haviam mudado o status neerlandês no futebol de mulheres. Porém, de nada adiantaria se não houvesse uma despedida honrosa em terras japonesas. 

Bem, quase houve. A campanha holandesa foi recheada de dificuldades, em campo (o corte traumático de Sherida Spitse, com o joelho lesionado a 48 horas da estreia contra Zâmbia) e fora dele (as restrições causadas pela pandemia de COVID-19 perturbavam as jogadoras, a ponto de Sarina Wiegman ter pedido a flexibilização de circulação para que pudessem ir à parte de fora do hotel). E bastaram os 10 a 3 na estreia contra Zâmbia, em 21 de julho, para se notar os dois pontos principais que a equipe laranja tinha. Pelo lado positivo, a força de seu ataque - personificada em Vivianne Miedema, que comprovou ser craque, precisando de apenas quatro partidas para ser a maior goleadora de um só torneio olímpico - 10 gols! Pelo negativo, a fragilidade da defesa, já exposta contra as zambianas. Reforçada no empate com o Brasil (3 a 3). E consolidada até nos 8 a 2 contra a China, último jogo da fase de grupos.

Mas pior do que a fragilidade defensiva - já conhecida há algum tempo - foi notar que a Holanda, apesar de seu crescimento notável no futebol feminino, ainda não consegue se valer em momentos difíceis. Foi o que se viu nas quartas de final do torneio olímpico. Era possível superar a seleção dos Estados Unidos, ainda que ela tenha superado com facilidade as neerlandesas no primeiro tempo. O pênalti perdido por Lieke Martens, ainda no tempo normal, com 2 a 2 no placar, foi um incômodo sinal de que a vitória norte-americana viria. Como veio, nos pênaltis. Menos do que a derrota, doeu mais perder saber que havia capacidade para avançar.

E essa incapacidade de provar o valor quando necessário segue, de certa forma, nas eliminatórias da Copa. Azar de Mark Parsons: já pressionado só por ser o sucessor de Sarina Wiegman, o técnico inglês tem comandado uma equipe que lidera seu grupo na qualificação. Mas que sofre: não se espera de uma seleção vice-campeã mundial dificuldades como as tidas contra a República Tcheca (dois empates), ou no jogo que já aconteceu contra a Islândia (2 a 0, só na reta final de jogo). Até por isso, Parsons reconheceu, em entrevista à revista Voetbal International: a Holanda está em situação inferior a Alemanha, Suécia, Espanha, Inglaterra... e também pela mesma razão, já tenta fazer, aqui e ali, mudanças na escalação já habitual há pelo menos dois anos. Até porque ela se mostrou repetitiva. Enfim: no futebol feminino, a Holanda é um bom carro. Mas que passa por consertos necessários. Ainda mais porque a Euro que vem aí pode responder se a fase vivida desde 2017 é apenas um sonho que está acabando - ou se está apenas começando um novo capítulo dele.

Com Antony e Haller, o Ajax imperou em seu grupo na Liga dos Campeões, sintetizando a boa fase dos clubes holandeses - mas na liga nacional, o líder é o PSV... (Getty Images)

Os times: sintetizando as alternâncias

Mas é possível que o principal símbolo do ano estranho - no bom sentido - tenha sido o que se viu nos clubes dos Países Baixos. O Ajax segue sendo o mais badalado do país; e, no entanto, o líder do Campeonato Holandês é o PSV, com muito menos dificuldades de se impor a times defensivos do que os Ajacieden. Que passaram às oitavas de final da Liga dos Campeões, como era plausível - mas como líderes do grupo, com seis vitórias em seis jogos, algo inesperado.

Por falar em torneios europeus, como imaginar que todos os times do país avançariam aos mata-matas em seus respectivos torneios - PSV "caindo" da Liga Europa para a Conference League, onde tiveram êxito Feyenoord, AZ e Vitesse? Falando mais precisamente do Feyenoord: como imaginar que um time que andava desanimado, que fora "alvejado" pela perda do principal jogador nos últimos anos (Steven Berghuis) para o arquirrival (Ajax), conseguiria uma temporada tão animadora?

Enfim, por linhas tortas, com muito ainda a melhorar, o futebol da Holanda (Países Baixos) chegou a algumas portas da esperança em 2021. Será interessante ver se ele, e seus personagens principais, terão competência para abri-las em 2022.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

2020 deixou (inesperados) pontos de interrogação

A postura pensativa de Frank de Boer tomou conta do futebol holandês como um todo em 2020 (Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)

Antes de 2020 começar, o futebol na Holanda (Países Baixos) terminava 2019 com orgulho, pelo que se vira nos gramados - Ajax semifinalista da Liga dos Campeões, seleção masculina vice-campeã da Liga das Nações e de volta a um torneio grande (vaga na Euro garantida), seleção feminina vice-campeã mundial. E tinha esperanças pelo que viria em 2020. Esperanças que, se não foram dilapidadas por todos os efeitos da pandemia conhecida, foram bastante diminuídas. E que fazem com que este ano termine e 2021 comece com muitos pontos de interrogação. O maior deles, em uma pergunta: será que a Holanda voltará a ter dificuldades no processo de reação que seu futebol vivia, após o embalo dos últimos anos?

E nada simboliza tão bem essas dúvidas que o futebol neerlandês vive hoje em dia quanto a sua seleção masculina. Afinal de contas, a Laranja terminou 2019 classificada para a Euro, com um técnico elogiado (Ronald Koeman) e uma geração promissora personificada em vários nomes - de Virgil van Dijk a Georginio Wijnaldum, passando por Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong, sem contar Memphis Depay (que estava lesionado e provavelmente perderia a Euro). Veio 2020. Veio a pandemia. Que trouxe como primeiras consequências o cancelamento de dois amistosos, contra Espanha e Estados Unidos, que ocorreriam em março. Depois, claro, o adiamento da Euro para 2021. Viriam consequências mais sérias.

A mais séria de todas nem entrou na conta da pandemia: no mata-mata da Liga dos Campeões jogado na "bolha" de Lisboa, em agosto, o Barcelona foi arrasado pelo Bayern de Munique. Para minorar os efeitos da crise, decidiu cortejar Ronald Koeman uma terceira vez - e aí, Koeman deixou a seleção ("Como acreditar que a Euro ocorrerá em 2021?"). Sem querer um técnico estrangeiro e resistindo a quem pudesse quebrar de forma brusca o que Koeman construíra, a federação tomou a controvertida decisão de apostar em Frank de Boer, vindo de maus trabalhos em clubes. Para piorar, no reinício do futebol europeu pós-"primeira onda", nas primeiras rodadas do Campeonato Inglês, Virgil van Dijk, o grande líder da Laranja em campo, sofreu lesão séria no ligamento cruzado anterior do joelho - e a participação na Euro ficou em risco.

Frank de Boer chegou já com partidas sérias à espera, principalmente na Liga das Nações. Nos primeiros jogos, a Laranja dos homens sofreu: atuações preocupantes (principalmente na derrota para a Itália e no empate com a Bósnia, na Nations League), falta de eficiência no ataque. Mas aí, Koeman sinalizou em uma entrevista que a seleção holandesa deveria entrar em nova fase. Frank de Boer fez experimentos válidos - como no 1 a 1 contra a Itália, em que um esquema com cinco zagueiros resultou em mais segurança. Alguns jogadores, como Wijnaldum, cresceram de produção. Memphis Depay voltou de sua lesão no joelho já sendo preponderante no ataque. E mesmo que a Laranja tenha caído na Liga das Nações, passa-se a impressão de que o time pode, sim, fazer papel digno na Euro.

A seleção feminina da Holanda se classificou à Euro 2022-que-era-2021 sem problemas. Mas precisa ser mais forte contra adversárias mais fortes (Twitter/KNVB Media)

Tal impressão é um pouco mais enfraquecida em se tratando da seleção feminina, que tanto emocionou os Países Baixos (o mundo, até) em 2019, com o esforço e a habilidade que levaram à campanha altamente elogiável na Copa do Mundo. Claro, as Leoas Laranjas ainda seguem fortes. Bem ou mal, cumpriram o principal objetivo de 2020, ao terminarem as eliminatórias da Euro 2022-que-era-2021 com uma campanha perfeita - dez vitórias em dez jogos. Têm jogadoras de qualidade elogiada: Vivianne Miedema continua muito bem no Arsenal, sua colega de time Jill Roord viveu talvez o melhor ano de sua carreira, Lieke Martens retornou ascendente ao Barcelona após a lesão no pé. Sarina Wiegman, então, repetiu em 2020 a dose de 2017, sendo escolhida a melhor treinadora do mundo - escolha muito contestada, aliás. Mas a campanha irretocável na qualificação para defender o título europeu era praticamente uma obrigação, pela fragilidade do grupo. Rússia, Eslovênia, Turquia, Kosovo, Estônia: não só nenhuma dessas seleções era páreo para a Holanda, como as jogadoras adversárias tratavam as neerlandesas mais como estrelas do que como oponentes.

Sempre que a Holanda enfrentou adversárias de maior qualidade no futebol feminino neste 2020, ou empatou (Brasil, Canadá e França, todos esses jogos no torneio amistoso de março, quando a pandemia eclodia na Europa) ou perdeu (Estados Unidos - em amistoso no mês passado, mesmo após nove meses de inatividade, as norte-americanas fizeram 2 a 0 sobre as Leoas Laranjas, com até mais facilidade do que tiveram na final da Copa). De quebra, o anúncio da saída de Sarina Wiegman rumo à seleção da Inglaterra, depois do torneio olímpico de futebol feminino que ocorrerá (?) em Tóquio, deixou a impressão melancólica de um fim de ciclo. Se quiser continuar a ascensão e se confirmar como seleção de ponta no futebol feminino mundial, a Holanda precisará de boas atuações em Tóquio - e nos anos seguintes, sob nova direção - a sucessora de Sarina Wiegman deve ser anunciada em janeiro.

Até porque, na liga feminina, independentemente das dificuldades do PSV (as ambiciosas contratações da goleira Van Veenendaal e da zagueira Mandy van den Berg não trouxeram resultados desejados até agora) e da superioridade do Ajax (líder com 100% de aproveitamento), a fragilidade dos Países Baixos ainda é inegável, como provam as eliminações dos supracitados PSV e Ajax na Liga dos Campeões das mulheres. E no campeonato masculino, a pandemia descortinou um cenário coberto de dúvidas. Uma das dúvidas, eterna, já que a Eredivisie 2019/20 foi interrompida sem campeão nem rebaixados: quem ganharia entre Ajax e AZ, que estavam empatados na ponta? Depois, a consequência imediata mais urgente: qual será, exatamente, o dano financeiro causado aos clubes médios e pequenos pela interrupção da fonte de renda que eram as bilheterias? Mesmo agremiações um pouco mais robustas, como Heerenveen ou Vitesse, sofrem nos balanços com a ausência obrigatória de público nos estádios.

Obviamente, a pandemia tirou o público dos estádios holandeses. Eles sofrem com isso, até mesmo financeiramente. E pensam em até quando isso ocorrerá (Erwin Spek/Soccrates/Getty Images)

Aliás, mesmo os clubes maiores dos Países Baixos ainda deixaram claro, nesta metade da temporada, que lhes falta condições de sonhar em repetir o que o Ajax fez em 2018/19. A começar pelo próprio Ajax: o apego crônico ao estilo de jogo, algumas falhas em momentos cruciais e a falta de alternativas confiáveis para as ausências vindas de lesão tornaram a eliminação na Liga dos Campeões inevitáveis. AZ e Feyenoord sonharam em avançar na Liga Europa, mas suas incompetências cobraram um duro preço. E até o PSV, que mostrou poder de reação para garantir a classificação na Liga Europa, ainda sofre com inconstâncias vez por outra - causadas até por fatores externos, como o surto de COVID-19 que vitimou o grupo de jogadores, em outubro, que deixou sequelas físicas só agora sendo superadas.

Enfim, 2020 jogou o futebol holandês num cenário cheio de pontos de interrogação - até inesperados, já que não havia pandemia antes do começo do ano. Tais dúvidas podem ter respostas negativas. Mas... também podem ter respostas positivas. Na geração masculina que trouxe a Holanda de volta a um Europeu sub-21, após oito anos, e que tem vários nomes capazes de aparecerem também na seleção adulta (Teun Koopmeiners, Abdou Harroui, Calvin Stengs, Myron Boadu). Nas jogadoras que, lentamente, começam a se destacar na seleção feminina - caso das atacantes Katja Snoeijs e Joëlle Smits. No surgimento das vacinas que podem, daqui a um tempo, possibilitar o retorno gradual do público aos estádios. 

2021 revelará o teor dessas respostas.