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terça-feira, 19 de abril de 2016

PFF: como funcionam os play-offs de acesso e descenso no futebol holandês?

Robert Molenaar, técnico do campeão de período Volendam, pensa numa maneira de entender a Nacompetitie pelo acesso (fcvolendam.nl)

Como prometido, o Espreme a Laranja fará uma apresentação do regulamento da temida Nacompetitie, nome dado aos play-offs de acesso e descenso entre a Eredivisie (primeira divisão) e a Eerste Divisie (segunda divisão). Só que um texto regular talvez aumentasse o nó ainda maior na cabeça do estimado leitor. Sendo assim, o blogueiro/faz-tudo decidiu explicar com perguntas e respostas.

Não foi por causa da preguiça?

Pode até ser. Mas representa uns 2%. Senão, não estaria escrevendo às 22h40 de uma segunda-feira.

E por que PFF?

Sigla para "perguntas frequentemente feitas". Tradução apropriada ao anglófono "FAQ", não acha?

Então, como começa a explicação?

Primeiramente, bom lembrar: o campeão da Jupiler League garante o acesso à Eredivisie, e o último colocado da primeira divisão é rebaixado diretamente.

Duas coisas. 1) O que é Jupiler League?

É o "nome fantasia" da Eerste Divisie. "Jupiler League" é por causa da Jupiler, cervejaria holandesa que patrocina o campeonato.

2) "Sério" que o campeão da segunda divisão sobe direto e o último da primeira divisão cai direto? Não sabia!

Não exagere na ironia. Isso é muito desagradável.

E você, não exagere nos melindres e "mimimis". 

Tudo bem. Começarei a explicar o sistema de disputa dos play-offs. Bom lembrar que não podem subir à divisão de elite nem Jong Ajax ou Jong PSV (times de aspirantes desses clubes), nem Achilles '29 (é clube amador).

(Soa o "Coro de Aleluia", de Haendel)

Sendo assim, os play-offs são compostos por dez times participantes: 16º (antepenúltimo) e 17º (penúltimo) colocados da Eredivisie, mais os quatro "campeões de período" e os quatro melhores colocados da segunda divisão que não são campeões de período.

E o que diabos é "campeão de período"?

Bem, a Eerste Divisie tem 38 rodadas. Dessas rodadas, 36 são divididas em quatro períodos, com nove jogos cada um. Quem pontuar mais em cada período vira o "periodekampioenen" (em holandês, "campeão de período"), e garante lugar nos play-offs.

E se um "campeão de período" for o campeão da segunda divisão?

Aí, depende de quantos períodos o campeão ganhou na temporada. Se ele ganhou mais de um, o período seguinte terá como campeão o segundo colocado dentro dele.

Mas o campeão da segunda divisão fica com o primeiro título de "campeão de período" que conquistou?

Sim.

E quem vai para a Nacompetitie é o segundo colocado do período que ele ganhou, certo?

Errado. Aí, entra outro melhor colocado a não ter sido campeão de período.

Absurdo! Só dificultam...

Sim, dificultam. Mas continuemos. Fora os campeões de período, entram os melhores colocados a não terem ganho período na segunda divisão. Aí, quatro times vão para a primeira fase dos play-offs: os quatro piores colocados na temporada regular da Eerste Divisie, sejam "periodekampioenen" ou não.

Quer dizer que, hipoteticamente, um time pode ganhar o primeiro período e ficar nas últimas posições da tabela pelo restante do campeonato, que disputará a vaga na primeira divisão?

Sim. Reconheço que é absurdo. Pelo menos até esta temporada, não há rebaixamento da segunda divisão para a terceira no futebol holandês. Mas se você lê o Espreme a Laranja, sabe que isso mudará a partir de 2016/17.

Ah, eu leio às vezes - bem às vezes, quase nunca, para ser sincero. Vê lá se eu vou ler sobre futebol holandês?! 

Conhecimento nunca é demais, seja sobre o que for.

Bem, continue.

Na primeira fase, aqueles quatro piores colocados jogam: duas chaves de dois, ida e volta, com gol fora de casa, disputa de pênaltis em caso de empate e todos os critérios conhecidos. E os vencedores vão para a segunda fase.

E como é a segunda fase?

Oito times: os dois classificados, mais os quatro times melhor colocados na tabela regular da Eerste Divisie (lembre-se, "campeões de período" ou não), mais os dois vindos da Eredivisie (16º e 17º colocados, rememoro). Quatro chaves de dois, jogos de ida e volta, os critérios todos... e os quatro vencedores, enfim, decidem as vagas na Eredivisie/Eerste Divisie.

(Novamente, soa "Coro de Aleluia", de Haendel)

Aí fica fácil: duas chaves de dois, ida e volta. Quem ganhar, sobe (caso esteja na segunda divisão) ou fica na Eredivisie. Quem perder, é rebaixado (ou fica na Eerste Divisie). Entendeu?

Acho que entendi. Só me diz quem já está garantido nos play-offs, nesta temporada, por favor. Sim, eu sei que o Sparta Rotterdam já garantiu o acesso, como campeão da Jupiler Divisie... ops, Eerste League... ops, Eerste Divisie!

Perfeitamente. As posições na tabela podem mudar (estamos na 37ª rodada), mas estão lá:

Como "campeões de período"
Volendam (campeão do primeiro período - 1ª a 9ª rodada)
FC Eindhoven (vice-campeão do terceiro período - 19ª a 27ª rodada -, entrou porque o Sparta Rotterdam ganhou o terceiro período, sendo que já ganhara o segundo)
Almere City (campeão do quarto período - 28ª a 36ª rodada)

Como melhores colocados
VVV-Venlo (2º colocado da temporada regular)
NAC Breda (3º colocado da temporada regular)
Go Ahead Eagles (5º colocado da temporada regular - o FC Eindhoven está em 4º lugar)
FC Emmen (6º colocado da temporada regular)
MVV Maastricht (8ª colocado da temporada regular - o Volendam está em 7º)

Pela Eredivisie, você sabe, ainda está indefinido. No momento, Willem II (16º lugar) e De Graafschap (17º) estariam na Nacompetitie. Entendeu?

Isso só o leitor poderá dizer...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As razões do vexame (I): (in)decisão na federação

Hesitante e dúbio com relação a técnicos, Van Oostveen também é responsável pelo fracasso da Oranje (Bas Czerwinski/ANP)

Por mais que estivesse fazendo um trabalho razoável à frente da seleção holandesa, Louis van Gaal logo deixou claro: após a Copa de 2014, deixaria a Oranje, por desejar voltar ao futebol de clubes, devido ao fastio de comandar uma seleção, com tudo que isso acarreta (pressões de vários lados, trabalho espaçado demais com os atletas, impossibilidade de treinar constantemente etc.). A partir daí, a KNVB (Koninklijke Nederland Voetbalbond, a federação holandesa) iniciou a procura por um um novo técnico. E agora está claro: este processo, vindo desde o início de 2014, mal conduzido e hesitante, foi uma das principais razões pela ausência da seleção batava na Euro 2016.

Porque o técnico previsto para comandar a seleção holandesa após a Copa não era Danny Blind. A rigor, nem era Guus Hiddink. A princípio, Ronald Koeman era o nome. Tanto por seu histórico como jogador - líbero, titular absoluto da equipe entre 1983 e 1994, 78 jogos e 14 gols, capitão esporádico da Oranje, campeão europeu em 1988, duas Euros e duas Copas no currículo, carreira vitoriosa em clubes, principalmente em PSV e Barcelona... -, como pelo desejo em treinar a seleção. A tal ponto que, no meio de 2013, após uma conversa com Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação, Koeman renovou seu contrato por apenas uma temporada, ao contrário do que o clube pretendia. Tudo para ficar livre ao final do mundial, para assumir a Oranje.

Era isso. Até o final de 2013, quando Guus Hiddink deixou o Anzhi, da Rússia. Rumo à saída do futebol, supunha-se, até por suas palavras. Isso até escrever algumas colunas, ao diário "De Telegraaf", comentando que só uma coisa impediria o fim de sua carreira: comandar a seleção holandesa. Paralelamente, o agente de Guus, Cees van Nieuwenhuizen, confirmou: era só a federação se interessar e conversar. Van Oostveen se interessou. Conversou com Hiddink. Em janeiro de 2014, definiu-se. E em fevereiro, anunciou-se: Hiddink seria o técnico até a Euro 2016. Depois, se tornaria o diretor técnico da federação, cedendo o lugar a Danny Blind, já então auxiliar técnico.

Pior: não só Koeman fora deixado de lado sem mais nem menos, mas também foi procurado posteriormente para... ser auxiliar de Hiddink, como já fora na Copa de 1998. Mas naquele torneio, ele havia acabado de deixar os campos. No início de 2014, Koeman já era um técnico, com uma carreira desenvolvida. Era até desrespeitoso tentar fazê-lo de novo um auxiliar. E ele deixou implícita certa mágoa com a falta de clareza e consideração da federação (leia-se Van Oostveen): "Sou capaz de fazer as coisas sozinho. Todos ficariam felizes se Hiddink e Koeman estivessem juntos, mas isso não é uma opção para mim".

Terminado a Copa, Hiddink assumiu o lugar de Van Gaal, com Blind como auxiliar. O que soava como "exemplo de organização e de visão" ocorria apenas por causa do interesse de Hiddink, correspondido por Van Oostveen. Que, além de ter hesitado entre o escolhido e Ronald Koeman, adotou postura dúbia posteriormente. Explica-se: segundo a revista holandesa "Voetbal International",  o preferido do diretor da federação para treinar a Oranje era e sempre foi Danny Blind. A tal ponto dele ter sido escolhido auxiliar para que não aceitasse uma proposta do... Manchester United, que o convidou para acompanhar Louis van Gaal em Old Trafford. Blind reconheceu isso, em entrevista ao diário "Algemeen Dagblad": "Falou-se nisso, mas afastei logo a hipótese. Se você tem ambição, o que pode ser melhor do que treinar a seleção de seu país?". Van Oostveen dava a chance a ele, para depois da Euro.

Aí, foi a vez do trabalho de Hiddink ser minado pouco a pouco. Começou após a derrota por 2 a 0 para a Islândia, em outubro de 2014, quando o sinal de alerta foi aceso: Van Oostveen disse que se reuniria com o técnico para a "avaliação" e para um "plano de desenvolvimento". E Hiddink desmentiu tal plano: "Eu li isso de 'plano de desenvolvimento' aqui e ali, mas não faz parte da minha terminologia".

Aos poucos, não só Hiddink foi errando e fazendo crescer sua parcela de culpa na derrocada holandesa, por fatores como a insistência no 4-3-3 e a falta de detalhismo na preparação do time (a grande qualidade de Van Gaal em sua segunda passagem), mas Van Oostveen também fez pouco para ajudar o trabalho. Já após a vitória contra a Letônia, em junho, Hiddink pensava em antecipar a mudança para diretor técnico, deixando Blind como treinador. Até que veio a gota d'água: em 22 de junho, Van Oostveen contratou como novo técnico da seleção sub-21 Fred Grim. Colega de Danny Blind como jogador, no Ajax campeão dos anos 1990 (Grim era o reserva de Van der Sar no gol). Sem avisar a Hiddink.

Não deu outra: no fim de junho, Guus pediu demissão. E deixou a federação em definitivo, abandonando o plano de ser diretor técnico, desenvolver um plano tático para as seleções holandesas etc. Com uma equipe desorganizada e mal definida taticamente, Blind assumiu às pressas. Só teve tempo de indicar a volta de Marco van Basten à Oranje, desta vez como auxiliar. E nem assim as coisas deram certo, culminando no primeiro vexame: a ausência da Euro 2016.

Pior: Danny Blind e Van Oostveen não dão muitos sinais de reconhecimento do vexame. O "bobo" (apelido derivado de "bondsbonzen", "chefe da federação" - termo holandês equivalente a "cartola" no Brasil) comunicou que o técnico segue; e o próprio Danny relembrou: "Eu aceitei a proposta de auxiliar Hiddink e depois comandar a seleção. Foi o que fiz, e é o que farei". E, de fato, não há nada que indique mudança. Frank Rijkaard deixou a carreira de técnico; Frank de Boer já informou que não será técnico - e de qualquer forma, também está sendo questionado no Ajax; e Ronald Koeman, ainda magoado, anunciou: "Não serei técnico da seleção, nem agora, nem no ano que vem". E Danny Blind provavelmente terá de continuar um trabalho já irremediavelmente manchado. Por causa dos erros de Guus Hiddink. E por causa da hesitação - e pela ambiguidade - de Bert van Oostveen.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Hora de voltar, né?

A volta do Espreme a Laranja é tão celebrada que até Robben e Van Persie demonstraram júbilo. Opa, espera: esta foto aí é de um jogo desimportante em Salvador, em 13 de junho de 2014 (Tony Gentile/Reuters)

A Eurocopa de 2012 já se foi há muito tempo. A Copa do Mundo de 2014 também já passou, nem faz tanto tempo. E nada do Espreme a Laranja aparecer - aliás, era para ser "Espremendo a Laranja", mas o domínio já foi ocupado no Blogspot. Quem sabe um dia no Wordpress... Acontece. Afinal de contas, o faz-tudo (signatário, mantenedor, voluntário e, se bobear, o único visitante) deste blog tinha uma coisa muito mais útil a ser cumprida, chamada faculdade.

Agora que ela está concluída - quase, quase... -, dá para haver postagens com maior assiduidade. E só se fará uma pequena alteração nesta declaração de intenções publicada pelo blog, em março de 2011 (quanto tempo!). Como o número de interessados brasileiros pela Eredivisie é baixo, e o de interessados brasileiros pelas divisões inferiores do futebol holandês só não é mais baixo do que o nível técnico das partidas, o foco principal será (ão) as seleções holandesas.

Obviamente, não quer dizer que o "810 minuten", a resenha dos jogos da rodada, não será feita. E periodicamente também aparecerão aqui textos relativos aos clubes que forem se destacando, seja domesticamente ou em competições continentais. Ainda assim, esses quase quatro anos de hibernação (para ser exato, três anos, 11 meses e 11 dias) deixaram claro: o interesse aqui é a velha e boa camisa da Oranje. Então, onde ela estiver, no futebol masculino e feminino, em amistosos ou eliminatórias, haverá um texto aqui. A começar desta semana, obviamente, com as "decisões" contra Islândia e Turquia, pela qualificação da Euro 2016. Fora isso, há umas novidades, que o blog ainda está caraminholando.

Ainda assim, não dá para garantir que o blog terá um texto por dia. Afinal de contas, isto aqui é um serviço voluntário de um sujeito que escolheu outra coisa para sustentá-lo. Mas em momentos agudos do futebol holandês, podem ter certeza: ele estará aqui. Até porque, se não estiver, ninguém estará... Qualquer hibernação será anunciada via Twitter do blog.

Feito este longo preâmbulo, vamos ao que interessa. Bem-vindos de volta ao Espreme a Laranja! (Neste momento, ouvem-se grilos. Cri, cri, cri...)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Declaração de intenções






Sem este time, a história do futebol holandês não seria a mesma. Só que ele já jogou há 37 anos (holland74.net)


Já há muitos blogs feitos no Brasil falando sobre o futebol mundial. Falando, aliás, de países incomparavelmente mais tradicionais. Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha. Todos muito bem feitos. No entanto, havia uma falta: o futebol holandês. Não que ninguém falasse sobre ele: alguns blogs já haviam sido começados. E as comunidades existem: no Orkut, no Twitter, no Facebook. Nada que fizesse os blogs continuarem regularmente.

E, então, fica a lacuna. Que sempre é preenchida pelos velhos estereótipos, como lembrar da "Laranja Mecânica" da Copa de 1974, Cruyff, Van Basten, Gullit, as épocas em que Romário e Ronaldo estiveram no PSV, o Ajax do início dos anos 1970, o Ajax de Louis van Gaal... de fato, todos elementos justamente reconhecidos na história do futebol batavo. Mas que, no entanto, estão longe de refletir o que é o futebol holandês em seu todo.

Continuava, então, o mistério. De quatro em quatro anos, a Oranje aparecia nas Copas do Mundo; de vez em quando, um time holandês se destacava; mas ninguém se preocupava em acompanhá-los a par e passo. Mesmo no cenário atual: o país tem a seleção vice-campeã do mundo. E mesmo assim, pelo nível relativamente baixo, o campeonato nacional continua sendo pouco acompanhado.

E é por isso que esse blog foi criado. Para se focar sobre um país pequeno, mas dono de uma escola futebolística facilmente reconhecida mundo afora - não só reconhecida, mas cujas influências são sentidas até hoje. Até mesmo no estilo de jogo da Espanha, atual campeã mundial. Para tentar compreendê-lo um pouco mais - sim, compreendê-lo: afinal de contas, por mais que o autor goste dele, ele não é um holandês, e sim um brasileiro que apenas gosta de futebol holandês.

E, se gosta, essa paixão tem um cupido. E o nome dele é Edwin van der Sar. Acompanho sua carreira desde que tomei conhecimento da existência dele pela primeira vez, no guia que a revista Placar organizou para a Copa de 1994 - havia uma foto de VDS, como reserva que foi de De Goey naquela Copa. É o maior ídolo que tenho no futebol. E, a partir dele, passei a acompanhar a seleção holandesa - com mais proximidade, a partir de 2006. Para seguir mais proximamente os campeonatos nacionais, foi um pulo.

E este blog é a concretização de um velho projeto. Que começa com uma só pessoa. Mas que pode ter mais. Caso você se interesse, escreva para espremealaranja@gmail.com. Teremos um tom mais analítico do que noticioso, fazendo análises da rodada, análises de times e da seleção, relembrando campeonatos, equipes e jogadores - de Puck van Heel a Sneijder, de Harry Vos a John de Wolf. E vamos começar, porque Cruyff já se aposentou há 27 anos e alguém precisa continuar falando sobre futebol holandês. Welkom!