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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Está bom mas está ruim

A Holanda aumentou as boas impressões rumo à Eurocopa, com mais uma goleada no último amistoso. Só que o corte de Frenkie de Jong (e provavelmente de Koopmeiners também) coloca um formigueiro atrás da orelha (Andre Weening/BSR Agency/Getty Images)

Se fosse só pelo resultado e pela atuação, o último amistoso da seleção da Holanda (Países Baixos) serviria para dar mais confiança rumo à Eurocopa. Afinal de contas, contra a Islândia, a Laranja achou boas soluções para a marcação visitante, teve boas atuações, e conseguiu mais uma goleada por 4 a 0 para elevar expectativas rumo à estreia contra a Polônia, no próximo domingo. Porém, pouco depois do apito final, surgiu uma das piores notícias que a Oranje poderia ter: Frenkie de Jong está fora da Euro, já que seu tornozelo machucado precisaria de mais tempo para se recuperar da lesão sofrida em março passado. O corte de um dos nomes fundamentais fez com que a incógnita em relação às possibilidades holandesas na competição seja tão grande quanto os elogios pela goleada. Talvez, até maior.

E mesmo se De Jong não fosse cortado, a Holanda já teria mais motivos para preocupação. Afinal, titular na escalação prévia para o jogo, Teun Koopmeiners se machucou no aquecimento. E é bem provável que seja mais um cortado, nos próximos dias (após o jogo, Ronald Koeman lamentou à emissora NOS: "Amanhã [terça-feira, 11] de manhã veremos, mas não tenho boas expectativas"). Ainda assim, desde o começo, a seleção laranja se impôs em De Kuip. Se a Islândia fechava os espaços pelo chão, para troca de passes, as bolas altas começaram a mostrar o caminho. Como aos 6', num chute de Joey Veerman para fora, após rebote de cobrança de Memphis Depay. Este também foi se destacando: aos 15', quase marcou após jogada individual (o goleiro Hákon Valdimarsson espalmou para fora), e aos 21', quase aproveitou o rebote desajeitado de Valdimarsson após cruzamento de Denzel Dumfries.

O gol de Xavi Simons - seu primeiro pela Laranja -, aos 23', completando triangulação começada em inversão por Tijjani Reijnders e continuada por Dumfries num cruzamento, confirmou esta capacidade holandesa. Mais chances aos 35' (Cody Gakpo, arremate cruzado que passou rente ao gol) e aos 39' (outra tentativa de Memphis Depay) deixaram claro: não só a Holanda se impunha no ataque, como nem perigos corria, diante de uma Islândia que surpreendera a Inglaterra no amistoso da semana passada. A única chance de gol islandesa foi aos 40', quando Johann Berg Gudmundsson inverteu o jogo, Jón Thorsteinsson se viu livre da marcação de Jerdy Schouten, tocou na saída do goleiro Bart Verbruggen... mas viu Nathan Aké impedir o gol, afastando a bola na pequena área. Um pequeno susto, numa atuação sem muitos problemas.

E que continuou boa logo no começo do segundo tempo. O gol já poderia ter vindo na triangulação Veerman-Memphis-Gakpo, rebatida por Valdimarsson, só que o último holandês mencionado estava impedido. Sem problemas: dois minutos depois, um escanteio cobrado por Veerman - boa atuação jogando adiantado -, Schouten e Aké desviaram de cabeça, e Virgil van Dijk marcou mais um gol nestas datas FIFA. Aí, com a vantagem mais consolidada, a Holanda pôde até ficar mais na defesa. E enfim, a Islândia apareceu mais: um erro de Tijjani Reijnders na marcação abriu chance para Gudmundsson bater (e Gakpo evitar, aos 54'). Depois, aos 70', Stefán Thordarson arriscou de longe, aproveitando o mau posicionamento de Verbruggen no gol... e a bola atingiu a trave direita do arqueiro holandês.

Participando das jogadas de ataque, tendo até um gol anulado, Memphis Depay fez bem seu papel (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Bastaram esses sustos para a Laranja se recompor. Com alterações no ataque (Donyell Malen, Wout Weghorst, Jeremie Frimpong), a seleção da casa voltou a dominar a bola, voltou a ser mais acelerada... e voltou a fazer gols. Como aos 79', quando Memphis Depay lançou pelo alto e Malen teve caminho livre pela direita para dominar, chegar à área e fazer 3 a 0. Ou aos 81', quando a jogada que já dera certo contra o Canadá - cruzamento de Frimpong, gol de Memphis na pequena área - só não valeu por falta de Veerman na origem da jogada. Mesmo assim, nos acréscimos, houve tempo para Weghorst fazer o quarto gol, escorando cruzamento de Malen.

E haveria tempo para uma celebração de boas impressões que a Holanda dá. Se na Euro passada, os amistosos de preparação tiveram um empate com a Escócia (2 a 2) e uma vitória contra a Geórgia (3 a 0), agora duas goleadas por 4 a 0 convenceram um pouco mais. Só que veio o anúncio do corte de Frenkie de Jong. A alta desconfiança de que Koopmeiners também ficará fora da Euro. E tudo isso fez torcida e imprensa pensarem: a seleção da Holanda está boa, mas as notícias estão ruins.

Amistoso
Holanda 4x0 Islândia
Data: 10 de junho de 2023
Local: De Kuip (Roterdã)
Juiz: Evangelos Manouchos (Grécia)
Gols: Xavi Simons, aos 23', Virgil van Dijk, aos 49', Donyell Malen, aos 79', e Wout Weghorst, aos 90' + 3

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries (Lutsharel Geertruida, aos 75'), Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Micky van de Ven, aos 66'); Jerdy Schouten (Georginio Wijnaldum, aos 66') e Tijjani Reijnders; Xavi Simons (Jeremie Frimpong, aos 76'), Joey Veerman e Cody Gakpo (Donyell Malen, aos 75'); Memphis Depay (Wout Weghorst, aos 84'). Técnico: Ronald Koeman

ISLÂNDIA
Hákon Valdimarsson; Bjarki Bjarkason, Valgeir Fridriksson, Sverrir Ingason (Brynjar Bjarnason, aos 84') e Kolbeinn Finnsson; Arnór Traustason (Stefán Thórdarson, aos 46'), Hákon Haraldsson (Kristian Hlynsson, aos 84') e Johann Berg Gudmundsson. Mikael Anderson (Arnór Sigurdson, aos 62'), Andri Gudjohnsen e Jón Thorsteinsson (Isák Johannesson, aos 62'). Técnico: Age Hareide

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O desespero continua


Robben deixa o jogo: a seleção holandesa não resistiu aos dois fatos que a perturbaram, e segue em desespero (VI Images)
“Ísland! Ísland!". A seleção holandesa até compreendera escutar isso na vitória dos islandeses, por 2 a 0, em outubro do ano passado, no turno do grupo A das eliminatórias para a Euro 2016. Mas sabia: em casa, tinha de se esforçar para afastar o som incômodo da torcida adversária, vencer a primeira das "quatro finais" e se aproximar da classificação para o torneio continental de seleções. Só que o destino, e as decisões erradas a partir das peças que ele pregou, deixaram a Holanda novamente em apuros. E em situação pior do que antes: se a derrota em Reykjavik ainda tinha como ser revertida com resultados posteriores, agora a Oranje só tem a vaga na repescagem como objetivo possível. Pior: praticamente a decidirá com a Turquia, no confronto direto do próximo domingo.

Curiosamente, o temor de um novo vexame era pequeno, na primeira parte do jogo em Amsterdã. O time treinado por Danny Blind não jogava bem, é verdade. Se estivesse melhor, o 4-3-3 mantido pelo técnico não seguiria deixando desprotegida a insegura defesa. Prova disso foi o gol perdido por Jón Dadi Bödvarsson, logo aos três minutos de jogo: ele só recebeu a bola escorada porque Daley Blind, atrasado na linha de quatro defensores, deu condições para que Johann Berg Gudmundsson desviasse. Fosse como fosse, aos poucos a posse de bola tornou-se majoritariamente holandesa (chegaram a ser 70%), a defesa se recompôs, Depay e Robben criaram algumas chances, o ataque participava de jogadas coletivas... enfim, parecia tudo sob controle.

Mas a tentativa de levar o jogo pragmaticamente foi destruída em oito minutos. Primeiro, aos 26, com a lesão na virilha sofrida pelo capitão Arjen Robben, que forçou a troca dele por Luciano Narsingh. Não bastasse a liderança natural que o fizera dono da braçadeira, os arremates do camisa 11 vinham sendo perigosos, como sempre. Só restou a ele lamentar: "Os especialistas dirão agora que eu não estava bem, mas eu me sentia totalmente em forma. Num curto período de tempo, eu havia chegado duas vezes à grande área. Mas na segunda, algo se distendeu nas minhas costas. Daí foi para a virilha, e eu tive de sair. Para mim, ficou claro que eu não poderia continuar. Não dá para acreditar...”. 

Depois, aos 33 minutos, veio a expulsão de Bruno Martins Indi. Justamente o defensor holandês que mais estava seguro, sem errar tantos botes como Stefan de Vrij (que, aliás, já até tomara o cartão amarelo). Porém, a ingenuidade do quarto-zagueiro foi imperdoável. Está certo que a decisão do árbitro Milorad Mazic em dar o vermelho é até polêmica, já que Kolbeinn Sigthórsson também veio forte na disputa de corpo. Ainda assim, o zagueiro holandês se arriscou demais ao dar uma cotovelada que podia ser (e foi) interpretada como agressão. E a imprudência foi criticadíssima por Robben (“Como capitão, eu devo proteger meus jogadores. Mas não tenho mais nada a fazer além de dizer que [a cotovelada] foi estúpida. Ele deixou o time na mão, e condeno isso”) e Danny Blind (“Ele estava razoavelmente bem no jogo, não havia razão nenhuma para fazer aquilo”).

Os dois acontecimentos fortuitos haviam jogado a Holanda num cenário temível. E Blind, o técnico, não colaborou muito para melhorar a situação, ao tomar uma decisão criticada até agora na Holanda. Tendo de remontar a defesa, precisou queimar a segunda alteração, colocando Jeffrey Bruma no miolo de zaga. Até compreensível. Só que o substituído foi... Klaas-Jan Huntelaar, que seria a única referência de ataque da seleção a partir dali. Foi a senha para trazer a seleção da Islândia mais e mais perto da defesa holandesa, permitindo os contragolpes, principal qualidade da equipe de Lars Lagerbäck e Heimir Hallgrímsson. Ainda assim, o treinador defendeu a substituição (“Não me arrependo, eu precisava tornar o time defensivo”.

Se a saída precoce de Robben e a expulsão de Martins Indi haviam sido lances fortuitos, a evolução até o gol foi mérito claro da Islândia. O time manteve a compactação admirável de seu esquema tático: sem a bola, as linhas do 4-4-2 eram visíveis e próximas uma da outra, impedindo a Oranje de chegar ao gol de Hannes Thor Halldórsson por outras maneiras que não chutes de fora da área e inversões de jogo.

Mas o mérito realmente decisivo para a vitória islandesa foi ter calma e saber esperar o momento certo de mais um erro holandês. Mesmo com um 4-2-3 torto, em que Memphis Depay jogava forçosamente na área, a defesa continuava insegura e aberta. O que forçou o exagero de Gregory van der Wiel, arriscando o carrinho em Birkir Bjarnason em que foi marcado o pênalti. Outro ato desesperado que mereceu críticas de Danny Blind (“Ele é experiente o suficiente para saber que você precisa ficar em pé ali. Não dá para dar carrinho naquela situação, é o primeiro ensinamento”). Gylfi Sigurdsson converteu, como já convertera outro penal nos 2 a 0 em Reykjavik. E o azar de Cillessen seguiu: 26 pênaltis contra ele, 25 convertidos. Está certo que, com Cillessen no gol, o Jablonec até perdeu um pênalti contra o Ajax, nos play-offs da Liga Europa. Mas a bola foi na trave. Ou seja, o arqueiro nativo de Groesbeek continua sem defender penais, na prática... 

Depois, restaram as tentativas esparsas e até valorosas, com Memphis Depay, Narsingh e Sneijder. Mas todas indo nas mãos de Hannes Thór Halldórsson. Isso, sem que Blind arriscasse trazer uma referência de ataque de volta, colocando Van Persie ou até Luuk de Jong em campo. Luuk, aliás, poderia levar a uma reedição do trio de ataque tão exitoso na temporada passada, jogando pelo PSV. Todavia, somente em jogadas individuais pelas pontas e chutes de fora a Islândia sofria. 

E veio a derrota. Primeira da Oranje em partidas de eliminatórias em casa desde o 2 a 0 de Portugal, na qualificação para a Copa de 2002. Segundo revés doméstico na história da equipe em eliminatórias para a Eurocopa – a primeira derrota fora num longínquo 30 de novembro de 1963, 2 a 1 para Luxemburgo, em De Kuip. Ainda assim, pelo gol de Valerijs Sabala, que manteve Turquia e Letônia no empate por 1 a 1, a Holanda seguiu na terceira posição do grupo A. Ou seja: por mais que esteja justificando eventual ausência da Euro 2016, a Oranje ainda depende de suas próprias forças. Só que, agora, terá de enfrentar uma pressão incrível dos turcos, no jogo em Konya, na nova Torku Arena - mudança de sede criticada, aliás ("muito longe, muito cara, muito escondida", comentou o chefe da associação de torcedores da seleção, Theo Ponk, ao diário "Algemeen Dagblad").

Mas restou isso à Holanda. Como a própria torcida gritou na parte final do jogo desastroso desta quinta, é tudo ou nada. Veteranos (Van Persie jogará?) e novatos terão de mostrar valentia, calma e talento para tentar salvar a via-crucis, assegurando ao menos o terceiro lugar que leva à repescagem (“Primeiro e segundo lugares não são mais alcançáveis”, reconheceu Blind). Ou então, é esperar pelo desastre supremo: ficar fora de um grande torneio, pela primeira vez desde 2002. O desespero continua. Sonorizado pelo grito das torcidas adversárias: se os turcos já haviam encoberto os holandeses no empate em 1 a 1, em março, na mesma Amsterdam Arena, agora o pesadelo tem os gritos de "Ísland, Ísland...".