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terça-feira, 8 de abril de 2025

(In)satisfação

Seria bom se a Holanda/Países Baixos só comemorasse as vitórias contra a Áustria na Liga das Nações feminina, ou mesmo o recorde de Spitse (como na foto). Mas as machucadas amenizaram um pouco a satisfação (KNVB Media/Divulgação)

"Estou feliz pelas vitórias, mas estou triste pelas lesões". Em uma só frase, Andries Jonker, técnico da seleção feminina da Holanda/Países Baixos, resumiu as impressões sobre as duas partidas feitas contra a Áustria, pelas terceira e quarta rodadas da Liga das Nações. As atuações nas vitórias por 3 a 1, em casa (sexta-feira passada) e fora (nesta terça), mostraram até bom nível, em que pesem algumas desatenções. Entretanto, algumas machucadas saíram dos jogos causando preocupação para a sequência da preparação rumo à Eurocopa de mulheres.

Nos primeiros minutos da primeira partida, em Almelo, o cenário pareceu preocupante para as Leoas Laranjas: a Áustria pressionava muito o trio de zagueiras, que se atrapalhava com os recuos de bola. Lances como um cabeceio da zagueira Virginia Kirchberger, aos 5', para fora, e um chute da meio-campista Annabel Schasching, bloqueado por Dominique Janssen, faziam crer que a mudança para um esquema com três zagueiras e três atacantes poderia dar errado. Começou a dar certo aos 12': no primeiro ataque holandês, o primeiro gol - após jogada individual de Lineth Beerensteyn mal afastada pela defesa austríaca, a bola ficou para Jackie Groenen voltar a marcar, de fora da área, num chute no canto esquerdo da goleira Manuela Zinsberger.

A partir daí, a Holanda estabeleceu domínio no jogo. Pela próxima chance que teve (chute de Beerensteyn rebatido por Zinsberger, aos 19'), poderia parecer que as Leoas Laranjas seguiam apostando nas bolas longas para a atacante do Wolfsburg. Que nada: Groenen apareceu muito e bem no meio, assim como Wieke Kaptein e Damaris Egurrola Wienke. E as chances se sucederam: Damaris de cabeça, aos 20', mais um chute de Groenen, aos 23', ambos pegos por Zinsberger. De vez em quando, porém, nos recuos para se proteger, a Holanda errava na defesa. Só aí a Áustria tinha chances. Nem tanto aos 24', quando Daphne van Domselaar tocou tão forte na bola que Veerle Buurman sequer conseguiu dominar, cedendo escanteio "de graça". Mas sim aos 30', quando Jill Roord inverteu errado a bola, esta foi interceptada e passada a Sarah Zadrazil, que chutou na trave. 

De certa forma, foram falhas que deram plena razão à reclamação exigente do técnico Andries Jonker, após o jogo, à emissora NOS: "Não jogamos bem, perdemos muitas bolas. Não havia foco, nem concentração (...) Precisamos aumentar nosso nível. A régua é alta, quando se quer ser campeão europeu". Talvez seja algo exagerado, tendo em vista que a Holanda fez o segundo gol logo no início da etapa final (Damaris, aos 48', desviando de cabeça o escanteio de Brugts), e até marcou o terceiro, com Sherida Spitse convertendo pênalti - Beerensteyn foi agarrada por Kirchberger -, três minutos após substituir Caitlin Dijkstra. Mas talvez a queixa de Jonker tenha lá seu fundo de verdade ao se ver que a Áustria cresceu na reta final do jogo, com Van Domselaar precisando fazer duas boas defesas (aos 69', em chute de Maria Höbinger, e aos 81', cara a cara com Carina Brunold, que acabara de entrar em campo). E principalmente, com o gol de honra até merecido das austríacas, já nos acréscimos, quando Maria Plattner completou contra-ataque com campo livre.

Volta a campo no primeiro jogo, participação em dois gols no segundo: Victoria Pelova teve motivos para sorrir (KNVB Media/Divulgação)

Aliás, tal gol rendeu a primeira insatisfação à Holanda/Países Baixos: ao sair do gol para tentar impedir que Plattner marcasse, Van Domselaar torceu o tornozelo, se machucou - e terminaria por ser desligada da delegação, no domingo, até por preservação. Viagem feita à Áustria, Andries Jonker fez nada menos do que cinco alterações na escalação para o jogo desta terça, na cidade de Altach. Uma delas, claro, obrigatória: a entrada de Lize Kop no gol. Outras, até previstas, como Sherida Spitse e Dominique Janssen começando o jogo. Algumas, ainda, surpreendentes, como Victoria Pelova indo para a frente, ao lado de Lineth Beerensteyn. Só que as insatisfações aumentaram, porque a Áustria não só começou pressionando de novo, como desta vez abriu o placar, aos 9': Viktoria Pinther aproveitou erro de Esmee Brugts, veio à área pela direita, cruzou, e Julia Hickelsberger desviou para o 1 a 0 das donas da casa.

A insatisfação só não aumentou porque, assim que o jogo recomeçou, Pelova veio pela esquerda, tocou, e Wieke Kaptein bateu (com desvio na zagueira Virginia Kirchberger) para o 1 a 1. Mas só no decorrer do primeiro tempo é que as Leoas Laranjas se estabeleceram. Na base do toque de bola e de algumas boas atuações - Pelova, Van de Donk -, saiu-se da repetitiva estratégia "bola-alta-para-Beerensteyn-ganhar-na-corrida", e as chances neerlandesas começaram a aparecer: um cabeceio de Van de Donk aos 19' (bloqueado pela zagueira Wenger), chutes de Pelova (20'), Beerensteyn (31'), Spitse (33') e Van de Donk (38'), todos defendidos por Manuela Zinsberger. Com mais rapidez, a defesa também parou de dar sustos - em que pese bola que Kerstin Casparij afastou aos 30', após má saída de gol de Kop, em falta cobrada por Maria Höbinger.

No segundo tempo, a superioridade holandesa continuou. Mas faltava um gol para confirmá-la. Ele veio aos 57', em jogada até involuntariamente coletiva (de Brugts para Beerensteyn, desta para rebote parcial da defesa, Pelova chutou, a bola bateu na trave, e Van de Donk só precisou desviar para o gol vazio). Mais tranquila, a equipe dos Países Baixos até trouxe a campo titulares como Damaris Egurrola Wienke e Vivianne Miedema. Esta brilhou como às vezes faz, no belíssimo terceiro gol, aos 69' (após lançamento em profundidade de Brugts, "Viv" deu drible curto em Sarah Puntigam antes do chute forte no ângulo esquerdo de Zinsberger). Mas voltou a assustar, apenas 14 minutos após entrar em campo, ao voltar a sentir dores e ter de ser substituída - fala-se em lesão no músculo posterior da coxa ou, até, novo rompimento de ligamento cruzado anterior. De quebra, Wieke Kaptein terminou o jogo mancando, mesmo sem sair de campo, com dores claras nos pés.

Mais uma insatisfação. Que amenizou um pouco a satisfação que a Holanda pode sentir com a sua recordista, Sherida Spitse, a pessoa da Europa com mais jogos por uma seleção de futebol, entre homens e mulheres - 241 partidas, superando o recorde feminino da sueca Caroline Seger, já à frente da maior marca masculina (as 219 partidas de Cristiano Ronaldo por Portugal). Pelo menos, no geral, o saldo das Leoas Laranjas foi bom nestas datas FIFA. A ver se as alternâncias de escalação serão menores nas duas últimas rodadas da Liga das Nações, em maio/junho, contra Alemanha (fora) e Escócia (casa). E a ver se as machucadas de agora estarão lá...

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Holanda 3x1 Áustria
Data: 4 de abril de 2024
Local: Polman/Asito Stadion (Almelo)
Árbitra: Désirée Grundbacher (Suíça)
Gols: Jackie Groenen, aos 12', Damaris Egurrola, aos 48', Sherida Spitse, aos 76', e Maria Plattner, aos 90' + 4

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Caitlin Dijkstra (Sherida Spitse, aos 72'), Dominique Janssen e Veerle Buurman; Jackie Groenen, Wieke Kaptein (Chasity Grant, aos 62'), Jill Roord (Victoria Pelova, aos 62') e Damaris Egurrola Wienke; Lineth Beerensteyn, Vivianne Miedema (Daniëlle van de Donk, aos 72') e Esmee Brugts (Lynn Wilms, aos 83'). Técnico: Andries Jonker

ÁUSTRIA
Manuela Zinsberger; Laura Wienroither, Claudia Wenger, Virginia Kirchberger e Verena Hanshaw (Chiara D'Angelo, aos 80'); Sarah Zadrazil, Annabel Schasching, Sarah Puntigam (Maria Plattner, aos 63') e Marie Höbinger (Sophie Hillebrand, aos 87'); Viktoria Pinther (Carina Brunold, aos 80') e Lilli Purtscheller (Julia Hickelsberger, aos 62'). Técnico: Alexander Schriebl


Áustria 1x3 Holanda
Data: 8 de abril de 2024
Local: Cashpoint Arena/Schnabelholz (Altach)
Árbitra: Ewa Augustyn (Polônia)
Gols: Julia Hickelsberger, aos 9', Wieke Kaptein, aos 10', Daniëlle van de Donk, aos 57', e Vivianne Miedema, aos 69'

ÁUSTRIA
Manuela Zinsberger; Laura Wienroither, Claudia Wenger, Virginia Kirchberger (Marina Georgieva, aos 85') e Verena Hanshaw; Sarah Zadrazil (Laura Feiersinger, aos 62'), Annabel Schasching, Sarah Puntigam (Maria Plattner, aos 73') e Marie Höbinger (Carina Brunold, aos 85'); Viktoria Pinther (Lilli Purtscheller, aos 62') e Julia Hickelsberger. Técnico: Alexander Schriebl

HOLANDA
Lize Kop; Chasity Grant (Lynn Wilms, aos 74'), Sherida Spitse, Ilse van der Zanden e Kerstin Casparij (Dominique Janssen, aos 46'); Wieke Kaptein, Daniëlle van de Donk (Vivianne Miedema, aos 62') (Renate Jansen, aos 76') e Jackie Groenen; Victoria Pelova (Damaris Egurrola Wienke, aos 62'), Lineth Beerensteyn e Esmee Brugts. Técnico: Andries Jonker

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Para definir as coisas

O técnico Andries Jonker voltou a ter os destaques da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) à disposição. Agora, é definir as coisas contra a Áustria - e para a Euro (KNVB Media/Divulgação)

Nas duas primeiras rodadas da Liga das Nações feminina, ainda se podia cogitar que a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) hesitava sobre qual caminho seguir - não só na escalação em si, mas na preparação para a Eurocopa de mulheres que vem aí. Pois bem: nestas datas FIFA de abril, com dois encontros contra a Áustria pela Nations League (a ida, na cidade holandesa de Almelo, nesta sexta, 4, às 15h de Brasília; a volta, na austríaca Altach, na terça, 8, às 13h55 de Brasília), o clima é de definição nas Leoas Laranjas. A começar pelo comportamento do técnico Andries Jonker.

Se começou os trabalhos de fevereiro lamentando o anúncio da sua saída após a Euro, com o fim de seu contrato, agora Jonker até cita, de leve, os pensamentos para a sequência de sua carreira ("Precisa ser algo que tenha significado, que me faça sentir algo. (...) Se é treinar um clube ou uma seleção? Isso está completamente em aberto. Em todo caso, não penso em ir trabalhar do outro lado do mundo. Já recusei algumas oportunidades"). Principalmente, Jonker prefere se focar num fator muito importante para a reta final de seu trabalho com a seleção de mulheres: "No fim de semana passado, eu pensei 'quando poderemos ter todas à disposição?'. Conforme o momento [da apresentação] foi chegando, comecei a acreditar cada vez mais. E por fim, aconteceu. É a primeira vez [que tenho todas à disposição] desde a Copa de 2023. Passei 2024 inteiro pensando 'quem é que eu vou escalar?'. Agora, estão todas em forma. E às vésperas da Eurocopa".

De fato. Vivianne Miedema, por exemplo, está aí de novo, deixando cada vez mais as lesões decorrentes da recuperação do rompimento de seu ligamento cruzado anterior para fora. Damaris Egurrola Wienke, ausente das primeiras rodadas da Liga das Nações, está de volta. Assim como o principal destaque da convocação: Victoria Pelova. É bem certo que o retorno da meio-campista à seleção, quase um ano depois de também romper ligamento cruzado anterior, tem algo de precipitação: quando nada, porque Pelova voltou a campo pelo Arsenal há somente duas semanas. 

Após dez meses, Victoria Pelova está de volta às Leoas Laranjas. Por mais precipitado que possa parecer, ela queria isso (BSR Agency)

Entretanto, a própria deixou clara sua vontade com o retorno: "Sempre quero jogar pela seleção". Pelova foi além, comentando a dificuldade comum na recuperação de contusões longas como a que teve ("Os últimos meses foram os mais difíceis, porque você já voltou [a treinar], mas ainda não está de volta, ainda precisa jogar") e a gratidão por duas colegas de seleção que viveram o mesmo drama ("Convivi muito com Jill [Roord] e Viv [Miedema]. Elas me ajudaram demais (...) Jill e eu tivemos o mesmo problema, até o mesmo cirurgião nos operou. E 'Viv' até viajou de avião para me visitar".

Só que, mesmo com todas as principais jogadoras à disposição, Jonker ainda tem coisas a resolver na equipe que vai a campo. Principalmente no miolo de zaga. Na estreia pela Liga das Nações, contra a Alemanha, jogaram juntas Caitlin Dijkstra e Veerle Buurman; nos 2 a 1 contra a Escócia, a defesa foi formada por Sherida Spitse e Dominique Janssen. Tais escalações geraram algumas questões: Buurman, jovem promissora, chegará à Euro como titular? E Spitse, de tanta experiência, começará o torneio continental no banco? O treinador desconversou: "O miolo de zaga que vocês verão na sexta-feira não será necessariamente o miolo de zaga titular na Euro. Nestas datas FIFA, veremos também se as jogadoras estão cansadas. Mas concordo que é um quebra-cabeça".

Outras dúvidas estão na tática: "Se pode ser um 3-5-2, para termos mais gente no meio? Pode ser. Mas também precisamos de jogadoras que façam o serviço sujo. Devemos ter equilíbrio". Nisso, Esmee Brugts causa dúvidas: será ponta ou ala, na esquerda ("Claro que sou mais uma atacante, mas está tudo bem [se eu jogar] como lateral esquerda. Ainda sou muito jovem e tenho muito a aprender")? E a convocação final para a Eurocopa feminina, terá veteranas como Merel van Dongen ("Nunca direi não para a seleção", prometeu a lateral esquerda à NOS) ou voltará a lembrar jovens como a meia Nina Nijstad ("Ainda sou levada em conta", comentou Nijstad ao diário Leeuwarder Courant)? Os jogos contra a Áustria devem ser vencidos, por se tratar de competição. Mas também devem ser usados para definir as coisas.

As 24 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING) e Daniëlle de Jong (Twente)

Defensoras: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE), Sherida Spitse (Ajax), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE), Veerle Buurman (PSV), Ilse van der Zanden (Utrecht) e Merel van Dongen (Rayadas de Monterrey-MEX)

Meio-campistas: Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Damaris Egurrola Wienke (Lyon-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Jill Roord (Manchester City-ING) e Victoria Pelova (Arsenal-ING)

Atacantes: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Renate Jansen (PSV), Katja Snoeijs (Everton-ING), Chasity Grant (Aston Villa-ING) e Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA).

terça-feira, 25 de junho de 2024

As fragilidades apareceram

A Áustria era considerada capaz de vencer a Holanda (Países Baixos). E fez isso em grande estilo, deixando claras as fragilidades da Laranja e reforçando as dúvidas sobre ela (Julian Finney/Getty Images)

Até que a seleção da Holanda (Países Baixos) conseguiu controlar suas fragilidades inegáveis nos seus primeiros jogos nesta Euro 2024. Teve ataque e vontade para conseguir a virada sobre a Polônia, até conseguiu conter a França no 0 a 0 da sexta-feira passada... e já classificada, quis experimentar alguns jeitos de jogar (e alguns jogadores) contra a Áustria, no último jogo desta fase de grupos. Deu totalmente errado. Tudo que o time austríaco poderia fazer para surpreender, fez. Tudo em que a Laranja poderia errar, errou. E a derrota por 3 a 2, além de fazer a Oranje entrar por baixo nas oitavas de final - como terceira colocada do grupo D -, não só deixou claras as limitações que a equipe tem, como deixa sérias dúvidas se o caminho holandês na Euro passará das oitavas de final.

Com a vaga nas oitavas assegurada mesmo sem jogar, pela derrota da Albânia e o empate da Croácia (impedindo que alguém pudesse tirá-la dos melhores terceiros colocados), até valia a pena fazer experiências. E Ronald Koeman quis fazê-las, colocando Lutsharel Geertruida como lateral direito, devolvendo Joey Veerman aos titulares e dando a chance a Donyell Malen na ponta direita. Não demorou muito para se notar que elas deram errado, porque a Áustria fez o que deseja: dominar a posse de bola e pressionar desde o começo. Teve espaço para isso, principalmente na direita, em que Malen deixou espaços - e Geertruida ficou demais na área, junto aos zagueiros. Assim surgiu a lacuna que Patrick Wimmer quase aproveitou no primeiro minuto (cruzamento, e a bola passou por Marko Arnautovic). Assim surgiu o primeiro gol austríaco: Alexander Prass teve espaço pela esquerda com a bola, avançou, cruzou livre, e Malen foi desastroso ao tentar defender, dando um "carrinho" que mandou a bola para as redes, no gol contra.

Pior foi ver que, ao contrário da estreia contra a Polônia, a Holanda não reagiu. Seguiu lenta, sem a bola, constantemente superada. Apenas um jogador tinha atuação "perdoável": Tijjani Reijnders, que participou das únicas duas jogadas laranjas de perigo na primeira etapa (aos 14', chutou para fora após tabelar com Cody Gakpo; aos 23', lançou Malen, que perdeu gol, livre na área, finalizando torto). Bem mais intensa, bem mais ofensiva, a Áustria sempre ganhava as divididas. E voltava a aparecer com chutes a gol. Aos 30', Florian Grillitsch tentou num voleio, defendido por Bart Verbruggen - que salvou depois, aos 38', em sequência, um chute de Marcel Sabitzer e uma tentativa de Arnautovic. Àquela altura, uma "vítima" já tinha sido feita na Laranja: Joey Veerman, inapetente na criação de jogadas, sem velocidade alguma na ajuda à marcação, foi substituído já aos 34', por Xavi Simons. Até se lamentou, mas o meio-campista da camisa 16, de fato, não podia ser muito defendido.

Entre tantas atuações ruins dos Países Baixos, num primeiro tempo desastroso, Veerman foi a principal vítima (Koen van Weel/ANP/Getty Images)

Até porque, pelo menos, no primeiro minuto do segundo tempo, Xavi Simons colaborou para o empate, acelerando contra-ataque bem finalizado por Cody Gakpo (que até melhorou, nos raros bons momentos holandeses). O problema veio na lentidão da defesa holandesa, que seguiu ao longo dos 90 minutos. A começar pelo segundo gol da Áustria, aos 59', em que Grillitsch teve liberdade para alcançar a bola na linha de fundo, cruzar, e ver Romano Schmid chegar livre para cabecear e fazer o 2 a 1. Restou ao selecionado dos Países Baixos tentar o "abafa", com as entradas de Micky van de Ven, Georginio Wijnaldum (que, novamente, também não colaborou muito) e... Wout Weghorst. Que não fez gol, mas ajudou no 2 a 2, aos 75', ajeitando de cabeça a bola para Memphis Depay completar - sem tocar a bola com a mão, como o VAR fez o juiz eslovaco Ivan Kruzliak notar. Com o empate entre França e Polônia, ter o empate que a manteria com a primeira posição do grupo D não seria nada mal para a Laranja.

Todavia, mesmo que merecimento seja algo muito relativo no futebol, se um time impressionava positivamente em campo, era a Áustria. Que assimilou o golpe do empate do melhor jeito possível: marcando o gol. E logo aos 80', com Sabitzer (talvez o melhor do jogo) deixando claro como a Holanda foi frágil na defesa: após o goleiro Patrick Pentz cobrar o tiro de meta, o meio-campo austríaco dominou, avançou com a bola, tabelou com Christoph Baumgartner, foi deixado livre por Virgil van Dijk (irreconhecível na zaga), e chutou quase sem ângulo para fazer o 3 a 2 da derrota holandesa.

Derrota que deixou muito claras as fragilidades da Holanda. Ou elas são protegidas de novo, ou é bem provável que o seu caminho na Eurocopa acabe contra o vencedor do grupo C ou do grupo E, já daqui a alguns dias. A confiança que nunca existiu por completo diminuiu ainda mais.

UEFA Euro 2024 - fase de grupos - Grupo D

Holanda 2x3 Áustria
Local: Estádio Olímpico (Berlim)
Data: 25 de junho de 2024
Árbitro: Ivan Kruzliak (Eslováquia)
Gols: Donyell Malen (contra), aos 6', Cody Gakpo, aos 47', Romano Schmid, aos 59', Memphis Depay, aos 75', e Marcel Sabitzer, aos 80'

HOLANDA
Bart Verbruggen; Lutsharel Geertruida, Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Micky van de Ven, aos 66'); Jerdy Schouten e Tijjani Reijnders (Georginio Wijnaldum, aos 66'); Donyell Malen (Wout Weghorst, aos 72'), Joey Veerman (Xavi Simons, aos 35') e Cody Gakpo; Memphis Depay. Técnico: Ronald Koeman

ÁUSTRIA
Patrick Pentz; Stefan Posch, Max Wöber, Philipp Lienhart (Leopold Querfeld, aos 62') e Alexander Prass; Nicolas Seiwald e Florian Grillitsch (Konrad Laimer, aos 62'); Patrick Wimmer (Christoph Baumgartner, aos 62'), Marcel Sabitzer e Romano Schmid (Andreas Weimann, aos 90' + 2); Marko Arnautovic (Michael Gregoritsch, aos 78'). Técnico: Ralf Rangnick

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Sem brilho, com a vitória (e a vaga)

A Holanda brilhou menos do que na estreia. Mas conseguiu cumprir o que desejava: vitória, liderança do grupo e vaga nas oitavas de final (Pro Shots)

A seleção masculina da Holanda (Países Baixos) foi menos ofensiva em sua segunda partida na Euro 2020(+1). Seguiu mostrando algumas fragilidades na defesa, de vez em quando. Enfim, não mostrou o brilho ensaiado nos 3 a 2 da estreia contra a Ucrânia. Para ela, tudo bem: o pragmatismo lhe garantiu mais tranquilidade. Porque fez os gols que lhe possibilitaram controlar plenamente a partida contra a Áustria, vencendo por 2 a 0 e garantindo não só a classificação às oitavas de final, como também a primeira posição no grupo C. 

Para tentar criar no ataque, a Holanda investiu mais nos lançamentos longos, na fase inicial. No entanto, foi uma jogada individual que levou ao primeiro gol. Na verdade, a sequência dessa jogada: Stefan de Vrij (escalado inesperadamente na direita, com a volta de Matthijs de Ligt) veio da defesa ao ataque com a bola, mas preferiu cavar o pênalti. O juiz Orel Grinfeeld mandou seguir... só que, na sequência, Denzel Dumfries - outra vez muito ativo nos avanços pela direita - foi derrubado por David Alaba. O VAR alertou, o juiz reviu... e o pênalti foi marcado para Memphis Depay fazer seu primeiro gol na Euro, logo aos 10'.

Melhor para os Países Baixos. A entrada de De Ligt deixou a defesa mais segura. A ponto do time neerlandês poder se preocupar mais em controlar o jogo do que em tentar atacar. E ainda assim, sem o suspenso Marko Arnautovic, a Áustria perdia força ofensiva. Só trouxe algo mais perigoso aos 27', quando Christoph Baumgartner tentou jogada pela esquerda, e chutou, mas foi bloqueado por De Ligt. E a Laranja controlava o jogo, pela capacidade de Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum com a posse de bola: tanto para segurar, quanto para roubar, e ainda para avançar com ela. Ainda assim, só voltou a ameaçar no fim do primeiro tempo em Amsterdã, pelos avanços de Patrick van Aanholt. O primeiro rendeu inversão para Wout Weghorst cruzar - e Memphis Depay perder excelente chance. No minuto seguinte, de novo Van Aanholt cruzou, para Georginio Wijnaldum bater - aí, mérito de Andreas Ulmer, que evitou o gol com o pé, na pequena área.

Tais chances poderiam ter feito falta, diante de um adversário mais forte. Porque, em que pese uma chance de Wijnaldum no começo do segundo tempo, aos 49', a Áustria teve mais espaço para tentar o ataque, diante de uma Holanda excessivamente cautelosa. Só faltou o poderio ofensivo, mesmo: de chances reais, os austríacos só tiveram o chute de Marcel Sabitzer, impedido por Daley Blind aos 58'. Era a senha: para não ter uma péssima surpresa, a Oranje precisava voltar a avançar. Voltou aos 61': numa bola parada (escanteio de Depay), Weghorst só teve o gol impedido pela defesa de Daniel Bachmann - e De Ligt, pela perna de Aleksandar Dragovic na pequena área.

Dumfries (direita) voltou a brilhar: avançou bastante, sofreu o pênalti do primeiro gol, ele mesmo fez o segundo (Pro Shots)

Aí entraram os méritos de Frank de Boer - sim, ele os tem. Uma das alterações feitas logo depois deu certo: Donyell Malen trouxe a velocidade que Weghorst já não poderia dar no ataque. Praticamente em sua primeira colaboração, ele puxou o contragolpe que Dumfries concluiu, para o 2 a 0 que premiou outra excelente atuação do lateral direito - e tranquilizou de vez a Laranja. Vieram apenas lances esparsos da Áustria depois. Um chute de Alaba aos 81', um cabeceio de Karim Onisiwo aos 84', e mais nada. Além do mais, Wijnaldum e Frenkie de Jong seguiram com o domínio no meio-campo.

Se a vitória na estreia foi animadora, o segundo triunfo da Holanda na Euro teve menos brilho. Algo compensado pela garantia de que a Laranja não passará vexame: já está com o primeiro lugar assegurado no grupo C, já está nas oitavas de final. Só não está firme, ainda.

Euro 2020 - fase de grupos - Grupo C
Holanda 2x0 Áustria

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 17 de junho de 2021
Árbitro: Orel Grinfeeld (Israel)
Gols: Memphis Depay, aos 10'; Denzel Dumfries, aos 67'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij, Daley Blind (Nathan Aké) e Patrick van Aanholt (Owen Wijndal); Marten de Roon (Ryan Gravenberch), Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Memphis Depay (Luuk de Jong) e Wout Weghorst (Donyell Malen). Técnico: Frank de Boer

Áustria
Daniel Bachmann; Stefan Lainer, Aleksandar Dragovic (Philipp Lienhart), Martin Hinteregger e Andreas Ulmer; David Alaba, Konrad Laimer (Florian Grillitsch), Xaver Schlager (Karim Onisiwo) e Christoph Baumgartner (Valentino Lazaro); Michael Gregoritsch (Sasa Kalajdzic) e Marcel Sabitzer. Técnico: Franco Foda

 

sábado, 4 de junho de 2016

Evolução clara

A foto retrata a comemoração do gol de Wijnaldum. A seleção da Holanda tem muito mais a comemorar (AFP)
Há uma semana e um dia, este blog cravava que a seleção holandesa estava "ordinária", após a apática atuação no empate em 1 a 1 contra a Irlanda, em amistoso. Pois bem: agora, falará em outro tom. Porque o tempo passou, e o clima de depressão desapareceu quase completamente de imprensa e torcida na Holanda. Também, pudera: a atuação na Polônia, com a vitória por 2 a 1, já indicava algumas progressões. Que foram confirmadas neste sábado, em Viena, no estádio Ernst Happel, com mais uma vitória da Laranja sobre um participante da Eurocopa que está por começar: a Áustria, que caiu por 2 a 0 no amistoso.

Os sinais de que um caminho vinha sendo encontrado já foram indicados pela escalação, muito semelhante à vista nos dois amistosos da semana. O próprio técnico Danny Blind comentou à SBS6, emissora holandesa de tevê, antes do jogo no Ernst Happel Stadion: "Não quero mudar muito". De fato, só três posições sofreram alteração substancial. No gol, Jeroen Zoet recebeu sua chance desde o começo do jogo; na lateral esquerda, Patrick van Aanholt substituiu Jetro Willems, que se desligou da delegação por dores no pé; e no meio-campo, Kevin Strootman recomeçou um amistoso como titular. De resto, era o que já se sabia.

E o começo da partida indicou um planejamento tático definido: a Holanda esperaria na defesa, e tentaria os contragolpes para superar um time austríaco mais veloz na criação de jogadas (e, claro, também mais motivado pela presença maciça da torcida). O primeiro ataque dos anfitriões quase estragou os planos: após Zlatko Junuzovic tocar fracamente na bola, ela subiu, ficando à feição para Marko Arnautovic tentar uma bicicleta belíssima, forçando uma defesa de Zoet que também foi bonita: atento, o arqueiro do PSV espalmou pela linha de fundo. E não parou por aí: acelerando as chegadas pela direita, onde Kenny Tete sofria tentando marcar Arnautovic e Marcel Sabitzer, a Áustria prometia marcar o gol logo.

Porém, paralelamente, a seleção holandesa também indicava que poderia aproveitar os contra-ataques. Os espaços eram deixados pelos austríacos; o meio-campo se posicionava bem para trocar passes; e de quebra, Vincent Janssen e Steven Berghuis voltavam do ataque para ajudar no desenvolvimento das jogadas. Em suma: a Oranje não estava espaçada em campo. Corrigia uma de suas principais falhas desde o ano passado, na fracassada campanha nas eliminatórias da Euro.

E num lance de sorte, aos nove minutos, o contra-ataque esperado "encaixou": Berghuis dominou a bola pela direita, cruzou para a área, a bola desviou em Christian Fuchs, a zaga formada por Florian Klein e Aleksandar Dragovic parou... e Vincent Janssen ficou livre para cabecear, fazendo 1 a 0. Era o gol que deixaria o jogo à feição para que os holandeses pudessem satisfazer o planejamento tático. Mais do que isso: era o gol que respondia porque Danny Blind dissera antes da partida que "no momento, Janssen era o titular do ataque". São três gols em cinco partidas usando a camisa laranja (ou azul), sem contar os 27 gols que fizeram dele o goleador do Campeonato Holandês 2015/16. Se fez muito pouco na carreira, ainda, o atacante mostra que tem cacife para se consolidar como uma jovem alternativa a Robin van Persie e Klaas-Jan Huntelaar. E pensar que, há não mais que um ano, Janssen estava deixando o Almere City, da segunda divisão...

Festejado pelo gol, Janssen consolida-se mais e mais dentro do grupo de jogadores da Oranje (Maurice van Steen/VI Images)


Pois bem: no jogo, como já dito, a Holanda deixou a situação ao seu bel-prazer com o gol precoce. Segurava a pressão da Áustria: não só com Zoet (que fez outra boa defesa aos 12 minutos, em chute de Zlatko Junuzovic - no rebote, Marc Janko ainda finalizou para fora), mas também com a dupla de zaga. Pois é: enfim, Jeffrey Bruma e Virgil van Dijk mostraram que os treinos em Portugal estão melhorando o posicionamento e o entrosamento. Nenhum dos dois perdeu um bote, pelo alto ou por baixo. E nos contragolpes, seguia a chance do segundo gol: aos 35, Quincy Promes mandou a bola no travessão, após receber a bola de Georginio Wijnaldum.

O segundo tempo melhorou a situação. Embora Junuzovic e Arnautovic ajudassem, trazendo algum perigo, David Alaba mostrou que é o grande protagonista da seleção austríaca: sozinho ou trocando passes, está em todas as jogadas de ataque. Numa delas, quase empatou, aos oito minutos: puxado por Riechedly Bazoer (este poderia aparecer mais em campo), seguiu na jogada, entrou na área e só não marcou porque Zoet saiu prontamente do gol, encobrindo o ângulo e forçando Alaba a chutar por cima.

Todavia, o cansaço e a própria necessidade de se poupar para a estreia na Euro (dia 12, contra a Hungria) fizeram Alaba desacelerar, e a Áustria amainar nos ataques. Era o que a Oranje mais queria: não só continuou levando perigo nos contragolpes, mas também começou a criar jogadas e a trocar passes com velocidade. Aos 15 minutos da etapa final, quase veio o segundo gol, com Promes recebendo de Van Aanholt e chutando fraco.

Mas aos 22, tão logo Luuk de Jong entrara no lugar de um lesionado Janssen, veio o 2 a 0 merecido. De novo, com Promes envolvido: veio pela esquerda, cruzou, De Jong fez o pivô e escorou para batida colocada de Wijnaldum, no canto esquerdo do goleiro Robert Almer. Não era contra-ataque para desafogar a pressão austríaca. Era... uma jogada. Com os jogadores próximos uns dos outros, dando opções, pensando (e jogando) rápido. Algo que havia muito não se via na seleção holandesa.

Alterações aconteceram - destacando-se a entrada de Jasper Cillessen, saído da reserva para substituir Zoet, com dores no joelho; e a estreia de Tonny Trindade de Vilhena pela Oranje, entrando no lugar de Bazoer. Mas o jogo estava definido ali no segundo gol. Salvo um gol perdido por Marco van Ginkel, substituto de Strootman (completou de cabeça para fora, num cruzamento de Promes, que fizera bela jogada), aos 38 minutos, nada mais aconteceu.

E a Holanda comemorou mais uma vitória promissora, que indicou algumas coisas. Se não há armadores na nova geração que supram a falta de Wesley Sneijder, jogar com mais rapidez faz com que os bons passes de Kevin Strootman sejam aproveitados - e até serve para que Wijnaldum chegue mais à área como elemento surpresa, como fazia nos tempos de PSV. No ataque, as revelações começam a aparecer, literalmente: Berghuis foi ótima surpresa no lugar de Memphis Depay, e Promes pouco a pouco firma-se na reserva de Arjen Robben (que, quando voltar, ainda terá seu lugar). E Vincent Janssen passou fulgurantemente Bas Dost e Luuk de Jong: é o titular. O posto de "homem de área" na Oranje é dele.

Mas acima de tudo, as duas vitórias, contra Polônia e Áustria, serviram para indicar que a Holanda não é uma seleção tão fraca quanto fazia crer o empate contra a Irlanda, ou a ausência da Euro. Não, não está nada pronto: a Oranje ainda se remonta, os adversários visivelmente se poupavam para o torneio continental. Mas o otimismo voltou, como indicaram as palavras de Strootman após a partida à SBS6: "Queríamos muito vencer, pois queremos estar prontos para as eliminatórias da Copa. Visível e definitivamente, há uma linha ascendente". Melhor ainda foi ouvir do antes hesitante Danny Blind: "Parece bom. A maior vitória é que temos maior variedade de jogadas no nosso ataque. Parece um time, de novo".

É isso: após duas semanas de treinos e três jogos, apesar dos pesares, a Holanda já parece ter um time. Pela primeira vez desde que Danny Blind assumiu o comando, não tomou gols. E já tem quatro partidas de invencibilidade, o que não ocorria desde 2014. Não é muito, cabe poupar os elogios. Mas alguma coisa melhorou. A evolução é clara.