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terça-feira, 9 de junho de 2026

Não era para ser assim

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha plenas condições de já se garantir na Copa do Mundo de 2027. Desnecessariamente, se colocou em dificuldades, e terá de jogar sua sorte na repescagem (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) chegou às últimas rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina de 2027 com a faca e o queijo na mão: bastariam duas vitórias para assegurar a vaga direta na competição, sem precisar da repescagem. Porém, as Leoas Laranjas, novamente, fizeram do jeito mais difícil: se jogaram bem na vitória final, os 3 a 1 na Polônia, ficou na memória a dura derrota por 3 a 2 para a Irlanda, na penúltima rodada, quando repetiram erros que se julgavam superados - lentidão, dificuldade de adaptação ao jogo, perda de chances - e perderam a condição de controlar o próprio destino nas Eliminatórias. Ficou a pesarosa impressão de que, por melhor que o time seja, não precisava ser assim.

Até porque já se sabia de antemão que o cenário do primeiro jogo seria adverso às holandesas: o estádio Páirc Uí Chaoimh teria suas dimensões diminuídas ao mínimo exigido pela FIFA, o gramado estaria afetado pelo mau tempo, a Irlanda mostraria o esforço e a força física de sempre (além do talento vindo de Katie McCabe). Mas as holandesas em campo pareceram ignorar tais problemas, com lentidão, com desatenção defensiva... tiveram o castigo rápido, aos 19', quando Lynn Wilms perdeu a bola para Abbie Larkin, esta passou a Kyra Carusa, e sua finalização, mesmo lenta, passou pela goleira Lize Kop para o 1 a 0 irlandês.

Mesmo lenta, a bola do primeiro gol da Irlanda passou pela goleira Lize Kop, considerada um dos "bodes expiatórios" da derrota por 3 a 2 (Brendan Moran/Sportsfile/Getty Images)

Só mesmo em desvantagem é que a Holanda começou a tentar. Vieram boas chances, como um cabeceio de Romée Leuchter que mandou a bola para fora, aos 23', ou um chute de Wieke Kaptein que mandou a bola na trave, pouco depois. Ainda assim, a lentidão e a pouca força nas disputas de bola mantinham as Leoas Laranjas abaixo no jogo, mesmo criando bem mais chances de ataque. Cenário pouco auspicioso, num ambiente que ganhava um fator complicador adicional: a fortíssima chuva que caiu sobre Cork no segundo tempo. Diante disso, entraram as veteranas: somaram-se a Dominique Janssen Daniëlle van de Donk e Jackie Groenen. Pois viria delas a efetividade. Jackie Groenen quase acertou, aos 65', num chute da entrada da área (a goleira Courtney Brosnan pegou). E aos 70', elas participaram da jogada do empate: Groenen recebeu a bola de Lineth Beerensteyn, foi derrubada por Aoife Mannion na área, pênalti marcado, e Dominique Janssen cobrou para o 1 a 1. 

Seria aliviante... se a Holanda não cometesse o pecado crônico da desatenção: Groenen era atendida e demoraria um minuto para voltar a campo - são as novas regras da FIFA -, Larkin recebeu cruzamento logo na saída de bola, superou Janssen na corrida e fez o 2 a 1 irlandês. Talvez o baque tivesse sido definitivamente superado com a excelente entrada de Victoria Pelova: vinda do banco, superando o terrível drama particular da morte da mãe no começo da semana, a meio-campista fez boa jogada individual para empatar. E a Holanda, cercando o ataque diante da fechada defesa irlandesa, seguia rondando o gol. Porém, num escanteio no minuto final, a defesa fracassou ao rebater a bola, um cruzamento, e a atacante Amber Barrett coroou a impressionante eficiência irlandesa: três arremates a gol, três gols, 3 a 2, o sonho holandês de manter a liderança do grupo virava queda para o terceiro lugar.

E pelo menos no primeiro tempo, as Leoas Laranjas passaram algum sufoco contra a Polônia. É verdade que tinham mais a posse de bola, e rondavam mais o ataque. Às vezes, até tentavam, como em dois chutes sequenciais, de Romée Leuchter e Lynn Wilms, logo aos 4'. Ainda assim, o espaço para contra-ataques era aproveitado por nomes como Paulina Tomasiak (que tentou o gol aos 17', com Lize Kop defendendo) e Ewelina Kamczyk, que arriscou chute de fora aos 27'. Pelo menos, a essa altura, a Holanda já tinha 1 a 0 no placar, graças a Wieke Kaptein, a melhor da partida em Almelo, que cabeceou para as redes o cruzamento de Esmee Brugts. Ainda assim, sem aproveitar as chances, o risco de empate existia. Está certo que a vitória não adiantaria para a vaga direta, já que a França vencia a Irlanda e garantia a liderança do grupo e a vaga direta na Copa. Mas tropeçar de novo seria pior.

Contra a Polônia, as Leoas Laranjas se recompuseram. E Kaptein se destacou na vitória por 3 a 1 (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Quase piorou para as neerlandesas, mesmo, aos 48', quando só o impedimento de Kamczyk causou a anulação do gol que marcaria o empate. Só então o time deslanchou. Se Kaptein seguia bem, Romée Leuchter enfim fazia boa atuação novamente vestindo laranja. Quase levou a um gol contra, aos 53', quando seu cruzamento levou a zagueira polonesa Oliwia Wos a "espirrar o taco". E enfim, aos 61', Leuchter fez o gol do desafogo holandês, em grande estilo, num belo voleio, após cruzamento de Kerstin Casparij.

Só aí a Holanda ficou leve em campo. Os espaços para atacar surgiram, com a Polônia aberta. Lineth Beerensteyn, por exemplo, quase fez seu gol, aos 73'. E Liz Rijsbergen, em sua segunda partida pelas Leoas Laranjas, conseguiu o terceiro gol, aos 81'. Nem mesmo o gol de honra polonês - Kamczyk, aos 83', de pênalti surgido de falta de Damaris Egurrola Wienke sobre Tomasiak - abalou as donas da casa em Almelo. Que deixaram claro: podem jogar bem, como se ouviu em quase todas as entrevistas pós-jogo. 

Além de jogar bem, será preciso ter mais atenção e competitividade em cenários adversos na repescagem de outubro. Porque a Holanda já poderia ter se livrado do trabalho de tentar a vaga na Copa do Mundo Feminina.

Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Irlanda 3x2 Holanda
Data: 5 de junho de 2026
Local: Páirc Uí Chaoimh (Cork)
Árbitra: Katalin Kulcsár (Hungria)
Gols: Kyra Carusa, aos 19', Dominique Janssen, aos 70', Abbie Larkin, aos 71', Victoria Pelova, aos 80', e Amber Barrett, aos 90'

IRLANDA
Courtney Brosnan; Aoife Mannion, Anne Patten, Caitlin Hayes, Megan Connolly (Saoirse Noonan, aos 85') e Chloe Mustaki; Abbie Larkin (Leanne Kiernan, aos 76'), Marissa Sheva, Ruesha Littlejohn (Jessica Ziu, aos 46') e Katie McCabe; Kyra Carusa (Amber Barrett, aos 76'). Técnica: Carla Ward

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Dominique Janssen e Janou Levels (Marisa Olislagers, aos 56'); Damaris Egurrola Wienke (Jackie Groenen, aos 56'), Wieke Kaptein (Victoria Pelova, aos 74') e Ella Peddemors (Daniëlle van de Donk, aos 56'); Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Liz Rijsbergen, aos 74') e Esmee Brugts. Técnico: Arjan Veurink


Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Holanda 3x1 Polônia
Data: 9 de junho de 2026
Local: Polman/Asito Stadion (Almere)
Árbitra: Fabienne Michel (Alemanha)
Gols: Wieke Kaptein, aos 24', Romée Leuchter, aos 61', Liz Rijsbergen, aos 81', e Ewelina Kamczyk, aos 83'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms (Kerstin Casparij, aos 60'), Veerle Buurman, Dominique Janssen (Renée van Asten, aos 46') e Marisa Olislagers; Damaris Egurrola Wienke, Wieke Kaptein e Daniëlle van de Donk (Victoria Pelova, aos 60'); Lineth Beerensteyn (Liz Rijsbergen, aos 75'), Romée Leuchter e Esmee Brugts. Técnico: Arjan Veurink

POLÔNIA
Kinga Seweryn (Kinga Szemik, aos 67'); Wiktoria Zieniewicz, Paulina Dudek, Oliwia Wos e Jagoda Cyraniak (Julia Walentowicz, aos 79'); Adriana Achcínska (Wiktoria Zawistowka, aos 46'), Patrycja Sarapata (Gabriela Grzybowska, aos 67') e Milena Kokosz; Paulina Tomasiak, Ewelina Kamcyzk e Nadia Krezyman (Claudia Macjaska, aos 67'). Técnica: Nina Patalon

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Mais presenças. Mais chegadas?

Antes mesmo de qualquer competição europeia começar nesta temporada 2021/22, os Países Baixos já podem ter boas perspectivas. Para começo de conversa, a boa campanha do Ajax na Liga Europa da temporada passada fez com que o país chegasse um pouco mais perto de Portugal, na classificação dos coeficientes europeus - a Holanda está na sétima posição dessa lista. E também porque desde a temporada 2007/08 a nação não tinha tantos clubes em fases de grupos de torneios europeus: todos os cinco neerlandeses disputando competições continentais chegaram às chaves (ainda que sendo eliminados em fases preliminares). Pelo menos no início, é inegável que a presença holandesa aumentou - até pelo início da Conference League, a Liga de Conferências, terceiro torneio de clubes no continente, criado especialmente para satisfazer nações sem tanta frequência nas fases decisivas de Liga dos Campeões, ou mesmo de Liga Europa. 

A partir disso é que vem uma espécie de obrigação. Certo, a Holanda melhorou na lista de coeficientes - até mesmo por agora serem descartados os resultados da temporada 2017/18, quando os clubes do país tiveram péssimos resultados (Ajax eliminado nas fases preliminares de Champions e Europa League, e o PSV também eliminado antes mesmo dos grupos nesta última). Mas se quiser continuar mais perto das cinco ligas mais visíveis da Europa - e mesmo superior a ligas de seu tamanho, como Portugal, Bélgica ou Rússia -, a Holanda não pode contar só com o Ajax, responsável por 87% dos pontos ganhos no coeficiente, nos últimos quatro anos. Até porque os Ajacieden já ficam na fase de grupos da Liga dos Campeões, a joia da coroa, há duas temporadas. A campanha marcante em 2018/19 fica mais e mais para trás, e é preciso que outros clubes façam boas campanhas, além do de Amsterdã.

Pelo menos a princípio, nos grupos que couberam aos times holandeses, parece possível. É ver como eles chegam - para Champions League, Europa League ou Conference League.

Liga dos Campeões

Já são duas temporadas de eliminações na fase de grupos da Liga dos Campeões. O Ajax caiu num grupo em que pode sonhar com a ida às oitavas de final - e será muito cobrado para isso (Reuters)

Ajax (lista de inscritos)

Embora ainda haja ecos saudosos da campanha em que o Ajax impressionou o mundo, indo às semifinais em 2018/19 (e só sendo eliminado praticamente no último lance do jogo de volta), o fato é que os Amsterdammers já têm um time quase totalmente diferente. Já há duas temporadas, são eliminados na fase de grupos - e isso até rendia perigos, com o clube caindo no pote 3 do sorteio dos grupos. Quis a sorte que os Ajacieden caíssem numa chave em que têm chances de classificação: mesmo com o Borussia Dortmund como franco favorito à liderança, há chances de disputa pela segunda vaga nas oitavas de final, com Sporting-POR e Besiktas-TUR. E o Ajax sabe: diante dessas boas possibilidades, a pressão pela classificação será grande. 

Há jogadores remanescentes da campanha de dois anos atrás: Noussair Mazraoui, Daley Blind, Dusan Tadic (mesmo perdendo espaço, Nicolás Tagliafico e David Neres também podem ajudar). Outros nomes experientes voltaram de lá para cá, como Maarten Stekelenburg e Davy Klaassen. O ataque continua forte, com nomes como Steven Berghuis, Sébastien Haller e Antony - tanta variedade que causa até dificuldades ao técnico Erik ten Hag na escalação. Sem contar os nomes vindos da base: Ryan Gravenberch puxa a fila, mas há Devyne Rensch, Jurriën Timber, Kenneth Taylor... ainda assim, o ritmo lento com que o Ajax voltou à temporada (mesmo quando vence no Campeonato Holandês, parece apenas jogar para o gasto) deixa a torcida desconfiada. Não há melhor chance para os Amsterdammers apresentarem suas capacidades do que vencerem o Sporting, fora de casa, logo na estreia, quarta-feira.

Liga Europa

A incompetência (e algumas fragilidades no grupo) impediram o PSV de chegar à fase de grupos na Liga dos Campeões. Será necessária toda a atenção para cumprir expectativas na Liga Europa, num grupo equilibrado (Getty Images)

PSV (lista de inscritos)

Passar facilmente por Galatasaray-TUR e Nordsjaelland-DIN, na segunda e terceira fases preliminares da Liga dos Campeões, ampliou na torcida dos Boeren a esperança de que era possível alcançar os grupos da Champions League. Na decisão da vaga, contra o Benfica, houve qualidades vistas, mesmo na derrota por 2 a 1 no jogo de ida, em Lisboa. Em Eindhoven, com estádio lotado (algo valioso, em tempos de pandemia), a expulsão de Lucas Veríssimo, ainda no primeiro tempo, ampliou a esperança de que era possível. Mas faltou atacante. Faltou aproveitar as chances. E o empate que deu a vaga aos benfiquistas decepcionou um pouco.

Decepção superada. Afinal de contas, o PSV provara que tinha um time capacitado: o bom começo de André Ramalho na zaga, a experiência de Marco van Ginkel e Davy Pröpper, a velocidade de Noni Madueke e Cody Gakpo, a habilidade de Mario Götze. Se faltavam opções de ataque, elas vieram na reta final da janela de transferências, com o empréstimo do brasileiro Carlos Vinícius. Além do mais, nomes que pareciam destinados a vendas, como Bruma ou Ritsu Doan, foram reabilitados no grupo do técnico Roger Schmidt. E há as revelações - Fodé Fofana, atacante, à frente. Como único time a ter quatro vitórias em quatro jogos no Campeonato Holandês, o PSV chega dando a impressão de que pode ir bem na Liga Europa. Precisará comprovar, no equilibrado grupo B em que está: Monaco-FRA e Real Sociedad-ESP têm times de nível parecido. A disputa será dura.

Conference League

O AZ perdeu jogadores importantes. Fracassou ao tentar chegar à Liga Europa. Mas tem boas chances em seu grupo na Conference League (Getty Images)

AZ (lista de inscritos)

Pode um time fragilizado se dizer com sorte? Tendo em vista a situação do AZ, sim. O clube de Alkmaar vive situação de reformulação. Os grandes destaques dos últimos anos se foram: Marco Bizot, Teun Koopmeiners, Myron Boadu, Calvin Stengs. Nos play-offs da Liga Europa, ficou claro que algo faltava à equipe: houve chance de reverter a vantagem do Celtic no jogo de ida, mas mesmo com todo o esforço, os Alkmaarders viram o time escocês levar a vaga na LE em pleno AFAS Stadion. E o início inconstante no Campeonato Holandês indica que o técnico Marcel Jansen terá de gastar algum tempo à procura de uma equipe confiável, que volte a sonhar em desafiar os times grandes na Holanda como andou desafiando, antes e durante a pandemia. Só que o grupo D em que os Alkmaarders caíram na Conference traz adversários acessíveis, que podem ser superados: Cluj-ROM, Randers-DIN, Jablonec-TCH.

Dos destaques, ficaram o lateral esquerdo Owen Wijndal e o atacante Jesper Karlsson. Há nomes conhecidos que também formam uma base já relativamente entrosada: os zagueiros Timo Letschert e Bruno Martins Indi (agora, ficando em definitivo), os meio-campistas Fredrik Midtsjo e Dani de Wit. E o grego Vangelis Pavlidis é um reforço razoável para o ataque. Certo, ainda será necessário algum tempo até que o AZ atinja o seu pleno potencial. Mas tendo capacidade e melhorando em pontos fracos na temporada passada (a falta de pontaria, por exemplo), o time alvirrubro pode buscar a vaga na segunda fase. Mesmo enfraquecido.

Após um rápido susto, o Feyenoord se aprumou para chegar aos grupos da Conference League. Se continuar atento e intenso, pode ir às oitavas de final, num grupo equilibrado (ANP)

Feyenoord (lista de inscritos)

Bastaram as fases preliminares da Conference League acontecerem para a má impressão deixada pelo time de Roterdã na temporada passada se dissipar. Certo, o susto contra o Drita-KOS, enfrentado na segunda fase preliminar, foi grande: empate sem gols na ida, virada para 3 a 2 na volta (com o gol da vitória feito aos 89'). Mas dali para frente, só segurança: o Stadionclub passou com facilidade por Luzern-SUI (terceira fase preliminar) e Elfsborg-SUE (play-offs). Contra o time sueco, inclusive, a superioridade no jogo de ida foi tanta - 5 a 0 em De Kuip - que nem mesmo ser derrotado por 3 a 1 na volta assustou tanto.

O Feyenoord reanimou a torcida não só pelas classificações, mas também pelo estilo veloz no ataque, como se esperava do técnico Arne Slot: a perda de Steven Berghuis foi compensada pela chegada de Alireza Jahanbakhsh, pelo bom começo de Luis Sinisterra na ponta-esquerda, até pela ajuda que Guus Til tem dado nas chegadas vindas do meio-campo. Porém, a derrota recente para o Utrecht (Holandês) lembrou a torcida: o Feyenoord até melhorou, mas seu grupo ainda parece curto demais para as exigências da temporada. Correu-se para resolver isso na janela de transferências, com os empréstimos de Reiss Nelson e Cyriel Dessers para o ataque. Terão de provar seu valor num grupo equilibrado, o E: tanto Union Berlin-ALE quanto Slavia Praga-TCH são equipes capazes de se classificar. Não se pode descartar nem mesmo o Maccabi Haifa-ISR. Se o Feyenoord quer manter a confiança da torcida, superar essa chave será um bom augúrio.

O Vitesse já comemorou só por chegar à fase de grupos da Conference League (Pro Shots)

Vitesse (lista de inscritos)

Se o AZ deu sorte, o Vitesse deu azar. Nem tanto, é claro: só ter chegado aos grupos na Conference League já rende um dinheiro valioso para o clube de Arnhem. O que justificou em partes a comemoração grande do Vites pela vaga. O outro motivo de tanta celebração vista foi a dificuldade encarada desde a terceira fase preliminar. O Dundalk irlandês exigiu bastante, arrancando empate por 2 a 2 em Arnhem - só fora de casa o time aurinegro neerlandês se aliviou, fazendo 2 a 1 e indo decidir vaga na fase de grupos. O adversário era o Anderlecht-BEL, bem mais tradicional. Outra vez, classificação com fortes emoções: na ida, fora de casa, o Vitesse arrancava 3 a 2, mas tomou o empate nos acréscimos. Já na volta, em Arnhem, com a torcida apoiando, um grande dia de Maximilian Wittek (dois gols do ala esquerdo), vitória por 2 a 1 surpreendendo os Mauves, e a ida aos grupos.

Tudo para descobrir que a situação será bem mais difícil do que se pensava. Porque, no grupo G em que caiu, há um favorito destacado: o Tottenham. Mesmo na disputa por outra vaga nas oitavas de final, o Rennes francês parece mais confiável do que o Vitesse. Ainda assim, há jogadores em quem a torcida pode apostar. Ainda que quisessem sair do clube na janela de transferências, tanto Riechedly Bazoer quanto Oussama Tannane ficaram em Arnhem. Nomes como o meio-campo Matus Bero e o atacante Loïs Openda podem ajudar. E alguns reforços já provaram valor, como o goleiro Markus Schubert, substituto de Remko Pasveer, agora no Ajax. Além do mais, na temporada passada, o Vitesse foi elogiado exatamente pela solidez que lhe rendeu ótimos resultados em campo: quarta colocação na Eredivisie, vice-campeonato na Copa da Holanda. Será necessário mais, para tentar outra surpresa e ir além. Menos por demérito do Vitesse do que por causa da sorte...

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Possibilidades, sim. Confiança, nem tanto

A temporada das competições europeias está começando nesta semana, com as primeiras rodadas das fases de grupos de Liga dos Campeões (nestas terça-feira e quarta-feira) e Liga Europa (quinta-feira). Porém, a pandemia da COVID-19 que volta a atormentar a Europa em sua segunda onda torna impossível dizer se, quando e como essa temporada vai terminar. Portanto, também torna ainda mais difícil alcançar a resposta de uma pergunta já nebulosa de origem: os clubes da Holanda (Países Baixos) podem sonhar com alguma coisa em Champions League ou Europa League?

Seria bom se pudessem sonhar. Afinal de contas, a situação atual já é bem melhor do que foi há algumas temporadas: bem ou mal, na classificação de coeficientes da UEFA, o índice neerlandês é o 10º da lista. Mesmo estando em 11º, já era o suficiente para que o campeão da Eredivisie tivesse de volta a vaga na fase de grupos da Liga dos Campeões, caso o vencedor da Liga dos Campeões 2019/20 também tivesse vaga nesta edição 2020/21 por sua liga nacional - o que ocorreu com o Bayern de Munique, campeão alemão. E as classificações de PSV e AZ à fase de grupos da Liga Europa bastaram para que a Holanda subisse uma posição no ranqueamento, superando Turquia (dos cinco clubes turcos em competições europeias, dois já caíram, contra uma eliminação de holandês - o Willem II foi eliminado pelo Rangers, na 3ª fase preliminar da Liga Europa).

O que não quer dizer sossego: Turquia (11ª) e Áustria (12ª) seguem nos calcanhares holandeses, e ainda há Ucrânia (9ª) e Bélgica (8ª) à frente. Para que a evolução leve continue, deixando afastados vexames como os de 2016/17 (quedas ainda nas fases preliminares para PSV - Liga Europa - e Ajax - Liga dos Campeões e, depois, também Liga Europa), seria ótimo ver boas campanhas na fase de grupos. Quem sabe ver, dos quatro holandeses em torneios continentais, dois avançarem ao mata-mata. E sim, há certas possibilidades disso acontecer. O que falta é confiança nas capacidades. E sobram motivos para a falta de confiança.

Tadic (à direita) segue bom atacante, Klaassen retorna para ser útil, a base sempre revela talentos... o Ajax tem um time elogiável. Mas parece pouco para seguir na Liga dos Campeões (BSR Agency)

Liga dos Campeões 


Estava bom demais para ser verdade. Terminando na primeira posição do Campeonato Holandês 2019/20 quando este foi interrompido, o Ajax estava empatado em pontos com o AZ - mas por ter melhor saldo de gols, sendo "tecnicamente" o líder, ficou com a melhor vaga da Holanda (Países Baixos) na Liga dos Campeões. Com o Bayern de Munique já tendo vaga na temporada 2020/21, campeão alemão que foi, abriu-se a vaga na fase de grupos - e ela era do time de Amsterdã. Para entrar no pote 2 do sorteio, os Ajacieden torciam para que o Sevilla vencesse a Liga Europa 2019/20, e para que o Benfica fosse eliminado na 3ª fase preliminar da Champions League. Ambos os desejos, realizados. E a sorte acabou aí.

Porque, antes mesmo do sorteio, já se sabia que os Amsterdammers perderiam Hakim Ziyech - desde antes da pandemia, aliás - e Donny van de Beek, enfraquecendo bastante o poder de fogo no ataque. E quis o destino que as bolinhas reservassem como adversários no grupo D o Liverpool, que praticamente dispensa apresentações; a Atalanta, que foi em 2019/20 o que o Ajax fora na temporada anterior - isto é, a "zebra que atrai a torcida pela ofensividade na Liga dos Campeões" (e que é eliminada com gol nos estertores da partida decisiva, diga-se de passagem); e até mesmo o Midtjylland dinamarquês, embora francamente pouco falado e considerado eliminação certa, pode chatear.

De lá para cá, pouco mudou. Sim, o Liverpool - adversário da estreia do Ajax, nesta quarta - terá de encarar as desagradáveis ausências de Alisson e Virgil van Dijk (esta, a longo prazo). Mas sobram "só"  Mohamed Salah, Roberto Firmino, Sadio Mané, Jordan Henderson, Trent Alexander-Arnold... perigos de sobra, que mantêm os Reds favoritos. E a Atalanta não só ficou com todos os seus destaques (Marten de Roon, Alejandro "Papu" Gómez, Luis Muriel) como ainda trouxe nomes promissores (um deles o Ajax conhece bem, como adversário: Sam Lammers).

Certo, o Ajax tem sua força. Dusan Tadic é um ótimo comandante das ações de ataque, com Quincy Promes a postos. Nas laterais, Noussair Mazraoui e Nicolás Tagliafico são nomes confiáveis. Algumas contratações que acabaram de chegar já parecem estar há tempos em Amsterdã: Antony e Mohammed Kudus são os grandes exemplos. Davy Klaassen, mais experiente e mais consciente taticamente, é o "filho pródigo" que pode ajudar com sua experiência, voltando após três anos. E há as revelações, sempre elas no Ajax, venham da base ou compradas a baixo custo: Perr Schuurs, Kenneth Taylor, Ryan Gravenberch, Jurgen Ekkelenkamp, Sontje Hansen, Brian Brobbey... elas podem formar um bom time. Um time que até pode disputar a vaga nas oitavas de final. Mas até todos se entrosarem, até haver o "clique", leva tempo. E esse tempo pode e deve ser insuficiente para fazer frente aos favoritos Liverpool e Atalanta.

Liga Europa

Começando bem na Eredivisie, contratações promissoras, avanços inquestionáveis nas fases preliminares... o PSV parece consistente para avançar na Liga Europa (Photo Prestige/Soccrates/Getty Images)


A equipe de Eindhoven ainda está no começo da temporada, mas tem a seu favor itens bastante favoráveis para possibilitar otimismo com suas possibilidades na Liga Europa: contratações de respeito, um bom começo no campeonato nacional e classificações categóricas nas fases preliminares da Liga Europa. Detalhando esta última razão, os Boeren eram mais fortes contra o Mura esloveno, na 3ª fase preliminar, e contra o Rosenborg norueguês, nos play-offs pela vaga na fase de grupos. E provaram isso, goleando o Mura (5 a 1) e vencendo tranquilamente o Rosenborg (2 a 0). Tudo, fora de casa.

De quebra, os últimos dias da janela de transferências trouxeram reforços que efetivamente fortalecem o que o técnico Roger Schmidt já tinha à disposição. Eran Zahavi, Mario Götze, Ibrahim Sangaré, Marco van Ginkel (quando se recuperar)... todos podem ajudar os destaques já titulares - Denzel Dumfries, Cody Gakpo, Donyell Malen, até o agora reserva Mohamed Ihattaren. Em que pesem algumas escaramuças pequenas durante os jogos, o PSV já lidera o Campeonato Holandês após cinco rodadas. E mostra capacidade técnica e experiência para desafiar o PAOK grego e o Granada espanhol no grupo E - suplantar o Omonia Nicosia, do Chipre, deve ser mais fácil...


Queda na Liga dos Campeões, falta de eficiência no ataque, empates no fim dos jogos na Eredivisie... e agora o AZ ainda tem de suportar um surto de infecções pelo novo coronavírus (Ed van de Pol/Soccrates/Getty Images)


De todos os motivos que tornam dificílimo o otimismo com a participação dos Alkmaarders no grupo F, o último a surgir é o mais forte e perigoso: claro, o surto de infecções pelo novo coronavírus que surgiu no grupo de jogadores - na sexta passada, foram anunciados nove infectados, sendo seis jogadores; nesta terça, anunciaram-se mais oito testes positivos, sete envolvendo atletas. Só isso já dificulta bastante a situação do AZ para a estreia, nesta quinta-feira, contra o Napoli-ITA. Se é que a partida ocorrerá.

Mas antes mesmo do "corona-tsunami" cobrir o time de Alkmaar, as desconfianças já andavam grandes. Na Liga dos Campeões, o time passou com muita dureza pelo Viktoria Plzen, na segunda fase preliminar, e caiu para o eficiente Dynamo Kiev na 3ª fase preliminar. E nas cinco primeiras rodadas iniciais do Campeonato Holandês, a equipe de Alkmaar exibe tanto capacidade no ataque quanto desatenção na defesa: não fosse assim, e não teria perdido vitórias próximas para Fortuna Sittard, Sparta Rotterdam e VVV-Venlo (contra o Sparta, vencendo por 4 a 0 no fim do 1º tempo!). Assim fica difícil acreditar que o AZ pode superar os dois favoritos do grupo: um Napoli forte e experiente, e uma Real Sociedad ofensiva. Se a desatenção continuar, até mesmo o Rijeka croata pode assustar.

Sim, o Feyenoord tem condições de se classificar na Liga Europa. Mas as lesões, a falta de alternativas no grupo e a falha nas finalizações podem atrapalhar (ANP/Getty Images)


Quando o sorteio dos grupos revelou que o Feyenoord teria contra si o Dinamo Zagreb croata, o CSKA Moscou russo e o Wolfsberger austríaco na chave K, o técnico Dick Advocaat deixou claro seu alívio, numa entrevista coletiva: "Poderia ter sido bem pior". Classificado diretamente para a fase de grupos que estava, o Stadionclub tinha até a possibilidade de se aprimorar na pré-temporada e no princípio do Campeonato Holandês, para provar sua capacidade. De certa forma, o time de Roterdã até faz isso: seu começo na Eredivisie é positivamente regular, e o time já tem alguma consistência. 

Contratações como Bryan Linssen e, principalmente, o português João Teixeira se mostram plenamente capazes de tirarem a sobrecarga de Steven Berghuis na criação e na finalização das jogadas. Porém, se o Feyenoord cria chances de gol, também as perde muito. E a onda de lesões já irrita Dick Advocaat: Eric Botteghin na defesa, Leroy Fer no meio, Nicolai Jorgensen e Robert Bozeník no ataque... principalmente na frente, as lesões escancaram que a falta de reforços pode ser prejudicial para disputar a classificação. O Feyenoord pode avançar à segunda fase, mas é necessário confiar desconfiando.