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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Grandes laranjas: Kuyt

No Feyenoord, no Liverpool, no Fenerbahçe, na seleção: Dirk Kuyt se dedicou como poucos. E ganhou o respeito de todos (Getty Images)

Nos 19 anos de carreira que Dirk Kuyt (Kuijt, na grafia holandesa) teve em campo, ele não teve a técnica que o contemporâneo Wesley Sneijder exibiu. Nem o poder de decisão que Arjen Robben mostrou em momentos decisivos, na sua carreira. Nem mesmo marcou tantos gols quanto Robin van Persie, embora fosse atacante. No entanto, o esforço que ele despendeu em campo foi inegável. Por isso, Kuyt mereceu o respeito das torcidas em todos os clubes por que passou - e a idolatria, em alguns casos. E por isso, tem seus 40 anos celebrados com a consideração que se destina a alguém tido como valoroso e decente. No popular, um "ponta-firme".

O embalo só veio no fim do começo

Nascido em Katwijk, cidade marítima ao sudoeste da Holanda (Países Baixos), Kuyt logo achou um clube municipal onde pudesse bater sua bola: já aos cinco anos, figurava no Quick Boys, agremiação amadora da cidade. A princípio, sem a intenção de seguir carreira - Kuyt pensava mesmo era em seguir a trajetória do pai, também Dirk, um pescador que trabalhava nessa área em Katwijk. Tal intenção só foi aparecendo no decorrer da adolescência. Ainda assim, o novato ainda alternava o futebol com o aprendizado da pescaria junto ao pai. 

Kuyt seguiu assim até 1998, quando chegou ao time principal do Quick Boys, que jogava na Hoofdklasse, a quarta divisão holandesa, só com times amadores. Até março daquele ano, tinha ótimo desempenho: seis jogos, três gols. Bastou para que o Utrecht se interessasse por alguns nomes do quinto colocado na Hoofdklasse daquela temporada 1997/98. Entre eles, Kuyt: em agosto de 1998, ele começaria sua carreira profissional, contratado pelo Utrecht, junto a outro atacante, Hendrik van Beelen.

Nos Utregs, Kuyt virou titular logo que chegou, e passou os primeiros anos sendo alternado entre posições do ataque. Ora jogava na ponta, com o sérvio Igor Gluscevic mais concentrado nos gols - foi assim em temporadas como 1999/2000 (só seis gols no Campeonato Holandês) e 2001/02 (sete gols). Ora recebia a chance de jogar na frente, como o principal atacante - e aí, Kuyt também marcava mais (em 2000/01, foram 13 gols dele na Eredivisie).

Em 2002/03, Kuyt foi escalado de vez como atacante no Utrecht. E embalou de vez (Pics United)

Isso começou a mudar de vez na temporada 2002/03, quando o técnico Foeke Booy efetivou Kuyt como "homem-gol" do Utrecht - às vezes como ponta-de-lança, vindo do meio, às vezes como atacante puro e simples. Resultado: quando o seu começo de carreira terminava, Kuyt embalou de vez no futebol do país. Em 2002/03, foram 20 gols pelo Holandês, fazendo todas as partidas do Utrecht na campanha. Melhor ainda: o clube chegou à final da Copa da Holanda, contra o Feyenoord. E Kuyt participou como já sabia, na goleada por 4 a 1 que deu o título aos Utregs - colocando a bola na rede. Serviu para o Feyenoord entender o que via e contratá-lo: pouco tempo após aquela final, o atacante chegava ao Stadionclub, para também ser o "homem-gol", no lugar de um Pierre van Hooijdonk já veterano então, que se fora para o Fenerbahçe.

Nunca tão goleador

O milhão de euro (no singular mesmo) que o Feyenoord gastou para trazer Kuyt ficou barato, diante da idolatria que começou a nascer. Já na temporada 2003/04, sua primeira em De Kuip, ele igualou o que conseguira pelo Utrecht: pelo Campeonato Holandês, foram 20 gols em 34 jogos (começando pelos dois marcados no empate em 2 a 2 com o AZ, na quarta rodada). Além dos gols, o esforço e a movimentação que apresentara na área foram suficientes para lhe dar a primeira chance na seleção holandesa: Kuyt apareceu na primeira convocação de Marco van Basten como técnico da Laranja, em agosto de 2004, para não sair mais do radar.

Kuyt chegou para virar ídolo no Feyenoord - e para ficar de vez na seleção (European Press Agency)


A coisa ficou melhor ainda na temporada 2004/05. Ninguém menos do que Ruud Gullit chegou ao Feyenoord para ser treinador. E nunca um técnico apostou tão pesado no nativo de Katwijk: Gullit fez de Kuyt o seu "homem-gol" absoluto no Stadionclub, colocando Salomon Kalou como parceiro de ataque, se responsabilizando pela velocidade. E na dupla "K2" que mobilizou a torcida Feyenoorder durante aquela temporada, Kuyt consolidou seu destaque: com 29 gols em 34 jogos, ele foi o goleador da Eredivisie na temporada. E ganhou seu primeiro prêmio de Jogador do Ano nos Países Baixos. De quebra, já se tornara titular absoluto na seleção: sua aplicação lhe rendera a vaga, durante a campanha da Holanda nas Eliminatórias da Copa de 2006.

Em 2005/06, já sob o comando de Erwin Koeman, o Feyenoord voltou a fazer um papel digno de nota no Campeonato Holandês, chegando ao vice-campeonato. E Kuyt seguiu se destacando: fez 22 gols. Consolidou sua idolatria para a torcida do Stadionclub num momento de decepção: nos play-offs então disputados após a temporada, por vaga na Liga dos Campeões, o Feyenoord caiu num Klassieker contra o Ajax (3 a 0 na ida, em Amsterdã; 4 a 2 Ajax na volta, em Roterdã). Já com a saída do clube em mente, Kuyt deixou o gramado chorando após o jogo de volta em De Kuip: não conseguiria retribuir com feitos o amor que lhe era destinado. 

Se havia consolo, ele viria com a segunda escolha seguida de seu nome como o Jogador do Ano nos Países Baixos - na cerimônia de entrega do prêmio, Kuyt até cantou, junto a Jan Smit, cantor popular no país. Na mesma cerimônia, um momento lhe trouxe lágrimas aos olhos: o troféu entregue pelo pai, já então sofrendo com as complicações de um câncer (Dirk pai faleceu em 2007). Aliás, vale citar que ali começou o respeito que Kuyt ganhou fora de campo na Holanda: não só por aparecer como um sujeito de imagem familiar, pelo casamento estável com Gertrude - casados até 2017, ambos tiveram dois filhos, e Gertrude atraiu simpatia popular por continuar trabalhando como enfermeira em Katwijk, mesmo após a carreira do então companheiro decolar -, mas principalmente pela fundação beneficente mantida por ele.

Outro consolo seria a convocação para a Copa do Mundo: nela, o atacante fez três partidas pela Holanda. E finalmente, seu esforço lhe renderia um lugar num campeonato competitivo: em agosto de 2006, o Liverpool o levou. E Kuyt deixava a Eredivisie com um fato como prova do respeito que granjeara: entre 2001 e 2006, somados todos os jogos de Utrecht e Feyenoord, ele só ficou fora de cinco partidas - foram 179 jogos seguidos pela liga neerlandesa.

Kuyt podia não ser o mais técnico dos nomes do Liverpool. Mas ganhou a torcida dos Reds com dedicação e esforço (Getty Images)

No Liverpool e no Fenerbahçe, o respeito bastou

Kuyt chegou a um Liverpool de fama considerável, ainda vivendo o alarido do título europeu ganho em 2004/05. E logo achou seu espaço em Anfield: podia não ser icônico como Steven Gerrard, nascido e crescido naquele ambiente, podia não ter a técnica de Xabi Alonso, podia nem mesmo ser tão fundamental para os Reds. Mas o atacante ganhou a torcida (e o respeito dos técnicos que teve) pelo esforço: mesmo sem tantos gols - o máximo foram 13, na temporada 2010/11 -, a velocidade e a dedicação, atacando e marcando, fosse no ataque ou na meia-direita, o tornaram titular do Liverpool. Mais do que isso: tornaram-no um nome querido da exigente e fiel torcida vermelha. Se não bastassem a dedicação e o respeito (por medidas como aplaudir a torcida após cada jogo em Anfield), Kuyt até marcava gols em momentos importantes: mesmo com a derrota para o Milan na final da Liga dos Campeões 2006/07, fez o gol de honra dos Reds.

Paralelamente, ele também seguiu como nome certo na seleção holandesa. Robben, Van Persie e Sneijder podiam até brilhar mais, só que Kuyt, mais resistente a lesões e mais maleável no aspecto tático, seguiu como titular sob Marco van Basten. Foi à Euro 2008 - nela participou de todos os jogos, indo ou vindo do banco, e até marcou gol, abrindo o caminho da goleada contra a França, na fase de grupos. Van Basten deixou a Laranja, Bert van Marwijk chegou, e Kuyt continuou nome certo na equipe nacional, participando da campanha de aproveitamento total nas Eliminatórias da Copa de 2010. Veio o Mundial, Kuyt foi à África do Sul, e discretamente cumpriu o seu papel como sempre: não só era o nome inquestionável na ponta esquerda da Laranja em campos sul-africanos, como fez o primeiro gol da seleção na Copa, abrindo o placar dos 2 a 0 contra a Dinamarca, na estreia. Veio o vice-campeonato mundial. Mesmo sem ser tão comentado, o atacante granjeava cada vez mais respeito entre torcida e imprensa: era, talvez, o mais regular dos nomes daquela geração.

Na Copa de 2010, Kuyt já acumulava seis anos na seleção da Holanda. E aquele vice-campeonato mundial o consolidou como um dos mais regulares nomes naquela geração da Oranje (Getty Images)

Assim era também no Liverpool. Nomes iam (Xabi Alonso, John Arne Riise, Fábio Aurélio, Craig Bellamy), nomes vinham (Luis Suárez, por exemplo), mas Kuyt se credenciava como alguém com quem a torcida dos Reds podia contar. Nos últimos tempos no clube inglês, já nem se preocupava tanto com os gols: mais importante era tê-lo no vai-e-vem pela direita, apoiando e marcando, com velocidade e vigor físico notável para alguém que passava dos 30 anos. Mesmo em sua última temporada no Liverpool, participou de 33 dos 38 jogos pelo Campeonato Inglês. E é possível se dizer: só saiu do clube pelas reformulações típicas entre uma temporada e outra: aos 32 anos, o tempo já passava. Por isso, tão logo a Euro 2012 terminou, se sabia que Kuyt tomaria o caminho do Fenerbahçe. Pelo menos, despediu-se do Liverpool com um título, a Copa da Liga Inglesa.


Mesmo já chegando ao Fenerbahçe com a fase final da carreira se aproximando, Kuyt mostrou a dedicação de sempre. E numa liga menos intensa como a turca, seguiu tendo uma frequência admirável de aparições: foram 31 jogos pelos Canários Amarelos em 2012/13, e 32 jogos nas duas temporadas seguintes em que ficou pelo clube de Istambul. De quebra, até voltou a marcar gols, mesmo sem ser o "homem-gol" do Fener: foram 8 em 2012/13, 10 em 2013/14, mais 8 em 2014/15. De quebra, num time experiente, ainda figurou em conquistas: o título da Copa Turca em 2012/13, o próprio título turco em 2013/14, a Supercopa nacional em 2014. Diante de um povo tão idólatra aos que lhe cativam futebolisticamente como o turco, a dedicação de Kuyt teve retribuição calorosa, tempos depois. Em 2017, já de volta ao Feyenoord, Kuyt participou da inauguração de filial da Fenerium (rede de lojas do Fenerbahçe) em Roterdã. Eis que adeptos do clube turco lotaram a rua Zwart Jan, onde se localizava a Fenerium, durante a inauguração. Tudo para saudarem o velho ídolo.

Kuyt podia receber ainda menos atenção no Fenerbahçe. Mas ganhou títulos. E de novo, ganhou o coração de uma torcida (Getty Images)

O fim sonhado. Na seleção e no clube

Na seleção holandesa, Kuyt vivia fase semelhante ao que vivera em clubes: nomes iam, nomes vinham, e ele seguia se valendo da aplicação tática (e da pouca propensão a brigas) para manter o respeito dos técnicos que passavam pela Laranja. Por isso, saiu relativamente ileso da participação vexaminosa na Euro 2012. Por isso também, foi mantido titular por Louis van Gaal, figurando em sete dos dez jogos nas Eliminatórias da Copa de 2014. E a prova decisiva de como Kuyt construiu uma trajetória elogiável pela Oranje viria naquele torneio: mesmo já aos 33 anos, sem a titularidade absoluta de tempos idos, o atacante foi convocado por Van Gaal para o Mundial. 

No Brasil, Kuyt passou os dois primeiros jogos na reserva. Mas com Daryl Janmaat atuando temerariamente na lateral direita, recebeu a incumbência de jogar naquela posição a partir do jogo contra o Chile, ainda na fase de grupos. Dedicou-se, cuidou da marcação, e agradou a ponto de não sair mais do time. Nas oitavas de final, a voluntariedade de Kuyt, atuando pelos 90 minutos de um dificílimo jogo contra o México, debaixo do calor do meio-dia, numa Fortaleza ensolarada, foi um dos fatores mais celebrados na vitória. Nas quartas de final contra a Costa Rica, quando a decisão por pênaltis veio, Kuyt se apresentou como um dos cobradores - e converteu sua batida com perfeição. Até mesmo na derrota da semifinal contra a Argentina, também se saiu com honra, também acertando o seu chute em mais uma disputa de pênaltis. Sintetizando: se a campanha da Laranja em 2014 rendeu aplausos pelo terceiro lugar honroso, Kuyt era um dos principais símbolos disso - nem tanto pela técnica (esta ficou mais a cargo de Robben, ou mesmo Van Persie), mas principalmente pela garra que fez a Laranja chegar bem mais longe do que se pensava naquela Copa.

Dedicação na lateral direita, esforço, experiência em horas decisivas: de certa forma, Kuyt simbolizou a campanha elogiável da Holanda na Copa de 2014, seu capítulo final nos dez anos de seleção (Getty Images)

Copa encerrada, Guus Hiddink ainda chamou Kuyt para o amistoso de sua (re)estreia no comando da seleção, contra a Itália, em setembro de 2014. Mas sabendo que não teria vaga garantida nas convocações, preferiu ele mesmo declarar logo após aquela partida retardatária o fim de sua trajetória na Laranja, após 104 jogos e 24 gols. Na seleção, estava tudo acabado. E nos clubes? Só começaria a acabar em 2015. De um jeito cativante: após nove anos, Kuyt acertou a volta ao Feyenoord. Para o anúncio público, entregou a Noëlle, a filha mais velha, um pacote. Nele, havia uma camisa do Stadionclub, querido da família. Noëlle se alegrou. Tanto quanto a torcida Feyenoorder ao saber da volta do ídolo.

Kuyt podia já não ter tanta velocidade ao voltar a Roterdã, mas nem era esse o objetivo. Era tê-lo como o esteio do time, um nome calejado de velhos tempos, que pudesse guiar o time de volta ao caminho dos títulos. De certa forma, isso até aconteceu em 2015/16, com o Feyenoord conquistando a Copa da Holanda. Mas ficou pouco, diante da apoteose vista em 2016/17. Havia destaques mais técnicos, como Nicolai Jorgensen ou Jens Toornstra. Mas para a torcida, não importava: Kuyt era o grande símbolo daquela campanha, que ia rodada a rodada rumo ao título do Campeonato Holandês, para lavar a alma após 18 anos de jejum. A conquista demorou. Temeu-se pelo pior, com a derrota para o Excelsior na penúltima rodada (3 a 0), permitindo que o Ajax encurtasse a distância para três pontos. De quebra, Kuyt cada vez menos conseguia disfarçar a insatisfação por ser deixado no banco pelo técnico Giovanni van Bronckhorst (outro ídolo Feyenoorder), na reta final da campanha.

Mas Kuyt nada falou. Decidiu provar que era ele a cara daquele título redentor. Do melhor jeito possível: na rodada final da Eredivisie 2016/17, contra o Heracles Almelo, diante de um De Kuip lotado e carregando a angústia de 18 anos, o veterano provou que aquele seria o dia do desafogo. Titular de novo, precisou apenas de 40 segundos para fazer os adeptos que tanto o idolatravam explodirem, ao fazer 1 a 0. Não ficou só nisso: fez todos os gols na vitória por 3 a 1 que tornou o Feyenoord, de novo, campeão holandês. E pôde erguer a salva de prata do título, sorrindo abertamente. Era um fim irretocável, o fim que ele e a torcida haviam sonhado. Tão irretocável que Kuyt anunciou, três dias depois: aquele havia sido o último jogo de sua carreira profissional.


Em tese, Kuyt já nem precisaria fazer mais nada pelo Feyenoord. Se precisava fazer pelo Quick Boys em que começou sua trajetória no futebol, fez em 2018, jogando três partidas apenas para matar as saudades. Foi homenageado pela federação holandesa. Teve até um jogo de despedida a lotar De Kuip, com colegas de seleção, Liverpool, Fenerbahçe e Feyenoord a lhe prestigiarem em campo. E para a história seguir, a ligação com o Feyenoord foi do campo para o banco: já fazendo o curso para treinador, em 2018, Kuyt recebeu ali a chance para se desenvolver. É o que está fazendo, comandando o time sub-19 do Stadionclub desde então. E se fala, aqui e ali: a partir de 2021, quando Dick Advocaat deixar o comando da equipe principal, será ele o novo técnico. Talvez lhe valha de algo o respeito merecidamente ganho pela dedicação como jogador.

Dirk Kuyt
Data de nascimento: 22 de julho de 1980, em Katwijk
Clubes: Utrecht (1998 a 2003), Feyenoord (2003 a 2006), Liverpool-ING (2006 a 2012), Fenerbahçe-TUR (2012 a 2015) e Feyenoord (2015 a 2017)
Seleção: 104 jogos e 24 gols, entre 2004 e 2014

sábado, 9 de abril de 2016

Goleadores aparecem (ainda mais) na Eredivisie

Janssen se destaca, na interessante disputa pela artilharia na Eredivisie (Tom Bode/VI Images)

Na edição de fevereiro da revista inglesa World Soccer, o jornalista Jonathan Wilson (talvez o grande especialista mundial da atualidade em análise tática, entre a imprensa dedicada ao futebol, em todo o mundo) citou em sua coluna um fenômeno da atual temporada europeia. Pode até parecer absurdo, mas é bem plausível: novamente, algumas equipes estão escalando mais atacantes “de ofício”, para que eles tenham um papel predominantemente finalizador. Não que eles possam ficar parados ali durante os 90 minutos, apenas esperando que a bola chegue à grande área. Mas precisam estar sempre à espreita para fazer o que deles se espera: colocar a esférica de couro na casinha adversária. 

Basta citar a coqueluche mundial, o Leicester City: de nada adiantaria a rapidez de N’Golo Kanté na saída de bola, nem a qualidade de Riyad Mahrez na criação de jogadas, não fosse a prontidão de Shinji Okazaki e, principalmente, de Jamie Vardy para transformar essas jogadas em gols. Há outros exemplos. Se ainda tem esperança (cada vez menor) de alcançar os Foxes na disputa do título inglês, o Tottenham deve grande parte dela à referência confiável que Harry Kane tem sido. Se o Barcelona não abre mão do 4-3-3, e isso abriu espaço para o entrosamento esbanjado pelo famoso trio de ataque, também é verdade que sempre se espera a presença de Luis Suárez na área, para marcar os gols. Há Robert Lewandowski e Thomas Müller no Bayern Munique, há Pierre-Emerick Aubameyang no Borussia Dortmund, há Gonzalo Higuaín no Napoli, há a frequência maior de times escalados no 4-4-2 ou até no 4-3-3 (e em suas variações)... enfim, os exemplos estão aí.

E o que diabos isso tem a ver com futebol holandês? Várias coisas. Para começo de conversa, sabe-se que o campeonato nacional da Holanda é um verdadeiro paraíso para quem tenha talento mediano em deixar a bola na rede “pelo lado de dentro”. A ponto de somente experiências em centros mais competitivos revelarem definitivamente se o goleador da vez na Eredivisie é um jogador que terá sucesso inegável no futebol (Johan Cruyff, Romário, Dennis Bergkamp, Ruud van Nistelrooy, Luis Suárez...) ou se viveu apenas uma temporada de sonho (Nikos Machlas, Mateja Kezman, Afonso Alves, Mounir El Hamdaoui, Bjorn Vleminckx, Alfred Finnbogason...).

E se a atual temporada vive essa revalorização dos atacantes de ofício, seja ela um fenômeno temporário ou algo destinado a se tornar novamente habitual, o Campeonato Holandês está testemunhando uma disputa das mais interessantes pelo posto de goleador. Basta dizer que entre o líder da tábua de artilheiros e o sétimo colocado, há cinco gols de distância. Mais do que isso: os cinco primeiros colocados da tabela da Eredivisie têm seus “homens-gol” em ótima forma nas rodadas recentes do torneio.

Claro, talvez o maior símbolo disso seja o ocupante momentâneo do posto de goleador da liga holandesa: Vincent Janssen. Desde que 2016 começou, o atacante do AZ é destaque na ascensão vertiginosa do clube de Alkmaar na temporada. Foram 14 jogos e 14 gols de Janssen no ano, pelos Alkmaarders. Somados aos seis que marcara em 2015, lhe renderam a artilharia da liga, com 20 gols. Sua convocação para a seleção holandesa que disputou os amistosos contra França e Inglaterra, no mês passado, não surpreendeu. O que impressionou é que o atacante também mostrasse segurança a ponto de ser escalado entre os titulares contra a Inglaterra – e que marcasse gol, em seu segundo jogo pela Oranje. Janssen deixou Wembley consolidando-se como a nova esperança holandesa de ataque.

Na 29ª rodada da Eredivisie, no fim de semana passado, Janssen tinha até a chance de abrir vantagem no posto de goleador. Afinal, o AZ enfrentava justamente o PSV onde joga seu principal adversário na disputa do galardão: Luuk de Jong. Claramente, ele é a referência ofensiva dos Boeren. Tanto para segurar a bola e passá-la a quem vem de trás (o que tem feito muito bem) quanto para finalizar (principalmente em seus cabeceios). O irmão de Siem vive na volta à Eredivisie um fenômeno semelhante ao de Klaas-Jan Huntelaar, quando este chegou à Alemanha: após fracasso em centros competitivos (no caso de Luuk, Alemanha e Inglaterra), ele voltou a um campeonato de nível técnico mais, digamos, “acessível”. Não só recuperou a confiança na volta à Holanda, mas também voltou a ser convocado para a seleção – e até marcou gol, contra a França, ainda que o tento tenha sido irregular.

Só que houve uma decepção: nem Janssen, nem Luuk de Jong marcaram em AZ x PSV. Sorte de Arkadiusz “Arek” Milik: nos 3 a 0 contra o Zwolle que mantiveram o Ajax na liderança, o polonês marcou dois gols, chegando definitivamente na disputa pela artilharia - agora, Milik tem 18 gols. Mais do que isso: ele marcou pela sexta rodada seguida, o que não acontecia com um jogador do Ajax pelo Holandês desde... Luis Suárez (o uruguaio marcou em seis rodadas entre março e abril de 2009). E é o primeiro Ajacied a passar dos 14 gols numa só temporada, desde Suárez e o sérvio Marko Pantelic, na Eredivisie 2009/10. Pode-se dizer: enfim, Milik diz a que veio em Amsterdã, desde sua chegada no meio de 2014, ainda emprestado pelo Bayer Leverkusen (só foi contratado em definitivo no ano passado).

Há mais exemplos. Mesmo escalado vez por outra no meio-campo, o velho e ainda bom Dirk Kuyt continua marcando pelo Feyenoord: como Milik, tem 18 gols (dois deles na rodada passada, no 3 a 0 sobre o Excelsior). No Twente, o ponta-de-lança Hakim Ziyech é a “exceção que confirma a regra”: vindo de trás, num time em fase mediana, já fez 17 gols. O Utrecht tem o francês Sébastien Haller, 16 gols. Finalmente, há no NEC o venezuelano Christian Santos, autor de 15 tentos.

Mais notável é ver que Janssen e Luuk de Jong (sem esquecer Bas Dost, jogando fora da Holanda) já ameaçam os atacantes veteranos na Oranje. A ponto de Huntelaar não ter jogado nenhum minuto nos amistosos, e de Robin van Persie sequer ser convocado. Aliás, a revista Voetbal International noticiou que "Hunter" se abateu com a ausência nos jogos recentes da seleção, e está pensando seriamente sobre sua continuidade com a camisa laranja. Esse crescimento de outras opções é um inegável sinal de renovação. Mas ela poderia ser mais representativa: por mais gols que estejam marcando, nenhum desses citados mostrou, ainda, nível técnico suficiente para ir além da finalização, criar jogadas, vir com a bola dominada desde o meio-campo. Se algum deles o fizesse, poderia se iniciar um novo projeto tático para a Laranja, usando bons armadores, como Davy Klaassen.

Seja como for, o futebol holandês tem comprovado como a temporada atual do futebol europeu está pródiga no prestígio aos “homens-gol”. Se isso vai durar, não se sabe. Resta continuar vendo quem será o goleador que levantará a Eredivisieschaal no final das 34 rodadas. Afinal, se bola na rede vale, troféu no clube vale muito mais.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 8 de abril de 2016)

sábado, 31 de outubro de 2015

O símbolo da esperança

Kuyt, o líder do Feyenoord em campo - e o alvo principal da confiança do torcedor (fr-fans.nl)
O Feyenoord teve ídolos nos últimos anos? Teve. Bem, talvez não teve ídolos, mas teve destaques. Precisamente dois jogadores se encaixaram neste papel: John Guidetti, protagonista no vice-campeonato holandês da temporada 2011/12, ponto inicial da “ressurreição” do clube de Roterdã. E Graziano Pellè, que não só foi figura central de outras boas campanhas do Stadionclub – com ênfase para outro vice no Holandês, em 2013/14 -, mas também soube erguer a própria carreira a partir das boas atuações, para virar o que é hoje: jogador fundamental tanto no Southampton quanto na seleção italiana.

Mas Guidetti e Pellè eram jogadores oriundos de outros clubes, que foram para outros clubes. Ou seja: embora ambos tenham tido importantes momentos de suas carreiras nos Rotterdammers, a equipe foi “apenas” o cenário para uma boa fase. Por isso, volte-se ao trecho inicial: foram, provavelmente, mais destaques do que ídolos. Para reafirmar que o Feyenoord é, sim, um clube grande da Holanda, faltava um personagem com identificação e com história inquestionáveis para turbinar a confiança do elenco e da torcida. Não falta mais: Dirk Kuyt foi contratado exatamente para isso. E é exatamente o que está fazendo.

Se havia dúvidas sobre a importância do nativo de Katwijk nesta temporada, elas foram dissipadas nas últimas semanas. Na 9ª rodada do Campeonato Holandês, há quase três semanas, o Feyenoord visitou o Heerenveen. Num primeiro tempo primoroso, fez 5 a 0 (o jogo terminaria 5 a 2): três gols de Kuyt. No domingo passado, um jogo até mais difícil, pela 10ª rodada, contra o AZ, em casa. 3 a 1. Outro hat-trick de Kuyt. Mas o grande desafio era na última quarta, pela terceira fase da Copa da Holanda: De Klassieker, o mais tradicional clássico do país, contra o Ajax. 

O jogo foi tenso, truncado, nervoso. E os Ajacieden até jogaram melhor. Mas sabe-se: se falta alguma habilidade a Kuyt, sobra a ele espírito de luta. E este se espalhou por toda a equipe, que batalhou até os acréscimos. Teve o prêmio mais delicioso que podia imaginar: aos 49 minutos do segundo tempo, último dos descontos, falta à esquerda da área. Eljero Elia cobrou, e Joël Veltman desviou acidentalmente para as redes defendidas por Jasper Cillessen, fazendo gol contra no último lance do jogo. Loucura na Het Legioen, como a ensandecida (para o bem e o mal) torcida é conhecida: desde janeiro de 2012, o Feyenoord não vencia um Klassieker. Tratou-se de uma poderosa injeção de ânimo, menos de duas semanas antes de novo duelo contra os arquirrivais, pela 12ª rodada da Eredivisie, em 8 de novembro. A comemoração no estádio seguiu ainda por vários minutos depois do fim do jogo (confira a prova aqui).

Então, o Feyenoord é Kuyt e mais dez? Nem tanto. Há coadjuvantes valiosos na equipe. Um deles está no meio-campo: campeão europeu sub-21, o sueco Simon Gustafson mal chegou e recebeu a aposta do técnico Giovanni van Bronckhorst. E corresponde à confiança: colocou Jens Toornstra e Lex Immers no banco, acelera as jogadas de ataque, mostra sabedoria para definir a melhor hora do passe e já é o líder de assistências da equipe na temporada (4).

No ataque, os outros titulares ajudam Kuyt. Pela ponta-esquerda, Eljero Elia parece entrar num momento já vivido por outros jogadores holandeses: após rodar pelo futebol europeu, volta ao país natal, e lá reencontra-se com a boa fase. Elia impressionou com a boa atuação no difícil 3 a 2, fora de casa, contra o De Graafschap. E até já foi convocado por Danny Blind para os dois jogos finais da seleção da Holanda nas eliminatórias da Euro 2016. Convém não descartá-lo para o trabalho com vistas à qualificação para a Copa de 2018.

Já o centroavante Michiel Kramer ocupou o lugar de Colin Kazim-Richards, como se pedia. Produz menos do que prometia no início da temporada, mas pelo menos é o segundo maior goleador do Stadionclub na Eredivisie (4 gols). E mostra, digamos, a “malícia” que os atacantes precisam ter: não são raras as confusões que arruma com zagueiros adversários. A tal ponto que quase pegou quatro jogos de suspensão, por suposta cotovelada num zagueiro do De Graafschap – foi absolvido.

Ainda assim, o destaque inegável do Feyenoord é Kuyt. Primeiramente, claro, pelas boas atuações que fizeram dele o goleador do campeonato: em dez rodadas, dez gols. Mais do que os oito gols pelo Fenerbahçe, em 32 jogos, na temporada 2014/15; exatamente a mesma quantidade de tentos anotados em 2012/13, também em 32 jogos; enfim, desde os 13 gols marcados pelo Liverpool em todo o Campeonato Inglês 2010/11 o atacante não prometia enfiar tantas bolas nas redes.

Mas é razoável supor que a facilidade se dê pelo próprio nível técnico baixo da Eredivisie, que permite a um veterano de 35 anos, como Kuyt, fazer tantos gols e conseguir ser titular, o que ele já não era nem seus últimos tempos no Liverpool, nem no Fener. Então, por que tamanha importância? Pela dedicação e raça inesgotáveis. Tanto nos gols, quanto nas comemorações: invariavelmente, o camisa 7 vai celebrar próximo à placa de publicidade, punhos cerrados, braços levantados e gritos de júbilo junto à torcida. 

Sem contar que quase sempre é Kuyt quem dá a cara para bater nas declarações à imprensa. Nas horas más, como após a derrota para o PSV, no primeiro clássico da temporada, quando falhou no gol de Santiago Arias, lateral dos Eindhovenaren: “Foi um momento crucial. Estou muito chateado, isso não me acontece sempre”. E também nas horas boas, como após a vitória recente no Klassieker: “É gostoso demais. Queríamos vencer a qualquer custo. Nesse tipo de jogo não importa quem joga melhor, vimos isso na temporada passada. Ganhar é o mais importante, e mostramos isso. Essa vitória é legal para os jogadores, e mais legal ainda para Het Legioen”.

Já tendo sido goleador máximo da Eredivisie na temporada 2004/05, e eleito melhor jogador do campeonato por duas vezes (2002/03 e 2005/06) nem parece que Kuyt passou tanto tempo longe de De Kuip, após sua primeira passagem (entre 2003 e 2006). E sua identificação com o clube é tamanha que as negociações para a renovação do contrato atual já preveem sua transformação em técnico, começando nas categorias de base – como ocorreu com Van Bronckhorst, outro ídolo que retornou a Roterdã no fim da carreira. Só fortalece a ideia de que o atacante está cumprindo sua tarefa de ser o líder do Feyenoord, transformando-se num dos grandes ídolos da história do clube. E que a equipe, enfim, está motivada como nunca para encerrar o jejum de 16 anos sem conquistar a Eredivisie. 

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de outubro de 2015)