Mostrando postagens com marcador final. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador final. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de julho de 2019

Fizeram o possível

A Holanda mudou para tentar conter os Estados Unidos. Mas um erro pôs tudo a perder. Tudo bem: o vice-campeonato merece aplausos (FIFA/Getty Images)

Era possível a Holanda ganhar dos Estados Unidos, na final da Copa do Mundo feminina? Até era... desde que as Leoas Laranjas tivessem uma atuação perfeita, daquelas inesquecíveis, diante de uma seleção tão favorita quanto eram as norte-americanas, com seus três títulos mundiais (incluindo o da Copa passada, em 2015). Pelo menos na defesa, tudo deu certo. Mas estava faltando o ataque holandês funcionar. Uma hora, a fechada zaga holandesa fraquejou. E o caminho se abriu para o 2 a 0 do merecido título da equipe de Jill Ellis. Se serve de consolo (minúsculo), a Holanda tentou o que podia, com as armas que tinha.

Sarina Wiegman foi inesperadamente ousada na escalação. Sabedora de que seria caminho certo para a derrota dar espaço para a pressão quase irrespirável dos Estados Unidos no começo do jogo, a técnica da Holanda se preocupou em fechar a defesa: colocou Anouk Dekker (1,82m, mais alta do que Merel van Dongen, de 1,70m) no miolo de zaga, ao lado de Stefanie van der Gragt (1,78m), para inibir o jogo aéreo adversário. De quebra, Dominique Bloodworth foi deslocada para a lateral esquerda, para perseguir um dos grandes nomes ofensivos das norte-americanas - e da Copa: Megan Rapinoe.

Tudo começou bem. Ou quase. Afinal de contas, quase tudo que a Holanda fez nos primeiros 45 minutos foi se defender dos avanços dos Estados Unidos. Dekker e Van der Gragt mostravam precisão ao afastarem as bolas da área, de cabeça. Nas laterais, Desiree van Lunteren agia corretamente na direita, enquanto Bloodworth conseguia neutralizar Rapinoe, após alguma dificuldade para se readaptar.

Mas nenhuma dessas se destacava tanto quanto Sari van Veenendaal. Entre tantas goleiras de atuação elogiável na Copa do Mundo, a camisa 1 das Leoas Laranjas começou a despontar em Lyon. Saía bem do gol nos cruzamentos - como o de Tobin Heath, aos 17'. E estava sempre atenta nos chutes de longe, como provou em três grandes defesas, aos 28' (afastando um arremate de Samantha Mewis, meio no reflexo), aos 38' (pegando com dificuldades a bola, após desvio de Alex Morgan na pequena área) e aos 40' (em chute colocado da própria Morgan). Fez por merecer o prêmio que ganhou, como a melhor goleira da Copa.

Van Veenendaal fez o que pôde, talvez mais do que todas as outras holandesas em campo. Mereceu o prêmio de melhor goleira da Copa (FIFA/Getty Images)

Com todo esse esforço, a Holanda conseguiu conter os habituais começos sufocantes das norte-americanas. E passou o primeiro tempo sem sofrer gols. O problema foi na hora da bola ir para o meio-campo: Jackie Groenen perseguia as meio-campistas adversárias sem conseguir desarmá-las, Sherida Spitse não conseguia controlar o ritmo (afinal, não tinha a bola nos pés), só raramente Daniëlle van de Donk tinha espaço para avançar, Lieke Martens estava completamente sem ritmo. Mas as mudanças táticas que Sarina Wiegman pensara também ajudavam no desempenho de dois nomes: Vivianne Miedema mostrava capacidade inesperada para auxiliar na criação de jogadas, e Lineth Beerensteyn perturbava mais a marcação. Mas de chutes a gol, só a falta batida por Spitse para fora, aos 43'.

Entretanto, a Holanda se aguentava na defesa. A seleção dos Estados Unidos começava a se cansar de tanto tentar atacar, de tanto cruzar bolas à área, sem que viessem as finalizações. A zaga holandesa seguia precisa nas antecipações. Se não houvessem erros, a prorrogação era uma possibilidade - ou quem sabe, até, viesse a chance que Miedema e Beerensteyn tanto esperavam para marcarem o gol. Até que, aos 58', Heath cruzou da direita, Morgan tentou finalizar, mas Van der Gragt afastou a bola para escanteio com o pé alto. Tão alto que atingiu a atacante norte-americana - após o jogo, a zagueira holandesa reconheceu: "Eu não vi a chegada dela e fui com o pé para tentar acertar a bola, mas não acertei. Talvez ela tenha caído fácil demais, mas eu a acertei. Não peguei forte nela [Morgan], mas houve o contato".

Era um erro. Que foi punido: com a ajuda do VAR, a juíza francesa Stéphanie Frappart apitou o pênalti, convertido por Megan Rapinoe para o 1 a 0 dos Estados Unidos. Grosso modo, o jogo estava resolvido. A Holanda teria de avançar mais, deixar os cuidados defensivos que vinham dando certo - e isso abriu o espaço que as norte-americanas tanto desejavam para chegar a mais gols. Com isso, a Oranje até trouxe perigo uma vez, aos 65', quando Miedema fez excelente jogada, driblando três jogadoras, mas ficou com o ângulo bloqueado pelo chute e foi enfim desarmada por Becky Sauerbrunn. Mas os Estados Unidos chegavam com mais perigo, e encaminharam o título com o gol de Rose Lavelle, aos 69', em boa jogada individual da meio-campista, concluída com um chute forte no canto esquerdo de Van Veenendaal. Houve chance para mais, mas elas pararam nas boas atuações defensivas (Van der Gragt e Van Veenendaal à frente). Foi assim aos 71', quando Spitse evitou a finalização de Rapinoe. Ou aos 76', quando Van Veenendaal evitou o gol de Crystal Dunn.

E os Estados Unidos ganharam. Porque as jogadoras holandesas fizeram o possível, quase sem erros, por 58 minutos. Até que erraram. E aí, as agora tetracampeãs mundiais do futebol feminino não perdoam. Tudo bem: a Holanda fez o que pôde.

(FIFA/Getty Images)
Copa do Mundo feminina - final
Estados Unidos 2x0 Holanda
Data: 7 de julho de 2019
Local: Groupama Stadium/Parc OL (Lyon)
Árbitra: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Megan Rapinoe, aos 61', e Rose Lavelle, aos 69'

Estados Unidos 
Alyssa Naeher; Kelley O'Hara (Ali Krieger), Abby Dahlkemper, Becky Sauerbrunn e Crystal Dunn; Samantha Mewis, Julie Ertz e Rose Lavelle; Tobin Heath (Carli Lloyd), Alex Morgan e Megan Rapinoe (Christen Press). Técnica: Jill Ellis

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Anouk Dekker (Shanice van de Sanden), Stefanie van der Gragt e Dominique Bloodworth; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Sherida Spitse; Lineth Beerensteyn, Vivianne Miedema e Lieke Martens (Jill Roord). Técnica: Sarina Wiegman

domingo, 9 de junho de 2019

Há coisa mais preocupante

Mais do que a derrota na final da Liga das Nações, problemas de ataque preocupam a seleção da Holanda (ANP)
Antes mesmo da bola rolar no Estádio do Dragão, pela final da Liga das Nações, o favoritismo da seleção de Portugal perante a Holanda era um pouco maior. Por vários motivos: a regularidade maior dos Tugas, a presença de Cristiano Ronaldo (sempre importante, para indicar o rumo a seguir), o fato de ter se classificado à decisão sem uma prorrogação e, em menor escala, o "fator casa". Por isso, a conquista portuguesa só é triste para a Laranja por ser mais uma derrota em final. O problema é que há coisas mais preocupantes que a decisão da Nations League revelou.

Claro, assim como perder a final não era o fim do mundo, ganhar não significaria que a Holanda está pronta para o que der e vier. E o próprio Ronald Koeman lembrou disso, na entrevista coletiva do sábado: "Eu não posso ser comparado a Rinus Michels [técnico da Holanda campeã da Euro 1988] se vencermos. A ordem de importância é esta: Copa, Euro e Liga das Nações. Ninguém vai fazer uma festa gigante se ganharmos. Só tomaremos um vinho e sairemos de férias". Porém, era possível esperar que a capacidade coletiva da Oranje pudesse segurar Portugal - e, quem sabe, esperar que a circulação dos três atacantes na frente atrapalhasse a defesa da seleção da casa, desfalcada de Pepe.

Fracasso total. Que fique claro: o problema holandês não esteve na defesa, com mais uma boa atuação de Virgil van Dijk e Matthijs de Ligt (este até apareceu mais). Nem no meio-campo, onde Georginio Wijnaldum fez o que foi possível, buscando avançar mais para ajudar na armação. O problema foi no ataque. É o caso de dizer que, mais do que ser eficiente na finalização, faltou a Holanda... criar. Fazer Rui Patrício trabalhar. Nenhum dos três atacantes nederlandeses fez isso: nem Ryan Babel, nem Steven Bergwijn, nem Memphis Depay, todos facilmente neutralizados. Wijnaldum avançava, Denzel Dumfries chegava com vitalidade pela direita, a posse de bola era mantida... mas os visitantes não traziam perigo algum a Portugal. Quando traziam, vinham os erros - como de Bergwijn, aos 30': após roubar a bola, o camisa 7 chegou à área, mas demorou para passar, e Rúben Dias o desarmou.

Wijnaldum foi dos raros holandeses a tentarem qualquer coisa no ataque (TF Images/Getty Images)

Claro, o cansaço da semifinal desgastante contra a Inglaterra se fez sentir. E os espaços começaram a aparecer para que Portugal fizesse o que desejava: contra-atacasse. Houve precipitação no começo, quando os perigos vinham mais dos chutes de Bruno Fernandes (aos 12', para fora, e aos 30', quando Cillessen espalmou). No entanto, os lusos chegaram mais e mais, com a boa partida de Bernardo Silva, com a velocidade de Gonçalo Guedes, com a presença sempre temível de Cristiano Ronaldo. Cillessen até mostrou segurança, com defesas firmes. Mas estava claro: se a Holanda não melhorasse, o gol lusitano seria questão de tempo.

Ronald Koeman notou isso, e tentou resolver com a entrada de Quincy Promes. Ajudou por um tempo: a Holanda teve mais a bola no ataque, e até conseguiu uma chance meio acidental (aos 57', Memphis Depay cruzou, e Rui Patrício teve de afastar para escanteio). A entrada de Donny van de Beek, três minutos depois, poderia acelerar ainda mais. Porém, segundos após a vinda do meio-campista ao gramado, o erro fatal: um corta-luz de Gonçalo Guedes enganou De Ligt, abrindo espaço para Bernardo Silva avançar. Ele o fez, devolveu a bola a Gonçalo, este chutou, Cillessen cometeu pequena falha, e era o 1 a 0 português.

Só restou à Holanda buscar o gol. Às vezes, com perigo, como na excelente defesa de Rui Patrício para o cabeceio de Memphis aos 65'. Posteriormente, Luuk de Jong entrou, e já ajudou aos 82': ajeitou a bola, de cabeça, para desvio de Marten de Roon, providencialmente afastado para escanteio por Rui Patrício. Mas mesmo nesse momento, a Laranja nunca deu impressão real de poder ameaçar o título português. O próprio Frenkie de Jong reconheceu, após a partida: "Nunca consegui criar uma situação de superioridade numérica com meus passes, sempre tinha de ir para os lados". E a Holanda perdeu. Se serve de consolo, conseguiu achar uma base. Mas ficou claro que há coisas a melhorar, com o ataque sendo a mais gritante dessas coisas. Outras são a lateral direita (Dumfries tem vitalidade física notável, mas ainda não exibiu muita técnica) e, vá lá, o gol (em condições normais, Cillessen é titular, mas seguir sem ritmo de jogo pode lhe fazer ser mais ameaçado).

E a melhora precisa ser urgente, porque, nas Eliminatórias da Euro 2020, Alemanha e Irlanda do Norte podem abrir vantagem no grupo da Laranja. Que voltará sem margem de erro: precisará vencer os norte-irlandeses, Estônia, Belarus (já vencida uma vez) para se classificar à Euro sem sustos. Passar sufoco na qualificação, sim, seria uma coisa bem mais preocupante do que a derrota deste domingo.

Liga das Nações da UEFA - final
Portugal 1x0 Holanda
Data: 9 de junho de 2019
Local: Estádio do Dragão (Porto)
Árbitro: Alberto Undiano Mallenco (Espanha)
Gol: Gonçalo Guedes, aos 60'

Portugal
Rui Patrício; Nélson Semedo, José Fonte, Rúben Dias e Raphaël Guerreiro; Danilo Pereira, William Carvalho (Rúben Neves), Bernardo Silva e Bruno Fernandes (João Moutinho); Gonçalo Guedes (Rafa Silva) e Cristiano Ronaldo. Técnico: Fernando Santos

Holanda
Jasper Cillessen; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Daley Blind; Marten de Roon (Luuk de Jong), Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum; Steven Bergwijn (Donny van de Beek), Memphis Depay e Ryan Babel (Quincy Promes). Técnico: Ronald Koeman

sábado, 21 de abril de 2018

Copa da Holanda: a consagração contra a consolação

Só esta taça da Copa da Holanda pode manter o sorriso nos rostos de El Ahmadi e Van Bronckhorst, do Feyenoord (os dois em primeiro plano). Ou nos de Van den Brom e Vlaar, do AZ (ANP)
A final da Copa da Holanda costuma ser cenário para motivações e concretizações as mais variadas. Já viu o Zwolle realizar um conto de fadas quase inacreditável, ao conquistar o título mais importante de sua história goleando o Ajax, em 2013/14; já viu momentos inesquecíveis para Groningen e Vitesse, que venceram o primeiro torneio de suas histórias - em 2014/15 e 2016/17, respectivamente; já viu o Feyenoord dar um sinal de que viria um ponto alto em sua história, ao levar a KNVB Beker para casa em 2015/16. E caberá ao Stadionclub tentar ganhá-la pela 13ª vez neste domingo - como sempre, em seu De Kuip. 

Mas ao enfrentar o AZ, o clima é diferente em relação ao que foi há dois anos. Se há um clube otimista, é o de Alkmaar, não o de Roterdã. E o AZ está otimista, antes de mais nada, porque ofensividade e qualidade técnica não lhe faltam para buscar o primeiro título de Copa da Holanda desde 2012/13. Já virou lugar comum dizer que a equipe de John van den Brom é a mais agradável de ser vista na Eredivisie - pelo menos, nesta temporada -, mas este lugar comum se justifica. Tem sido empolgante ver o surgimento de Guus Til e Teun Koopmeiners, cada vez melhores e mais promissores no meio-campo - com Fredrik Midtsjo acrescentando velocidade ao toque de bola de ambos. 

No ataque, é certo dizer que a dupla Alireza Jahanbakhsh e Wout Weghorst é a melhor da posição no futebol holandês, nesta temporada. Basta dizer que, graças a ambos, pela primeira vez o AZ tem dois jogadores com mais de 16 gols na liga desde 1983/84. O iraniano só melhora à medida que os jogos decisivos chegam: no campeonato, ele chegou ao topo da tabela de goleadores, alcançando 18 gols com os três marcados contra o Vitesse durante a semana. Além disso, sua velocidade na direita é a principal opção de jogadas dos Alkmaarders. E se ele precisar cruzar a bola, sem problemas: em geral, lá estará Weghorst, pronto para finalizar (16 gols) ou ajeitar a bola para os meio-campistas. 

De quebra, Weghorst mostra raça, disposição, até capacidade de se dar bem em ambientes adversos. Pelo menos, é isso que o atacante prometeu à revista Voetbal International, durante a semana: "Não significa nada para mim que o Feyenoord vá jogar a final em casa. Pessoalmente, eu me sinto até mais forte no caso de um estádio lotado. São esses jogos que se quer jogar". E o atacante ainda evocou o ponto fraco do AZ na temporada: os tropeços contra os clubes grandes. Na Eredivisie, houve uma derrota para o Ajax, adversário da penúltima rodada; contra o PSV, por duas vezes o clube saiu na frente, e por duas vezes cedeu a vitória; e contra o Feyenoord, duas derrotas, com direito a 4 a 0 em Alkmaar. Weghorst indicou: "O AZ merece uma recompensa saborosa. E cabe a nós, jogadores, buscarmos isso". Completando tal sentimento, vieram as palavras do técnico John van den Brom, na entrevista coletiva: "Queremos muito ganhar essa copa. Queremos provar como somos bons".

Se o time alvirrubro de Alkmaar busca a consagração, até para o ótimo retrospecto na Copa da Holanda (finalista no ano passado, semifinalista em 2015/16 e 2013/14, quadrifinalista em 2014/15...), o Feyenoord busca uma consolação. Por razões variadas - a falta que as transferências fizeram, lesões a perturbarem o time, a falta de qualidade técnica -, o Stadionclub decepcionou a torcida em 2017/18. Se era difícil pensar na repetição da apoteose do ano passado, com o título da Eredivisie após 18 anos, também não precisava haver um desempenho tão apático, exemplificado num longínquo quarto lugar na liga e no fato de ter perdido todos os clássicos para Ajax e PSV, algo inédito na história do clube.

Restou a Copa da Holanda, comum porto seguro para os Feyenoorders - é a 17ª vez que o clube chega à decisão do torneio, recorde junto ao PSV. E Giovanni van Bronckhorst sabe: ou o Feyenoord ganha, ou defender seu trabalho nesta temporada será ainda mais difícil do que já está sendo. Aliás, o técnico reconheceu isso na entrevista coletiva desta sexta: "A [campanha na] liga não foi o que nós esperávamos, teve altos e baixos. Porém, ainda podemos conquistar um título. Já encaramos essa pressão na final de 2016, e no título do ano passado. Mas meu time está acostumado".

De fato, as palavras de Karim El Ahmadi, capitão do Stadionclub, foram bastante otimistas em relação à partida: "Quando se ganha uma vez, sabe-se o sentimento que é. Você quer sempre mais, e é isso que o grupo tem sentido. Estamos em quarto lugar na liga, e se vencermos a copa ainda será uma temporada deficiente, mas nos fará muito bem. E há uma sensação extra ao ter a final em De Kuip". Para tanto, o Feyenoord se cuidou. Por exemplo: Robin van Persie foi poupado na goleada contra o Willem II, exatamente para fazer o papel pelo qual foi contratado - ser a referência, o homem capaz de decidir. Deste modo, começará a final jogando, no meio-campo, como "camisa 10".

Outro exemplo do cuidado do Feyenoord é Steven Berghuis: o menor sinal de lesão sentida no aquecimento contra o Willem II o levou a também ser poupado, enquanto Jens Toornstra atuou. Tudo para também estar em forma na decisão deste domingo - como outros atacantes, Jean-Paul Boëtius e Sam Larsson, ambos ainda voltando de lesão. 

Afinal, o Feyenoord precisa estar pronto para buscar a sua consolação, no título da Copa da Holanda. O mesmo título que o AZ quer, para confirmar a ótima temporada que faz. A ver qual das duas palavras será premiada neste domingo, em De Kuip. 


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A perda da inocência

O Ajax jogou bem. Mas nunca pareceu acreditar que o título da Liga Europa fosse para seu bico (Pieter Stam de Jonge/VI Images)
“Serei honesto: vencer a final não era algo provável para nós”. Se já era difícil supor que o Ajax pudesse superar o Manchester United antes mesmo que a final da Liga Europa começasse, tal declaração, dada pelo técnico Peter Bosz à FOX Sports holandesa, logo após a decisão em Estocolmo, deixava claro como a primeira conquista de um torneio continental para o país desde 2001/02 era algo quase inatingível. De certa forma, por culpa do próprio Ajax. 

É óbvio que só o fato de ter voltado a decidir uma competição europeia já devia ser comemorado por todos que simpatizam com a história riquíssima dos Ajacieden, gigantes europeus para todo o sempre. Ainda assim, há uma grande diferença entre chegar à decisão e se contentar com isso. Foi exatamente o que se viu no gramado da Friends Arena: o Ajax parecia contente só por enfrentar o Manchester United. Mais do que isso: sempre pareceu uma equipe ingênua. Não necessariamente medrosa, mas ingênua.

Arriscado falar que a mais jovem equipe da história das decisões de torneios europeus (média de idade de 22,2 anos) “tremeu”. Se tremesse, provavelmente o Manchester United teria vencido por vantagem até maior. Além do mais, se houve um jogador do Ajax merecedor de elogios por sua atuação, foi justamente o mais jovem dos onze escalados – aliás, o segundo mais jovem jogador a ter atuado em qualquer final europeia: aos 17 anos e 285 dias, Matthijs de Ligt fez vários desarmes, comandou a defesa, mostrou senso de antecipação elogiável, enfim, mostrou que é promessa muito grande para a zaga, posição carente na Holanda. 

Sem contar que o outro jovem zagueiro, Davinson Sánchez, também escapou relativamente ileso da derrota: mesmo que em sua perna tenha resvalado a bola chutada por Paul Pogba para o primeiro gol (e mesmo que seu talento para armar o jogo tenha se revelado, no mínimo, deficiente), o colombiano também mostrou segurança nos desarmes e rapidez na recomposição – os desarmes de carrinho, em tentativas de Pogba e Marcus Rashford, no segundo tempo, foram precisos. 

Ou seja: os Godenzonen tentaram. Merecem respeito por isso. Mas o problema do Ajax em Estocolmo, definitivamente, não foi a falta de controle emocional. Foi ingenuidade. Ingenuidade demais de achar que José Mourinho, dos mais experientes e laureados técnicos de sua geração, não era capacitado para fazer exatamente o que fez: um jogo tático, neutralizando com facilidade os pontos fortes dos Amsterdammers (velocidade, marcação por pressão, jogadas partindo do meio-campo, troca de passes). Ingenuidade demais pensar que o time dos Red Devils não tinha capacidade de decidir a final a partir de um lance isolado, como foi o arremate de Pogba. Ingenuidade demais pensar que um time formado de jogadores experientes – não inquestionáveis, mas experientes – tentaria definir o jogo na pressa, e não usando dessa experiência. 

Assim, por exemplo, Marouane Fellaini foi dos melhores da decisão, controlando facilmente Lasse Schöne no meio-campo. Ander Herrera controlou Hakim Ziyech aos poucos no jogo. E o que falar de Kasper Dolberg, completamente sumido em campo? Certo, a inação do meio-campo acabou deixando o atacante dinamarquês isolado no meio da defesa dos Mancunians, perfeitamente postada. Ainda assim, cabia a Dolberg mostrar mais iniciativa – como Rashford tentou fazer no ataque do United, por mais que o melhor daquele setor na partida tenha sido Henrikh Mkhitaryan, opção sempre válida de jogadas. Mas Dolberg “aceitou passivamente” a marcação previsível que viria sobre ele. E não prever que isso ocorreria foi... ingenuidade.

Esta ingenuidade talvez seja um grande problema do futebol holandês em geral – que a atuação do Ajax expôs de modo exemplar na quarta-feira passada. Por mais que evolua, por mais que tenha aparecido, a equipe de Amsterdã é vítima da sua qualidade mais incensada: seu ideário tático. O 4-3-3 com pontas, a troca incessante de passes, a mudança de posições, a confiança nesses dogmas todos cria uma certa “camisa-de-força”. Quando dá certo, é o show que se viu contra Schalke 04 e Lyon, nos jogos de ida de quartas de final e semifinais, em Amsterdã. Mas quando dá errado, o Ajax simplesmente não tem alternativas. Pior: nega-se a tê-las, em nome de um certo “espírito ofensivo”, deixado claro por Peter Bosz.

Bom dizer, antes de mais nada: ótimo que um time tenha uma ideia de jogo e sempre prefira jogar de acordo com ela. No entanto, futebol é competição. E quando a ideia inicial não dá certo, é preciso ter o “plano B”. Só recentemente a Holanda teve esfregada em sua cara tal necessidade: com a ausência da Euro 2016 e a dificuldade grande nas eliminatórias da Copa de 2018, sabe-se que o 4-3-3 com pontas precisa ter variantes. Peter Bosz até tentou algo assim no Ajax, com o esporádico 4-1-4-1. E Louis van Gaal fez campanha primorosa na Copa de 2014 exatamente porque engoliu em seco suas crenças, arriscando um 5-3-2 que protegeu a frágil defesa e potencializou o talento de quem precisava aparecer.

Sim, deixar de lado ideias às quais se é muito apegado dói. Parece a perda da inocência. No entanto, se o Ajax quiser voltar de vez a ter espaço no cenário europeu, precisará dessa “perda”, em alguns aspectos. Em termos teóricos e práticos – como no mercado de transferências, em que já se fala em algumas saídas, embora sem muito alarido.  O emprestado Bertrand Traoré certamente voltará ao Chelsea – e se for vendido, não será para o Ajax; Dolberg, no mínimo, quer ouvir as sondagens que lhe fizeram; Davy Klaassen já é grande demais para a Eredivisie; e fala-se que o Borussia Dortmund olha com carinho para Amin Younes. 

De outro modo, será o que se viu na quarta: elogios, respeito à história, até carinho pelo Ajax. Mas no final, a taça fica com quem olha para o futebol holandês e diz que ele ainda precisa comer muito arroz com feijão, se quiser ser realmente grande. Foi mais ou menos o que Mourinho indicou, quando falou: “Há muitos poetas no futebol, mas eles não ganham muitos títulos. Sabíamos que éramos melhores, e usamos as fragilidades deles”. Com perfeição.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 26 de maio de 2017)