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sexta-feira, 30 de junho de 2023

A Holanda na Copa feminina - Andries Jonker, o técnico

Andries Jonker concretizou a boa vontade que (quase) sempre teve com o futebol feminino ao aceitar treinar a seleção, num momento decisivo. Mas ainda atrai desconfianças (KNVB Media/Divulgação)

Ficha técnica
Nome: Andries Jonker
Data e local de nascimento: 22 de setembro de 1962, em Amsterdã (Holanda)
Carreira como treinador: ZFC (clube amador, 1987 a 1988), DRC (clube amador, 1989 a 1991), Volendam (1999 a 2000), seleção feminina da Holanda (2001, como interino, e desde 2022), MVV Maastricht (2004 a 2006), Willem II (2007 a 2009, acumulando com o cargo de diretor técnico), Bayern de Munique-ALE (2011, interino, e 2011 a 2012, treinando o time B), Wolfsburg-ALE (2017) e Telstar (2019 a 2022, acumulando com o cargo de diretor técnico)
Carreira como auxiliar: Volendam (1997 e 1999), Barcelona-ESP (2002 a 2003), Willem II (2006 a 2007), Bayern de Munique (2009 a 2011) e Wolfsburg-ALE (2012 a 2014)
Carreira como diretor: Federação holandesa (1990 a 1997 e 2000 a 2003, como diretor de seleções regionais e categorias de base) e Arsenal-ING (2014 a 2017, como diretor das categorias de base)

Andries Jonker já foi auxiliar técnico do Barcelona. Já treinou o Bayern de Munique - interinamente, mas treinou. Já foi diretor das categorias de base do Arsenal. Já foi auxiliar técnico, e também técnico, do Wolfsburg. Seria um currículo a torná-lo dos comandantes mais conhecidos e capacitados desta Copa do Mundo feminina... se Jonker não tivesse feito tudo isso no futebol masculino. Por mais que tenha no currículo a fugaz experiência treinando a seleção de mulheres da Holanda (Países Baixos) em 2001, por mais que sua boa vontade e seu gosto pelo futebol feminino sejam inegáveis, o treinador de 60 anos chega ao Mundial das mulheres tendo de fazer uma boa campanha para minorar a frequência com que se ouve "quem?", ao se comentar que ele é o técnico das Leoas Laranjas.

No começo de sua carreira no banco de reservas (nunca foi jogador profissional - o máximo a que chegou foi jogar no De Volewijckers, clube amador), aliás, Jonker sequer tinha simpatia pela modalidade. Reconheceu isso a um podcast da revista Helden, neste ano: "Não me lembro de uma menina que jogasse em clubes, quando eu era jovem. E eu fazia parte daquela mentalidade masculina que achava 'mulher não pode jogar futebol, tem de ir para outro esporte: handebol, beisebol, atletismo, coisa assim'. Não tinha nada contra o esporte feminino, mas não achava que elas pudessem jogar". E assim pensou na fase inicial de sua carreira, treinando clubes amadores, a partir de 1987.

Jonker só mudou de ideia na sua primeira passagem pela federação holandesa, como diretor, a partir de 1990. Na KNVB, foi destinado para acompanhar e estruturar o futebol amador no país. No meio do trabalho, coube a ele acompanhar... o futebol feminino. No começo, claro, ele se aborreceu: "Pensei: 'Não vou fazer isso'. Como punição, a alternativa era cumprir tarefas comunitárias, em jogos de futebol de salão. Numa noite, na cidade de Zandvoort, eu estava ao lado de um poste, na estação de trem, e ao lado treinavam as meninas do time sub-23, da região de Haarlem".

E ele acabou aceitando, virando técnico de equipes femininas sub-15, no trabalho supervisionado na federação. E bastou o primeiro jogo comandando meninas para que ele notasse como o futebol de mulheres também poderia interessar - no jogo, uma derrota por 12 a 1: "Eu fiquei com os pais nas minhas orelhas, as filhas deles choravam. Aí eu decidi levar a sério". Gradualmente, Jonker pegou gosto pela tarefa que faria como representante da federação até 1997: supervisionar o futebol feminino. Ver candidatas a jogadoras, estimulá-las a treinar próximas às suas casas, treinar mulheres três vezes por semana. Foi assim que ele resolveu, ao podcast: "A partir desse momento, minha antipatia pelo futebol feminino acabou".

Só não continuou o trabalho porque o Volendam o chamou, em 1997, para ser auxiliar técnico do time masculino. No clube, Jonker trabalhou como braço-direito do técnico Dick de Boer, por dois anos (o que incluiu um rebaixamento para a segunda divisão da Holanda, em 1997/98) - e no terceiro, em 1999, assumiu ele mesmo o comando do Volendam. Fez um trabalho ruim - 17º lugar na segunda divisão em 1999/2000 -, mas justamente aí, foi convidado pela KNVB para retornar ao trabalho interno. Na federação holandesa, Jonker encontrou um sujeito que lhe seria fundamental no resto da carreira: Louis van Gaal, chegando simultaneamente para treinar a seleção masculina da Holanda naquele ano de 2000. 

Mais do que isso: Jonker reencontrou o futebol feminino. Na época, mesmo com a Holanda sendo um país incipiente na modalidade, houve certo interesse da federação em estruturar a modalidade. E ali Jonker teve sua primeira passagem como treinador da seleção de mulheres: após a demissão de Ruud Dokter, ele comandou as Leoas Laranjas, como interino, no primeiro semestre de 2001. Na disputa de amistosos, Jonker teve até bons resultados - em sete jogos, cinco vitórias e duas derrotas. Todavia, era só uma fase. Interino, ele deu espaço a Frans de Kat, a partir do segundo semestre daquele ano. Mas a passagem fugaz serviu para ele manter contato com jogadoras que teriam ainda mais experiência naquela década. Como a lateral direita Dyanne Bito, a atacante Annemieke Kiesel-Griffioen... e uma volante, de 32 anos em 2001, que se tornou naquele ano a jogadora com mais partidas pela seleção até ali: Sarina Wiegman.

No Barcelona e no Bayern de Munique, Louis van Gaal deu alguma experiência a Jonker (esquerda), fazendo dele seu auxiliar ( Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images)

Só que o caminho de Jonker continuou. E a partir dali, muito mais próximo do futebol masculino - e dos caminhos de Louis van Gaal. Após a malograda passagem pela seleção masculina da Holanda, Van Gaal retornou ao Barcelona em 2002, e levou o conhecido da federação como seu auxiliar, na segunda passagem pelo clube espanhol. Passagem também problemática, que acabou em 2003, para ele e Jonker. Ao segundo, restou esperar até 2004, quando voltou a um clube da segunda divisão (masculina) da Holanda - no caso, o MVV Maastricht. Foi seu primeiro trabalho digno de nome no banco de reservas. Nem tanto pelos resultados na Eerste Divisie, em que o MVV ficou no lado de baixo da tabela. Mas sim pelo que se viu em 2005/06, com o clube alcançando as quartas de final da Copa da Holanda.

A partir dali, Jonker teve uma mínima ascensão como técnico. E a aliou às experiências como diretor, no Willem II, ao qual chegou ainda em 2006. No time de Tilburg, primeiro foi auxiliar de Dennis van Wijk, e a partir de 2007, acumulou os cargos de treinador e diretor técnico. Mesmo com dificuldades, os Tricolores seguiram na primeira divisão durante os dois anos, embora sempre bordejando a zona de rebaixamento. E quando Jonker caiu dos dois cargos, em fevereiro de 2009, logo "caiu para cima". Porque, em julho daquele ano, o parceiro antigo Louis van Gaal o escolheu para auxiliá-lo no Bayern de Munique, que levaria a dupla coroa alemã (campeonato e copa) e o vice-campeonato da Liga dos Campeões, em 2009/10. Mais ainda, porque Van Gaal entrou em dificuldades na temporada posterior, foi demitido ao final dela... e coube a Andries treinar, interinamente, o Bayern de Munique, na goleada por 4 a 1 no Schalke 04, pela 32ª rodada do Campeonato Alemão. Mesmo cedendo o lugar para Jupp Heynckes depois, o holandês ficou no Bayern - mais precisamente, no time B, que comandou em 2011/12, deixando-o após o 14º lugar, na liga regional do sul alemão que o Bayern II disputou então.

Pois é: após a demissão de Van Gaal, em 2011, Jonker teve algumas semanas treinando o Bayern de Munique (Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images)

Seria no Wolfsburg, porém, que Andries Jonker teria a vinculação maior em sua passagem no futebol alemão. Da primeira vez, novamente como auxiliar técnico: o neerlandês foi o braço-direito de Felix Magath, do interino Lorenz-Günther Kostner (sucessor do demitido Magath) e de Dieter Hecking, entre 2012 e 2014. Aí, novamente ele preferiu uma passagem como diretor - e que passagem: Jonker comandou as categorias de base do Arsenal, entre 2014 e 2017, sendo responsável pela remodelação de Hale End, centro de formação de jogadores do clube. E aí, voltou ao Wolfsburg, em fevereiro de 2017. Como técnico. Em meio a um momento difícil: o sofrimento dos Lobos, que terminaram precisando disputar a repescagem contra o rebaixamento, se mantendo na Bundesliga ao superar o Eintracht Braunschweig. Tal sofrimento já colocou Jonker na mira das críticas. E um começo inconstante na Bundesliga 2017/18 - duas derrotas, um empate, uma vitória - já o fez ser demitido do Wolfsburg, em setembro de 2017, ainda na fase inicial da temporada.

No Wolfsburg, primeiro Jonker foi auxiliar; depois, como técnico, sofreu entre 2016 e 2017 (Martin Rose/Bongarts/Getty Images)

Então, Jonker decidiu voltar ao país natal, após um bom tempo. Novamente, para um clube da segunda divisão: o Telstar, ao qual chegou em junho 2019. Ali, novamente acumulou os cargos de treinador e diretor técnico, num contrato de dois anos. De novo, o trabalho foi deficiente: 10º lugar na temporada 2019/20 (interrompida pela pandemia de COVID-19, vale lembrar), 13º lugar em 2020/21. Ainda assim, tão ligado ao futebol masculino, Jonker seguia observando o futebol feminino à distância. A ponto de ser cogitado como candidato a substituir Sarina Wiegman, quando esta deixou a seleção holandesa de mulheres, em julho de 2021. Àquela altura, ele preferiu ficar, como se lembrou em abril passado: "Eu não queria desistir. Tinha a sensação de que não podia deixar os jogadores e a comissão [do Telstar] na mão".

No Telstar, mais dificuldades para Jonker (Rene Nijhuis/BSR Agency/Getty Images)

De fato, não deixou. Só que o Telstar piorou na temporada 2021/22 da segunda divisão: decaiu até a 19ª e penúltima posição (só não foi rebaixado porque a segunda divisão não tem rebaixamento). E aí, sim, em junho, Andries Jonker foi demitido. Estava livre. E viu, à distância, Mark Parsons ser demitido da seleção feminina. Houve novo debate sobre quem seria o(a) sucessor(a). Uns pensaram em Arjan Veurink, auxiliar de Sarina Wiegman na Inglaterra; outros sugeriram a promoção de Jessica Torny, treinadora da equipe sub-20; mais outros, até, falaram em Emma Hayes, comandante do Chelsea. Mas a longa experiência e a boa vontade com o futebol feminino fizeram de Jonker o escolhido da federação, em agosto de 2022. A volta às Leoas Laranjas, agora, seria definitiva.

Jonker chegou tentando mostrar seu acompanhamento do futebol feminino, na coletiva de apresentação: "Eu vi todos os jogos da seleção nos últimos anos. Todos. E quando não estava no lugar, como na Euro passada, eu vi pela televisão". Reconheceu a intenção ao aceitar o cargo: "Eu já conhecia muitas mulheres no futebol feminino: Manon Melis, Vera Pauw, Sarina Wiegman, Jessica Torny, Daphne Koster... corri um risco, mas além de ajudar no desenvolvimento da modalidade, me pareceu muito bacana a ideia de estar na Copa". Negou ser para a seleção feminina o mesmo que o amigo Louis van Gaal foi na sua volta à seleção masculina - isto é, um "bombeiro", um reorganizador: "Nós só nos vimos duas vezes desde minha chegada". Foi humilde, ao reconhecer o fracasso da intenção inicial da federação na substituição de Sarina Wiegman - em 2021, falava-se em "Sarina Plus", contratar alguém tão bom ou melhor do que a treinadora campeã europeia e vice-campeã mundial, mas Jonker assumiu, à revista Voetbal International: "Eu queria, mas realmente não consigo ser melhor do que ela. Ninguém a substituirá. Não tem 'Sarina Plus'. Ninguém, homem ou mulher, vai chegar perto. O que ela fez foi fenomenal". E finalmente, ele sabia: tinha uma partida decisiva - o jogo contra a Islândia, na última rodada das eliminatórias da Copa do Mundo feminina. Com a necessidade da vitória. E houve muito sofrimento. Mas o final foi feliz: no último chute a gol, veio o gol do 1 a 0. O gol da vaga direta na Copa.

A dramática vitória contra a Islândia, na última rodada das eliminatórias, levou a Holanda à Copa - e já fez Jonker criar boa relação com o grupo de jogadoras (Pieter Stam de Jonge/ANP/Getty Images)

O gol do salvo-conduto que tanto Andries Jonker comemorou, à Voetbal International: "Fiquei realmente impressionado com meu time. O espírito de luta, a vontade, e como elas mudaram para outro esquema tático nos quinze minutos finais. (...) Foi um jogo como tantos sob Sarina. Um jogo que deixou as pessoas felizes". Se Jonker comemorou, logo teve a retribuição das comandadas. Sempre que perguntadas pela imprensa, usaram uma palavra em comum para ele: "de baas" - em holandês, o chefe. E aprofundaram. Daniëlle van de Donk? Ao site NU Sport: "Andries é justamente o técnico de que precisávamos. O futebol não é simples, mas ele faz parecer que é". Jackie Groenen? À emissora NOS: "Éle é muito ordeiro, mas isso é bom". Fenna Kalma? À revista Helden: "Ele quer controle, e acho isso bacana. Como treinador, ele tem uma abordagem respeitada por todas. Ele sabe o que quer, não deixa mal entendidos".

Enfim, pelo menos aparentemente, Andries Jonker minorou as desconfianças sobre sua capacidade de treinar a seleção feminina. Agora, com os olhos na Copa das mulheres, tentará cumprir o que já falou: "Queremos ficar no top-10 da FIFA, e nos esforçarmos para participar de todos os torneios, e terminarmos entre os oito primeiros (...) Precisamos ser realistas, ainda mais vendo quantos países estão no mesmo estágio". Expectativas ajustadas - para a seleção, e para um nome menos conhecido no futebol feminino pelo mundo como é Andries Jonker.

(Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O benefício da dúvida

Frank de Boer chega para treinar a seleção masculina da Holanda sabendo que a desconfiança é enorme. Mas há alguma chance de dar certo (Alex Lifesey/Getty Images)

O próprio vídeo de boas vindas da federação holandesa a Frank de Boer, novo técnico da seleção masculina, brinca com a incorrigível tendência neerlandesa à corneta: várias pessoas - jornalistas, jogadores, torcedores - palpitando sobre este ou aquele nome, este ou aquele esquema tático... até Frank aparecer e dizer: "Prima, dan gaan we wat kijken" ("Beleza, então vamos ver"). De fato, como o vídeo lembrou, é "o país de 17 milhões de técnicos... e de Frank de Boer". E nenhum outro nome escolhido chegaria sob tanta pressão e desconfiança para treinar a Laranja quanto o ex-zagueiro de 50 anos e 112 partidas pela seleção, com três Euros e duas Copas no meio.

E essa desconfiança tingida de pessimismo é compreensível. Afinal de contas, Frank de Boer vai treinar a seleção holandesa com o filme de sua carreira carbonizado, por enquanto. Tudo graças aos péssimos quatro anos anteriores em sua carreira como técnico. Em 2016, Frank só durou 85 dias na Internazionale; em 2017, no Crystal Palace, somente dez semanas; e mesmo no Atlanta United, em que viveu uma ligeira reabilitação em 2019 ao comandar o time campeão da Open Cup, saiu em baixa, com a eliminação na primeira fase da MLS deste ano. O pior, para o ex-jogador, é que todos esses fracassos tiveram sua cota de responsabilidade. 

Embora a Inter estivesse num momento traumático, em troca no controle do clube e um grupo de jogadores sendo reformulado, De Boer chegou como o técnico errado na hora errada: pedia tempo e paciência, justamente duas coisas que faltavam no clube azul-e-negro de Milão. E ao invés de incentivar o grupo de jogadores, o técnico não só fracassou ao se adaptar com o que tinha em mãos, como foi até deselegante com muitos nomes que poderiam ter sido, no mínimo, respeitados (Gabigol talvez tenha algo a dizer sobre isso). No Crystal Palace, foi ainda pior: De Boer chegou e quis forçar ofensividade num time acostumado a ser defensivo para se proteger, na parte baixa da tabela do Campeonato Inglês. Não só deu errado, como ficou marcante o discurso de José Mourinho tripudiando do holandês: "Ele diz que eu sou um mau técnico por que só penso em vencer. Bem, jogando com ele, o pior técnico da história da Premier League - seis derrotas em seis jogos -, talvez aprendam como perder". E mesmo no Atlanta United, De Boer teve algum azar, com a lesão de Josef Martínez e a venda de Pity Martínez, mas também desapontou ao dar sequência ao trabalho de Gerardo "Tata" Martino.

Talvez todos esses fracassos tenham ocorrido por um único motivo: Frank de Boer quis implantar em outros clubes o "estilo Ajax" com o qual se dera tão bem em Amsterdã, conquistando o tetracampeonato holandês e comandando a volta do clube às luzes da ribalta no futebol da Holanda. Só que essa implantação ignorava um fato simples e inquestionável: cada clube tem sua história, seu contexto, e são coisas que não podem ser mudadas de uma hora para outra. Achar que o mundo inteiro é Amsterdã e que todos os torcedores aceitariam mudanças bruscas rumo a um estilo mais ofensivo era e foi, no mínimo, ingenuidade excessiva de Frank.

Frank de Boer volta a basear sua carreira na Holanda - e nela, foi o símbolo da volta do Ajax ao domínio, com o tetracampeonato holandês (Divulgação/ajax.nl)

E por incrível que pareça, é por isso que o ex-zagueiro merece o benefício da dúvida em sua volta para casa - não exatamente para Amsterdã, mas para um país onde, literalmente, falam o seu idioma. Pois foi na Holanda, entre os seus, que De Boer viveu seu único bom momento como técnico - embora os últimos tempos de seu trabalho no Ajax já tenham sido preocupantemente repetitivos. Todos lá já sabem o que esperar dele: posse de bola, muito espaço, troca de passes (ainda que no campo de defesa) etc. Além do mais, mesmo que tenha tido comportamento deselegante na Internazionale, Frank de Boer não é visto como um técnico "traíra", ou mesmo alguém que goste excessivamente de destaque. 

Foi justamente a vontade de deixar sua marca em tudo que impediu Louis van Gaal de retornar ao cargo, seis anos depois. Mesmo semiaposentado, Van Gaal sinalizou aqui e ali que pensaria no caso - mas os jogadores não simpatizaram muito com a ideia, e a federação viu poucas vantagens em contratar alguém que chegaria para mudar até o que não precisava ser mudado. Aliás, isso era o oposto do critério da federação holandesa: trazer alguém que mexesse o mínimo possível no que Ronald Koeman deixou encaminhado em seu trabalho, e que tivesse boa relação com todas as partes (imprensa, jogadores e dirigentes). 

Henk ten Cate era bem visto pelos jogadores, mas deixou má impressão na federação desde que espalhou aos quatro ventos seu convite para treinar a Laranja em 2017, após a demissão de Danny Blind - e de toda forma, Ten Cate há muito está fora dos grandes centros, fazendo a carreira em China e Emirados Árabes. Esse mesmo alheamento tirou as chances de Frank Rijkaard: sondado pela federação, já com a experiência de treinador da seleção entre 1998 e 2000, Rijkaard perdeu o ânimo por continuar como técnico - desde 2013 está parado, sem pressões, e assim prefere continuar. Erik ten Hag e Peter Bosz teriam respaldo de torcida e imprensa: são os dois melhores técnicos holandeses da atualidade. Mas têm contrato vigente com seus clubes (ambos até o meio de 2022), e dificilmente largariam trabalhos já bem desenvolvidos no meio. Pensar num técnico estrangeiro na seleção - estrangeiro MESMO, não um holandês nascido no Canadá como Dwight Lodeweges é? Não só isso ainda é tabu na Holanda (Países Baixos), como nenhum nome de fora do país empolgaria.

Ou seja, sobrou Frank de Boer. O único holandês à disposição. E assim, no esquema "não tem tu, vai tu mesmo", ele chega para treinar a seleção holandesa. Sob pessimismo justificado. No entanto, exatamente por voltar a um cenário que conhece mais, por estar num lugar em que se sinta mais à vontade, por chegar sem grandes expectativas, talvez Frank mereça o benefício da dúvida. Pode dar errado? Pode, e é o mais provável. Mas pode dar... certo.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Enfim, pragmatismo em alta

Enfim técnico da Holanda, Ronald Koeman terá a tarefa de mostrar que ainda existe caminho para a Laranja (VI Images)
“Schijtbakkenvoetbal”. Como várias palavras em holandês, este vocábulo parece mesmo é um bom palavrão – e até é, pelo sentido: ao pé da letra, significa “um futebol de merda”. Foi assim que o técnico do Twente, Gertjan Verbeek, protestou contra a atuação do PSV, após seu time ser vencido pelo líder do Campeonato Holandês, há duas rodadas. Na coletiva após o jogo, Verbeek foi claro até demais: “[A atuação do PSV] foi um futebol de merda, que não é assistido com curiosidade”. Assim ele descreveu o que foi uma atuação cautelosa, preocupada com a defesa, que só avançava nos contra-ataques, sendo eficiente nas finalizações. Pelo visto, os que pensam como Verbeek terão de suportar mais vezes tal estilo tático na Holanda. Pelo que os Boeren mostram na Eredivisie e, principalmente, pelo que se espera com Ronald Koeman como técnico da seleção holandesa.

Desde a saída do Everton, ficou mais ou menos claro para imprensa e torcida que o ex-zagueiro era o principal candidato a suceder Dick Advocaat no comando da Laranja. Até porque o novo diretor de futebol profissional da seleção holandesa, Eric Gudde, trabalhou com Koeman no Feyenoord. No começo do mês passado, durante o sorteio dos grupos na Liga das Nações, Gudde já prometera o anúncio do novo treinador para o início de fevereiro. Bastou: no fim de janeiro, jornais já diziam que a federação fizera a proposta a Koeman, e que a tendência era aceitar. Na semana passada, já se debatia a formação da comissão técnica. 

Finalmente, na terça desta semana, a confirmação do que até os muros da sede da federação, na cidade de Zeist, já sabiam: caberá a Koeman, cujo contrato durará até 2022, a tarefa de reconstruir a imagem altamente manchada da Oranje – na Liga das Nações, nas eliminatórias da Euro 2020 e na qualificação para a Copa do Mundo. Será difícil. Mas pelo menos, respeito a ele não falta. Primeiro, pelo que fez dentro de campo vestindo a camisa 4 laranja: 78 partidas entre 1983 e 1994, duas Euros e duas Copas no currículo - e em todas, titular absoluto da Oranje, além de capitanear a equipe no Mundial de 1994. Tudo isso, justificável pela liderança de Koeman, e pela capacidade técnica notória, tanto marcando como sendo o responsável por vários gols em bolas paradas. Em segundo, pelo respaldo adicional de ser o único nome da história do país com passagens como jogador e treinador pelo Trio de Ferro (Ajax, PSV e Feyenoord).

E a entrevista coletiva de apresentação deixou a promissora impressão de que Koeman é exatamente o tipo de treinador de que a seleção holandesa mais necessita no momento: alguém que se preocupe mais em formar um time de acordo com o que seus jogadores podem dar, e não em manter obsessivamente um ideal tático antiquado, como hoje é a “escola holandesa”. Algumas frases deixaram isso claro: “Está claro que não é por se ter bons jogadores que automaticamente se forma um bom time”. Ou: “Uma equipe precisa saber jogar em mais esquemas. Posso até jogar no 4-3-3 – aliás, ele é o esquema básico. Mas isso não significa que jogaremos assim contra a Inglaterra [no amistoso do próximo dia 23 de março, em Amsterdã, marcando sua estreia]”. 

A partir daí, Koeman teorizou sobre a atual geração de jogadores: “O que temos, na Holanda? Defensores razoáveis, e gente que joga pelas pontas. O que mais? Meio-campistas. E o que nos falta? Um atacante reconhecido e respeitado mundo afora, embora tenhamos atacantes velozes. Isso precisa ser levado em conta na hora de pensar sobre um esquema tático”. Embora as teorias também tenham levado em conta a questão da vontade de defender a Oranje (“Senti falta de ver alegria ao jogar pela seleção. Ela não pode ser um lugar só de passagem”), sem dúvida nenhuma o novo comandante da Oranje se preocupa mais em melhorar a equipe, coletivamente. Outra frase exemplificou isso: “Não temos os melhores jogadores, mas podemos ter a melhor equipe”.

Se não bastasse, o último trabalho respeitável de Koeman provou isso. Na temporada 2013/14, sua última no comando do Feyenoord, uma derrota para o Ajax – 2 a 1, na 26ª rodada, em 2 de março de 2014 – praticamente afastou o Stadionclub da disputa do título. Pressionado pela torcida, vendo uma equipe frágil defensivamente, o técnico tinha pela frente um jogo potencialmente difícil: o Groningen, fora de casa. A decisão: não pestanejou em mudar o time para o 5-3-2. Tal mudança não só deu certo (o Feyenoord venceu por 2 a 0, e terminou vice-campeão), mas serviu de exemplo para a alteração tática decisiva que Louis van Gaal fez na seleção holandesa rumo à Copa do Mundo – também fundamental para a boa campanha da Oranje no Brasil. Por sinal, 2014 foi justamente citado como o padrão a ser seguido, daqui por diante. Primeiro, por Eric Gudde; depois, pelo próprio Koeman: "Aquela campanha pode servir de exemplo pelo aspecto esportivo, com a chegada às semifinais e o terceiro lugar. Mas também pode se referir ao que se viu fora de campo: todos sabiam quem era o técnico, e a menor qualidade técnica foi compensada com uma ótima performance coletiva".

Por isso, Koeman terminou otimista, por saber que pode formar uma equipe forte com o que convocará: “Olhe o que temos: laterais ofensivos, ótimos defensores no miolo de zaga, bons meias e até bons atacantes – eu vi Quincy Promes jogar com liberdade no Spartak Moscou, pela Liga dos Campeões, e fazer uns gols no Sevilla. Você tem Memphis Depay, que ainda é promissor; tem Georginio Wijnaldum no Liverpool; tem Daley Blind no Manchester United; e não nos esqueçamos das promessas do Ajax, com Donny van de Beek e Frenkie de Jong. Há o bastante para nos mantermos bem”. 

E há o bastante para formar um time digno. Não para a Holanda disputar títulos, mas para fazer o que era habitual: bater ponto nas grandes competições. Foi o que escreveu o (excepcional) jornalista Pieter Zwart, na revista Voetbal International, ao defender que a Holanda precisa apostar mais no coletivo: “Seleções com uma fração do talento individual da holandesa já colheram os frutos da aposta na marcação por zona. Olhem para a Islândia, a Suécia, a Polônia. Na essência, o estilo de jogo delas é simples: deixar as outras seleções com a posse de bola, fazer duas linhas de quatro com dois atacantes na frente e deixar o campo tão pequeno quanto possível. Quando dá certo, quase todo time tem dificuldades para superá-las”.

Phillip Cocu mudou sua abordagem tática após vexames do começo da temporada. E o PSV está se dando bem (Pro Shots)
De certa forma, tal lição foi aprendida pelo PSV já no começo da temporada, para levá-lo ao status que ele ocupa hoje: líder do Campeonato Holandês, esbanjando eficiência e regularidade a ponto de bater um recorde (ao vencer o Excelsior por 1 a 0 na quarta passada, completou 22 vitórias seguidas em casa pela Eredivisie, superando as 21 entre 1986 e 1987). Não foi fácil, já que o técnico Phillip Cocu ainda continua sendo adepto do ataque antes de tudo. “Eu sempre penso ofensivamente”, foi o que Cocu comentou à imprensa durante a intertemporada do mês passado, nos Estados Unidos.

Porém, se houve algum valor na vexatória eliminação para o Osijek, da Croácia, na terceira fase preliminar da Liga Europa, foi fazer Cocu entender: o PSV não era um time tão superior assim para ser ofensivo (aliás, houve prova especial disso aos brasileiros, que viram os Boeren sofrendo na Florida Cup para empatar contra um Corinthians ainda iniciando 2018). A partir disso, a equipe passou por leves mudanças. No meio-campo, passaram a jogar dois homens com características de mais marcação (Jorrit Hendrix e Bart Ramselaar). A defesa passou a apostar na ligação direta, a partir dos tiros de meta de Jeroen Zoet, já que nenhum dos zagueiros – seja Nicolas Isimat-Mirin, seja Daniel Schwaab – tem talento suficiente para sair jogando. Finalmente, os contra-ataques passaram a ser a tônica, aproveitando mais a velocidade de Santiago Arias, pela direita, os avanços fulgurantes de Hirving Lozano, o crescimento de Steven Bergwijn, a confiabilidade que Marco van Ginkel oferece e, após a saída de Jürgen Locadia, a reação de Luuk de Jong.

Assim o PSV tem obtido vitórias de invejável eficiência. Já venceu duas vezes com gols no ultimíssimo lance dos acréscimos (1 a 0 contra o Zwolle, na 12ª rodada, e 2 a 1 contra o Heracles Almelo, na 19ª). Periodicamente, até coloca um zagueiro a mais, com Derrick Luckassen entrando para ajudar Isimat-Mirin e Schwaab a aguentar os contragolpes adversários – sem que a equipe pare de atacar. Foi o que aconteceu no falado jogo contra o Twente. Com quatro minutos de jogo, Lozano fez 1 a 0. No segundo tempo, o PSV só chutara duas vezes a gol quando Luckassen entrou. Depois de atuar no 5-3-2, o controle do jogo foi retomado – e os Boeren arriscaram cinco vezes contra a meta. Cada vez mais elogiado, o brasileiro Mauro Júnior entrou para acelerar os contra-ataques. Num deles, aos 44 minutos do segundo tempo, Arias fez o segundo gol.

Pode até parecer irritante. Mas é como disse o lateral esquerdo Joshua Brenet: “Se os outros acham o nosso estilo de jogo chato, problema deles”. Enquanto isso, o PSV segue tranquilo na liderança do campeonato holandês. Na Oranje, Ronald Koeman preconiza a saída da “camisa-de-força” do 4-3-3. Talvez mais gente reclamará do “schijtbakkenvoetbal”. Mas por incrível que pareça, um pouco dele não fará mal ao futebol holandês.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 9 de fevereiro de 2018)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Mais um sintoma da crise

Ronald Koeman começou bem e terminou mal no Everton: mais um técnico holandês em baixa (Tony Marshall/Getty Images)
A crise do futebol holandês vive um capítulo por semana. Bem, talvez ela seja mais visível nas semanas em que se disputam os torneios continentais – como nesta, com as derrotas de Feyenoord (Liga dos Campeões) e Vitesse (Liga Europa) praticamente definindo que o país não terá nenhum time nas fases eliminatórias dos dois certames, algo que não ocorria desde a temporada 1998/99. Mas há vários exemplos de como a Holanda está sem rumo, sem certeza nenhuma do que fazer dentro ou fora das quatro linhas. E um deles é o descrédito dos técnicos do país Europa afora.

Não era assim, e não faz muito tempo. Para citar dois nomes: ainda se considerava que Guus Hiddink e Dick Advocaat eram técnicos de ponta. Ambos sempre eram cogitados e contratados por clubes e seleções em busca de uma mentalidade, de um rumo. Basta mencionar os trabalhos de Hiddink na Austrália que fez honrosa campanha na Copa de 2006, e na Rússia de bons momentos na Euro 2008 (óbvio, dá para citar a Coreia do Sul semifinalista da Copa de 2002, arbitragens controversas à parte). E lembrar também que Advocaat treinava o bom time do Zenit, campeão da antiga Copa Uefa em 2007/08.

Nas décadas anteriores, então, falar em técnicos holandeses – ou de influência no futebol do país – era falar em profissionais um passo à frente em questões táticas. Nos anos 1970, havia o nome dos nomes: Rinus Michels (influenciado por dois ingleses que passaram pelo Ajax antes, Vic Buckingham e Jack Reynolds). Mas havia ainda o pouco mencionado Wiel Coerver, treinador no Feyenoord campeão da Copa Uefa 1973/74, criador do “método Coerver”. Havia o antecessor de Coerver no Feyenoord, Ernst Happel – austríaco, é verdade, mas marcante na história do clube, como condutor do técnico campeão europeu em 1969/70, e a “antítese” de Michels. 

A mesma coisa se repetiu nos anos 1990: se era gênio em campo, Johan Cruyff mostrou ser gênio no banco. E tinha sua nêmesis em Louis van Gaal. Sem contar os nomes periféricos: Leo Beenhakker, Aad de Mos, Clemens Westerhof, Jo(hannes) Bonfrère... E nos anos 2000, além dos citados Hiddink e Advocaat, é possível citar os bons momentos de Bert van Marwijk e Frank Rijkaard. Enfim, a Holanda era a meca da tática.

Frank de Boer vive encruzilhada cada vez maior na carreira (Alex Lifesey/Getty Images)
Deixou de ser assim. E três personagens provam a derrocada holandesa neste quesito. O primeiro, e mais conhecido, é Frank de Boer. Se os primeiros anos de trabalho do ex-zagueiro no Ajax faziam crer que surgira um técnico capaz de atualizar o ideário do Futebol Total em que a Holanda tanto acredita, a sequência revelou uma grande dificuldade de Frank em sair da camisa-de-força do 4-3-3 com pontas e troca de passes. 

Nos últimos tempos de Ajax, houve a queda para o PSV – expressa na inesquecivelmente dolorosa perda do título holandês de 2015/16, na última rodada. Veio a saída, Frank de Boer recebeu a aposta da Internazionale, e fracassou fragorosamente: certo, o caos administrativo em Appiano Gentile era geral, mas De Boer não colaborou com decisões atrapalhadas nos 85 dias à frente dos Nerazzurri. O irmão de Ronald passou o resto da temporada 2016/17 em pausa. Recebeu o voto de confiança do Crystal Palace e... foi ainda pior. Num time que briga para não cair no Campeonato Inglês, apostou no 4-3-3 e durou meros 77 dias. Caiu após quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, sem marcar gol algum. Pode até reagir na carreira, mas no momento, seu filme está completamente carbonizado.

Não chega a ser assim com Ronald Koeman. Afinal de coisas, o irmão mais novo de Erwin possui alguns bons trabalhos na carreira – na própria Holanda, com Ajax e Feyenoord, no Southampton, e até na primeira fase com o Everton. Porém, o ex-capitão da seleção holandesa mostra certa irregularidade, como exemplificam os esquecíveis trabalhos por Benfica, Valencia... e agora, na decepcionante continuação do trabalho com os Toffees: na zona de rebaixamento da Premier League, eliminado na Liga Europa, ninguém preferiu esperar para ver. Koeman foi demitido. 

Pelo menos, parece ter destino traçado, conforme reconheceu à revista Voetbal International: “Assumir a seleção seria a sequência ideal para minha carreira”. E o próprio ocupante atual do cargo, o supracitado Dick Advocaat, reconheceu: “Acho que Ronald seria uma boa escolha. Ele treinou e jogou em altíssimo nível, tem a idade ideal, e agora está livre”. Ou seja: pelo visto, após Advocaat terminar seu compromisso com a Oranje treinando-a nos amistosos contra Escócia e Romênia, o caminho ficará aberto para que Koeman, enfim, chegue ao cargo que, para muitos (o colunista aqui se inclui), deveria ter sido dele já após a Copa de 2014. Não melhoraria muito as coisas, mas pelo menos haveria mais proteção à defesa.

Peter Bosz: após a badalação, a pressão (Deutsche Presse Agentur)
Finalmente, há Peter Bosz. Que virou coqueluche na Europa ao comandar o Ajax que chegou à final da Liga Europa na temporada passada – e que ganhou chance de ouro no Borussia Dortmund, aproveitada pelos litígios crescentes com a diretoria do clube de Amsterdã. Bosz chegou, credenciado para manter o estilo ofensivo que o clube alemão ostenta. Está mantendo – até demais: com a defesa cada vez mais frágil, o time do Vale do Ruhr começa a fraquejar no Campeonato Alemão, e se vê às voltas com a crescente possibilidade de uma eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões. Hipóteses que aumentariam a pressão sobre Bosz, se concretizadas – e mais: com a atual fase do Ajax, também motivariam a pergunta de como os Godenzonen conseguiram o que conseguiram em 2016/17.

Dentro da Holanda, o cenário também não é animador. Se o Utrecht de Erik ten Hag prometia no começo da temporada, tem se mostrado frágil demais na defesa – a ponto de minorar as cogitações de que ele pudesse ser a novidade no comando da seleção. Phillip Cocu até remonta o PSV com sucesso, mas os vexames do começo de temporada e o tempo de trabalho em Eindhoven fazem crer que ele já esteve melhor na carreira, e que talvez seja mais lúcido correr mundo na carreira antes de assumir a seleção (desejo que Cocu já assumiu, para daqui a alguns anos). A mesma coisa será recomendável para Giovanni van Bronckhorst, que não consegue incutir no Feyenoord a garra vista na temporada passada – e nem acha soluções satisfatórias para remontar a defesa perturbada por lesões, como se vê nas derrotas inapeláveis pela Liga dos Campeões.

Enfim, não só a Holanda não sabe para onde ir, taticamente, como os seus principais nomes no banco de reservas também sinalizam uma decadência. Pior: a frequência de ex-jogadores talvez denote certa falta de preparação prévia, como reclamou Robert Maaskant (também técnico medíocre, a bem da verdade) ao jornal De Volkskrant, em agosto: “Quando comecei como técnico, pensava: ‘eu não tive grande carreira como jogador, então é melhor começar o quanto antes. Porque, quando todas as estrelas da seleção nos anos 1990 chegarem aos 40 anos, elas quererão ser treinadoras e conseguirão os melhores cargos’. Começou com Marco van Basten treinando a seleção, sem experiência. Desde então, você não constrói mais uma carreira no futebol holandês: ela simplesmente acontece para você”.

Ninguém sabe o que fazer. Que dirá a federação holandesa.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 3 de novembro de 2017)

terça-feira, 9 de maio de 2017

Como nossos antecessores


Advocaat: inegavelmente experiente, comandará a Oranje pela 3ª vez. Mas está atualizado? (Soccrates Images)

Fevereiro de 2014. A história é conhecida: Ronald Koeman, entgão treinando o Feyenoord, queria comandar a seleção holandesa. Inclusive, já anunciara que deixaria o Stadionclub ao fim daquela temporada  - o contrato iria terminar, e ele ficaria com o caminho aberto. Só que Guus Hiddink não deixou: em suas colunas no diário De Telegraaf, o treinador também disse querer comandar a Laranja. Diretor técnico da federação holandesa, Bert van Oostveen teve a ideia: após a Copa de 2014, Hiddink treinador e Koeman auxiliar (assim fora na Copa de 1998). Sentindo-se desprestigiado - afinal, já tinha uma carreira desenvolvida - e até magoado com a falta de consideração da federação, Koeman desistiu de qualquer vínculo. Então, ficou decidido e foi anunciado naquele fevereiro: Hiddink treinaria a Oranje após a Copa de 2014, com Danny Blind como auxiliar - e sucessor, após a Euro 2016. Deu no que deu: Holanda fora do torneio continental, e mergulhada na crise atual.

Três anos e três meses após a desastrada decisão, a federação holandesa deu sinal de que não aprendeu lição nenhuma. Nesta terça, o diretor técnico Hans van Breukelen e o diretor comercial Jean-Paul Decoussaux confirmaram o que a imprensa já indicava: Dick Advocaat estava contratado para sua terceira passagem como técnico da seleção holandesa, com Ruud Gullit de auxiliar, em contrato até o fim das eliminatórias europeias para a Copa de 2018 - ou para a própria fase final da Copa, se a Holanda chegar a ela. A explicação do ex-goleiro Van Breukelen deixou clara a falta de preocupação com qualquer coisa de longo prazo: "Havia dois cenários: escolher pelo longo prazo ou fazermos de tudo para alcançar a Copa. Ficamos com a segunda opção. Para ela, precisávamos de um sujeito muito experiente, com autoridade". Até por isso, Advocaat foi o escolhido, diante da recusa de nomes procurados, holandeses (Louis van Gaal, Frank de Boer, Huub Stevens) ou estrangeiros (o alemão Roger Schmidt).

Entretanto, o assunto mais falado na conferência de imprensa foi a verdadeira "novela" da escolha do sucessor de Danny Blind. Se Advocaat era o nome, por que Henk ten Cate, treinando o Al Jazira-EAU (já garantido no Mundial de Clubes, como campeão emiratense), esteve tão próximo de um acordo? Aí, foi hora de Van Breukelen negar: "Isso é o que Henk disse. Eu não disse nada sobre ele [Ten Cate] estar perto de ser o escolhido. Eu tinha duas opções". O diretor criticou Ten Cate, por ter revelado à imprensa holandesa a conversa de ambos: "Se eu tenho uma conversa com alguém, o teor dela deve ficar entre as duas pessoas. Acho até mal educado. Portanto, fico feliz dele não ter sido o escolhido".  E ainda disse algo pouco sabido antes: que Ten Cate só não foi escolhido porque o auxiliar imaginado para ele recusou a oferta: "Durante as conversas, Fred Rutten desistiu de ser o auxiliar". Mas por quê forçar uma dupla de técnico e auxiliar? Van Breukelen: "Eu penso em duplas".

Van Breukelen (à esquerda) e Decoussaux: novos erros na condução da escolha do técnico (ANP/Pro Shots)

Restou Advocaat. Que havia deixado a comissão técnica da própria seleção, há pouco menos de um ano, quando ainda auxiliava Danny Blind, para treinar o Fenerbahçe! Van Breukelen reconheceu que era estranho trazê-lo de volta, ainda mais por ter discordado frontalmente da saída de Advocaat. Mas engoliu em seco: "No momento, estamos numa situação em que os sentimentos devem ser postos de lado, para priorizarmos a qualidade. Passo por cima disso para ver o que é melhor para a seleção". O ex-goleiro também assumiu que a escolha do veterano foi recebida estranhamente entre o grupo de jogadores costumeiramente convocados: "Eles ficaram surpresos. Mas são profissionais como eu, e também passarão por cima disso".

Sendo assim, resta esperar por Advocaat - que ainda trabalha com o Fenerbahçe, nas semifinais da Copa da Holanda, e que deverá encerrar o trabalho na última rodada do Campeonato Turco, em 2 de junho, contra o Adanaspor. Até lá, Fred Grim segue o responsável pela Oranje - e pode até treiná-la no amistoso do dia 31 de maio (contra Marrocos, em Agadir). Depois, volta o "Pequeno General", técnico mais velho a comandar a Oranje (69 anos e quatro meses - completa 70 em 27 de setembro), segundo treineiro com mais partidas no banco da seleção nacional (55 jogos nas duas passagens, entre 1992 e 1994 e entre 2002 e 2004). Com a tarefa pesada de fazer um bom trabalho para apagar as más memórias de suas passagens turbulentas por seleções como Bélgica, Rússia e Sérvia - sem contar trabalhos esquecíveis por Sunderland e Fenerbahçe. 

Mas Advocaat não merece críticas, apenas desconfianças sobre sua desatualização. As críticas vão para a dupla de diretores. Que apesar de ter visto tudo o que viu, é quase a mesma. E age como seus antecessores.