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sábado, 3 de janeiro de 2026

A Holanda nas Copas masculinas: 2022 - Modo de segurança

Com uma verdadeira "montanha-russa" entre a Copa de 2014 e seu retorno em 2022, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) foi assumidamente burocrática no Catar. E avançou até onde lhe era possível (KNVB Media/Divulgação)

Quando saiu o resultado do sorteio dos grupos - e do consequente chaveamento - da Copa de 2022, na maioria das vezes, as apostas e os "bolões" indicavam que a seleção da Holanda (Países Baixos) avançaria até as quartas de final, e nelas seria eliminada pela Argentina. Pois foi exatamente o que aconteceu. O que não se sabia, então, é que a Laranja cumpriria esta campanha de modo tão burocrático, tão avessa a riscos. Também, pudera: poucas vezes a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) teve tantos altos e baixos até chegar a um Mundial. Talvez por causa desses desgastes, tenha jogado no Catar em "modo de segurança".

Chegar ao Mundial, aliás, não é bem o termo: é voltar às grandes competições, porque a Laranja estivera fora da Euro 2016 e da Copa de 2018 (nesta, o grupo das eliminatórias tinha França e Suécia), no que foi um fim gradual e traumático da geração de tanto sucesso em 2010 e 2014. Àquela altura, quatro técnicos já tinham passado pela equipe desde após a Copa de 2014: Guus Hiddink, Danny Blind, Fred Grim (este, interino em um jogo, após a demissão de Blind, em março de 2017) e Dick Advocaat. Mas era com Ronald Koeman, contratado no início de 2018, que se apostava num recomeço. E ele efetivamente aconteceu, ao longo daquele ano: a Laranja cresceu paulatinamente, ganhou de Portugal num amistoso - 3 a 0, em março -, e comprovou sua reação na primeira Liga das Nações: num grupo com Alemanha e França (esta, consagrada campeã do mundo no meio de 2018), a Laranja conseguiu passar para a semifinal, como líder de seu grupo. Melhor ainda: mostrava um líder nascendo em Virgil van Dijk, enfim embalando como zagueiro pela seleção, mostrava uma nova geração crescendo em Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong - ambos símbolos da marcante campanha do Ajax semifinalista da Liga dos Campeões, em 2018/19 -, mostrava Memphis Depay um pouco mais focado.

Ronald Koeman veio treinar a Holanda uma primeira vez, entre 2018 e 2020. Comandando uma geração que se firmou sob seu comando... (Getty Images)

... a Laranja superou as traumáticas ausências na Euro 2016 e na Copa de 2018, reagindo ao longo de 2018 e 2019. Só a pandemia e a saída de Koeman interromperam isso (Jan Kruger/Getty Images)

2019 simbolizou isso: a Holanda foi à final da Liga das Nações (perdeu para Portugal, mas isso não chegou a desanimar), passou com segurança pelas eliminatórias da Euro 2020 (com direito a vencer a Alemanha fora de casa), e terminou aquele ano com a autoconfiança totalmente recuperada. Talvez pudesse até ser considerada uma das favoritas ao título da Euro... se o começo de 2020 não trouxesse a pandemia de COVID-19 junto com ele, causando o adiamento do torneio continental de seleções por um ano. Pior para os Países Baixos: em agosto, Ronald Koeman recebeu uma proposta do Barcelona pela terceira vez. Decidiu fazer uso da cláusula em seu contrato com a KNVB (se fosse chamado pelo clube espanhol, onde tinha muita história, seria liberado para treiná-lo). E a Laranja ficou sem técnico, naquele turbulento 2020. Pior ainda: após dois jogos com o interino Dwight Lodeweges, decidiu-se contratar Frank de Boer, que já chegou contestado pelos maus trabalhos anteriores. Como se não bastasse, lesões graves vitimavam nomes importantes daquela reação. No fim de 2019, Memphis Depay rompera o ligamento cruzado anterior. Ficaria fora da Euro, ela foi adiada... mas aí, o machucado (com a mesma lesão, por sinal) foi Virgil van Dijk. E a primeira fase da Liga das Nações 2020/21 simbolizava o fim deste sonho: se fora finalista em 2018/19, a Laranja jogou sem brilho e perdeu o lugar nas semifinais para a Itália.

Exatamente durante esta queda de produção sob Frank de Boer é que começaram as eliminatórias para a Copa de 2022, em março de 2021. E o início só aumentou as desconfianças naquela fase da Laranja, no grupo G da qualificação europeia: fora de casa, contra a Turquia (adversária habitualmente árdua), uma derrota por 4 a 2. Nem mesmo as vitórias subsequentes contra Letônia (2 a 0) e Gibraltar (7 a 0) aumentavam a confiança num embalo. Foi assim que a Laranja chegou à Eurocopa, enfim disputada na metade daquele 2021. E os resultados na Euro... deram razão à altíssima desconfiança da torcida: mesmo após 100% de aproveitamento, num grupo considerado inferior (3 a 2 na Ucrânia, 2 a 0 na Áustria e 3 a 0 na Macedônia do Norte foram os adversários da Laranja), a queda já veio nas oitavas de final, com um 2 a 0 sofrido para a Tchéquia (República Tcheca). Frank de Boer foi demitido dois dias depois da eliminação. O sinal amarelo acendia para as eliminatórias da Copa em setembro de 2021, haveria sequência de partidas contra Noruega, Montenegro e Turquia, sendo noruegueses e turcos os adversários mais exigentes. Ou a Holanda convencia, ou correria sério risco de ficar fora da Copa pela segunda vez seguida. 

Após a passagem de Frank de Boer "corresponder" às más expectativas, incluindo decepção na Euro, Louis van Gaal aceitou voltar para tentar aprumar a Laranja nas eliminatórias para 2022. Conseguiu (Maurice van Steen/ANP/Getty Images)

Ronald Koeman ainda estava no Barcelona, mesmo contestado - só seria demitido em outubro. Os melhores técnicos holandeses da época, segundo a maioria, estavam empregados (Erik ten Hag, no Ajax; Peter Bosz, no Bayer Leverkusen - Arne Slot era visto ainda como promessa, no Feyenoord). As outras opções não empolgavam, nativos dos Países Baixos ou não. E a federação acabou "engolindo" o único nome que aceitou aquele desafio, num momento de encruzilhada: já praticamente aposentado, vivendo em sua casa de veraneio em Portugal, Louis van Gaal sucumbiu à tentação que sempre teve (fazer da Holanda campeã mundial), aceitando ir para a terceira passagem comandando a seleção masculina holandesa - o oitavo técnico da Holanda, interinos incluídos, em sete anos! Nos três jogos de setembro de 2021, teve êxito: em nove pontos disputados, a Holanda ganhou sete - 1 a 1 contra a Noruega, 4 a 0 em Montenegro e notáveis 6 a 1 na Turquia -, embalando nas eliminatórias. Mais duas vitórias em outubro, contra Letônia (1 a 0) e Gibraltar (6 a 0), colocaram a Laranja na rota da volta aos Mundiais. 

Contudo, na penúltima rodada, mais um susto: podendo garantir a vaga por antecipação contra Montenegro, fora de casa, a equipe neerlandesa fazia 2 a 0, mas tomou o empate nos dez minutos finais. Resultado: para ter certeza do lugar na Copa de 2022, a Laranja precisaria vencer a Noruega, em casa e sem torcida - com a pandemia ainda em vigor, havia restrições sanitárias quanto à presença de público em Roterdã. Se empatasse, provavelmente ainda se classificaria, pela grande vantagem no saldo de gols. Mas se perdesse para a Noruega - que estava sem Erling Haaland, machucado naqueles dias -, não restaria nem o direito à repescagem, em caso de vitória da Turquia sobre os montenegrinos (vitória que ocorreu, de fato). Talvez ali, em 16 de novembro de 2021, tenha se iniciado o "modo de segurança" com que a Holanda encarou a Copa de 2022. Porque ela passou boa parte dos 90 minutos apenas controlando o jogo, sem correr riscos na defesa, nem atacar loucamente. Mas quando atacou, foi eficiente: dois gols nos últimos dez minutos de jogo, 2 a 0 na Noruega em De Kuip, susto afastado, Holanda de volta a uma Copa do Mundo.


Só então, com a vaga confirmada, é que Van Gaal pôde colocar em prática seu plano pragmático para tentar fazer da Laranja uma campeã mundial. Àquela altura, no começo de 2022, já se sabia que o grupo de jogadores tinha uma defesa muito sólida - com destaque, claro, para Van Dijk, com Nathan Aké e a revelação Jurriën Timber crescendo -, um desafogo ofensivo na lateral direita (Denzel Dumfries), mas um meio-campo que dependia demais de Frenkie de Jong, e um ataque definitivamente inferior (somente Memphis Depay atraía alguma confiança, e mesmo assim, passando por maus momentos no Barcelona). Então, Van Gaal - num comportamento bem mais tranquilo do que em outros momentos da carreira - decidiu escalar a equipe com três zagueiros. Começou a testar isso nos amistosos de março de 2022, com sucesso: uma vitória contra a Dinamarca (4 a 2) e um empate contra a Alemanha (1 a 1). 

Mas seria ao longo da fase de grupos da Liga das Nações, quase toda em junho de 2022, que a seleção nacional neerlandesa se mostraria pronta para enfrentar o grupo A da Copa, no fim do ano, com o Catar como um frágil anfitrião, mas Senegal e Equador como candidatos a surpresas. Naquela Nations League, a Laranja estreou já pespegando 4 a 1 na Bélgica, fazendo talvez seu melhor jogo na terceira passagem de Van Gaal. De resto, mesmo sem brilhar, mostrava espírito de luta. Na segunda rodada, contra o País de Gales, fez 2 a 1 em Cardiff, com o gol da vitória nos acréscimos - e logo após tomar o empate; na terceira rodada, recebendo a Polônia em casa, tomou 2 a 0 mas buscou o empate em 2 a 2; na quarta rodada, novamente contra os galeses (agora em De Kuip), também fez o gol da vitória - 3 a 2 - nos acréscimos. Nas duas últimas rodadas do grupo da Liga das Nações, em outubro de 2022, foi momento de mostrar eficiência: 2 a 0 na Polônia fora de casa, 1 a 0 na Bélgica em Amsterdã, vaga nas semifinais da competição - em 2023. Invicta desde a chegada de Van Gaal, mostrando espírito de luta, eficiência, tendo alguns bons jogadores... sim, a Laranja estava capacitada para uma boa campanha no Catar, mesmo sem ser favorita ao título. Superava até problemas como a falta de um goleiro confiável: Justin Bijlow, Jasper Cillessen, Mark Flekken, Remko Pasveer... todos testados, nenhum aproveitou a chance. 


Convocação para o Catar feita, com o destaque Memphis Depay se recuperando de lesão muscular na coxa, sem goleiro titular definido, Van Gaal decidiu apostar no menos badalado, que só despontara naquele 2022. E Andries Noppert, do Heerenveen, teria sua estreia na seleção justamente na estreia na Copa, em 21 de novembro, contra Senegal. Muito se desconfiava de uma "zebra", e de fato a partida no estádio Al Thumama foi bem equilibrada. Talvez, até, um empate fosse o resultado mais adequado. Só que o goleiro senegalês Édouard Mendy falhou duas vezes, Cody Gakpo e Davy Klaassen aproveitaram, e a Laranja estreou com vitória: 2 a 0. Uma vitória burocrática, sem empolgar, até decepcionante para quem se impressionava com a sequência invicta da Laranja e esperava uma seleção ofensiva. 

Pior ainda foi o jogo seguinte, no estádio International Khalifa, em 25 de novembro: mesmo saindo na frente com gol rápido - Cody Gakpo marcou, já se credenciando ali como um dos destaques jovens da Copa, passando a ser nome importante para a Laranja ali -, o Equador reagiu, teve gol erradamente anulado (Jackson Porozo, supostamente impedido, teria atrapalhando Noppert - não atrapalhou), empatou afinal com Enner Valencia, mandou bola no travessão... e mesmo com o 1 a 1 no placar final, ficava a impressão de que a seleção sul-americana merecia ter vencido. A Holanda ficava do lado das decepções. E não melhoraria na terceira partida dos grupos, dia 29 de novembro, no estádio Al-Bayt: mesmo com o Catar já eliminado, a Oranje se contentou com um protocolar 2 a 0, sem se esforçar em golear. Só Gakpo era considerado destaque, como primeiro holandês a fazer três gols numa fase de grupos de Mundiais. De resto, pouquíssimos estavam contentes com o que se via do time neerlandês, mesmo que ele entregasse os resultados.

Numa fase de grupos altamente contestada da Laranja na Copa de 2022, Cody Gakpo foi o único a escapar de críticas (Cui Nan/China News Service/Getty Images)

Entre esses contentes, estava Louis van Gaal, para quem as atuações dos Países Baixos estavam dentro do esperado. A quem reclamasse, Van Gaal retrucava coisas como "O futebol evoluiu e se tornou muito mais difícil do que 20 anos atrás jogar tão ofensivamente quanto o Ajax costumava fazer". Pelo menos nas oitavas de final, o treinador respondeu bem aos críticos. Porque a Laranja foi exemplar em seu pragmatismo, em seu jogo reativo, contra os Estados Unidos, em 3 de dezembro de 2022, no International Khalifa: para uma seleção considerada decepcionante e até ameaçada de "zebra", a Laranja controlou a partida contra os norte-americanos. Teve Dumfries fazendo talvez sua melhor atuação vestindo laranja, com um gol e passes para outros dois. E bastava os EUA ameaçarem, para mais um gol aparecer. Com os 3 a 1 no placar, os Países Baixos já estavam nas quartas de final da Copa. Exatamente contra a Argentina. Exatamente o que previam as apostas antes do torneio. Era a hora de se superar.

Contudo, na maioria do tempo normal daquele jogo em 9 de dezembro de 2022, a Laranja não se superou. Jogando com três zagueiros, "espelhando" o esquema tático holandês (comenta-se que o técnico Lionel Scaloni decidiu isso após conversa com o compatriota Gustavo Alfaro, que treinara o Equador naquela Copa em que causou tantos problemas à Oranje), a Argentina controlava a partida. O time de Van Gaal mal conseguia espaço para chutar a gol. E a Albiceleste só precisava esperar algo de Lionel Messi. Algo que veio duas vezes. No primeiro tempo, com passe milimétrico para que Nahuel Molina invadisse a área e fizesse 1 a 0 para os argentinos; no segundo, convertendo pênalti (Dumfries agarrara Marcos Acuña) e fazendo 2 a 0. Parecia o ponto final de uma insípida campanha holandesa. 

Só que, se se jogava no "modo de segurança", aquela desvantagem foi o "reset": com Luuk de Jong e Wout Weghorst em campo, a Laranja apostaria nas bolas altas para tentar o empate. Numa delas, aos 38 minutos do segundo tempo, Weghorst cabeceou e diminuiu para 2 a 1. Mais alguns minutos, Leandro Paredes chutou de propósito uma das bolas em campo ao banco de reservas holandês, e o tempo ficou ainda mais quente, no jogo com mais cartões na história das Copas masculinas (17 amarelos, um vermelho). Mais os acréscimos... e numa falta perto da área, no penúltimo dos 11 (!) minutos de acréscimo, logo após pensar em bater direto, Teun Koopmeiners viu Weghorst ficando desmarcado na área, com Enzo Fernández se afastando. Ali decidiu rolar a bola para a área. Rolou, Luuk de Jong obstruiu um marcador argentino, Weghorst dominou e empatou: 2 a 2. Era quase inacreditável: num jogo em que merecia estar eliminada, a Laranja levava tudo para a prorrogação. Era a chance de renascer. Era um raro lance de brilho que a Holanda trouxe naquela Copa.

Por pelo menos 83 minutos, a Laranja pareceu sem chances nas quartas de final contra a Argentina. Aí entrou Wout Weghorst, e pelo menos um lance ficou na memória... (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Chance perdida. Porque a Argentina voltou a crescer nos 30 minutos de tempo extra. Porque o ataque holandês quase inexistia: com Luuk de Jong e Weghorst, mas sem mobilidade (apenas Noa Lang e Steven Berghuis tentavam algo). Nas cobranças da marca do pênalti que vieram, Emiliano "Dibu" Martínez começaria seu caminho para a eternidade, pegando o chute inicial de Van Dijk, mais o de Berghuis. Noppert, tão badalado na estreia, de Copa correta, não defendeu nenhuma cobrança - até o chute de Enzo Fernández foi para fora. E a Argentina afinal avançou (e seguiu seu rumo ao terceiro título mundial), com os 4 a 3 nos chutes.

Mesmo com seu "modo de segurança" dando certo, a Holanda (Países Baixos) precisava(m) de um diferencial para poder(em) sonhar com aquela Copa de 2022. Um diferencial inexistente. A Laranja fez apenas o normal, e seu destino foi exatamente o esperado nos bolões mundo afora: perder para a Argentina, nas quartas de final.

Os convocados da Holanda para a Copa de 2022

Goleiros
1-Remko Pasveer (Ajax) - não jogou
13-Justin Bijlow (Feyenoord) - não jogou
23-Andries Noppert (Heerenveen) - 5 jogos, 4 gols sofridos

Defensores
22-Denzel Dumfries (Internazionale-ITA) - 5 jogos, 1 gol
2-Jurriën Timber (Ajax) - 4 jogos
4-Virgil van Dijk (Liverpool-ING) - 5 jogos
5-Nathan Aké (Manchester City-ING) - 5 jogos
17-Daley Blind (Ajax) - 5 jogos, 1 gol
3-Matthijs de Ligt (Bayern de Munique-ALE) - 2 jogos
6-Stefan de Vrij (Feyenoord) - não jogou
16-Tyrell Malacia (Manchester United-ING) - não jogou
26-Jeremie Frimpong (Bayer Leverkusen-ALE) - não jogou

Meio-campistas
21-Frenkie de Jong (Barcelona-ESP) - 5 jogos, 1 gol
14-Davy Klaassen (Ajax) - 4 jogos, 1 gol
15-Marten de Roon (Atalanta-ITA) - 5 jogos
20-Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA) - 5 jogos
24-Kenneth Taylor (Ajax) - 1 jogo
25-Xavi Simons (PSV) - 1 jogo

Atacantes
8-Cody Gakpo (PSV) - 5 jogos, 3 gols
10-Memphis Depay (Barcelona-ESP) - 5 jogos, 1 gol
19-Wout Weghorst (Besiktas-TUR) - 4 jogos, 2 gols
7-Steven Bergwijn (Ajax) - 4 jogos
11-Steven Berghuis (Ajax) - 4 jogos
18-Vincent Janssen (Royal Antwerp-BEL) - 2 jogos
9-Luuk de Jong (PSV) - 1 jogo
12-Noa Lang (PSV) - 1 jogo

Técnico: Louis van Gaal

Campanha

Fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 2x0 Senegal
Holanda (Países Baixos) 1x1 Equador
Holanda (Países Baixos) 2x0 Catar

Oitavas de final
Holanda (Países Baixos) 3x1 Estados Unidos

Quartas de final
Holanda (Países Baixos) 2x2 Argentina - Argentina 4x3 nos chutes da marca do pênalti

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A Holanda na Copa de 2022: a análise sobre quem jogou

A Holanda poderia ter jogado melhor nesta Copa do Mundo. Mas com o grupo que teve, fez uma campanha digna, cumprindo as expectativas razoáveis para ela (KNVB Media/Divulgação)

Um dia, se a participação da Holanda (Países Baixos) nesta Copa do Mundo de 2022 merecer uma análise mais atenta, talvez ela tenha duas possíveis conclusões. A primeira é negativa: foi um Mundial em que a Laranja não brilhou, teve atuações apenas medianas - quando não ruins -, foi muito criticada em seu próprio país pelo estilo assumidamente pragmático que teve em campo, enfim, praticamente passou em branco no Catar. A segunda pode não ser exatamente positiva, mas má não é: bem ou mal, o time neerlandês terminou em quinto lugar - ou seja, o mais competente logo abaixo dos quatro semifinalistas -, causou dificuldades até inesperadas à Argentina nas quartas de final (ainda mais pelo modo como a partida transcorreu em boa parte dos seus noventa minutos), teve pelo menos um momento que será relativamente lembrado em sua campanha.

Talvez, o modo mais adequado de se lembrar a 11ª participação da Laranja numa Copa seja entrelaçando essas duas visões. Sim, esta participação será esquecível. Todavia, também não se esperava muita coisa da Holanda desta vez: ainda que ela tivesse uma sequência invicta e consistente em Liga das Nações e em amistosos, isso se baseava mais na qualidade coletiva do grupo do que em destaques individuais - até porque boa parte desses destaques estava na defesa, e não no ataque. Além do mais, já se sabia que Louis van Gaal pretendia adotar um estilo altamente pragmático, para tentar levar a Holanda o mais rápido possível. 

Se as expectativas eram baixas, então, não havia como exigir muito. Além do mais, praticamente todos os prognósticos, sérios ou brincalhões, ditavam que o ponto final da campanha alaranjada na Copa do Mundo seria onde foi: contra a Argentina, nas quartas de final. Houve jogadores que tiveram boas atuações - mais do que na participação neerlandesa na Euro, também esquecível. Há jovens que podem colaborar nos próximos anos, convocados para esta Copa ou não. Há a perspectiva de que o próximo "ciclo" terá a continuidade que tanto faltou à Laranja desde 2018: afinal de contas, Ronald Koeman já realizou o sonho que tinha de treinar o Barcelona (o trabalho foi contestado, mas ele treinou), agora diz que seu sonho é comandar a Holanda num grande torneio, e seu contrato vai até 2026 - ou seja, tudo leva a crer que Koeman trabalhará quatro anos.

Enfim, a Holanda pode até sair despercebida desta Copa. Jogou pouco para ser lembrada. Mas o clima da seleção passa longe de ser uma terra arrasada. E a análise dos 26 jogadores que começa agora indica exatamente a interação entre dois pontos de vista: ela foi eliminada, foi muito discreta na Copa, mas esteve longe de passar vergonha.

Noppert era considerado por muitos um convocado da Holanda que já deveria estar feliz só por estar na Copa. Ele foi além: com boas defesas, mostrou que merece convocações futuras (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

GOLEIROS

1-Remko Pasveer: não jogou

13-Justin Bijlow: não jogou

23-Andries Noppert (5 jogos, 4 gols sofridos): Antes da Copa começar, todas as especulações sobre quem seria o goleiro titular da Holanda (Países Baixos) recaíam sobre Remko Pasveer, pela experiência e pelos bons desempenhos na Liga das Nações, ou Justin Bijlow, por já ter sido testado durante a passagem de Van Gaal e pelo crescimento que viveu no Feyenoord durante a reta final pré-Copa. Vindo do Heerenveen, clube médio, vivendo uma história de conto de fadas (só virou titular de uma equipe, o Go Ahead Eagles, no começo deste 2022), Noppert parecia ser daqueles reservas que já poderia se dar por feliz só por ser um dos 26 convocados para o Mundial. Porém, Van Gaal já sinalizava aqui e ali em entrevistas: nos treinos e nos clubes, o camisa 23 era quem vivia melhor fase. O técnico recebeu o sinal verde de Frans Hoek, o treinador de goleiros de sua confiança. E dois dias antes da estreia contra Senegal, veio o anúncio surpreendente: Noppert estrearia na Laranja e na Copa. Como se daria? Pois se deu surpreendentemente bem: calmo, atento, fez duas defesas importantes contra os Leões de Teranga antes mesmo da Holanda marcar o 2 a 0. Mais do que isso: mostrou segurança quando necessário. Que o digam boas defesas contra o Equador (aqui teve até sorte, ao ver uma bola indefensável ir à trave - e sua única falha, uma reposição de bola ruim, ficar sem consequências) e contra os Estados Unidos (o que poderia ter sido o jogo das oitavas de final sem sua defesa logo aos 3'...). Talvez pudesse ter pego alguma cobrança contra a Argentina. Mas isso não diminui em nada a surpresa positiva que o goleiro foi para a Holanda na Copa. Noppert sai ganhando: ainda no Heerenveen, terá interessados em contratá-lo. E a continuar assim, merecerá continuar convocado, afastando a impressão já falada por ele de que esta Copa tenha sido um sonho de algumas noites de inverno no Catar. 

LATERAIS

22-Denzel Dumfries (5 jogos, 1 gol): o lateral direito começou a Copa em dificuldades. Contra Senegal, nem conseguiu ser a opção ofensiva tão costumeira à Laranja (seus avanços eram bloqueados habitualmente pela marcação), e nem foi tão protegido assim por Matthijs de Ligt. No jogo seguinte, contra o Equador, pior ainda: Dumfries passou sérias dificuldades tendo de marcar Pervis Estupiñán, muito mais veloz do que ele naquele empate em 1 a 1. Aos poucos, contudo, ele se assentou. Se continuou com alguns problemas na marcação, não sofreu tanto contra o Catar. E nas oitavas de final, contra os Estados Unidos, enfim foi o que todos esperavam: com pleno espaço para avançar na lateral direita, Dumfries foi o grande destaque daquela vitória por 3 a 1. Seus cruzamentos resultaram nos dois gols do primeiro tempo, ele mesmo fez o terceiro gol que resolveu o jogo para a Laranja, enfim, ele evocou as ótimas atuações que mostrara na Euro. Entretanto, suas atuações foram elogiadas quase simultaneamente à ressalva de que a seleção norte-americana havia sido ingênua demais na marcação. Bastou encarar uma Argentina que foi a campo nas quartas de final com cuidados, que as dificuldades do camisa 22 voltaram: afinal, não só Marcos Acuña o segurou sem muitos problemas, como atacou bastante - basta lembrar a jogada do pênalti, que rendeu o 2 a 0 argentino. Enfim, Dumfries mostrou que tem talento. Mas também mostrou as deficiências que separam o bom lateral que ele é de ser um dos melhores laterais direitos do futebol mundial.

26-Jeremie Frimpong: não jogou

17-Daley Blind (5 jogos, 1 gol): Vindo de má fase no Ajax (perdeu a posição no time titular para Owen Wijndal), Blind chegou à Copa sob fortes desconfianças. E elas seguiram durante a fase de grupos. Talvez até em excesso. Sim, o mais experiente jogador da atual seleção teve sérios problemas de marcação contra o Equador - como, de resto, toda a seleção os teve. Sim, aqui e ali seu principal defeito (a lentidão) causava problemas na defesa. Porém, contra Senegal, Blind foi mais seguro: os senegaleses raramente atacavam pela direita. Contra o Catar, partiu dele a jogada do primeiro gol da Holanda. E contra os Estados Unidos, o lateral esquerdo enfim teve uma atuação que evocou seus melhores momentos. Deu um susto, é verdade: ao demorar para sair da defesa, no começo do jogo, permitiu a condição legal de jogo a Christian Pulisic, que só não abriu o placar porque Andries Noppert fez grande defesa. Porém, logo se recompôs, teve mais espaço para avançar... e foi premiado. Primeiro, ao fazer o segundo gol (celebrado com os colegas de time... e com o pai Danny Blind, auxiliar de Van Gaal). Segundo, ao cruzar com precisão para Dumfries fazer o 3 a 1. Tal atuação melhorou um pouco a visão sobre o lateral. Que só contra a Argentina, nas quartas de final, tenha cometido um erro sério: ao demorar para fechar o espaço junto a Nathan Aké, permitiu que Lionel Messi tivesse a liberdade e passasse para Nahuel Molina fazer o 1 a 0 da Albiceleste. No segundo tempo, como já não conseguiria dar a velocidade de que a Holanda precisava, Blind saiu aos 65', dando lugar a Luuk de Jong. Era sua aparição final, numa Copa em que ele deixou impressões alternadas. Agora, precisará resolver os problemas na carreira - com espaço diminuído no Ajax, pode deixar o clube. E talvez, cada vez mais, ceda lugar a Tyrell Malacia. 

16-Tyrell Malacia: não jogou

Nathan Aké era o zagueiro menos falado da Holanda antes da Copa. Talvez tenha sido o melhor defensor neerlandês no Catar, mostrando segurança (Richard Sellers/Getty Images)

ZAGUEIROS

4-Virgil van Dijk (5 jogos): Mais do que ser o principal zagueiro, Van Dijk chegava ao primeiro torneio grande de seleções em sua carreira com a responsabilidade de liderar a Holanda (Países Baixos) na Copa. Ao longo dos cinco jogos - junto a Noppert e Dumfries, o capitão foi um dos únicos a jogar todos os minutos da Laranja na Copa -, a liderança acabou ficando mais notável do que a capacidade de Virgil na defesa. Já na estreia contra Senegal, ele deu alguns sustos: teve certa lentidão, e uma desatenção com Frenkie de Jong quase abriu o caminho do gol para o adversário. Contra o Equador, então, veio a grande crítica: houve quem achasse que Van Dijk pudesse ter bloqueado o chute que, rebatido por Noppert, rendeu o gol de empate a Enner Valencia. O que foi talvez a mais elogiada característica do zagueiro em sua grande fase, há três anos - a capacidade de cercar o adversário, sem fazer faltas - virava uma característica criticada: por mais que seu papel fosse organizar a defesa, por mais que ele cercasse o adversário, uma hora Van Dijk precisava tentar cortar a jogada, ainda que para isso fosse necessário se arriscar a cometer a falta ou mesmo a ser driblado. Isso rendeu muitas críticas, das quais as de Marco van Basten foram as mais amargas, tendo sido respondidas por ele. Dali por diante, pelo menos, Van Dijk se estabilizou. Passou o resto da Copa atuando com discrição, sem grandes problemas na zaga. De fato, liderou a Holanda em campo. E mesmo tendo perdido sua cobrança contra a Argentina, nas quartas de final, pelo menos ele comprovou sua ascendência, cumprindo o que prometera (se houvesse disputa de chutes da marca do pênalti, fazia questão de abrir a série). Talvez a Copa tenha sido muito útil para mostrar o que Van Dijk realmente é: um bom zagueiro. Não para entrar na lista dos melhores de todos os tempos, mas... um bom zagueiro. Já é alguma coisa. Sua importância na Laranja segue a mesma.

2-Jurriën Timber (4 jogos): O zagueiro vinha cotado como o favorito para formar a zaga com Van Dijk e Aké, jogando pela direita. Diante disso, o fato de ter passado a estreia inteira contra Senegal no banco de reservas poderia ter abatido as perspectivas do zagueiro na Copa. Nada disso: já contra o Equador, com a má atuação de De Ligt, Timber voltou à titularidade - até por estar mais acostumado a proteger a lateral direita com os avanços de Dumfries (já jogou na lateral, vez por outra, no Ajax). Mais um problema: a pressão constante de nomes como Pervis Estupiñán e Gonzalo Plata causou constantes dificuldades a Timber, que perdeu a bola na jogada do gol equatoriano. Timber superou. Evoluiu. Mostrou a força que se esperava dele nos jogos seguintes: foi firme na marcação, foi seguro diante dos adversários, ajudando até na saída de bola. Nunca mais perdeu a posição. E em que pese a eliminação, o zagueiro diminuiu ainda mais as desconfianças sobre si. Se voltar e continuar bem no Ajax, tem tudo para obter a transferência que já se avizinhava para ele - e para se firmar na defesa da Laranja.

5-Nathan Aké (5 jogos): Uns falavam de como Virgil van Dijk poderia ser dos melhores zagueiros da Copa do Mundo. Outros prestavam atenção em como Jurriën Timber era promissor. Poucos falavam em Aké. Mais do que isso: quando falavam, citavam que o zagueiro era superestimado, e sequer merecia jogar no Manchester City que defende. Pois bem: desde que a bola rolou na estreia contra Senegal, Aké mereceu justiça. Se a direita da defesa da Holanda (Países Baixos) sofreu, na esquerda ele atuou sempre com correção: protegendo os avanços de Daley Blind, sem ousadias desnecessárias, sempre atento aos ataques adversários. Isso se notou até mais fortemente na pior atuação holandesa na Copa, o 1 a 1 contra o Equador: a única falha de Aké foi justamente no gol equatoriano, ao não acompanhar Enner Valencia na pequena área. De resto, foi o único nome a mostrar mais segurança, numa seleção que bordejou perigosamente a derrota naquele 25 de novembro. E continuou assim, tanto nos 2 a 0 sobre o Catar quanto nos 3 a 1 sobre os Estados Unidos, já nas oitavas de final: se Van Gaal quebrou a cabeça para escalar o melhor no lado direito da defesa (só quando Timber se estabilizou é que o setor deixou de ser um problema), Aké virou inquestionável. Só saiu nos acréscimos contra os EUA, quando a vitória já estava praticamente assegurada. Nas quartas de final, errou no lance do gol argentino, verdade: sua hesitação entre marcar Lionel Messi ou recuar para a área também abriu espaço para Nahuel Molina entrar e fazer 1 a 0. De todo modo, Aké ajudou com sua versatilidade: quando foi necessário tornar a Holanda mais ofensiva - ainda que no improviso -, ele foi para a lateral esquerda, e suportou os 120 minutos. Mesmo com a eliminação, o defensor foi um dos que saíram por cima. Agora, sua titularidade não atrai nenhum ponto de interrogação.

3-Matthijs de Ligt (2 jogos): Ainda que Timber fosse previsto como o titular preferencial na defesa, De Ligt poderia ter na Copa uma chance de reabilitação definitiva na carreira. Tanto que na estreia, contra Senegal, diante do forte ataque (em qualidade e em força física) dos Leões de Teranga, ele foi o escolhido de Van Gaal como titular, para cobrir a lateral direita e permitir mais avanços de Denzel Dumfries. Deu errado. A atuação de De Ligt foi das mais criticadas da Holanda naquele 2 a 0, perdendo bolas para os senegaleses e tendo atuação insegura na direita - depois, ele mesmo assumiu que nunca jogara naquela posição, daquele jeito. Timber começou como titular contra o Equador, também teve seus problemas, mas evoluiu e terminou bem na Copa. De Ligt? Chegou a reconhecer que "já jogara mais do que esperava", ao site The Athletic. Só voltou a campo nos acréscimos da vitória contra os Estados Unidos. Enfim, numa palavra, decepcionou, mostrou falta de ambição. Se tinha a chance de recuperar a sua titularidade na Laranja, De Ligt deixa a Copa ainda mais fixo no banco de reservas. Ou joga no Bayern de Munique - e com continuidade -, ou não recupera a sua posição tão cedo. Para quem surgiu como surgiu no Ajax, só aumenta o temor de que seja uma decepção, um "foguete molhado".

6-Stefan de Vrij: não jogou

Frenkie de Jong oscilou, mas no geral, comprovou por quê é o melhor meio-campista da Holanda atualmente (Richard Sellers/Getty Images)

MEIO-CAMPISTAS 

21-Frenkie de Jong (5 jogos, 1 gol): A Holanda não tinha nesta Copa um armador, um criador de jogadas no meio-campo, como teve tantas outras vezes. Pois bem: pelo menos no começo da Copa, Frenkie de Jong impressionou positivamente nesse sentido. É certo que já era o principal meio-campista da Laranja, mas do modo como jogou na estreia contra Senegal, De Jong deu a entender que poderia ser dos melhores da posição na Copa. Marcou até mais do que é comum para seu estilo (que o diga o lance, digamos, pitoresco em que segurou Cheikhou Kouyaté); segurou a bola como possível; e finalmente, lançou a bola com precisão para que Cody Gakpo fizesse 1 a 0. A boa impressão diminuiu um pouco contra o Equador: esforço não lhe faltou, mas seu poder de marcação e sua intensidade foram pequenas, diante do domínio do adversário no setor. A partir dali, ficou claro: para render melhor, Frenkie precisaria ter mais liberdade, para poder avançar e até ajudar o ataque, sem perder sua característica de trazer qualidade à saída de bola. Foi o que se viu contra o Catar: De Jong foi um dos destaques no 2 a 0, não só pelo gol que marcou, mas também pela aparição maior no meio-campo. Nas oitavas e nas quartas de final, ele apareceu menos, é verdade: pela proteção maior das zagas adversárias, De Jong voltou a proteger mais a defesa holandesa, deixando a tarefa de ajudar o ataque com Davy Klaassen ou Cody Gakpo. E, de certa forma, deixa a Copa com sua imagem inalterada: não brilhou, mas segue dando a impressão de ser um destaque confiável para a Laranja nos próximos anos. Um daqueles nomes em torno dos quais se forma uma equipe.

14-Davy Klaassen (4 jogos, 1 gol): Diante de Steven Berghuis e Cody Gakpo, Klaassen chegou à Copa em papel secundário. Conseguiu reverter isso logo na estreia, contra Senegal: ao substituir justamente Berghuis, o meio-campista trouxe mais velocidade na criação de jogadas ofensivas. Não as criou, exatamente, mas ajudou a Holanda a sair mais para o ataque - e foi premiado com o segundo gol daqueles 2 a 0, ao chegar à área para aproveitar o rebote do chute de Memphis Depay. Bastou para Klaassen ganhar a vaga de titular contra o Equador. E ele acabou criando um "entrosamento" com Cody Gakpo: não ocorria sempre, mas tabelar com o atacante rendia chances à Laranja. Assim surgiu o gol holandês contra o Equador, e o gol que abriu o placar contra o Catar: Gakpo recebeu a bola, tabelou com Klaassen, e chutou da entrada da área. Em suma: o camisa 14 podia não ser tão hábil nessa função de "meio-campista que chega à área" como Georginio Wijnaldum é, mas ajudou. Só saiu do time para possibilitar o aproveitamento dos contra-ataques, após o intervalo, contra os Estados Unidos. E como Gakpo também poderia jogar como "meio-campista que pisava na área", Klaassen ficou no banco contra a Argentina. Tudo bem: sua contribuição na Copa foi digna de menção, mesmo sem ser excelente.

15-Marten de Roon (5 jogos): De Roon começou discretamente na Copa: entrou apenas nos acréscimos contra Senegal, substituindo Cody Gakpo, para aumentar o poder de marcação no meio-campo. Contra o Equador, sua importância já aumentou: substituindo Koopmeiners aos 79', ele foi outro nome que melhorou a contenção à intensidade que La Tri demonstrou em campo, impedindo que o placar ficasse pior do que o (já criticado) 1 a 1. E aí, sim, De Roon ganhou sua chance: por sua dedicação maior na proteção à defesa, ele se tornou o nome ideal para permitir que Frenkie de Jong avançasse mais ao ataque. Assim, ele foi titular no 2 a 0 contra o Catar. E virou o nome preferencial para tornar a Holanda mais combativa no meio-campo, até por ser o mais marcador dos convocados. Passou a ser até previsível: a Laranja começava com De Roon entre os titulares, e se fosse necessário ser mais ofensivo ou mesmo aproveitar os contra-ataques, ele era substituído por outro meio-campista. Foi assim contra Estados Unidos e Argentina: nas duas partidas, Teun Koopmeiners o substituiu para auxiliar os contragolpes (nas oitavas de final) ou para trazer mais perigo nas bolas paradas (nas quartas de final). De todo modo, mesmo sem aparecer, De Roon teve sua utilidade na campanha. Como quase sempre teve. E sobrou tempo até para as clássicas piadas em seu perfil no Twitter...

20-Teun Koopmeiners (5 jogos): Antes da Copa, Koopmeiners bradava: queria virar titular durante o torneio, e se conseguisse, não sairia mais. Deu a impressão de que conseguiria isso, nos primeiros jogos. Assim como Klaassen, entrou bem contra Senegal, ajudando a Holanda a sair dos apuros por que passava para conseguir a vitória. Também foi premiado com a titularidade desde o começo, contra o Equador. Mas decepcionou: mesmo tendo sua capacidade defensiva, Koopmeiners não foi páreo para a dupla Jhegson Méndez-Moisés Caicedo, perdendo boa parte das disputas pela bola. Resultado: voltou ao banco de reservas. Fim de linha para ele na Copa? Nem pensar. Contra o Catar, o meio-campista entrou no final (só aos 83'). Mas contra os Estados Unidos, com a Holanda já tendo 2 a 0 na frente no intervalo, Koopmeiners entrou no lugar de Klaassen, para ajudar nos contra-ataques, aproveitando os espaços que viriam. Nem apareceu tanto assim. Mas já protegeu um pouco a defesa, como era a intenção. E contra a Argentina... Koopmeiners vinha fracassando ao tentar fortalecer a criação no meio-campo, substituindo De Roon. Mas na reta final, começou a crescer. Nas faltas - seu ponto forte -, começou a ajudar a seleção. E coube a ele ter a calma, aos 90' + 11, para iniciar a jogada ensaiada que levou ao gol de empate de Weghorst. De quebra, até mesmo converteu sua cobrança na decisão por pênaltis. Enfim, Koopmeiners teve altos e baixos na Copa. Mas terminou em alta. Quem sabe, daqui a algum tempo, não venha a titularidade que ele tanto espera na seleção...

24-Kenneth Taylor (1 jogo): O meio-campista teve seus únicos minutos na Copa do Mundo numa das situações mais tranquilas para que isso pudesse acontecer - contra o Catar, na fase de grupos, substituindo Frenkie de Jong para os quatro minutos finais (mais acréscimos). Portanto, o meio-campista sequer pode ser julgado pelo que jogou. O que se pode dizer é que, se continuar tendo ritmo de jogo no Ajax em que está, Taylor tem condições de se manter no radar das convocações que Ronald Koeman fará. É um talento, que pode até ter a experiência final de base na Euro sub-21 do ano que vem. Mas a boa impressão poderia ter sido fortalecida por mais minutos na Copa.

25-Xavi Simons (1 jogo): Se jogou pouco como Taylor, quase nada, Xavi Simons deixou um gosto de "quero mais". Era quase unânime: nos treinos - principalmente nos coletivos após cada jogo, envolvendo os reservas -, poucos jogadores mostravam tanta técnica e tanta habilidade quanto o meio-campista. A imprensa chegou a garantir que ele seria titular contra o Catar, ainda na fase de grupos. Louis van Gaal desmentiu duramente, Xavi ficou na reserva... mas ficou subentendido que ele ainda teria sua chance na Copa. Pois teve, em momento até mais sério: nas oitavas de final, contra os Estados Unidos, no que foi a estreia do jovem pela Laranja. Pelo menos, quando ele substituiu Memphis Depay, a equipe holandesa acabara de fazer o gol que "matava" o jogo. E nos sete minutos (mais acréscimos) em que esteve em campo, Xavi Simons até criou alguma coisa no ataque, em parceria com Cody Gakpo e Steven Bergwijn. Quem sabe, pudesse ter entrado na prorrogação, contra a Argentina, para possibilitar à Holanda manter mais a posse de bola. Não aconteceu. Ainda assim, a impressão sobre o jovem segue inalterada em relação ao pré-Copa: trata-se de um jogador promissor e talentoso. Se continuar assim, Simons continuará nas convocações. Com muito mais tempo de jogo.

Revelação? Que nada: como melhor jogador da Holanda na Copa, Gakpo indicou que já é realidade (Manan Vatsyayana/AFP/Getty Images)

ATACANTES

10-Memphis Depay (5 jogos, 1 gol): Por ele, teria sido diferente: aqui e ali, Memphis Depay enfatizava que já se sentia bem, e que gostaria de ser titular. Mas a lesão muscular que sofreu em setembro (contra a Polônia, pela Liga das Nações), e da qual passou o resto do ano se recuperando, o colocou como peça-chave de um planejamento da comissão técnica. Na fase de grupos da Copa, Memphis se recuperaria e entraria paulatinamente, para voltar a ser titular de vez a partir das oitavas de final. Nos minutos em campo, caberia a ele tentar mostrar sua importância habitual no ataque. E aí o camisa 10 foi irregular. Na estreia contra Senegal, foram 28 minutos (mais acréscimos): se não marcou gol, pelo menos ajudou a Laranja a manter mais a posse de bola no campo de ataque, um dos fatores que levaram ao 2 a 0 na reta final de jogo. Contra o Equador, com a Holanda precisando mais dele, Memphis veio a campo no intervalo para o segundo tempo - e foi mal: totalmente envolvido na marcação equatoriana, sem muito ritmo de jogo, apareceu pouquíssimo. O Catar trazia pouca exigência técnica, e enfim o atacante pôde começar uma partida, na qual sua atuação foi alternada: apareceu, participou das jogadas de ataque, foi decisivo no lance do segundo gol, mas não chegou a ser o destaque ofensivo neerlandês. A partir das oitavas de final, com todo jogo podendo ser decisivo, Memphis Depay passaria a ser escalado como normalmente é. E os resultados foram alternados. Contra os Estados Unidos, ótimo resultado: um Memphis mostrando sua recuperação - veloz, atento, autor do primeiro gol, protagonista de um sem-número de chances. Já nas quartas de final contra a Argentina, o camisa 10 decepcionou: sequer criou possibilidades de gol, foi preso na marcação alviceleste, saiu substituído já aos 66', para Wout Weghorst concretizar a estratégia holandesa em busca do empate. Enfim, a lesão prejudicou o principal nome de ataque da Holanda, é verdade. Mas Memphis Depay também não se ajudou muito.

7-Steven Bergwijn (4 jogos): Sobrou paciência com ele. Bergwijn começou titular na estreia contra Senegal, e só foi substituído aos 79'. Contra o Equador, ele também iniciou jogando como titular, mas já saiu no intervalo. No entanto, nessas duas partidas, Bergwijn mostrou os mesmos problemas: lentidão, falta de chances criadas, falta de intensidade para atacar a defesa adversária. Diante das atuações que Cody Gakpo vinha tendo e de um Memphis Depay que entraria aos poucos, sobrou para ele, que se tornou reserva no decorrer da Copa. Ficou no banco contra o Catar, e justiça seja feita, viveu seu único bom momento na competição durante as oitavas de final contra os Estados Unidos: substituindo Klaassen no intervalo, ele cumpriu a intenção - ajudou Cody Gakpo e Memphis Depay com triangulações que mantiveram a bola no campo de ataque e criaram várias chances para a Holanda resolver a partida bem antes do que resolveu. Servia para aumentar as expectativas contra a Argentina, quando ele voltaria a fazer a dupla com Memphis, que lhe prefere como parceiro de ataque. Contudo, novamente fracassou: Bergwijn só apareceu num chute sem rumo para fora, no primeiro tempo, ao ser substituído por Steven Berghuis no intervalo, e ao levar cartão amarelo aos 90', já no banco de reservas, por se envolver na briga após o argentino Leandro Paredes chutar a bola contra os suplentes da Laranja. A participação decepcionante rendeu uma lição, quem sabe: em Copas, ou se é intenso em campo desde o primeiro minuto, ou ir para a reserva é inevitável. Bergwijn desperdiçou suas chances.

11-Steven Berghuis (4 jogos): Se seu "quase-xará" Steven Bergwijn foi mal na Copa, Berghuis pelo menos teve alguns bons momentos. É certo que também começou mal: escalado para criar as jogadas de ataque no meio-campo contra Senegal, o camisa 11 fracassou nisso na estreia. Somente com as entradas de Davy Klaassen e Teun Koopmeiners é que o meio-campo da Holanda passou a ajudar mais o ataque. Pelo menos, nos jogos seguintes da fase de grupos, Berghuis ajudou mais. Contra o Equador, ele veio do banco no lugar de Klaassen, aos 79' - se não mudou muito a pálida situação do ataque da Holanda, pelo menos ajudou no que podia, no meio-campo. Já contra o Catar, sua entrada foi mais efetiva: de fato, o camisa 11 ajudou o ataque, marcou um gol só invalidado por falta na origem do lance, e quase marcou outro num chute colocado que mandou a bola à trave. Passadas as oitavas de final, cuja vitória viu do banco, Berghuis voltou a entrar no segundo tempo contra a Argentina. E foi dos nomes mais úteis a ajudar a reação holandesa: partiu dele o cruzamento para o primeiro gol de Wout Weghorst, ele mesmo teve sua chance (chute forte na rede pelo lado de fora), ele foi um dos raros nomes a ter técnica com a bola nos pés para tentar alguma jogada durante a prorrogação. Está certo que seu lance final foi ruim: uma das cobranças perdidas da Holanda na série de chutes da marca do pênalti saiu dos pés dele. Ainda assim, Berghuis saiu deixando impressão um pouco melhor em campo, consertando a má impressão que deixara na primeira partida.

8-Cody Gakpo (5 jogos, 3 gols): Desde antes da Copa do Mundo começar, estava claro que Cody Gakpo era o maior candidato a revelação da Holanda - tanto para ela mesma, quanto para a Copa em si. O que não se sabia é que ele aproveitaria isso de maneira tão afirmativa, mudando sua imagem dentro da seleção em meio ao torneio - para muito melhor. Na estreia contra Senegal, mesmo antes de marcar o gol com que abriu o placar, era dos raros atacantes a tentar superar a sólida marcação adversária com jogadas individuais, se valendo de sua técnica. A boa impressão que deixou só melhorou contra o Equador: nos cinco minutos iniciais, ele abriu o placar de novo, mostrando a precisão na finalização que os torcedores do PSV conhecem tão bem - e sendo um dos raros nomes a sair ilesos da má atuação da Laranja naquele 1 a 1. E quando ele repetiu a dose contra o Catar - tabela com Davy Klaassen, chute colocado da entrada da área, gol para abrir o placar -, já não era mais segredo: de candidato a revelação, Gakpo se tornava o principal destaque da Holanda na Copa. Memphis Depay podia até dizer que preferia Steven Bergwijn como seu parceiro de ataque, mas não era nem caso do "campo falar", era caso de "gritar", mesmo: Gakpo era titular absoluto da Holanda, um dos atacantes preferenciais da dupla. De quebra, até mostrando o nascimento de algum entrosamento com Depay e Klaassen. Se fosse necessário mudar algo, Gakpo mudaria de posição: contra a Argentina, voltou a ser ponta-de-lança, enquanto Memphis e Bergwijn fizeram a dupla de ataque. Talvez não por acaso, foi sua pior atuação na campanha holandesa. Mas nem isso amenizou o destaque positivo que Gakpo foi para a Holanda nesta Copa do Mundo. De volta ao PSV, o clube de Eindhoven já sabe e já apregoa: venda-o em janeiro ou ao final da temporada, quer ter a maior venda de sua história com o dinheiro que obter graças à sua promessa. Promessa? Nada disso: pelo que mostrou na Copa, Gakpo já é realidade.

19-Wout Weghorst (4 jogos, 2 gols): Pensando retrospectivamente, talvez ter levado três atacantes de área tenha possibilitado uma espécie de disputa "involuntária" na seleção da Holanda. Quem ajudasse mais - e nem precisava fazer gol -, seria mais útil e mais utilizado por Van Gaal no decorrer da campanha da Laranja. Aos poucos, Weghorst foi ganhando essa "disputa". No difícil jogo contra o Equador, quando a derrota rondava perigosamente os neerlandeses, sua entrada aos 80', no lugar de Gakpo, trouxe uma força física que minorou o ímpeto de La Tri nas disputas pela bola. Conseguindo segurar mais a pelota do que Vincent Janssen fazia, o atacante da camisa 19 repetiu a dose contra Catar (entrou aos 86') e Estados Unidos (veio a campo já nos acréscimos): ajudava a Holanda a manter a posse de bola, evitando a pressão adversária, mesmo sem brilhar nem criar chances de gol. Mas ele "ganhou" mesmo a disputa de "utilidade" dos atacantes com o que fez ao entrar contra a Argentina, aos 78'. Nem tanto pelo gol de honra, de cabeça: era seu terceiro gol pela Laranja, num grande torneio, mas não mudava muita coisa. Mas sim pela jogada ensaiada pensada por ele, dos tempos de Wolfsburg, e finalizada também por ele para transformar o jogo das quartas de final num dos mais eletrizantes da Copa. No fim, não adiantou para a classificação - ainda que ele tenha batido, e convertido, uma das cobranças holandesas. Mas valeu para transformar Weghorst no "atacante de referência" que deve ser o preferencial, no caso das próximas convocações.

9-Luuk de Jong (1 jogo): Na convocação da Holanda, a preferência por três atacantes "de referência" chamou a atenção. Cabia imaginar que Luuk de Jong talvez tivesse importância; pela experiência, pela capacidade no jogo aéreo, até pelo poder de decisão que tem. Quando a Copa começou, contudo, Luuk caiu de ordem na preferência de substituição. Para segurar a bola perto da área e se esforçar mais, Vincent Janssen foi escolhido por Van Gaal; para a finalização (de preferência, de cabeça), Wout Weghorst acabou sendo mais usado. E Luuk de Jong só jogou a partir dos 64' contra a Argentina, nas quartas de final. Sem despontar tanto quanto Weghorst, que acabou roubando a cena no jogo da eliminação. Após ter participado de vários dos anos de baixa da Laranja, ficou até chato ver o veterano atacante ser relegado a um papel coadjuvante. Faz parte da vida - e da Copa.

18-Vincent Janssen (2 jogos): Desde o anúncio dos 26 jogadores da Holanda na Copa, Vincent Janssen continuou sendo visto como o "patinho feio": aquele atacante que não conseguia nem ser um finalizador notável, nem conseguia ser um pivô que efetivamente segurasse a bola no campo de ataque. Diante dessa visão negativa, até surpreendeu que Janssen fosse um dos nomes titulares na estreia, contra Senegal. Sem conseguir reverter as expectativas: de fato, o camisa 18 sequer conseguiu finalizar contra o gol dos Leões de Teranga, e nem conseguiu ajudar tanto nas jogadas de ataque, como Cody Gakpo fez desde então. Se serviu de consolo, quando entrou no segundo tempo contra os Estados Unidos - aos 66', no lugar de Memphis Depay -, Janssen participou um pouco mais das jogadas. Até mesmo colaborou para o que seria um gol de Steven Berghuis, anulado por falta de Gakpo na origem da jogada. No entanto, o atacante realmente ficou longe de fazer seus contestadores engolirem as opiniões contrárias à sua convocação

12-Noa Lang (1 jogo): Houve, aqui e ali, quem pedisse Noa Lang jogando mais na Copa do Mundo, para tornar a Holanda mais ofensiva, até por ser um dos raros jogadores convocados que tinha na ponta (a esquerda, no caso) sua posição principal. Nada ocorreu. Ou quase nada: Lang ainda veio a campo para os últimos sete minutos do segundo tempo da prorrogação contra a Argentina. Ainda assim, mal teve a bola nos pés para conseguir fazer qualquer jogada, num momento em que a Albiceleste já voltara a dominar a partida. E Noa Lang foi mais um jovem que teve pouco tempo para mostrar o que pode na Copa. E que dependerá da fase que vive no clube em que joga (no caso, o Club Brugge) para se manter nas convocações sob Ronald Koeman.

Louis van Gaal (técnico): No último trabalho de sua carreira - ou talvez não, já que não se negou a ouvir alguma proposta, desde que lhe fosse vantajosa profissionalmente -, Van Gaal confirmou para os olhos do mundo o que já se sabia nos Países Baixos: era um profissional muito mais ameno, e até amistoso, do que se viu nos tempos mais conhecidos de sua carreira. Em suma: fora de campo, com declarações engraçadas e atitudes bem humoradas, ele se mostrou um dos melhores personagens da Copa. Dentro de campo, as impressões foram alternadas. Já se sabia que o técnico apostaria firmemente no pragmatismo, como já fizera na Copa de 2014, para tentar levar a Holanda o mais longe possível. Mas o pragmatismo foi demasiado: sob seu comando, a Laranja da Copa de 2022 foi considerada eficiente até demais, morosa, até mesmo chata. Nada que perturbasse Van Gaal: as críticas do empate contra o Equador, por exemplo, foram levadas por ele com tranquilidade, na linha do "faz parte", como se ele tivesse certeza do caminho que seguia. Algumas vezes, de fato, ele teve a comprovação disso: contra os Estados Unidos, nas oitavas de final, de fato, a Holanda mostrou segurança para ninguém botar defeito. Ainda assim, contra a Argentina, a seleção que ele comandou deixou a desejar. Novamente, teve altas dificuldades diante de um adversário que também jogou com três zagueiros - e a marcou com facilidade. Além do mais, algumas alfinetadas dele diante dos argentinos tornaram a seleção sul-americana mais focada nas quartas de final - foco que, talvez, tenha ajudado mais na classificação dela. Finalmente, para um trabalho tão preocupado com treinos e simulações de decisão por pênaltis, a Holanda deixou demais a desejar na hora da verdade. Bem ou mal, porém, a Holanda cumpriu as expectativas: não exatamente candidata a título, não exatamente jogando bem, mas dona de uma boa campanha. Com Van Gaal, invicto em Copas, invicto em sua terceira passagem pela seleção, como um dos principais responsáveis por isso. Se a Holanda jogou mal sob ele, talvez isso tenha ocorrido porque não houvesse como ela ser melhor, com os jogadores que tem.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Até resistiu bastante

O choro holandês pela eliminação na Copa do Mundo poderia ter vindo após atuação apática. Teve o consolo na eletrizante reação que melhorou um pouco a impressão deixada (KNVB Media/Divulgação)

A história da eliminação da Holanda (Países Baixos) na Copa do Mundo de 2022 tem dois pontos de vista possíveis. Um, talvez, seja até o mais adequado: a Argentina passou porque jogou melhor ao longo dos 120 minutos, teve mais técnica, mais presença no ataque, mais domínio, mais competência, diante de uma Laranja que foi inofensiva durante a maior parte do jogo no estádio Lusail. Mas o outro tem a emoção que faz tão bem (e é tão necessária) ao futebol. Afinal de contas, os neerlandeses transformaram uma partida definida nos sete minutos finais, mais acréscimos. Ainda que no desespero, conseguiram levar a Albiceleste às últimas instâncias antes de vê-la classificada às semifinais. Se serve de consolo, até que a Holanda resistiu bastante antes da queda na Copa - até previsível.

No primeiro tempo, a partida teve o aspecto de "jogo de xadrez" que muita gente esperava para ela. De um lado, a Holanda que voltava a ter dificuldades: sem espaço nenhum para atacar, com seus atacantes (Memphis Depay e Steven Bergwijn - este, voltando a ser titular) rendidos à defesa argentina com três zagueiros, com os laterais fundamentais contra os Estados Unidos voltando a encontrar uma marcação que os bloqueava. Por mais que Cody Gakpo se esforçasse, chance de verdade, nos primeiros 45 minutos, a Holanda só teve no chute de Bergwijn para fora, aos 24', após tabela rápida com Memphis.

Se a decisão de jogar com o mesmo esquema da Holanda dava certo - três zagueiros, tendo Rodrigo de Paul superando as dores musculares para entrar como titular -, a Argentina também não tinha muito espaço. Era melhor do que a adversária, tinha mais a bola, tinha jogadas pelas laterais, tinha Enzo Fernández aparecendo bem... e tinha Lionel Messi, também buscando jogo. Só que o espaço não aparecia, já que a Holanda também se defendia bem. Ainda assim, bastou um erro, aos 32'. Com Messi tendo a bola, Blind foi lento para acompanhar a jogada, Nathan Aké teve dúvidas sobre quem marcaria... e apareceu o espaço que o camisa 10 argentino precisava. Ele passou, Nahuel Molina recebeu e bateu: 1 a 0. A Argentina conseguia uma vantagem importantíssima. E a presença de Messi ficava ainda mais preponderante - algo expresso em tentativas como o chute a gol, aos 40'.

A sensação de controle argentino no jogo ficou até maior no segundo tempo. Van Gaal alterou a Holanda já no intervalo, aumentando a força física no meio-campo com a entrada de Teun Koopmeiners e tentando trazer mais velocidade ao ataque, com a vinda de Steven Berghuis (no lugar de Bergwijn, em outra má partida na Copa). Nada. Ao contrário: a Argentina ficou até mais perigosa no ataque - De Paul quase fez aos 59', e Messi mandou cobrança de falta quase perfeita na rede por cima do gol, aos 63'. Veio uma mudança tática: Blind saiu, Luuk de Jong entrou, e voltava o 4-3-3 velho de guerra. Nada. Pior: Dumfries cometeu pênalti, derrubando Acuña para evitar drible. Messi cobrou com perfeição: o goleiro Andries Noppert mal teve como se mexer para evitar o 2 a 0. Parecia o fim.

Aí entrou Wout Weghorst.

Inicialmente, só para ser mais um a tentar aproveitar as bolas aéreas que a Holanda usaria cada vez mais em busca de algo. Conseguiu, aos 83': fez o primeiro da Laranja, num cruzamento de Berghuis, trazendo de volta a sensação de que, quem sabe, a Argentina outra vez sucumbisse ao nervosismo de um mau momento no jogo. E de que ainda era possível à Holanda. Berghuis tentou, aos 85': chute na rede pelo lado de fora. Virgil van Dijk foi para o ataque, como sempre acontece na hora do abafa. Várias faltas surgiram perto da área. Na primeira, aos 90' + 1, Gakpo chutou na barreira. Na segunda... no último dos 10 minutos de acréscimo, Koopmeiners rolou a bola, Weghorst dominou em meio à marcação e chutou para o 2 a 2 incrível. Até inacreditável, diante do que a Holanda (não) jogara. Uma jogada ensaiada e praticada com brilhantismo trouxera a Laranja de volta à vida.

Weghorst já reanimara a Holanda levemente, ao diminuir a vantagem da Argentina. Mas seria com o gol em jogada inesperadamente ensaiada que ele faria o jogo ganhar nova vida em definitivo (Alberto Pizzoli/Getty Images)

Mas ainda não tinha acabado.

E na prorrogação, é justo dizer, a Holanda mal conseguiu jogadas de ataque. Tinha o esforço, em Timber (ótima partida), em Luuk de Jong, num Weghorst que, pelo menos nesta partida, foi indiscutível. Só que faltava o talento - só presente em Berghuis, que tentou um chute a gol aos 119'. De resto, a Argentina voltou a se assentar aos poucos. Teve a entrada de Ángel di María, para ajudar na reta final. E terminou os 120 minutos com muito mais chances para a vitória: só Van Dijk evitou o gol de Enzo Fernández aos 114', Weghorst salvou na defesa (Enzo Fernández bateu dois minutos depois, e o desvio do atacante com a cabeça fez a bola sair por cima), e Noppert trouxe os lances finais de salvação: defesa em chute de Messi (119'), defesa que impediu gol olímpico de Di María (120'). Até a trave salvou, quando Enzo Fernández chutou, no último lance com bola rolando.

Nos pênaltis, falhar seria proibido. E a Holanda falhou demais para um time que se pretendia tão preparado para as séries de cobranças em momentos decisivos. Nos erros de Van Dijk e Berghuis, com as defesas que confirmaram Emiliano "Dibu" Martínez como um goleiro confiável na hora necessária. Nas cobranças perfeitas da Argentina, indefensáveis para Noppert, rendendo a ida da Albiceleste às semifinais.

Veio a eliminação. Pelo menos, a Holanda resistiu mais do que se esperava.

COPA DO MUNDO FIFA 2022 - QUARTAS DE FINAL

Holanda 2x2 Argentina - Argentina 4x3 nos pênaltis

Data: 9 de dezembro de 2022
Local: Lusail (Doha)
Árbitro: Antonio Mateu Lahoz (Espanha)
Gols: Nahuel Molina, aos 32', Lionel Messi, aos 73', e Wout Weghorst, aos 83' e aos 90' + 11
Ordem dos pênaltis: Van Dijk (0 a 0 - Emiliano Martínez pegou), Messi (1 a 0), Berghuis (1 a 0 - Emiliano Martínez pegou), Paredes (2 a 0), Koopmeiners (2 a 1), Montiel (3 a 1), Weghorst (3 a 2), Enzo Fernández (3 a 2 - cobrança para fora), Luuk de Jong (3 a 3) e Lautaro Martínez (4 a 3)

HOLANDA
Andries Noppert; Jurriën Timber, Virgil van Dijk e Nathan Aké; Denzel Dumfries, Marten de Roon (Teun Koopmeiners, aos 46'), Frenkie de Jong e Daley Blind (Luuk de Jong, aos 65'); Cody Gakpo (Noa Lang, aos 113'); Memphis Depay (Wout Weghorst, aos 78') e Steven Bergwijn (Steven Berghuis, aos 46'). Técnico: Louis van Gaal

ARGENTINA
Emiliano Martínez; Nahuel Molina (Gonzalo Montiel, aos 106'), Cristián Romero (Germán Pezzella, aos 78'), Nicolás Otamendi, Lisandro Martínez (Ángel di María, aos 111') e Marcos Acuña (Nicolás Tagliafico, aos 78'); Rodrigo de Paul (Leandro Paredes, aos 66'), Enzo Fernández e Alexis MacAllister; Lionel Messi e Julián Álvarez (Lautaro Martínez, aos 82'). Técnico: Lionel Scaloni

sábado, 3 de dezembro de 2022

O lado bom do pragmatismo

Agora, sim: Holanda enfim jogou bem na Copa, neutralizou os Estados Unidos com um bom plano tático, e alcançou as quartas de final que se esperava para elas (MB Media/Getty Images)

Desde o começo desta Copa do Mundo, a seleção da Holanda (Países Baixos) desejava buscar suas vitórias com pragmatismo, com eficiência, sem correr mais riscos além dos inevitáveis. Na fase de grupos, acabou exibindo a face criticável disso: atuações lentas, problemáticas, com alguns sofrimentos desnecessários, sem nunca convencer quem viu seus jogos. Só restava a Virgil van Dijk, líder inconteste do grupo de convocados, esperar: "Quem sabe o mata-mata nos desperte". Pois despertou. Contra os Estados Unidos, a Laranja foi pragmática do jeito certo: calma, eficiente, neutralizando os principais jogadores do Team USA, e aproveitando suas chances para conseguir a vitória por 3 a 1 - e a vaga nas quartas de final da Copa.

A rigor, tal tranquilidade já era visível na escalação: afinal de contas, Louis van Gaal repetia a escalação que iniciara a vitória contra o Catar, com Marten de Roon liberando mais Frenkie de Jong no ataque, e Memphis Depay iniciando o jogo no ataque ao lado de Cody Gakpo. Só que ela quase foi surpreendida pessimamente: logo aos 3', Timothy Weah passou a Christian Pulisic, que, livre na esquerda, chutou cruzado para grande defesa de um Andries Noppert que, cada vez mais, justifica a pesada aposta de Van Gaal (e do treinador de goleiros Frans Hoek) nele como goleiro titular. Continuava a lentidão de Denzel Dumfries e de Daley Blind na marcação pelas laterais. E, no meio-campo, perdia-se excessivamente a bola.

Mas nada disso causou problemas. Se avançava bastante, se tentava impor a velocidade habitual em suas partidas (com Sergiño Dest na direita, principalmente), a seleção dos Estados Unidos dava o espaço que a Holanda não tivera em suas partidas. Bastou encaixar uma jogada, aos 10', quando ainda sofria, para o 1 a 0: após 17 passes trocados, Cody Gakpo recebeu lançamento, passou, Dumfries cruzou, Memphis Depay fez o seu primeiro gol na Copa. De lá até o fim do primeiro tempo, a Laranja sofreu um pouco (Weah fez Noppert trabalhar aos 43', com chutes de fora), mas tinha os cruzamentos neutralizados pelas ótimas atuações de Virgil van Dijk e, principalmente, Nathan Aké. Anulava Pulisic e McKennie, responsáveis pelas jogadas ofensivas. Assustava outras tantas vezes - como num chute de Blind, aos 18', além das constantes perseguições a Tim Ream e Walker Zimmerman, que tiveram dia ruim no miolo de zaga. E o segundo gol provou isso, como se fosse uma "cópia" do primeiro: nos acréscimos, Dumfries recebeu, cruzou, Blind chegou pelo meio e finalizou, bola na rede.

Os criticados foram exaltados: Dumfries e Blind, contestados nas laterais, tiveram tremenda atuação em seus lados (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

O placar deixava o jogo à feição para a Holanda. E Van Gaal notou isso: no intervalo, as entradas de Teun Koopmeiners e Steven Bergwijn buscavam deixar o ataque holandês mais rápido, para aproveitar os espaços que os adversários norte-americanos certamente deixariam em busca do gol. Pois bem: houve inúmeras ocasiões para que o terceiro gol viesse. Principalmente no começo da etapa complementar. Aos 48', num toque fraco de calcanhar de Frenkie de Jong (outra boa atuação, em que pesem algumas perdas de bola); aos 50', num desvio de Memphis Depay após Dumfries cruzar; aos 71', numa ótima sequência de defesas de Matt Turner. Funcionava a formação de ataque habitual na Liga das Nações - Gakpo mais atrás, Memphis e Bergwijn na frente.

Só que os Estados Unidos, aqui e ali, sinalizavam que ainda viviam no jogo. Mesmo que o meio-campo fosse bem neutralizado - nem Tyler Adams nem Weston McKennie mostravam as atuações da fase de grupos -, havia chutes aqui e ali: Pulisic aos 53', McKennie no minuto seguinte. A entrada de Haji Wright dava mais força e altura, contra uma defesa que resistia nos cruzamentos. Alguns atos de desleixo da Holanda traziam perigo desnecessário - como aos 75', quando Memphis Depay errou recuo de bola, Wright driblou Noppert, mas Dumfries afastou em cima da linha. Porém, no escanteio subsequente, o gol norte-americano, num lance de sorte de Wright - a bola bateu em seu calcanhar e encobriu Noppert.

Poderia ter aumentado o drama. Mas a Holanda não deixou: pouco depois, os seus melhores aspectos na partida apareceram. Manutenção da posse de bola no campo de ataque, na troca de passes entre De Jong, Memphis Depay e Blind. E as chegadas ofensivas dos laterais - Blind cruzou, Dumfries chegou de voleio, 3 a 1. 

A Holanda pode ser eliminada, nas quartas de final da próxima sexta. Mas já não passará vergonha nesta Copa do Mundo. Afinal, era o seu "teto" nos prognósticos. E de mais a mais, hoje ela mostrou em campo o lado bom do pragmatismo.

COPA DO MUNDO FIFA 2022 - OITAVAS DE FINAL

Holanda 3x1 Estados Unidos

Data: 3 de dezembro de 2022
Local: Khalifa International Stadium (Al Rayyan)
Árbitro: Wilton Pereira Sampaio (Brasil)
Gols: Memphis Depay, aos 10', Daley Blind, aos 45' + 1, Haji Wright, aos 76', e Denzel Dumfries, aos 81'

HOLANDA
Andries Noppert; Jurriën Timber, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Matthijs de Ligt, aos 90' + 3); Denzel Dumfries, Marten de Roon (Teun Koopmeiners, aos 46'), Frenkie de Jong e Daley Blind; Davy Klaassen (Steven Bergwijn, aos 46'); Memphis Depay (Xavi Simons, aos 82') e Cody Gakpo (Wout Weghorst, aos 90' + 3). Técnico: Louis van Gaal

ESTADOS UNIDOS
Matt Turner; Sergiño Dest (DeAndre Yedlin, aos 75'), Walker Zimmerman, Tim Ream e Antonee Robinson (Jordan Morris, aos 90' + 2); Tyler Adams, Yunus Musah e Weston McKennie (Haji Wright, aos 67'); Tim Weah (Brenden Aaronson, aos 67'), Jesús Ferreira (Giovanni Reyna, aos 46') e Christian Pulisic. Técnico: Gregg Berhalter

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Preguiça premiada

Só Gakpo salva - e se salva: o atacante da Holanda se tornou um dos goleadores da Copa com o gol contra o Catar, e novamente foi o lado bom de mais uma atuação em que a Laranja venceu e nada mais (Alberto Pizzoli/AFP/Getty Images)
 
Agora que a fase de grupos da Copa do Mundo terminou para a seleção masculina da Holanda (Países Baixos), já se pode falar sem medo: ela fica do lado das decepções do torneio, até aqui. E o jogo derradeiro do grupo A, contra o Catar, confirmou isso (se é que havia alguma dúvida): a Laranja continuou pouquíssimo criativa, lenta, até preguiçosa. Entretanto, diante de um anfitrião quase inofensivo, ela teve tranquilidade para conseguir a vitória esperada: 2 a 0, garantindo a liderança da chave e a vaga nas oitavas de final. Mas também deixando inalterada a impressão ruim que se tem dela, até agora.

Impressão quase piorada no primeiro lance de perigo do jogo no estádio Al-Bayt. Que foi... do Catar, graças a outra desatenção da Holanda na posse de bola: Frenkie de Jong permitiu o desarme aos 3', Hassan Al-Haydos dominou e chutou de fora da área, mas Andries Noppert defendeu. Logo depois, no entanto, a Laranja mostrou até alguma rapidez maior nas tabelas. E comprovou isso aos 12', quando Frenkie de Jong tabelou com Davy Klaassen, passou a Daley Blind, e o lateral (abaixo do que pode, mas nada tão ruim quanto dizem) cruzou - a defesa bloqueou, mas Denzel Dumfries enfim tentou algo no ataque - um chute pego por Meshaal Barsham. Pouco depois, aos 15', Memphis Depay quase marcou, de voleio, aproveitando o chute de Frenkie de Jong, desviado em Klaassen.

Dumfries sofreu novamente com a marcação, tomando alguns sustos de Akram Afif ou de Homam Ahmed (foto) (Catherine Ivill/Getty Images)

Só que o brilho, a vantagem, o gol surgiu daquele que já está se acostumando agradavelmente a virar destaque da Holanda na Copa: Cody Gakpo. De certa forma, num jeito parecido com seu gol contra o Equador: domínio de bola, tabela rápida com Klaassen, chute da entrada da área - agora, rasteiro, no canto esquerdo, tornando-o um dos goleadores da Copa (três gols, ao lado do equatoriano Enner Valencia e do francês Kylian Mbappé). Ainda assim, a Laranja continuava sofrendo. Menos na esquerda, onde Nathan Aké e Daley Blind não cumpriam o papel mas brilhavam; mais na direita, em que Denzel Dumfries seguia dando espaço demais a Akram Afif, ou a Homam Ahmed, ou a quem quer que aparecesse por ali. E a desatenção com a posse de bola prosseguia - como no chute de Ismail Mohammad, aos 29', após erro de Klaassen no domínio. Se não tomassem jeito, os neerlandeses poderiam sofrer de novo, como contra o Equador.

O Catar, contudo, não era o Equador. Tentava algo nas laterais, mas raramente fazia Noppert trabalhar. E muito mais ingênuo na defesa, logo permitiu o segundo gol holandês, em outra rara jogada rápida com muitas participações: Dumfries ajeitou, Klaassen cruzou da direita, Memphis Depay cabeceou, Barsham rebateu, mas Frenkie de Jong estava a postos para aproveitar e fazer o 2 a 0 - seu primeiro gol pela Holanda, após três anos. A partir dali, o jogo estava vencido. O Catar só reapareceu a sério aos 79', num cruzamento de Homam Ahmed, rebatido por Noppert.

A Holanda? Até teve um gol anulado - Steven Berghuis fez aos 68', poucos minutos após entrar em campo, mas a jogada foi revogada pelo VAR (Gakpo tocara a bola com a mão, na origem da jogada). Todavia, seguiu decepcionando. Até mesmo nas alterações, Louis van Gaal decepcionou. Ao invés de dar chances a novatos que poderiam ser úteis, no último (único, até) jogo mais tranquilo da campanha na Copa - pediam-se Xavi Simons, Noa Lang, ou até Jeremie Frimpong -, entraram em campo nomes já vistos na campanha: o supracitado Berghuis, Vincent Janssen, Teun Koopmeiners, Wout Weghorst. Só Kenneth Taylor, vindo a campo nos minutos finais, destoou um pouco.

E veio a classificação. Um prêmio à preguiça - ou à eficiência da Holanda, dependendo do ponto de vista. O que se sabe, agora, é o que Frenkie de Jong preconizou, na zona mista, após a partida, à emissora NOS: "Foi um pouquinho melhor, mas ainda há muito a melhorar". E o que Memphis Depay alertou: "Agora saímos dos grupos. O mata-mata é que é o negócio sério". Se quiser cumprir as expectativas e não ser vítima de uma zebra nas oitavas de final (e corre riscos), a Holanda terá de jogar bem mais às 12h do sábado que vem, contra os Estados Unidos, novamente no estádio Khalifa International. Não é sempre que a preguiça é premiada...

COPA DO MUNDO FIFA 2022 - GRUPO A

Catar 0x2 Holanda

Data: 29 de novembro de 2022
Local: Al-Bayt (Al-Khor)
Árbitro: Bakary Gassama (Gâmbia)
Gols: Cody Gakpo, aos 26', e Frenkie de Jong, aos 49'

CATAR
Meshaal Barsham; Ismaeel Mohammad (Musaab Khidir, aos 85'), Pedro Miguel "Ró-Ró", Boualem Khoukhi, Abdelkarim Hassan e Homam Ahmed; Abdulaziz Hatem (Ahmad Alaeldin, aos 85'), Hassan Al-Haydos (Ali Assadalla, aos 64') e Assim Madibo (Karim Boudiaf, aos 64'); Almoez Ali (Mohammed Muntari, aos 64') e Akram Afif. Técnico: Felix Sánchez

HOLANDA
Andries Noppert; Jurriën Timber, Virgil van Dijk e Nathan Aké; Denzel Dumfries, Marten de Roon (Teun Koopmeiners, aos 83'), Frenkie de Jong (Kenneth Taylor, aos 86') e Daley Blind; Davy Klaassen  (Steven Berghuis, aos 66'); Cody Gakpo (Wout Weghorst, aos 83') e Memphis Depay (Vincent Janssen, aos 66'). Técnico: Louis van Gaal