Mostrando postagens com marcador Van Domselaar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Van Domselaar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de junho de 2023

A Holanda na Copa feminina - as 23 convocadas: Van Domselaar

Van Domselaar teve o sonho da carreira no futebol feminino. Não só o realizou com rapidez notável, como tem condições de catapultar de vez a carreira na Copa (KNVB Media)

Ficha técnica
Nome: Daphne van Domselaar
Posição: Goleira
Data e local de nascimento: 6 de março de 2000, em Beverwijk (Holanda)
Clubes na carreira: Twente (desde 2017 - já anunciou a transferência para o Aston Villa-ING)
Desempenho na seleção: 12 jogos, desde 2022
Torneios pela seleção: Euro 2022 (4 jogos, 5 gols sofridos)

Era uma garota que, como muitas, amava Lieke Martens e Vivianne Miedema. Quando a Holanda (Países Baixos) começou a ser um país mais notável no futebol feminino, no meio da década passada, essa mesma garota já começava a tentar a sorte na modalidade, mas ainda olhava os destaques como uma torcedora, como tantas garotas parecidas com ela. O tempo passou, ela se esforçou, o destino fez seus movimentos... e Daphne van Domselaar saiu da torcida para o campo, virando "protagonista" de um conto de fadas. A partir do ano passado, quando a chance apareceu, a goleira a aproveitou com brilhantismo. Mesmo jovem, se tornou titular absoluta da seleção feminina holandesa. E a Copa do Mundo pode ser o impulso decisivo para uma carreira cada vez mais promissora.

Carreira que, se não fosse no futebol, poderia ser em várias outras modalidades. Desde criança, nascida em Beverwijk e criada em Langedijk, Van Domselaar se experimentou em vários esportes. Só que a mãe, Elly, desde o começo sabia qual o principal deles para a filha, conforme confessou em entrevista à emissora NOS, no ano passado: "Quando pequenininha, ela já queria o futebol, mas eu impedi um pouco... Daphne sempre jogava com garotos, se vestia como um menino, e até se sentia um menino. Aí eu pensei: 'Se ela jogar futebol com os garotos, aí já vai ser demais'". Para aplacar a vontade esportiva sem a bola nos pés - até porque não havia nenhum time feminino de futebol quando criança -, Van Domselaar praticou de tudo em sua escola: por exemplo, esgrima, kickboxe e voleibol. Neste último, acabou ficando por mais tempo.

Porém, a própria mãe reconheceu: "Após alguns anos, ela já estava cheia, e perguntou se poderia jogar futebol. Eu vi que ela estava triste. Então, ela terminou a temporada no vôlei, e aí foi para o futebol. Ela não poderia ter ficado mais feliz". Foi quando Van Domselaar, aos 11 anos de idade, enfim encontrou uma equipe de futebol de meninas, no LSVV, clube da Langedijk em que morava. Um dia, foi chamada para jogar no gol: não havia uma goleira titular definida. Veio a memória dos tempos de voleibol: falando ao noticiário infantil Jeugdjournaal, da emissora NOS, no ano passado, Van Domselaar lembrou que já se acostumava a pegar a bola com as mãos, nas quadras - e gostava disso. Experimentou uma partida como goleira do time infantil do LSVV... e não saiu mais. Nem do time, nem da posição. Na qual teve, por muito tempo, um exemplo masculino: Maarten Stekelenburg, titular da seleção masculina vice-campeã mundial em 2010, foi sua inspiração confessa para engrenar de vez com as luvas, debaixo das traves.

Por quatro anos, Van Domselaar jogaria nos times de base do LSVV, até mesmo participando de times mistos com garotos. Até que chegou a hora de ir para um clube mais estruturado em termos de futebol feminino - e em 2015, a jovem goleira tomou o caminho do Telstar. Mesmo ainda nos times de base do Telstar, já começava a frequentar vez por outra o banco de reservas da equipe principal, que disputava o Campeonato Holandês de mulheres - já então independente de novo, após a fase de "BeNeLiga" (fusão com a liga da Bélgica). De quebra, começou seu caminho nas seleções de base da Holanda, estreando pela equipe laranja sub-17 em 2015. Porém, até ao contrário do que algumas fontes apontavam, Van Domselaar nunca jogou profissionalmente pelo Telstar. Ficou apenas no banco. Era uma jovem e sonhadora jogadora na data da foto abaixo: 6 de agosto de 2017. Foi quando assistiu à final da Euro feminina, vencida pela Holanda (Países Baixos) - 4 a 2 na Dinamarca. A partida do título histórico das Leoas Laranjas foi disputada no estádio... De Grolsch Veste, em Enschede. Local que Van Domselaar passaria a conhecer muito bem, daquele ano em diante.

Em 2017, Van Domselaar (mais à frente) ainda não jogara profissionalmente: mesmo já no futebol feminino, comemorou o título da Holanda na Euro feminina como uma torcedora. Seis anos depois, será titular na Copa (Arquivo pessoal)

Porque a goleira se transferiu justamente para o Twente, que manda suas partidas (no masculino e no feminino) no De Grolsch Veste. A vinda foi bem recebida pelo técnico Tommy Stroot, que apontou na jovem "um talento natural". Que teria em Enschede o melhor cenário possível para ser aprimorado: afinal, clube "médio-grande" no futebol masculino, o Twente é das maiores forças do futebol feminino na Holanda (Países Baixos). E Van Domselaar começou a aprender. Nos dois primeiros anos, foi reserva da belga Nicky Evrard, mesmo tendo jogado em quatro partidas da temporada 2017/18 do Campeonato Holandês de mulheres, e mais três em 2018/19, quando o Twente obteve mais um título nacional. Nas seleções de base, porém, seu caminho estava aberto. Em 2017, foi titular da seleção sub-17 que foi às semifinais da Euro da categoria. E também começou no time sub-20 da Holanda, sendo convocada como uma das três goleiras na primeira participação do país em Mundiais sub-20, no ano seguinte, vendo do banco a eliminação para a Inglaterra, nas quartas de final. O próximo passo se aproximava.

E chegou em 2019. Foi quando Van Domselaar se tornou titular do Twente, começando a estabelecer ali seu estilo: muita agilidade debaixo das traves e, principalmente, muita elasticidade para buscar chutes, rasteiros ou de longa distância. Só não conseguiu se fazer notar muito porque aquela temporada 2019/20 foi atingida em cheio pela pandemia de COVID-19, que suspendeu a Vrouwen Eredivisie e a Copa da Holanda de mulheres, sem campeões nem rebaixados. Condições minimamente retomadas para a prática do futebol, pelo menos a goleira teve a maior das compensações: em setembro de 2020, foi convocada pela primeira vez para a seleção principal, então ainda comandada por Sarina Wiegman, para o jogo contra a Rússia, pelas eliminatórias da Euro (que seria em 2021, mas já fora adiada para 2022). Era como terceira goleira - Sari van Veenendaal era titular absoluta, e tinha Lize Kop e Loes Geurts se alternando como reservas. Mas já servia para aprender. De mais a mais, a temporada 2020/21 serviria para a goleira se estabelecer de vez no Twente, como titular absoluta em mais uma conquista de Campeonato Holandês para os Tukkers de Enschede. Ficaria de fora do torneio olímpico em Tóquio, mas não demoraria muito para sua estreia na seleção feminina acontecer.

Van Domselaar foi preparada paulatinamente no Twente. A partir de 2019, virou titular absoluta nos Tukkers (Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)


Pois bem: 2021/22 serviu como a grande e inesperada aparição de Daphne van Domselaar no futebol feminino europeu. Nem tanto em clubes: àquela altura, já se sabia o que a goleira podia no Twente, do qual já era titular absoluta e pelo qual celebrou dois títulos que confirmaram o clube como a grande força do futebol das mulheres na Holanda (Países Baixos): o bicampeonato na liga, mais a taça da Eredivisie Cup, espécie de "copa da liga" para os times de lá. Mas na seleção, o salto de Van Domselaar seria incrível, em apenas seis meses de 2022. Começando por sua estreia: enfim ela teve sua primeira partida pelas Leoas Laranjas, em 19 de fevereiro de 2022, numa escalação mista da Holanda para enfrentar a Finlândia - e vencer, por 3 a 0 -, pelo Torneio da França, tradicional quadrangular amistoso. Já serviu para ganhar relativa confiança do técnico Mark Parsons, que incluiu Van Domselaar entre as três goleiras chamadas para a Euro, disputada em julho.

A princípio, estar no europeu de seleções serviria apenas para ganhar experiência: afinal, Van Veenendaal era a capitã da Holanda, vinha de grande destaque nos anos anteriores, sendo até a melhor goleira do mundo em 2019, segundo a FIFA. Mas veio a estreia na Euro, contra a Suécia, em 9 de julho de 2022. Por volta dos 15 minutos do primeiro tempo, Van Veenendaal saiu para afastar uma bola da área, e se chocou acidentalmente com Stefanie van der Gragt. Sentiu muitas dores, tentou continuar... mas teve de ser substituída. Às pressas, Van Domselaar se aqueceu e foi para o jogo, entrando aos 21 minutos. Falando após a partida, a novata até brincou: "Eu não tive tempo nem de ficar nervosa". Ninguém sabia nem tinha como prever, mas a substituição para aquele jogo seria uma substituição definitiva na Holanda.

Van Veenendaal era absoluta como titular da Holanda. Uma fratura na clavícula a tirou da Euro, e a substituição por Van Domselaar ficaria definitiva com o fim da carreira da antecessora (Joris Verwijst/Orange Pictures/BSR Agency/Getty Images)

Porque, dois dias depois, anunciou-se o corte de Van Veenendaal, com a clavícula fraturada pelo choque mencionado. Porque não só Van Domselaar deu conta do recado no 1 a 1 contra a Suécia, como impressionou positivamente: se valendo da elasticidade e de uma segurança inesperada para alguém de 22 anos, fez ótimas defesas, sendo um nome que escapou das contestações na turbulenta campanha holandesa, com eliminação nas quartas de final da Euro. E finalmente, o porquê mais surpreendente: embora poucos soubessem, Van Veenendaal já tinha decidido encerrar a carreira nos campos após a Euro, com ou sem a fratura. Anunciou isso poucos dias após o fim do torneio continental. O destino dava seu "empurrão" e tornava fato o que já seria direito, pelas boas atuações dela na Euro (e pelas críticas que já se ouviam a Van Veenendaal): Van Domselaar era a nova goleira titular da Holanda. 

A goleira só se agigantou com a nova responsabilidade. No Twente, seguiu titular inquestionável em 2022/23 - e se houve a derrota para o Ajax no Campeonato Holandês, pelo menos o clube terminou conquistando mais dois títulos, a Copa da Holanda e a Eredivisie Cup. Na seleção, Mark Parsons foi demitido após a Euro, chegou Andries Jonker, mas Van Domselaar segue como a goleira que iniciava as escalações da Holanda (Países Baixos). Finalmente, cobiçada por toda a temporada para se transferir a clubes de países mais competitivos, a goleira passou toda a temporada criticando o nível técnico pouco equilibrado da Vrouwen Eredivisie ("Para a liga, não é legal haver só dois clubes que vencem tudo"), e sinalizando o que confirmou quando a temporada acabou, no fim de maio: irá jogar em outro país. "[Foram] Seis anos que pareceram uma vida [no Twente]. É um lugar que posso chamar de minha casa. (...) Vivi muitas coisas aqui e tive muitas chances de crescer. Por isso, sou grata. Mas é hora de seguir".

Para onde? Van Domselaar dizia que já estava acertando com um clube de uma grande liga, até que ele fosse informado, no fim de junho. Era o Aston Villa - e Van Domselaar justificou a escolha pelo quinto colocado do Campeonato Inglês: "Há um plano pronto, e o clube tem ótimas ambições. Procuro me desenvolver aqui, como pessoa e como goleira".

Mais uma prova de como Van Domselaar é uma das "goleiras da hora" na Europa. Pode ter na Copa a sua aparição para o mundo.

(Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)