Mostrando postagens com marcador Frank de Boer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Frank de Boer. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de junho de 2021

O círculo vai se quebrar?

A eliminação na Euro 2020 foi demais para Frank de Boer, visto com desconfiança desde antes de chegar à seleção da Holanda. Ele caiu. E a federação, que tanto tem errado na escolha dos treinadores, precisará acertar em pouco tempo (Pro Shots)

Quando foi contratado, só o benefício da dúvida ao qual todo ser humano tem direito permitia alguma confiança de que as coisas para Frank de Boer dariam certo na seleção masculina da Holanda. A desconfiança era gigantesca. Demorar quatro partidas para ter a primeira vitória sob seu comando não o ajudou. A campanha perfeita na fase de grupos da Euro 2020 rendeu só um leve crédito. Mas o modo desalentador com que os Países Baixos se renderam à República Tcheca na eliminação, nas oitavas de final, deixou claro que sua saída era um fato esperando para acontecer. Aconteceu: Frank se antecipou à decisão que fatalmente a federação holandesa tomaria. E a KNVB está de volta à estaca zero. A dois meses de uma sequência decisiva nas eliminatórias da Copa de 2022, terá de escolher um novo técnico para a Laranja. Sem poder errar. Até porque a entidade já colocou o comando da Oranje num círculo vicioso há muito tempo. Mais precisamente, desde 2014. 

Vale lembrar a história: já se sabia que Louis van Gaal deixaria a seleção após a Copa daquele ano. Ronald Koeman optara por não renovar contrato com o Feyenoord: esperava receber a proposta da federação para ser o sucessor de Van Gaal. Porém, Bert van Oostveen, então diretor de futebol profissional da federação, preferiu trazer Guus Hiddink (que se "candidatara" numa coluna de jornal) de volta, até a Euro 2016 - para que ele "preparasse" Danny Blind, que seguiria como auxiliar técnico, para se tornar o treinador neerlandês após a Euro. 

Deu tudo errado. Decadente para grandes trabalhos, com uma equipe taticamente frouxa sob seu comando, Hiddink preferiu antecipar a saída, ainda durante à problemática campanha nas eliminatórias da Euro 2016. Ainda sem preparação nem experiência suficientes para o cargo (só treinara o Ajax por alguns meses, entre 2005 e 2006), Danny Blind foi jogado à fogueira. Tinha tudo para dar errado. Deu errado: não só ele fracassou ao tentar arrumar a Holanda, que ficou mesmo fora daquela Euro, como seguiu sem atrair confiança nenhuma de torcida e imprensa. Foi demitido logo na quarta rodada das eliminatórias da Copa de 2018 - àquela altura, já sob outro diretor geral, o ex-goleiro Hans van Breukelen.

Aí, às pressas, Dick Advocaat teve de voltar à seleção pela terceira vez, para ocupar um papel que conheceu bastante em sua carreira: ser um "bombeiro", tentar consertar a situação com algum pragmatismo. Fez o possível, mas algumas derrotas (o 4 a 0 para a França) e o maior mérito da Suécia em aumentar seu saldo de gols deixaram a Laranja fora de uma Copa do Mundo, pela primeira vez após 16 anos. Só aí a federação viveu um cenário ideal: no começo de 2018, já com Eric Gudde como seu diretor geral, trouxe Ronald Koeman, o mais desejado por quem acompanhava futebol no país. Koeman podia estar em baixa, mas para o nível de jogos entre seleções, era capaz de fazer um trabalho decente. E fez: entre 2018 e 2020, ele conseguiu fazer o que se pede de qualquer equipe nacional - ou seja, aproveitar bem os nomes à disposição. A Holanda podia não ser brilhante, mas chegou ao vice-campeonato na Liga das Nações, e garantiu facilmente a vaga na Euro 2020. 

O diretor geral Eric Gudde escolheu certo quando trouxe Ronald Koeman para a Laranja, em 2018. O trabalho era bom. Mas aí, o azar arruinou (ANP)

Mas como em várias histórias tristes, o azar também deu seu empurrão. Eliminado de forma vexatória na Liga dos Campeões 2019/20 (um 8 a 2 do Bayern de Munique nas quartas de final), o Barcelona voltou a cortejar Ronald Koeman, como já fizera duas vezes antes. O técnico podia estar na seleção neerlandesa, mas nunca fez segredo: no seu plano de carreira, o ápice seria treinar o clube espanhol, em que fizera história como jogador. Tanto que, numa cláusula de seu contrato, constava: se o Barcelona, e só o Barcelona, fizesse uma oferta vantajosa, Koeman seria liberado pela federação sem problemas. O cavalo passava selado em sua frente pela terceira vez, o futebol ainda vivia relativa parada na pandemia... e Koeman decidiu realizar seu sonho. A KNVB ficava a ver navios.

E como sempre nos últimos anos, fazia a opção errada. Frank de Boer foi escolhido apenas por ser o único holandês imediatamente à disposição - Peter Bosz e Erik ten Hag, considerados os melhores do país, estavam empregados; Frank Rijkaard encerrara a carreira de técnico; Louis van Gaal, mesmo sempre deixando uma porta entreaberta, também parara. Havia 42 anos que um técnico estrangeiro não comandava a Laranja, desde o austríaco Ernst Happel. No que dependesse da federação, continuaria assim (muito embora o auxiliar Dwight Lodeweges, que até treinou a seleção como interino entre a saída de Koeman e a chegada de De Boer, seja canadense de nascimento).

Novamente, a escolha deu errado. E aí, entram mais problemas antes da falta de organização da federação holandesa sobre o que quer para a seleção masculina. Sem Erik ten Hag nem Peter Bosz, que seguem empregados, muitos nomes holandeses serão cogitados atualmente: Giovanni van Bronckhorst, Phillip Cocu, Ruud Gullit, talvez Clarence Seedorf, Henk ten Cate, talvez até tentar tirar Van Gaal da "semiaposentadoria". Nenhum deles é um técnico de ponta, na atualidade. Nenhum deles teria um nível muito diferente do que Frank de Boer teve, em seus 15 jogos na Oranje - oito vitórias, quatro empates, três derrotas -, ao longo de 279 dias.

Além do mais, já não há porque a Holanda ser tão ciosa de suas tradições, do fato de ter criado uma escola tática, porque ela já foi compreendida (e até superada) há muito tempo. Para isso, talvez fosse melhor trazer um treinador estrangeiro. Só que também não há muitos nomes à disposição. Saindo da seleção alemã, Joachim Löw talvez prefira treinar clubes, ou ficar um tempo parado; Arsène Wenger seria uma incógnita completa, parado há alguns anos; Zinedine Zidane é mais uma ideia de torcedor do que uma possibilidade factível.

Enfim, há poucas opções para a federação holandesa escolher, e tentar consertar o trabalho antes de três rodadas decisivas nas eliminatórias da Copa de 2022 (os Países Baixos enfrentarão Noruega, Montenegro e Turquia, três concorrentes à vaga no Mundial). Prestes a deixar a federação - Marianne van Leeuwen será sua substituta -, Eric Gudde tem pouco tempo para a escolha. E ela tem de ser quase perfeita. Fica a pergunta: quem quebrará o círculo vicioso entre os treinadores da Laranja?

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Os 26 holandeses na Euro: Frank de Boer, o técnico

Não adianta: Frank de Boer segue sob forte desconfiança no comando da Holanda. Só uma campanha muito boa na Euro eliminará as dúvidas. E olhe lá (Pro Shots/onsoranje.nl)

Ficha técnica
Nome: Franciscus "Frank" de Boer
Data e local de nascimento: 15 de maio de 1970, em Hoorn
Carreira como treinador: Ajax (2006 a 2010, categorias de base), Seleção holandesa (2008 a 2010, como auxiliar técnico), Ajax (2010 a 2016), Internazionale-ITA (2016), Crystal Palace-ING (2017), Atlanta United-EUA (2019 a 2020) e seleção holandesa (desde 2020)

Comissão técnica: Dwight Lodeweges, Maarten Stekelenburg e Ruud van Nistelrooy (auxiliares técnicos) e Patrick Lodewijks (treinador de goleiros)

Após sete anos - valendo por seis, na verdade - longe de uma grande competição, a seleção masculina da Holanda volta sob pressão. Alguns jogadores, como Memphis Depay, têm o que provar pela Laranja. Entretanto, ninguém recebe olhares tão desconfiados (alguns olhares, até de reprovação, mesmo) quanto Frank de Boer. E há motivos para essa impressão negativa: após um começo promissor no Ajax, o ex-zagueiro somente teve trabalhos que "carbonizaram" seu filme. Mesmo sua escolha como sucessor de Ronald Koeman se deu mais por falta de opção do que por preferência.  Caberá a De Boer provar que aprendeu certas lições - e isso só será feito em caso de campanha elogiável dos neerlandeses na Euro.

Como jogador, há pouco a dizer sobre De Boer que não seja elogioso - e o próprio Espreme a Laranja fez isso no ano passado, quando Frank e o irmão gêmeo Ronald fizeram 50 anos de idade. Um dos zagueiros mais técnicos que o futebol holandês já teve, um dos símbolos de uma fase na história do Ajax, muito bem no Barcelona, três Euros e duas Copas pela Laranja (todas como titular absoluto), terceiro jogador com mais partidas pela seleção (112, entre 1990 e 2004): enfim, Frank de Boer seguramente entra em qualquer lista importante de jogadores neerlandeses ao longo dos tempos.

Mas Frank decidiu colocar esse histórico à prova logo que passou para o banco de reservas, dando vazão a uma tendência que já se via nele enquanto jogador ("Eu nunca me interessei em saber como joga o adversário; Frank sim", já disse o colega e amigo pessoal Edwin van der Sar). Primeiro, tendo história grande no Ajax, nada foi mais natural que começar pelos times de base dos Amsterdammers, em 2006, logo após encerrar a carreira. Mas a aptidão para treinar já recebeu a grande chance em 2008: enquanto fazia os cursos da UEFA, De Boer foi escolhido para ser um dos auxiliares de Bert van Marwijk na seleção holandesa principal, ao lado de outro companheiro de geração, Phillip Cocu. O bom trabalho feito na Oranje entre 2008 e 2010, coroado com o vice-campeonato mundial, rendeu até elogios periféricos à atenção que Frank de Boer apresentava aos adversários, no trabalho junto a Van Marwijk. 

O estágio auxiliando Bert van Marwijk na Holanda vice-campeã na Copa de 2010 já foi uma boa escola para Frank de Boer (Pro Shots)

Crescia a impressão de que ele tinha capacidade para assumir tarefas maiores - tanto que, após a Copa de 2010, ele deixou a comissão técnica da seleção. De modo meio apressado, a chance esperada chegou no fim daquele ano. Em meio a profundas mudanças internas que respingavam no campo, a diretoria do Ajax buscava devolver ao clube um pouco de suas origens, do estilo que o fez famoso no futebol. Poucos poderiam oferecer isso como Frank de Boer: em dezembro daquele ano, ele foi escolhido interinamente para substituir o demitido Martin Jol. Sua primeira partida: contra o Milan, na despedida da fase de grupos da Liga dos Campeões 2010/11, com o Ajax já eliminado. Deu certo: 2 a 0 Ajax, em pleno San Siro. Poucos dias depois, o interino era efetivado.

E ao longo do quatro anos seguintes, Frank foi o comandante de um Ajax que voltou a falar grosso no futebol holandês, como tetracampeão nacional. Notabilizou-se primeiro pelas qualidades: a abertura aos jovens jogadores (de Toby Alderweireld a Davy Klaassen, de Viktor Fischer a Lesly de Sa, nomes célebres ou esquecidos se tornaram titulares com ele),  um estilo ofensivo nos jogos em casa, até mesmo pelas arrancadas que renderam alguns títulos - na conquista da Eredivisie 2010/11, após sete anos de jejum, o Ajax venceu nas sete rodadas derradeiras; em 2011/12, a reação foi ainda mais notável - treze vitórias nos últimos 13 jogos pela liga.

Frank de Boer foi peça-chave para o Ajax voltar a ser dominante no futebol holandês (Getty Images)

Porém, havia problemas aqui e ali. Se era leão no futebol dos Países Baixos, o Ajax não passava de um gatinho nos torneios europeus. Pela Liga dos Campeões, só esteve perto da classificação às oitavas de final em 2011/12 e 2013/14. Se o estilo de manutenção da posse de bola com troca de passes servia para a Eredivisie, era lento demais nas grandes competições - e o Ajax sofreu algumas eliminações vexatórias naqueles anos (basta citar as quedas na Liga Europa: Red Bull Salzburg-AUT em2013/14, Dnipro-UCR em 2014/15). Além do mais, alguns jogadores se queixavam da falta de consideração de Frank ao escanteá-los no trabalho: caso do dinamarquês Nicolai Boilesen, que foi progressivamente encostado dentro do grupo ao ter um pedido de saída do Ajax negado.

Em 2015/16, já havia sinais de fadiga no trabalho de Frank no Ajax. A gota d'água foi a histórica perda do título na última rodada da Eredivisie daquela temporada, quando bastava vencer um De Graafschap praticamente rebaixado, mas os Ajacieden não passaram de um empate, entregando o título ao PSV. Depois Frank diria que se demitiria mesmo com o título, mas aquele revés tornou sua permanência impossível em Amsterdã. Era hora de buscar outros . E em maio de 2016, ele deixou a "casa".

Frank de Boer já vinha com o trabalho estagnado no Ajax - e a dramática perda da Eredivisie 2016/17, na última rodada, foi o que faltava para a demissão (Pim Ras Fotografie)

Cogitado por alguns outros clubes (falou-se muito em Tottenham, naquela época), De Boer foi escolhido em junho como o nome para comandar a Internazionale. Ali o holandês de Hoorn notou: muito pior do que ter um trabalho bom até certo ponto, como ocorrera no Ajax, era tomar decisões erradas, nas horas erradas. Se a Inter vivia um período de entressafras e inconstâncias, com turbulências internas em meio à troca de donos, Frank dificiultou ainda mais sua vida ao insistir num estilo ofensivo. Pior: foi impaciente e crítico além da conta mesmo com nomes que mereciam alguma repreensão, como o brasileiro Gabigol (anos depois, ainda alfinetado por ele como "Gabi-não-gol"). Enquanto a Inter buscava um estilo, vinham os tropeços: última colocação em seu grupo na Liga Europa 2016/17, sequências de derrotas no Campeonato Italiano... após enfileirar cinco reveses seguidos, foi demais para Frank de Boer: demitido, após 85 dias, deixando o time de Milão na 12ª posição do Calcio.

O holandês já saiu chamuscado da Itália. Mas tudo bem, ainda era algo perdoável, e ele próprio assumiu "precisar de um tempo", em seu perfil no Twitter. Decidiu deixar o período sabático pouco antes da temporada 2017/18: em junho de 2017, aceitou suceder Sam Allardyce para comandar o Crystal Palace, na Inglaterra. Talvez tivesse sido melhor continuar na reciclagem. Se o trabalho na Internazionale fora desastroso, no Palace Frank de Boer teve momentos ainda piores. Insistindo na ofensividade e na posse de bola, num clube pequeno do Campeonato Inglês, se esforçando para se manter acima da zona de rebaixamento... não podia dar certo. Não deu: nas primeiras quatro rodadas da Premier League na temporada, quatro derrotas, sem que o clube marcasse nenhum gol, algo que não ocorria desde 1924. Só uma vitória, pela Copa da Liga Inglesa, contra o Ipswich Town, na segunda fase.

A demissão do Crystal Palace veio ainda mais cedo: após 77 dias, em setembro de 2017, Frank de Boer estava fora. Pior: daquela vez, o técnico saiu criticando a resistência dos jogadores ao seu estilo - e também à falta de mobilização da diretoria, que só contratou dois jogadores pedidos por ele. Mas uma crítica mereceu resposta especial: se o holandês criticou o tratamento duro dado por José Mourinho a Marcus Rashford no Manchester United, dizendo que "só a vitória importava para Mourinho", o português jogou sal na ferida do péssimo trabalho do neerlandês na Inglaterra: "Eu li algo de Frank de Boer, o pior técnico da história da Premier League. Ele disse que não era bom para Rashford ter um técnico como eu, porque a vitória é a coisa mais importante para mim. Se ele fossse treinado por Frank, só teria perdido, porque o time de Frank só perdeu". Chegava a ser humilhante.

Na Internazionale, o trabalho já fora péssimo. No Crystal Palace, a demissão não foi suficiente - Frank de Boer foi humilhado pelas críticas (AP)

Tão humilhante que, aí sim, De Boer aumentou o período sabático. Ficou mais concentrado na participação em debates da televisão holandesa, aqui e ali. E só em dezembro de 2018, mais de um ano após a demissão do Crystal Palace, De Boer reativou a carreira. E foi mais modesto nas ambições: rumou para os Estados Unidos, sendo o segundo técnico da história do Atlanta United. Pelo menos por algum tempo, deu certo. Contando com a experiência de nomes como o goleiro Brad Guzan, mais dois confiáveis atacantes em Ezequiel Barco e Gonzalo "Pity" Martínez, De Boer viu o Atlanta United se sagrar campeão da MLS Open Cup, em agosto de 2019. Na Major League Soccer, o resultado também mereceu algum elogio: o vice-campeonato na Conferência Leste, perdendo a decisão para o Toronto FC.

No Atlanta United, uma leve reação (Imago/One Football)

Pelo menos, era um recomeço. A pandemia interrompeu tudo. E quando o futebol pôde voltar nos Estados Unidos, com o torneio amistoso  "MLS Is Back", três derrotas seguidas encurtaram a permanência de Frank no Atlanta United. Era mais uma demissão, em julho de 2020. Pelo menos, indiretamente, ela deixou De Boer livre para uma chance que se abriu. Com Ronald Koeman preferindo deixar a seleção holandesa rumo ao Barcelona, no mês seguinte, a federação holandesa se viu perdida. Precisava de um nome que não alterasse as bases sólidas do trabalho sob Koeman. Mas nomes como Louis van Gaal e  Frank Rijkaard tinham encerrado a carreira; Erik ten Hag e Peter Bosz estavam então em contrato com seus clubes; Henk ten Cate, até bem visto entre os jogadores da Laranja, era mal visto pela federação, sendo considerado defasado; e trazer um nome estrangeiro seria medida dura demais para um país que se orgulha do jeito como vê o futebol.

Frank de Boer era o único holandês à disposição. E foi mais por isso do que pela qualidade de seus trabalhos que o ex-zagueiro, de tantas histórias vestindo laranja, foi anunciado como técnico, em 23 de setembro, num contrato até o fim da Copa de 2022. Começou mal: pela primeira vez em 116 anos de história, a Holanda ficou sem vitória nos quatro primeiros jogos de um técnico (uma derrota e três empates). 

Frank de Boer tenta levar como técnico a história elogiável que teve como zagueiro da seleção holandesa (BSR Agency) 

Depois de um modo ou de outro, a Laranja teve algumas boas atuações. Mesmo com o começo preocupante nas eliminatórias da Copa de 2022, já voltou ao páreo. Ainda assim, Frank de Boer segue com a espada sobre sua cabeça. Seu trabalho segue sem atrair confiança.  Se o título europeu por acaso vier, ele, sim, poderá dizer que foi quase "contra tudo e contra todos"

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O benefício da dúvida

Frank de Boer chega para treinar a seleção masculina da Holanda sabendo que a desconfiança é enorme. Mas há alguma chance de dar certo (Alex Lifesey/Getty Images)

O próprio vídeo de boas vindas da federação holandesa a Frank de Boer, novo técnico da seleção masculina, brinca com a incorrigível tendência neerlandesa à corneta: várias pessoas - jornalistas, jogadores, torcedores - palpitando sobre este ou aquele nome, este ou aquele esquema tático... até Frank aparecer e dizer: "Prima, dan gaan we wat kijken" ("Beleza, então vamos ver"). De fato, como o vídeo lembrou, é "o país de 17 milhões de técnicos... e de Frank de Boer". E nenhum outro nome escolhido chegaria sob tanta pressão e desconfiança para treinar a Laranja quanto o ex-zagueiro de 50 anos e 112 partidas pela seleção, com três Euros e duas Copas no meio.

E essa desconfiança tingida de pessimismo é compreensível. Afinal de contas, Frank de Boer vai treinar a seleção holandesa com o filme de sua carreira carbonizado, por enquanto. Tudo graças aos péssimos quatro anos anteriores em sua carreira como técnico. Em 2016, Frank só durou 85 dias na Internazionale; em 2017, no Crystal Palace, somente dez semanas; e mesmo no Atlanta United, em que viveu uma ligeira reabilitação em 2019 ao comandar o time campeão da Open Cup, saiu em baixa, com a eliminação na primeira fase da MLS deste ano. O pior, para o ex-jogador, é que todos esses fracassos tiveram sua cota de responsabilidade. 

Embora a Inter estivesse num momento traumático, em troca no controle do clube e um grupo de jogadores sendo reformulado, De Boer chegou como o técnico errado na hora errada: pedia tempo e paciência, justamente duas coisas que faltavam no clube azul-e-negro de Milão. E ao invés de incentivar o grupo de jogadores, o técnico não só fracassou ao se adaptar com o que tinha em mãos, como foi até deselegante com muitos nomes que poderiam ter sido, no mínimo, respeitados (Gabigol talvez tenha algo a dizer sobre isso). No Crystal Palace, foi ainda pior: De Boer chegou e quis forçar ofensividade num time acostumado a ser defensivo para se proteger, na parte baixa da tabela do Campeonato Inglês. Não só deu errado, como ficou marcante o discurso de José Mourinho tripudiando do holandês: "Ele diz que eu sou um mau técnico por que só penso em vencer. Bem, jogando com ele, o pior técnico da história da Premier League - seis derrotas em seis jogos -, talvez aprendam como perder". E mesmo no Atlanta United, De Boer teve algum azar, com a lesão de Josef Martínez e a venda de Pity Martínez, mas também desapontou ao dar sequência ao trabalho de Gerardo "Tata" Martino.

Talvez todos esses fracassos tenham ocorrido por um único motivo: Frank de Boer quis implantar em outros clubes o "estilo Ajax" com o qual se dera tão bem em Amsterdã, conquistando o tetracampeonato holandês e comandando a volta do clube às luzes da ribalta no futebol da Holanda. Só que essa implantação ignorava um fato simples e inquestionável: cada clube tem sua história, seu contexto, e são coisas que não podem ser mudadas de uma hora para outra. Achar que o mundo inteiro é Amsterdã e que todos os torcedores aceitariam mudanças bruscas rumo a um estilo mais ofensivo era e foi, no mínimo, ingenuidade excessiva de Frank.

Frank de Boer volta a basear sua carreira na Holanda - e nela, foi o símbolo da volta do Ajax ao domínio, com o tetracampeonato holandês (Divulgação/ajax.nl)

E por incrível que pareça, é por isso que o ex-zagueiro merece o benefício da dúvida em sua volta para casa - não exatamente para Amsterdã, mas para um país onde, literalmente, falam o seu idioma. Pois foi na Holanda, entre os seus, que De Boer viveu seu único bom momento como técnico - embora os últimos tempos de seu trabalho no Ajax já tenham sido preocupantemente repetitivos. Todos lá já sabem o que esperar dele: posse de bola, muito espaço, troca de passes (ainda que no campo de defesa) etc. Além do mais, mesmo que tenha tido comportamento deselegante na Internazionale, Frank de Boer não é visto como um técnico "traíra", ou mesmo alguém que goste excessivamente de destaque. 

Foi justamente a vontade de deixar sua marca em tudo que impediu Louis van Gaal de retornar ao cargo, seis anos depois. Mesmo semiaposentado, Van Gaal sinalizou aqui e ali que pensaria no caso - mas os jogadores não simpatizaram muito com a ideia, e a federação viu poucas vantagens em contratar alguém que chegaria para mudar até o que não precisava ser mudado. Aliás, isso era o oposto do critério da federação holandesa: trazer alguém que mexesse o mínimo possível no que Ronald Koeman deixou encaminhado em seu trabalho, e que tivesse boa relação com todas as partes (imprensa, jogadores e dirigentes). 

Henk ten Cate era bem visto pelos jogadores, mas deixou má impressão na federação desde que espalhou aos quatro ventos seu convite para treinar a Laranja em 2017, após a demissão de Danny Blind - e de toda forma, Ten Cate há muito está fora dos grandes centros, fazendo a carreira em China e Emirados Árabes. Esse mesmo alheamento tirou as chances de Frank Rijkaard: sondado pela federação, já com a experiência de treinador da seleção entre 1998 e 2000, Rijkaard perdeu o ânimo por continuar como técnico - desde 2013 está parado, sem pressões, e assim prefere continuar. Erik ten Hag e Peter Bosz teriam respaldo de torcida e imprensa: são os dois melhores técnicos holandeses da atualidade. Mas têm contrato vigente com seus clubes (ambos até o meio de 2022), e dificilmente largariam trabalhos já bem desenvolvidos no meio. Pensar num técnico estrangeiro na seleção - estrangeiro MESMO, não um holandês nascido no Canadá como Dwight Lodeweges é? Não só isso ainda é tabu na Holanda (Países Baixos), como nenhum nome de fora do país empolgaria.

Ou seja, sobrou Frank de Boer. O único holandês à disposição. E assim, no esquema "não tem tu, vai tu mesmo", ele chega para treinar a seleção holandesa. Sob pessimismo justificado. No entanto, exatamente por voltar a um cenário que conhece mais, por estar num lugar em que se sinta mais à vontade, por chegar sem grandes expectativas, talvez Frank mereça o benefício da dúvida. Pode dar errado? Pode, e é o mais provável. Mas pode dar... certo.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Grandes laranjas: os De Boer

Para deixar claro qual De Boer é qual: o da esquerda é Ronald, o da direita é Frank (ANP)

Irmãos jogando juntos na seleção da Holanda nem era nada tão inédito assim: basta lembrar os Koeman, Ronald e Erwin, nos anos 1980/90 - Erwin dois anos mais velho do que Ronald. Irmãos gêmeos? Também havia um caso na Laranja: René e Willy van de Kerkhof, nos anos 1970/80, ambos juntos nos vice-campeonatos mundiais de 1974 e 1978, ambos juntos no PSV por dez anos - mas Willy terminou a carreira em Eindhoven, enquanto René correu mundo na reta final da trajetória.

Entretanto, nos anos 1990 (e nos 2000 também), Ronald e Frank de Boer levaram a relação fraterna a outro patamar. Começaram a jogar no mesmo clube amador. Despontaram (quase) juntos no Ajax. Jogaram juntos na Laranja. Também vestiram camisas semelhantes em Barcelona, Rangers, no futebol do Catar. Tanta semelhança os fez virar até estátuas de cera na filial do célebre Madame Tusseau em Amsterdã. E marcou quem acompanhasse futebol naquela década.

Por isso, nesta sexta, 15 de maio, por mais que ambos estejam em rumos diferentes agora, é inevitável que ambos dividam as felicitações pelos 50 anos de aniversário que fazem. Uma boa chance para descrevermos as carreiras deles num mesmo texto. Mostrando que, embora com expressões faciais quase iguais, ambos tiveram muitas diferenças na carreira. A começar pela posição: Frank mais ligado à defesa, Ronald mais habituado ao ataque... enfim, o que fazia dos gêmeos (ainda mais) iguais e o que os diferenciava?

O começo: ainda cabeludos e praticamente indistinguíveis, no Ajax de 1988 (ANP)

Iguais: o mesmo surgimento

Nascidos em Hoorn, em 15 de maio de 1970 (Ronald, alguns minutos mais velho do que Frank), os irmãos De Boer começaram a jogar futebol no mesmo clube amador: o VV Zouaven, de Grootebroek, cidade vizinha a Hoorn. Lá, por volta de 1984, ambos foram vistos por um tal de Johan Cruyff, já então consultor técnico do Ajax, um ano antes de virar treinador Ajacied. Foram aprovados. E tomaram o caminho do clube com o qual seguem ligados, até hoje, entre idas e vindas.

Frank foi o primeiro De Boer a ganhar espaço na seleção: já era titular na Euro 1992 (Getty Images)


Diferentes: posição e desenvolvimento

No Ajax, tanto Ronald quanto Frank de Boer começaram a despontar no fim da década de 1980, na mesma geração que revelaria Dennis Bergkamp, Bryan Roy e outros dois irmãos, Rob e Richard Witschge. Porém, aí começaram as diferenças. Ronald estreou mais cedo no time principal do Ajax - já fez gol no 3 a 1 contra o Zwolle, em 22 de novembro de 1987, pelo Campeonato Holandês. De quebra, dois dias depois, o novato jogou 22 minutos na partida de ida da Supercopa da Europa, contra o Porto. Já Frank demorou quase um ano para aparecer na equipe de cima: só em 21 de setembro de 1988, também contra o Zwolle, mas com derrota Ajacied (4 a 1).

A princípio, Ronald (já definido em campo como atacante) também teve mais frequência do que Frank nos primeiros anos de Ajax. Jogou quase metade das temporadas da Eredivisie em 1988/89 e 1989/90, começando a fazer alguns gols - 5 naquela, 7 nesta temporada. De quebra, em 1989/90, o Ajax enfim quebrou a sequência de títulos do PSV na Eredivisie, sendo campeão. Porém, Ronald foi menos produtivo em 1990/91 - 14 jogos, 1 gol. E deixou o Ajax ao fim daquela temporada, indo para o Twente.

Uma figurinha traz o registro: Ronald de Boer no Twente, entre 1991 e 1992 (Old School Panini(


Se demorou mais para despontar do que o irmão, Frank de Boer teve um surgimento mais fulgurante. Mostrando segurança e habilidade na lateral esquerda (sua primeira posição), tomou a posição para não largar mais já na temporada 1988/89. Em 1990, o gêmeo mais novo já era apontado como um dos mais promissores nomes do futebol dos Países Baixos naquela época. Tanto que aos 20 anos, estreou na seleção, em 26 de setembro daquele ano, num amistoso contra a Itália.

Auxiliando bem Ronald Koeman e Frank Rijkaard, os titulares indiscutíveis da zaga holandesa de então, Frank de Boer mostrava capacidade cada vez maior para se alternar entre a lateral esquerda e o miolo da defesa. No Ajax, também fazia isso - assim foi já nome certo na campanha do título da Copa da UEFA, em 1991/92. Foi por causa dessa capacidade técnica que Frank foi o primeiro dos irmãos numa grande competição de seleções: na Euro 1992, foi titular da Holanda contra a Alemanha (fase de grupos) e contra a Dinamarca (semifinal). Mesmo com a eliminação, ficou claro naquela Euro: o veterano Adri van Tiggelen já tinha um substituto bem definido na lateral esquerda, e o nome dele era Franciscus de Boer, que se tornaria titular absoluto da Holanda por muito tempo.

Glória dos irmãos De Boer: no Ajax, com o título europeu em 1995... (Pics United)


Iguais: juntos na glória e na polêmica

Se Frank já era indiscutível no Ajax e na seleção, Ronald ainda precisava mostrar algo da capacidade inicial. Mostrou a partir da temporada 1992/93: titular no Twente, o atacante fez 11 gols em 16 jogos, na primeira metade do Campeonato Holandês. Bastou para o Ajax trazê-lo de volta já no princípio de 1993, para o returno. Naquele momento, o De Boer do ataque começou a despontar como o irmão da defesa fizera: Ronald de Boer virou titular absoluto do Ajax na reta final da Eredivisie (foram mais cinco gols pelos Amsterdammers naquela temporada). De quebra, em 24 de março de 1993, Ronald estreou pela seleção - já deixando o dele, de pênalti, nos 6 a 0 sobre San Marino, pelas Eliminatórias da Copa de 1994.

Em 1994, a parceria fraterna começou a viver o seu auge. Frank atrás, Ronald na frente, ambos eram titulares do Ajax campeão holandês - com Ronald eleito o melhor jogador daquela temporada 1993/94. Foram convocados para a Copa de 1994: Frank foi titular em quatro jogos (só ficou na reserva contra o Brasil, nas quartas de final), enquanto Ronald foi ligeiramente inferior - começou como titular na fase de grupos, mas decepcionou e foi tirado no intervalo da derrota para a Bélgica, ainda no grupo F, só voltando a campo exatamente na eliminação para os futuros (tetra)campeões, entrando no meio do segundo tempo.

A boa fase da dupla de irmãos seguiu: ambos foram e são nomes frequentes nas lembranças do que o Ajax fez entre 1995 e 1996: tricampeão holandês - invicto na temporada 1994/95 -, campeão europeu em 1995 (e vice-campeão em 1996), campeão mundial em 1995, campeão da Supercopa da Europa em 1995... na seleção, a presença dos De Boer também era certa. Mesmo se um não pudesse (Frank ficou de fora da Euro 1996, por uma fratura), o outro garantia o sobrenome (Ronald foi titular na mesma Euro - e em clubes, novamente eleito o melhor da Eredivisie em 1995/96).

Copa de 1998: o grande momento da parceria (Matthew Ashton/EMPICS/Getty Images)

E na Copa de 1998, talvez, cada um viveu seu grande momento. Formando dupla de zaga elogiável com Jaap Stam, Frank consolidou ali sua transição para a zaga: já era o capitão da Holanda, já era um dos grandes defensores do futebol mundial naquele tempo. E Ronald, naquele Mundial, também foi bem: titular em seis dos sete jogos daquela campanha, ainda marcou dois gols (na goleada sobre a Coreia do Sul e no empate com o México, ambos na fase de grupos). A única mancha foi a cobrança perdida por Ronald na disputa da semifinal contra o Brasil, representando ali mais uma eliminação da Laranja na reta final. Mas ambos voltaram da França amados pela torcida - ainda mais a do Ajax, já que seguiam no clube mesmo após o começo das saídas (Clarence Seedorf, Edgar Davids, Marc Overmars, Louis van Gaal...).

Só que esse amor entre os Ajacieden e os De Boer foi perigosamente trincado na reta final de 1998. Pouco depois da Copa, ambos receberam uma proposta generosa do Barcelona, que lhes pagaria salário cinco vezes maior do que o ganho no Ajax. Ficaram propensos a sair - ainda mais pelo trato  verbal que se tinha com o clube em que começaram: se um dos gêmeos recebesse proposta lucrativa, poderia deixar o Ajax, desde que o outro ficasse. Porém, a transferência era impedida por uma renovação: tanto Frank quanto Ronald haviam prolongado o compromisso com o Ajax por seis temporadas. Pior: começando na Bolsa de Valores, o Ajax prometia a quem comprasse as ações que os irmãos não sairiam.

Briga judicial à vista: querendo ir para o Barcelona, ambos entraram na Justiça contra o Ajax, pedindo a anulação do contrato. A Justiça deu ganho de causa ao clube de Amsterdã. Mas àquela altura, a relação Frank/Ronald-Ajax estava quase arruinada: na primeira metade da temporada 1998/99, ambos se negavam constantemente a entrar em campo, criticavam o técnico Morten Olsen, queriam porque queriam jogar juntos na Catalunha e não na Holanda. Sem ambiente no clube e com a torcida, só restou ao Ajax liberá-los para os Blaugranas, no começo de 1999. Só o tempo curaria a mágoa.

A chegada da dupla ao Barcelona só foi possível magoando o Ajax - e na Catalunha, só Frank se deu bem (ANP)

Diferentes: um virou ícone, o outro nem tanto

No Camp Nou, Frank e Ronald chegavam para simbolizarem o "BarçAjax", nome para a vinculação (até excessiva) que se configurou pelo tanto de jogadores holandeses treinados por Louis van Gaal. Mas a partir de 1999, os caminhos deles em campo voltaram a ficar diferentes. Ronald decepcionou demais no Barcelona: sem muito espaço nem técnica para fazer frente aos outros atacantes (Patrick Kluivert, Luis Enrique, Rivaldo), Ronald só fez 33 jogos e um gol entre 1999 e 2000. Até fez parte da campanha do título espanhol em 1998/99, mas de modo periférico. 

Já no fim da temporada 1999/2000, com a saída de Van Gaal, considerado um holandês dispensável no "BarçAjax", Ronald de Boer tomou o caminho do Rangers. O clube escocês era outro com uma "comunidade holandesa forte" (Bert Konterman, Fernando Ricksen, Giovanni van Bronckhorst, treinados por Dick Advocaat), mas Ronald só teve destaque real no título escocês dos Gers em 2002/03 - 16 gols em 33 jogos. Na seleção, o atacante perdeu espaço naquele começo de década: foi à Euro 2000, mas só jogou as três partidas da fase de grupos (ainda fez um gol, nos 3 a 0 sobre a Dinamarca). Com o surgimento de nomes como Ruud van Nistelrooy, Ronald perdeu cada vez mais espaço... até a última partida pela seleção neerlandesa, em 2003.

Já Frank de Boer seguiu muito bem no Barcelona. Com a habilidade na zaga, se tornou um dos holandeses realmente importantes no clube catalão, ao lado de Kluivert, Phillip Cocu e Boudewijn Zenden. Tornou-se titular absoluto dos Culés em dois tempos, e foi nome certo na campanha do título espanhol em 1998/99. Na seleção, foi novamente capitão e zagueiro principal na Euro 2000 em casa - que, no entanto, lhe rendeu uma lembrança dolorosa até hoje: Frank perdeu dois pênaltis na traumática semifinal contra a Itália (um no tempo normal, outro na disputa de cobranças). Para piorar, em 2001, pego no exame antidoping por uso de nandrolona, o zagueiro chegou a ser suspenso - mesmo liberado depois, viu de fora a Holanda fracassar nas Eliminatórias da Copa de 2002, bem como a crise gigante que o Barcelona vivia.

Ainda assim, Frank de Boer deixou o Barcelona por cima: na última temporada, 2002/03, foi titular absoluto (35 jogos) mesmo em meio ao caos que o clube vivia. Já se tornara sinônimo de seleção: em 15 de novembro de 2000 (amistoso contra a Espanha - vitória holandesa, 2 a 1), o zagueiro se tornou o nome com mais partidas pela seleção - 85, superando os 84 jogos de Aron Winter na Laranja. Já no Galatasaray, Frank era um dos veteranos a guiar a geração que começava com Rafael van der Vaart, Arjen Robben e Wesley Sneijder. Em março de 2003, foi o primeiro holandês a chegar aos 100 jogos pela seleção (no 1 a 1 com a República Tcheca, pelas Eliminatórias da Euro 2004). 

No começo de 2004, ainda houve tempo para Frank se unir de novo ao irmão Ronald: em janeiro, se transferiu para o Rangers. Jogou pouco (17 partidas), mas o suficiente para manter ritmo de jogo e ganhar a convocação para a Euro daquele ano. Naquele torneio em Portugal, Frank terminou sua trajetória pela Holanda - de modo acidentado: jogara contra a Letônia, na fase de grupos, e começara como titular contra a Suécia, nas quartas de final... mas numa dividida com Fredrik Ljungberg, ainda no primeiro tempo, quebrou a tíbia. E não jogou mais na Euro. Nem pela seleção: seu ciclo estava encerrado, após 112 jogos - o recordista da época, até Edwin van der Sar lhe tomar a marca em 2006.

O capítulo final em campo: no Al-Rayyan, entre 2004 e 2005. Frank parou, Ronald ainda seguiu (AFP/Getty Images)

Com alguma coisa (eternamente) em comum

Terminada a Euro 2004, Frank de Boer partiu para a reta final da carreira. Ronald, claro, foi junto: ambos rumaram para o Al-Rayyan, do Catar. Porém, no país do Oriente Médio as carreiras se separaram. Frank só jogou mais dois anos, encerrando a carreira em 2006 no Al-Rayyan; Ronald se foi para o Al-Shamal em 2005 e seguiu por mais um tempo, mas uma hérnia o tirou dos campos por boa parte de 2007, e mesmo recuperado e podendo voltar a jogar em 2008, o atacante preferiu terminar a trajetória por ali.

Com ambos de volta à Holanda, as trajetórias tiveram ritmos diferentes. Ronald se estabilizou pelo país natal, trabalhando como auxiliar do time de juniores do Ajax - e se notabilizando no papel de comentarista de futebol na televisão, como queria (atualmente, está na FOX Sports holandesa). Já Frank preferiu seguir sob pressão: fez o curso para se tornar técnico, já ganhou "estágio" na comissão técnica da Holanda na Copa de 2010 (foi auxiliar de Bert van Marwijk junto ao contemporâneo Phillip Cocu).
Foto de ambos em 2017: Ronald é quem está sério, mas Frank teve mais problemas no futebol de lá para cá (Pics United)

Naquele mesmo 2010, em dezembro, com o Ajax em crise à procura de um rumo dentro e fora do campo, Frank foi escolhido para treinar o clube - primeiramente, como interino, após a demissão de Martin Jol. Deu muito certo: quatro títulos holandeses sob seu comando, sendo peça decisiva para ajudar o Ajax a voltar a dar as cartas no futebol da Holanda.

Seis anos depois, o desgaste natural - e a traumática perda do título holandês na última rodada... - fizeram Frank de Boer sair. Para jogar fora boa parte do status de técnico promissor que tinha então:  sem muito hábito ou jogo de cintura fora do "estilo Ajax", uma passagem terrível de três meses pela Internazionale e outra pior ainda pelo Crystal Palace (só dez semanas!) fizeram o nome do ex-zagueiro cair em desgraça como técnico. Pelo menos, no fim de 2018, o Atlanta United deu a Frank uma chance de começar a reconstruir a carreira em termos mais adequados, na MLS - chance aproveitada, com o título da US Open Cup em 2019.

Ronald mais calmo, Frank ainda na ribalta. Ronald usando óculos, Frank já com menos cabelo. Hoje em dia, ambos são diferentes, está claro. Mas se até mesmo dividiram uma conta de Twitter - por muito tempo respondiam no @FrankRonald1970 (agora cada um tem seu perfil)...  os gêmeos sempre terão alguma coisa em comum.

Franciscus "Frank" de Boer
Data de nascimento: 15 de maio de 1970, em Hoorn
Clubes: Ajax (1988 a 1999), Barcelona-ESP (1999 a 2003), Galatasaray-TUR (2003), Rangers-ESC (2004) e Al Rayyan-CAT (2004 a 2006)
Seleção: 112 jogos e 13 gols, entre 1990 e 2004

Ronaldus "Ronald" de Boer
Data de nascimento: 15 de maio de 1970, em Hoorn
Clubes: Ajax (1987 a 1991 e 1993 a 1999), Twente (1991 e 1992), Barcelona-ESP (1999 e 2000), Rangers-ESC (2000 a 2004), Al Rayyan-CAT (2004 e 2005) e Al Shamal-CAT (2005 a 2008)
Seleção: 67 jogos e 13 gols, entre 1993 e 2003

segunda-feira, 16 de maio de 2016

PSV conseguiu duas coisas com o bi holandês

PSV teve ambição para contratar, usou bem a base e formou time entrosado. Merece a festa do bicampeonato (Jeroen Putmans/VI Images)

Em fevereiro passado, logo após o fechamento da janela de transferências, o técnico Fred Rutten comentou uma aquisição de última hora que o PSV fizera: o empréstimo de Marco van Ginkel, junto ao Chelsea. E o agora treinador do Al-Shabab, da Arábia Saudita, usou muitos elogios: “Acima de tudo, o PSV merece muitos cumprimentos. Isso é ambição, mostra que você realmente quer vencer. E mostra não só ao mundo, mas também internamente. É um recado aos jogadores, para que fiquem ligados”. De fato, trazer um jogador com certo espaço em centros mais competitivos era (mais um) sinal de ambição do clube de Eindhoven, que não parou de trabalhar para alcançar os objetivos. 

Resultado: a sorte sorriu para os Boeren da maneira mais agradável que podia ser imaginada. Na última rodada do Campeonato Holandês, domingo passado, o Ajax tropeçou. A equipe de Eindhoven cumpriu o seu papel. E conquistou o bicampeonato sonhado na Eredivisie. O título foi inesperado: afinal de contas, empatados em pontos, a diferença do Ajax no saldo de gols era bastante segura. Mas a sorte que permitiu ao PSV chegar ao 23º título holandês de sua história foi muito merecida. Afinal de contas, os Eindhovenaren mostraram duas coisas fundamentais, que andaram (e andam) em falta no futebol holandês: regularidade e ambição.

A regularidade começou com Phillip Cocu. O técnico tem um plano de jogo bem definido: o 4-3-3 muito forte nos contragolpes, e com muita ajuda dos pontas. Mas ao contrário de seus pares, costumeiramente muda o esquema tático em função do adversário. Isso ajudou muito o PSV na Liga dos Campeões. Basta lembrar o jogo de volta contra o Atlético de Madrid, nas oitavas de final: sabendo da inferioridade técnica em relação aos Colchoneros, Cocu fortaleceu a defesa no 5-3-2, deixando o Atleti com o domínio da bola. Pois jogando assim, como franco-atirador, o time holandês deixou o espanhol em maus lençóis: os Colchoneros precisaram dos pênaltis para avançar às quartas de final.

Só que de nada adiantaria a regularidade pretendida por Cocu se não fossem, obviamente, os jogadores. E eles corresponderam muito na temporada. Embora ainda precise melhorar na saída de bola, Jeroen Zoet se credenciou como goleiro cada vez mais promissor; se antes era um “xerifão”, com muito porte físico e pouca técnica, Jeffrey Bruma tornou-se um zagueiro elogiável, com tempo de bola quase perfeito; Héctor Moreno começou violento a temporada, mas foi se aprumando, e agora até de lateral esquerdo atua às vezes; e por falar em lateral esquerdo, Jetro Willems melhorou um pouco seus defeitos crônicos na marcação, e está cada vez melhor nos cruzamentos.

Do meio-campo em diante é que começa a ser notada a outra característica responsável pelo novo êxito do PSV na Holanda: a ambição. Ela pode ser traduzida em contratações importantes e precisas. Por exemplo: no meio, eram necessários jogadores que soubessem marcar, mas dessem velocidade na saída de bola, como fazia Georginio Wijnaldum. Se Andrés Guardado já fazia isso muito bem, ganhou em Davy Pröpper o companheiro perfeito. Não raro, Pröpper participa do jogo até mais do que o mexicano, avançando ao ataque e chutando bem de fora da área – até por sua participação, é figura certa nas seleções do campeonato que começam a pulular na imprensa holandesa. No caso de Van Ginkel, a aposta no seu empréstimo foi paga com oito gols em 12 jogos, todos apenas em 2016 – e uma ajuda a mais no ataque, atuando quase como ponta-de-lança.

Como se fosse necessário. Após um período de irregularidade, Luciano Narsingh recuperou-se no time titular, tomando a posição de Gastón Pereiro (que, justiça seja feita, foi razoável nas chances que teve e merece apostas). Pela esquerda, com os problemas pessoais de Maxime Lestienne, Jürgen Locadia foi experimentado ali: e o que era apenas um atacante corpulento e finalizador virou um ponta que preencheu bem a lacuna deixada por Memphis Depay. E o que dizer de Luuk de Jong? 26 gols, um comando claro sobre o elenco do qual é capitão, o retorno à seleção e à boa fase... sem dúvida, o irmão mais novo de Siem é o craque do campeonato.

Todas essas presenças no time-base mostram o equilíbrio do PSV entre comprar gente mais experiente (Guardado, Van Ginkel, De Jong) e apostar na base (Zoet, Willems, o volante Jorrit Hendrix, Locadia). Eis o grande trunfo a que levou a ambição da diretoria: um time regular, com opções para mudar o jogo, que sempre parecia ter a capacidade de reagir e manter a pressão psicológica sob controle. 

Exatamente o que o Ajax não teve. Claro que o De Graafschap não deve ser desprezado: o time de Doetinchem deixou a última posição que parecia inevitável rumo aos play-offs, e tem jogadores com algum talento (sem contar a famigerada “promessa do iPhone 7” – que provavelmente ficará na promessa, já que o aparelho seria dado só em caso de vitória do De Graafschap). Mas os Ajacieden, que pareciam certos da vitória, sentiram imensamente o golpe do empate. 

E prova disso foi a alteração estranha que Frank de Boer fez no jogo: embora o técnico tenha justificado (“Ele não estava no clima do jogo”), tirar Arkadiusz Milik deixou o time sem referência no ataque. Resultado: o time de Amsterdã terminou a última rodada num esquisito 3-3-4, com Anwar El Ghazi e o zagueiro (!) Mike van der Hoorn tentando mandar a bola para as redes. Não só não deu certo, como deixou claro algo que vinha sendo mostrado já havia algumas temporadas (talvez, já no título de 2013/14): faltava um “plano B” ao Ajax. Faltava maior flexibilidade, maior variedade de jogo, mais opções no elenco, mais... ambição. 

Até por isso, antes mesmo do final da Eredivisie, Frank de Boer já decidira o que anunciou na quarta-feira passada: deixaria o clube em que começou as carreiras de jogador e treinador, após cinco anos e meio e quatro títulos holandeses. Um ciclo de inegável sucesso, mas que estava no fim, também inegavelmente. E a melhor explicação disso foi dada pelo próprio Frank: “Nos últimos dois anos, achei que estava ficando difícil para mim. A vontade ainda estava lá, mas eu precisava me esforçar mais. Treinar uma equipe não pode ser algo automático, e eu sentia que estava me repetindo”.

A separação deverá fazer bem. Para Frank de Boer, que tem tudo para fazer carreira elogiável em campeonatos de nível mais alto. E para o Ajax, que poderá avaliar melhor o que fazer. O exemplo, ele já tem: o adversário PSV, que hoje inegavelmente domina o futebol holandês, com flexibilidade e vontade. Resta à torcida esperar que se cumpram as palavras alvissareiras do diretor geral, Toon Gerbrands: “Nunca estamos satisfeitos, sempre é possível melhorar e se desenvolver. Sem medo de errar, vem aí uma nova fase na história do PSV”. O futebol holandês agradeceria.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 13 de maio de 2016)