Mostrando postagens com marcador Euro 2020. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Euro 2020. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Holanda na Euro 2020: a análise sobre quem jogou

A eliminação: a Holanda se perdeu totalmente quando a situação ficou diferente do que ela se acostumava a ter na Euro. E ninguém mudou muito sua situação (Getty Images)

No futuro, quem sabe a campanha da seleção masculina da Holanda (Países Baixos) na Euro 2020 poderá ser descrita de modo contraditório: uma decepção esperada. Decepção, porque a Laranja poderia ter ido mais longe do que as oitavas de final, pela qualidade de alguns jogadores e pelas três vitórias na fase de grupos. Esperada, porque uma análise mais calma já apontava que os adversários do grupo C da Euro eram mais frágeis - e porque o nível mostrado pela equipe neerlandesa, nas eliminatórias da Copa de 2022 e nos amistosos de preparação, não era nada empolgante.

Até pela eliminação precoce, é possível comentar que, na maioria das vezes,  o desempenho de boa parte dos 26 jogadores da Holanda que entraram em campo na Euro ficou na mesma em relação à expectativa que se tinha antes dos jogos começarem. Uns poucos saíram em alta - bem, na verdade se pode falar em um pouco. Outros causaram razões para críticas mais contundentes. Mas no geral, os atletas que defenderam os Países Baixos no torneio continental de seleções fizeram o que se esperava deles. Ainda que se possa dizer que eles não despontaram no momento em que a seleção mais precisava (e essa crítica foi feita após a eliminação), não é nada que os comprometa para o futuro imediato. Para o bem, porque podem se recuperar. Para o mal, porque não abre perspectivas de evolução para a seleção.

Sendo assim, é melhor partir para as justificativas de cada avaliação. Sem perda de tempo. Porque os acompanhantes da Laranja também não remoerão muito a esquecível aparição na Euro. Até porque as eliminatórias da Copa de 2022 já estão vindo aí - e um técnico precisa ser achado antes das rodadas.

Goleiros

1 - Maarten Stekelenburg (4 jogos, 4 gols sofridos): sai na mesma. A reação notável que o veterano de 38 anos viveu na temporada 2020/21 foi coroada com a vitória na disputa pela titularidade com Tim Krul. Justificada: nos amistosos, "Steek" mostrou mais segurança do que o reserva. E na Euro, o goleiro não comprometeu. Certo, cometeu um erro de peso contra a República Tcheca, saindo mal da meta no lance do gol de Tomas Holes. Mas, no todo dos quatro jogos, Stekelenburg justificou a razão de ter sido o titular holandês na Euro: foi seguro, bem posicionado e estava pronto a aparecer. Nem foi tão exigido na primeira fase, a bem da verdade. Com a idade, a mudança de técnico na seleção masculina e a volta de Jasper Cillessen, deve perder espaço nas convocações. Pelo menos, ganhou mais um torneio pela Oranje na conta.

13 - Tim Krul: não jogou

23 - Marco Bizot: não jogou

Laterais

22 - Denzel Dumfries (4 jogos, 2 gols): sai em alta. Talvez Dumfries seja o único jogador neerlandês que terá alguma razão para sorrir ao se lembrar desta Euro. Se era muito contestado antes dela, se jogara mal no amistoso contra a Escócia, Dumfries se recuperou plenamente. O novo esquema, com cinco na defesa, potencializou sua principal qualidade: os avanços para ajudar o ataque. Com isso, Dumfries foi até melhor do que normalmente é no PSV: fez dois gols, chegou bastante à frente para cruzamentos, finalizou constantemente. Teve falhas, sim: perdera gol notável contra a Ucrânia, na estreia, e abriu espaço no segundo gol sofrido da República Tcheca, na eliminação. Ainda assim, é inegável: Dumfries abriu vantagem para concorrentes pela posição, como Hans Hateboer. Hoje, virou titular indiscutível na lateral direita da Holanda. 

12 - Patrick van Aanholt (4 jogos): sai em baixa. Van Aanholt começou a Euro em alta: afinal de contas, tomara a titularidade de Wijndal na lateral esquerda, por mostrar um pouco mais de capacidade de adaptação ao esquema com três zagueiros na Laranja. Porém, bastou a competição começar para isso mudar de figura. O camisa 12 foi tímido no apoio, sua principal qualidade, mesmo contra os adversários medianos da fase de grupos. Na primeira partida da Euro em que sua capacidade de marcação foi posta à prova, contra a República Tcheca, o lateral esquerdo teve desempenho muito ruim, um dos piores na derrota e na eliminação holandesas. Van Aanholt teve chance, e falhou. Pode perder lugar nas próximas convocações

5 - Owen Wijndal (2 jogos): sai na mesma. Em toda a expectativa rumo à Euro, o jovem era previsto como o titular da Holanda na lateral canhota. Porém, desde que Frank de Boer optou pela alteração no esquema, passando a jogar com três no miolo de zaga, o desempenho do lateral do AZ caiu vertiginosamente. Tendo de se preocupar com a defesa, Wijndal não podia avançar, como gosta de fazer. E nem era tão seguro assim na marcação. Já perdeu a vaga de titular a partir dos amistosos. E quando entrou na estreia, contra a Ucrânia, seguiu atacando - e abriu espaços que os ucranianos aproveitaram para empatar aquela partida. De todo modo, pela sua idade, a queda serve mais como puxão de orelhas para melhorar do que para barrá-lo da Laranja. Wijndal seguirá opção considerável para o futuro da seleção, como já era antes da Euro.

2 - Joël Veltman (1 jogo): sai na mesma. Só jogou dois minutos, mais os acréscimos, contra a Ucrânia. Impossível de avaliar o que fez ou deixou de fazer.

Zagueiros

3 - Matthijs de Ligt (3 jogos): sai em baixa. Uma lesão na virilha, sofrida nos últimos treinos antes da estreia, já dificultou o caminho do zagueiro, que ficou fora da estreia. A partir do jogo contra a Áustria, De Ligt pôde voltar ao time. Na posição central da zaga, como líbero, saiu-se normalmente. Talvez com alguns sustos, mas nada que horrorizasse. Todavia, veio a República Tcheca, nas oitavas de final. E um dos lances da eliminação certamente será a mão de De Ligt na bola, que causou sua expulsão no começo do segundo tempo, dificultando bastante a situação da Laranja - o zagueiro foi empurrado, mas nada que o aliviasse. Antes da Euro, De Ligt era visto como um zagueiro reagindo na Juventus, perto de retomar as boas atuações do tempo de Ajax. Sai dela visto como um zagueiro afobado e trapalhão, apesar de talentoso. Terá de recuperar a imagem, um pouco chamuscada.

6 - Stefan de Vrij (4 jogos): sai na mesma. Já que não haveria Virgil van Dijk, De Vrij chegou à Euro como uma opção confiável para a defesa holandesa. De certa forma, provou isso na fase de grupos: nem mesmo ser escalado na direita da zaga (e não na zaga central) fez o camisa 6 ter dificuldades. Com bom tempo de bola, controlando bem a movimentação dos zagueiros para evitar que os adversários pegassem a defesa desguarnecida, De Vrij se provou um líder da parte de trás da Laranja. Não só escapou relativamente ileso da eliminação, como se comprovou confiável - ainda mais após os problemas de De Ligt contra a República Tcheca. Virou favorito a ser parceiro de Van Dijk, quando este voltar à seleção.

17 - Daley Blind (4 jogos): sai na mesma. Havia desconfianças sobre as condições de Blind jogar a Euro 2020, após a lesão no tornozelo, sofrida em março. Ele voltou, se recuperando bem nos treinos pré-Euros, tanto na semana passada em Portugal quanto na reta final. Houve temores sobre como ficaria a parte emocional de Blind, após a parada cardiorrespiratória de Christian Eriksen, colega e amigo dos tempos de Ajax. De fato, o experiente zagueiro se comoveu com aquilo, mas se "superou mentalmente", nas próprias palavras, e estreou contra a Ucrânia. Estava aberta uma Euro na qual ele mostrou as qualidades conhecidas (os passes precisos pelo alto, vistos até contra a República Tcheca) e os defeitos também (lentidão). Nada mudou: enquanto quiser, Blind seguirá como opção nas convocações da Laranja.

4 - Nathan Aké (2 jogos): sai na mesma. Aké já era coadjuvante na equipe neerlandesa antes mesmo da Euro. Na zaga, Stefan de Vrij e Daley Blind recebiam a preferência na esquerda; na lateral propriamente dita, a opção era pela ofensividade de Patrick van Aanholt e Owen Wijndal. Aké continuou assim. Às vezes, indiretamente, justificou a reserva: na estreia contra a Ucrânia, entrou mal e permitiu a reação adversária. Às vezes, não entrar acabou sendo melhor para Aké: muitos torcedores preferiam que ele tivesse substituído Van Aanholt, protegendo mais a esquerda contra a República Tcheca. Não foi assim. De certa forma, o defensor sai da Euro como entrou: despercebido.

25 - Jurriën Timber (3 jogos): sai em alta. Em alta? Alguém tão jovem? Pois é: em alta. Afinal de contas, o zagueiro jamais tinha jogado pela Laranja antes da convocação para a Euro. Já impressionou Frank de Boer durante a semana de treinos em Portugal, pela calma e pela capacidade na direita da defesa. A ponto de sair como titular nos amistosos pré-Euro, contra Escócia e Geórgia. Foi o suficiente: na fogueira de uma estreia na Euro, Timber foi titular também contra a Ucrânia - e jogou 88 minutos, sem decepcionar. De quebra, ainda atuou no segundo tempo contra a Macedônia do Norte - e veio para poucos minutos contra a República Tcheca, quando a eliminação já parecia inescapável. De surpresa na convocação, Timber se uniu a nomes como Ryan Gravenberch e Cody Gakpo: o zagueiro agora é uma jovem opção muito plausível para as convocações. Se continuar bem no Ajax, essa possibilidade só aumentará.

Meio-campistas

15 - Marten de Roon (3 jogos): sai na mesma. De Roon poderia ser chamado de patinho feio nesta seleção holandesa. Muitos questionam o merecimento do volante para ser titular. E algumas características não o ajudaram na Euro - por exemplo, ter constantemente perdido bolas no meio-campo. Então De Roon foi mal? Nada disso. Se perdeu muitas bolas, também foi quem mais desarmes fez pela Holanda na Euro. Além do mais, os avanços de Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum naturalmente o deixam mais vulnerável. E quando ficou na reserva, contra a Macedônia do Norte, poupado para evitar suspensões pelo cartão amarelo, viu os norte-macedônios criarem as chances justamente no setor que era protegido por... ele. Ou seja: De Roon tem importância defensiva. Passou longe de ser o vilão da eliminação na Euro. Se esteve ruim com ele, poderia ser pior sem ele. Deve continuar tão membro da seleção após a Euro quanto era antes.

8 - Georginio Wijnaldum (4 jogos, 3 gols): sai na mesma. Se a Holanda tivesse avançado na Euro, Wijnaldum era forte candidato a sair em alta. Mais do que isso: foi um dos responsáveis pela campanha perfeita em resultados na fase de grupos. "Gini" mostrou capacidade de marcação, e repetiu o que já vem fazendo há tempos na Laranja: foi o homem-surpresa no ataque, chegando com eficiência para finalizar. Porém, com a braçadeira de capitão (e se manifestando em temas espinhosos), esperava-se que Wijnaldum liderasse a equipe em momentos difíceis. O momento difícil veio contra a República Tcheca... e o camisa 8 ficou perdido em meio à derrocada holandesa, sem aglutinar a equipe. Mesmo com o esforço, Wijnaldum não conseguiu catalisar a seleção em campo. Teve seus momentos de brilho técnico, mas se repita: esse lado já era conhecido. Por isso, saiu na mesma. Wijnaldum jogou bem, mas faltou o destaque na hora em que mais era necessário.

21 - Frenkie de Jong (4 jogos): sai na mesma. Antes da Euro, já se sabia a maioria das opiniões sobre Frenkie. Muitos apontavam os pontos fortes: um excelente meio-campista, capaz de ditar o jogo com seus passes e, principalmente, saídas de bola desde a defesa. Outros alertavam os pontos fracos: De Jong nunca foi decisivo, nunca foi o destaque em partidas importantes (talvez, a final da Copa do Rei passada seja a exceção que confirme a regra). Pois foi exatamente o que se viu na Euro. Na fase de grupos, mais acessível, o meio-campista teve momentos excelentes: domínio de bola primoroso, poucos adversários conseguiam desarmá-lo, capacidade de comandar a Holanda dentro de campo (viu-se isso, principalmente, contra a Macedônia do Norte). Contra a República Tcheca, porém, de novo De Jong se viu dentro de uma armadilha. E fracassou ao sair dela. Seu talento e seu defeito foram, pois, confirmados. Se serve de consolo, o talento grande haverá de mantê-lo na Laranja. E com destaque cada vez maior, nos próximos anos.

19 - Ryan Gravenberch (2 jogos): sai na mesma. Já se sabia: com Wijnaldum e De Jong como titulares absolutos, Gravenberch foi à Euro como um talento para o futuro, mesmo já sendo titular absoluto no Ajax. Pois bem: pelo menos, ele teve duas aparições - vindo do banco contra a Áustria, e jogando os 90 minutos no lugar de De Roon, contra a Macedônia do Norte. O camisa 19 mostrou alguns problemas defensivos, mas não comprometeu. Se continuar bem no Ajax, certamente continuará nas próximas convocações da seleção principal. Saiu da Euro sem nada a comprometer.

14 - Davy Klaassen: não jogou

24 - Teun Koopmeiners: não jogou

Atacantes

10 - Memphis Depay (4 jogos, 2 gols): sai na mesma. Inegável: Memphis encarava a Euro como a chance para vencer a barreira do bom jogador (que ele é) e se confirmar como, talvez, craque. Após superar a lesão no joelho e fazer ótima temporada no Lyon, Depay tinha um excelente palco para brilhar. Sim, teve alguns bons momentos: acelerou jogadas de ataque, driblou, fez gols, mostrou a chamada "liderança técnica". Porém, às vezes ainda exibiu um certo preciosismo, optando pelo bonito ao invés do simples. E na eliminação nas oitavas de final, jogou sem brilho durante os 90 minutos. Enfim, Memphis só conseguiu alguma validação ao seu talento com a confirmação da transferência para o Barcelona. Na seleção e na carreira, ainda lhe falta algo. E isso ficou claro na Euro: como tantos na seleção neerlandesa, ele foi bem na fase de grupos, mas sucumbiu diante da primeira dificuldade.

19 - Wout Weghorst (4 jogos, 1 gol): sai em alta. Nenhum dos 26 convocados da Holanda para a Euro tinha tanta vontade de estar nela quanto Weghorst. E nas oportunidades que teve, o atacante pelo menos provou isso. Prestigiado como titular com a mudança de esquema de De Boer, virou titular após jogar bem no amistoso contra a Geórgia, pré-Euro - e justificou essa escolha com boa atuação e gol, na estreia contra a Ucrânia. Mesmo sem finalizações, o camisa 19 participou das jogadas de ataque, buscou jogo, correu. Até mesmo contra a Macedônia do Norte, quando ficou claro que ele perderia a titularidade para Donyell Malen, ele veio do banco e acertou uma bola no travessão. Sintetizando: Weghorst fez o que pôde. E deixa a Euro com um provável consolo: superou Luuk de Jong na hierarquia de convocações da seleção. Se continuar bem no Wolfsburg, voltará à Laranja. Mais frequentemente do que ocorria pré-Euro.

18 - Donyell Malen (3 jogos): sai na mesma. Eis o grande símbolo do que foi a Holanda nesta Euro 2020(+1): um grande "o que poderia ter sido e não foi". Ao entrar contra a Áustria, Malen foi um dos grandes responsáveis por tirar a Laranja do sufoco, ao acelerar o contra-ataque do gol de Dumfries. Classificação garantida, o atacante entrou jogando contra a Macedônia do Norte - e se entendeu às mil maravilhas com Memphis Depay, tecnicamente falando. Já serviu para convencer Frank de Boer sobre sua titularidade contra a República Tcheca, nas oitavas de final. E além de ser o melhor do ataque na partida, o camisa 18 quase fez um gol que abriria caminhos. Quase... foi o que faltou para Malen: roubar a cena na hora em que ele era o protagonista. As boas impressões que atraía, cada vez mais, tiveram uma interrupção. Faltou pouco para sair em alta da Euro... 

7 - Steven Berghuis (2 jogos): saiu na mesma. Berghuis foi um dos nomes que perdeu na mudança de esquema. Nas primeiras rodadas das eliminatórias da Copa de 2022, com três atacantes, não só começou jogando, como fez dois gols. Na Euro, apareceu pouco: só veio a campo contra Macedônia do Norte e República Tcheca - nesta última, só nos últimos nove minutos, quando a Holanda já rumava para o calabouço. Teve até uma boa participação no segundo tempo contra os norte-macedônios, participando do primeiro gol de Wijnaldum. Nada que mudasse muito seu papel dentro da seleção.

11 - Quincy Promes (2 jogos): saiu na mesma. Pelos problemas dentro e fora de campo, Promes atraía desconfianças sobre o que poderia fazer na Euro. Não se saiu tão mal. Ainda assim, esteve envolvido num dos vários desastres contra a República Tcheca: entrou no lugar de Malen, para tentar ser um atacante que se movesse mais após a expulsão de De Ligt - até para ajudar a defesa. Não conseguiu fazer nada disso. Mas nem se esperava muito de Promes.

9 - Luuk de Jong (2 jogos): sai em baixa. Mesmo com camisa de titular, Luuk já estava em maus lençóis durante a Euro. Perdeu espaço para Weghorst e Malen como opção de ataque, só vindo a campo nos minutos finais contra Ucrânia e Áustria. Passou sem chamar a atenção. E a situação que já estava difícil teve o impacto final num treino, entre a fase de grupos e as oitavas de final: com uma lesão no joelho, foi cortado. Se não melhorar da má fase pré-Euro em que estava no Sevilla, Luuk corre riscos nas convocações posteriores.

26 - Cody Gakpo (1 jogo): sai na mesma. Há pouquíssimo a se falar do que Gakpo fez na Euro 2020. Até porque o atacante estreou pela seleção dos Países Baixos justamente contra a Macedônia do Norte. Fez coisas boas nos 12 minutos em que jogou, é verdade - quase marcou gol. Mas foi pouco tempo: qualquer avaliação mais profunda seria precipitada.

Frank de Boer (técnico)

Sai em baixa. A polêmica foi grande, num país tão acostumado (e tão apegado) ao 4-3-3. Era uma aposta polêmica, num técnico que viveu sob desconfiança enquanto comandou a seleção. Mas a opção de Frank de Boer em jogar com três zagueiros fazia sentido: pensava proteger mais a defesa - e nela, aproveitar todos os nomes melhores (Stefan de Vrij, Matthijs de Ligt, Daley Blind). Na fase de grupos, deu certo. Com boas atuações de Wijnaldum, Frenkie de Jong e Memphis Depay, ensaiou-se um embalo. Frank ganhava a briga. Mas os azares do destino contra a República Tcheca (o gol perdido por Malen, a expulsão de De Ligt) foram aumentados por um erro de Frank na alteração: colocar Promes no lugar de Malen, alteração pouco entendida. Em situação adversa, o técnico fracassou ao tentar arrumar as coisas. Ficou visível a sua incapacidade em achar jeitos de jogar fora daquele ao qual a Holanda já se acostumava. E a derrota foi o golpe final das desconfianças: mais um trabalho de Frank de Boer terminou em demissão. O começo promissor terminou tristemente.

domingo, 27 de junho de 2021

O castelo de cartas caiu

A Holanda vinha numa leve evolução durante esta Euro. Mas tinha erros. Foram duramente punidos pela República Tcheca, que fez a Laranja voltar várias casas com a eliminação na Euro (Pro Shots)

A seleção masculina da Holanda (Países Baixos) fizera uma boa fase de grupos. Ainda tinha defeitos a consertar - algumas fragilidades defensivas, por exemplo -, mas se notava uma leve evolução. Era como a lenta construção de um castelo de cartas. Tudo acabou bruscamente neste domingo. O castelo caiu, graças a um sopro da República Tcheca. Que impôs seu estilo de força física, bolas altas e mais segurança sobre o que fazer em campo, para superar uma Laranja atarantada, fazer 2 a 0 e ir às quartas de final da Euro. Pode ter sido uma surpresa, mas foi muito merecida.

No começo em Budapeste, até parecia que essa surpresa não aconteceria. Se a força da Tchéquia era o jogo pelo alto, a Holanda começou tentando: logo aos 8', num escanteio curto, Matthijs de Ligt podia até estar impedido, mas cabeceou e quase abriu o placar. Aos 13', outra bola alta quase abriu o caminho do gol: iniciando muito bem a partida na Ferenc Puskas Arena, Daley Blind lançou até o ataque, e Denzel Dumfries superou Tomas Kalas e o goleiro Tomas Vaclik, que saiu cedo do gol - só que Kalas se recompôs para evitar o 1 a 0, bloqueando o chute. Até ali, com relativa rapidez na troca de passes, aproveitando a escalação de Donyell Malen, a Holanda ensaiava o gol.

O ensaio acabou a partir da metade do primeiro tempo. Foi quando a República Tcheca começou a ter mais a bola nos pés. Começou a impor mais a sua força física, nas jogadas pelo alto - assim criou a primeira chance, aos 22', quando Petr Sevcik cruzou, e Tomas Soucek quase fez, de cabeça. E mostrou até velocidade na troca de passes (principalmente pela direita, com Vladimir Coufal): foi assim na grande chance dos tchecos durante a etapa inicial, aos 38', quando Lukas Masopust ajeitou e Antonín Barák só não abriu o placar porque De Ligt bloqueou seu chute na hora precisa. A Laranja não tinha mais espaço para trocar passes e acelerar o jogo. Só conseguiu fazer isso aos 31' (um chute de Malen bloqueado por Ondrej Celustka) e aos 39' (jogada individual de Dumfries, concluída com um chute rebatido por Vaclik). No mais, já chamava a atenção a quantidade de vezes em que Maarten Stekelenburg recebia a bola recuada, para recomeçar as jogadas com um chute longo. Sinal preocupante de falta de criatividade neerlandesa.

De Ligt sai, sozinho, após ser expulso. Já estava difícil para a Holanda. Ficou ainda mais (Getty Images)

No segundo tempo, poderia ter sido diferente a partir dos 52', quando Malen fez uma excelente jogada e ficou cara a cara com Vaclik, sem mais ninguém a marcá-lo. Preferiu tentar o drible, e o goleiro da Tchéquia, bem posicionado, fez a defesa. Dois minutos depois, outra bola alta. Superado (e levemente empurrado) por Patrik Schick, De Ligt escorregou. Decidiu evitar a sequência do lance pondo a mão na bola. Levou o cartão amarelo, inicialmente, mas o juiz Sergei Karasev ouviu o VAR, reviu o lance, viu que De Ligt interrompera a chamada "chance clara e manifesta de gol" e trocou o cartão. De amarelo para vermelho. A Holanda ficava com dez homens, sem um zagueiro. Seria um drama.

Drama aumentado pela polêmica substituição de Frank de Boer, minutos depois: preferiu tirar Malen, que vinha jogando bem mesmo com a grande chance perdida, para colocar Quincy Promes, como um "falso ala", para aumentar a quantidade de jogadores na defesa com a expulsão de De Ligt. Deu tudo errado. A bola já não seria mais da Holanda, mas da República Tcheca. Que pôde jogar como gosta, jogando a bola para o alto, aproveitando a firmeza dos seus jogadores - como Tomas Holes, de excelente atuação no meio-campo, neutralizando Georginio Wijnaldum. Que quase fez o gol com Schick, aos 60', e Pavel Kaderábek, aos 64' (grande bloqueio de Dumfries). 

Até que aos 68', num escanteio, Stekelenburg saiu mal do gol, Kalas ajeitou, e Holes teve o "prêmio" de fazer o 1 a 0. Foi a definição do jogo: uma Holanda desalentada, sem um chute a gol, sem uma alternativa para jogar além da sua preferencial, sem saber o que fazer. Diante de uma seleção segura, que sabia procurar bem os seus destaques, que tinha espaço para se impor. Foi assim a jogada do segundo gol, aos 80': Holes recebeu bola em contragolpe (após outra bola alta...), passou para o meio, e Schick estava lá para fazer o seu quarto gol na Euro.

O gol que simbolizou a queda do castelo de cartas da Holanda, cuja construção lenta no caminho desta Euro mal começou e já acabou, dizimada pela primeira seleção mais organizada que encontrou no caminho. 

Euro 2020 - oitavas de final
Holanda 0x2 República Tcheca

Local: Ferenc Puskas Arena (Budapeste)
Data: 27 de junho de 2021
Árbitro: Sergei Karasev (Rússia)
Gols: Tomas Holes, aos 68', e Patrik Schick, aos 80'
Cartão vermelho: Matthijs de Ligt, aos 55'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij, Daley Blind (Jurriën Timber) e Patrick van Aanholt (Steven Berghuis); Marten de Roon (Wout Weghorst), Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Memphis Depay e Donyell Malen (Quincy Promes). Técnico: Frank de Boer

República Tcheca
Tomas Vaclik; Vladimir Coufal, Tomas Kalas, Ondrej Celustka e Pavel Kaderábek; Tomas Holes (Alex Kral) e Tomas Soucek; Lukas Masopust (Jakub Jankto), Antonín Barák (Michal Sadílek) e Petr Sevcik (Adam Hlozek); Patrik Schick (Michael Krmencik). Técnico: Jaroslav Silhavy

segunda-feira, 21 de junho de 2021

A Euro começará agora

A Holanda entrou com as tarefas cumpridas contra a Macedônia do Norte. Pôde experimentar, e as experiências deram certo. Vale para provar possibilidades, porque agora o nível de exigência aumentará (Getty Images)

A seleção masculina da Holanda já estava tranquila, na última partida desta Euro 2020 (+1). Entrou em campo contra a Macedônia do Norte com as tarefas principais cumpridas: já estava classificada, já estava garantida com a primeira posição do grupo C. Talvez por isso, o jogo tenha sido pródigo em experiências no time. Elas deram certo, e a Laranja teve outra atuação segura e elogiável, com a vitória por 3 a 0. Mas as palavras dos jogadores e o cenário que se avizinha para as oitavas de final indicou: os 100 por cento de aproveitamento significam pouquíssimo. Só a partir de agora o time dos Países Baixos terá testes reais para a capacidade que ensaia provar nesta Euro.

De certa forma, isso foi muito visto nos primeiros 20 minutos do jogo em Amsterdã. Sim, a Holanda tentou impor velocidade no jogo. Contando com dois novos titulares (Ryan Gravenberch e Donyell Malen), buscou-se a pressão - a começar de um chute de Gravenberch, já aos 2'. Porém, com os avanços do meio-campo, abriam-se os espaços na defesa. Grande estrela do dia, saudado até pelo capitão Georginio Wijnaldum após anunciar o fim de sua carreira na seleção norte-macedônia, 122 jogos depois, Goran Pandev tinha rapidez nos passes, para nomes como Igor Trickovski e Aleksandar Trajkovski tentarem algo. Foi assim que Trickovski chegou a balançar as redes, aos 9', em jogada só anulada por impedimento. Foi assim que Trajkovski arrematou de fora da área, na trave, aos 22'.

Para a Holanda, embora houvesse a rapidez, e até a chegada ao ataque, faltava o chute a gol - algo exemplificado no cruzamento de Memphis Depay, aos 12', sem ninguém para concluir. Deixou de faltar só aos 24'. Aí, sim, a velocidade abriu espaço para o chute a gol: Depay novamente iniciou um rápido contra-ataque. Malen teve espaço para avançar e acelerar a jogada, pela direita. E seu cruzamento, completado sutilmente por Depay, enfim rendeu o 1 a 0 à Laranja. Era o começo de um momento de maior domínio neerlandês em campo, quase coroado aos 30', quando Malen cruzou e Denzel Dumfries quase terminou outra de suas chegadas velozes em gol, só impedido pela boa defesa do goleiro Stole Dimitrievski. A essa altura, a Macedônia do Norte já não tinha muito espaço, embora tivesse até mais posse de bola. Só Trickovski tentava chutes esparsos. 

Malen recebeu a chance. E se provou como ótima opção para ajudar Memphis Depay (Getty Images)

No começo do segundo tempo, com mudanças na Holanda (Jurriën Timber vinha para a zaga, e Steven Berghuis seria o ala direito no lugar de Dumfries), bem que os norte-macedônios tentaram acelerar mais as coisas no ataque. Só que dois momentos já impuseram o domínio definitivo da dona da casa na Johan Cruyff Arena. Aos 50', Memphis Depay cobrou escanteio, Matthijs de Ligt cabeceou, e o gol só foi evitado por Trickovski, em cima da linha. Segundos se passaram, e uma rápida troca de passes deu o 2 a 0 à Holanda: de Berghuis para Depay, de Depay para Wijnaldum fazer o seu segundo gol na Euro.

Estava iniciado o melhor momento da Holanda no jogo. A não ser por falta de Enis Bardhi aos 56' (Maarten Stekelenburg espalmou), a troca de passes envolveu totalmente a Macedônia. Fosse nas bolas longas de Frenkie de Jong - excelente atuação -, fosse nos toques curtos, as chances de gols se avolumavam. A primeira delas foi aproveitada, aos 58': numa ajeitada excelente de Malen, Depay perdeu seu chute, mas Wijnaldum fez 3 a 0 no rebote (segundo gol do capitão, goleador da Euro atualmente). Depois, Wijnaldum quase fez o terceiro, aos 62'. Mal Wout Weghorst entrou aos 67', mandou a bola no travessão. Até Timber (76') e De Ligt (88') tiveram suas chances de gol. A Macedônia do Norte já parecia mais disposta nas homenagens a Pandev, substituído sob aplausos generalizados, com direito a guarda de honra dos colegas de time. Só ameaçou num gol de Darko Churlinov, aos 71' - outro gol anulado por impedimento.

Entre aprovações maiores (como a de Malen, saudado pela excelente atuação) e desconfianças que seguem (como a lentidão para se defender dos contragolpes), a Holanda parece saber: fez uma boa primeira fase. Mas isso de nada adianta, diante de um cenário que torna bem possível um encontro com Portugal ou Espanha já nas oitavas de final, do próximo domingo. Agora, sim, a Euro vai começar para a Laranja. Agora, sim, ela terá que se provar.

Euro 2020 - fase de grupos - Grupo C
Holanda 3x0 Macedônia do Norte

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 21 de junho de 2021
Árbitro: István Kovacs (Romênia)
Gols: Memphis Depay, aos 24', e Georginio Wijnaldum, aos 50' e 58'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries (Steven Berghuis), Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij (Jurriën Timber), Daley Blind e Patrick van Aanholt; Ryan Gravenberch, Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong (Cody Gakpo); Memphis Depay (Quincy Promes) e Donyell Malen (Wout Weghorst). Técnico: Frank de Boer

Macedônia do Norte
Stole Dimitrievski; Stefan Ristovski, Darko Velkovski, Visar Musliu e Ezgjan Alioski;  Arijan Ademi (Boban Nikolov) e Enis Bardhi (Vlatko Stojanovski); Ivan Trickovski (Darko Churlinov), Elif Elmas e Aleksandar Trajkovski (Ferhan Hasani); Goran Pandev (Tihomir Kostadinov). Técnico: Igor Angelovski

 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Sem brilho, com a vitória (e a vaga)

A Holanda brilhou menos do que na estreia. Mas conseguiu cumprir o que desejava: vitória, liderança do grupo e vaga nas oitavas de final (Pro Shots)

A seleção masculina da Holanda (Países Baixos) foi menos ofensiva em sua segunda partida na Euro 2020(+1). Seguiu mostrando algumas fragilidades na defesa, de vez em quando. Enfim, não mostrou o brilho ensaiado nos 3 a 2 da estreia contra a Ucrânia. Para ela, tudo bem: o pragmatismo lhe garantiu mais tranquilidade. Porque fez os gols que lhe possibilitaram controlar plenamente a partida contra a Áustria, vencendo por 2 a 0 e garantindo não só a classificação às oitavas de final, como também a primeira posição no grupo C. 

Para tentar criar no ataque, a Holanda investiu mais nos lançamentos longos, na fase inicial. No entanto, foi uma jogada individual que levou ao primeiro gol. Na verdade, a sequência dessa jogada: Stefan de Vrij (escalado inesperadamente na direita, com a volta de Matthijs de Ligt) veio da defesa ao ataque com a bola, mas preferiu cavar o pênalti. O juiz Orel Grinfeeld mandou seguir... só que, na sequência, Denzel Dumfries - outra vez muito ativo nos avanços pela direita - foi derrubado por David Alaba. O VAR alertou, o juiz reviu... e o pênalti foi marcado para Memphis Depay fazer seu primeiro gol na Euro, logo aos 10'.

Melhor para os Países Baixos. A entrada de De Ligt deixou a defesa mais segura. A ponto do time neerlandês poder se preocupar mais em controlar o jogo do que em tentar atacar. E ainda assim, sem o suspenso Marko Arnautovic, a Áustria perdia força ofensiva. Só trouxe algo mais perigoso aos 27', quando Christoph Baumgartner tentou jogada pela esquerda, e chutou, mas foi bloqueado por De Ligt. E a Laranja controlava o jogo, pela capacidade de Frenkie de Jong e Georginio Wijnaldum com a posse de bola: tanto para segurar, quanto para roubar, e ainda para avançar com ela. Ainda assim, só voltou a ameaçar no fim do primeiro tempo em Amsterdã, pelos avanços de Patrick van Aanholt. O primeiro rendeu inversão para Wout Weghorst cruzar - e Memphis Depay perder excelente chance. No minuto seguinte, de novo Van Aanholt cruzou, para Georginio Wijnaldum bater - aí, mérito de Andreas Ulmer, que evitou o gol com o pé, na pequena área.

Tais chances poderiam ter feito falta, diante de um adversário mais forte. Porque, em que pese uma chance de Wijnaldum no começo do segundo tempo, aos 49', a Áustria teve mais espaço para tentar o ataque, diante de uma Holanda excessivamente cautelosa. Só faltou o poderio ofensivo, mesmo: de chances reais, os austríacos só tiveram o chute de Marcel Sabitzer, impedido por Daley Blind aos 58'. Era a senha: para não ter uma péssima surpresa, a Oranje precisava voltar a avançar. Voltou aos 61': numa bola parada (escanteio de Depay), Weghorst só teve o gol impedido pela defesa de Daniel Bachmann - e De Ligt, pela perna de Aleksandar Dragovic na pequena área.

Dumfries (direita) voltou a brilhar: avançou bastante, sofreu o pênalti do primeiro gol, ele mesmo fez o segundo (Pro Shots)

Aí entraram os méritos de Frank de Boer - sim, ele os tem. Uma das alterações feitas logo depois deu certo: Donyell Malen trouxe a velocidade que Weghorst já não poderia dar no ataque. Praticamente em sua primeira colaboração, ele puxou o contragolpe que Dumfries concluiu, para o 2 a 0 que premiou outra excelente atuação do lateral direito - e tranquilizou de vez a Laranja. Vieram apenas lances esparsos da Áustria depois. Um chute de Alaba aos 81', um cabeceio de Karim Onisiwo aos 84', e mais nada. Além do mais, Wijnaldum e Frenkie de Jong seguiram com o domínio no meio-campo.

Se a vitória na estreia foi animadora, o segundo triunfo da Holanda na Euro teve menos brilho. Algo compensado pela garantia de que a Laranja não passará vexame: já está com o primeiro lugar assegurado no grupo C, já está nas oitavas de final. Só não está firme, ainda.

Euro 2020 - fase de grupos - Grupo C
Holanda 2x0 Áustria

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 17 de junho de 2021
Árbitro: Orel Grinfeeld (Israel)
Gols: Memphis Depay, aos 10'; Denzel Dumfries, aos 67'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij, Daley Blind (Nathan Aké) e Patrick van Aanholt (Owen Wijndal); Marten de Roon (Ryan Gravenberch), Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Memphis Depay (Luuk de Jong) e Wout Weghorst (Donyell Malen). Técnico: Frank de Boer

Áustria
Daniel Bachmann; Stefan Lainer, Aleksandar Dragovic (Philipp Lienhart), Martin Hinteregger e Andreas Ulmer; David Alaba, Konrad Laimer (Florian Grillitsch), Xaver Schlager (Karim Onisiwo) e Christoph Baumgartner (Valentino Lazaro); Michael Gregoritsch (Sasa Kalajdzic) e Marcel Sabitzer. Técnico: Franco Foda

 

domingo, 13 de junho de 2021

Treino foi treino, jogo foi jogo

A alegria com o gol de Denzel Dumfries, em uma vitória que parecia fácil e virou difícil, simbolizou: bastou a estreia para a Holanda se animar na Euro masculina (Pro Shots)

Testas franzidas, olhares de soslaio, desconfianças. Era assim que a seleção masculina da Holanda era vista, desde a preparação para a Euro 2020 (+1). E as atuações dentro de campo não davam muita razão para que fosse diferente. Pois bem: se as fragilidades nos amistosos aumentaram a má impressão, a Laranja fez tudo ficar diferente nos 90 minutos do 3 a 2 contra a Ucrânia, na estreia pela Euro. Sim, os erros ainda seguem, foram reconhecidos, permitiram que os ucranianos voltassem ao jogo. Ainda assim, mais do que os gols, o esforço e o ritmo intenso vistos em quem vestiu laranja na partida em Amsterdã já serviram para satisfazer bastante a torcida.

A atenção com que a Oranje entrou em campo na Johan Cruyff Arena já ficou visível logo aos dois minutos, quando Memphis Depay foi veloz no contragolpe, driblando Mykola Matviyenko e chegando livre para a primeira chance de gol, defendida por Heorhiy Bushchan. Pouco a pouco, dominando a bola (foram quase 70% de posse nos 45 minutos iniciais), a equipe foi prensando a Ucrânia no campo de defesa. Com um Denzel Dumfries como opção constante no ataque, provando a melhora; com Georginio Wijnaldum muito destacado na criação de jogadas; com Memphis Depay sempre rápido nos toques; com tudo isso, as chances apareceram. Bushchan trabalhou bastante: impedindo chute de Dumfries com os pés aos 6', evitando que Wout Weghorst o driblasse para o gol aos 27', rebatendo voleio de Wijnaldum aos 39'. Isso, sem contar as chances perdidas por demérito dos próprios neerlandeses - Wijnaldum aos 7' e, principalmente, o cabeceio de Dumfries, aos 40'.

O que não quer dizer que a Holanda foi perfeita no primeiro tempo. Longe disso. Mesmo com a mudança na lateral esquerda - Patrick van Aanholt começou jogando -, o setor continuou frágil. Por ali a Ucrânia deu seus raros sustos no primeiro tempo. Principalmente aos 15', num chute de Roman Yaremchuk, e aos 30', quando Andriy Yarmolenko também arrematou. Nesses dois momentos, foi a vez de Maarten Stekelenburg justificar sua titularidade na Euro: fez duas defesas seguras. Todavia, a lentidão holandesa pela canhota era motivo de preocupação. O único, até, num primeiro tempo animador, em que faltara só o gol. De um lado ou do outro, já que os dois times fizeram por merecer.

Não faltou mais no segundo tempo. Enfim, a rapidez da Laranja no ataque conseguiu pegar a Ucrânia desprevenida, tão logo o segundo tempo começou. A velocidade de Dumfries na direita superou facilmente Vitaliy Mykolenko rendeu muitas jogadas... começando pelo primeiro gol, aos 52', quando Wijnaldum aproveitou o rebote de Bushchan. E continuando aos 59', quando o camisa 22 cruzou para Weghorst marcar o 2 a 0, coroando, de certa forma, o esforço que tanto fez para chegar à Euro. Com um ataque veloz, com a defesa sendo bem controlada por Stefan de Vrij... os Países Baixos pareciam controlar o jogo.

A Holanda caiu de produção por poucos minutos - suficientes para a Ucrânia chegar ao empate e fazer a torcida toda temer a decepção (European Press Agency)


Só pareciam. Porque Frank de Boer fez mudanças: Wijndal no lugar de Van Aanholt, e Nathan Aké no lugar de um Daley Blind ainda amedrontado pelo trauma da parada cardiorrespiratória que ameaçou a vida de Christian Eriksen. As alterações foram criticadas, ao tirar o bom ritmo que a Holanda imprimia ao jogo. Nesse período de acertos, a Ucrânia voltou ao jogo num átimo: o brilhante átimo de Yarmolenko, que acertou chute no ângulo para um golaço que diminuiu o placar, aos 75'. A própria torcida, antes empolgada, sentiu o medo. O próprio time se retraiu. E numa falha de marcação, aos 79', Yaremchuk cabeceou para o 2 a 2 que seria uma ducha de água fria.

Só não foi porque, aos 85', uma falha de Bushchan na reposição de bola deixou Wijndal com a bola. Ele passou a Aké, pronto para o cruzamento. Aí, Dumfries cabeceou. E acertou as redes, consertando o seu erro do 1º tempo na melhor maneira possível: fazendo o 3 a 2. Seu primeiro gol pela seleção veio na mais necessária das horas, garantindo vitória útil na tentativa de classificação em 1º lugar no grupo. Melhor ainda: a intensidade vista no time que foi a campo provou que a seleção teve a concentração que o jogo pediu. Numa frase: para a Holanda, treino foi treino, jogo foi jogo. E na hora do jogo, ela provou seu valor.

Euro 2020 - fase de grupos - Grupo C
Holanda 3x2 Ucrânia

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 13 de junho de 2021
Árbitro: Felix Brych (Alemanha)
Gols: Georginio Wijnaldum, aos 52', Wout Weghorst, aos 59', Andriy Yarmolenko, aos 75', Roman Yaremchuk, aos 79', e Denzel Dumfries, aos 85'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Denzel Dumfries, Jurriën Timber (Joël Veltman), Stefan de Vrij, Daley Blind (Nathan Aké) e Patrick van Aanholt (Owen Wijndal); Marten de Roon, Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Memphis Depay e Wout Weghorst (Luuk de Jong). Técnico: Frank de Boer

Ucrânia
Heorhiy Bushchan; Oleksandr Karavaev, Illia Zabarnyi, Mykola Matviyenko e Vitaliy Mykolenko; Oleksandr Zinchenko, Serhiy Sydorchuk e Ruslan Malinovskyi; Andriy Yarmolenko, Roman Yaremchuk e Oleksandr Zubkov (Marlos) (Mykola Shaparenko). Técnico: Andriy Shevchenko.

terça-feira, 1 de junho de 2021

O ensaio geral de uma antiga peça

Na tranquilidade da portuguesa Lagos, a Holanda entra na reta final rumo à Euro 2020 (Pro Shots)

Como em qualquer outra competição, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) terá alguns amistosos de preparação antes de um grande torneio - no caso, a Euro 2020(+1). Como na Copa de 2014, os convocados da Laranja estão fazendo uma semana de treinos num resort, no balneário de Lagos, em Portugal. E como na Copa de 2014, está cada vez mais na cara: a seleção holandesa irá para a Euro jogando com cinco homens na zaga, para tentar ocultar eventuais fragilidades defensivas. A Oranje mostrará isso primeiro no amistoso desta quarta, contra a Escócia, em outra cidade portuguesa, Faro. E deverá repetir a dose na despedida de sua torcida - sim, alguns adeptos deverão ter acesso ao estádio - rumo à Euro, em Enschede (cidade do Twente), contra a Geórgia, no próximo domingo. 

O técnico Frank de Boer foi bastante claro nas justificativas para a mudança tática (e para a consequente escalação de Marten de Roon), durante a entrevista coletiva desta terça: "Marten já conhece o esquema de cor e salteado, é assim que ele joga na Atalanta, toda semana. Além do mais, De Vrij também atua num esquema com três zagueiros na Internazionale. E [Daley] Blind tem a lembrança da Copa de 2014". Mais importante, no entanto, foi quando De Boer deixou os nomes de lado e falou mais nas razões do time como um todo: "Com uma só alteração, o jeito do time jogar já muda. Desse jeito, ganha-se um pouco mais de segurança. Isso é bom. E podemos continuar sendo ofensivos. Com três atacantes também somos ofensivos, mas o esquema é estático demais". De fato - e foi justamente a lentidão da Holanda que a complicou, por exemplo, contra a Turquia, nas eliminatórias da Copa de 2022. 

Além do mais, Frank de Boer andou se inspirando em experiências prévias. Por exemplo, as lembranças de Bert van Marwijk, a quem o atual treinador auxiliou no vice-campeonato da Laranja na Copa de 2010. Pragmático, Van Marwijk disse certa vez: "Antes tudo era baseado em técnica e criatividade. Era lindo de ver - no boxe, com Muhammad Ali, no tênis, com John McEnroe e Bjorn Borg. Mas esse tipo de tênis e de boxe você não vê mais. O esporte evolui". Sem contar a simples lembrança do que a Holanda viveu antes da Copa de 2014. Também numa preparação em Portugal, o então técnico Louis van Gaal decidiu: sem o lesionado Kevin Strootman, teria de proteger mais a defesa. Era isso, ou correr risco de ser eliminado na fase de grupos, diante de uma Espanha que vinha de título mundial e de um Chile ascendente. A Holanda apostou nisso, teve um Arjen Robben em estado de graça... e deu no que deu: num elogiável terceiro lugar. Por tudo isso, compreendeu-se bem a provável mudança tática neerlandesa na Euro. 

Nem mesmo a desconfiança faz Frank de Boer perder o sossego: o técnico da Holanda já começa a achar alternativas para a Euro (ANP)

Outra coisa que tem facilitado os trabalhos de preparação em Lagos é o bom ambiente entre os jogadores. Não que fosse novidade, mas por enquanto, seguem os sorrisos. Capitão da seleção com a ausência de Virgil van Dijk, Georginio Wijnaldum se lembrou dos tempos duríssimos vividos entre 2014 e 2018, com a ausência das grandes competições: "É um time de amigos, de novo. Formamos uma unidade. Claro que isso sozinho não ganha jogo, mas é muito importante". Até mesmo Frank de Boer, mesmo sob pesada desconfiança, tem achado momentos de relaxamento: aproveita assistindo à série The Playbook, do Netflix. E até nisso acha maneiras de aprender sobre comando de equipes no esporte: "Lá se vê como o técnico em questão [Doc Rivers, atual comandante do Philadelphia 76ers na NBA] constrói um time. Ali se vê: só juntar as estrelas não significa nada".

O que não quer dizer que a Holanda tem passado ilesa por essa reta final de preparação para a Euro. Algumas machucaduras foram inevitáveis. Já começaram na quarta-feira passada, durante o anúncio dos 26 convocados. E Frank de Boer foi novamente o alvo principal. Primeiro, por suposta omissão no anúncio dos oito cortados na pré-convocação: Anwar El Ghazi teria sabido de sua ausência durante uma gravação de programa televisivo, e Jerry St. Juste sequer teria sido comunicado. Depois se soube que a comunicação de Frank aos dois ocorrera previamente. O erro inegável de De Boer foi numa frase na entrevista coletiva. Ao comentar a convocação de Donny van de Beek, reserva no Manchester United, ele se defendeu: "Também não é que ele tenha jogado tão pouco. Atuou por cerca de 4000 minutos na temporada". Estaria tudo bem, não fosse o fato de que o treinador confundiu os dados de Van de Beek (que só jogou 1456 minutos pelo Manchester United) com os de Davy Klaassen (este, sim, com 4000 minutos em campo pelo Ajax). Aí, as desculpas foram inevitáveis: "A entrevista de quarta não foi das minhas melhores".

Já outros problemas independeram do técnico. Por exemplo, a polêmica da vacina contra a COVID-19. Oferecida à delegação na quarta-feira passada, a maioria dos membros passou por ela - Daley Blind e o próprio Frank de Boer se vacinaram, por exemplo. Porém, soube-se depois que seis jogadores se recusaram a ser vacinados. Entre eles, Memphis Depay, Wout Weghorst e Matthijs de Ligt. Já alvo de críticas por seu comportamento em relação à pandemia (chegou a postar coisas no Instagram duvidando dela, no ano passado), Weghorst preferiu desconversar sobre o tema, ao ser perguntado se era o "antipandemia": "Pô, já começaram bem...". 

A vacina contra a COVID-19 se tornou alvo de rara polêmica na Laranja - com De Ligt como bola da vez (Getty Images)

Mas De Ligt foi o grande criticado da vez: confirmou que não tomara nem pretendia tomar a vacina. "Não é obrigatório. Penso que cada um deve ser o senhor do seu próprio corpo. Eu me contentarei em manter isolamento máximo de qualquer um que não esteja envolvido com a delegação". Foi criticado até pelo virologista Ab Osterhaus, chefe do RIVM (o instituto de saúde pública dos Países Baixos), que alertou para o exemplo que o zagueiro deveria ser. Prontamente se corrigiu, em seu perfil no Instagram: "Não entendi direito a pergunta, na hora. É lógico que sou a favor da vacina". E Frank de Boer preferiu pôr panos quentes ("Eu não senti nada, mas alguns jogadores ficaram abatidos e febris, no dia seguinte"), sem deixar de tirar o corpo fora ("Cada um sabe de si - eu me vacinei").

Problema sanitário superado em Portugal, veio o problema sanitário ocorrido na Espanha: o teste positivo de Jasper Cillessen para o coronavírus. O goleiro titular da seleção já começara a cumprir o isolamento, mas Frank de Boer preferiu não correr riscos ("Não sabemos quanto tempo vai levar para ele ficar 100% de novo. Estamos com a Euro batendo à porta, e eu quero segurança"). E Cillessen, dos raros remanescentes da Holanda num grande torneio, teve mais um capítulo de azar lamentável em sua carreira, sendo cortado. Já integrado à delegação em Portugal, como sobreaviso, Marco Bizot foi efetivado como o terceiro goleiro holandês na Euro. E Frank de Boer sinalizou: tanto Tim Krul quanto Maarten Stekelenburg terão suas chances nos amistosos contra Escócia e Geórgia. Até porque, como ele próprio afirmou, o titular do gol holandês ficou indefinido.

São os únicos pontos de interrogação, numa Holanda que se prepara com tranquilidade até aqui para a Euro 2020(+1). E que, para aumentar suas chances dentro da competição, mira-se no exemplo que já deu certo em 2014. É um ensaio geral agora, para uma antiga peça.

Os 26 holandeses na Euro: Bizot

Originalmente, o destino tirou a convocação de Bizot para a Euro com uma mão (a reação de Stekelenburg na carreira). Mas deu com a outra: o corte de Cillessen abriu, enfim, a lacuna para o goleiro do AZ preencher (Pro Shots/onsoranje.nl)

Ficha técnica
Nome: Marco Bizot
Posição: Goleiro
Data e local de nascimento: 10 de março de 1991, em Hoorn
Clubes na carreira: Ajax (2011 a 2012), Cambuur (2011 a 2012, por empréstimo), Groningen (2012 a 2014), Gent-BEL (2014 a 2017) e AZ (desde 2017)
Desempenho na seleção: 1 jogo, desde 2020
Torneios pela seleção: nenhum

Há muito tempo, quem acompanha o Campeonato Holandês sabe: trata-se de um dos melhores goleiros da Eredivisie. Alguns fatores do destino (até alheios a ele) abriram caminho. Ele até ficou fora da convocação inicial, a princípio. Mas o azar de Jasper Cillessen, cortado após o teste positivo para o coronavírus (mesmo com alguns dias de isolamento), fez valer os três anos de presença constante nas convocações da Holanda. E Marco Bizot, mesmo sendo o terceiro goleiro da Laranja, tem na presença dentro do torneio continental o ápice de uma carreira marcada pela discrição.

O goleiro de 1,94m começou a jogar aos 5 anos, no amador SV Westfriezen. Mas o horizonte da carreira profissional só foi aberto em 2000, quando um olheiro do Ajax verificou alguns treinos, confiou em Bizot e o levou para Amsterdã. Ali passou os dez anos seguintes. Quando chegou ao time sub-19, começou a sofrer com algumas lesões. Mas nem elas impediram a evolução: Bizot foi promovido ao time sub-21 em 2010, lá virou titular, já começou a acompanhar os treinamentos do grupo principal... e para a temporada 2011/12, foi promovido à equipe principal do Ajax.

Porém, a discrição se impôs. A vaga de titular do Ajax já estava preenchida por Kenneth Vermeer; Jasper Cillessen já era a aposta para o futuro, na reserva; e até mesmo o posto de terceiro goleiro estava ocupado, por Jeroen Verhoeven. Para Bizot, só restaria o posto de arqueiro no time B - e mesmo aqui, teria de disputar posição, com Sergio Padt. Foi quando o Cambuur sinalizou, com uma proposta de empréstimo. Ele aceitou, e passou a temporada 2011/12 no time de Leeuwarden, disputando a segunda divisão como titular. O acesso quase veio, mas o Cambuur parou na repescagem. O empréstimo acabou, Bizot voltou ao Ajax, mas seguiria sem espaço. 

Bizot começou no Ajax, mas na hora de ser promovido, não teve espaço no time principal. Só no Groningen começou a mostrar a capacidade (Pics United)

Era hora de tocar a carreira fora de Amsterdã. E Bizot ganhou a chance no Groningen, já chegando como titular para a temporada 2012/13. Valeu não só para ganhar ritmo de jogo, mas também para se credenciar como um dos três goleiros convocados para a Euro sub-21. No Groningen, vieram boas memórias: Bizot foi nome certo entre os titulares também na temporada 2013/14, concluída com vaga garantida nas fases preliminares da Liga Europa da temporada seguinte.

Só que a discrição apareceu novamente, a partir de uma opção do próprio Bizot: rumar para um clube da Bélgica. No caso, o Racing Genk. E ali o goleiro apareceu mais intensamente - até para o próprio país natal. Foi titular, principalmente, na excelente campanha da equipe belga na Liga Europa 2016/17, chegando às quartas de final. Bastou para que o AZ se decidisse por repatriá-lo, logo ao fim daquela temporada: se Tim Krul, emprestado pelo Newcastle, não poderia ficar em Alkmaar, Bizot já comprovara ser uma opção mais barata, além de oferecer segurança parecida debaixo das traves.

Bizot precisou mostrar talento no Racing Genk para recuperar espaço na Holanda (Belga)

Titular absoluto desde a chegada a Alkmaar, Bizot teve êxito: já na primeira convocação de Ronald Koeman como técnico da seleção masculina holandesa, foi um dos três goleiros escolhidos. E se alternaria como a terceira opção para a posição com Sergio Padt, do Groningen, nos primeiros tempos sob Koeman. Aí entrou a sorte: em setembro de 2018, após discussões com um empregado ferroviário, Padt passou uma noite detido. E Bizot ganhou ali vaga praticamente cativa como terceiro goleiro da Laranja, nas convocações de Koeman.

Pelo AZ, ele justificava as convocações. Com elasticidade e firmeza em suas aparições, Bizot encerrou uma inconstância na posição dentro do clube de Alkmaar, que testara vários goleiros nas temporadas anteriores. Virou nome garantido em campanhas de destaque, como a chegada à final da Copa da Holanda (2017/18). Em 2019, conseguiu excelente marca: 22 jogos sem gols sofridos na Eredivisie, em todo o ano - o que fez famoso o apelido dado pela torcida do AZ, "De Muur" ("O Muro", em holandês). E vinha sendo o goleiro indiscutível na excelente sequência que levara o AZ a disputar a primeira posição da Eredivisie em 2019/20, antes que a pandemia encerrasse forçosamente o campeonato.

Bizot virou querido da torcida no AZ: o "Muro" ajudou o clube de Alkmaar a crescer nas temporadas recentes (Olaf Kraak/ANP)

O futebol parou, o futebol voltou, e Bizot demorou um pouco para recuperar o ritmo que ostentava. Cometeu até algumas falhas, no início da temporada 2020/21. Ainda assim, foi reagindo gradativamente. Até recuperar a confiança - tanto no AZ, quanto na seleção. A ponto de, em 2020, ter enfim a sua primeira partida na seleção principal, atuando num amistoso contra a Espanha, em 11 de novembro.

Neste 2021, a espantosa recuperação de Maarten Stekelenburg colocou a convocação de Bizot para a Euro em risco. O arqueiro ficou fora do anúncio inicial - Cillessen, Stekelenburg e Tim Krul foram os três chamados para a posição. Porém, veio o azar do titular Cillessen. Bizot já foi incluído na delegação que viajou para treinos em Portugal, ainda de sobreaviso. E enfim, o camisa 1 do AZ foi efetivado na Holanda que volta a um grande torneio. De certa forma, um prêmio ao terceiro goleiro, pela persistência discreta que demonstrou em toda a carreira até aqui.

(Koen van Weel/ANP)



quarta-feira, 26 de maio de 2021

De volta. Para o futuro ou para o passado?

O trabalho da Holanda rumo à Euro já começou. Com opções novas entre os 26 convocados. E opções antigas que poderão ser vistas no estilo de jogo (Pro Shots)

A pandemia de COVID-19 evitou que isso acontecesse em 2020. Ela ainda está aí, mas já permite certas coisas. Por exemplo, a realização de uma Euro. Então, chegou a hora: após seis anos que viraram sete, a seleção masculina da Holanda está de volta a uma grande competição. Os preparativos já começaram nesta semana, com os treinamentos envolvendo 14 jogadores, no centro da federação, na cidade de Zeist. E a Laranja começará a disputar o torneio continental sob dúvidas que eram inesperadas no cenário pré-pandemia. Para tentar responder essas dúvidas, os sinais dados indicam tanto para o futuro quanto para o passado.

No que se refere ao futuro, o técnico Frank de Boer deu uma piscadela para a nova geração de jogadores - também envolvida com coisa importante: o mata-mata da Euro sub-21, começando na próxima segunda, com duelo contra a forte seleção da França, pelas quartas de final. Alguns nomes da Laranja Jovem foram incluídos na lista preliminar, mas se esperava o corte de alguns deles, em detrimento de veteranos frequentes nas convocações desde Ronald Koeman, como Ryan Babel. Que nada: Babel já ficou fora da lista preliminar, e não só Teun Koopmeiners (já com alguns minutos pela seleção adulta) estará na Euro, como estão na lista dos 26 convocados Cody Gakpo e Jurriën Timber, nomes que nunca haviam passado perto da Laranja principal. Nunca. Nem mesmo haviam sido convocados. Talvez tenha ocorrido pela versatilidade, como De Boer explicou na entrevista coletiva: "Jurriën [Timber] foi muito bem na temporada, mostrou versatilidade".

Entretanto, alguns sinais indicam que a Holanda terá opções usadas no passado para tentar ter vida longa na Euro. Por exemplo, os sinais fortes de que Frank de Boer pode até escalar a Laranja no 5-3-2, para proteger mais a defesa - a mesma coisa que Louis van Gaal fez na Copa de 2014, tendo êxito com o elogiável 3º lugar naquele torneio. Até lógico, se pensando na falta que Virgil van Dijk previsivelmente fará na seleção. Até elogiável, quando se pensa que um dos bons momentos dos neerlandeses com Frank de Boer foi o 1 a 1 contra a Itália, na Liga das Nações, em Bérgamo, também com cinco homens na defesa. Mas surpreendente, quando se pensa que De Boer é um técnico que prefere a manutenção da posse de bola.

Claro, há nomes que permitem pensar numa boa campanha: Frenkie de Jong, Georginio Wijnaldum, Memphis Depay. Nada que faça frente aos grandes favoritos, talvez seja insuficiente para chegar às semifinais (como deseja a federação - Frank de Boer fala até em "buscar o título"), mas a Holanda está de volta. Para o futuro, que pode ser feliz, ou para o passado turbulento nos últimos anos, como se desconfia? Respostas a serem dadas a partir do dia 13 de junho, domingo, quando a bola rolará contra a Ucrânia, na Johan Cruyff Arena.

Os 26 convocados da Holanda (clique nos nomes e saiba mais sobre eles)

Goleiros


Laterais
Zagueiros

Meio-campistas

Atacantes



Os 26 holandeses na Euro: Timber

O próprio Timber se surpreendeu com sua convocação para a Euro 2020. Mas a evolução notável e acelerada na zaga do Ajax justifica a experiência (Pro Shots/onsoranje.nl)


Ficha técnica
Nome: Jurriën David Norman Timber
Posição: Zagueiro/Lateral direito
Data e local de nascimento: 17 de junho de 2001, em Amsterdã
Clube na carreira: Ajax (desde 2020)
Desempenho na seleção: nenhum jogo
Torneios pela seleção: nenhum

Ele mesmo se surpreendeu. Após a última rodada do Campeonato Holandês, comentando sobre sua inclusão na lista preliminar da seleção masculina da Holanda para a Euro, Jurriën Timber reconheceu: "Quem me avisou foram meu irmão e minha mãe. Eu não acreditei. Aliás, até agora não acredito". Pois é: bastaram seis meses de titularidade no Ajax para que Jurriën Timber se fizesse notar como um zagueiro promissor. A ponto de superar a pré-convocação e estar entre os 26 da Laranja na Euro - mais uma das apostas que dará frutos em competições futuras (só?).

Na família Timber, Jurriën teve um companheiro muito próximo nos caminhos futebolísticos: seu irmão mais novo, Quinten Timber, meio-campista que só agora se separará dele nos campos (Quinten está deixando o Ajax rumo ao Utrecht). Na infância, ainda usando o sobrenome paterno Maduro como "nome de carreira", tanto Jurriën quanto Quinten começaram juntos, no amador DVSU, de Utrecht, cidade natal de ambos. Lá ficaram até 2010, quando tomaram o caminho das categorias de base do... Feyenoord, arquirrival do Ajax.

Já nos tempos de Feyenoord, Jurriën começou a se estabelecer como zagueiro. Mas não seria em Varkenoord, o centro de formação de jogadores do clube de Roterdã, que Timber estabeleceria sua carreira. Seria em Amsterdã: em 2014, ele rumou para o Ajax, para a reta final da preparação rumo à carreira profissional - ele e o irmão Quinten, claro.

Quando Timber fez parte da Holanda campeã europeia sub-17, em 2018, ainda era conhecido como Jurriën Maduro (Pro Shots)

E em De Toekomst, a escola do Ajax, de fato Jurriën foi evoluindo - ou "amadurecendo", para citar o sobrenome que ainda usava. Primeiro, nas seleções de base: um jogo pela seleção sub-15 em 2015, mais três pela Holanda sub-16 em 2016. Já em 2017, a chegada à equipe neerlandesa sub-17 seria para chamar a atenção: o zagueiro participou da trajetória que levou à Euro da categoria, já em 2018. No torneio continental, Timber não só foi titular da Holanda campeã europeia sub-17, como até gol fez na final contra a Itália (2 a 2, com vitória neerlandesa nos pênaltis). Ele... e o irmão Quinten Maduro.

Chegara a hora da transição mais importante: a partir de novembro de 2018, Jurriën foi integrado ao time B do Ajax, fazendo sua primeira partida na derrota por 2 a 1 contra o Cambuur, pela 12ª rodada da segunda divisão holandesa (seriam 11 partidas pelo Jong Ajax no campeonato). O zagueiro continuou no time juvenil Ajacied, é verdade - até participou da campanha na Liga Jovem da UEFA. Mas a partir dali, a equipe principal dos Godenzonen ficara mais ao alcance da mão. Nas seleções inferiores dos Países Baixos, após a passagem vitoriosa pela sub-17, iria para a sub-19. E de 2018 em diante, o zagueiro também deixaria o antigo sobrenome de lado: ao invés de Jurriën Maduro, seria Jurriën Timber, como o irmão também passou a fazer.

Na temporada 2019/20, Timber ainda fez mais partidas pelo Jong Ajax: 24 jogos pela segunda divisão, todos iniciados como titular. A segurança na posse de bola e a versatilidade apresentada na defesa - além de zagueiro, também podia atuar na lateral direita - já o fez entrar no radar de Erik ten Hag, treinador do time principal. Em janeiro de 2020, o jovem foi levado para a viagem de treinos que o Ajax fez ao Catar, durante a pausa de inverno. Logo que a temporada foi retomada, passou a integrar o banco de reservas do Ajax de cima. Finalmente, Timber teve sua primeira chance como titular na vitória por 3 a 1 sobre o Heerenveen. 26ª rodada do Campeonato Holandês. Seria a última partida do Ajax em muito tempo: na semana seguinte, a pandemia de COVID-19 suspendeu a Eredivisie - e depois, forçou o cancelamento do seu restante.

Com o recomeço do futebol na Europa, Timber ficou momentaneamente para trás: Perr Schuurs foi escolhido como zagueiro titular do Ajax, durante boa parte da primeira metade da temporada recém-encerrada. O reserva fazia uma ou outra partida, atuava também pelo time B do Ajax na segunda divisão (foram quatro jogos), e até aparecia na seleção sub-21, em um jogo pelas eliminatórias da Euro. Mas viria a virada, junto com a virada de ano: tão logo 2021 começou, Timber recebeu a chance de ser titular do Ajax, com Schuurs sendo criticado pela inconstância de suas atuações.

No começo de 2021, Timber recebeu a titularidade no Ajax. E aproveitou muito bem (Pro Shots)

Rapidamente Timber tomou a posição para não mais sair. Jogou no mata-mata pela Liga Europa, foi titular absoluto do Ajax no returno do Campeonato Holandês, foi elogiado pela firmeza e segurança apresentadas na zaga e na saída de bola. Só teve a lamentar a infecção pelo novo coronavírus, que o tirou da convocação para a fase de grupos da Euro sub-21. Cumprido o isolamento social, Timber retornou ao time - e já teve um primeiro prêmio, de certa forma: foi do zagueiro o gol que abriu o placar nos 4 a 0 sobre o Emmen, jogo do título para o Ajax no Campeonato Holandês.

Mas o prêmio maior foi aquele que o surpreendeu: a convocação para a Euro, sem nenhuma partida anterior pela Laranja. Timber é outro jovem que já ganhará alguma experiência em termos de seleção principal, pensando no futuro. 

Só que o futuro bem pode ser agora, dependendo das circunstâncias.


Os 26 holandeses na Euro: Stekelenburg

Stekelenburg estaria sendo apenas um reserva experiente no Ajax, em condições normais. As surpresas do destino lhe deram a chance de jogar, mostrar capacidade e ir à Euro (Pro Shots/onsoranje.nl)

Ficha técnica
Nome: Maarten Stekelenburg
Posição: Goleiro
Data e local de nascimento: 22 de setembro de 1982, em Haarlem
Clubes na carreira: Ajax (2002 a 2011 e desde 2020), Roma-ITA (2011 a 2013), Fulham-ING (2013 a 2016), Monaco-FRA (2014 a 2015, por empréstimo), Southampton-ING (2015 a 2016, por empréstimo) e Everton-ING (2016 a 2020)  
Desempenho na seleção: 56 jogos, desde 2004 (44 gols sofridos)
Torneios pela seleção: Copa de 2006 (não jogou), Euro 2008 (1 jogo, nenhum gol sofrido), Copa de 2010 (7 jogos, 6 gols sofridos), Euro 2012 (3 jogos, 5 gols sofridos)

Há um ano, Maarten Stekelenburg parecia no crepúsculo de sua carreira, voltando ao Ajax para um fim coberto de respeito e homenagens onde sua trajetória começou. Há um ano, também, o arqueiro surdo de um ouvido parecia coisa do passado, em termos de seleção. Pois é: sua convocação para a Euro é mais um sinal de como as coisas mudam no futebol. Em uma reviravolta notável, "Steek" teve chance de voltar a ter uma sequência de jogos no Ajax. Aproveitou, e teve o caminho reaberto na Laranja. A reação (até inesperada) está coroada com a convocação, para ser o mais velho jogador da história da seleção neerlandesa na Euro, aos 38 anos - fará 39 em setembro.

Dono de um diploma profissionalizante como cozinheiro, o nativo de Haarlem começou a trajetória em dois clubes amadores: primeiro, o Zandvoort '75, depois o VV Schoten. Inclusive, nem era goleiro: acabou engrenando na posição ao ser experimentado nela, com sucesso, durante uma partida em que o titular faltara. E já foi jogando debaixo das traves que Stekelenburg chamou a atenção de olheiros do Ajax, aos 13 anos de idade. Simultaneamente, recebeu proposta do Haarlem, clube da cidade natal, já extinto. Mas preferiu rumar para o clube de Amsterdã.

Mais alguns anos, e Stekelenburg também começou o caminho nas seleções holandesas de base, a partir do ano 2000, quando ganhou a primeira chance na equipe sub-18 da Laranja. No ano seguinte, o goleiro já foi convocado para o Mundial Sub-20, com Louis van Gaal como técnico neerlandês e futuros colegas de seleção adulta na equipe, como John Heitinga e Arjen Robben. Stekelenburg ficou na reserva, mas já sinalizara: vinha com tudo para começar a carreira. Sinal mais fortalecido na temporada 2001/02, quando o time B do Ajax foi semifinalista da Copa da Holanda - com ele como titular do gol.

E a partir da temporada 2002/03, Stekelenburg entrou na disputa tripla que se via então no gol do Ajax, com o romeno Bogdan Lobont e o croata Joey Didulica. Mas tanto o titular quanto o reserva se lesionaram, e o jovem já apareceu numa ou noutra partida: foi titular na conquista da Supercopa da Holanda, e teve nove partidas pela Eredivisie, mais três pela Liga dos Campeões. O goleiro ainda ficou mais na reserva de Lobont em 2003/04, mas recebeu a chance definitiva na temporada seguinte: o técnico Ronald Koeman anunciou que seria Stekelenburg o titular do Ajax em 2004/05. De quebra, mereceu também sua primeira atuação pela seleção principal da Holanda: substituiu Van der Sar e jogou o segundo tempo de um amistoso contra Liechtenstein (3 a 0, em 3 de setembro de 2004).

Stekelenburg foi promissor no Ajax desde o início. Mas só a partir de 2005 se tornou titular inquestionável nos Amsterdammers (Stuart Franklin/Getty Images)

Houve ainda uma lesão, que tirou Stekelenburg da reta final daquela temporada 2004/05. Porém, em 2005/06, restabelecido, enfim ele se tornou o titular absoluto do Ajax, tanto no Campeonato Holandês quanto na Liga dos Campeões. Celebrou o primeiro título como titular do Ajax: a Copa da Holanda. E por fim, o primeiro grande torneio pela seleção holandesa: Stekelenburg foi um dos três goleiros convocados por Marco van Basten para a Copa de 2006. Aos 23-quase-24 anos, era a "aposta para o futuro".

Dali por diante, seguindo como titular inquestionável do Ajax, Stekelenburg foi ganhando uma relativa sequência no gol da Holanda: com Van der Sar já se preparando para o adeus à Laranja, jogou mais partidas nela do que o titular durante 2007 (sete, contra quatro do habitual camisa 1 holandês). Novamente, foi convocado para um grande torneio, a Euro 2008 - e nela, até atuou em uma partida, contra a Romênia, na fase de grupos. 

Após aquela Euro, Van der Sar deixou a seleção. Outro reserva habitual até então, o também veterano Henk Timmer parou de ser convocado. O caminho parecia aberto para Stekelenburg estabelecer na seleção uma trajetória tão longa quanto a que estabelecia no Ajax. 2009 colocou dúvidas sobre isso: falhando tanto pela Holanda quanto pelos Ajacieden, o arqueiro chegou a passar uns meses no banco de reservas. Com Edwin van der Sar ainda brilhando no Manchester United, não faltava quem pedisse que ele fosse "desaposentado" e defendesse a Holanda na Copa de 2010.

Mas o técnico Martin Jol chegou ao Ajax e fez de Stekelenburg novamente titular da equipe. Em fevereiro de 2010, o próprio Van der Sar pediu fim aos rumores de que voltaria à seleção, sendo claro: Stekelenburg deveria ser o titular da Holanda, na Copa que se aproximava. Foi o que aconteceu. E o camisa 1 da Laranja na África do Sul apagou as dúvidas quando mais se precisava: justamente na Copa. Fez defesas importantes já contra a Eslováquia, nas oitavas de final. E sua defesa num chute de Kaká, durante um excelente primeiro tempo do Brasil nas quartas de final, ficou historicamente fundamental: ajudou a manter a Holanda no jogo, antes da virada no segundo tempo. Novamente a Laranja caiu na final, mas Stekelenburg voltou da Copa com o melhor presente possível: ganhara o respeito de quem acompanhara futebol no país. Ninguém mais pedia a volta de Van der Sar à seleção. De quebra, ainda houvera um título com o Ajax, em 2009/10: outra Copa da Holanda.

Poucos lances são tão lembrados na campanha da Holanda pela Copa de 2010 quanto a defesa de Stekelenburg num chute de Kaká, no primeiro tempo contra o Brasil (Getty Images)

Na melhor fase da carreira, Stekelenburg concluiu a fase no Ajax com mais um título holandês - mesmo com uma fratura no dedo polegar, na reta final da temporada 2010/11. E enfim, após boatos de transferências aqui e ali, veio a aposta de um clube num centro mais competitivo: em julho de 2011, o goleiro tomava o caminho da Roma. Além do mais, continuava inquestionável na seleção, na fase madura da carreira, a caminho dos 30 anos.

Ocorreu de novo: quando tudo estava bem, a má fase perturbou Stekelenburg. Na seleção, embora sem comprometer, fez parte do vexame da Euro 2012. Na Roma, ainda em 2011, semanas após a chegada, foi atingido na cabeça pelo pé de Lúcio, durante um jogo contra a Internazionale, e desmaiou em campo - ainda assim, foi titular na maior parte da temporada de estreia, 2011/12. Já em 2012/13, titular romanista, o holandês falhou demais, a ponto de perder a posição para o uruguaio Mauro Goicochea. Ainda voltou a ter alguma sequência sob o comando de Aurelio Andreazzoli, mas seu espaço na Roma se diminuía mais e mais - bem como na seleção, onde já cedia a titularidade para vários concorrentes. 

Um forte golpe acidental na cabeça assustou e atrapalhou. Mas não foi só por ele que Stekelenburg decaiu na Roma (AFP)

Já em janeiro de 2013, houve negociações com o Fulham, fracassadas no último dia da janela de transferências. Mas em junho de 2013, tudo certo: Stekelenburg tomou o caminho do time inglês, para lá tentar recuperar alguma sequência de jogos. No começo, até deu certo: o técnico Felix Magath fez dele o titular dos Cottagers. Porém, durante a temporada 2013/14, duas lesões no ombro abriram caminho para o reserva Gavin Stockdale se estabilizar no gol do Fulham. Quando Stekelenburg voltou, já era tarde: teria de se contentar com o banco de reservas. Passou longe de ser lembrado na convocação da Copa de 2014.

Àquela altura, Stekelenburg já começava a ser lembrado menos como um goleiro digno da titularidade, e mais como um reserva experiente, sempre pronto para eventualidades. Já assim foi emprestado ao Monaco francês, na temporada 2014/15, sendo opção ao titular Danijel Subasic, e só atuando nas partidas da Copa da França. E também no empréstimo ao Southampton, onde passaria a temporada 2015/16 secundando o titular Fraser Forster, a pedido do técnico Ronald Koeman. 

Stekelenburg até reagiu no Everton. Mas àquela altura, já era mais um coadjuvante experiente do que um protagonista, a despeito de rápida volta à seleção holandesa (AFP)

Só aí se viu uma leve reação na carreira. Na primeira metade daquela temporada, Forster lesionou o ombro - Stekelenburg teve a chance, e foi bem. Forster retomou o posto, mas o nome do holandês voltara à baila. Ronald Koeman tomou o caminho do Everton após 2015/16, aproveitou que o contrato do goleiro compatriota com o Fulham se encerrava, e o levou para Goodison Park. E no começo do Campeonato Inglês, Stekelenburg pareceu recuperar a melhor forma, sendo titular do Everton. Chegou a pegar um pênalti de Sergio Agüero, contra o Manchester City (1 a 1, outubro, 8ª rodada). De quebra, num período em que Jasper Cillessen já era reserva no Barcelona e Tim Krul pelejava no banco do Ajax, o já veterano "Stekel" até voltou à seleção: jogou quatro partidas por ela, em outubro e novembro, no início da campanha fracassada nas eliminatórias da Copa de 2018.

A reação durou pouco. Logo o espanhol Joel Robles tomou a titularidade no gol do Everton. Depois, Jordan Pickford chegou para ser o nome absoluto na meta dos Toffees. Stekelenburg? Sempre na reserva. Assim ficou até 2020, já durante a pandemia. O contrato com o Everton se encerrava, e ele sinalizou que desejava voltar à Holanda. Dias depois, em junho, a surpresa: uma rápida negociação, e o retorno ao Ajax em que a história começara.

A volta ao Ajax parecia ser o começo de um digno fim. Foi um recomeço para Stekelenburg (Yannick Verhoeven/BSR Agency/Getty Images)

Como dizia o parágrafo deste longo texto, parecia o retorno para um fim de carreira respeitado. O destino transformou em recomeço: em janeiro deste 2021, o titular André Onana levou a suspensão de um ano, pelo uso de furosemida, substância proibida pela UEFA. Stekelenburg virava titular do Ajax, de uma hora para outra. Pelo menos, sua experiência o deixava mais do que preparado para a tarefa. Ele terminou como goleiro campeão holandês - e de quebra, ainda pegou até um pênalti, no clássico contra o Feyenoord, pela 32ª rodada.

As atuações seguras pelo Ajax bastaram para que um velho conhecido, Frank de Boer, o trouxesse de volta à seleção holandesa, cinco anos depois. E a experiência dos quase 40 anos, duas Euros e duas Copas longínquas depois, valem a Stekelenburg o retorno a um grande torneio pela Holanda. Por enquanto, como reserva de Tim Krul. Mas vai que...

(Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)