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terça-feira, 4 de junho de 2019

As 23 Leoas: Sarina Wiegman, a técnica

Como jogadora e treinadora, Sarina Wiegman já é uma das personagens mais importantes da história do futebol feminino na Holanda. Uma boa campanha das Leoas na Copa feminina só aumentará seu status já antológico (onsoranje.nl)

Parece até que estava escrito. Em "Koning Voetbal" (em holandês, "Rei Futebol"), livro lançado em 1989 para celebrar os 100 anos da federação holandesa, havia uma cidadã entrevistada. A história dela servia para mostrar como o futebol feminino caminhava  na Holanda, pouco a pouco: então, já havia como uma jogadora pelo menos começar a carreira no país, antes de obrigatoriamente correr mundo para se profissionalizar - afinal, a modalidade ainda era amadora. Essa cidadã atuava então no North Carolina Tar Heels, equipe universitária dos Estados Unidos. O nome dela? Sarina Wiegman, meio-campista defensiva. O tempo passou e, 30 anos depois, caberá a Sarina treinar a seleção feminina da Holanda na Copa do Mundo. Mais um passo na consolidação de seu nome como um dos mais importantes da história do futebol feminino holandês.

Nascida em 26 de outubro de 1969, na cidade de Haia, Sarina começou a jogar aos seis anos, no ESDO, clube amador onde atuava seu irmão. E foi bem vinda pelos colegas: havia sempre um lugar para ela jogar entre os meninos, porque quase sempre ela marcava gols nos jogos entre crianças. E quase sempre surpreendia os adversários. Até que houvesse o indesejável, como ela lamentava no "Koning Voetbal" em 1989: "Certa vez, anularam dois gols meus, porque eu era menina". Para resolver tal problema, o ESDO até criou um departamento de futebol feminino, em 1977. Já era tarde, conforme Sarina explicou há 30 anos: "Eu queria mais. Por isso, fui para o Celeritas, onde eles já tinham tanto um time feminino de juniores quanto um de adultas". 

No Celeritas, clube amador de Haia, a volante se desenvolveu nas equipes de mulheres. A ponto de ganhar sua primeira convocação para a seleção da Holanda, em 1986. No ano seguinte, Wiegman estreou pelas Leoas Laranjas, num amistoso contra a Noruega (curiosamente, jogo em que o treinador da equipe holandesa foi... Dick Advocaat, que faria fama entre os homens). Mais do que isso: ainda em 1987, ela deixou o Celeritas e foi para o KFC '71, clube tradicional no futebol feminino - pelo qual ganhou a Copa da Holanda, então amadora para mulheres, na temporada 1986/87. Mas Sarina precisava então de um futuro profissional além do futebol. Encontrou-o nos Estados Unidos, como já era habitual.

Sarina despontou no KFC '71, mas teve de deixar a Holanda para ter a experiência profissional no futebol feminino (Reprodução)

Em 1988, disputando o Torneio de Exibição da FIFA pela seleção da Holanda, a meio-campista conheceu Anson Dorrance, então técnica da seleção norte-americana. Dorrance fez um convite duplo a Sarina: para ir estudar na Universidade da Carolina do Norte e para jogar pelo North Carolina Tar Heels, time da universidade. Claro, a jogadora aceitou. Foi para a faculdade em 1989, começou a jogar pelo Tar Heels (onde teve no mesmo time ícones norte-americanos do futebol, como Mia Hamm e Kristine Lilly), e comemorou o título universitário nacional no mesmo ano. Vivendo nas melhores condições possíveis para jogar, Wiegman se formou em Educação Física enquanto jogava. E só restava a ela dizer em seu depoimento a "Koning Voetbal", em 1989: "O futebol feminino só poderá ser algo na Holanda quando uma competição nacional sair do papel. (...) Significa algo o fato de que só os países que mantêm uma liga feminina na Europa tenham participado da Euro".

Diplomada e campeã nos Estados Unidos, Sarina Wiegman voltou à Holanda em 1990, e encontrou o mesmo cenário amador com o qual já se acostumara. Restou a ela se tornar professora de Educação Física em escolas, até para manter a forma e continuar jogando pela seleção da Holanda, na qual já era titular absoluta. Só em 1994 ela aceitou voltar a um time, o Ter Leede. E nele ficou, conquistando lá dois campeonatos femininos holandeses (2000/01 e 2002/03) e uma Copa da Holanda (2000/01). Paralelamente, ganhara respeito pela seleção da Holanda: nas Leoas, fez 104 partidas, entre 1987 e 2001. Marcou poucos gols (3), até por se dedicar mais à marcação. Mas seu espírito de liderança ficou notável. A ponto de merecer elogios de Louis van Gaal quando chegou à 100ª partida pela seleção, em 2001 - Sarina foi a primeira futebolista holandesa a alcançar isso, antes mesmo de Frank de Boer alcançar 100 jogos pela seleção masculina, em 2003. Num discurso em 2001, Van Gaal elogiou: "Eu respeito muito Sarina. Para os homens, tudo chega pronto e arrumado. Para as mulheres é tudo mais difícil".

No ADO Den Haag, Sarina despontou como treinadora (vrouwenvoetbalnederland.nl)


Como treinadora, respeito gradual

Em 2003, aos 34 anos, grávida do segundo filho, Sarina decidiu encerrar a carreira. Se jogara no Ter Leede, no Ter Leede também começaria a treinar. E começaria com muito sucesso: na última temporada amadora do futebol feminino na Holanda, o clube conquistaria a "dupla coroa", vencendo o campeonato e a copa holandeses. Já serviu para que o ADO Den Haag contratasse Wiegman para treinar a nascente equipe feminina, que entraria na primeira Eredivisie feminina profissional, em 2007/08. Se nunca jogara pelo Den Haag em sua carreira, mesmo tendo nascido em Haia, Sarina Wiegman seria uma das grandes responsáveis pelo sucesso que manteve o clube auriverde investindo no futebol feminino - até hoje, aliás. 

Sob seu comando, o time conquistou uma Eredivisie Vrouwen (2011/12), e foi bicampeão da Copa da Holanda (2011/12 e 2012/13). Pela longa trajetória no futebol, jogando e comandando, Sarina ainda recebeu importante prêmio em 2012, sendo condecorada como "cavaleira embaixadora" ("bondsridder") pela federação holandesa. Finalmente, a ex-volante ganhou a grande chance em 2014: deixou o ADO Den Haag e foi contratada pela KNVB para ocupar dois cargos. Seria auxiliar de Roger Reijners na seleção feminina adulta, e treinaria a equipe sub-19 de mulheres. Assim, esteve na Copa de 2015, primeira aparição da Holanda numa Copa do Mundo.

Encerrada a fase de experiências, 2015 seria ano de aprendizados mais profundos. A ex-jogadora começou o curso da federação para conseguir a licença profissional da UEFA e poder treinar qualquer time europeu, de homens ou de mulheres - foi apenas a terceira mulher a fazer isso na Holanda, após Vera Pauw e Hesterine de Reus. Ainda naquele 2015, com Roger Reijners deixando a seleção após a Copa, Sarina chegou a ser escolhida como técnica interina, mas voltou a ser auxiliar em setembro, com a contratação de Arjan van der Laan para o comando das Leoas. Restou continuar o estágio no time masculino sub-19 do Sparta Rotterdam, ao lado do treinador dinamarquês Ole Tobiasen. Enfim, Sarina conseguiu o diploma de treinadora profissional. Conseguiria muito mais a partir de 2016.

A pedido das jogadoras da seleção, Sarina foi efetivada como técnica da Holanda em 2017, a alguns meses da Euro feminina. O histórico título europeu mudou seu patamar para cima (John Rhys/AFP/Getty Images)

A grande chance - aproveitada

Sob Arjan van der Laan, a seleção feminina da Holanda patinava. A situação era até normal, mas poderia estar bem melhor do que prometia após a participação na Copa de 2015. No pré-olímpico feminino, no começo de 2016, a Holanda perdera a vaga nos Jogos do Rio de Janeiro para a Suécia (futura medalhista, ganhando a prata no futebol feminino, aliás). Uma sequência de quatro derrotas em amistosos - Estados Unidos, Bélgica, Alemanha e Inglaterra - significou o fim da linha para Van der Laan, demitido em dezembro de 2016. Sarina voltou a comandar a seleção interinamente, e aí as jogadoras da seleção holandesa pediram: ela merecia a efetivação como técnica. Assim foi feito: em janeiro de 2017, Wiegman foi efetivada como treinadora das Leoas Laranjas.

Havia muito trabalho pela frente: afinal, viria uma Euro feminina em 2017, com a Holanda como país-sede. Sarina ganhou uma comissão técnica bem fornida para comandar - tendo como auxiliar um nome experientíssimo: Foppe de Haan, muito querido por torcida e imprensa, hábil treinador (fora o técnico da seleção masculina sub-21 bicampeã europeia, em 2006 e 2007). A partir daí, a técnica pôde impor seu comando. Seu estilo preferido de jogo, se valendo de contra-ataques rápidos a partir de cuidados na defesa. 

E a Euro chegou. Sarina teve problemas internos durante o torneio. Ainda na fase de grupos, a zagueira e capitã Mandy van den Berg se lesionou, sendo substituída por Anouk Dekker. Van den Berg se recuperou no decorrer da Euro, quis voltar às titulares, mas Sarina preferiu manter o time que evoluía e terminaria campeão europeu. Van den Berg se irritou: até teve a chance de erguer o troféu da Euro com Sherida Spitse, a capitã em campo, mas desde ali teve seu espaço diminuído na seleção da Holanda. Até fez as pazes com a técnica, mas nunca mais voltou a ser convocada desde então. Era apenas um arranhão, num feito histórico. Sarina Wiegman se tornara o segundo nome da história do futebol holandês a levar a seleção a um título, além de Rinus Michels com os homens, na Euro 1988. Façanha tão grande que seu nome virou favoritíssimo a alcançar o que alcançou no fim do ano: o troféu de melhor treinadora do mundo em 2017, segundo a FIFA. 

Em meio a treinos com a seleção, Sarina Wiegman recebeu seu prêmio da FIFA como melhor treinadora do futebol feminino em 2017 (Alexander Hasselstein/FIFA/Getty Images)

Desde então, Sarina virou quase um oráculo. Tem seu comando quase fora de questão na seleção feminina. É voz ativa nos destinos do futebol das mulheres dentro da Holanda - em entrevista no fim do mês passado, ao diário Algemeen Dagblad, já anunciou sua oposição à formação desenfreada de equipes femininas nos clubes da Eredivisie ("Uma Eredivisie feminina com dezoito times? Que besteira. É o pior que podemos fazer nesse momento. Não há potencial. Pode até haver mais adversários, mas isso não aumenta o nível técnico") e também à separação de equipes masculinas e femininas ("É muito tentador dizer que meninos jogam nesse time e meninas jogam naquele time. Nada disso: olhem para a idade, a ambição, o nível, a motivação. Até os 12 anos, as crianças precisam se divertir, precisam jogar juntas"). Uma boa campanha holandesa na Copa só aumentará a respeitabilidade que Sarina Wiegman conquistou no futebol feminino holandês. Jogando e treinando.

Ficha técnica
Nome: Sarina Glotzbach-Wiegman
Data e local de nascimento: 26 de outubro de 1969, em Haia (Holanda)
Clubes como jogadora: KFC '71 (1987 a 1988), North Carolina Tar Heels-EUA (1989 a 1990) e Ter Leede (1994 a 2003)
Clubes como treinadora: Ter Leede (2006 a 2007), ADO Den Haag (2007 a 2014), Holanda (2014 a 2016, como auxiliar; 2015 e 2016, como interina; e 2017, como treinadora)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As 23 Leoas: Martens

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Há nomes mais experientes, há nomes com certas qualidades que ela não mostra. Mas nenhum nome da seleção da Holanda atrai tantas expectativas para a Copa feminina quanto Lieke Martens (onsoranje.nl)

Há a velocidade de Shanice van de Sanden. A capacidade de finalização de Vivianne Miedema. No meio-campo, a experiência de Sherida Spitse, o esforço de Jackie Groenen, a capacidade de criação de Daniëlle van de Donk. Na defesa, a firmeza de Stefanie van der Gragt. Entretanto, se há um destaque supremo da seleção da Holanda na Copa do Mundo feminina, é esta da foto acima. Uma atacante que une qualidades na armação das jogadas, quando volta ao meio-campo para pegar a bola. Que também sabe ser veloz, quando é necessário. Que mostra grandes qualidades na finalização, principalmente nos chutes colocados. E que, por tudo isso, é a grande candidata holandesa a brilhar na Copa: Lieke Martens.

Dá para dizer que Lieke nem demorou muito para se revelar capaz de chegar a grandes alturas na carreira. Começando no RKVV Montagnards (clube de Bergen, sua cidade natal), aos cinco anos de idade, a jogadora foi subindo pelos times infantis do clube. Até que, aos treze anos, Martens foi convidada para jogar num combinado regional selecionado pela federação holandesa na província de Limburg, onde fica Bergen. Com as atuações por aquele time, a criança encontrou espaço num clube amador maior: o Olympia '18, da cidade de Boxmeer - que trouxe Martens por conselho de alguém muito importante: Vera Pauw, técnica da seleção feminina adulta. 

A partir de então, Lieke já merecia mais atenção. Algo confirmado em 2008, quando passou a fazer parte do projeto mantido pela federação em parceria com a HvA, universidade de Amsterdã, para descobrir talentos da Holanda no futebol feminino. Finalmente, a carreira profissional da atacante começou em 2009, quando ela foi contratada pelo Heerenveen. No clube da Frísia, o desempenho foi ruim: apenas dois gols em 18 jogos. Mas Martens usou suas atuações na seleção sub-19 da Holanda para provar o talento: na Euro Sub-19 realizada em 2010, ela foi titular na campanha das Leoas. Campanha ótima: a Holanda só parou nas semifinais, eliminada pela Inglaterra, nos pênaltis. Para a jovem, ficou melhor ainda: ela foi artilheira daquela Euro, com 4 gols, junto da alemã Turid Knaak. Naquela seleção sub-19, Martens acharia várias colegas que seguem com ela na seleção adulta atual: Merel van Dongen, Stefanie van der Gragt e Ellen Jansen, por exemplo.

Mas em clubes, dentro da Holanda, sua carreira começava de modo inconstante. De volta da Euro Sub-19, Martens se transferiu para o VVV-Venlo. Teve números razoáveis: no Campeonato Holandês da temporada 2010/11, marcou 9 gols em 20 jogos pelos Venlonaren. Mas só desabrochou a partir de 2011: nesse ano, a atacante se transferiu para o time feminino do Standard Liège, da Bélgica. No Standard Fémina, a holandesa já chegou conquistando a Supercopa feminina do país, com direito a dois gols na decisão desta Supercopa. Mais do que isso: jogando bem pelos Rouches, recebeu a primeira convocação para a seleção da Holanda, estreando num amistoso contra a China (22 de agosto, empate por 1 a 1). 

Bastou para que a atacante ganhasse a chance num grande centro europeu do futebol feminino: foi contratada pelo FCR Duisburg, da Alemanha, em janeiro de 2012. Concluiu a temporada pelo Standard com ótimas marcas (25 jogos, 17 gols), e estreou pelo clube alemão a partir de julho. Na seleção, àquela altura, já marcara alguns gols - o primeiro em fevereiro, na vitória sobre a Itália, pela amistosa Copa do Chipre. Mais importante: Martens se consolidava na ponta esquerda, mostrando bom domínio de bola. Por isso, mesmo com o mau começo pelo FCR Duisburg (5 jogos e 20 gols, em 2012/13), já foi convocada pelo técnico Roger Reijners para a seleção feminina que disputou a Euro 2013. A campanha foi ruim: queda na fase de grupos. Mas já era uma experiência valiosa.

E assim Martens seguiu. Mediana para baixo no FCR Duisburg: só dois gols, em dez jogos no Campeonato Alemão da temporada 2013/14. E mesmo assim, titular absoluta da seleção da Holanda. Por isso, outro país tradicional do futebol feminino abriu espaço para ela: a Suécia, por meio do Kopparbergs/Götebörg, que contratou Martens para a temporada 2014/15. O desempenho de Lieke já melhorou um pouco: foram sete gols, em 19 jogos pela liga sueca. Mas na seleção, ela explodiu a partir de 2014: foram outros sete gols, nas Eliminatórias da Copa de 2015 - com destaque para dois, marcados contra a Escócia, na repescagem da qualificação. A Holanda alcançou a vaga na primeira Copa feminina de sua história. E nela, Martens brilhou mais: foi titular nas quatro partidas das Leoas Laranjas, e marcou o primeiro gol holandês num Mundial de mulheres, definindo com um chute colocado a vitória por 1 a 0 sobre a Nova Zelândia, em 6 de junho de 2015, na cidade canadense de Edmonton.

Martens chuta para fazer história contra a Nova Zelândia, na Copa feminina de 2015: o primeiro gol da Holanda num Mundial (Maddie Meyer/FIFA/Getty Images)
Martens voltou do Canadá como um dos destaques da nova geração da Holanda que dominaria a seleção dali por diante. O ex-jogador Stefan Rehn, seu treinador no Kopparbergs/Götebörg, comparava sua capacidade de finalização à da compatriota Manon Melis, companheira de Martens na Copa. E após a liga sueca de 2015, com 5 gols em 18 jogos, Lieke mudou de clube: o Rosengard foi seu destino, já a partir de novembro. Enfim, a evolução notável na seleção se mostrou também em clubes: Martens fez 12 gols em 18 jogos, no Campeonato Sueco da temporada de 2016. Participou das vitoriosas campanhas do Rosengard na Copa da Suécia e na Supercopa da Suécia. Em 2017, seus números foram ainda melhores: 8 gols em 11 partidas pela Damallsvenskan. Enfim, a atacante chegava trazendo muita expectativa sobre seu desempenho na Euro feminina. Ainda mais porque a Holanda era o país-sede da Euro. E porque, antes mesmo do torneio continental, ela acertou a transferência para o Barcelona.

Pois mesmo a expectativa mais alta foi superada por Martens. Desde a estreia, a atacante dava um toque valioso de habilidade ao ataque da Holanda. Fez gol importantíssimo na vitória por 2 a 1 sobre a Bélgica, no jogo final da fase de grupos. Abriu o placar no triunfo sobre a Suécia, por 2 a 0, nas quartas de final. E deixou sua marca na final consagradora contra a Dinamarca, que rendeu o título às Leoas Laranjas. Mais do que isso: Lieke foi símbolo de ofensividade, de criatividade, de perigo ofensivo. Por isso, tão logo a Euro acabou, foi dela o prêmio de melhor jogadora do torneio. Mais do que isso: foi dela o prêmio de melhor jogadora do mundo, segundo a FIFA, em 2017.

Mais do que o título da Euro feminina, os títulos de melhor do torneio e de melhor do mundo para a FIFA impulsionaram Martens como craque a partir de 2017 (Pro Shots)
Àquela altura, Martens já era titularíssima do Barcelona. Teve números razoáveis no Campeonato Espanhol feminino: foram 11 gols em 30 partidas. Se ficou faltando o título na Primera División Femenina (o Barcelona foi vice-campeão), veio a conquista da Copa de la Reina, a copa feminina da Espanha, em 2018. Finalmente, neste 2019, veio o vice-campeonato na Liga dos Campeões feminina. Na seleção, com habilidade e até experiência, Lieke se consolidou como o vértice mais notável do trio de ataque com Miedema e Van de Sanden: foram oito gols nas Eliminatórias da Copa.

Pelo respeito imposto na seleção, pela longa trajetória que já tem vestindo laranja, pela evolução que enfim vive em clubes, por tudo isso, dá para dizer: Miedema pode fazer os gols, Van de Sanden pode ser mais veloz, mas se há alguém que mais esperança atrai da torcida holandesa para a Copa do Mundo feminina, é Martens.


Ficha técnica
Nome: Lieke Elisabeth Petronella Martens
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 16 de dezembro de 1992, em Bergen (Holanda)
Clubes na carreira: Heerenveen (2009 a 2010), VVV-Venlo (2010 a 2011), Standard Liège-BEL (2011 a 2012), FCR Duisburg-ALE (2012 a 2014), Kopparbergs/Götebörg-SUE (2014 a 2016), Rosengard-SUE (2016 a 2017) e Barcelona-ESP (desde 2017)
Desempenho na seleção: 102 jogos e 42 gols, desde 2011

domingo, 2 de junho de 2019

As 23 Leoas: Miedema

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Nos clubes, Vivianne Miedema já provou seu talento repetidas vezes. Na seleção, em torneios grandes, ainda tropeça. A Copa é a grande chance para eliminar as poucas dúvidas sobre seu talento (onsoranje.nl)

Quem acompanhava futebol na Holanda (nem precisava ser só futebol feminino) já ouvia falar, desde o começo desta década, de uma garota que fazia gols aos borbotões, prometendo ser a grande atacante da história do país no ludopédio das mulheres, um nome para se unir rapidamente a Sylvia Smit e Manon Melis como símbolo de bolas nas redes adversárias pela seleção feminina. Pois bem,  pelo menos em clubes, Vivianne Miedema justifica a expectativa: é uma das melhores goleadoras europeias. Mas pela seleção da Holanda, ainda falta uma atuação regular de "Vivi" num grande torneio, do começo ao fim. A Copa de 2019 pode ser a grande chance para ela confirmar aos olhos do mundo o que já é: uma das grandes atacantes do futebol feminino mundial.

Miedema começou a jogar aos cinco anos de idade, no HZVV, clube amador de sua cidade natal, Hoogeveen - nele, atuava entre os garotos. Em casa, a fanática torcedora do Feyenoord tinha alguém com quem dividir o gosto pela prática do futebol: o irmão Lars Miedema (hoje, atuando no time sub-19 do Zwolle). Após oito anos de HZVV, a atacante se foi para outro clube amador de Hoogeveen, o De Weide. Mas sua carreira profissional só começou em 2011, quando ela se transferiu para o Heerenveen.

Já no primeiro clube de sua carreira, Miedema mostrava estar destinada a quebrar recordes. Contratada para a temporada 2011/12, aos 15 anos, ela foi simplesmente a jogadora mais nova da história do Campeonato Holandês feminino. Seria mera curiosidade, se o talento não fosse imediatamente mostrado em campo: o primeiro gol pelo Heerenveen veio no segundo jogo pela Eredivisie feminina, contra o Zwolle, numa vitória por 4 a 3. E ao final daquela temporada, Miedema tinha marcado 10 gols em 18 jogos - noutras palavras, fora a goleadora do Fean na Eredivisie Vrouwen. Claro, Vivianne já era nome frequente nas seleções de base: só entre 2010 e 2012, passou pelos times sub-15, sub-16 e sub-17 da Holanda.

Se o bom desempenho na temporada de estreia pelo Heerenveen podia ser apenas "surpresa de principiante", Miedema se provou realidade em 2012/13, a primeira temporada da BeNeLeague, o campeonato feminino conjunto de Bélgica e Holanda. Foram nada menos do que 27 gols em 26 jogos - somando-se a disputa da Copa da Holanda, 29 gols em 28 partidas. Foi praticamente inevitável que o técnico Roger Reijners convocasse a novata, então com 17 anos de idade - e a jovem começou seu caminho pela Laranja numa vitória por 4 a 0 sobre a Albânia, em amistoso disputado em 26 de setembro de 2013.

Àquela altura, "De Koele" (em holandês, "A Fria", referência ao temperamento tímido da atacante) já era acompanhada mundo afora. Bayern de Munique-ALE, Lyon-FRA, Umea-SUE: várias potências do futebol feminino europeu queriam tirá-la do Heerenveen. Ganharam mais motivos com o desempenho exuberante que Miedema teve na temporada 2013/14 - e em todo o ano de 2014. Pelo Heerenveen, a atacante se tornou goleadora da BeNeLeague daquela temporada, com números ainda maiores: 41 gols em 29 jogos pelo clube alviazul. Depois daquilo, enfim cedeu ao interesse de um gigante, se transferindo para o Bayern de Munique. Nem brilhou tanto em 2014/15 - 17 jogos, 7 gols -, mas foi titular na primeira conquista de uma Bundesliga feminina pelo Bayern desde 1976.

Com apenas 18 anos, Miedema já chegou badalada à Copa de 2015. Mas foi mal (Maddie Meyer/FIFA/Getty Images)
Pela seleção, o brilho de Vivianne na finalização foi visto em dois momentos. Pela equipe sub-19 da Holanda, ela foi o grande destaque do título na Euro da categoria, em 2014: mais uma artilharia (6 gols), e o título de melhor jogadora da competição. Na seleção adulta, Miedema foi convocada para a repescagem das Eliminatórias da Copa de 2015, foi titular nas partidas contra a Itália - e marcou todos os gols holandeses contra a Azzurra (1 a 1 na ida, 2 a 1 na volta), sendo o destaque que fez a Holanda chegar à primeira Copa feminina de sua história, uma das grandes personagens femininas do esporte holandês em 2014. Com todos esses feitos, mesmo antes de completar 19 anos, Miedema já foi convocada para a Copa de 2015 como forte candidata a revelação do torneio, como a grande aposta da Holanda para surpreender no torneio. Esperava-se muito, e veio pouco - ou nada: vitimada por uma forte gripe durante a Copa (e um pouco afetada pela pressão), Miedema jogou mal na competição. Foi titular nas quatro partidas das Leoas, mas apareceu pouco, deixando o destaque para outra novata, Lieke Martens, e uma veterana, Kirsten van de Ven.

A explosão de Miedema com o gol do título na Euro 2017: após um começo preocupante, um fim digno de seu talento (AFP)
Mas qualquer risco de decepção se dissipou tão logo Miedema voltou ao Bayern de Munique para as temporadas regulares: em 2015/16, veio o bicampeonato alemão, e novo bom desempenho da atacante (14 gols em 22 jogos - vice-artilheira da Bundesliga Frauen). Em 2016/17, a atacante deu nova prova de sua qualidade na finalização: além de outros 14 gols na Bundesliga, foi artilheira da Liga dos Campeões Feminina (8 gols). Novamente, "Vivi" chegava a um grande torneio com expectativas por parte da torcida: era candidata a destaque na Euro feminina sediada na Holanda. O começo foi preocupante: não só passou a fase de grupos da Euro em branco, como foi criticada pelo individualismo em excesso. Mas a partir das quartas de final, Miedema embalou, ao marcar na vitória contra a Suécia. Fez mais um nas semifinais, abrindo o caminho da vitória sobre a Inglaterra. E na final contra a Dinamarca, a apoteose: dois gols, um deles fechando o triunfo por 4 a 2 que deu o primeiro grande título da seleção feminina da Holanda. Ao marcar este gol, Miedema explodiu num grito, confessando após o jogo: "Eu chorei". Era o alegre fim, após um mau começo.

A badalação voltara. E se o Bayern se aproveitara disso para contratá-la em 2014, foi a vez do Arsenal fazer o mesmo: aproveitando a manifesta vontade da atacante em ter um "novo desafio", como comentara numa entrevista, os Gunners contrataram Miedema logo após a Euro 2017. Pode não ter dado tão certo em 2017/18: veio apenas o título da Copa feminina da Liga Inglesa, com só quatro gols em 11 jogos pelo Campeonato Inglês. Porém, nesta temporada 2018/19, Miedema compensou plenamente: Arsenal campeão inglês feminino, com ela sendo a goleadora da Women Super League - 22 gols em 17 jogos, a maior goleadora de uma temporada na história do Campeonato Inglês das mulheres. O recorde foi somado a mais um prêmio: eleita pela associação dos jogadores a melhor da temporada.

O prêmio de melhor da temporada na Inglaterra foi mais do que justo: Miedema alcançou o recorde de gols numa só temporada (Barrington Coombs/PA Images/Getty Images)
Claro, na seleção Miedema seguiu absoluta do título da Euro até agora. Foram cinco gols na campanha regular das Eliminatórias da Copa, mais dois gols na repescagem que levou a Oranje a mais um Mundial. Neste 2019, em cinco jogos pela seleção, cinco gols. E Miedema chega à Copa tendo balançado as redes por 58 vezes defendendo a Holanda - só falta um gol para igualar o recorde de Manon Melis como a maior artilheira da história da seleção feminina. Seu talento nos clubes já foi testado e aprovado. A Copa de 2019 é mais uma chance para Miedema confirmar ao mundo o que já se sabe: poucos sabem fazer gols como ela, atualmente.

Ficha técnica
Nome: Anna Margaretha Marina Astrid "Vivianne" Miedema
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 15 de julho de 1996, em Hoogeveen (Holanda)
Clubes na carreira: Heerenveen (2011 a 2014), Bayern de Munique-ALE (2014 a 2017) e Arsenal-ING (desde 2017)
Desempenho na seleção: 74 jogos e 58 gols, desde 2013

sábado, 1 de junho de 2019

As 23 Leoas: Van de Sanden

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Van de Sanden ia e vinha da seleção holandesa. A partir de 2015, veio para não sair mais. E cada vez mais se destaca nas Leoas, com sua velocidade, seus cruzamentos e seus gols (onsoranje.nl)

Em sua carreira, a atacante Shanice Janice van de Sanden teve idas e vindas na trajetória pela seleção feminina da Holanda. Quando começava, teve boa sequência de jogos pelas Leoas, e prometia ser uma atacante titular por muitos e muitos anos na equipe nacional. Vieram algumas dificuldades na carreira, e Shanice virou coadjuvante. O tempo passou, as dificuldades também, Van de Sanden voltou a evoluir, voltou a ser titular, e chega à sua segunda convocação para uma Copa do Mundo no melhor momento de sua carreira: destaque no Lyon campeão europeu, fundamental no ótimo ataque da Holanda para este Mundial.

Como outras companheiras, Van de Sanden começou a carreira num clube amador: o VVIJ, de Ijsselstein, que recebeu a jovem em 2006. Mais dois anos, e aí os acontecimentos se sucederam em grande velocidade. Em clubes, ela deixou o VVIJ no começo de 2008, indo para o time de juniores do SV Saestum. Só que passou apenas alguns meses na agremiação amadora da cidade de Zeist: o SV tinha um acordo de cooperação com o Utrecht, que viu talento na atacante e já a contratou imediatamente para a equipe feminina, que disputava o Campeonato Holandês.

Mais do que isso: em 14 de dezembro de 2008, aos 16 anos, Shanice já foi convocada pela primeira vez para a seleção adulta da Holanda. Pois é: sem passagens pela base, a atacante partiu direto para o time principal das Leoas, substituindo Sylvia Smit no fim da vitória por 2 a 0 sobre a França, num amistoso. No ano seguinte, em 12 de março de 2009, veio o primeiro gol pela Holanda (o quarto, na goleada por 5 a 0 sobre a África do Sul, na amistosa Copa do Chipre). Pelo Utrecht, 15 jogos e 4 gols no Campeonato Holandês. Desempenho que já convenceu a técnica Vera Pauw: Van de Sanden foi convocada para a Euro feminina. Apareceu rapidamente - só nos últimos minutos da prorrogação contra a Inglaterra, na semifinal, quando a Holanda estava no abafa em busca do empate que não veio. Mas com a boa campanha no torneio continental (terceiro lugar), Van de Sanden era um nome para o futuro. Estava claro.

Mesmo abaixo dos 20 anos, Van de Sanden já era ativa na seleção da Holanda - até jogou contra o Brasil, em 2010, no Torneio Internacional Cidade de São Paulo (Bruno Miani/ZDL)
Mas aos poucos, Van de Sanden foi caindo de produção. Em 2009/10, mesmo com o Utrecht conquistando um título feminino (a Copa da Holanda), ela não teve gols marcados na liga holandesa, e perdeu lugar nas convocações para a seleção. Ainda achou outra chance, indo para o Heerenveen em 2010. E foi até melhor: 21 jogos, quatro gols na Eredivisie Vrouwen. Entretanto, a irregularidade na carreira só parou em 2011, quando a atacante foi contratada pelo Twente, que já se aprontava para a melhor fase de sua trajetória no futebol feminino. Em 2011/12, o desempenho ainda foi tímida: 17 jogos e três gols. Mas a partir de 2012/13, o Twente decolou, e Van de Sanden também: veio o bicampeonato da BeNeLeague, e a melhor temporada de sua carreira, com 11 gols no segundo título da liga belgo-holandesa.

Com isso, após três anos, Van de Sanden enfim voltou à seleção: em setembro de 2013, convocada por Roger Reijners, voltou a aparecer, num jogo contra a Albânia, pelas Eliminatórias da Copa de 2015. Mesmo sem ser titular, se manteve no radar das convocações, graças às ótimas atuações pelo Twente - e aos ótimos resultados do clube, que seguiam: o clube foi o melhor holandês na BeNeLeague 2014/15 (Shanice fez quatro gols em 24 jogos), e conquistou a Copa da Holanda na mesma temporada. Pareceu insuficiente: na convocação para a Copa do Mundo, o nome da atacante não estava na lista das 23 chamadas por Roger Reijners. Aí, o destino ajudou: a lateral direita Claudia van den Heiligenberg se machucou, foi cortada antes do Mundial, e Van de Sanden foi convocada. Só saiu do banco nos últimos minutos da estreia holandesa no torneio, contra a Nova Zelândia, substituindo Vivianne Miedema. Mas era seu retorno definitivo à seleção.

A partir da temporada 2015/16, com o Campeonato Holandês novamente isolado na disputa, o Twente voltou a ser campeão na Eredivisie Vrouwen. Van de Sanden voltou a ter boa média de gols (8, em 12 aparições pelos Tukkers). Além dos gols, se notabilizou pela velocidade impressionante na ponta direita, que a tornaram opção certa de jogadas ofensivas. Bastou para que viesse uma outra transferência: a atacante foi para o Liverpool. Nunca conseguiu emplacar pelos Reds no Campeonato Inglês feminino - três gols na liga em 2016, nenhum em 2017. Mas ela continuou com ritmo de jogo. Continuou sendo convocada. E era nome certo na Holanda que disputaria a Euro feminina em casa, em 2017.

Bola na direita, com Van de Sanden? Nenhum adversário conseguia pará-la na Euro 2017 (TF Images/Getty Images)
Foi exatamente aí que começou a melhor fase da carreira de Shanice. Na Euro, marcou o primeiro gol da campanha da Holanda, no 1 a 0 sobre a Noruega. Não marcou mais gols, mas nem foi necessário fazer isso: a velocidade de Van de Sanden impressionou cada vez mais no torneio europeu, sem haver zagueiras que pudessem contê-la no contra-ataque, ou evitar seus cruzamentos. A Holanda foi campeã, Van de Sanden entrou no time da competição, e dinamizou sua carreira: começaria a temporada 2017/18 contratada pelo Lyon.

E se o Lyon ainda não domina o futebol francês, faz coisa mais importante desde então: domina o futebol feminino na Europa. Com Van de Sanden como destaque: na final da Liga dos Campeões feminina, ela deu três passes para gol na vitória sobre o Wolfsburg-ALE, em 2017/18. Nesta temporada recém-encerrada, mais uma final de Women Champions League para o OL - e mais Van de Sanden fundamental: dois passes para gols nos 4 a 1 sobre o Barcelona. Na seleção, ela seguiu sendo parte absoluta do time titular. Confirmou sua importância no último amistoso, neste sábado: marcou dois gols nos 3 a 0 sobre a Austrália, coisa que não fazia pela Laranja desde 2016.

Por tudo isso, dá para dizer: Shanice van de Sanden chega quase "a jato" para se confirmar como destaque da Holanda na Copa do Mundo.

Ficha técnica
Nome: Shanice Janice van de Sanden
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 2 de outubro de 1992, em Utrecht (Holanda)
Clubes na carreira: Utrecht (2008 a 2010), Heerenveen (2010 a 2011), Twente (2011 a 2016), Liverpool-ING (2016 a 2017) e Lyon-FRA (desde 2017)
Desempenho na seleção: 63 jogos e 15 gols, desde 2008

sexta-feira, 31 de maio de 2019

As 23 Leoas: Beerensteyn

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Beerensteyn é até mais nova do que algumas companheiras de seleção feminina. Mas na hora da disputa por posições, provou-se mais efetiva do que elas, se tornando a principal opção ofensiva da Holanda no banco (onsoranje.nl)
Há atacantes mais experientes, em idade e em trajetória, entre as 23 convocadas da seleção da Holanda para a Copa do Mundo feminina. Entretanto, quando se pergunta a reserva imediata para as três titulares da frente da equipe titular das Leoas, é uma cidadã relativamente novata a resposta imediata. Tudo porque Lineth Beerensteyn mostrou força física e oportunismo, quando teve a chance de jogar. Por isso, a atacante recebeu bem mais chances do que Ellen Jansen e Renate Jansen. E está bem melhor cotada para sair do banco, se necessário.


Como nativa de Haia, era previsível que Beerensteyn já começasse nas categorias de base do ADO Den Haag, o grande clube da cidade. Deu certo: fisicamente forte, a atacante se estabeleceu rapidamente nos times inferiores dos Hagenaren. Não demorou para também chamar a atenção dos técnicos das seleções inferiores: em 2011, Lineth já aparecia em algumas convocações do time sub-15 da Holanda, pela qual fez dois jogos, sem gols marcados.

Com trajetória regular na base, a atacante enfim chegou ao time principal do ADO Den Haag. Na temporada 2012/13, sua primeira no grupo - e primeira na BeNeLeague -, ela fez poucos gols (4), mas já esteve em 25 partidas, já fazendo parte de um título (a Copa da Holanda). Nas seleções de base, o avanço seria maior. Em 2012, a avante apareceu pela seleção sub-16, em quatro jogos, para no mesmo ano ser "promovida" à Holanda feminina sub-17, pela qual fez oito jogos, entre 2012 e 2013.

Mas o sinal de que uma revelação nascia com Beerensteyn apareceu a partir de 2014. Nem tanto na temporada 2013/14 da BeNeLeague: foram só sete gols, em 18 jogos pelo ADO Den Haag. Só que depois da BeNeLeague, veio a Euro feminina sub-19. Àquela altura, ela já estava no grupo da Holanda que foi convocado para o torneio continental da categoria. E mesmo no banco de reservas durante toda a Euro Sub-19, a atacante fez parte do título europeu. Voltou para o Den Haag, e como titular, fez sua melhor temporada até então: foram 17 gols, em 24 jogos pela última edição da BeNeLeague.

A partir da temporada 2015/16, voltou o Campeonato Holandês isolado. Mas Beerensteyn continuou evoluindo, com média de gols ainda melhor: 11, em 18 jogos. O desempenho rendeu uma transferência para o Twente, campeão feminino na Holanda. Mais do que isso: com inconstância nas opções de ataque da seleção da Holanda (Manon Melis deixando as Leoas em definitivo, Ellen Jansen e Renate Jansen sem saírem a contento), Lineth começou a ser olhada com atenção. E estreou pela Laranja num amistoso em 20 de outubro de 2016, contra a Escócia. Mais: já fez gol, o segundo na goleada por 7 a 0.

No Twente, foram poucos gols na temporada 2016/17: 9, em 21 jogos. Todavia, Beerensteyn seguiu com desempenho elogiável pela seleção feminina: nos dois primeiros amistosos da Oranje em 2017, em janeiro, fez dois gols. Com isso, já foi convocada para a Euro feminina que a Holanda disputaria em casa. Saiu do banco em quatro partidas do torneio continental. E fez parte da histórica campanha concluída com o primeiro título principal da Holanda no futebol feminino.

Sem Miedema, a Holanda precisou de Beerensteyn na repescagem das Eliminatórias da Copa. E ela foi útil: três gols (Peter Lous/Soccrates/Getty Images)
Beerensteyn foi mais uma a lucrar com a vitória das Leoas na Euro: foi contratada pelo Bayern de Munique, para suceder justamente aquela de quem era (e é) reserva na seleção, Vivianne Miedema. Foi discreta no time alemão: 10 jogos e dois gols. Mas era vestir laranja, que a atacante provava talento. Provou principalmente num momento fundamental: em outubro de 2018, nas semifinais da repescagem pela última vaga da Europa na Copa do Mundo. Naquelas partidas contra a Dinamarca, Miedema estava machucada. Beerensteyn recebeu a responsabilidade de ser a titular. Plenamente justificada: abriu o placar no 2 a 0 do jogo de ida, e marcou os dois gols nos 2 a 0 da volta, colaborando para a Holanda afinal chegar à Copa.

Por tudo isso, mesmo discreta no Bayern (na temporada atual, foram apenas três gols em 19 jogos), Beerensteyn superou as colegas na disputa por posição na seleção. Continua sendo reserva: o trio Van de Sanden-Miedema-Martens ainda é absoluto na Holanda. Mas já provou: sabe fazer gol pela Oranje. Pode ser de muita utilidade na Copa.

Ficha técnica
Nome: Lineth Beerensteyn
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 11 de outubro de 1996, em Haia (Holanda)
Clubes na carreira: ADO Den Haag (2012 a 2016), Twente (2016 a 2017) e Bayern de Munique-ALE (desde 2017)
Desempenho na seleção: 39 jogos e 9 gols, desde 2016

quinta-feira, 30 de maio de 2019

As 23 Leoas: Ellen Jansen

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Em clubes, Ellen Jansen só começa a ver agora como é a vida fora do Twente. Na seleção da Holanda, pouco jogou (onsoranje.nl)
Se há um clube tradicional no futebol feminino da Holanda, é o Twente. Na curta história profissional da modalidade, a agremiação vermelha de Enschede começou sendo campeã holandesa uma primeira vez, na temporada 2010/11. Veio a BeNeLeague, fusão com a liga feminina da Bélgica, e com ela um bicampeonato dos Tukkers no Benelux (2012/13 e 2013/14). E com o retorno da Eredivisie Vrouwen holandesa, mais dois títulos (2015/16 e agora, 2018/19). Uma jogadora esteve em grande parte dessa história do Twente: a atacante Ellen Jansen. Agora no Ajax, Ellen está entre as convocadas para a seleção feminina da Holanda que disputará a Copa do Mundo - e deverá ficar na reserva do ataque, com poucas chances de ser utilizada, como a "xará de sobrenome" Renate.

Se nunca encontrou muito espaço para ser titular no ataque da Laranja, Ellen encontrou o clube que simbolizou rapidamente. Nascida em Markelo - cidade da região do Twenthe, na província de Overijssel -, Jansen até começou atuando lá, a partir dos quatro anos de idade, no SC Markelo, clube amador. O tempo passou, a criança virou adolescente, e na hora em que o futebol virou uma possibilidade real, para onde Ellen Jansen foi? Claro, para o Twente, de Enschede, cidade próxima de Markelo. Em 2007, ela passou a se dividir entre os jogos amadores, pelo SC Markelo, e as partidas profissionais, pelas categorias de base do Twente.

Já uma atacante de presença forte na área, Jansen agradou tanto nos Tukkers que se transferiu para jogar no Twente em tempo integral, em 2008. Àquela altura, ainda estava na equipe feminina de juniores do clube, mas jogou tão bem que a treinadora da equipe adulta, Mary Kok, nem pestanejou: já a promoveu para o time principal ainda durante a temporada 2008/09 - e a atacante chegou a marcar dois gols, nas onze partidas que fez no Campeonato Holandês. Em 2009/10, o rendimento pelo clube já cresceu um pouco mais: foram 20 jogos e cinco gols pela Eredivisie.

Também em 2009, começou o trajeto da atacante pelas seleções holandesas. Que foi até mais fulgurante. Na estreia dela pela seleção sub-19 da Holanda, o amistoso contra Israel terminou em 9 a 1 para as Leoas - e Ellen marcou os três primeiros gols da partida. No segundo jogo pela seleção sub-19, contra a Lituânia, a Holanda fez 7 a 0: mais três gols de Jansen. Bastou para se tornar titular já nas Eliminatórias da Euro Sub-19, ajudar na classificação da Holanda e, na Euro Sub-19 de 2010, fazer quatro jogos pela Holanda, que terminou eliminada nas semifinais. Surgia mais uma atacante, e aquilo não passou despercebido pela comissão técnica da seleção principal. Ainda em 2010, Ellen Jansen estreou pelas Leoas - por sinal, fez a primeira partida em São Paulo, em 12 de dezembro, substituindo Sylvia Smit na derrota por 3 a 2 para o Brasil, no Torneio Internacional Cidade de São Paulo.

Porém, a concorrência no ataque da seleção holandesa era grande demais para que Ellen fosse lembrada nas convocações de Roger Reijners, então o técnico da Oranje. Então, gradativamente, a jovem foi perdendo espaço. No Twente, era exatamente o contrário: sua evolução era notável na frente dos Tukkers. Ellen se transformou na "mulher-gol" daquele time que crescia e aparecia na Holanda. Começou no título da BeNeLeague 2012/13, quando teve exatamente meio gol por jogo (13, em 26 partidas). E consolidou isso na BeNeLeague 2013/14: se destacou no bicampeonato do Twente, com 24 gols em 27 partidas.

Nos dez anos de Twente, temporada após temporada, Ellen Jansen sempre foi sinônimo de gols (Twentsche Courant Tubantia)
O tempo passou, o Campeonato Holandês voltou a ser disputado isoladamente, e Ellen Jansen continuou numa boa no Twente: no título nacional em 2015/16, foram 17 gols em 24 jogos. Em 2016/17, 20 tentos em 24 jogos. Valeu, acima de tudo, para recolocá-la nas convocações para a seleção holandesa, àquela altura já treinada por Sarina Wiegman. Mesmo sem ter ido à vitoriosa campanha na Euro 2017, ela voltou a jogar um amistoso aqui e outro ali pela Laranja - e até marcou um gol, no amistoso contra a Escócia, em 2016.

Veio a chance no Ajax, e Ellen continuou balançando as redes (VI Images)
Os bons desempenhos pelo Twente, temporada após temporada, fizeram com que Ellen ganhasse uma chance de saber como era a vida fora de Enschede: na metade de 2018/19, foi ela um dos grandes reforços para o time feminino do Ajax. Foi bem de novo, com 24 jogos e 14 gols pelo Ajax Vrouwen na Eredivisie desta temporada recém-encerrada. Como já vinha sendo convocada para torneios amistosos (como a Copa Algarve, em 2018) e para a campanha nas Eliminatórias da Copa, Ellen Jansen se sobressaiu entre a concorrência. Ganhou uma vaga entre as 23 do Mundial. Provavelmente, passará o torneio na reserva. Se a Holanda precisar dela em algum momento, gols ela sabe fazer. Provou isso nos clubes. Principalmente no Twente, claro. 

Ficha técnica
Nome: Ellen Jansen
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 6 de outubro de 1992, em Markelo (Holanda)
Clubes na carreira: Twente (2008 a 2018) e Ajax (desde 2018)
Desempenho na seleção: 14 jogos e 1 gol, desde 2010

quarta-feira, 29 de maio de 2019

As 23 Leoas: Renate Jansen

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Renate Jansen já atua pela seleção da Holanda desde 2010, mas nunca conseguiu a titularidade. E dificilmente conseguirá na Copa (onsoranje.nl)


O caso da atacante Renate Jansen é daqueles que, em geral, entristece a jogadora, embora jamais ela vá confessar isso. Renate já tem experiência de sobra: atacante das mais conhecidas do futebol holandês, nome frequente nas convocações da seleção, já tem muitos anos de serviços prestados à Laranja... mas sempre há opções melhores à disposição dos treinadores para o time titular. Por isso, Jansen geralmente fica no banco de reservas. E assim deverá ser na Copa do Mundo feminina, a primeira de sua carreira.

Renate começou a jogar já numa tenra idade: aos 5 anos, já dava seus chutes no SV Abbenes, da cidade natal - o pai e um tio eram técnicos no clube amador. E lá ela ficou, até os 15 anos de idade, quando continuou a trajetória na base do VV Kagia, outra agremiação amadora. Àquela altura, Jansen já se consolidava como atacante, atuando preferencialmente no meio da área, tendo a finalização como sua principal qualidade.

Numa família entretida com o futebol, incentivo não lhe faltou para seguir a carreira. Esta ganhou o impulso decisivo em 2007: não só a atacante se transferiu para o Ter Leede, mais uma equipe amadora, como simultaneamente passou a fazer parte do projeto de formação de jogadoras mantido pela parceria entre a federação holandesa e a HvA, universidade de Amsterdã. Em um ano, o talento de Renate Jansen foi notado definitivamente: ela recebeu a primeira chance num time profissional, indo estrear na equipe feminina do ADO Den Haag, que já disputava o Campeonato Holandês. Por sinal, a responsável por trazer a atacante ao clube de Haia foi uma tal Sarina Wiegman, então treinadora do Den Haag.

No clube auriverde, Renate virou titular desde o começo. Já na primeira temporada completa pelo ADO Den Haag (2008/09), foram 23 jogos e 9 gols. A partir de 2010, novo salto de desempenho: nesse ano, já veio a primeira convocação de Jansen para a seleção feminina da Holanda - e a primeira partida, em 1º de abril, contra a Eslováquia, pelas Eliminatórias da Copa de 2011, substituindo Kirsten van de Ven nos últimos oito minutos. Finalmente, na temporada 2010/11, foram 21 jogos e 14 gols de Jansen pela Eredivisie Vrouwen. Mas o ápice veio na temporada 2011/12: o ADO Den Haag ganhou a "dupla coroa" na Holanda, sendo campeão na copa e na liga holandesas, e Jansen foi a goleadora do time na Eredivisie - foram 10 gols em 18 jogos.

A partir da temporada 2012/13, porém, as coisas mudaram um pouco. A Eredivisie se uniu ao campeonato feminino da Bélgica para formar a BeNeLeague, e o ADO Den Haag ficou apenas com a quinta posição. Mas Jansen seguiu bem: 15 gols em 28 jogos. Na temporada seguinte da BeNeLeague, então, foi ainda melhor: em 25 partidas, 21 bolas da atacante nas redes. Todavia, a concorrência era ingrata na seleção. Havia Van de Ven, Manon Melis, as revelações que eram Lieke Martens e Vivianne Miedema... e Renate Jansen passava longe da Laranja. Ficou fora da Euro 2013 e da Copa de 2015.

Renate Jansen já tivera bons momentos no ADO Den Haag, e seguiu confiável no Twente (twenteinsite.nl)
O tempo passou, a Eredivisie voltou a ser disputada isoladamente, e era hora de Jansen buscar novos ares. A chance apareceu no melhor lugar possível: o Twente, vice-campeão da BeNeLeague, considerado o melhor time feminino da Holanda então, trouxe a avante, que deixou o ADO Den Haag após 109 gols em 181 jogos. O primeiro ano passado em Enschede foi melhor do que se podia imaginar: 13 gols em 23 jogos, e Renate era parte importante do Twente campeão feminino na Holanda.

Melhor ainda: o bom desempenho no Twente levou Renate de volta ao radar das convocações para a seleção da Holanda. Sob o comando de Arjan van der Laan, vieram alguns amistosos em 2016. Mas foi com uma velha conhecida como técnica das Leoas que a atacante voltou de vez às chamadas. Sarina Wiegman levou Jansen para a disputa da Copa Algarve em 2017. Principalmente, a incluiu entre as 23 convocadas para a Euro sediada na Holanda. E no marcante título europeu da Oranje, Renate Jansen entrou em quatro partidas, incluindo a final. Quando Miedema se cansava, ou quando a velocidade já não era a mesma para Lieke Martens e Shanice van de Sanden, Jansen servia como uma importante referência no ataque, para reter a bola.

Assim ela continuou no Twente. Marcando menos gols, é verdade - seis em 2016/17, 8 em 2017/18, 7 na temporada 2018/19. Mas seguiu titular na equipe feminina dos Tukkers, recém-consagrada campeã feminina holandesa. Seguiu como opção experiente no banco da seleção holandesa feminina. E tem sua utilidade entre as convocadas para a Copa.


Ficha técnica
Nome: Renate Jansen
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 7 de dezembro de 1990, em Abbenes (Holanda)
Clubes na carreira: ADO Den Haag (2008 a 2015) e Twente (desde 2015)
Desempenho na seleção: 35 jogos e 3 gols, desde 2010

terça-feira, 28 de maio de 2019

As 23 Leoas: Groenen

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Jackie Groenen já tinha uma trajetória longa no futebol (e no esporte) antes de 2016. Ali, uma lacuna se abriu na seleção da Holanda. Ela aproveitou, e virou titular absoluta no meio-campo (onsoranje.nl)

Em certos momentos, há um "vácuo" numa equipe de futebol. A lacuna se abre numa posição, e quem estiver no lugar e na hora certos, fazendo a coisa certa, do jeito certo, se tornará a dona da posição na equipe. Foi exatamente isso que aconteceu com Jackie Groenen: até que demorou para ela chamar a atenção na seleção feminina da Holanda. Entretanto, na época de sua estreia pelas Leoas, havia um problema tático a ser resolvido no meio-campo. Groenen aproveitou a chance, agradou a técnica Sarina Wiegman, e hoje é uma fundamental meio-campista na equipe holandesa.

Mas ao invés de meio-campista holandesa, Jackie Groenen poderia ter sido uma judoca belga. Afinal de contas, por mais que tivesse nascido na Holanda (mais precisamente, na cidade de Tilburg), Groenen morava com a família na cidade de Poppel, na Bélgica. E passou toda a infância em Poppel. Entretanto, na hora de começar a jogar, era mais cômodo cruzar a fronteira, como a meio-campista comentou numa série de entrevistas ao jornal De Volkskrant: "Morávamos na Bélgica, mas na Holanda, você podia jogar num time de garotos até os 19 anos". E lá se foram duas irmãs Groenen, Jackie e Merel, jogarem no GSBW (Goirlese Sportvereniging Blauw-Wit), clube amador da cidade de Goirle. Ambas motivadas também pelo pai, um amante de futebol. E a dupla Jackie-Merel seguiu por mais dois clubes amadores da Holanda, o VV Riel e o Wilhelmina Boys. Nas seleções de base, o caminho de Jackie começou em 2009, com a primeira convocação para a equipe sub-17 da Holanda -foram seis jogos pela equipe, até 2010.

Enquanto começava no futebol, Jackie Groenen também fazia bonito no judô. Mas as lesões no tatame e o amor pela bola a levaram a deixar a modalidade de lado (judoinside.com)
Só que Jackie também começava a subir de nível no judô. Isso mesmo: o projeto de meio-campista também se revelava judoca promissora nas categorias menores, conquistando o tricampeonato holandês sub-15 na categoria feminina até 32 kgs (2007, 2008 e 2009). Em 2010, Groenen subiu de categoria no judô - passou a competir entre as judocas até 40kgs -, e continuou tendo grandes resultados. Na categoria até 44kgs, foi vice-campeã holandesa sub-20; até 40kgs, foi campeã holandesa e terceira colocada no campeonato europeu sub-17 de judô. Mais um ano, e em 2011, veio outro troféu: campeã holandesa sub-20 de judô, na categoria até 44kgs.

Em 2011, chegou a hora de escolher um caminho. No futebol, ainda com a irmã Merel Groenen, Jackie começou a carreira profissional, indo para a Alemanha, jogar no SGS Essen - fez seis jogos na temporada 2010/11. Logo que a temporada se encerrou, Groenen acertou a transferência imediata para o FCR Duisburg. Todavia, continuava acumulando a carreira no judô. Até que, um dia antes de uma rodada do Campeonato Alemão feminino, a jogadora sofreu uma fratura lombar numa luta no tatame. Ficou de fora, e foi repreendida pela direção do clube de Duisburg. Ali, Jackie Groenen tomou sua decisão profissional. A judoca encerrava a carreira, e o futebol virava prioridade. De certa forma, era a antecipação do que ocorreria, mais cedo ou mais tarde: Jackie disse à revista inglesa She Kicks que sempre preferiu o futebol, e que seria a sua opção definitiva.

A partir dali, como jogadora, Groenen se consolidou. No FCR Duisburg, ainda jogava pouco, mas já fazia seus gols: foram dois pela Bundesliga feminina em 2012/13, e mais dois em 2013/14. Ainda pelas seleções de base, a jogadora fez mais partidas pelo time sub-19 da Holanda. Porém, o clube de Duisburg dissolveu seu departamento de futebol feminino. A carreira profissional poderia ter acabado ali, até porque ela já começara o curso de Direito, na Universidade de Tilburg. Aí entrou o Chelsea: após entrar e sair do MSV Duisburg sem jogar oficialmente por ele, Groenen foi contratada pelos Blues, estreando em abril na Women Super League inglesa, num jogo do Chelsea contra o Bristol City (2 a 0 Chelsea). Foram poucas aparições defendendo o time de Stamford Bridge, em duas temporadas da liga inglesa: 14 jogos e 2 gols em 2014, 6 jogos e nenhum gol em 2015.

Só mesmo dentro de campo a sorridente Groenen mantém a seriedade (Simon Hofmann/Getty Images)
Foi ao voltar para a Alemanha que a carreira de Groenen deslanchou de vez. Em 2015, ela foi contratada pelo FFC Frankfurt. E só na equipe feminina de Frankfurt é que ganhou sequência como titular: na Bundesliga das mulheres pela temporada 2015/16, já foram 21 jogos, marcando um gol, exibindo qualidade na criação de jogadas (principalmente pelos lados). Paralelamente, chegava a hora de jogar por uma seleção feminina adulta. Pelos tempos passados na Bélgica, a meio-campista pensou em defender as Diablets. Nada feito: não tinha o passaporte belga. Mas a experiência nas seleções de base da Holanda foi lembrada: a jogadora foi chamada pelo técnico Arjan van der Laan, e teve sua primeira partida pelas Leoas num amistoso contra a Dinamarca, em 22 de janeiro de 2016.

Na temporada 2016/17, Groenen evoluiu pelo FFC Frankfurt: foram 22 jogos e 4 gols no campeonato alemão. Ao mesmo tempo, a seleção da Holanda vivia a tal "lacuna" de que o começo deste texto falava. Sarina Wiegman assumiu o comando da Laranja, e via a zagueira Stefanie van der Gragt sofrer com lesões, tendo de recuar costumeiramente a meio-campista Anouk Dekker para a defesa. Abria-se um espaço no meio-campo. Jackie estava a postos. Virou titular da Holanda, na reta final de preparação para a Euro 2017. Eis que tudo se acertou: Groenen se entrosou à perfeição com as colegas Sherida Spitse e Daniëlle van de Donk, a Holanda conquistou o título europeu, e Jackie foi escolhida entre as melhores jogadoras da Euro.

O título consolidou Jackie Groenen como destaque. De volta ao FFC Frankfurt, foram 20 jogos e 6 gols na temporada 2017/18 da Bundesliga feminina. Na seleção, veio mais um título, na amistosa Copa Algarve de 2018, e a titularidade absoluta na campanha das Eliminatórias da Copa. Groenen só se ausentou da repescagem que decidiu a vaga da Holanda no Mundial, por lesão no joelho. Nem isso freou sua utilização como um dos "símbolos" das Leoas na mídia: sorridente e bem-humorada, Jackie foi alvo de várias fotos e entrevistas - por exemplo, na série de preparação para a Copa feminina que o De Volkskrant está fazendo, desde março.

Nem a lesão no joelho que a tirou da repescagem que pôs a Holanda na Copa tirou o sorriso da cara de Groenen (Geert van Erwen/Soccrates/Getty Images)
De nada adiantaria, se Groenen não oferecesse qualidade nos ataques da Holanda, criando as jogadas pelos lados e se alternando bem com Van de Donk nas ajudas ao trio ofensivo das Leoas. Por isso, ela já terminou a temporada 2018/19 de contrato assinado para estrear no Manchester United, logo que o Mundial termine. Groenen chega à Copa como titular absoluta da seleção. E é candidata a destaque holandês. Se a chance aparecer, ela pode aproveitar. Já aproveitou uma vez.

Ficha técnica
Nome: Jackie Noëlle Groenen
Posição: Meio-campista
Data e local de nascimento: 17 de dezembro de 1994, em Tilburg (Holanda)
Clubes na carreira: SGS Essen-ALE (2011), FCR Duisburg-ALE (2011 a 2014), MSV Duisburg-ALE (2014), Chelsea-ING (2014 a 2015), FFC Frankfurt-ALE (2015 a 2019) e Manchester United-ING (desde 2019 - contrato já assinado, estreará depois da Copa do Mundo feminina)
Desempenho na seleção: 46 jogos e 2 gols, desde 2016

segunda-feira, 27 de maio de 2019

As 23 Leoas: Van de Donk

Entre 12 de maio e 4 de junho, o Espreme a Laranja traz um texto descrevendo a carreira de todas as 23 convocadas para a seleção da Holanda que disputará a Copa do Mundo feminina. 


Van de Donk aparece pouco aos olhos de torcida e imprensa, mas já é titular absoluta da seleção da Holanda há muitos anos - e pode virar protagonista, se necessário (onsoranje.nl)



Daniëlle van de Donk é até pouco falada na seleção feminina da Holanda. Não se destaca publicamente quanto as três atacantes das Leoas, não tem a experiência e a vitalidade de Sherida Spitse. Mas Van de Donk talvez seja a meio-campista tecnicamente mais capacitada na seleção: tem qualidade na criação das jogadas e na distribuição da bola em campo. Não à toa, já é titular da Laranja há pelo menos seis anos. E a não ser por um desastre nos dias finais de preparação, estará a postos como camisa 10 para mais um torneio grande pela seleção.

Van de Donk repetiu em sua trajetória um traço comum a muitas de suas companheiras de seleção: começou jogando num time amador da cidade natal - no caso, o SV Valkenswaard. Dali, foi para outro clube amador, de cidade vizinha: o VV Una, de Veldhoven. Entretanto, tão logo o futebol feminino holandês recebeu o impulso da profissionalização (com o advento da Eredivisie feminina, em 2007), a adolescente já recebeu atenção. Em clubes, Van de Donk achou espaço no Willem II, sendo contratada em 2008 - e marcando um gol em 18 jogos, pelo campeonato. No mesmo ano, em setembro, passou a jogar pela seleção sub-19, contra a Dinamarca - e já marcou um gol.

Foi suficiente para que a técnica da seleção principal, Vera Pauw, já incluísse a novata de 17 anos na convocação para um jogo contra a Bélgica, nas Eliminatórias da Euro 2009. Van de Donk já agradava, e só teve o desenvolvimento da carreira retardado por uma grave lesão: no meio da temporada 2009/10 do campeonato feminino da Holanda, a armadora sofreu um rompimento de ligamentos no joelho. Só voltou ao Willem II com a temporada seguinte já em andamento. Mas se adaptou rapidamente aos Tricolores (foram 21 jogos e 4 gols na liga). Mais importante: o técnico Roger Reijners se lembrou da meio-campista, voltou a convocá-la para a seleção principal, e Daniëlle estreou pela Holanda em 15 de dezembro de 2010, na vitória por 3 a 1 sobre o México, no Pacaembu, em jogo pelo Torneio Internacional Cidade de São Paulo, certame amistoso.

Sem muito espaço no meio-campo do Willem II após a lesão, Van de Donk mudou de ares na temporada 2011/12: se foi para o VVV-Venlo. Nos Venlonaren, pôde dar vazão ao estilo mais ofensivo: criando as jogadas e chegando ao ataque, ela marcou 8 gols em 18 jogos. Na seleção, seguiu merecendo chances, vinda do banco, marcando o primeiro gol contra a Sérvia, nas Eliminatórias da Euro 2013. E veio outra grande chance, com a contratação para o time feminino do PSV - então, em parceria com o FC Eindhoven. E a temporada 2012/13 da BeNeLeague (campeonato conjunto entre times femininos de Bélgica e Holanda) serviu para a explosão de Daniëlle: foram 14 gols em 22 jogos pelo PSV/FC Eindhoven. Concluindo, a meio-campista foi convocada para a Euro 2013 - e foi titular da Holanda, na campanha com a eliminação precoce na fase de grupos.

Já na Copa de 2015, Van de Donk era titular da seleção da Holanda (Shaughn Butts/Edmonton Journal)
Mesmo com a má campanha na Euro, já se sabia que Van de Donk estava pronta para ser a principal criadora ofensiva da seleção da Holanda. A temporada 2013/14 da BeNeLeague deu essa certeza: foram 31 gols em 24 partidas pelo PSV/FC Eindhoven, com a meio-campista sendo o destaque do time na temporada. Faltaram os títulos - no máximo, houve um vice-campeonato na Copa da Holanda. Mas Daniëlle manteve o bom nível em 2014/15: 10 gols em 18 jogos pela BeNeLeague. Assim, também se garantiu na convocação para a primeira Copa do Mundo feminina de que a Holanda participou, em 2015 - e na Copa, Van de Donk se destacou como a principal armadora da seleção.

A participação no Mundial já fazia o futebol feminino chamar atenção na Holanda, mas ainda não facilitava a vida da meio-campista, que lamentou ao diário De Volkskrant, em 2015: "A rigor, eu sou jogadora profissional. Mas não acho que o mundo me veja assim. Se você vê como vivemos, somos profissionais. Mas eu estudo, outras trabalham. É uma combinação estranha. Eu moro com meus pais e jogo no PSV. Se eu gastar muito, vai faltar dinheiro. Daí eu prefiro poupar para estudar”. Pelo menos, após a Copa, as preocupações profissionais diminuíram: Van de Donk se transferiu para o Kopparbergs/Göteborg, da Suécia, podendo manter a carreira no campo. Ficou pouco no clube: 18 jogos e 4 gols pela temporada 2015/16 do Campeonato Sueco. Mas só ficou pouco porque uma chance ainda maior apareceu para ela.

Van de Donk se preocupava com a sequência da carreira profissional, após a Copa de 2015. As transferências para Suécia (Kopparbergs/Göteborg) e Inglaterra (Arsenal) resolveram isso (Getty Images)
A chance surgiu pelo Arsenal: o clube inglês acertou a contratação da meio-campista, ainda no fim de 2015. E no ano seguinte, ela já estreou pelos Gunners, podendo celebrar, enfim, o primeiro título da carreira: a Copa da Inglaterra, ganha sobre o Chelsea, com a meio-campista como titular. Coisa melhor ainda viria em 2017: titular da seleção holandesa por todo esse tempo, "Daan" (seu apelido) foi óbvia presença na Holanda durante a Euro feminina. Não só foi titular em todas as partidas da campanha da Laranja (só saía nos acréscimos, para dar lugar a Jill Roord), mas também marcou o segundo gol na vitória contra a Inglaterra, nas semifinais. E mesmo pouco falada, Van de Donk foi fundamental para o título da Holanda.

De lá para cá, Van de Donk seguiu como nome certo no Arsenal, pelo qual conquistou o título da Copa da Liga Inglesa, na temporada 2017/18, e o título inglês desta temporada. Na seleção, ela segue como dona da camisa 10, criando as jogadas de ataque - e às vezes, até as finalizando, como no amistoso contra o Chile, em março, quando a Holanda fez 7 a 0 com três gols dela. Não restam dúvidas: Van de Donk chega capacitada para ser titular absoluta da Laranja na Copa. E se for necessário, a coadjuvante pode virar protagonista.

Ficha técnica
Nome: Daniëlle van de Donk
Posição: Meio-campista
Data e local de nascimento: 5 de agosto de 1991, em Valkenswaard (Holanda)
Clubes na carreira: Willem II (2008 a 2011), VVV-Venlo (2011 a 2012), PSV/FC Eindhoven (2012 a 2015), Kopparbergs/Göteborg-SUE (2015) e Arsenal-ING (desde 2015)
Desempenho na seleção: 88 jogos e 16 gols, desde 2010