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domingo, 14 de junho de 2026

Se mudar, estraga

Na equilibrada estreia na Copa, contra o Japão, a Holanda mostrou capacidade técnica, evoluiu e chegou a ter a vantagem. Mas as mudanças do técnico Ronald Koeman deram errado, e o castigo foi duro, com o empate japonês (Jose Breton/Pics Action/NurPhoto/Getty Images)

O empate por 2 a 2 com o Japão, marcando a estreia da Holanda (Países Baixos) nesta Copa do Mundo, pode ser visto de duas maneiras. Há o lado positivo: ao contrário das preocupações que os amistosos trouxeram, a Laranja cresceu em ambiente competitivo, melhorou, até fez por merecer a vitória. Mas há o lado negativo visto no estádio de Dallas (mais precisamente, de Arlington, subúrbio): ele está focado nas alterações do técnico Ronald Koeman, que tiraram a velocidade neerlandesa e permitiram que o Japão crescesse na reta final, até o empate que conquistou.

Como se pensava, a Laranja começou tendo mais a bola nos pés. Mas como não se pensava, a primeira chance veio rapidamente: Cody Gakpo fez sua jogada habitual pela esquerda aos 3', passou a Donyell Malen, e este só não fez o gol pela excepcional defesa de Zion Suzuki. Além do mais, a equipe neerlandesa logo impôs seu ritmo: não tinha muito espaço para atacar, mas também não dava espaço para os temidos e velozes contragolpes do Japão. Que no início, só teve qualquer coisa parecida com uma oportunidade de gol aos 15', quando Shogo Taniguchi avançou e cruzou, e Daizen Maeda (opção nova no ataque) desviou para fora, acossado por Jan Paul van Hecke. Ou aos 27', quando Hiroki Ito, outro defensor a ter avançado, aproveitou um chute e mandou muito acima do gol.

Só que os holandeses só voltariam a chegar perto do gol aos 30', sem muito perigo (cabeceio desajeitado de Denzel Dumfries). O perigo veio, sim, aos 34': num escanteio, Malen cabeceou e Suzuki rebateu - na sequência da jogada, ainda, Tijjani Reijnders mandou a bola para fora. Aos 36', a chance poderia ter sido perigosa, mas Gakpo escorregou na hora de finalizar, errando a meta. O Japão se continha, ficava nos contra-ataques... mas só ficou perto do gol quando "cortou caminho", com lançamentos longos. Foi assim aos 43', quando Daichi Kamada cruzou, e Keito Nakamura dominou bem, mas chutou para fora. Ou aos 45': a bola saiu dos pés de Taniguchi, chegou a Ayase Ueda, mas o atacante finalizou na rede pelo lado de fora. As duas seleções se protegiam bastante. Faltava alguma ser mais aguda em campo.

Summerville e Gravenberch (de frente) foram responsáveis por fazerem a Holanda crescer de produção no segundo tempo. Poderiam ter ficado em campo... (Jose Breton/Pics Action/NurPhoto/Getty Images)

A Holanda decidiu ser isso, tão logo o segundo tempo começou. Com menos de um minuto de segundo tempo, Summerville tentou uma jogada, cruzou a bola para a área, mas ninguém finalizou. Virgil van Dijk fez isso, da melhor maneira possível para os holandeses: aos 50', Ryan Gravenberch cruzou, e o capitão da Laranja cabeceou para o primeiro gol dela nesta Copa do Mundo. Claro que o Japão teria mais espaço e obrigação para atacar, e também não demorou muito para empatar: já aos 57', com a bola circulando perto da defesa holandesa, Nakamura bateu de média distância, a bola desviou em Daizen Maeda (ou terá sido em Van Hecke?), e o 1 a 1 japonês estava garantido.

De todo modo, mesmo com o empate, a Laranja seguiu calma, sem se abalar. Gravenberch, especialmente, seguia como desafogo na direita. Assim como... Summerville. E os dois teriam participação decisiva no segundo gol holandês, com bola no pé, aos 64'. Primeiro, o meio-campo fez excelente jogada, e deu sequência a ela entregando a pelota para que o camisa 24, praticamente novato - só dois jogos pela Laranja - fizesse 2 a 1, aos 64'. Desde então, a seleção europeia começou a se recuar, gradativamente, para jogar com três zagueiros. Mostras disso foram as alterações no segundo tempo, logo após a pausa para hidratação na etapa final: mesmo jogando bem, ambos, Reijnders e Summerville foram substituídos. E Memphis Depay, enfim entrando em campo, reduziu a velocidade que o ataque tinha com Malen.

O excessivo recuo holandês fez com que o Japão crescesse na etapa final. Até conseguir o empate que tanto buscou (Charlotte Wilson/Getty Images)

Resultado: o Japão voltou a atacar, na reta final do jogo. Começou a criar mais chances, com nomes conhecidos do Campeonato Holandês que vieram a campo. Como o ala Yukinari Sugawara, que chutou para a defesa de Verbruggen, aos 79'. E como, finalmente, Koki Ogawa: no penúltimo minuto do tempo regulamentar, em escanteio, o atacante que se destacou pelo NEC na temporada recente do Campeonato Holandês, sozinho na área, desviou escanteio de cabeça. Daichi Kamada também completou. E o Japão conseguiu o 2 a 2 que buscou bem mais na reta final.

E buscou bem mais porque as mudanças de Ronald Koeman estragaram o que poderia ter sido uma vitória. Mas "agora é continuar", como Van Dijk completou após a partida.

COPA DO MUNDO FIFA 2026 - GRUPO F

Holanda 2x2 Japão

Data: 14 de junho de 2026
Local: Dallas Stadium/AT&T Stadium (Arlington, Dallas)
Árbitro: Ismail Elfath (Estados Unidos)
Gols: Virgil van Dijk, aos 51', Keito Nakamura, aos 57', Crysencio Summerville, aos 64', e Daichi Kamada, aos 89'

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke e Micky van de Ven; Ryan Gravenberch (Nathan Aké, aos 81'), Tijjani Reijnders (Quinten Timber, aos 68') e Frenkie de Jong; Crysencio Summerville (Teun Koopmeiners, aos 68'), Donyell Malen (Memphis Depay, aos 68') e Cody Gakpo (Brian Brobbey, aos 84'). Técnico: Ronald Koeman

JAPÃO
Zion Suzuki; Tsuyoshi Watanabe (Takehiro Tomiyasu, aos 75'), Shogo Taniguchi e Hiroki Ito; Ritsu Doan (Yukinari Sugawara, aos 75'), Kaichi Sano, Daichi Kamada e Keito Nakamura; Takefusa Kubo (Koki Ogawa, aos 75'), Ayase Ueda (Kento Shiogai, aos 84') e Daizen Maeda (Junya Ito, aos 66'). Técnico: Hajime Moriyasu

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Boas ideias, mau resultado

Tagliafico teve infelicidade no lance do gol do Liverpool. E o Ajax tentou atacar, mas sua ineficiência ofensiva impôs o preço da derrota na estreia na Liga dos Campeões (BSR Agency)

Quando a escalação do Ajax para sua estreia na Liga dos Campeões foi revelada, mostraram-se algumas ideias que eram muito elogiáveis, no papel, para tentar conter o Liverpool que enfrentaria na Johan Cruyff Arena. O destino atrapalhou um pouco, mas por paus ou por pedras, o Ajax até teve alguns momentos elogiáveis em sua primeira partida nesta Champions League. Mas não aproveitou suas chances. Os Reds, sim. E por isso, como quase sempre acontece com os Ajacieden, o adversário deles é que fez a festa em Amsterdã.

É bem justo dizer que a principal das ideias táticas que Ten Hag teve em mente ao escalar a equipe Ajacied teve um duro golpe já no começo do jogo. Afinal, sem Antony (desfalque por razões até agora não esclarecidas), Mohammed Kudus foi um "falso atacante", escalado de modo um pouco mais adiantado no meio-campo, para ajudar Dusan Tadic e David Neres no ataque. De quebra, com Daley Blind no meio, o Ajax ganhava alguma força defensiva diante da velocidade conhecida que o trio Mohamed Salah-Roberto Firmino-Sadio Mané tem no ataque: caso os Reds acelerassem demais, bastaria que Blind recuasse mais para deixar a defesa com cinco homens. Mas tudo isso durou só oito minutos, tempo em que Kudus ficou em campo: uma lesão no joelho tirou o ganês de combate.

Quincy Promes entrou, e aí o Ajax voltou ao seu conhecido 4-3-3. O que não quer dizer que os Ajacieden perderam poder de fogo. Tiveram até mais chances de ataque do que o Liverpool: num chute de David Neres bloqueado por Fabinho aos 12', no cabeceio de Lisandro Martínez que Adrián defendeu aos 16', no chute rasteiro de Ryan Gravenberch que passou rente à trave aos 21', na tentativa de Promes que Adrián evitou com os pés aos 33' (Promes impedido? Talvez). Nenhuma delas, aproveitada. 

O Ajax teve mais chances do que o Liverpool - esta, de Promes, foi uma das mais claras. Mas foi incompetente no ataque (Pro Shots)

Até ali, o Liverpool só tentava algo nos contra-ataques - e mesmo assim, sem muito perigo, pelas boas atuações de Perr Schuurs e Blind no recuo. Porém, aos 35', quando Mané (o melhor dos atacantes) passou por Schuurs e cruzou, Nicolás Tagliafico estava no lugar errado, na hora errada: na pequena área, o argentino tentou afastar, mas desviou a bola para o próprio patrimônio. Era o gol que o Liverpool buscava. E que até deixou os Reds menos tímidos no ataque - Salah, por exemplo, só teve um gol impedido pelo bloqueio de Noussair Mazraoui, aos 40'.

De resto, foi quase o de sempre. O Ajax tentou atacar, mas faltou competência para isso. O lance perdido por Tadic aos 44' exemplificou bem isso: o sérvio tentou um toque desnecessário por cobertura, sobre Adrián, e Fabinho (atuação segura) conseguiu tirar na pequena área. Já no segundo tempo, aos 47', Klaassen completou um bom ataque... mas mandou a bola na trave. Aos 58', Promes tabelou bem com Mazraoui e arrematou da entrada da área, mas Adrián espalmou.

Muitos gols perdidos para um time que sonha destronar um dos dois, entre Liverpool e Atalanta (que estreia!), na classificação às oitavas de final. Não adiantou primeiro tentar a bola no chão, com a entrada de Zakaria Labyad, para depois partir ao "tudo ou nada" com as entradas de Klaas-Jan Huntelaar e Lassina Traoré. O Ajax fracassou ao tentar transformar as boas ideias antes do jogo num bom resultado depois dele. O Liverpool atacou pouco (perigo, mesmo, só em chute de Takumi Minamino, aos 70'). Nem precisava: a vitória é dos Reds. E o Ajax já terá desafio duríssimo diante da Atalanta. Se a pandemia deixar, claro.

Liga dos Campeões - fase de grupos - Grupo D

Ajax 0x1 Liverpool

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 21 de outubro de 2020
Árbitro: Felix Brych (Alemanha)
Gol: Nicolás Tagliafico (contra), aos 34'

Ajax
André Onana; Noussair Mazraoui, Perr Schuurs (Lassina Traoré), Lisandro Martínez e Nicolás Tagliafico; Ryan Gravenberch, Davy Klaassen (Jurgen Ekkelenkamp), Mohammed Kudus (Quincy Promes) e Daley Blind (Klaas-Jan Huntelaar); David Neres (Zakaria Labyad) e Dusan Tadic. Técnico: Erik ten Hag

Liverpool
Adrián; Trent Alexander-Arnold, Joe Gomez, Fabinho e Andrew Robertson; Curtis Jones (Jordan Henderson), James Milner (Rhys Williams) e Georginio Wijnaldum; Mohamed Salah (Xherdan Shaqiri), Roberto Firmino (Diogo Jota) e Sadio Mané (Takumi Minamino). Técnico: Jürgen Klopp

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Ajax estava avisado

Cansado e num mau dia no ataque, o Ajax de Ziyech se curvou à força física e à rapidez do Chelsea na reta final (Erwin Spek/Soccrates/Getty Images)
Mesmo com a vitória sobre o RKC Waalwijk, no sábado passado, pela 10ª rodada do Campeonato Holandês, o Ajax saiu de campo com críticas justas: passar sufoco contra o último colocado da Eredivisie, que segurara o 0 a 0 no primeiro tempo e até empatara na etapa final, era um sinal de alerta para o jogo desta quarta, contra o Chelsea, na terceira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões. As respostas dos Ajacieden foram insuficientes. E os Blues colocaram um fim à invencibilidade de 16 jogos do Ajax na temporada.

Pensava-se num jogo equilibrado em Amsterdã. Mas o Chelsea foi, paulatinamente, mostrando que não merecia a desconfiança - exagerada - sobre si. Na defesa, os três jogadores controlaram as forças do Ajax sem muito problema: quando recebiam a bola, quase sempre Hakim Ziyech e Dusan Tadic tinham dois jogadores a lhes marcarem. E mesmo com a bola nos pés, sem marcação, apenas Ziyech trouxe algum perigo - como no chute desviado aos 35', no qual Quincy Promes acabou marcando o gol (corretamente) anulado. De resto, cada um dos zagueiros (Cesar Azpilicueta, Kurt Zouma e Fikayo Tomori) tiveram uma boa atuação. Com destaque para Azpilicueta: o espanhol não só teve uma chance de finalização, aos 42', como evitou que Promes marcasse, aos 53'.

No Ajax, a atuação de Promes merecia consideração: o camisa 11 se movimentava bastante, dando trabalho à marcação do Chelsea - até por isso, estava a postos para colocar a bola nas redes (só estava um pouco à frente). Donny van de Beek também aparecia, mas menos do que poderia. Sem Ziyech nem Tadic fortes, restava a Lisandro Martínez avançar e ajudar nos lançamentos, em outra boa atuação do argentino. Já mais atrás, Edson Álvarez também se impunha no jogo aéreo, além de marcar bem Jorginho. Mas... era o único. De resto, a inconstância da defesa dos Amsterdammers chamava a atenção. Joël Veltman e Daley Blind até controlavam o miolo de zaga contra Tammy Abraham, mas as laterais sofriam - principalmente a direita, na qual Sergiño Dest avançou tanto que demorava para voltar. Callum Hudson-Odoi poderia ter aproveitado isso, mas perdeu várias chances no primeiro tempo: aos 25', aos 27', aos 33'...

Contendo a bola contra Jorginho (esquerda) e Hudson-Odoi, Martínez ainda tentou ajudar o ataque. Mas um jogador defensivo foi insuficiente contra o Chelsea para o Ajax (Erwin Spek/Soccrates/Getty Images)

Não que o time da casa abdicasse de atacar na Johan Cruyff Arena. Tentava coisas vez por outra, mantinha o equilíbrio do jogo. No primeiro tempo, houve o chute de Veltman, aos 8'. Já na etapa complementar, aos 59', quase Álvarez teve premiada a boa atuação, ao cabecear no contrapé do goleiro Kepa - e na sequência, Blind tentou um chute, pego pelo arqueiro espanhol do Chelsea. Aí, vieram as mudanças de Frank Lampard que expuseram as fragilidades do Ajax. Se nem Mason Mount nem Willian conseguiam criar tantas jogadas que perturbassem a defesa, Christian Pulisic veio a campo. E se Abraham sucumbia à marcação, hora de por Michy Batshuayi no ataque.

Bastou. Por incrível que pareça, o Ajax seguiu sem muita força ofensiva - na única oportunidade em que havia espaço para chegar ao gol de Kepa, num contra-ataque com dois contra dois, Tadic perdeu a chance, aos 84'. Nem mesmo a entrada de David Neres ajudava muito. E a defesa da equipe dos Países Baixos passou a ter ainda mais dificuldades. Avançavam Marcos Alonso, Jorginho, Mount, Pulisic... todos com força física e rapidez suficientes para manterem a ameaça à meta de André Onana. E Batshuayi na área, à espera de uma chance. Na primeira, o belga incrivelmente perdeu, aos 73'. Na segunda, Pulisic cruzou, Alonso enganou a defesa Ajacied com um corta-luz, e Michy fez o gol do alívio para o Chelsea.

Depois, "porta arrombada", Klaas-Jan Huntelaar e Siem de Jong vieram a campo. Era tarde. E ficou claro que o Ajax está num momento de cansaço. Nada exagerado: o time segue com seis pontos no grupo H da Liga dos Campeões, tem plenas condições de se classificar às oitavas de final. Mas há fragilidades, talvez até por um previsível desgaste físico - alguns nomes já estão em campo desde julho. E no próximo domingo, vem aí o Feyenoord, no clássico pela 11ª rodada do Campeonato Holandês. O Ajax é favorito. Mas já tem algumas razões para se preocupar.

Liga dos Campeões - fase de grupos

Ajax 0x1 Chelsea

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 23 de outubro de 2019
Árbitro: Ovidiu Hategan (Romênia)
Gol: Michy Batshuayi, aos 86' 

Ajax
André Onana; Sergiño Dest, Joël Veltman (Klaas-Jan Huntelaar), Daley Blind e Nicolás Tagliafico; Edson Álvarez (Siem de Jong) e Lisandro Martínez; Hakim Ziyech, Donny van de Beek e Quincy Promes (David Neres); Dusan Tadic. Técnico: Erik ten Hag

Chelsea
Kepa Arrizabalaga; César Azpilicueta, Fikayo Tomori e Kurt Zouma; Marcos Alonso, Mateo Kovacic, Jorginho e Mason Mount; Willian (Christian Pulisic), Tammy Abraham (Michy Batshuayi) e Callum Hudson-Odoi (Reece James). Técnico: Frank Lampard

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Maturidade

Van de Beek retrata o alívio do Ajax: o time de Amsterdã mostrou que também vence bem "sabendo sofrer" (Twitter)

O estereótipo - geralmente baseado em fatos repetidos com certa frequência - diz que o Ajax só sabe jogar ofensivamente. Que só sabe e gosta de vencer de uma maneira: impondo seu estilo sobre o do adversário, trocando passes, pressionando a marcação adversária desde o começo. Pois bem: nesta quarta-feira, o time de Amsterdã deu saudável prova de maturidade, neste sentido. Porque nem precisou dominar o Valencia, em pleno Mestalla. Sofreu até demais. E ainda assim, foi eficiente para chegar ao 3 a 0 que o deixa em boa situação para os jogos contra o Chelsea, em Amsterdã e Londres, que decidirão seu destino na Liga dos Campeões.

A rigor, até que demorou para o Ajax sofrer na cidade de Valência. Porque qualquer pressão que o time da casa pudesse exercer foi resfriada pelo tremendo gol de Hakim Ziyech, outra vez mostrando sua grande habilidade: só ela permitiu que o marroquino chutasse de longe, acertando o ângulo direito para fazer 1 a 0 já aos oito minutos de jogo - com falha de posicionamento do adiantado Jasper Cillessen, é verdade.

Todavia, após o impacto do gol, o Valencia se recompôs. E começou a melhorar. Principalmente pelas laterais: tanto Sergiño Dest quanto Nicolás Tagliafico deram muito espaço. Sem os recuos de Ziyech e Quincy Promes para ajudar, os Ches começaram a trazer perigo pelos lados, com Gonçalo Guedes, Ferrán Torres e Rodrigo Moreno. Volta e meia, o Valencia tinha mais gente nos contragolpes, passando com facilidade por Lisandro Martínez e Edson Álvarez. Forçados a trabalhar, os defensores do Ajax começavam a levar cartões amarelos - como Joël Veltman. E veio a chance que poderia virar o jogo, quando Álvarez cometeu pênalti sobre Jaume Costa, aos 23'.

Só que ela não virou o jogo, porque Dani Parejo cobrou pessimamente, mandando a bola muito acima do gol de André Onana. Ainda assim, o Valencia seguiu tentando. Quase fez com Maxi Gómez, aos 33'. Porém, Onana novamente apareceu com destaque. E na chance seguinte, o Ajax mostrou seu lado eficiente, pouco visto nos últimos tempos: praticamente na segunda vez que teve a bola no ataque, o time de Amsterdã fez 2 a 0 - de Dusan Tadic para Donny van de Beek, deste para Promes, de Promes para o gol. O espaço dado pelo miolo de zaga do Valencia era aproveitado da melhor maneira possível para os Ajacieden.

Ferrán Torres (à direita) foi quem mais trouxe perigo, vindo do Valencia - que até fez por merecer melhor sorte (AFP)
Só que o time visitante sabia, por causa de uma lição duramente aprendida nas semifinais da Liga dos Campeões passada, que uma vantagem de dois gols nada significava. O Valencia continuava melhor, com mais posse de bola, rondando mais a área de ataque. Terminou assim o primeiro tempo, com bola na trave de Rodrigo Moreno aos 38', e começou assim o segundo. A bem da verdade, só não empatou nos primeiros minutos da etapa complementar porque Onana fez duas defesas incríveis em sequência - aos 47', num bate-pronto de Ferrán Torres, e aos 49', num cruzamento em que a bola bateu em Rodrigo, resvalou em Daley Blind e forçou o goleiro camaronês a se esticar todo.

Chances para o Ajax, nisso tudo? Só um chute de Ziyech (mais um!) na trave, aos 42'. Se quisesse manter sua vantagem inalterada, era bom que o time holandês tentasse manter a bola no ataque, segurasse mais a jogada. Foi o que aconteceu, com o decorrer do segundo tempo. Van de Beek, Promes, Ziyech e Tadic começaram a controlar o jogo. As jogadas começaram a sair. E veio, enfim, o terceiro gol tranquilizador, aos 67', em uma parceria já vista algumas vezes: Tadic deixou Van de Beek livre, o camisa 6 completou, gol.

Aí, sim, o Ajax pôde se dar ao luxo do preciosismo que às vezes mostra - foi assim logo após o 3 a 0, quando Van de Beek perdeu boa chance do quarto gol, aos 70'. Tudo bem: a vitória já estava praticamente garantida, deixando a equipe de Amsterdã na liderança do grupo H da Liga dos Campeões, com seis pontos. Se a vitória contra o Lille mostrara o Ajax ofensivo de sempre, nesta quarta a equipe deixou uma saudável impressão: aprendeu a também vencer só com eficiência, sem brilho. Numa só palavra: mostrou maturidade. Ela valerá contra o Chelsea.

Liga dos Campeões - fase de grupos

Valencia 0x3 Ajax

Local: Mestalla (Valência)
Data: 2 de outubro de 2019
Árbitro: Daniele Orsato (Itália)
Gols: Hakim Ziyech, aos 8', Quincy Promes, aos 34', e Donny van de Beek, aos 67'

Valencia
Jasper Cillessen; Daniel Wass, Ezequiel Garay, Gabriel Paulista e Jaume Costa; Francis Coquelin (Thierry Correia), Dani Parejo, Ferrán Torres (Denis Cheryshev) e Gonçalo Guedes; Rodrigo Moreno e Maxi Gómez (Lee Kang-in). Técnico: Albert Celades

Ajax
André Onana; Sergiño Dest, Joël Veltman, Daley Blind e Nicolás Tagliafico; Edson Álvarez e Lisandro Martínez; Quincy Promes (David Neres), Donny van de Beek (Siem de Jong) e Hakim Ziyech (Klaas-Jan Huntelaar); Dusan Tadic. Técnico: Erik ten Hag

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Promessa de vida

Promes cabeceia para abrir o placar: concentrado na defesa e eficiente no ataque, Ajax estreou na Liga dos Campeões com vitória promissora (Pim Ras)

Qual Ajax viria para a estreia na fase de grupos da Liga dos Campeões, contra o Lille? Um Ajax ainda hesitante, com falhas a corrigir, como está no começo de Campeonato Holandês? Ou o time empolgante, que eletrizava a torcida, como se viu na inesquecível campanha na Champions League passada? Pois bem: para a torcida presente à Johan Cruyff Arena, a impressão foi positiva. Claro que os Ajacieden ainda precisam de aprimoramento, mas o 3 a 0 sobre o Lille foi uma prova de que a equipe de Erik ten Hag virá firme no grupo H da principal competição de clubes da Europa.

À primeira vista, a defesa passou impressão temerária - basta dizer que o lance de Joël Veltman puxando Victor Osimhen na área, já aos dois minutos, bem merecia um olhar mais acurado do juiz sérvio Srdjan Jovanovic. Entretanto, foi só o susto. A defesa se mostrava concentrada, para evitar que ficassem grandes espaços a serem aproveitados para os contra-ataques do Lille - Renato Sanches, Jonathan Bamba e Osimhen estavam a postos para eles. O meio-campo foi controlando mais a bola, com Lisandro Martínez e Hakim Ziyech já começando a mostrar as grandes atuações que teriam nesta terça. Em menor escala, ajudavam David Neres, Dusan Tadic e Quincy Promes. De quebra, nas laterais, tanto Sergiño Dest quanto Nicolás Tagliafico eram os dínamos ofensivos de sempre.

Assim, vieram as chances. Aos 11', no chute cruzado de David Neres para fora. Aos 14', na primorosa jogada de Ziyech: tirando dois jogadores com um toque sutil, antes de chutar no travessão do gol defendido por Mike Maignan. Era preciso aproveitar uma chance: e se aproveitou aos 17', quando Tagliafico recebeu de Neres, cruzou, e Promes subiu para fazer 1 a 0. Claro, nem de longe estava resolvido - e o Lille lembrou isso no resto do primeiro tempo. Bamba e Renato Sanches se mexiam pelos lados, Nanitamo Ikoné e Osimhen se mexiam na frente, os espaços apareciam para os cruzamentos, e o goleiro André Onana tinha de trabalhar. Principalmente aos 44', quando Bamba mandou a bola para o meio da área, Ikoné completou de primeira e o arqueiro camaronês evitou o empate, com os pés. Era o sinal: o Ajax precisava melhorar se não quisesse uma surpresa ruim. O jogo ainda estava lá e cá.

Álvarez, Promes e Tagliafico: dois da foto ajudaram na defesa, outro ajudou no ataque, e o Ajax embalou na etapa final (Matty van Wijnbergen)

Sinal atendido. Porque os Ajacieden voltaram com todo o gás no segundo tempo. Sim, evocaram aquele time imparável da temporada passada: trocas de passes, mudanças de posições, chances e mais chances. O segundo gol poderia ter vindo aos 48', em outra jogada classuda de Ziyech, colocando a bola entre as pernas do lateral esquerdo Domagoj Bradaric antes do chute espalmado por Maignan. Veio aos 50', após 18 trocas de passe, coroadas com a finalização cruzada de Edson Álvarez. O mexicano ajudara mais na defesa, se esforçando nos recuos e nas jogadas aéreas, mas era premiado com um gol, para mostrar o erro das críticas de alguns jornalistas - e ex-jogadores, como Ronald de Boer - sobre sua contratação.

Entretanto, sabe-se que a delícia do Ajax é também a sua dor: o time gosta de atacar, e isso significa abrir espaço para contragolpes. O Lille teve a grande chance de seu gol num deles, aos 55', mas Bamba errou o chute, com duas opções de passe. Outra oportunidade para os Dogues veio aos 58', mas Osimhen - o mais perigoso da equipe francesa - cabeceou em cima de Onana. Erros assim aumentaram a confiança do Ajax. Era Ziyech ousando, era Dest (que revelação!) girando para cima dos marcadores, era Martínez (cada vez mais, uma contratação na mosca) também nas "roletas".

Só faltava o gol. Que veio em outro cabeceio de Tagliafico - terceiro gol de cabeça do argentino na temporada, aos 62'. Este, sim, o gol decisivo, que deixou o Ajax comandando a partida ao seu bel-prazer. O Lille continuou buscando o gol, sim - e quase o conseguiu no fim, aos 89', quando Yusuf Yazici acertou a trave de Onana. Mas a impressão positiva para a torcida já era indelével.

Não, o Ajax ainda não pensa em classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões. Nem é a intenção do diretor geral, Edwin van der Sar: o ex-goleiro faz questão de dizer que o importante é ficar num torneio europeu, sejam as oitavas da Champions ou a segunda fase da Liga Europa, alcançável com a terceira colocação. Mas sem dúvida, o 3 a 0 faz o Ajax impor respeito. É promessa - quem sabe uma "PromeSsa" - de vida no coração da torcida na Johan Cruyff Arena.

Liga dos Campeões -  fase de grupos

Ajax 3x0 Lille

Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Data: 17 de setembro de 2019
Árbitro: Srdjan Jovanovic (Sérvia)
Gols: Quincy Promes, aos 18', Edson Álvarez, aos 50', e Nicolás Tagliafico, aos 62'

Ajax
André Onana; Sergiño Dest, Joël Veltman, Daley Blind e Nicolás Tagliafico; Edson Álvarez e Lisandro Martínez (Jurgen Ekkelenkamp); David Neres (Klaas-Jan Huntelaar), Quincy Promes e Hakim Ziyech (Noa Lang); Dusan Tadic. Técnico: Erik ten Hag

Lille

Mike Maignan; Zeki Çelik, José Fonte, Gabriel e Domagoj Bradaric; Benjamin André e Boubakary Soumaré (Miguel "Xeka"); Jonathan Bamba, Nanitamo Ikoné (Yusuf Yazici) e Renato Sanches (Luiz Araújo); Victor Osimhen. Técnico: Christophe Galtier

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Foi ele! (Mais ou menos...)

O gol de Saúl Ñíguez já abateu o PSV. E os erros do juiz Martin Atkinson só pioraram as coisas (Olaf Kraak/ANP/Getty Images)

Após PSV 0x1 Atlético de Madrid, estreia de ambas as equipes pelo grupo D da Liga dos Campeões, a torcida da equipe de Eindhoven - e parte da imprensa também - foi unânime: o Atkinson que apitara o jogo no Philips Stadion tinha sido outro. Não o inglês Martin, árbitro profissional, mas sim o comediante inglês Rowan Atkinson, intérprete do conhecido Mr. Bean. Afinal de contas, só mesmo um trapalhão para cometer tantos erros e provocar tanta polêmica na vitória dos Colchoneros. Álibi perfeito para os Boeren deixarem de lado suas falhas na partida.

Até porque nem todos os lances polêmicos significaram erro de Martin Atkinson. O primeiro deles, aos 5', realmente foi irregular: não que Luuk de Jong estivesse impedido ao cabecear a bola para as redes defendidas por Jan Oblak, mas de fato Héctor Moreno fez carga um pouco excessiva sob Filipe Luís, ao escorar para De Jong completar. O segundo já foi mais polêmico, de fato, quando Luciano Narsingh caiu na área, aos 21'. Ainda assim, não é daqueles lances que podem ser cravados como pênalti indiscutível: Diego Godín não foi tão acintoso na obstrução a Narsingh. Jogou com certa "malícia", zagueiro experiente que é.

Além do mais, mesmo escalado inteligentemente por Phillip Cocu (o 5-3-2, repetido das oitavas de final da Champions passada, trouxe Daniel Schwaab à zaga e protegeu mais o gol), o PSV era pouco ativo com os laterais. Apenas Narsingh, na esquerda, criava muitas jogadas. Nem mesmo o meio-campo avançava: cautelosos, Andrés Guardado e Davy Pröpper ajudavam mais Jorrit Hendrix, frágil na marcação a Koke e Saúl Ñiguez pelo meio.

Aí, sim, aos poucos, alguns erros de Atkinson interferiram no jogo. Um deles, aliás, influiu em dois momentos capitais. Aos 42', após escanteio, buscando a bola no alto, Pröpper chocou sua cabeça com a de José María Giménez, e ficou com o supercílio sangrando muito. Só que o juiz não parou o jogo com o meio-campista do time de Eindhoven no chão. Resultado: após um primeiro rebote, Saúl finalizou de primeira, com a perna esquerda, para fazer bonito gol. Somente aí, com a desvantagem no placar, é que Pröpper pôde ser atendido.

E enquanto o camisa 6 dos Eindhovenaren estava fora de campo, no primeiro lance com bola em jogo após o gol, Martin Atkinson "compensou" o erro no suposto pênalti de Godín em Narsingh: o camisa 11 dos alvirrubros listrados entrou pela direita da grande área e caiu, após Jiménez chegar perto. O carrinho do zagueiro uruguaio mal passou perto de Narsingh, mas a queda dele levou à "compensação" do juiz inglês, que marcou o pênalti. A torcida exultou: não deveria, ao lembrar que o PSV perdera 10 dos últimos 17 penais para ele, em todas as competições. Eis que Guardado perdeu o 11º: bateu até bem, no canto esquerdo, mas Oblak voou e espalmou, em grande defesa. E falando à Veronica, emissora de tevê holandesa, Cocu citou o grande azar: "Pröpper bateria. É um dos primeiros da nossa lista de cobradores, com [Gastón] Pereiro. Mas ele estava com sangue na camisa, e não podia voltar. Foi uma infeliz coincidência".

Coincidência infeliz: Pröpper teve o supercílio atingido, o Atlético de Madrid fez o gol...


... e Guardado teve de cobrar o pênalti que se seguiu. Mais um chute perdido para o clube (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Sem o empate, o PSV mostrou até mais fragilidades no segundo tempo. Desorganizada com a busca do time pelo empate (Pröpper e Guardado avançavam mais ao ataque), a defesa ficava desprotegida nos contragolpes do Atlético. Com alguns erros, os visitantes madrilenhos só não ampliaram a vantagem pela má atuação de Kévin Gameiro, que perdeu gol feito aos 53'. Somente a entrada de Bart Ramselaar no lugar de Hendrix, aos 67', melhorou a proteção à defesa - sem que o ataque perdesse força com isso.

A partir daí, então, a pressão pelo 1 a 1 aumentou. E veio o grande erro de Martin Atkinson, ao não apontar o pênalti - este sim, inquestionável - em mão na bola de Godín, marcando Luuk de Jong em escanteio, aos 75'. E Luuk de Jong carregou nas críticas, à tevê holandesa: "Eles [árbitros] estão em cinco em campo. Nesse caso, alguma coisa você tinha de ver". Ainda houve mais um cabeceio fraco de Gastón Pereiro, na pequena área, em bola cruzada por Jetro Willems, aos 91'. 

E veio a derrota. Que já era previsível: afinal de contas, trata-se do vice-campeão europeu, melhor do que o PSV. Mas os acontecimentos polêmicos provocados pela arbitragem, e a própria atuação, tornaram o revés mais lamentado na saída do campo, como mostram as palavras de De Jong: "Eu tenho certeza de que não fomos inferiores hoje". De fato, foi Martin Atkinson o principal obstáculo dos Boeren nesta estreia pela Liga dos Campeões. Mas não o único, já que o meio-campo foi lento em boa parte do jogo, as chances do segundo tempo foram jogadas fora, e mais um pênalti foi perdido. Aí fazem sentido as palavras maduras do goleiro Jeroen Zoet: "Tivemos chances suficientes para conseguirmos nossa recompensa, e não as aproveitamos".

Se serve de consolo, pelo menos o PSV mostra que é, atualmente, o único time holandês capaz de não passar vergonha em torneios continentais. Resta aceitar os elogios de Diego Simeone: "Eu sabia que o PSV dificultaria as coisas para nós". E seguir o pensamento do capitão Luuk de Jong: "Ainda não jogamos a toalha". Nem há porque fazer isso.