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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Holanda na Copa feminina (II): a análise de quem viu

A seleção feminina da Holanda, antes da final, e a taça da Copa do Mundo: tão perto e tão longe (FIFA/Getty Images)

Este Espreme a Laranja já começou a análise sobre a marcante campanha da seleção feminina da Holanda na Copa do Mundo passada, com este texto opinando sobre a atuação de cada uma das 16 jogadoras que entraram em campo pelas Leoas Laranjas (as sete restantes não jogaram nenhum minuto no Mundial). Após o vice-campeonato, os nomes que ampliaram a fama com as atuações na França já curtem as férias, o futebol masculino já acelera os trabalhos de pré-temporada rumo ao Campeonato Holandês - PSV e Ajax, rumo à Liga dos Campeões -... mas ainda falta uma coisa.

O blog decidiu trazer um último capítulo sobre o que a Laranja mostrou na Copa feminina. Mas não fará o trabalho sozinho: fez cinco perguntas sobre a campanha holandesa, a quatro nomes que acompanham a par e passo o futebol feminino. Dois deles fazem parte da equipe do Planeta Futebol Feminino, site referencial em notícias e opiniões sobre a modalidade: Bruno Bezerra e Amanda Marinho - sendo que a jornalista Amanda ainda integra o podcast Passa no DM, também sobre o futebol das mulheres, com as colegas Duany Khydac e Letícia Lázaro, que também estão na equipe do PFF. Também foi entrevistada a jornalista Olga Bagatini, do Yahoo, que também colaborou com o site Trivela na cobertura da Copa feminina.

A quarta entrevistada foi além: testemunhou a reta final da campanha da vice-campeã. Afinal, a jornalista Renata Mendonça esteve na tribuna de imprensa em Lyon vendo a semifinal contra a Suécia e a decisão perdida para os Estados Unidos, produzindo material como uma das Dibradoras, o trio que produz um site e um podcast sobre o esporte feminino em todas as modalidades - e todos os desdobramentos. E Renata, que também fez algumas participações na cobertura do SporTV para a Copa feminina (até porque é debatedora frequente do programa Redação SporTV), ainda se estendeu, com um depoimento admirado sobre um destaque particular: o que fez a torcida holandesa na França.

"Foi espetacular. Foi a melhor torcida da Copa, sem dúvidas. Foi muito legal ver o quanto a torcida estava acompanhando todos os jogos. E eu conversei com alguns holandeses que estavam lá, e eles realmente estavam indo a todos os jogos. Não era algo do tipo 'ah, não, só vim para esse...': foi uma torcida que realmente acompanhou a seleção feminina na Copa. Deram muito apoio antes dos jogos, eles faziam um encontro, aquela festa toda nas cidades... E se sobressaíam dentro dos estádios - aquela fanfarra com a corneta, dava para ouvir muito bem o tanto que eles embalavam a seleção holandesa. Isso foi um grande destaque. Eu até conversei com algumas jogadoras holandesas na zona mista, a própria Van Veenendaal falou sobre como a torcida foi crucial para a Holanda chegar tão longe, foi 'o 12º jogador'... é um dos meus destaques nessa Copa do Mundo."


Time e torcida holandeses: para Renata Mendonça, o comportamento dos adeptos da Laranja foi um dos pontos altos da Copa (FIFA/Getty Images)

Sem mais, vamos às perguntas.

Vocês já esperavam a seleção da Holanda como uma "possível finalista"? Se não, qual a fase que lhe parecia mais natural ela alcançar na Copa?

Bruno: Não, para mim foi uma grande surpresa. Particularmente, achava que a Holanda chegaria as semifinais, o que já seria um feito gigantesco.

Amanda: Sim. Antes de começar a Copa e fazendo um desenho do lado da chave que a Holanda ficaria, imaginava que elas poderiam chegar na semifinal. Ainda assim, não deixou de ser uma surpresa elas terem chegado até a final, mas não colocaria como a maior da Copa, acho que a Suécia ficou com esse cargo, surpreendendo muita gente.

Olga: Não esperava como finalista, mas coloquei a Holanda entre potenciais equipes para surpreender no torneio pelo trabalho feito pela Sarina Wiegman nos últimos anos e o embalo pela conquista da Eurocopa em 2017.

Renata: Eu não esperava como finalista, esperava pelo menos quartas ou semifinais. Acho que a Holanda vinha muito forte para essa Copa, pela evolução que teve, mas eu não achava que chegaria à final da Copa, não. Na minha previsão, estariam Estados Unidos ou França na final, contra a Alemanha, pelos chaveamentos. Eu achava que aquela [partida das] quartas de final entre França e Estados Unidos definiria quem seria a finalista. Foram os Estados Unidos, como poderia ter sido a França. A Holanda chegaria às quartas de final ou às semifinais, com certeza, pelo conjunto - é um time muito forte, coletivamente falando. Não acho que tenha um destaque individual, mas ela brilha muito no coletivo. Acho que foi isso que fez com que ela fosse campeã da Eurocopa, e acho que foi isso que fez com que ela chegasse à final da Copa do Mundo.

Nas suas opiniões, houve algum momento em campo na Copa em que a Holanda pareceu ter o "clique" que a fez partir de "candidata a surpresa" para uma seleção que poderia ir além, que poderia chegar à final, como chegou? Se houve, qual foi? Ou, para você, a campanha foi elogiável como um todo?

Bruno: O "clique" pra mim, foi no segundo tempo das quartas de final diante da Itália, melhor partida da Holanda na minha concepção. Ali eu pensei: "esse time pode encarar Suécia ou Alemanha de frente e sem medo."

Amanda: Durante toda a Copa do Mundo a Holanda sempre me pareceu um time que controlava a situação. No jogo contra o Japão passaram o maior apuro da Copa do Mundo, mas conseguiram resistir a pressão e fechar o jogo graças aos gols de Lieke Martens. Pra mim esse jogo contra o Japão serviu para mostrar a força mental das holandesas, que apesar de estarem apenas na sua segunda Copa do Mundo, demonstravam ter a bagagem pra aguentar momentos adversos.

Olga: A campanha foi elogiável. Eu imaginava que a Alemanha seria finalista, e quando foi eliminada pela Suécia, acreditei que a Holanda pararia na semi. Mas a Holanda conseguiu passar da Itália, que também mostrou muita evolução na Copa, e contra a Suécia, apesar das adversárias terem pressionado a maior parte do segundo tempo, as holandesas conseguiram se defender, muito com ajuda da goleira, e acharam um gol para avançar. Mas eu sabia que se elas jogassem do mesmo jeito contra os Estados Unidos, não teriam chance. Faltou objetividade, faltou articulação no meio-campo para criar chances reais de gol.

Renata:  Acho que o jogo contra o Japão foi meio "chave", porque foi justamente para o Japão que a Holanda foi eliminada em 2015. Claro, a seleção japonesa não vem em boa fase, enquanto a Holanda, pelo contrário, vem em grande ascensão. Mas é lógico que tem aquele peso de enfrentar uma seleção que é campeã mundial [2011], que eliminou as holandesas em 2015... então, acho que esse foi um dos jogos-chaves da Holanda para chegar à final. De certo modo, a semifinal contra a Suécia também foi "chave". A Holanda foi engolida no primeiro tempo: por ter uma marcação muito forte, a Suécia não deixou a Holanda jogar. Mas o time holandês teve muita paciência e muita inteligência para jogar. Soube aproveitar as oportunidades que teve, já melhorou no segundo tempo, e na prorrogação estava com todo fôlego para construir suas jogadas e fazer o gol de que precisava. A Holanda foi muito inteligente na semifinal. Mas eu diria que o jogo contra o Japão foi o ponto de virada para determinar até onde a Holanda iria chegar na Copa.

As seleções femininas da Europa mostraram crescimento notável como um todo, nesta Copa do Mundo. No entanto, coube à Holanda ser a representante deste crescimento, na decisão do torneio. Nas suas opiniões, em que ela se sobressaiu em relação a outras europeias, até mais badaladas pré-Copa (como França e Inglaterra)? 

Bruno: Psicologicamente soube se portar bem em jogos complicados, se sobressaindo principalmente no aspecto tático: elenco fechado e organizado, defesa, que era preocupação, indo bem.

Amanda: Novamente, acredito que a Holanda se sobressaiu no poder mental, mostraram que poderia aguentar momentos adversos. A Alemanha confirmou o temor de que realmente não conseguiria ir longe na Copa do Mundo, e na chave onde estava a Holanda, era o principal adversário. Destaque de novo para a Suécia, que estava longe de ser uma das favoritas, mas fizeram uma grande partida contra a Alemanha e lutaram muito contra a Holanda, conseguindo levar o jogo para a prorrogação.

Olga: A Holanda teve uma campanha boa, mas também teve caminho mais fácil no mata-mata ao cair na chave oposta dos Estados Unidos. O principal trunfo é a federação ter feito um trabalho de base nos últimos anos que permitiu que a equipe formasse boas jogadoras, que se jogam juntas e estão bem entrosadas, e ainda se destacam individualmente a ponto de jogarem nas melhores ligas do mundo, como é o caso de Martens, Miedema e Van de Sanden.

Renata: Como eu já tinha dito na primeira pergunta, eu acho que, coletivamente, a seleção da Holanda é um time que rende muito bem. Não tem "mega destaques", não tem alguém que resolva o jogo sozinha. É um time muito coletivo, de toque de bola, e pressionou muito bem o adversário, ocupou bem os espaços no campo, meio que encurralando o adversário, atacando sempre com muitos passes. Acho que isso foi uma das características que fizeram com que a Holanda chegasse à final: o jogo coletivo. Também temos que levar em consideração a chave do outro lado: ela teve Estados Unidos e França nas quartas, por exemplo. Provavelmente a França chegaria mais longe, se não tivesse de pegar os Estados Unidos. E também teve a Inglaterra... eram seleções que estavam entre as quatro primeiras do ranking (Estados Unidos em 1º, Inglaterra em 3º e França em 4º). E todos esses estavam do outro lado da chave. Com certeza, complicou muito para Inglaterra e França. Ao mesmo tempo, a Holanda soube se impor muito bem, soube fazer valer sua superioridade diante dos outros adversários, mesmo no jogo contra a Suécia, que foi um adversário que impôs muita dificuldade, pela forma de marcação para anular o jogo da Holanda. 

Houve alguma partida da seleção feminina da Holanda que tenha lhe chamado mais a atenção na Copa? 

Bruno: Como tinha citado, o segundo tempo contra a Itália. Em geral, o jogo contra a Itália foi um desafio bem interessante.

Amanda: Uma partida que me chamou atenção foi contra a Itália, tanto positivamente, quanto negativamente. O primeiro tempo do time holandês foi talvez um dos piores dentro da Copa, mas no segundo tempo o time voltou muito mais focado e ciente do que precisava fazer para vencer. Então pra mim, os 45 minutos finais contra a Itália foram os melhores da Holanda na Copa do Mundo.

Olga: Gostei muito do jogo com a Itália, mas o que mais me impressionou foi o primeiro tempo contra os Estados Unidos. Como eu disse, achava que se a Holanda não ajustasse os erros que cometeu diante da Suécia, não teria chance, mas a treinadora conseguiu organizar o time mudando algumas peças e fechando bem a defesa para se proteger da pressão das americanas -- que até então haviam marcado antes dos 13 minutos contra todos os outros rivais. O pênalti foi uma infelicidade, aí a Holanda teve que ir para cima, deixou espaços e sofreu o segundo gol. Mas decididamente jogou de igual para igual.

Renata: Como eu falei, o jogo contra o Japão me chamou a atenção.

Para os três entrevistados pelo blog(ueiro), Van Veenendaal foi unanimidade: a melhor goleira da Copa (FIFA/Getty Images)

Apesar de vários destaques, a Holanda ficou sem nomes entre as três melhores da Copa (Rapinoe, Lucy Bronze e Lavelle). E mesmo os destaques holandeses entram e saem das seleções eleitas por quem acompanhou o torneio - Van Veenendaal e Miedema estão em alguns times, em outros já não estão. Essas duas mereciam mais crédito? Alguma outra merecia?

Bruno: Talvez Miedema merecesse a bola de bronze, mas Van Veenendaal mereceu todos os créditos possíveis e merecidos como melhor goleira, em uma Copa com tantos destaques na posição (Endler, Lindahl, Schult). Outra que merecia mais crédito sem dúvida é a Sherida Spitse, que jogou muito bem, sendo literalmente uma "leoa" marcadora nesse meio campo holandês. Destacaria também a Van Dongen, que substituiu bem a Van Es e fez excelente Copa do Mundo.

Amanda: A Van Veenendaal foi eleita a melhor goleira da Copa do Mundo, então acredito que ela recebeu seus méritos, muito justos. A Miedema foi uma das melhores atacantes da Copa do Mundo, centroavantes, mas teve uma concorrência muito forte contra a Ellen White, que também fez uma grande Copa do Mundo e sem ter a mesma expectativa que a Miedema. Acredito que as duas jogadoras devam ser analisadas sob perspectivas diferentes. No time ideal da Copa do Mundo, no presente, a Ellen White tem vantagem. Mas se montarmos um time ideal também levando em consideração potencial, a Miedema seria a minha escolhida.

Olga: Acho que essa disputa foi bem acirrada. Não tem como tirar esse prêmio da Rapinoe, mas talvez a Ellen White merecesse um lugar nesse pódio. Claro que houve jogadoras da Holanda que se destacaram e merecem crédito, como as citadas Van Veenendaal e Miedema, e também Martens e Groenen, mas acho que prêmios individuais pela participação no Mundial já seria exagero.

Renata: Acho que a Van Veenendaal até teve o seu destaque. Foi eleita a melhor goleira do torneio, e acho que foi muito justo isso. Eu entendo que a Miedema foi um dos destaques dessa Copa, mas eu acho que, como eu falei, o jogo da Holanda é mais coletivo. Sobressai-se mais o coletivo, e menos as jogadoras. Mas se você fizer a seleção da Copa, com certeza ela [Van Veenendaal] está. E gostei bastante da Miedema nessa Copa, achei que ela rendeu muito bem. Mostrou todas as suas características, fez gol de cabeça, de todos os jeitos, ela participou muito do ataque. Acho que a Martens acabou prejudicada pela lesão que ela teve, acabou não jogando tão bem na final, e a Holanda sentiu isso, coletivamente. Acho que a Van de Sanden também ficou devendo um pouco, eu esperava mais dela. Mas gostei muito da Van Veenendaal. Teve atuações muito seguras - bem, foi a melhor goleira da Copa... e foi uma das melhores jogadoras da Holanda nessa Copa, porque ela passava uma segurança muito grande. No próprio jogo contra os Estados Unidos, aquela bola que ela defende da Morgan (a Rapinoe cruza, e a Morgan está na boca do gol para fazer) [no 1º tempo], foi uma bola muito difícil. Acho que ela passou a segurança que o time precisava. Quando a bola chegava no gol, ela estava ali para evitar.


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Holanda na Copa feminina (I): a análise sobre quem jogou

Após algumas mudanças, a Holanda terminou a Copa escalada assim - e mereceu aplausos, por decolar na hora certa rumo a um honroso vice-campeonato (FIFA/Getty Images)

Às vésperas da Copa do Mundo feminina, falava-se da seleção da Holanda como uma possível candidata a surpresa. Título, nem tanto (era assunto para Estados Unidos, Alemanha, Japão ou França, na própria opinião da técnica Sarina Wiegman), mas se esperava uma boa campanha das Leoas Laranjas. Quem sabe semifinais, ou quartas de final. Essa boa campanha poderia vir, baseada no ótimo ataque ostentado pela seleção holandesa e pela escalação que os torcedores já conheciam de cor e salteado.

Pois bem: no meio de tantas boas campanhas das seleções europeias - França, Itália e Suécia como destaque -, o destino e as boas atuações colocaram a Holanda numa final histórica. As norte-americanas impuseram sua ampla superioridade técnica e conquistaram o quarto título mundial, mas o time laranja foi além do que se pedia dele: quando os destaques tiveram dificuldade (e isso aconteceu muitas vezes), as classificações sucessivas vieram com muita dedicação em campo - exemplo claro foi a dificílima vitória sobre o Japão, nas oitavas de final.

Mais valioso ainda foi notar que, num time que mudou pouco (das 11 titulares, oito jogaram em praticamente todas as partidas), quem vinha do banco entrava bem - às vezes, até sendo titular. E sempre que um destaque fraquejava, outro aparecia prontamente para ajudar nas vitórias. Assim a Holanda chegou a um elogiável vice-campeonato. E já que este blog fez um especial pré-Copa do Mundo, com um texto para cada uma das 23 convocadas e para a técnica Sarina Wiegman, nada mais justo que viesse esta análise especial, com as opiniões do blog(ueiro) sobre as atuações de cada uma das 16 convocadas holandesas que entraram em campo na França.

Goleira

1 - Sari van Veenendaal (7 jogos, 5 gols sofridos): A goleira iniciou sua Copa do Mundo em relativa baixa. Veio para a França sem clube - o contrato com o Arsenal se encerrou, sem renovação -, e mesmo escolhida como titular por Sarina Wiegman, Van Veenendaal falhou no gol marcado por Camarões, ainda na fase de grupos. Porém, na hora em que realmente sua presença tinha de ser justificada, a camisa 1 das Leoas Laranjas o fez brilhantemente. Nas oitavas de final, contra o Japão, Sari fez uma defesa fundamental (e ainda teve sorte de ver erros nipônicos nas finalizações). Contra a Suécia, na semifinal, foram pelo menos duas defesas notáveis da goleira. E na decisão, se a Holanda segurou os Estados Unidos por um bom tempo, o grande mérito foi de Van Veenendaal, com três intervenções espetaculares. Não bastassem as defesas, como capitã, mostrou calma e espírito de liderança sobre o time. Mereceu plenamente o título de melhor goleira da Copa do Mundo. E provou a quem duvidava: é titular absoluta da posição na seleção da Holanda. Tem toda a chance de achar um clube para continuar a carreira.

Defensoras

2 - Desiree van Lunteren (7 jogos): A lateral direita viveu momentos inconstantes na Copa. Foi titular absoluta, mas encontrou certas dificuldades - principalmente nos jogos da fase de grupos: teve dificuldades contra Nova Zelândia e Camarões, e o gol do Canadá saiu por uma falha dela na marcação de Christine Sinclair. Entretanto, os bons momentos de Van Lunteren foram mais visíveis: precisa na marcação, sabendo se antecipar à adversária, e consciente no apoio - sempre sabia a hora melhor para avançar -, a camisa 2 das Leoas Laranjas mereceu a titularidade em todos os minutos da Holanda na Copa. Suas atuações contra Itália e Suécia, em especial, mereceram destaque - na semifinal contra as suecas, inclusive, foi quem mais desarmes fez (7). Já na final, caiu um pouco, tendo muitas dificuldades na marcação da norte-americana Tobin Heath. De certa forma, Van Lunteren viveu altos e baixos no Mundial. Mais altos do que baixos, é verdade.

3 - Stefanie van der Gragt (5 jogos): Eis uma jogadora que teve sofrimentos e prazeres em sua participação na campanha. Começou como titular absoluta, mostrando eficiência ao afastar a bola (usando principalmente sua estatura), mas a velha propensão a lesões apareceu: sentiu dores no joelho logo na estreia contra a Nova Zelândia, ficando de fora contra Camarões e Canadá. Poupada, Van der Gragt retornou nas oitavas de final, sob desconfianças. Teve um teste de fogo contra o Japão - e passou, com a classificação das Leoas às quartas de final. E contra a Itália, a zagueira teve seu apogeu: eficiente na defesa, ainda ganhou um merecido prêmio para superar os problemas, com o gol que definiu a vitória. Terminou a Copa deixando uma impressão agridoce. Por um lado, Van der Gragt errou, cometendo assumidamente o pênalti convertido por Megan Rapinoe, que colocou os Estados Unidos na rota do título. Por outro, sem suas antecipações e sua ajuda a Van Veenendaal, a Holanda poderia ter sofrido mais gols na final. O saldo deixado por Van der Gragt na Copa foi positivo: superou os problemas e foi bem.

20 - Dominique Bloodworth (7 jogos, 1 gol): Se teve mais sequência em campo do que a parceira de zaga Van der Gragt (esteve em todos os minutos de todas as sete partidas), Bloodworth foi crescendo no decorrer da Copa. Na estreia contra a Nova Zelândia, foi o ponto fraco: lenta, teve dificuldades na posse de bola, e ainda perdeu gol de modo incrível, no fim do 1º tempo. Contra Camarões, os defeitos foram parecidos, mas pelo menos ela conseguiu um importante gol, recolocando a Holanda na frente. A partir daí, Bloodworth só subiu na Copa. Se deixava espaço demais para as adversárias chegarem com a bola, se valia da força física nas divididas para se impor. Teve muitas dificuldades com a velocidade do Japão nas oitavas, é verdade. Mas já mantinha mais a bola nos pés. E só brilhou mais nas partidas decisivas: segura contra a Itália, absoluta contra a Suécia (em uma semifinal dificílima, Bloodworth foi precisa nos carrinhos e desarmes), útil contra os Estados Unidos (escalada na lateral esquerda, se valeu da força física e da ajuda das colegas de defesa para neutralizar Megan Rapinoe com bola rolando). Outra que tinha o que provar. E provou.

6 - Anouk Dekker (4 jogos, 1 gol): A experiente volante convertida em zagueira já sabia: seria reserva na Copa, mas precisaria estar a postos se fosse necessário. Foi: os problemas de Van der Gragt no joelho, durante a fase de grupos, forçaram a técnica Sarina Wiegman a escalar Dekker ao lado de Bloodworth na zaga. Deu certo: não só sua estatura (1,82m) valeu para combater o jogo aéreo adversário, como serviu até em jogadas de ataque - pois não foi Dekker a autora do gol que abriu o placar contra o Canadá? Mesmo voltando ao banco com a recuperação da titular Van der Gragt, estava comprovado o valor da experiência da camisa 6, remanescente da Copa de 2015, que também entrou no fim da prorrogação, na semifinal, para conter a pressão final da Suécia. Se restava qualquer dúvida, se dissipou na final: com a necessidade de resistência física e técnica contra o ataque quase irresistível dos Estados Unidos, Dekker começou jogando ao lado de Van der Gragt, e aguentou enquanto pôde, rebatendo os cruzamentos e contendo Alex Morgan (mais) e Tobin Heath (menos). Uma das três "reservas-titulares" da Holanda na Copa: entrou pouco, mas entrou bem.

4 - Merel van Dongen (6 jogos): No miolo de zaga ou na lateral esquerda, Van Dongen poderia ter começado a Copa já como titular. Partiu da reserva, mas bastou a sua entrada contra a Nova Zelândia, aos 70', para que Van Dongen mostrasse que merecia lugar no time: além de controlar os problemas defensivos no setor, partiu dela a jogada do gol salvador de Roord na estreia. Contra Camarões, a lateral esquerda também saiu do banco - e também foi bem. Bastou: a partir do jogo contra Canadá, Van Dongen era a nova titular da lateral canhota nas Leoas Laranjas. E justificou isso. Nem tanto contra o Japão, quando teve sérias dificuldades na marcação das rápidas adversárias. Mas nas quartas e nas semifinais, Van Dongen foi outra jogadora de segurança invejável: acertou todos os carrinhos, antecipou-se com precisão, mostrou calma quando era necessário. Na final, menos forte fisicamente, perdeu o lugar no time titular para Dekker. Tudo bem: Van Dongen já justificara por que virou titular no decorrer da Copa. Parte na frente de Kika van Es, na disputa pela lateral esquerda.

5 - Kika van Es (3 jogos): Estava tudo certo: Van Es estava preparada para ser a titular da lateral esquerda da seleção holandesa durante o Mundial. Mas no último amistoso antes do torneio (3 a 0 contra a Austrália, em Eindhoven), uma microfratura num dedo da mão direita prejudicou a jogadora. Ela até saiu chorando do gramado do Philips Stadion: temia o corte. Salvou-se dele, com uma rápida operação que a deixou pronta para a Copa. Porém, o pior veio depois: a pausa forçada na preparação para o torneio fez com que Van Es perdesse um pouco do vigor que a ajuda nos avanços ao ataque, e ainda a tornou vulnerável às ameaças defensivas, contra Nova Zelândia e Camarões. Como não se pode perder lá muito tempo para mudanças em Copa do Mundo, Van Dongen foi transformada em titular. E Van Es só teve a comemorar a transferência anunciada no decorrer da competição (do Ajax, foi para o Everton-ING). Até entrou em campo num momento importante: no fim do jogo contra o Japão, nas oitavas de final, para dar a velocidade que Van Dongen já não conseguia mais dar na marcação. Todavia, as circunstâncias a fizeram perder um pouco de espaço na seleção. Pena para ela.

Meio-campistas

14 - Jackie Groenen (7 jogos, 1 gol): A carismática volante foi outra jogadora que se afirmou como destaque da Holanda no decorrer da Copa. Na fase de grupos, Groenen foi discreta: não brilhou nem comprometeu, apenas tentou cumprir seu papel como "carrapato" a perseguir as meio-campistas adversárias (e a ajudar o ataque, quando possível). Nas oitavas de final, a camisa 14 foi preocupante: a velocidade do Japão na troca de passes a fez errar vários carrinhos, deixando a defesa da Holanda aberta. Problema plenamente corrigido a partir de então. Contra a Itália, nas quartas de final, Groenen acertou o que errara contra as japonesas: foi precisa nos desarmes, veloz nos avanços, enfim, foi incansável, um dos destaques do 2 a 0 que levou a Laranja à semifinal. E contra a Suécia, ela teve sua apoteose: novamente eficiente nos carrinhos que roubavam a bola das adversárias, a volante foi a autora do gol que levou a Holanda à final. Foi discreta na final, sem conseguir conter a velocidade dos Estados Unidos. Tudo bem: Jackie Groenen já mostrou o que poderá fazer nos próximos anos.

10 - Daniëlle van de Donk (7 jogos): Outra jogadora irregular da Holanda na Copa do Mundo. É errado falar que Van de Donk foi bem: poderia ter sido mais decisiva na criação de jogadas, poderia ter aparecido mais para completar jogadas no ataque, muitas vezes tomou decisões erradas em campo (passava a bola quando deveria chutar, e vice-versa). No entanto, também é injusto falar que a meio-campista foi mal "e pronto" durante a Copa: Van de Donk sempre chamava a responsabilidade nas partidas, quase marcou dois golaços (contra o Canadá, com uma bicicleta, e contra a Itália, com um chute colocado no travessão), tinha utilidade em muitos momentos - nas quartas de final contra as italianas, a camisa 10 soube manter a posse de bola no campo de ataque, com inteligência, impedindo até uma pressão final das Azzurre. Enfim, Van de Donk foi outra das Leoas a ser um "vagalume": acendeu e apagou várias vezes.

8 - Sherida Spitse (7 jogos): A experiente meio-campista pode até ter aparecido menos para a torcida em campo. Mas foi, talvez, uma das jogadoras mais fundamentais que a Holanda teve em toda a Copa do Mundo. Nos jogos em que a defesa sofria (contra Canadá, Japão, Suécia, Estados Unidos), Spitse voltava, ajudava firmemente na marcação, era quase uma "terceira zagueira". Quando era necessária a pressão do ataque, Spitse fazia "o primeiro passe", encaminhava a bola, ditava o ritmo da Holanda. Sem contar as jogadas de bola parada: foi a camisa 8 que cobrou o escanteio para o gol de Martens contra o Japão, foi a camisa 8 que bateu as duas faltas para Miedema e Van der Gragt marcarem contra a Itália nas oitavas de final, eram de seus pés as cobranças sinuosas. Enfim: aos 29 anos, Spitse justificou por que é a jogadora com mais partidas pela seleção feminina da Holanda. Enquanto quiser e tiver fôlego e habilidade, será a principal meio-campista das Leoas Laranjas.

19 - Jill Roord (7 jogos, 1 gol): Há algum tempo, Jill Roord era uma das "reservas-titulares" da Holanda: sempre que o meio-campo precisava, ela vinha a campo - não raro, com bons resultados. Sabedora de suas qualidades, ela já pedia: não queria usar a camisa 12, queria usar outra, que deixasse claro como ela podia ser titular. Roord foi atendida: usou a 19 na Copa. E respondeu muito bem: sempre que veio a campo, fortaleceu o poder ofensivo da Holanda, sendo mais ousada no meio-campo, chegando ao ataque, sendo mais uma jogadora capaz de finalizar. Assim, nos acréscimos, fez o gol de uma vitória aliviante na estreia, contra a Nova Zelândia. E assim, Roord forçou seu espaço: saiu do banco em todas as partidas da campanha do vice-campeonato mundial. Ajudou mais em algumas partidas do que em outras. Mas já faz por merecer ser escalada como titular, de vez em quando.

Atacantes

13 - Renate Jansen (1 jogo): Talvez a atacante do Twente tenha protagonizado a única substituição inesperada da Holanda na Copa. Com a defesa das Leoas Laranjas sendo pressionada pelo Canadá no final do jogo em Reims, ainda na fase de grupos, a Holanda precisava de uma atacante boa no jogo aéreo, para conseguir segurar a bola no ataque. Aí entrou Renate, no lugar de Van de Donk, para ser quem poderia puxar um contragolpe que aparecesse. Não apareceu nenhum. Mas a Laranja segurou a vitória sobre as canadenses, por 2 a 1. E Jansen, destaque do Twente campeão feminino na Holanda, ganhou seus três minutos no Mundial. Até merecido, para alguém que já está há dez anos na seleção.

21 - Lineth Beerensteyn (7 jogos, 1 gol): Ela era mais uma das jogadoras no banco de reservas que certamente viriam a campo se fosse necessário, no decorrer de cada partida. E entre as "reservas-titulares", Beerensteyn foi a holandesa que mais aproveitou suas chances. Já indicou isso com sua participação no gol da vitória na estreia, contra a Nova Zelândia, escorando o cruzamento de Van Dongen para Jill Roord fazer 1 a 0. Mas a camisa 21 se credenciou como candidata real a titular ao entrar contra o Canadá: fez o gol da vitória, por 2 a 1, foi tão rápida quanto Van de Sanden, mas bem mais eficiente do que a titular, sempre perigosa na ponta-direita. Contra o Japão, na árdua vitória nas oitavas, Lineth também foi decisiva: quando a Holanda estava contra as cordas, no fim do jogo, foi ela que achou o espaço para fazer a jogada que gerou o pênalti convertido por Martens. Sabedora de sua capacidade, apregoava nas entrevistas: queria ser titular. Já entrou mais cedo nas quartas de final, contra a Itália, e também ajudou no ótimo segundo tempo que a Holanda fez então. Por fim, teve a chance que desejava e merecia, tornando-se titular na reta final. Com resultados mistos: foi mediana na semifinal contra a Suécia, já causou alguns problemas à defesa norte-americana na final. De todo modo, Beerensteyn demonstrou na Copa que está pronta para ser titular. Talvez, continue assim.

7 - Shanice van de Sanden (7 jogos): Talvez a grande decepção da seleção holandesa nesta Copa do Mundo - Martens poderia até ser isso, mas ainda tem alguns problemas a justificarem suas atuações fracas. Van de Sanden, nem isso teve: foi mal, mesmo. Sua única jogada em que poderia ajudar - os avanços em velocidade na ponta direita - foi facilmente neutralizada pelas marcações adversárias. Aliás, era comum ver Van de Sanden ser rápida "até demais": partir antes do passe do meio-campo, só para vê-lo ser interceptado pela defesa adversária. A rigor, só em uma vez a camisa 7 conseguiu escapar da marcação: no lance do primeiro gol holandês contra Camarões, quando cruzou para Miedema marcar. Aos poucos, o cansaço e as boas atuações da reserva Beerensteyn foram vencendo Van de Sanden, que seguiu como titular até as quartas de final. A partir da semifinal (justamente em Lyon, no estádio e na cidade que tão bem conhece), ela já começou no banco - e seguiu errando, como na finalização bizarra nos minutos finais da prorrogação. Na final, vinda a campo já com 2 a 0 para os Estados Unidos no placar, já não tinha muito a fazer. Claro, Van de Sanden ainda tem o que mostrar na seleção holandesa. Mas na disputa por posição, saiu da Copa inferior a Beerensteyn.

11 - Lieke Martens (7 jogos, 2 gols): Era a craque, o símbolo da Holanda na Copa, aquela de quem todos esperavam a diferença a favor das Leoas Laranjas. E Martens falhou. Se serve de justificativa, ela teve motivos para justificar as atuações abaixo do esperado. O primeiro se deve até à sua própria fama prévia: como craque da Holanda, era até óbvio que houvesse mais marcação para cima dela - em todos os jogos, sempre havia no mínimo duas marcadoras para tentar evitar os habituais chutes colocados da camisa 11. O segundo é compreensível: as dores num dedo do pé, que persistiram durante toda a Copa, foram agravadas após as oitavas de final e fizeram com que a produção de Martens caísse cada vez mais na reta final da campanha da Holanda - na semifinal contra a Suécia, ela foi substituída já no intervalo. De mais a mais, no jogo mais difícil da campanha antes da final, a craque mostrou sua importância: com um belo gol e uma cobrança decisiva de pênalti, foi Martens o nome que levou a Holanda à vitória contra um valoroso Japão. Contudo, se teve esses problemas inegáveis, Martens também precisa aprender que, como craque, precisa (e pode) arranjar um jeito de se safar da marcação. Até porque ela tende a ser cada vez mais dura. Fica a tarefa para ela, na sequência do trabalho.

9 - Vivianne Miedema (7 jogos, 3 gols): Após decepcionar na Copa de 2015 e só embalar na reta final rumo ao título na Euro 2017, Miedema chegou à Copa a bordo de atuações excepcionais pelo Arsenal, no Campeonato Inglês feminino da temporada passada. Tinha tudo para, enfim, brilhar pela Holanda num grande torneio. Bem... brilhar intensamente, "Vivi" não brilhou. Mas conseguiu fazer sua melhor aparição pelas Leoas Laranjas num grande palco. Teve falhas, claro: às vezes perdia tempo e bola no ataque ao cortar para chutar de pé esquerdo - ou por mero capricho, como na belíssima jogada que fez na final contra os Estados Unidos. Entretanto, se uma atacante precisa fazer gols e causar problemas à defesa adversária, Miedema fez isso em momentos decisivos. Foi muito bem contra Camarões, com os dois gols que fizeram dela a maior goleadora da história da seleção feminina da Holanda. Foi ela que, enfim, abriu o placar contra a Itália, nas quartas de final, evitando nervosismo maior da Laranja. E na final, mesmo passando em branco, até mostrou talento para vir desde o meio-campo com a bola dominada. Enfim, se não foi a melhor atacante da Copa, Miedema foi a mais decisiva jogadora da Holanda na Copa. Não brilhou do começo ao fim, mas satisfez. E o que mostrou no torneio deixa a otimista impressão de que é só o começo para ela...

Ficaram no banco durante todos os minutos dos jogos da Holanda na Copa: Geurts e Lize Kop (goleiras), Van der Most (lateral direita), Kerkdijk (zagueira), Kaagman (meio-campista), Pelova (meio-campista) e Ellen Jansen (atacante)

A técnica: Sarina Wiegman

Se é possível falar em "craque" no banco, Sarina se provou como uma dessas na Copa. A treinadora da Holanda já era uma das personalidades mais importantes da história do futebol feminino no país, bem antes do Mundial começar. O que fez no mês passado na França só potencializou o tamanho da imagem de Wiegman. Sempre se mostrou muito consciente do estilo tático que desejava: firmeza na defesa, rapidez e eficiência nos ataques, paciência com a posse de bola. Quando foi necessário, Sarina teve mão firme e mudou o time, evitando perigosas quedas de desempenho no decorrer da Copa. Foi ousada quando precisava, mudando o time de acordo com o adversário - na final, a escalação da defesa foi firme enquanto pôde. Mostrou calma para aceitar as críticas (às vezes exageradas, é verdade) sobre o pragmatismo que a seleção feminina mostrou. Por tudo isso, Sarina Wiegman comprovou sua capacidade para alcançar o mesmo status de legendárias treinadoras europeias, como a alemã Sylvia Neid ou a sueca Pia Sundhage. E teve um dos prêmios que merecia: o anúncio de que será a primeira mulher a ter uma estátua no jardim da sede da federação da Holanda, em Zeist, onde ficam grandes nomes do futebol do país. E no futebol feminino holandês, poucos nomes são tão grandes quanto Sarina Glotzbach-Wiegman.

domingo, 7 de julho de 2019

Fizeram o possível

A Holanda mudou para tentar conter os Estados Unidos. Mas um erro pôs tudo a perder. Tudo bem: o vice-campeonato merece aplausos (FIFA/Getty Images)

Era possível a Holanda ganhar dos Estados Unidos, na final da Copa do Mundo feminina? Até era... desde que as Leoas Laranjas tivessem uma atuação perfeita, daquelas inesquecíveis, diante de uma seleção tão favorita quanto eram as norte-americanas, com seus três títulos mundiais (incluindo o da Copa passada, em 2015). Pelo menos na defesa, tudo deu certo. Mas estava faltando o ataque holandês funcionar. Uma hora, a fechada zaga holandesa fraquejou. E o caminho se abriu para o 2 a 0 do merecido título da equipe de Jill Ellis. Se serve de consolo (minúsculo), a Holanda tentou o que podia, com as armas que tinha.

Sarina Wiegman foi inesperadamente ousada na escalação. Sabedora de que seria caminho certo para a derrota dar espaço para a pressão quase irrespirável dos Estados Unidos no começo do jogo, a técnica da Holanda se preocupou em fechar a defesa: colocou Anouk Dekker (1,82m, mais alta do que Merel van Dongen, de 1,70m) no miolo de zaga, ao lado de Stefanie van der Gragt (1,78m), para inibir o jogo aéreo adversário. De quebra, Dominique Bloodworth foi deslocada para a lateral esquerda, para perseguir um dos grandes nomes ofensivos das norte-americanas - e da Copa: Megan Rapinoe.

Tudo começou bem. Ou quase. Afinal de contas, quase tudo que a Holanda fez nos primeiros 45 minutos foi se defender dos avanços dos Estados Unidos. Dekker e Van der Gragt mostravam precisão ao afastarem as bolas da área, de cabeça. Nas laterais, Desiree van Lunteren agia corretamente na direita, enquanto Bloodworth conseguia neutralizar Rapinoe, após alguma dificuldade para se readaptar.

Mas nenhuma dessas se destacava tanto quanto Sari van Veenendaal. Entre tantas goleiras de atuação elogiável na Copa do Mundo, a camisa 1 das Leoas Laranjas começou a despontar em Lyon. Saía bem do gol nos cruzamentos - como o de Tobin Heath, aos 17'. E estava sempre atenta nos chutes de longe, como provou em três grandes defesas, aos 28' (afastando um arremate de Samantha Mewis, meio no reflexo), aos 38' (pegando com dificuldades a bola, após desvio de Alex Morgan na pequena área) e aos 40' (em chute colocado da própria Morgan). Fez por merecer o prêmio que ganhou, como a melhor goleira da Copa.

Van Veenendaal fez o que pôde, talvez mais do que todas as outras holandesas em campo. Mereceu o prêmio de melhor goleira da Copa (FIFA/Getty Images)

Com todo esse esforço, a Holanda conseguiu conter os habituais começos sufocantes das norte-americanas. E passou o primeiro tempo sem sofrer gols. O problema foi na hora da bola ir para o meio-campo: Jackie Groenen perseguia as meio-campistas adversárias sem conseguir desarmá-las, Sherida Spitse não conseguia controlar o ritmo (afinal, não tinha a bola nos pés), só raramente Daniëlle van de Donk tinha espaço para avançar, Lieke Martens estava completamente sem ritmo. Mas as mudanças táticas que Sarina Wiegman pensara também ajudavam no desempenho de dois nomes: Vivianne Miedema mostrava capacidade inesperada para auxiliar na criação de jogadas, e Lineth Beerensteyn perturbava mais a marcação. Mas de chutes a gol, só a falta batida por Spitse para fora, aos 43'.

Entretanto, a Holanda se aguentava na defesa. A seleção dos Estados Unidos começava a se cansar de tanto tentar atacar, de tanto cruzar bolas à área, sem que viessem as finalizações. A zaga holandesa seguia precisa nas antecipações. Se não houvessem erros, a prorrogação era uma possibilidade - ou quem sabe, até, viesse a chance que Miedema e Beerensteyn tanto esperavam para marcarem o gol. Até que, aos 58', Heath cruzou da direita, Morgan tentou finalizar, mas Van der Gragt afastou a bola para escanteio com o pé alto. Tão alto que atingiu a atacante norte-americana - após o jogo, a zagueira holandesa reconheceu: "Eu não vi a chegada dela e fui com o pé para tentar acertar a bola, mas não acertei. Talvez ela tenha caído fácil demais, mas eu a acertei. Não peguei forte nela [Morgan], mas houve o contato".

Era um erro. Que foi punido: com a ajuda do VAR, a juíza francesa Stéphanie Frappart apitou o pênalti, convertido por Megan Rapinoe para o 1 a 0 dos Estados Unidos. Grosso modo, o jogo estava resolvido. A Holanda teria de avançar mais, deixar os cuidados defensivos que vinham dando certo - e isso abriu o espaço que as norte-americanas tanto desejavam para chegar a mais gols. Com isso, a Oranje até trouxe perigo uma vez, aos 65', quando Miedema fez excelente jogada, driblando três jogadoras, mas ficou com o ângulo bloqueado pelo chute e foi enfim desarmada por Becky Sauerbrunn. Mas os Estados Unidos chegavam com mais perigo, e encaminharam o título com o gol de Rose Lavelle, aos 69', em boa jogada individual da meio-campista, concluída com um chute forte no canto esquerdo de Van Veenendaal. Houve chance para mais, mas elas pararam nas boas atuações defensivas (Van der Gragt e Van Veenendaal à frente). Foi assim aos 71', quando Spitse evitou a finalização de Rapinoe. Ou aos 76', quando Van Veenendaal evitou o gol de Crystal Dunn.

E os Estados Unidos ganharam. Porque as jogadoras holandesas fizeram o possível, quase sem erros, por 58 minutos. Até que erraram. E aí, as agora tetracampeãs mundiais do futebol feminino não perdoam. Tudo bem: a Holanda fez o que pôde.

(FIFA/Getty Images)
Copa do Mundo feminina - final
Estados Unidos 2x0 Holanda
Data: 7 de julho de 2019
Local: Groupama Stadium/Parc OL (Lyon)
Árbitra: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Megan Rapinoe, aos 61', e Rose Lavelle, aos 69'

Estados Unidos 
Alyssa Naeher; Kelley O'Hara (Ali Krieger), Abby Dahlkemper, Becky Sauerbrunn e Crystal Dunn; Samantha Mewis, Julie Ertz e Rose Lavelle; Tobin Heath (Carli Lloyd), Alex Morgan e Megan Rapinoe (Christen Press). Técnica: Jill Ellis

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Anouk Dekker (Shanice van de Sanden), Stefanie van der Gragt e Dominique Bloodworth; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Sherida Spitse; Lineth Beerensteyn, Vivianne Miedema e Lieke Martens (Jill Roord). Técnica: Sarina Wiegman

quarta-feira, 3 de julho de 2019

O teste que faltava

Numa semifinal equilibradíssima contra a Suécia, a Holanda conseguiu acertar a chance que teve. Conseguiu ser precisa defensivamente. E chegou à final da Copa. Merece aplausos ainda mais fortes (Getty Images)

"Jij krijgt die lach niet van mijn gezicht" (em holandês, "você não tira o sorriso do meu rosto") é o título de uma das canções mais queridas do grupo de jogadoras da seleção feminina da Holanda. A música do cantor John de Bever já descrevia bem o clima com que as Leoas Laranjas encaravam a chegada às semifinais da Copa do Mundo feminina: ganhando ou perdendo, manteriam o sorriso no rosto, pois já faziam história apenas na segunda participação do país num Mundial. Mas, claro, dava para superar a Suécia. E numa campanha que teve atuações de todos os jeitos, a Holanda passou pelo teste que lhe faltava: numa partida altamente equilibrada, em que erros eram proibidos, a Laranja quase não errou. Aguentou a pressão psicológica. Foi eficiente. Fez 1 a 0. E está na final.

Se o ponto de vista aqui fosse o da seleção da Suécia, seria possível dizer que foi uma classificação injusta. Ainda mais pelo que se viu no primeiro tempo, no Parc Olympique Lyonnais, em Lyon. Jogando mais avançada do que se supunha, a seleção auriazul dominou as ações. Pelas pontas, Lina Hurtig e Sofia Jakobsson causavam tormentos. Hurtig foi ativa num cruzamento aos 9' (Sari van Veenendaal defendeu). E Jakobsson, o destaque da classificação sueca para cima da Alemanha, foi ainda mais perigosa aos 13': a camisa 10 fez bela jogada, se livrando de Sherida Spitse com um giro, carregando a bola no contra-ataque e passando para Stina Blackstenius bater cruzado. Mas Van Veenendaal mostrou segurança, de novo: a goleira da Holanda pegou, e resistiu às dores após pisão involuntário de Jakobsson.

Claro que, de vez em quando, a Holanda tentava. Mas diante de uma zaga experiente e muito fechada (e de Hedvig Lindahl, talvez a melhor goleira da Copa), só se viam chutes inócuos. Enfim tendo a chance que tanto queria como titular, Lineth Beerensteyn tentou aos 17', mas Lindahl pegou. Lieke Martens não tinha espaço e nem mostrava ritmo. Vivianne Miedema sempre dava um toque a mais na bola. Daniëlle van de Donk tinha atuação ruim, perdendo muitas bolas ou errando os passes nas raras jogadas. Restava à Holanda ter cuidado na defesa. Principalmente nas bolas paradas, como os escanteios cobrados por Magdalena Eriksson - foi assim que aos 37', após escanteio, Hurtig ficou com a sobra, na área, e chutou cruzado, para Van Veenendaal evitar o gol sueco com os pés, e Stefanie van der Gragt afastar.

Era a sorte holandesa: além da segurança de Van Veenendaal no gol, o miolo de zaga se mostrava muito atento. Tanto Van der Gragt quanto Dominique Bloodworth eram precisas nos desarmes e nas devoluções. A mesma coisa nas laterais, com Desiree van Lunteren contendo Hurtig (ainda que com dificuldades) e Merel van Dongen crescendo mais e mais na partida, mostrando admirável poder de antecipação. Mesmo se houvesse o erro de uma, outra consertava - foi assim aos 48', quando Van Dongen errou passe, Blackstenius puxou o contra-ataque com a bola que sobrara, mas Bloodworth desarmou a atacante da Suécia na área, na exata hora do chute. E mesmo se a bola passasse da zaga das Leoas Laranjas, a sorte as ajudava: como na grande chance sueca para o 1 a 0, aos 56', quando Nilla Fischer chutou cruzado, Van Veenendaal desviou, e a bola foi para a trave.

A Suécia foi melhor em boa parte do tempo normal, atacando mais. Parou nas excelentes atuações de defesa da Holanda (Getty Images)

Faltava o ataque e o meio-campo crescerem, manterem mais a posse de bola, fazerem a defesa adversária trabalhar. Começou a acontecer, com o cansaço maior da Suécia. Van de Donk começou a acertar mais as jogadas. Spitse auxiliava na marcação. E Jackie Groenen, sempre incansável, despontava como destaque no meio-campo da Holanda: corria, desarmava, vinha com a bola para ajudar Beerensteyn na direita, não parava. A bola que Miedema mandou no travessão de Lindahl, de cabeça, após escanteio, aos 64', era um auspicioso sinal: a Holanda estava viva.

E a entrada de Shanice van de Sanden - desta vez, no banco -, no lugar de uma Beerensteyn discreta, ampliou a sensação de reação da Holanda. Não que a camisa 7 estivesse embalada, mas conseguiu reter mais a bola, dar mais trabalho a Eriksson na direita, fazer mais tabelas e jogadas. A Holanda cresceu, teve chance com Van de Donk (errou o chute, aos 85') e Van de Sanden (defesa de Lindahl nos acréscimos), mas começou a se resguardar para a prorrogação que vinha. E a Suécia, mais cansada, também.

Terminaram os 90 minutos. Começou a prorrogação. E a sensação era de jogo de bichos grandes: ninguém podia errar. A Suécia parecia mais ofensiva, rondando a área de Van Veenendaal. Até que uma hora, aos 99', Van der Gragt devolveu um chutão ao meio-campo. Spitse pegou a bola e passou a Van de Donk. Desta, a bola foi para Groenen. A camisa 14 (como a de Johan Cruyff, seu ídolo) viu o espaço. Decidiu fazer o que lhe pediram nos treinos: chutar a gol. Bola precisa, no canto direito de Lindahl. Era o 1 a 0. A Holanda acertava a chance que precisava acertar.

Groenen experimentou o que lhe pediam: chutar de fora da área. Conseguiu o gol da vitória (Getty Images)

O que não significava, nem de longe, que a Suécia tinha desistido. Ao contrário: cresceu na segunda metade da prorrogação. Julia Zigiotti e Madelen Janogy ajudavam o ataque a manter a posse de bola. Blackstenius, Jakobsson e Kosovare Asllani tentavam. Mas agora, elas é que paravam no monolito defensivo holandês, com as grandes atuações de Van Veenendaal, Van der Gragt e Bloodworth - única chance perigosa foi um chute por cobertura de Asllani, aos 119'. A Holanda corria perigos, seguia sem a bola. E quando a tinha, perdia chances incríveis - como nos acréscimos, quando Van de Sanden errou bisonhamente um chute na área.

Asllani teve azar: atingida por uma bola no rosto, ficou com sérias dores no pescoço e teve de sair. O que só aumentou o drama: os dois minutos de descontos na prorrogação chegaram a sete, com o atendimento à sueca. Mas Van Veenendaal pegou a bola vinda de um cruzamento de Jakobsson, aos 120' + 7. Caiu no chão. E o apito final se ouviu. A Holanda tinha superado o teste que faltava. Jogou medianamente, e dificilmente superará os Estados Unidos, muito favoritos a conquistarem o quarto título mundial no domingo. Tudo bem: nada mais tirará o sorriso no rosto das jogadoras holandesas.

Copa do Mundo feminina - semifinal
Holanda 1x0 Suécia
Data: 3 de julho de 2019
Local: Groupama Stadium/Parc OL (Lyon)
Árbitro: Marie-Soleil Beaudoin (Canadá)
Gol: Jackie Groenen, aos 99'

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Dominique Bloodworth, Stefanie van der Gragt e Merel van Dongen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Sherida Spitse; Lineth Beerensteyn (Shanice van de Sanden), Vivianne Miedema e Lieke Martens (Jill Roord). Técnica: Sarina Wiegman

Suécia 
Hedvig Lindahl; Hanna Glas, Nilla Fischer, Linda Sembrandt e Magdalena Eriksson (Mimmi Larsson); Elin Rubensson (Julia Zigiotti), Kosovare Asllani e Caroline Seger; Sofia Jakobsson, Stina Blackstenius (Jonna Andersson) e Lina Hurtig (Madelen Janogy). Técnico: Peter Gerhardsson

sábado, 29 de junho de 2019

Já ganhou (o respeito)

O gol de Van der Gragt fechou o placar - e abriu o caminho das semifinais para uma Holanda que merece respeito (FIFA/Getty Images)

A seleção feminina da Holanda avançava na Copa do Mundo. Mas, mesmo seguindo no torneio, com quatro vitórias em quatro jogos, era notável que as Leoas Laranjas tinham problemas preocupantes. É certo que não há seleções que não sigam com erros, mesmo durante uma Copa do Mundo. No entanto, há um momento em grandes torneios em que a equipe necessita impor respeito, mostrar por que chegou tão longe. Na melhor hora possível, a Oranje mostrou isso: teve sua melhor atuação na Copa, superou a Itália, e chegou aos seus objetivos iniciais - a semifinal do torneio, e à vaga no torneio olímpico de futebol feminino, nos Jogos de Tóquio, em 2020.

A rigor, desde que a bola rolou em Valenciennes, a Holanda já fazia por merecer elogios. Por opção tática da Itália (deixando deliberadamente a posse de bola nos pés laranjas) e por mérito próprio, as holandesas tiveram mais força ofensiva. Os méritos próprios residiram, principalmente, no meio-campo. Nem tanto por Daniëlle van de Donk: a camisa 10 seguiu aparecendo bastante no ataque, mas quase sempre fez opções erradas de jogada no primeiro tempo - com exemplo claro nos acréscimos do 1º tempo, quando um erro de passe de Elena Linari abriu espaço para um contra-ataque de quatro holandesas contra três italianas, e Van de Donk escolheu a jogada individual. Entretanto, Jackie Groenen e Sherida Spitse compensavam plenamente no meio. Groenen era precisa nos desarmes, e mostrava velocidade na direita, enquanto Spitse ditava o ritmo do jogo: ora recuava para ajudar a defesa, ora avançava para auxiliar o ataque.

Porém, algo ainda preocupava, na Holanda. O ataque tinha a bola nos pés, mas raramente causava problemas à goleira da Itália, Laura Giuliani - que, a rigor, só apareceu aos 29', num arremate fraco de Vivianne Miedema, e aos 43', numa cobrança de falta de Spitse, que mandou a bola diretamente às suas mãos. Shanice van de Sanden tentava as jogadas individuais, mas não tinha espaço - ou era precipitada nos avanços. Miedema mostrava lentidão. O único ponto notável do trio ofensivo da Laranja era Lieke Martens: superando dores num dedo do pé que quase a tiraram do jogo, a camisa 11 buscava a bola, tentava jogadas pela esquerda, ia para o meio-campo ajudar Van de Donk. Ainda assim, cabia prestar muita atenção ao ataque italiano. Mesmo enfraquecidas pela ausência de Cristiana Girelli, as Azzurre começaram a bloquear o espaço da Holanda. E em poucos passes, tiveram chances mais perigosas - como aos 18', quando Valentina Bergamaschi cabeceou fracamente para a defesa de Sari van Veenendaal, e aos 36', num chute cruzado de Valentina Giacinti, que passou rente à trave.

O calor fortíssimo em Valenciennes (33º, forçando duas paradas técnicas para refresco) deixava o jogo mais lento. Mas era também muito equilibrado. Quem acertasse mais no segundo tempo, provavelmente levaria a vaga nas semifinais. E a Holanda começou a se aproximar disso, com muita velocidade. Só que as chances perdidas se avolumavam: era Miedema cabeceando fraco após cruzamento de Van de Sanden aos 49',  era um chute de Groenen que batia em duas italianas - e nela própria - e saía aos 51', era um cruzamento de Desiree van Lunteren (bem no jogo) que Miedema furava aos 52', era a bola na travessão de Daniëlle van de Donk aos 58'. Tantas chances perdidas poderiam custar caríssimo.

A Holanda perdia chances demais contra a Itália, mesmo superior no segundo tempo. Até que Miedema aproveitou e acalmou o time (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)


Só restava a Sarina Wiegman fazer as mudanças que podia: por exemplo, colocar Lineth Beerensteyn no lugar da cansada Van de Sanden, aos 56'. E só restava à Holanda ter a paciência que a treinadora pedira na entrevista pré-jogo, e manter a posse de bola. Vinham as chances - como outro chute de Spitse, mandando a bola rente à trave, aos 66'. Mas faltava aproveitá-las. Não faltou mais a partir dos 70', com o gol do alívio: Miedema, desviando de cabeça para marcar seu terceiro gol na Copa.

Ainda cabia ter todo o cuidado com as italianas, até pela entrada de Anna Maria Serturini, veloz meio-campista. Mas a Holanda nem precisava desse conselho: mostrava serenidade, mantinha a posse de bola no campo de ataque (méritos a Van de Donk, boa na retenção), tinha superioridade clara. E o gol de Van der Gragt, aos 80', em outra bola aérea - sexto gol de bola alta da Holanda na Copa - foi o início da festa e da comemoração.

Sim, comemoração. Porque a Holanda já alcançou coisas neste Mundial, termine em quarto lugar ou seja campeã. Já ganhou o respeito de quem acompanha o futebol feminino no mundo. Já provou que o título da Euro 2017 não foi sorte de principiante. Só não ganhou ainda a semifinal, seja contra Alemanha ou contra Suécia. E talvez, saber que não ganhou nada seja a chave para as Leoas Laranjas fazerem ainda mais história do que já fizeram.

Copa do Mundo feminina - quartas de final
Holanda 2x0 Itália
Data: 29 de junho de 2019
Local: Stade du Hainaut (Valenciennes)
Árbitro: Claudia Umpierrez (Uruguai)
Gols: Vivianne Miedema, aos 70', e Stefanie van der Gragt, aos 80'

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Dominique Bloodworth, Stefanie van der Gragt (Anouk Dekker) e Merel van Dongen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Sherida Spitse; Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema (Jill Roord) e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Itália
Laura Giuliani; Alia Guagni, Sara Gama, Elena Linari e Elisa Bartoli (Lisa Boattin); Valentina Bergamaschi (Anna Maria Serturini), Aurora Galli, Manuela Giugliano e Valentina Cernoia; Valentina Giacinti e Barbara Bonansea (Daniela Sabatino). Técnica: Milena Bertolini


terça-feira, 25 de junho de 2019

Faz parte

Holanda se aliviou na última hora contra o Japão. Terá desafio ainda maior contra a Itália (Pim Ras Fotografie)

Quando o último jogo das oitavas de final da Copa do Mundo começou, em Rennes, a Holanda pareceu envolver o Japão. Parecia que a estratégia para superar a baixa estatura da Nadeshiko (bolas altas, apostando na velocidade de Shanice van de Sanden e Lieke Martens pelas pontas) iria levar a uma classificação fácil das Leoas Laranjas às quartas. Nada mais ilusório: as nipônicas impuseram o toque de bola acelerado, empataram o jogo, atormentaram um cansado time holandês no segundo tempo. Aí, numa das únicas vezes em que a Laranja conseguiu rondar a área da goleira Ayaka Yamashita, veio um pênalti. Que Martens converteu, para ser a salvadora, o nome da vitória que deu a vaga nas quartas.

Martens desvia para o belo gol que abriu o placar: enfim, ela apareceu (FIFA/Getty Images)

Enfim, a camisa 11 teve uma atuação digna de nota na Copa. E não só pelo gol: desde o começo da partida no Roazhon Park, Martens enfim teve o espaço que precisava para ser mais veloz com a bola e participar ativamente das jogadas. Foi o que aconteceu com apenas cinco minutos de jogo no Roazhon Park: Lieke cruzou, Vivianne Miedema tentou finalizar de primeira, e o gol só não se consumou pela aparição de Aya Sameshima, bloqueando a bola para um escanteio. De certa forma, seu bonito gol aos 17' - desvio com a parte externa do pé, após escanteio cobrado por Sherida Spitse - premiava as aparições mais constantes do maior destaque da seleção holandesa.

Com a atuação segura do meio-campo (Daniëlle van de Donk criando as jogadas, Jackie Groenen como o "carrapato" das japonesas e Sherida Spitse ajudando a defesa), a Laranja estava sossegada. Tão sossegada que perdeu o controle do jogo. Por vezes estabanada nas tentativas de carrinhos, Groenen começou a ser superada por Yui Hasegawa. Ainda apostando nos lançamentos longos, a defesa quase sempre mandava as bolas para a saída antecipada da goleira Yamashita. A posse da esférica foi ficando mais com o Japão. E as coisas se dificultaram: impondo velocidade na troca de passes, as nipônicas conseguiram o empate antes do intervalo, com bela triangulação entre Mana Iwabuchi, Yuika Sugasawa e Hasegawa, a autora do 1 a 1.

Tinha ficado difícil? Ficaria ainda mais no segundo tempo. A velocidade e a boa ocupação de espaços por parte do Japão ("Às vezes parecia que havia 20 japonesas em campo", se impressionou Vivianne Miedema) foi prensando a Holanda em seu campo de defesa. O meio-campo já não tinha a bola. O ataque "morria" de inanição. E as quatro da linha de trás sofriam cada vez mais com os avanços. As chances das japonesas demoraram, mas apareceram. Aos 64', em chute de Emi Nakajima rebatido no susto pela goleira Sari van Veenendaal; aos 71', em arremate de Hasegawa rente à trave; aos 76', quando Iwabuchi mandou a bola na rede pelo lado de fora; aos 79', quando Hina Sugita acertou o travessão; e aos 80', quando Van Veenendaal novamente apareceu com destaque, espalmando chute de Yuka Momiki (que entrou muito bem no jogo, melhorando as chegadas ao ataque).

Martens apareceu - e reapareceu para confirmar a dramática vitória (AP)

Sarina Wiegman fazia o que era possível: colocava Jill Roord para melhorar o meio-campo, devolvia Kika van Es ao time, tirava a cansada Van de Sanden para dar lugar a Lineth Beerensteyn. Pois foi justamente da atacante da camisa 21 que surgiu o lance salvador, aos 88' - ela cruzou, Miedema complementou, e a bola desviou no braço da zagueira Saki Kumagai. A juíza Melissa Borjas apitou o pênalti imediatamente, demorou em conversas com o VAR, mas confirmou sua marcação. Lieke Martens conseguiu manter alguma frieza: "Eu me sentia bem, aí perguntei a Sherida [Spitse, cobradora das bolas paradas] se eu poderia bater. Ela me deu a bola imediatamente". E a camisa 11 marcou o seu terceiro gol pela Holanda em Copas do Mundo, na mais apropriada das horas. Restava ao Japão aquela incômoda impressão do "quem não faz, toma". Faz parte.

Mas após o alívio, certamente virão críticas a novo sofrimento da Holanda na Copa do Mundo feminina. A defesa segue frágil - a não ser por Van Veenendaal, que mostrou firmeza quando exigida nesta terça. O meio-campo ainda perde muitas divididas. E o ataque segue tímido quando enfrenta um time com defesa forte e bem postada. É exatamente o caso da Itália, adversária do próximo sábado em Valenciennes. Além do mais, as Azzurre parecem viver o caso do time que se encaixa na hora certa. Há segurança na defesa, com Sara Gama comandando as ações. Velocidade no lado do meio, com Aurora Galli. E um ataque merecedor de respeito, com Valentina Giacinti, Cristiana Girelli e Barbara Bonansea entre as melhores atacantes da Copa.

Tudo isso, diante de uma Holanda que ainda não sabe encontrar variações satisfatórias para seu jogo. Será um grande desafio. Faz parte de uma Copa do Mundo. Até porque a Laranja conseguiu passar do seu desafio nas oitavas de final.

Copa do Mundo feminina - oitavas de final
Holanda 2x1 Japão
Data: 25 de junho de 2019
Local: Roazhon Park (Rennes)
Árbitra: Melissa Borjas (Honduras)
Gols: Lieke Martens, aos 17' e aos 90'; Yui Hasegawa, aos 43'.

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Dominique Bloodworth, Stefanie van der Gragt e Merel van Dongen (Kika van Es); Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Jill Roord) e Sherida Spitse; Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Japão
Ayaka Yamashita; Risa Shimizu, Saki Kumagai, Nana Ichise e Aya Sameshima; Emi Nakajima (Yuka Momiki), Narumi Miura, Hina Sugita e Yui Hasegawa; Yuika Sugasawa e Mana Iwabuchi (Saori Takarada). Técnica: Asako Takakura Takemoto


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Resultado ótimo. O desempenho, pode melhorar

A pressão sobre a seleção feminina estava forte, por causa do desempenho apenas razoável na Copa. Mas a Holanda conseguiu terminar a primeira fase com três vitórias, e tem a resposta: resultados excelentes (Zhizhao Wu/Getty Images)

Sabe-se que resultado e desempenho são coisas diferentes no futebol. Nem sempre um desempenho bom leva às vitórias, assim como nem sempre um campeão é um time irrepreensível. De certa forma, é o que tem acontecido com a seleção da Holanda nesta Copa do Mundo feminina. O que se viu nesta fase de grupos deixa claro que as Leoas Laranjas ainda têm coisas a melhorar nas atuações - agora, ainda mais, já que começará a fase eliminatória do torneio. No entanto, é justo dizer que os resultados conseguidos pela Laranja são irrepreensíveis. E a vitória por 2 a 1 no Canadá, primeira da história da seleção feminina holandesa sobre o país da América do Norte, mostrou: a Holanda está na Copa a sério.

No começo, parecia que as falhas se sobressairiam, pelo susto logo no primeiro minuto em Reims, quando uma desatenção fez com que Desiree van Lunteren derrubasse Janine Beckie, em jogada que teve pênalti inicialmente apontado pela juíza francesa Stéphanie Frappart - só cancelado quando Frappart foi chamada pelo VAR e notou que Van Lunteren derrubara Beckie ainda fora da área. Pior ainda aos 22', quando a linha de impedimento das holandesas quase foi iludida, com Jordyn Huitema fazendo o gol, no que seria falha da goleira Sari van Veenendaal. Mas a jogada foi anulada. E aos poucos, a Holanda se assentou em campo. Anouk Dekker mostrou imposição física valiosa no miolo de zaga, enquanto Merel van Dongen justificou plenamente a opção da técnica Sarina Wiegman por sua escalação na lateral esquerda, deixando Kika van Es no banco: mantendo bem a posse de bola e precisa nos desarmes, Van Dongen deu mais segurança à defesa.

A defesa da Holanda continuou com dificuldades - mas Van Dongen, com boa atuação, trouxe mais segurança (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

A partir dessa segurança, o time laranja cresceu. Após um momento de superioridade canadense, houve crescimento. Com mais espaço, Sherida Spitse e Jackie Groenen conseguiram avançar e ajudar o ataque - coisa que Daniëlle van de Donk continua fazendo, se consolidando como uma das melhores da Holanda na Copa (e quase tendo seu desempenho premiado com um gol de bicicleta, aos 34'). Shanice van de Sanden teve pouco espaço - mas quando teve, trouxe perigo. Como aos 30', num cruzamento rebatido com dificuldades pela goleira Stéphanie Labbé, antes que a zagueira Shelina Zadorsky impedisse o gol. E também aos 33', quando a camisa 7 da Holanda criou uma jogada que fez com que Vivianne Miedema mandasse a bola na trave. Mesmo que fosse vulnerável, a Holanda comprovou no primeiro tempo: quanto mais espaço tem para jogar, melhor joga. A única a destoar disso era justamente a jogadora de quem mais se esperava: Lieke Martens, outra vez submissa à marcação.

E o gol de Anouk Dekker, aos 54', premiou tudo isso: o crescimento de nível da seleção, a boa atuação de Dekker, a superioridade diante do Canadá. Mas sempre era bom lembrar: apesar de seu nível técnico elogiável, a seleção feminina mantém problemas a serem resolvidos. Dois deles são o espaço dado às adversárias no campo de defesa e a falta de firmeza nas divididas (raras vezes as jogadoras holandesas ficam com a sobra). O primeiro foi visível no gol de empate do Canadá, aos 60': as canadenses tiveram todo o espaço para trocarem passes, até Ashley Lawrence chegar pela direita, cruzar, e Christine Sinclair superar Van Lunteren para marcar gol na quinta Copa consecutiva de sua carreira.

Mas se as falhas ficaram claras, as qualidades holandesas também ficaram. A começar pela coragem de Sarina Wiegman nas substituições: já vista na troca de Van Es por Van Dongen, foi novamente exposta quando Martens deu lugar a Lineth Beerensteyn. E a atacante da camisa 21 mostrou pela esquerda a velocidade que Van de Sanden já não conseguia dar na direita. Outra qualidade: a técnica. Se o Canadá podia trocar passes com eficiência, a Holanda também podia. E fez isso no gol da vitória, somando individualidade e coletividade: Beerensteyn passou por duas canadenses e passou a Miedema, que fez o pivô para Groenen aparecer na direita, cruzar para Beerensteyn, e esta fazer o 2 a 1 que premiou sua excelente entrada.

Beerensteyn teve no gol da vitória que marcou um prêmio justo à sua boa entrada em campo (Reuters)

A Holanda seguiu sofrendo nos quinze minutos restantes: seguiu perdendo divididas, viu Adriana Leon trazer qualidade técnica ao ataque do Canadá, que quase empatou aos 83', com Beckie (talvez, a melhor canadense em campo). Mas, por fim, segurou a vitória, e tem resultados irrepreensíveis para poder conter as queixas em relação ao desempenho mediano. Se Sherida Spitse se dizia "de saco cheio" das críticas, na coletiva pré-jogo, Van de Donk pôde se gabar, dizendo que o triunfo "calou um pouco a boca dos críticos". Não é bem assim. Mas, pelo menos, ficou claro: a Holanda pode superar o Japão, rival das oitavas de final, como na Copa de 2015. E Lieke Martens já prometeu, na zona mista: "Não perderemos novamente das japonesas".

Motivação e capacidade técnica: dois fatores que ajudam um time a crescer. E a Holanda mostrou que pode crescer, nesta terça, com sua melhor atuação na Copa. Não veio à França a passeio.

Copa do Mundo feminina - fase de grupos - 3º jogo
Holanda 2x1 Canadá
Data: 20 de junho de 2019
Local: Auguste-Delaune (Reims)
Árbitra: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Anouk Dekker, aos 54', Christine Sinclair, aos 60', e Lineth Beerensteyn, aos 75'

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Dominique Bloodworth, Anouk Dekker e Merel van Dongen; Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Renate Jansen) e Sherida Spitse (Jill Roord); Shanice van de Sanden, Vivianne Miedema e Lieke Martens (Lineth Beerensteyn). Técnica: Sarina Wiegman

Canadá
Stephanie Labbé; Ashley Lawrence, Kadeisha Buchanan, Shelina Zadorsky e Allysha Chapman (Jayde Rivière); Jessie Fleming, Desirée Scott (Rebecca Quinn) e Sophie Schmidt; Jordyn Huitema, Christine Sinclair (Adriana Leon) e Janine Beckie. Técnico: Kenneth Heiner-Moller

sábado, 15 de junho de 2019

Vitória com vulnerabilidades

Miedema fez dois gols, e pôde até dar cambalhota para comemorar. Mas Holanda passou perto dos sustos contra Camarões (Alex Caparros/FIFA/Getty Images)

A vitória sobre a Nova Zelândia já deixara claro: a seleção feminina da Holanda tem sérias dificuldades quando não consegue impor seu estilo de jogo ao adversário. Já era visível antes da Copa do Mundo começar, ficou mais visível contra as neozelandesas, e voltou a ser visível neste sábado, contra Camarões, na segunda partida das Leoas Laranjas. Entretanto, se têm problemas, as holandesas também possuem jogadoras capazes de minorarem as dificuldades. Uma delas, enfim, brilhou neste sábado, em Valenciennes: Vivianne Miedema. Com ela como grande destaque, a Laranja alcançou o triunfo por 3 a 1, que pelo menos já lhe garante nas oitavas de final da Copa. Ficaram as vulnerabilidades, que ainda podem ser corrigidas durante os treinos.

Nos primeiros momentos do jogo no Stade du Hainaut, duas coisas ficaram claras. A primeira: sim, a Holanda teria mais espaço para avançar, ser mais ofensiva, mais perigosa - tanto que, logo aos cinco minutos, Lieke Martens passou por duas marcadoras, e a bola sobrou para Shanice van de Sanden quase marcar. A segunda: Camarões podia até ser mais fraca tecnicamente, mas não se entregaria sem luta. Não só as Leoas Indomáveis mostravam força física nas divididas, como também tinham jogadoras capazes de trazerem problemas à defesa holandesa. Mais precisamente, duas: Gaëlle Enganamouit, enfim titular (que tentou pela primeira vez aos 12', num chute de fora) e, principalmente, Gabrielle Aboudi Onguené.

A atacante camaronesa da camisa 7 mostrava velocidade, imposição, alguma técnica, e deu trabalho nos contra-ataques. Principalmente aos 22 minutos, quando se valeu do escorregão de Desiree van Lunteren (hoje, um pouco pior do que contra a Nova Zelândia) para chutar perto do gol. Nas divididas, a atacante mostrava força - como, de resto, toda a seleção camaronesa. Às vezes, força até demais: como aos 37', quando Geneviève Ngo Mbeleck levantou o pé e atingiu a mão de Jackie Groenen, levando o cartão amarelo. No entanto, se o objetivo era truncar o jogo, Camarões conseguia. E a Holanda mostrava submissão a isso. Não só: mostrava lentidão na saída para o jogo, falta de atenção (foram muitas bolas perdidas no meio-campo), preocupava com os espaços na defesa, enfim, era até mais decepcionante do que fora contra a Nova Zelândia.

E não precisava ser assim, porque espaço havia no ataque. Nem tanto para Lieke Martens, outra vez sucumbindo à marcação, mas principalmente para Vivianne Miedema, mais perigosa e efetiva, e para Van de Sanden, sempre o principal desafogo das jogadas na direita. A camisa 7 sofreu no começo do jogo, com dois escorregões impedindo dois cruzamentos. Trocou a chuteira, e numa das primeiras jogadas em que recebeu a bola, foi precisa: mandou para o meio da área, e Miedema completou para as redes, fazendo o seu 59º gol pela seleção da Holanda e abrindo o placar. Só não foi o melhor fim de 1º tempo possível porque Camarões, enfim, aproveitou os excessivos avanços da defesa: um lançamento mandou a bola a Aboudi Onguené, a goleira Sari van Veenendaal saiu do gol e errou com o quicar da bola, e a atacante camaronesa ficou livre para fazer 1 a 1.

Camarões se esforçou mais na marcação, mas Aboudi Onguené deu algum trabalho no ataque (Robert Cianflone/Getty Images)


Poderia ter sido desastroso. Não foi, porque, no começo do segundo tempo, as individualidades holandesas se impuseram numa jogada ensaiada, logo aos 48'. Sherida Spitse cobrou uma falta mandando a bola para Groenen, esta cruzou, Michaella Abam fracassou ao tentar afastar, e Bloodworth pôde apagar as más lembranças do gol perdido contra a Nova Zelândia, fazendo seu primeiro gol pela seleção. A partir daquele momento, a Holanda ficou um pouco mais tranquila em campo. Principalmente, pela boa atuação das três meio-campistas. Cuidando do auxílio à defesa, Sherida Spitse foi mais segura; rápida no meio-campo, Daniëlle van de Donk se consolida como a melhor da Holanda na Copa até aqui; e Jackie Groenen, enfim, se apresentou como opção real de jogadas na direita, ajudando bastante no ataque.

Com isso, era possível manter mais a posse de bola, impedindo que Camarões assustasse, mesmo que tivesse mais atacantes com as entradas de Henriette Akaba e Ajara Nchout. Só houve uma chance, e quase a seleção africana a aproveitou: aos 81', Aboudi Onguené passou por Bloodworth, cruzou, Akaba completou de primeira, e o 2 a 2 só não aconteceu porque a bola desviou em Anouk Dekker e saiu. Mas a Holanda também tentava acelerar o ataque, com as entradas de Lineth Beerensteyn e Jill Roord. Teve a sua chance, aos 85'. E conseguiu o 3 a 1 da tranquilidade, com Miedema se isolando como maior goleadora da história da seleção feminina.

Valeu pelo triunfo, valeu pela classificação. Mas as declarações de várias jogadoras holandesas, como Miedema e Van de Donk, foram unânimes: a seleção da Holanda ainda não foi boa o bastante. Não foi mesmo. Pelo menos, poderá entrar sem pressão contra o Canadá, na próxima quinta. Mas das oitavas em diante, qualquer erro terá de ser minimizado ao máximo. E as Leoas Laranjas ainda estão errando muito.

Copa do Mundo feminina - fase de grupos - 2º jogo
Holanda 3x1 Camarões
Data: 15 de junho de 2019
Local: Stade du Hainaut (Valenciennes)
Árbitro: Casey Reibelt (Austrália)
Gols: Vivianne Miedema, aos 41' e aos 85', e Gabrielle Aboudi Onguené, aos 43'; Dominique Bloodworth, aos 48'

Holanda
Sari van Veenendaal; Desiree van Lunteren, Dominique Bloodworth, Anouk Dekker e Kika van Es (Merel van Dongen); Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Jill Roord) e Sherida Spitse; Shanice van de Sanden (Lineth Beerensteyn), Vivianne Miedema e Lieke Martens. Técnica: Sarina Wiegman

Camarões
Annette Ngo Ndom; Raïssa Feudjio, Yvonne Leuko, Christine Manie, Estelle Johnson e Claudine Meffometou; Michaella Abam (Charlene Meyong), Jeannette Yango, Geneviève Ngo Mbeleck (Ajara Nchout) e Gabrielle Aboudi Onguené; Gaëlle Enganamouit (Henriette Akaba). Técnico: Alain Djeumfa