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terça-feira, 9 de junho de 2026

Não era para ser assim

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha plenas condições de já se garantir na Copa do Mundo de 2027. Desnecessariamente, se colocou em dificuldades, e terá de jogar sua sorte na repescagem (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) chegou às últimas rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina de 2027 com a faca e o queijo na mão: bastariam duas vitórias para assegurar a vaga direta na competição, sem precisar da repescagem. Porém, as Leoas Laranjas, novamente, fizeram do jeito mais difícil: se jogaram bem na vitória final, os 3 a 1 na Polônia, ficou na memória a dura derrota por 3 a 2 para a Irlanda, na penúltima rodada, quando repetiram erros que se julgavam superados - lentidão, dificuldade de adaptação ao jogo, perda de chances - e perderam a condição de controlar o próprio destino nas Eliminatórias. Ficou a pesarosa impressão de que, por melhor que o time seja, não precisava ser assim.

Até porque já se sabia de antemão que o cenário do primeiro jogo seria adverso às holandesas: o estádio Páirc Uí Chaoimh teria suas dimensões diminuídas ao mínimo exigido pela FIFA, o gramado estaria afetado pelo mau tempo, a Irlanda mostraria o esforço e a força física de sempre (além do talento vindo de Katie McCabe). Mas as holandesas em campo pareceram ignorar tais problemas, com lentidão, com desatenção defensiva... tiveram o castigo rápido, aos 19', quando Lynn Wilms perdeu a bola para Abbie Larkin, esta passou a Kyra Carusa, e sua finalização, mesmo lenta, passou pela goleira Lize Kop para o 1 a 0 irlandês.

Mesmo lenta, a bola do primeiro gol da Irlanda passou pela goleira Lize Kop, considerada um dos "bodes expiatórios" da derrota por 3 a 2 (Brendan Moran/Sportsfile/Getty Images)

Só mesmo em desvantagem é que a Holanda começou a tentar. Vieram boas chances, como um cabeceio de Romée Leuchter que mandou a bola para fora, aos 23', ou um chute de Wieke Kaptein que mandou a bola na trave, pouco depois. Ainda assim, a lentidão e a pouca força nas disputas de bola mantinham as Leoas Laranjas abaixo no jogo, mesmo criando bem mais chances de ataque. Cenário pouco auspicioso, num ambiente que ganhava um fator complicador adicional: a fortíssima chuva que caiu sobre Cork no segundo tempo. Diante disso, entraram as veteranas: somaram-se a Dominique Janssen Daniëlle van de Donk e Jackie Groenen. Pois viria delas a efetividade. Jackie Groenen quase acertou, aos 65', num chute da entrada da área (a goleira Courtney Brosnan pegou). E aos 70', elas participaram da jogada do empate: Groenen recebeu a bola de Lineth Beerensteyn, foi derrubada por Aoife Mannion na área, pênalti marcado, e Dominique Janssen cobrou para o 1 a 1. 

Seria aliviante... se a Holanda não cometesse o pecado crônico da desatenção: Groenen era atendida e demoraria um minuto para voltar a campo - são as novas regras da FIFA -, Larkin recebeu cruzamento logo na saída de bola, superou Janssen na corrida e fez o 2 a 1 irlandês. Talvez o baque tivesse sido definitivamente superado com a excelente entrada de Victoria Pelova: vinda do banco, superando o terrível drama particular da morte da mãe no começo da semana, a meio-campista fez boa jogada individual para empatar. E a Holanda, cercando o ataque diante da fechada defesa irlandesa, seguia rondando o gol. Porém, num escanteio no minuto final, a defesa fracassou ao rebater a bola, um cruzamento, e a atacante Amber Barrett coroou a impressionante eficiência irlandesa: três arremates a gol, três gols, 3 a 2, o sonho holandês de manter a liderança do grupo virava queda para o terceiro lugar.

E pelo menos no primeiro tempo, as Leoas Laranjas passaram algum sufoco contra a Polônia. É verdade que tinham mais a posse de bola, e rondavam mais o ataque. Às vezes, até tentavam, como em dois chutes sequenciais, de Romée Leuchter e Lynn Wilms, logo aos 4'. Ainda assim, o espaço para contra-ataques era aproveitado por nomes como Paulina Tomasiak (que tentou o gol aos 17', com Lize Kop defendendo) e Ewelina Kamczyk, que arriscou chute de fora aos 27'. Pelo menos, a essa altura, a Holanda já tinha 1 a 0 no placar, graças a Wieke Kaptein, a melhor da partida em Almelo, que cabeceou para as redes o cruzamento de Esmee Brugts. Ainda assim, sem aproveitar as chances, o risco de empate existia. Está certo que a vitória não adiantaria para a vaga direta, já que a França vencia a Irlanda e garantia a liderança do grupo e a vaga direta na Copa. Mas tropeçar de novo seria pior.

Contra a Polônia, as Leoas Laranjas se recompuseram. E Kaptein se destacou na vitória por 3 a 1 (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Quase piorou para as neerlandesas, mesmo, aos 48', quando só o impedimento de Kamczyk causou a anulação do gol que marcaria o empate. Só então o time deslanchou. Se Kaptein seguia bem, Romée Leuchter enfim fazia boa atuação novamente vestindo laranja. Quase levou a um gol contra, aos 53', quando seu cruzamento levou a zagueira polonesa Oliwia Wos a "espirrar o taco". E enfim, aos 61', Leuchter fez o gol do desafogo holandês, em grande estilo, num belo voleio, após cruzamento de Kerstin Casparij.

Só aí a Holanda ficou leve em campo. Os espaços para atacar surgiram, com a Polônia aberta. Lineth Beerensteyn, por exemplo, quase fez seu gol, aos 73'. E Liz Rijsbergen, em sua segunda partida pelas Leoas Laranjas, conseguiu o terceiro gol, aos 81'. Nem mesmo o gol de honra polonês - Kamczyk, aos 83', de pênalti surgido de falta de Damaris Egurrola Wienke sobre Tomasiak - abalou as donas da casa em Almelo. Que deixaram claro: podem jogar bem, como se ouviu em quase todas as entrevistas pós-jogo. 

Além de jogar bem, será preciso ter mais atenção e competitividade em cenários adversos na repescagem de outubro. Porque a Holanda já poderia ter se livrado do trabalho de tentar a vaga na Copa do Mundo Feminina.

Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Irlanda 3x2 Holanda
Data: 5 de junho de 2026
Local: Páirc Uí Chaoimh (Cork)
Árbitra: Katalin Kulcsár (Hungria)
Gols: Kyra Carusa, aos 19', Dominique Janssen, aos 70', Abbie Larkin, aos 71', Victoria Pelova, aos 80', e Amber Barrett, aos 90'

IRLANDA
Courtney Brosnan; Aoife Mannion, Anne Patten, Caitlin Hayes, Megan Connolly (Saoirse Noonan, aos 85') e Chloe Mustaki; Abbie Larkin (Leanne Kiernan, aos 76'), Marissa Sheva, Ruesha Littlejohn (Jessica Ziu, aos 46') e Katie McCabe; Kyra Carusa (Amber Barrett, aos 76'). Técnica: Carla Ward

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Dominique Janssen e Janou Levels (Marisa Olislagers, aos 56'); Damaris Egurrola Wienke (Jackie Groenen, aos 56'), Wieke Kaptein (Victoria Pelova, aos 74') e Ella Peddemors (Daniëlle van de Donk, aos 56'); Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Liz Rijsbergen, aos 74') e Esmee Brugts. Técnico: Arjan Veurink


Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Holanda 3x1 Polônia
Data: 9 de junho de 2026
Local: Polman/Asito Stadion (Almere)
Árbitra: Fabienne Michel (Alemanha)
Gols: Wieke Kaptein, aos 24', Romée Leuchter, aos 61', Liz Rijsbergen, aos 81', e Ewelina Kamczyk, aos 83'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms (Kerstin Casparij, aos 60'), Veerle Buurman, Dominique Janssen (Renée van Asten, aos 46') e Marisa Olislagers; Damaris Egurrola Wienke, Wieke Kaptein e Daniëlle van de Donk (Victoria Pelova, aos 60'); Lineth Beerensteyn (Liz Rijsbergen, aos 75'), Romée Leuchter e Esmee Brugts. Técnico: Arjan Veurink

POLÔNIA
Kinga Seweryn (Kinga Szemik, aos 67'); Wiktoria Zieniewicz, Paulina Dudek, Oliwia Wos e Jagoda Cyraniak (Julia Walentowicz, aos 79'); Adriana Achcínska (Wiktoria Zawistowka, aos 46'), Patrycja Sarapata (Gabriela Grzybowska, aos 67') e Milena Kokosz; Paulina Tomasiak, Ewelina Kamcyzk e Nadia Krezyman (Claudia Macjaska, aos 67'). Técnica: Nina Patalon

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Duas gerações por uma vaga

A Holanda (ou os Países Baixos) está focada na Copa do Mundo masculina. Mas a seleção feminina, contando com as veteranas junto às novatas, está muito perto da vaga no Mundial feminino (KNVB/Divulgação)

Está certo que o foco, para quem acompanha futebol na Holanda (Países Baixos), já está na seleção masculina que caminha para disputar a Copa do Mundo, na América do Norte. Entretanto, um pouco do foco está na seleção feminina neerlandesa, também. Afinal de contas, a vaga direta na Copa do Mundo de 2027 está mais perto do que se pensava. Em primeiro lugar no grupo A2 das Eliminatórias Europeias, bastará que as Leoas Laranjas vençam Irlanda (sexta-feira, 5, às 15h45 de Brasília, na cidade irlandesa de Cork) e Polônia (próxima terça, 9, às 16h de Brasília, em Almelo) - no caso do jogo contra a Irlanda, uma vitória holandesa e outra da Polônia, contra a França, também resolve tudo por antecipação - para garantirem a vinda ao Brasil no ano que vem. E elas estão divididas claramente em duas gerações, na convocação para as duas decisões.

Se os grandes resultados contra a França nas duas rodadas passadas - vitória em 2 a 1 e empate por 1 a 1 - dependeram em grande parte das novatas (a estreante Renée van Asten na defesa; Wieke Kaptein no meio; Esmee Brugts no ataque), agora várias das veteranas estão de volta. E várias delas, superando problemas pessoais. Se Dominique Janssen retornou naturalmente ao se recuperar de lesão, Daniëlle van de Donk reconheceu o quanto a demora para voltar de problemas físicos no London City Lionesses, clube em que joga, a afetou mentalmente: "Na última vez [em que me machuquei], estava com minha esposa quando ouvi a notícia. Eu não aguentava mais, só queria chorar, foi muito duro, acho que foi o período mais duro da minha vida". Mesmo mais alegre, Jackie Groenen - também de volta à seleção - reconheceu os problemas com lesões no Paris Saint Germain: "Eu precisava passar tempo na academia, não entrava em campo. Então, isso me fazia sentir menos parte do grupo. Mas estou em forma, posso jogar". Além delas, também voltaram - e também podem jogar - Kerstin Casparij e Caitlin Dijkstra.

O técnico Arjan Veurink celebrou o retorno dos nomes experientes. Mas alertou, diante do ótimo resultado com as novatas contra a França: elas precisarão garantir a vaga (KNVB/Divulgação)

O técnico Arjan Veurink comemorou os retornos: "Experiência sempre é importante, que dirá para os jogos desta semana. Jogadoras acostumadas com partidas importantes podem ajudar. Daí, o valor de nomes como Van de Donk". Ao mesmo tempo, o treinador se valeu das grandes atuações das mais novas - e da boa fase delas, que o diga Veerle Buurman, eleita revelação da temporada na Inglaterra - para alertar: "Elas [veteranas] não estão todas garantidas de seus lugares, não importa o quanto sejam experientes". Além do mais, dois nomes importantes para as Leoas Laranjas ficarão fora dos jogos. Ainda sofrendo com dores renitentes no tornozelo, Daphne van Domselaar passou por cirurgia no local, e novamente desfalcará a Holanda (Países Baixos). E Vivianne Miedema, às voltas com problemas particulares - acompanha a mãe, em tratamento de problema de saúde -, falou com Arjan Veurink e foi liberada pelo próprio: "Se teve uma coisa que aprendi nos últimos anos, é que boa forma física e mental são importantes em jogos cruciais".

De fato, são jogos cruciais. Ainda mais a partida contra a Irlanda, nesta sexta: também podendo ter a vaga direta na Copa (está em terceiro lugar no grupo, com 6 pontos, só dois abaixo da Holanda), a equipe anfitriã conta com o destaque absoluto de Katie McCabe - a capitã fez cinco gols nos últimos sete jogos pelas irlandesas. Foi adversária dura nas rodadas de março, quando a Holanda só fez 2 a 1 nos minutos finais. E tentará impor seu jogo até em medidas pequenas, como reduzir as dimensões do estádio Páirc Uí Chaoimh, em Cork, ao mínimo exigido pela FIFA. O técnico Arjan Veurink minimizou tal medida ("Se elas acham que conseguem ganhar assim, tudo bem"), mas também manteve o alerta alto: "A Irlanda é um time com muita velocidade pelo meio, e muito difícil de ser superado quando recua". Parte de uma conclusão básica do técnico da Holanda: "Não há mais seleções pequenas, não na Europa. O que é ótimo, mostra como o futebol feminino se desenvolveu. Não há mais jogos fáceis".

Se é assim, é com as veteranas e as novatas que as Leoas Laranjas vão para as duas rodadas finais. Todas por uma vaga direta na Copa. Até para que continuem ouvindo elogios como os que o técnico ouviu de alguém que conhece bem: Sarina Wiegman, de quem foi auxiliar entre 2017 e 2025. "Ela tem achado a campanha ótima. Mandou uma mensagem e disse que está orgulhosa de mim".

As 23 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIRAS: Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING), Daniëlle de Jong (Juventus-ITA) e Regina van Eijk (Ajax)

DEFENSORAS: Lynn Wilms (Aston Villa-ING), Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Veerle Buurman (Chelsea),  Dominique Janssen (Manchester United-ING), Renée van Asten (Ajax), Ilse van der Zanden (Fiorentina-ITA), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE, se transferindo para o Tottenham Hotspur-ING), Janou Levels (Wolfsburg-ALE) e Marisa Olislagers (Brighton-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Damaris Egurrola Wienke (OL Lyonnes-FRA), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Victoria Pelova (Arsenal-ING), Ella Peddemors (Wolfsburg-ALE), Lotte Keukelaar (Real Madrid-ESP), Daniëlle van de Donk (London City Lionesses-ING), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA) e Nina Nijstad (PSV)

ATACANTES: Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA), Esmee Brugts (Barcelona-ESP) e Liz Rijsbergen (PSV)

segunda-feira, 9 de março de 2026

Começaram as dificuldades

Após o respiro dos amistosos, a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) teve seus problemas nas primeiras rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina. Mas até que se saiu bem (Marcel Bonte/Soccrates/Getty Images)

A seleção feminina da Holanda (Países Baixos) tinha começado bem sua passagem sob o comando do novo técnico, Arjan Veurink, com um empate e três vitórias nos quatro amistosos que fecharam o turbulento 2025. Mas se sabia: as duas primeiras rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina, nestas datas FIFA, é que mostrariam o grau de dificuldade a ser encarado pela equipe. E o grau foi relativamente grande. De todo modo, se é para animar, a equipe neerlandesa de mulheres conseguiu superá-lo. Se não no empate em 2 a 2 contra a Polônia, certamente na vitória por 2 a 1 sobre a Irlanda.

Para que as dificuldades começassem, praticamente bastou a bola rolar na Plus Arena de Gdansk, para a estreia nas Eliminatórias, na terça passada, contra a Polônia. Pressionando a saída de bola, a seleção da casa colocou as holandesas em dificuldades (como até já fizera no amistoso em 0 a 0 entre ambos). Tanto que, aos 8', teve a primeira chance, com Tanja Pawollek cabeceando a bola no travessão. E aos 24', coube a quem poderia trazer mais perigo fazer 1 a 0: Ewa Pajor pressionou na esquerda, roubou a bola de Vivianne Miedema, superou a marcação de Caitlin Dijkstra, chegou à área e bateu forte, no ângulo de Lize Kop - seguindo titular no gol, mesmo com a volta de Daphne van Domselaar. Com a primeira chance real de gol só vindo aos 34' (chute de Jill Roord, defendido pela goleira Kinga Szemik), a Holanda voltava a passar dificuldades. Que só não foram maiores por causa do empate, pouco antes do intervalo: num escanteio mal rebatido, Damaris Egurrola Wienke ajeitou, e Veerle Buurman bateu para o 1 a 1. 

Na estreia pelas Eliminatórias, as Leoas Laranjas até mostraram capacidade ofensiva, mas a defesa teve dificuldades contra a Polônia no empate em 2 a 2 (Mateusz Slodkowski/UEFA/Getty Images)

O empate após primeiro tempo tão problemático deu tranquilidade para que certos erros fossem corrigidos - como a entrada de Lynn Wilms, melhor defensivamente, no intervalo, para a lateral direita. E melhor ainda foi ver a virada logo nos primeiros lances do segundo tempo: com apenas dois minutos de bola voltando a rolar, Lineth Beerensteyn deu a bola para que Jill Roord fizesse 2 a 1, chutando da entrada da área. O que não quer dizer que as Leoas Laranjas se impuseram definitivamente. A defesa seguiu dando espaços dentro da área, e as chances contrárias apareciam: Ewelina Kamczyk teve chute bloqueado por Wilms, e Ewa Pajor cabeceou a bola no travessão (outra vez!) aos 55'. Aos poucos, a pressão polonesa amainou, nomes como Jackie Groenen entraram, os Países Baixos até tiveram suas chances (Miedema forçou a defesa de Szemik, aos 71'), a vitória parecia assegurada... até novo erro render o empate, a seis minutos do fim: Roord perdeu a bola, Kamczyk e Paulina Tomasiak tabelaram no meio da defesa, Tomasiak driblou Lize Kop e fez 2 a 2. 

Era uma dor de cabeça que precisaria ser neutralizada no jogo do sábado, contra a Irlanda - que perdeu por 2 a 1 para a França em sua estreia, mas fez jogo duro. E também começou fazendo jogo duro em Utrecht: dois cruzamentos (um escanteio aos 4', e um cruzamento com bola rolando, aos 7'), dois cabeceios de Caitlin Hayes, e a bola passou perto do gol em ambos. Além do mais, as irlandesas faziam o esperado: se fechavam na defesa, evitando as trocas de passes holandesas. Restavam chutes de fora da área, como o de Wieke Kaptein, aos 9', que passou rente à trave. Ou uma jogada individual, como a que Lineth Beerensteyn tentou aos 10', vindo pela esquerda, entrando na grande área e demorando para finalizar, com a goleira Courtney Brosnan pegou. Só aos 20 minutos é que houve espaço para troca de passes. E saiu o gol das Leoas Laranjas: Jill Roord passou, Lynn Wilms cruzou, e Beerensteyn completou na pequena área. Podia não ser uma superioridade tão grande, mas era uma superioridade.

A Irlanda se protegeu em sua defesa, e coube a Beerensteyn (centro) aparecer de novo para garantir a primeira vitória neerlandesa na qualificação (Sonny Lensen/ANP/Getty Images)

Que passou a correr riscos quando a Irlanda conseguiu uma chance: após falta cobrada para a área, a goleira Lize Kop saiu do gol, acertou a zagueira Anna Patten, e o pênalti foi marcado - talvez com certo exagero, mas foi marcado. Destaque absoluto das visitantes, a capitã Katie McCabe cobrou, fez 1 a 1 aos 50', e seria duro para os Países Baixos conseguirem voltar à frente do placar. Não que não tentassem: Romée Leuchter cobrou falta aos 54' (Brosnan pegou), novamente a dupla Roord-Wilms funcionou na direita, com esta cruzando para Vivianne Miedema perder boa chance aos 58'. Só que a Irlanda estava muito bem postada defensivamente. Até que, a oito minutos do fim do tempo regulamentar, um escanteio cobrado, e Beerensteyn novamente apareceu quando era necessário: Brosnan rebateu na primeira trave, a atacante se virou e aproveitou a sobra para fazer 2 a 1.

Ou seja: mesmo com dificuldades, a Holanda conseguiu se manter invicta, conseguiu vencer, conseguiu ocupar o segundo lugar de seu grupo nas Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina. De certa forma, cumpriu o que o técnico Arjan Veurink esperava: "Na semana passada, falamos sobre controlar os jogos. Cumprimentei a equipe por isso. Futebol bonito não conta tanto, mas os resultados contam". A ver se os resultados virão nas rodadas de abril, com os dois jogos contra a França, favorita do grupo. Se vierem, a Copa fica mais perto...

Eliminatórias da Copa do Mundo Feminina da FIFA - Europa - Grupo A2

Polônia 2x2 Holanda
Data: 3 de março de 2026
Local: Plus Arena (Gdansk)
Árbitra: Ivana Projkovska (Macedônia do Norte)
Gols: Ewa Pajor, aos 24', Veerle Buurman, aos 44', Jill Roord, aos 47', e Paulina Tomasiak, aos 84'

POLÔNIA
Kinga Szemik; Wiktoria Zieniewicz, Oliwia Wos, Paulina Dudek e Martyna Wiankowska; Adriana Achcinska, Ewelina Kamczyk (Gabriela Grzybowska, aos 90') e Tanja Pawollek (Milena Kokosz, aos 66'); Nadia Krezyman (Weronika Zawistowska, aos 66'), Ewa Pajor e Paulina Tomasiak (Natalia Padilla, aos 90' + 3). Técnica: Nina Patalon

HOLANDA
Lize Kop; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 46'), Veerle Buurman, Dominique Janssen e Caitlin Dijkstra; Damaris Egurrola Wienke (Jackie Groenen, aos 62'), Vivianne Miedema e Wieke Kaptein; Jill Roord, Lineth Beerensteyn (Romée Leuchter, aos 74') e Esmee Brugts (Chasity Grant, aos 62'). Técnico: Arjan Veurink 


Holanda 2x1 Irlanda
Data: 7 de março de 2026
Local: De Galgenwaard (Utrecht)
Árbitra: Frida Klarlund (Dinamarca)
Gols: Lineth Beerensteyn, aos 20' e aos 82', e Katie McCabe, aos 50'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms, Veerle Buurman, Dominique Janssen e Marisa Olislagers; Wieke Kaptein (Jackie Groenen, aos 65'), Vivianne Miedema (Chasity Grant, aos 90' + 1) e Damaris Egurrola Wienke; Lineth Beerensteyn, Romée Leuchter (Daniëlle van de Donk, aos 65') e Jill Roord (Esmee Brugts, aos 65'). Técnico: Arjan Veurink 

IRLANDA
Courtney Brosnan; Aoife Mannion, Caitlin Hayes, Anna Patten e Chloe Mustaki; Marissa Sheva (Saoirse Noonan, aos 90' + 1), Megan Connolly e Katie McCabe; Emily Murphy, Kyra Carusa  (Abbie Larkin, aos 84') e Lucy Quinn (Amber Barrett, aos 65'). Técnica: Carla Ward

sábado, 28 de fevereiro de 2026

À espera da confirmação

As expressões no treino podem até ser sérias, mas a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) está de bem com a vida. E quer provar isso no começo das eliminatórias da Copa (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Foram só quatro jogos amistosos, no fim do ano passado. Mas vencer três deles, tomar só um gol neles (para uma seleção que sempre teve a defesa como seu ponto fraco... é algo notável), mostrar o nascimento de algum entrosamento aqui e ali, superar seleções de algum respeito como Canadá e Portugal, enfim, tudo isso serviu para trazer de volta uma boa impressão em torno da seleção feminina da Holanda (Países Baixos). Mas amistosos apenas amistosos são. E a melhor confirmação de que as Leoas Laranjas entraram em novos tempos sob o técnico Arjan Veurink viria com atuações categóricas nas primeiras datas FIFA de mulheres neste 2026, abrindo as eliminatórias da Copa de 2027, contra Polônia - dia 3 de março, na cidade polonesa de Gdansk, às 14h de Brasília - e Irlanda - 7 de março, às 16h45 de Brasília, em Utrecht.

Nesse começo da caminhada para tentar garantir uma vaga no Mundial a ser sediado no Brasil, há dois reforços que havia muito tempo não vestiam laranja. Uma delas, talvez, nem vestisse mais: era a possibilidade mais forte. Mas Daniëlle van de Donk aproveitou um fato (a homenagem a ser feita a ex-jogadoras da seleção holandesa, como Sherida Spitse e Lieke Martens, após o jogo contra a Irlanda) para anunciar seu retorno, com uma brincadeira: "Como vocês sabem, algumas das ex-jogadoras estarão em Utrecht para uma despedida. Eu também estarei... mas não é para me despedir!". Pois é: aos 34 anos - completará 35 em 5 de agosto -, recuperada de lesão que atrapalhou seus primeiros tempos no London City Lionesses, Van de Donk se colocou à disposição de Arjan Veurink para as convocações. 

Van de Donk "desistiu de desistir": uma conversa com o técnico Arjan Veurink bastou para que a veterana meio-campista decidisse seguir nas Leoas Laranjas (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Falando mais seriamente, na data da convocação, "Daantje" justificou: "Acho que ainda há algo especial que posso dar para este time". Sem sinalizar se ela ficará mais no banco ou jogará, Veurink celebrou: "Estou muito feliz por ela estar no grupo. Depois da Euro [2025], conversamos, ela estava machucada, e decidimos esperar para conversar de novo, até ela se recuperar. Isso aconteceu, nos falamos, e ela está se recuperando, está voltando a ter ritmo de jogo". Na coletiva de apresentação, no centro de treinamentos da federação, a meio-campista se aprofundou: "O foguinho se acendeu de novo em mim. É bom demais [estar na seleção] para já encerrar tudo. Deixei minhas colegas quietas, senão é claro que elas diriam que eu deveria voltar, e isso nunca é um bom conselho. Você deve se focar em você: é isso mesmo que quer?". Arjan Veurink facilitou: "Fomos abertos e honestos um com o outro. Estou feliz que o 'fogo' dela esteja aceso de novo, é sempre bom contar com alguém com as qualidades dela".

Outro nome importante a retornar é Daphne van Domselaar. Enfim livre das dores de um tendão no tornozelo, lesão que dificultou a sua situação desde antes da Euro ("Uma lesão assim não se cura antes de algumas semanas. E continua causando atenção, mas agora estou me sentindo bem, completamente pronta para estar aqui"). Voltando a ter ritmo de jogo - e alguma segurança, após falhas aqui e ali - no Arsenal, Van Domselaar chega com Lize Kop tendo sido titular nos primeiros amistosos sob Arjan Veurink. Mas a titular habitual do gol das Leoas Laranjas não só demonstrou boa impressão do clima entre as convocadas, à ESPN holandesa ("Ouvi boas histórias das outras, e mal posso esperar para estar nos jogos e viver isso"), como também mostrou tranquilidade sobre qual será a goleira titular ("Lize está indo bem, então, dependerá do treinador").

Van Domselaar é outro retorno para a seleção neerlandesa de mulheres (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Mas é possível que seja Vivianne Miedema o grande símbolo da impressão promissora que causa a seleção feminina neerlandesa. Até porque, depois de muitos anos de lesões, enfim ela retoma o ritmo de jogo, enfim ela retoma as boas atuações (agora, jogando mais recuada, como uma "camisa 10"), enfim ela retoma o brilho no Manchester City, em que renovou seu contrato até 2027. E a capitã das Leoas Laranjas comemora tudo isso, também à ESPN NL: "Eu me sinto em forma, posso jogar bastante e estou nos campos com um sorriso no rosto. Isso é o mais importante. Sinto que posso ajudar em algo de novo". Vieram elogios ao novo técnico ("Arjan [Veurink] nos traz experiência. Ele teve muito sucesso, tanto como auxiliar técnico aqui, como depois na Inglaterra. Acho muito bacana ver o crescimento pessoal dele ao longo dos anos"). E vieram até palavras amenas sobre como prefere jogar, se como atacante - Miedema fez quatro gols no amistoso contra a Coreia do Sul, vale lembrar - ou como meia ("Antes das lesões eu só jogava como atacante, no City jogo de '10' ou até mais recuada (...) Eu disse ao Arjan 'pode me escalar onde você quiser', a escolha é dele").

Nem mesmo uma polêmica em potencial tirou a paz do grupo de convocadas. Principalmente das veteranas, mais relacionadas ao fato: em sua autobiografia, Open Kaart ("Cartão aberto", em holandês), lançada nesta semana, Sherida Spitse contou que uma convocada da Holanda na Euro feminina passada - nome não revelado - levou ao técnico daquela vez, Andries Jonker, críticas sobre ela e Van de Donk. Envolvida na história, esta reconheceu ("Sabia que meu nome estaria no livro"), mas fez questão de deixar tudo no passado ("Por mim, isso não precisava vir para a mídia. Tem coisas que acontecem num grupo, e se resolvem internamente. Aí você deixa para lá, e segue em frente. Nem penso mais nisso"). Arjan Veurink foi compreensivo ("Sempre há chateadas no grupo, porque você trabalha com 23 jogadoras, 22 integrantes na comissão... sempre tem algo, mesmo quando está tudo bem. Mas o que aconteceu no passado não me importa"). E Miedema encerrou de vez ("A gente reconhece que a Euro foi ruim, foi difícil. Mas o grupo atual combinou manter tudo entre quatro paredes. É começar de novo").

Então, neste começo, as Leoas Laranjas esperam confirmar a boa impressão que os amistosos de 2025 passaram. Para isso, vencer Polônia e Irlanda já será de grande serventia.
 
As 23 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

GOLEIRAS: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Tottenham Hotspur-ING) e Daniëlle de Jong (Juventus-ITA)

DEFENSORAS: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Aston Villa-ING), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Caitlin Dijkstra (Wolfsburg-ALE), Veerle Buurman (Chelsea-ING), Janou Levels (Wolfsburg-ALE), Ilse van de Zanden (Fiorentina-ITA) e Marisa Olislagers (Brighton-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Daniëlle van de Donk (London City Lionesses-ING), Victoria Pelova (Arsenal-ING), Damaris Egurrola Wienke (OL Lyonnes-FRA), Ella Peddemors (Wolfsburg-ALE), Wieke Kaptein (Chelsea-ING) e Nina Nijstad (PSV)

ATACANTES: Vivianne Miedema (Manchester City-ING), Lineth Beerensteyn (Wolfsburg-ALE), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Jill Roord (Twente), Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA) e Chasity Grant (Aston Villa-ING)

domingo, 19 de novembro de 2023

Quase sem sustos

Ao marcar o gol da vitória e da vaga na Euro, Weghorst pediu silêncio aos críticos. E embora a Holanda ainda tenha muito a melhorar, pelo menos cumpriu sem problemas sua tarefa (Getty Images)

Na entrevista pós-jogo que deu à emissora NOS, ainda no gramado da Johan Cruyff Arena, Virgil van Dijk já quis afastar as menções críticas do repórter: "Não serei negativo sobre este jogo. Olha, estamos classificados para a Euro!" Falando já nos vestiários, também à NOS, Wout Weghorst até se irritou: "Que precisa melhorar, é absolutamente claro. Mas você [repórter] já começa sua pergunta dizendo que 'foi um jogo difícil'. Eu não quero ir para uma entrevista que vai por esse caminho". Dois fatos, uma sensação: mesmo que a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) mereça críticas pesadas, também merece ser poupada no jogo em que conseguiu a classificação para a 11ª Eurocopa de sua história. Tendo em vista que a Laranja se garantiu sem sustos, ao contrário do que ocorria nos últimos anos, é algo digno de receber crédito.

Sem sustos? Bem, quase. Porque a Irlanda tentou começar sendo mais ofensiva, do jeito dela - com lançamentos longos que Alan Browne pudesse ajeitar para tentar algo, como tentou aos 5', aproveitando erro de Quilindschy Hartman e chutando para Bart Verbruggen pegar. Ainda assim, estava claro que faltava alguma técnica aos irlandeses. E a Holanda tinha essa técnica. Algo comprovado justamente por um atacante que voltou a viver bom dia vestindo laranja: o supracitado Weghorst. A jogada do primeiro e único gol do jogo, aos 12', foi toda dele: após lançamento de Stefan de Vrij (atuação muito segura na direita do trio de zaga), o camisa 9 se livrou da marcação no giro de corpo, avançou correndo ("Nunca corri tanto na vida", brincou ele) e chutou forte para o 1 a 0.

O gol tranquilizou a Holanda, mesmo que a Irlanda tivesse mais a bola. Abriu uma boa atuação de Weghorst, até com lances pouco comuns vindos dele - como uma ajeitada de calcanhar, numa triangulação que começou com Xavi Simons e terminou com Cody Gakpo chutando para a defesa do goleiro Gavin Bazunu, aos 23'. Ainda assim, a Oranje pecou em dois pontos: a falta de participação dos meio-campistas (Tijjani Reijnders e Jerdy Schouten demoraram a aparecer) e, principalmente, os gols perdidos. Que já começaram ainda na etapa inicial: Gakpo aos 37', Reijnders no minuto seguinte e aos 44', Weghorst aos 45'... por mais que a vantagem estivesse no placar, convinha não bobear.

Mas a Laranja continuou bobeando, de certa forma. Às vezes, por azar, como na finalização de Xavi Simons "bloqueada" por Gakpo aos 48' - mais uma tentativa infrutífera para Simons, aparentemente ansioso para tentar seu primeiro gol pela seleção. Às vezes, por falta de precisão na finalização, como no arremate de Reijnders na trave, aos 52'. E aí, veio um grande alerta. Aos 59', o atacante irlandês Adam Idah - vindo para o jogo no intervalo - escapou pela esquerda, chegou perto da área, arriscou o chute... e a bola entrou. Só não foi o empate irlandês porque Idah estava impedido, e depois o juiz marcou. A decisão salvou o goleiro Bart Verbruggen, que deixava o "frango" passar no chute de Idah. Mas era um aviso: a Holanda estava brincando com fogo.

Adam Idah estava impedido, mas seu chute, com falha de Verbruggen, quase deu o empate à Irlanda, servindo de alerta à Laranja (Maurice van Steen/ANP/Getty Images)

Pelo menos, os sustos diminuíram. Está certo que o preciosismo seguiu acontecendo, como aos 71', quando Reijnders tabelou com Weghorst, mas perdeu a chance de chutar. Mas a Holanda retomou o domínio do jogo. Teve até mais força no ataque, com a entrada de Donyell Malen. Terminou a partida forçando o goleiro Bazunu a trabalhar em dois chutes (Reijnders, aos 85'; Malen, aos 88'). E garantiu o que desejava: a vaga na Euro, abrindo espaço para que o jogo contra a fragílima seleção de Gibraltar, , na próxima terça, sirva para testes e mais testes.

Erros existem, ainda. O próprio Ronald Koeman reconheceu, na entrevista pós-jogo à NOS, que "precisa olhar além" do resultado. Mas o que o resultado diz é que a Holanda estará na Euro. Quase sem passar sustos nas eliminatórias. Já é alguma coisa, diante de turbulências recentes.

Eliminatórias da Euro 2024
Holanda 1x0 Irlanda
Data: 18 de novembro de 2023
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Juiz: Marco di Bello (Itália)
Gol: Wout Weghorst, aos 12'

Holanda
Bart Verbruggen; Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Daley Blind; Denzel Dumfries, Tijjani Reijnders (Teun Koopmeiners, aos 90'), Jerdy Schouten (Marten de Roon, aos 90') e Quilindschy Hartman; Xavi Simons (Donyell Malen, aos 80'); Cody Gakpo (Joey Veerman, aos 69') e Wout Weghorst. Técnico: Ronald Koeman

Irlanda
Gavin Bazunu; Matt Doherty (Mikey Johnston, aos 77'), Nathan Collins, Dara O'Shea (Troy Parrott, aos 90'), Liam Scales e Ryan Manning; Alan Browne, Josh Cullen e Jason Knight (Jayson Molumby, aos 77'); Evan Ferguson (Jamie McGrath, aos 55') e Callum Robinson (Adam Idah, aos 46'). Técnico: Stephen Kenny

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Vem a bonança?

A seleção masculina da Holanda tem o lugar na Euro muito perto, quase garantido. Até por isso, os problemas parecem mais amenos, embora continuem (KNVB Media/Divulgação)

Diz o ditado que "depois da tempestade vem a bonança". E o 2023 da seleção masculina da Holanda (Países Baixos) tem sido tempestuoso: o começo preocupante nas eliminatórias da Euro 2024, a decepção na Liga das Nações em casa, muitos machucados ao longo das convocações... mas de um jeito ou de outro, a Laranja cumpriu as tarefas que precisava cumprir na qualificação. A bonança deve vir nestas datas FIFA: tem totais condições de garantir a vaga na Euro, contra as duas seleções pior colocadas no grupo B: a Irlanda (neste sábado, 18, em Amsterdã) e Gibraltar (na terça, 21 - no balneário português do Algarve, por reformas no estádio Victoria, onde os gibraltinos mandam suas partidas em casa). 

A situação da Holanda é extremamente cômoda, aliás. Em segundo lugar no grupo B, com 12 pontos, basta uma vitória, em qualquer uma dessas partidas supracitadas, para ter vaga direta na Euro. Se a Grécia, terceira colocada, também tem 12 pontos, o primeiro critério de desempate usado pela UEFA (confronto direto) traz vantagens em caso de mesma pontuação - a Holanda venceu os dois jogos nas eliminatórias (3 a 0 em Eindhoven, 1 a 0 em Atenas). E os gregos só têm mais um jogo na campanha, no dia 21, novamente em Atenas, contra... a França, a grande seleção do grupo, já garantida na Euro. Caso os Azuis superem os helênicos no dia 21, bastarão dois empates para a Holanda. E mesmo em caso de duas derrotas holandesas e uma derrota grega, as duas equipes seguiriam com 12 pontos - e a regra do confronto direto entraria em ação. Somente uma vitória grega, sem nenhum triunfo holandês, faria com que os neerlandeses precisassem da repescagem - na qual já estão garantidos, como vencedores do seu grupo na Liga das Nações passada. Em suma: a Laranja precisará ser muito incompetente para ficar de fora da Euro.

O que não quer dizer que os problemas acabaram. Novamente, muitas lesões impedem que Ronald Koeman tenha o melhor que poderia à sua disposição para os treinos no KNVB Campus, o centro da federação, na cidade de Zeist. Para começar "apenas" com dois nomes fundamentais para a equipe, tanto Frenkie de Jong quanto Memphis Depay ainda se recuperam dos problemas que já os tiraram dos jogos de outubro (De Jong no tornozelo direito, Memphis no músculo posterior da coxa), e nem foram convocados. De lá para cá, a zaga perdeu Matthijs de Ligt (que voltou de contusão e já sofreu outra) e Micky van de Ven (o problema no músculo posterior da coxa deverá tirá-lo de campo pelo resto do ano). Já no domingo passado, antes mesmo das apresentações da delegação, foi anunciado o corte de Nathan Aké, talvez o melhor defensor da seleção no ano - provavelmente por uma lesão leve. Na segunda, mais dois desligamentos: tanto Brian Brobbey quanto Steven Bergwijn foram dispensados logo após chegarem, por problemas leves. Nos treinos de quinta-feira, Jeremie Frimpong se machucou, e foi mais um a deixar o grupo por causa disso - de quebra, Lutsharel Geertruida também sofreu lesão, ainda ficou mais um dia com o grupo, mas foi cortado definitivamente na sexta.

Só restou a Koeman apelar, novamente, para estreantes na convocação. O mais falado foi Jorrel Hato, defensor de 17 anos, que deverá ficar na reserva de Daley Blind (também elogiado, como parte da impressionante campanha do Girona, líder do Campeonato Espanhol). Até compreensível, diante da precocidade de Hato, dos raros nomes a causar sorrisos numa temporada problemática do Ajax. Em janeiro, ele estreou pelo time principal Ajacied; em 20 de fevereiro, a primeira partida pelo Campeonato Holandês, em goleada contra o Cambuur; em abril, o defensor se tornou titular de vez; em setembro, estreou pela seleção sub-21; e agora, está convocado para a equipe principal da Holanda. De quebra, mesmo novo, Hato já mostra alguma versatilidade, jogando tanto no miolo de zaga quanto na lateral esquerda. Koeman reconheceu a importância de um nome para a decisão: Michael Reiziger, técnico da seleção sub-21. "Falamos sobre os jovens da sub-21. Eu procurava um canhoto, era importante (...). Eu até previ, já que Aké foi dispensado. Vi que tinha razão".

Em meio a muitas ausências na zaga da Laranja, Jorrel Hato é a novidade da vez (KNVB Media/Divulgação)

Outra novidade da Holanda era até pedida aqui e ali. E as ausências do ataque - Memphis Depay, Brobbey, Bergwijn, Noa Lang (este, voltando de problema muscular, mas ainda sem condições) - abriram caminho para Thijs Dallinga, 23 anos, mostrando alguma qualidade pelo Toulouse no Campeonato Francês e pela Liga Europa. Outra presença costumeira na seleção sub-21, Dallinga pode ter chance de jogar, dependendo dos resultados que a Holanda conseguir. Embora tenha deixado bem claro que ainda não o conhece a fundo, Ronald Koeman abriu a possibilidade: "Minha escolha por Wout [Weghorst] e [Brian] Brobbey seguia e segue firme. Mas pelas ausências, você olha mais coisas. Daí ele [Dallinga] entrou no cenário".

Mas mesmo as várias lesões já são vistas com mais resignação por Koeman: "Você se acostuma. Sabemos que há muitas contusões por aí. No nosso caso, tem sido mais extremo". Além do mais, algumas alternativas encontradas meio à força começaram a agradar na Holanda. No gol, por exemplo, por mais que Justin Bijlow e Mark Flekken tenham voltado às convocações, o jovem Bart Verbruggen se saiu discreta e normalmente nos jogos de outubro - e provavelmente será o titular contra Irlanda e Gibraltar. Na lateral esquerda, Quilindschy Hartman já agrada a ponto de se pensar que ele pode ser para o lado canhoto o que Denzel Dumfries é no destro: ou seja, um ala que é constante opção de ataque e aumenta a velocidade do jogo holandês. E no meio-campo, se Frenkie de Jong fará falta, Tijjani Reijnders vive fase boa o suficiente para ser considerado opção natural, sem muitos problemas. Até mesmo um nome que retorna foi destacado: o volante Jerdy Schouten, chamado pela última vez na fase de grupos da Liga das Nações (2022), que veio do Bologna ao PSV querendo um espaço na seleção holandesa, afinal conseguido ("É natural que tenha sido chamado, pelo que vem jogando", elogiou Ronald Koeman). E isso, sem contar Xavi Simons, jovem cada vez mais - e corretamente - badalado...

Enfim, como se trata da seleção masculina da Holanda, de histórico que causa desconfianças, até se pode desconfiar que Irlanda (principalmente) e Gibraltar podem perturbar o caminho rumo à Euro 2024. Mas o clima visto nos treinos indica que, para os jogadores, o pior já passou. Depois das tempestades, a bonança da vaga no torneio continental está ao alcance da mão para a Laranja. A não ser que ela falhe de novo e dê razão à versão "errada" do ditado, creditada a Vicente Matheus (1908-1997), ex-presidente do Corinthians, segundo a qual, depois da tempestade, vem a "ambulância"...

Os 23 convocados da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiros: Bart Verbruggen (Brighton-ING), Mark Flekken (Brentford-ING) e Justin Bijlow (Feyenoord)

Laterais: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Jordan Teze (PSV), Quilindschy Hartman (Feyenoord) e Daley Blind (Girona-ESP)

Zagueiros: Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Stefan de Vrij (Internazionale-ITA) e Jorrel Hato (Ajax)

Meio-campistas: Tijjani Reijnders (Milan-ITA), Marten de Roon (Atalanta-ITA), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Joey Veerman (PSV), Jerdy Schouten (PSV) e Mats Wieffer (Feyenoord)

Atacantes: Donyell Malen (Borussia Dortmund-ALE), Xavi Simons (RB Leipzig-ALE), Cody Gakpo (Liverpool-ING), Calvin Stengs (Feyenoord), Wout Weghorst (Hoffenheim-ALE) e Thijs Dallinga (Toulouse-FRA)

domingo, 10 de setembro de 2023

Dureza necessária

A Holanda sofreu muito contra a Irlanda. Mas Weghorst, com seu gol, sinalizou: a Laranja teria maturidade para conseguir vitória importante (KNVB Media)

Em 12 de outubro de 1983, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) enfrentou a Irlanda, em Dublin, pelas eliminatórias da Euro 1984. Teve grandes dificuldades naquele jogo, viu o time da casa fazer 2 a 0... mas ali uma nova geração começou a se afirmar, porque Ruud Gullit fez dois gols, Marco van Basten marcou outro, Ronald Koeman ajudou, e a Holanda virou aquele jogo para 3 a 2. Acabou nem indo àquela Euro, mas aquela virada sinalizou que a geração que surgia poderia dar muitas alegrias. Nem é o caso da Laranja ter uma nova geração agora, mas a vitória de virada sobre os irlandeses neste domingo - 2 a 1 -, após um jogo difícil, trouxe a boa sensação de que a equipe atual tem maturidade e técnica para ir à Euro. E precisava do desafio que teve no estádio Aviva para confirmar.

A princípio, quase que o desafio pareceu insuperável. A aposta em jogar com três zagueiros, que deu certo contra a Grécia, já começou mal contra o Eire. Trocar passes, na defesa, com lentidão, para manter a bola, rendeu susto já nos primeiros segundos de jogo, quando Frenkie de Jong errou, Matt Doherty aproveitou para tentar o chute, e só Mats Wieffer  (titular, no lugar de Marten de Roon) evitou o pior, afastando para escanteio. Bem, talvez seja melhor dizer que Wieffer adiou o pior: ele veio no escanteio da sequência, quando Virgil van Dijk desviou a bola com a mão. Pênalti marcado, Adam Idah bateu, 1 a 0. Era um pesadelo laranja. Que tinha riscos de piora a cada bola aérea (aqui e ali, o goleiro Mark Flekken mostrou insegurança), a cada bola perdida no meio-campo (além do erro inicial, Wieffer começou lento demais, sem ajudar Frenkie de Jong como se esperava), a cada pressão de Idah ou de Chiedozie Ogbene, os dois jogadores que mais traziam capacidade técnica na Irlanda (Eire).

Pelo menos, um único momento de brilho bastou para acalmar a Laranja. Momento que veio de dois destaques na vitória contra a Grécia: Cody Gakpo fez lançamento brilhante em profundidade, Denzel Dumfries entrou veloz e livre na área, e foi derrubado pelo goleiro Gavin Bazunu. Outro pênalti - e outro gol, porque Gakpo bateu firme para o 1 a 1, no primeiro pênalti da seleção holandesa cobrado por outro nome que não Memphis Depay desde 2017. A situação melhorava um pouco. Mas só um pouco: a defesa holandesa continuava atraindo sustos, com erros constantes (como um de De Jong, aos 33', no qual Ogbene dominou a bola e bateu - Aké evitou o gol) e a lentidão insistente do miolo (Van Dijk quase foi superado por Ogbene na corrida, num momento, e só não houve coisa pior porque o atacante irlandês cometeu falta). E na hora de ir ao ataque, os espaços até apareciam, com Xavi Simons tentando criar e alguns passes em profundidade. Porém, eles iam parar com Donyell Malen, outro titular do dia. E Malen perdia as chances, como aos 25' e a 41' - dois chutes dele rebatidos por Bazunu. Alguma mudança era necessária.

Flekken parecia orar, no gol da Holanda - e as falhas no primeiro tempo foram tantas que davam motivos para isso (Pro Shots)

E Koeman mudou bem. Trouxe o 4-3-3 velho de guerra de volta, com as entradas de Tijjani Reijnders e Wout Weghorst. Com Reijnders no lugar de Wieffer, o meio-campo passou a ficar mais com a bola já no começo do segundo tempo. E com Weghorst, o ataque teve uma referência, que participava mais do jogo ao fazer o pivô para trocar passes. Era a velocidade que a Laranja precisava mostrar mais em campo. Já teve a chance da virada aos 52', quando Xavi Simons completou uma triangulação para fora. Na próxima oportunidade, aos 56', não houve erro: Frenkie de Jong deu um lançamento daqueles esperados para sua visão de jogo, Denzel Dumfries cruzou (seu terceiro passe para gol, nos últimos quatro gols da seleção!), e Weghorst mostrou a presença de área que tem com a seleção para o 2 a 1.

A partir daí, a Holanda dominou mais. Teve chances até de ampliar a vantagem, aos 62', num cruzamento de Dumfries afastado por Shane Duffy. E mesmo ao recuar e correr mais riscos de ver o empate da Irlanda, o sufoco ficou mais na ameaça do que em necessidade de defesas de Mark Flekken. O trio Matthijs de Ligt-Van Dijk-Aké conseguiu controlar as tentativas do time da casa em Dublin. E afinal, veio a vitória.

Vitória que deixa a situação da Holanda mais tranquila. Nos quatro jogos que tem pela frente nas eliminatórias da Euro 2024, poderá receber os irlandeses em casa, ainda terá a fragílima Gibraltar pela frente... e se vencer esses dois jogos, deverá encaminhar seu lugar na Alemanha, no ano que vem. Capacidade para não se complicar, tem. E mostrou isso neste domingo, quando precisou passar por um jogo duro, saindo dele com o melhor resultado possível.

Eliminatórias da Euro 2024
Irlanda 1x2 Holanda
Data: 10 de setembro de 2023
Local: Aviva Stadion (Dublin)
Juiz: Irfan Peljto (Bósnia)
Gols: Adam Idah, aos 4', Cody Gakpo, aos 19', e Wout Weghorst, aos 56'

Irlanda
Gavin Bazunu; Nathan Collins, Shane Duffy e John Egan (Jamie McGrath, aos 73'); Matt Doherty (Festy Ebosele, aos 87'), Alan Browne (Will Smallbone, aos 74'), Josh Cullen e James McClean (Ryan Manning, aos 64'); Jason Knight (Sinclair Armstrong, aos 87') e Chiedozie Ogbene; Adam Idah. Técnico: Stephen Kenny

Holanda
Mark Flekken; Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Nathan Aké; Denzel Dumfries, Mats Wieffer (Tijjani Reijnders, aos 46'), Frenkie de Jong e Daley Blind (Wout Weghorst, aos 46'); Donyell Malen (Teun Koopmeiners, aos 68'), Cody Gakpo (Noa Lang, aos 81') e Xavi Simons (Steven Berghuis, aos 89'). Técnico: Ronald Koeman

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Um formigueiro atrás da orelha

O técnico Ronald Koeman sabe: a seleção masculina da Holanda tem problemas. E precisa superá-los contra Grécia e Irlanda, se quiser ir à Euro sem sustos (Pro Shots/Icon Sport/Getty Images)

Definitivamente, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) anda em má fase neste ano de 2023. Nas primeiras rodadas das eliminatórias da Euro 2024, uma goleada dura sofrida para a França - piorada por várias ausências, causadas por infecção estomacal - e uma vitória protocolar contra Gibraltar. Veio a Liga das Nações, o sonho de um título (menor, mas um título) após 35 anos... e a Laranja foi a pior das quatro seleções que disputaram as partidas decisivas em Roterdã e Enschede. Pior: até agora, mesmo com bons jogadores, a segunda passagem de Ronald Koeman como técnico da equipe holandesa tem uma equipe lenta e frouxa em campo. Já nem é o caso de dizer que a pulga está atrás da orelha: há um verdadeiro formigueiro sendo "coçado" por quem acompanhe a equipe. Eis a grande tarefa nestas datas FIFA, com os jogos da qualificação da Euro, contra duas seleções tradicionalmente esforçadas - Grécia, nesta quinta (7), em Eindhoven, e Irlanda, no domingo (10), em Dublin: trazer mais confiança de que a Holanda não passará sufoco para tentar a vaga na copa europeia de seleções.

Para tentar trazer essa confiança, os obstáculos continuam aparecendo. Alguns deles, até, involuntários. Por exemplo, a nova lesão muscular na coxa direita que tirou as chances de Memphis Depay estar na convocação. Tal situação já aborrece Ronald Koeman, como ele deixou claro na entrevista coletiva de segunda-feira: "A lesão dele [Memphis] é ruim, mas infelizmente já estamos acostumados. (...) A princípio, a tendência a se machucar não coloca a posição dele em risco no time, mas ele precisa estar numa situação em que possa jogar por mais tempo". Como não está - assim como Steven Bergwijn, também machucado -, há alguma dúvida sobre como o ataque da Laranja entrará em campo. Dúvida grande a ponto de trazer uma cogitação de que talvez o experiente Luuk de Jong pudesse retornar à seleção da qual desistiu logo após a Copa. De Jong piscou, na semana passada: "Nunca diga nunca (...) sei que sempre posso tomar um café com Ronald Koeman". Depois, voltou atrás no sábado, logo após a vitória do PSV no Campeonato Holandês: "Para mim, acabou, há outras boas opções". Mas Koeman respondeu positivo, na coletiva: "A porta sempre estará aberta. Depende dele". Só para constar, o treinador também manteve portas abertas para Georginio Wijnaldum, na berlinda após decidir rumar para o Al-Ettifaq (Arábia Saudita): "Eu falei com ele (...) Jogadores como Brozovic, Mitrovic e Cristiano Ronaldo jogam lá, e também estão em suas seleções. Então, a porta não está fechada".

Noppert, Verbruggen e Flekken (da esquerda para a direita, junto ao treinador de goleiros Patrick Lodewijks): os três goleiros da vez na roda-viva da Laranja na posição (Pro Shots/IconSport/Getty Images)

Se há dúvidas no ataque, dúvidas maiores ainda seguem no gol. Justin Bijlow se convertera em titular na Liga das Nações, era o nome escolhido de Ronald Koeman para seguir assim... mas outra vez, está lesionado - fratura no pulso (levantamento da ESPN neerlandesa informou que, de 2019 até agora, Bijlow já perdeu 61 partidas do Feyenoord por estar machucado). Espaço aberto para Andries Noppert, o titular da Copa, voltar às convocações, após passar o primeiro semestre em recuperação de lesão muscular. Só que Noppert também não passa total segurança, ainda que seja o mais cotado para jogar contra Grécia e Irlanda: na derrota do Heerenveen para o Sparta Rotterdam (3ª rodada do Campeonato Holandês), ele falhou em dois gols. Além disso, Mark Flekken ainda não parece ter sido devidamente testado na Laranja - e o jovem Bart Verbruggen, reserva no Brighton, indica ser goleiro de futuro, tendo escapado ileso da má participação da Holanda na Euro sub-21. O que Koeman escolherá? A julgar por suas palavras, nada muito definitivo, diante de tantos azares: "Em junho, tínhamos a ideia de escolher um goleiro titular fixo. Não deu totalmente certo, pelas lesões. Então, outras opções precisam ser feitas, e faremos isso de novo".

De novo, aliás, Koeman foi cobrado por uma ausência: Jeremie Frimpong, vivendo grande momento no Bayer Leverkusen (em três jogos pelo Campeonato Alemão, o lateral direito fez um gol e deu passe para três, e já jogava bem desde a temporada passada). Ainda assim, Frimpong segue fora das convocações. E se o técnico indicou ao começar o trabalho que Denzel Dumfries era seu nome preferido num esquema com quatro jogadores na defesa, Koeman deixou claro desta vez que a negativa do lateral de ascendência ganesa em defender a Holanda na Euro sub-21 pesou: "Expliquei que ele não foi chamado antes por jogarmos com quatro na defesa. Depois, em nome da federação, Nigel de Jong [diretor de futebol] falou com ele: estamos chateados com quem nega as convocações da sub-21. Ele ainda quer jogar pela Holanda, mas decidimos deixá-lo de fora agora. Fica como uma 'multa'". 

Sobrou até para Ryan Gravenberch - também chamado para a seleção sub-21 agora, o meio-campo pediu dispensa para se focar no Liverpool ao qual acaba de chegar, e Koeman disparou: "Também não estamos contentes com Gravenberch. Nigel [de Jong] falou com ele. A seleção sub-21 também serve para representar seu país, e se você atuar bem lá, você pode dar o salto". Declarações pouco pacientes com jogadores que ainda podem ser úteis à seleção principal. De mais a mais, é compreensível que nomes já com experiência considerável - Gravenberch esteve na Euro passada, e Frimpong foi chamado à Copa - tenham mais ambição do que defender a Laranja Jovem, seleção que é habitualmente um "laboratório".

A boa fase de Reijnders pode fazer dele titular no meio-campo da Holanda, já com outros nomes em boa fase (Pro Shots/IconSport/Getty Images)

Koeman tateou à procura de mais justificativas para o mau momento da seleção masculina. Lamentou até mesmo uma certa falta de autoexigência da geração atual: "Os tempos mudaram, não se pode viver de passado. Mas, no meu tempo, éramos mais duros. Às vezes sinto falta disso, nesse grupo. Eles se corrigem pouco. Faz parte da geração, ser amável. Mas se o desejo é vencer, isso precisa melhorar muito nesse time". Contudo, em termos mais práticos, está claro que a má fase de alguns nomes importantes, como Virgil van Dijk, o azar das lesões (Bijlow, Memphis Depay e também Jurriën Timber - este, fora até 2024, pelo ligamento cruzado anterior do joelho) e a própria lentidão que a Holanda mostra em campo parecem os problemas mais urgentes a serem resolvidos.

Se serve de consolo, há nomes aqui e ali indicando que dias melhores podem vir. Principalmente no meio-campo: para não falar de Frenkie de Jong, já um líder do grupo, e Teun Koopmeiners, com margem de melhora pela seleção, há vários convocados da posição que estão em ótima fase. Como Joey Veerman, que já teve alguns minutos na Liga das Nações, um destaque no começo promissor do PSV. Ou mais ainda, Tijjani Reijnders, iniciando de modo esplendoroso sua passagem pelo Milan, sinalizando que deseja a estreia na seleção - mesmo convocado, não foi inscrito na Nations League: "Agora estou de vez na convocação, é diferente. Depende de mim mostrar que também posso ser titular na Laranja". E há Xavi Simons, também começando bem no RB Leipzig, nome elogiado pelo próprio Ronald Koeman ("Ele ainda não atingiu o melhor pela seleção, mas nem me preocupo, ele ainda é jovem"), que pode tanto criar jogadas de ataque como ser um dos titulares do trio da frente.

Pequenas mostras de que a Holanda ainda pode tirar o formigueiro atrás da orelha. Se há jogos em que ela deve fazer isso, são os desta semana.

Os 25 convocados da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiros: Andries Noppert (Heerenveen), Mark Flekken (Brentford-ING) e Bart Verbruggen (Brighton-ING)

Laterais: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Lutsharel Geertruida (Feyenoord), Quilindschy Hartman (Feyenoord), Ian Maatsen (Chelsea-ING) e Nathan Aké (Manchester City-ING)

Zagueiros: Mickey van de Ven (Tottenham-ING), Daley Blind (Girona-ESP), Matthijs de Ligt (Bayern de Munique-ALE) e Virgil van Dijk (Liverpool-ING)

Meio-campistas: Frenkie de Jong (Barcelona-ESP), Tijjani Reijnders (Milan-ITA), Marten de Roon (Atalanta-ITA), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Joey Veerman (PSV) e Mats Wieffer (Feyenoord)

Atacantes: Donyell Malen (Borussia Dortmund-ALE), Cody Gakpo (Liverpool-ING), Xavi Simons (RB Leipzig-ALE), Steven Berghuis (Ajax), Noa Lang (PSV) e Wout Weghorst (Hoffenheim-ALE)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Órdináááária!

Nem o empate no fim apaga a sensação de decepção que a seleção traz à torcida atualmente (Joep Leenen/ANP)
Ordinário. Na edição de 1986 do dicionário Aurélio, uma das definições da palavra indica: "Habitual, useiro, comum". Outra definição: "De má qualidade; inferior". Pois bem: esses significados indicam perfeitamente o que foi a seleção holandesa e sua atuação no empate por 1 a 1 contra a Irlanda, nesta sexta, no Aviva Stadium de Dublin. Novamente, a Laranja mostrou o que tem sido "habitual" e "comum" nela, nos últimos meses: um jogo "de má qualidade, inferior". A falta de criatividade foi o principal defeito da equipe renovada que foi a campo. 

Claro, no começo houve até a aceleração do jogo - principalmente pelas pontas, com Memphis Depay (menos) e Quincy Promes (mais). Mas aos poucos, um velho erro da Oranje foi novamente cometido: a transição lenta entre a defesa e o ataque. Na transmissão da FOX Sports holandesa para o jogo, o ex-jogador Ronald de Boer apontou uma jogada ocorrida ainda nos primeiros minutos: após um escanteio cuja bola foi tirada da área por Jeffrey Bruma, Georginio Wijnaldum tentou acelerar a saída para o ataque... e não havia opção. Resultado: o passe do meio-campista do Newcastle foi para trás, e logo a Irlanda retomou a bola.

Aos poucos, essa falha crônica foi expondo os outros sérios problemas da seleção holandesa. Sem opções, o meio-campo não podia criar jogadas. Sem criação de jogadas, restava o avanço infrutífero dos laterais (pela direita, Jöel Veltman; pela esquerda, Jetro Willems), que quase sempre rendia apenas cruzamentos inócuos e facilmente defendidos pelo goleiro irlandês, Darren Randolph. E sem jogadas saindo do meio e com a bola passando apenas pelo alto, Vincent Janssen mal apareceu na partida para finalizar. Pior: em todos os primeiros 45 minutos, apenas dois chutes foram dados pela Oranje. Nenhum deles a gol. Índice baixo assim não era visto desde o amistoso contra a Itália, em setembro de 2014.

No meio do deserto de ideias, havia apenas um oásis: Kevin Strootman. No seu retorno à Oranje, o volante da Roma diminuiu o temor de uma contusão: entrou em divididas, foi atingido em faltas, mas seguiu bem nos 68 minutos em que esteve no campo do Aviva Stadium. Mais do que isso: sempre que recebia a bola, mostrava a precisão que o fazia nome certo e habitual nas escalações da Laranja, antes das lesões que atravancaram e atrapalharam seu caminho. Também comentando para a FOX Sports holandesa, o ex-jogador dinamarquês Kenneth Perez esclareceu: "Veja os passes de Strootman: não são só para o lado, são para a frente, ampliam as opções de jogada". Enfim: no que foi possível, o camisa 8 cumpriu seu papel e justificou o apelido de "Lavadora". A tal ponto que, dos 73 passes que deu na partida, Strootman completou 88% deles, de acordo com o site OptaJohan. Mal jogou, e já se credenciou como um nome fundamental para o futuro da equipe, se continuar em forma, sem lesões.

Strootman: volta promissora (Maurice van Steen/VI Images)
Mas Strootman era só um, de onze jogadores. E não só os atletas ofensivos desaceleraram, como a defesa continuou exibindo erros gritantes de posicionamento e de ações. Dois desses causaram o gol de Shane Long que abriu o placar para os irlandeses, aos 19 minutos do primeiro tempo: o zagueiro Virgil van Dijk cedeu escanteio de graça, a uma equipe que tem na bola aérea uma de suas qualidades. E na cobrança do córner, Van Dijk (1,93m) perdeu a disputa do rebote para Long (1,80). Isso, sem contar a primeira entrada, em que John O'Shea apareceu livre no meio para testar, forçando a defesa de Jasper Cillessen, o consequente rebote e o gol.

O pior é que tudo isso seguiu durante boa parte do segundo tempo. A falta de alguém que realmente pensasse o jogo, criasse alternativas (Strootman, apesar de bom volante, não é um criador), aumentou a força do ponto de interrogação sobre um futuro sem Wesley Sneijder - e sem o fortalecimento de Davy Klaassen ou Jordy Clasie, opções imediatas para a posição. E aí, sem a criação, não havia como os da frente atuarem. E se eles ficavam com a bola, tentavam infrutíferas jogadas individuais. Principalmente Memphis Depay, cuja atuação foi merecidamente criticada e recebeu conselhos de Danny Blind, após o jogo: "O potencial dele segue presente, mas nota-se que a temporada não foi boa e isso o afetou. Assim, é melhor jogar o mais simples possível". De quebra, nas bolas aéreas irlandesas (e elas eram muitas), seguia o "quem é que sobe?": a tal ponto que Bruma quase cometeu gol contra, aos nove minutos.

A situação só melhorou levemente para a Holanda com a entrada de Steven Berghuis, em lugar de Memphis. Estreando pela Laranja, o atacante do Watford (atuando 27 anos após seu pai, Frank Berghuis, fazer um jogo pela seleção, contra o Brasil, em amistoso) acelerou mais as coisas. E após ter ocupado melhor o campo, mais compactada e sabendo o que fazer com a bola nos pés no 4-4-2 pensado por Martin O'Neill, a Irlanda desacelerou - natural, já que ela pensa na Euro que está próxima. As entradas de Bas Dost e Luuk de Jong, levando a Holanda do 4-3-3 para o 4-4-2, deram mais referências na frente, ainda que tenham transformado o jogo num festival de "chuveirinhos". E Marco van Ginkel, entrando no meio-campo, pôde armar um pouco mais o jogo e chegar ao ataque.

A leve evolução foi clara: aos 31 minutos da etapa final, enfim a Holanda mandou um arremate ao gol (um cabeceio de Dost mandou a bola perto da meta defendida por Randolph). E aos 40, uma jogada muito vista no returno desta Eredivisie resultou no empate: Willems cruzou da esquerda, e Luuk de Jong cabeceou para as redes. Só que este gol salvador não apagou as pesadas e corretas críticas sobre mais uma atuação apática, apagada, ordinária da seleção holandesa. Danny Blind reconheceu, falando após o jogo: "No intervalo, minha primeira frase [aos jogadores] foi: 'Como pode?!' É difícil explicar. Tivemos uma boa semana de treinos, e de novo saímos atrás, como pode ser assim?". 

Blind não sabe. Mas é sua obrigação achar uma resposta. A melhora rápida da Oranje depende disso.