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sábado, 3 de janeiro de 2026

A Holanda nas Copas masculinas: 2022 - Modo de segurança

Com uma verdadeira "montanha-russa" entre a Copa de 2014 e seu retorno em 2022, a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) foi assumidamente burocrática no Catar. E avançou até onde lhe era possível (KNVB Media/Divulgação)

Quando saiu o resultado do sorteio dos grupos - e do consequente chaveamento - da Copa de 2022, na maioria das vezes, as apostas e os "bolões" indicavam que a seleção da Holanda (Países Baixos) avançaria até as quartas de final, e nelas seria eliminada pela Argentina. Pois foi exatamente o que aconteceu. O que não se sabia, então, é que a Laranja cumpriria esta campanha de modo tão burocrático, tão avessa a riscos. Também, pudera: poucas vezes a seleção masculina da Holanda (Países Baixos) teve tantos altos e baixos até chegar a um Mundial. Talvez por causa desses desgastes, tenha jogado no Catar em "modo de segurança".

Chegar ao Mundial, aliás, não é bem o termo: é voltar às grandes competições, porque a Laranja estivera fora da Euro 2016 e da Copa de 2018 (nesta, o grupo das eliminatórias tinha França e Suécia), no que foi um fim gradual e traumático da geração de tanto sucesso em 2010 e 2014. Àquela altura, quatro técnicos já tinham passado pela equipe desde após a Copa de 2014: Guus Hiddink, Danny Blind, Fred Grim (este, interino em um jogo, após a demissão de Blind, em março de 2017) e Dick Advocaat. Mas era com Ronald Koeman, contratado no início de 2018, que se apostava num recomeço. E ele efetivamente aconteceu, ao longo daquele ano: a Laranja cresceu paulatinamente, ganhou de Portugal num amistoso - 3 a 0, em março -, e comprovou sua reação na primeira Liga das Nações: num grupo com Alemanha e França (esta, consagrada campeã do mundo no meio de 2018), a Laranja conseguiu passar para a semifinal, como líder de seu grupo. Melhor ainda: mostrava um líder nascendo em Virgil van Dijk, enfim embalando como zagueiro pela seleção, mostrava uma nova geração crescendo em Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong - ambos símbolos da marcante campanha do Ajax semifinalista da Liga dos Campeões, em 2018/19 -, mostrava Memphis Depay um pouco mais focado.

Ronald Koeman veio treinar a Holanda uma primeira vez, entre 2018 e 2020. Comandando uma geração que se firmou sob seu comando... (Getty Images)

... a Laranja superou as traumáticas ausências na Euro 2016 e na Copa de 2018, reagindo ao longo de 2018 e 2019. Só a pandemia e a saída de Koeman interromperam isso (Jan Kruger/Getty Images)

2019 simbolizou isso: a Holanda foi à final da Liga das Nações (perdeu para Portugal, mas isso não chegou a desanimar), passou com segurança pelas eliminatórias da Euro 2020 (com direito a vencer a Alemanha fora de casa), e terminou aquele ano com a autoconfiança totalmente recuperada. Talvez pudesse até ser considerada uma das favoritas ao título da Euro... se o começo de 2020 não trouxesse a pandemia de COVID-19 junto com ele, causando o adiamento do torneio continental de seleções por um ano. Pior para os Países Baixos: em agosto, Ronald Koeman recebeu uma proposta do Barcelona pela terceira vez. Decidiu fazer uso da cláusula em seu contrato com a KNVB (se fosse chamado pelo clube espanhol, onde tinha muita história, seria liberado para treiná-lo). E a Laranja ficou sem técnico, naquele turbulento 2020. Pior ainda: após dois jogos com o interino Dwight Lodeweges, decidiu-se contratar Frank de Boer, que já chegou contestado pelos maus trabalhos anteriores. Como se não bastasse, lesões graves vitimavam nomes importantes daquela reação. No fim de 2019, Memphis Depay rompera o ligamento cruzado anterior. Ficaria fora da Euro, ela foi adiada... mas aí, o machucado (com a mesma lesão, por sinal) foi Virgil van Dijk. E a primeira fase da Liga das Nações 2020/21 simbolizava o fim deste sonho: se fora finalista em 2018/19, a Laranja jogou sem brilho e perdeu o lugar nas semifinais para a Itália.

Exatamente durante esta queda de produção sob Frank de Boer é que começaram as eliminatórias para a Copa de 2022, em março de 2021. E o início só aumentou as desconfianças naquela fase da Laranja, no grupo G da qualificação europeia: fora de casa, contra a Turquia (adversária habitualmente árdua), uma derrota por 4 a 2. Nem mesmo as vitórias subsequentes contra Letônia (2 a 0) e Gibraltar (7 a 0) aumentavam a confiança num embalo. Foi assim que a Laranja chegou à Eurocopa, enfim disputada na metade daquele 2021. E os resultados na Euro... deram razão à altíssima desconfiança da torcida: mesmo após 100% de aproveitamento, num grupo considerado inferior (3 a 2 na Ucrânia, 2 a 0 na Áustria e 3 a 0 na Macedônia do Norte foram os adversários da Laranja), a queda já veio nas oitavas de final, com um 2 a 0 sofrido para a Tchéquia (República Tcheca). Frank de Boer foi demitido dois dias depois da eliminação. O sinal amarelo acendia para as eliminatórias da Copa em setembro de 2021, haveria sequência de partidas contra Noruega, Montenegro e Turquia, sendo noruegueses e turcos os adversários mais exigentes. Ou a Holanda convencia, ou correria sério risco de ficar fora da Copa pela segunda vez seguida. 

Após a passagem de Frank de Boer "corresponder" às más expectativas, incluindo decepção na Euro, Louis van Gaal aceitou voltar para tentar aprumar a Laranja nas eliminatórias para 2022. Conseguiu (Maurice van Steen/ANP/Getty Images)

Ronald Koeman ainda estava no Barcelona, mesmo contestado - só seria demitido em outubro. Os melhores técnicos holandeses da época, segundo a maioria, estavam empregados (Erik ten Hag, no Ajax; Peter Bosz, no Bayer Leverkusen - Arne Slot era visto ainda como promessa, no Feyenoord). As outras opções não empolgavam, nativos dos Países Baixos ou não. E a federação acabou "engolindo" o único nome que aceitou aquele desafio, num momento de encruzilhada: já praticamente aposentado, vivendo em sua casa de veraneio em Portugal, Louis van Gaal sucumbiu à tentação que sempre teve (fazer da Holanda campeã mundial), aceitando ir para a terceira passagem comandando a seleção masculina holandesa - o oitavo técnico da Holanda, interinos incluídos, em sete anos! Nos três jogos de setembro de 2021, teve êxito: em nove pontos disputados, a Holanda ganhou sete - 1 a 1 contra a Noruega, 4 a 0 em Montenegro e notáveis 6 a 1 na Turquia -, embalando nas eliminatórias. Mais duas vitórias em outubro, contra Letônia (1 a 0) e Gibraltar (6 a 0), colocaram a Laranja na rota da volta aos Mundiais. 

Contudo, na penúltima rodada, mais um susto: podendo garantir a vaga por antecipação contra Montenegro, fora de casa, a equipe neerlandesa fazia 2 a 0, mas tomou o empate nos dez minutos finais. Resultado: para ter certeza do lugar na Copa de 2022, a Laranja precisaria vencer a Noruega, em casa e sem torcida - com a pandemia ainda em vigor, havia restrições sanitárias quanto à presença de público em Roterdã. Se empatasse, provavelmente ainda se classificaria, pela grande vantagem no saldo de gols. Mas se perdesse para a Noruega - que estava sem Erling Haaland, machucado naqueles dias -, não restaria nem o direito à repescagem, em caso de vitória da Turquia sobre os montenegrinos (vitória que ocorreu, de fato). Talvez ali, em 16 de novembro de 2021, tenha se iniciado o "modo de segurança" com que a Holanda encarou a Copa de 2022. Porque ela passou boa parte dos 90 minutos apenas controlando o jogo, sem correr riscos na defesa, nem atacar loucamente. Mas quando atacou, foi eficiente: dois gols nos últimos dez minutos de jogo, 2 a 0 na Noruega em De Kuip, susto afastado, Holanda de volta a uma Copa do Mundo.


Só então, com a vaga confirmada, é que Van Gaal pôde colocar em prática seu plano pragmático para tentar fazer da Laranja uma campeã mundial. Àquela altura, no começo de 2022, já se sabia que o grupo de jogadores tinha uma defesa muito sólida - com destaque, claro, para Van Dijk, com Nathan Aké e a revelação Jurriën Timber crescendo -, um desafogo ofensivo na lateral direita (Denzel Dumfries), mas um meio-campo que dependia demais de Frenkie de Jong, e um ataque definitivamente inferior (somente Memphis Depay atraía alguma confiança, e mesmo assim, passando por maus momentos no Barcelona). Então, Van Gaal - num comportamento bem mais tranquilo do que em outros momentos da carreira - decidiu escalar a equipe com três zagueiros. Começou a testar isso nos amistosos de março de 2022, com sucesso: uma vitória contra a Dinamarca (4 a 2) e um empate contra a Alemanha (1 a 1)

Mas seria ao longo da fase de grupos da Liga das Nações, quase toda em junho de 2022, que a seleção nacional neerlandesa se mostraria pronta para enfrentar o grupo A da Copa, no fim do ano, com o Catar como um frágil anfitrião, mas Senegal e Equador como candidatos a surpresas. Naquela Nations League, a Laranja estreou já pespegando 4 a 1 na Bélgica, fazendo talvez seu melhor jogo na terceira passagem de Van Gaal. De resto, mesmo sem brilhar, mostrava espírito de luta. Na segunda rodada, contra o País de Gales, fez 2 a 1 em Cardiff, com o gol da vitória nos acréscimos - e logo após tomar o empate; na terceira rodada, recebendo a Polônia em casa, tomou 2 a 0 mas buscou o empate em 2 a 2; na quarta rodada, novamente contra os galeses (agora em De Kuip), também fez o gol da vitória - 3 a 2 - nos acréscimos. Nas duas últimas rodadas do grupo da Liga das Nações, em outubro de 2022, foi momento de mostrar eficiência: 2 a 0 na Polônia fora de casa, 1 a 0 na Bélgica em Amsterdã, vaga nas semifinais da competição - em 2023. Invicta desde a chegada de Van Gaal, mostrando espírito de luta, eficiência, tendo alguns bons jogadores... sim, a Laranja estava capacitada para uma boa campanha no Catar, mesmo sem ser favorita ao título. Superava até problemas como a falta de um goleiro confiável: Justin Bijlow, Jasper Cillessen, Mark Flekken, Remko Pasveer... todos testados, nenhum aproveitou a chance. 


Convocação para o Catar feita, com o destaque Memphis Depay se recuperando de lesão muscular na coxa, sem goleiro titular definido, Van Gaal decidiu apostar no menos badalado, que só despontara naquele 2022. E Andries Noppert, do Heerenveen, teria sua estreia na seleção justamente na estreia na Copa, em 21 de novembro, contra Senegal. Muito se desconfiava de uma "zebra", e de fato a partida no estádio Al Thumama foi bem equilibrada. Talvez, até, um empate fosse o resultado mais adequado. Só que o goleiro senegalês Édouard Mendy falhou duas vezes, Cody Gakpo e Davy Klaassen aproveitaram, e a Laranja estreou com vitória: 2 a 0. Uma vitória burocrática, sem empolgar, até decepcionante para quem se impressionava com a sequência invicta da Laranja e esperava uma seleção ofensiva. 

Pior ainda foi o jogo seguinte, no estádio International Khalifa, em 25 de novembro: mesmo saindo na frente com gol rápido - Cody Gakpo marcou, já se credenciando ali como um dos destaques jovens da Copa, passando a ser nome importante para a Laranja ali -, o Equador reagiu, teve gol erradamente anulado (Jackson Porozo, supostamente impedido, teria atrapalhando Noppert - não atrapalhou), empatou afinal com Enner Valencia, mandou bola no travessão... e mesmo com o 1 a 1 no placar final, ficava a impressão de que a seleção sul-americana merecia ter vencido. A Holanda ficava do lado das decepções. E não melhoraria na terceira partida dos grupos, dia 29 de novembro, no estádio Al-Bayt: mesmo com o Catar já eliminado, a Oranje se contentou com um protocolar 2 a 0, sem se esforçar em golear. Só Gakpo era considerado destaque, como primeiro holandês a fazer três gols numa fase de grupos de Mundiais. De resto, pouquíssimos estavam contentes com o que se via do time neerlandês, mesmo que ele entregasse os resultados.

Numa fase de grupos altamente contestada da Laranja na Copa de 2022, Cody Gakpo foi o único a escapar de críticas (Cui Nan/China News Service/Getty Images)

Entre esses contentes, estava Louis van Gaal, para quem as atuações dos Países Baixos estavam dentro do esperado. A quem reclamasse, Van Gaal retrucava coisas como "O futebol evoluiu e se tornou muito mais difícil do que 20 anos atrás jogar tão ofensivamente quanto o Ajax costumava fazer". Pelo menos nas oitavas de final, o treinador respondeu bem aos críticos. Porque a Laranja foi exemplar em seu pragmatismo, em seu jogo reativo, contra os Estados Unidos, em 3 de dezembro de 2022, no International Khalifa: para uma seleção considerada decepcionante e até ameaçada de "zebra", a Laranja controlou a partida contra os norte-americanos. Teve Dumfries fazendo talvez sua melhor atuação vestindo laranja, com um gol e passes para outros dois. E bastava os EUA ameaçarem, para mais um gol aparecer. Com os 3 a 1 no placar, os Países Baixos já estavam nas quartas de final da Copa. Exatamente contra a Argentina. Exatamente o que previam as apostas antes do torneio. Era a hora de se superar.

Contudo, na maioria do tempo normal daquele jogo em 9 de dezembro de 2022, a Laranja não se superou. Jogando com três zagueiros, "espelhando" o esquema tático holandês (comenta-se que o técnico Lionel Scaloni decidiu isso após conversa com o compatriota Gustavo Alfaro, que treinara o Equador naquela Copa em que causou tantos problemas à Oranje), a Argentina controlava a partida. O time de Van Gaal mal conseguia espaço para chutar a gol. E a Albiceleste só precisava esperar algo de Lionel Messi. Algo que veio duas vezes. No primeiro tempo, com passe milimétrico para que Nahuel Molina invadisse a área e fizesse 1 a 0 para os argentinos; no segundo, convertendo pênalti (Dumfries agarrara Marcos Acuña) e fazendo 2 a 0. Parecia o ponto final de uma insípida campanha holandesa. 

Só que, se se jogava no "modo de segurança", aquela desvantagem foi o "reset": com Luuk de Jong e Wout Weghorst em campo, a Laranja apostaria nas bolas altas para tentar o empate. Numa delas, aos 38 minutos do segundo tempo, Weghorst cabeceou e diminuiu para 2 a 1. Mais alguns minutos, Leandro Paredes chutou de propósito uma das bolas em campo ao banco de reservas holandês, e o tempo ficou ainda mais quente, no jogo com mais cartões na história das Copas masculinas (17 amarelos, um vermelho). Mais os acréscimos... e numa falta perto da área, no penúltimo dos 11 (!) minutos de acréscimo, logo após pensar em bater direto, Teun Koopmeiners viu Weghorst ficando desmarcado na área, com Enzo Fernández se afastando. Ali decidiu rolar a bola para a área. Rolou, Luuk de Jong obstruiu um marcador argentino, Weghorst dominou e empatou: 2 a 2. Era quase inacreditável: num jogo em que merecia estar eliminada, a Laranja levava tudo para a prorrogação. Era a chance de renascer. Era um raro lance de brilho que a Holanda trouxe naquela Copa.

Por pelo menos 83 minutos, a Laranja pareceu sem chances nas quartas de final contra a Argentina. Aí entrou Wout Weghorst, e pelo menos um lance ficou na memória... (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)

Chance perdida. Porque a Argentina voltou a crescer nos 30 minutos de tempo extra. Porque o ataque holandês quase inexistia: com Luuk de Jong e Weghorst, mas sem mobilidade (apenas Noa Lang e Steven Berghuis tentavam algo). Nas cobranças da marca do pênalti que vieram, Emiliano "Dibu" Martínez começaria seu caminho para a eternidade, pegando o chute inicial de Van Dijk, mais o de Berghuis. Noppert, tão badalado na estreia, de Copa correta, não defendeu nenhuma cobrança - até o chute de Enzo Fernández foi para fora. E a Argentina afinal avançou (e seguiu seu rumo ao terceiro título mundial), com os 4 a 3 nos chutes.

Mesmo com seu "modo de segurança" dando certo, a Holanda (Países Baixos) precisava(m) de um diferencial para poder(em) sonhar com aquela Copa de 2022. Um diferencial inexistente. A Laranja fez apenas o normal, e seu destino foi exatamente o esperado nos bolões mundo afora: perder para a Argentina, nas quartas de final.

Os convocados da Holanda para a Copa de 2022

Goleiros
1-Remko Pasveer (Ajax) - não jogou
13-Justin Bijlow (Feyenoord) - não jogou
23-Andries Noppert (Heerenveen) - 5 jogos, 4 gols sofridos

Defensores
22-Denzel Dumfries (Internazionale-ITA) - 5 jogos, 1 gol
2-Jurriën Timber (Ajax) - 4 jogos
4-Virgil van Dijk (Liverpool-ING) - 5 jogos
5-Nathan Aké (Manchester City-ING) - 5 jogos
17-Daley Blind (Ajax) - 5 jogos, 1 gol
3-Matthijs de Ligt (Bayern de Munique-ALE) - 2 jogos
6-Stefan de Vrij (Feyenoord) - não jogou
16-Tyrell Malacia (Manchester United-ING) - não jogou
26-Jeremie Frimpong (Bayer Leverkusen-ALE) - não jogou

Meio-campistas
21-Frenkie de Jong (Barcelona-ESP) - 5 jogos, 1 gol
14-Davy Klaassen (Ajax) - 4 jogos, 1 gol
15-Marten de Roon (Atalanta-ITA) - 5 jogos
20-Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA) - 5 jogos
24-Kenneth Taylor (Ajax) - 1 jogo
25-Xavi Simons (PSV) - 1 jogo

Atacantes
8-Cody Gakpo (PSV) - 5 jogos, 3 gols
10-Memphis Depay (Barcelona-ESP) - 5 jogos, 1 gol
19-Wout Weghorst (Besiktas-TUR) - 4 jogos, 2 gols
7-Steven Bergwijn (Ajax) - 4 jogos
11-Steven Berghuis (Ajax) - 4 jogos
18-Vincent Janssen (Royal Antwerp-BEL) - 2 jogos
9-Luuk de Jong (PSV) - 1 jogo
12-Noa Lang (PSV) - 1 jogo

Técnico: Louis van Gaal

Campanha

Fase de grupos
Holanda (Países Baixos) 2x0 Senegal
Holanda (Países Baixos) 1x1 Equador
Holanda (Países Baixos) 2x0 Catar

Oitavas de final
Holanda (Países Baixos) 3x1 Estados Unidos

Quartas de final
Holanda (Países Baixos) 2x2 Argentina - Argentina 4x3 nos chutes da marca do pênalti

sábado, 22 de novembro de 2025

1978-1988: a década quase perdida da Laranja

O atacante Van Loen deixa o gramado de De Kuip após a queda da Holanda (Países Baixos) na repescagem das eliminatórias da Copa de 1986: entre 1978 e 1988, várias decepções e azares (Alamy)

Certo, na Copa de 1978 a seleção da Holanda já não era a mesma que marcara época no vice-campeonato mundial de 1974. Ainda assim, a campanha que terminou em outra segunda colocação, após a derrota para a Argentina na decisão, rendia alguma honra, e sinalizava que a seleção batava chegara ao grupo das equipes nacionais prestigiosas – e era para ficar.

Pelo menos, era o que parecia. Porque, entre o 25 de junho de 1978 em que se jogou a final da Copa do Mundo no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, e o 25 de junho de 1988 em que ganhou seu único título de vulto (a Euro, no Estádio Olímpico de Munique), a equipe masculina dos Países Baixos viveu exatamente dez anos cheios de decepções, de esperanças frustradas – algumas, de maneira até incrível. Hora de ver o que ocorreu nesse hiato.

A Laranja até foi à Euro 1980, mas entre o envelhecimento da geração "Futebol Total" e novas promessas que não embalavam, ficou na fase de grupos. Era o começo da queda. Aqui, a foto do time na derrota por 3 a 2 para a Alemanha Ocidental, na Euro. Em pé, Schrijvers, Krol, Van de Korput, Stevens, Hovenkamp eWijnstekers. Agachados: Rep, Rene van de Kerkhof, Kist, Willy van de Kerkhof e Haan (ProShots).

1978-1980: uma troca confusa de gerações

Logo após a Copa do Mundo, uma troca foi oficializada: o auxiliar técnico Jan Zwartkruis virou o treinador principal da Holanda, sucedendo o austríaco Ernst Happel – que só fora treinar a Laranja durante a Copa, aliás. Antigo comandante da seleção neerlandesa das Forças Armadas, Zwartkruis já teria de começar o trabalho no fim de 1978, com o início das eliminatórias para a Eurocopa. Ainda teria à disposição a geração que começava a envelhecer (Ruud Krol, os Van de Kerkhof, Willem van Hanegem, Arie Haan, Johnny Rep, Johan Neeskens, Rob Rensenbrink), mas poderia convocar jovens promissores – como o atacante Jan Peters, do AZ.

A Holanda começou impondo respeito, num grupo acessível na qualificação: em três jogos, três vitórias (contra Islândia, Suíça e Alemanha Oriental). Porém, quando encarava adversários mais fortes em amistosos, fraquejava. Foi assim no jogo derradeiro de 1978, quando caiu para a Alemanha Ocidental (3 a 0). Foi assim na primeira partida da Laranja em 1979 (outro revés por 3 a 0, para a Itália, também num amistoso). Se os problemas fossem só em jogos amigáveis, tudo bem. Mas uma queda para a Polônia, única adversária mais forte nas eliminatórias da Euro (2 a 0, na quinta rodada), acendeu o sinal amarelo. Que quase ficou vermelho com as defecções que vinham entre velhos conhecidos: Van Hanegem, Rensenbrink e Neeskens tiveram suas últimas partidas vestindo a camisa alaranjada naquele 1979, e Arie Haan decidira deixar a seleção, sentindo-se desprestigiado por Zwartkruis - e expondo isso numa carta aberta.

Só restavam as convocações de mais novidades: o lateral direito Ben Wijnstekers, o zagueiro Michel van de Korput, o atacante Simon Tahamata (guarde este nome). Parecia insuficiente: um empate contra a Polônia, na penúltima rodada das eliminatórias da Euro – 1 a 1 -, deixava a Holanda na segunda colocação do grupo 4. Se não vencesse a Alemanha Oriental, na última rodada, em Leipzig, em 21 de novembro de 1979, a vice-campeã mundial estaria fora do torneio continental a ser sediado na Itália.

Em 33 minutos, os germânicos do lado leste fizeram 2 a 0. Pior, muito pior: após um entrevero em campo, ainda antes do intervalo, cada equipe ficou com um homem a menos (pela Holanda, Tshen La Ling levou o cartão vermelho; pela Alemanha Oriental, Konrad Weise). Pois bem: diante daquela decepção que se delineava, Simon Tahamata chamou a responsabilidade. Logo após as expulsões, também ainda no primeiro tempo, ele fez a jogada com que Frans Thijssen diminuiu o placar, para 2 a 1. Na etapa final, a Holanda foi à frente, carregada pelos dribles de Tahamata. Coube a um atacante sem presença em Copas do Mundo mas recheado de respeito no futebol europeu – Kees Kist, presente na Euro 1976, Chuteira de Ouro europeia – empatar o jogo, já aos cinco minutos do segundo tempo. E aos 25 minutos, Willy van de Kerkhof marcou o gol da virada. Graças ao “Milagre de Leipzig”, como a imprensa celebrou no dia seguinte, a Holanda estava na Euro 1980.


Mas quando enfim chegou a hora do torneio para valer, as pequenas fissuras vistas sob Zwartkruis ficavam maiores. Certo, Arie Haan se reconciliara com o treinador e voltara à seleção. Mas os mais experientes tinham pequenos estranhamentos com os mais novos – por exemplo, entre os goleiros, o titular Piet Schrijvers (34 anos) e o reserva Willem “Pim” Doesburg (37 anos) tinham um comportamento áspero com o terceiro arqueiro convocado para a Euro, Hans van Breukelen (chegando à Laranja, aos 24 anos). Alguns outros se perdiam com as questões das próprias carreiras: Van de Korput, por exemplo, concluiu a transferência para o Torino no aeroporto em que embarcaria para a Itália.

Não deu outra: a Holanda chegou ao certame europeu sem brilho. Na estreia pela Euro, contra a Grécia, um insípido 1 a 0 (gol de pênalti de Kees Kist). No jogo seguinte, num clássico contra a Alemanha Ocidental, o placar de 3 a 2 foi enganoso: naquela que foi a primeira partida de Lothar Matthäus pela seleção germânica, Klaus Allofs roubou a cena, marcando três gols e simbolizando o domínio dos alemães. Nos últimos dez minutos, Rep e Willy van de Kerkhof até diminuíram, mas o nervosismo neerlandês impressionou negativamente.


A derrota deixava dificuldades. Mas ainda se podia chegar até a decisão: seria questão de vencer a Tchecoslováquia, e esperar que a Alemanha Ocidental tropeçasse contra a Grécia. Este tropeço veio (0 a 0), mas a Holanda nunca passou perto de poder vencer os tchecos, que saíram na frente. Kist até empatou, mas a igualdade por 1 a 1 foi o ponto final da Holanda naquela Euro. Uma campanha esquecível. Que indicava os tempos duros que estavam vindo.

1980-1982: de volta ao passado

Tão logo começou a campanha para as eliminatórias da Copa de 1982, com boa parte dos nomes dos anos 1970 deixados de lado, vieram duas derrotas por 1 a 0, para Irlanda e Bélgica, no grupo 2. Mal visto pelos veteranos que ainda persistiam (como Ruud Krol), desprestigiado pelos mais novos, Jan Zwartkruis ficava em situação periclitante. Às pressas, ainda teve de comandar a Holanda no Mundialito da virada de ano – com a recusa da Inglaterra em participar do torneio com campeões mundiais no Uruguai, a Laranja foi convidada e viajou, ainda que sob protestos de entidades da sociedade civil, queixosas de ver a seleção ir a um país que estava sob o governo ditatorial de Juan María Bordaberry.

Em campo, Zwartkruis apostou na base do AZ que furaria o domínio do trio Ajax-PSV-Feyenoord para ser campeão holandês em 1980/81: o zagueiro Ronald Spelbos, o meio-campo Hugo Hovenkamp, os supracitados Jan Peters e Kist. Não adiantou: duas derrotas para Uruguai e Itália, ambas por 2 a 0. E o Mundialito foi o ponto final para Jan Zwartkruis, demitido da seleção tão logo a delegação retornou do Uruguai.

Após um respiro nas eliminatórias da Copa (3 a 0 no Chipre, na terceira rodada, sob o comando do interino Rob Baan), a federação holandesa ganhou algum tempo para escolher o novo técnico. A opção recaiu sobre Kees Rijvers, elogiado pelo trabalho nos oito anos (1972 a 1980) que catapultaram o PSV à posição de clube grande na Holanda e na Europa. Com uma mudança notável – trazer de volta à seleção, após três anos, o meio-campo Arnold Mühren -, Rijvers viu um primeiro jogo altamente promissor: vitória por 1 a 0 sobre o adversário mais forte no grupo 2 das eliminatórias da Copa, a França, na quarta rodada, em 25 de março de 1981.

Com Kees Rijvers como técnico, a Laranja teve grupo muito equilibrado nas eliminatórias da Copa de 1982. Em decadência, tentou recuperar Cruyff, até trouxe Neeskens de volta, mas ficou de fora, vendo Bélgica e França garantirem vaga no Mundial. Na foto, o time que venceu a França por 1 a 0. Em pé, Schrijvers, Krol, Thijssen, Hovenkamp e Ophof. Agachados: Rene van de Kerkhof, Willy van de Kerkhof, Poortvliet,Peters, Mühren e Rep (Gerard Bedeau/Onze/Icon Sport/Getty Images)

O que não queria dizer que os problemas tinham se acabado. Naquela partida de estreia, Kees Rijvers pensou em convocar... Johan Cruyff, já ausente da seleção havia quatro anos, tentando retomar a carreira após rapidíssima passagem pelo Levante espanhol (e até um jogo fugaz, pelo Milan, num torneio amistoso). Cruyff até topou conversar. Mas logo colocou suas condições: só aceitaria a convocação se pudesse vestir roupas da Cruyff Court, sua marca de material esportivo, e não da Adidas, empresa patrocinadora da federação holandesa. A condição aborreceu Rijvers, que deixou a ideia do retorno de lado.

Na quinta rodada das eliminatórias, outro triunfo sobre o Chipre (1 a 0, com gol de uma aposta de Kees Rijvers – o atacante Kees van Kooten, 32 anos, do Go Ahead Eagles). Aí viriam três jogos decisivos para tentar a vaga na Copa: nas rodadas derradeiras da qualificação, seriam enfrentados justamente os adversários mais fortes – Irlanda, Bélgica e França. Contra a Irlanda, nem um ataque experiente (Johnny Rep, Ruud Geels e Van Kooten) evitou um tropeço: empate por 2 a 2, em Roterdã. Então, Kees Rijvers tentou atrair mais um veterano para voltar à Laranja. Desta vez, conseguiu: mesmo em queda física e técnica no New York Cosmos, mesmo até sofrendo com a bebida naquele momento de sua vida, Johan Neeskens, 30 anos em 1981, aceitou ser convocado, para ser um nome de referência no meio-campo, nas “decisões” contra Bélgica e França.

Pressionado nas Eliminatórias da Copa de 1982 - a bem da verdade, em toda a sua passagem -, o técnico Kees Rijvers (à esquerda) até convenceu Neeskens para uma volta fugaz à Laranja. Não adiantou (Fotocollectie Anefo)

Contra os belgas, na penúltima rodada, num time que tinha veteranos (Krol, Neeskens, Johnny Rep) a nomes mais novos que ganhavam espaço (o goleiro Van Breukelen, o zagueiro John Metgod), um triunfo promissor: 3 a 0 em Roterdã. A Holanda ia para a segunda posição do grupo 2, com nove pontos. Assim iria ao Parc des Princes, em Paris, para enfrentar a França, na última rodada, em 18 de novembro de 1981. Se vencesse, abriria quatro pontos de vantagem para os franceses, e se garantiria na Copa de 1982.


A seleção neerlandesa suportou a pressão dos Bleus. Até os seis minutos do segundo tempo. Falta na entrada da área: Michel Platini foi cobrar, e Van Breukelen descobriu o seu canto, para ficar mais avançado. Foi nesse átimo de desatenção que Platini bateu: bola no ângulo, França 1 a 0. Aquele lance deu a má indicação aos Países Baixos: a Holanda ficaria de fora do Mundial. Partindo para o ataque, ela deixou espaços aos franceses. Num contra-ataque, aos 35 minutos, Didier Six fez 2 a 0. A tentativa de trazer os veteranos de volta fracassara: Bélgica e França foram à Copa, e os Países Baixos amargaram o quarto lugar do grupo. Era a volta a um passado sem Mundiais.

1982-1984: pareceu piada, pareceu mutreta, mas foi só azar para os jovens

No meio dos veteranos que voltaram para ajudar, pouca gente notou, mas Kees Rijvers começou a fazer o que mais gostava em sua carreira de técnico: revelar jovens jogadores. Com isso, começou indiretamente a dar espaço a nomes que acabariam com o hiato vivido pela Laranja. Um jogo simboliza isso: num amistoso contra a Suíça (que venceu por 2 a 1, em 1º de setembro de 1981), estrearam dois jovens que eram amigos de infância, no bairro de Jordaan, em Amsterdã. Um deles já era volante pelo Ajax: Frank Rijkaard, 19 anos. O outro era atacante, no Haarlem: Ruud Gullit, também 19 anos.

Após a ausência do Mundial, Kees Rijvers teve mais espaço para abrir aos novatos – muitos deles frequentando as seleções de base da Holanda. 1982 começou mal para a Laranja, com derrotas para Escócia e Inglaterra em amistosos, mas outros dois jovens entravam nas convocações para não saírem mais: os atacantes Wim Kieft, 20 anos, e Gerald Vanenburg, 18 anos. Dos nomes que evocavam os dois vices em Copas, só restavam o goleiro Schrijvers (cedendo cada vez mais espaço a Van Breukelen), Krol e Willy van de Kerkhof.

Sim, alguns nomes de mais idade persistiram na seleção sob Rijvers, como Kees van Kooten. Mas seriam os jovens que teriam mais espaço no começo da campanha das eliminatórias para a Euro 1984, no grupo 7. Campanha que começou bem: um empate contra a Islândia (1 a 1), duas vitórias (2 a 1 na Irlanda, 6 a 0 em Malta), dando chances até a gente de brilho fugaz, como o atacante René van der Gijp, do Sparta Rotterdam.

Durante as eliminatórias da Euro 1984, a nova geração começou a tomar conta da Laranja: Van Basten, Rijkaard (que não estão na foto), Gullit, os irmãos Koeman, Vanenburg. Parecia suficiente para ir à Euro. Mas o azar de ver a Espanha fazer 12 a 1 em Malta foi gigante. Aqui, o time que começou jogando na vitória por 2 a 1 sobre a Espanha, naquelas eliminatórias. Em pé: Schrijvers, Ronald Koeman, Van de Kerkhof, Boeve, Vanenburg e Gullit. Agachados: Erwin Koeman, Brocken, Houtman, Ophof e Wijnstekers (ANP)

Em 1983, a primeira dificuldade apareceu: logo em 16 de fevereiro, derrota por 1 a 0 para a Espanha, a adversária mais forte da chave de qualificação. Uma pesada queda para a Suécia, em amistoso (3 a 0), não melhorou as coisas. Ainda assim, Rijvers seguiu com algum respaldo na seleção. Teve espaço até para treinar a equipe sub-20 da Holanda que disputou o Mundial da categoria naquele 1983. Eliminada pela Argentina (vice-campeã do torneio) nas quartas de final, a equipe neerlandesa teve como destaque um atacante tecnicamente promissor – Marco van Basten, 19 anos. Ele já entrou no radar da seleção principal: estreou na quinta rodada das eliminatórias da Euro – 3 a 0 contra a Islândia, em 7 de setembro. Outros dois nomes que começaram na Laranja em 1983 também eram garotos, e irmãos: o zagueiro Ronald Koeman, 20 anos, e o volante Erwin Koeman, 22 anos.

A juventude tomava conta da seleção holandesa em 1983. A tal ponto que Kees Rijvers deixava de fora das convocações Ruud Krol, o jogador com mais partidas pela Laranja até então (para decepção do próprio Krol, que desejava continuar). Os resultados justificavam isso. Principalmente o visto em 12 de outubro de 1983, na sexta rodada das eliminatórias da Euro: contra a Irlanda, em Dublin, a Holanda saiu perdendo por 2 a 0, no primeiro tempo. Pois Gullit e Van Basten, que tanto sucesso fariam, explodiram ali: carregaram a Laranja para a virada, no segundo tempo. Dois gols do primeiro, um do segundo, Holanda 3 a 2.


De quebra, nas duas últimas rodadas da qualificação para o torneio continental, duas vitórias: 2 a 1 na Espanha, em novembro, e 5 a 0 em Malta, em 17 de dezembro. Com 13 pontos, dois à frente dos espanhóis, e tranquila vantagem no saldo de gols, primeiro critério de desempate (+16 contra +5 da Espanha), a Holanda esperava estar na Euro 1984. Só um triunfo da Fúria por 11 gols de diferença, na última rodada, contra Malta, tiraria os Países Baixos da competição.

21 de dezembro de 1983. Naquela noite, em Amsterdã, se apresentava Freek de Jonge, popular cantor e humorista neerlandês. A certa altura de seu espetáculo, De Jonge falou aos espectadores que riam com sua performance: a Espanha ganhara de Malta por 12 a 1, e estaria na Euro 1984. A risada foi generalizada: todos acharam que era mais uma piada de Freek. Não era. Enquanto todos viam o show, a Espanha, que só vencia Malta por 3 a 1 ao fim do 1º tempo, fez nove gols na etapa final em Sevilha (quatro de Hipólito “Poli” Rincón, dois de Antonio Maceda, um de Carlos Alonso Santillana, um de Manuel Sarabia, um de Juan Antonio Señor). Chegou-se a suspeitar de que os jogadores malteses haviam facilitado o resultado: nada foi encontrado nas investigações de apostas.

Jantando na casa de um amigo, Kees Rijvers viu ali o tamanho do azar holandês. Acontecia o quase inimaginável: a Holanda estaria fora da Euro 1984, pelo mérito da Espanha – e o demérito de Malta. Seu cargo passava a correr perigo. Ainda mais pelas ambições cada vez menos escondidas do diretor técnico Rinus Michels.

Esta Holanda já poderia ter ido à Copa de 1986, mas falhou quando não podia na repescagem contra a Bélgica... aqui, a escalação da vitória que não adiantou (2 a 1, no jogo de volta da repescagem - os belgas, com o 1 a 0 da ida, foram à Copa pelo gol fora de casa). Em pé: Wijnstekers, Houtman, Gullit, Spelbos, Rijkaard e Van Breukelen. Agachados: De Wit, Van Tiggelen, Van de Korput, Tahamata e Valke. (VI Images)

1984-1986: faltou atenção no momento final

Quando 1984 começou, já era claro: Kees Rijvers estava sob pressão. Sob seu comando, a Holanda já ficara fora de uma Copa do Mundo e uma Euro. De quebra, no começo do ano, a federação holandesa tomou decisão polêmica: trouxe Rinus Michels para ser o diretor técnico da entidade. Mesmo que não o fosse abertamente, era uma sombra respeitável para o trabalho de Kees Rijvers. E mesmo que o ano tivesse começado com uma goleada na Dinamarca (6 a 0, num amistoso em 14 de março), a campanha no grupo 5 das eliminatórias da Copa do Mundo deveria começar muito bem, se o treinador quisesse evitar a demissão. Não foi o que aconteceu: em 17 de outubro de 1984, a Hungria já começou ganhando em pleno De Kuip, em Roterdã (2 a 1). A pressão tinha sua gota d’água: Kees Rijvers foi demitido.

Nas eliminatórias da Copa de 1986, Rinus Michels voltou a ser de fato o que já era "nas sombras": técnico da seleção holandesa (Marcel Antonisse/Anefo)

Na segunda rodada das eliminatórias, contra a Áustria, em 14 de novembro de 1984, Rinus Michels já voltava a treinar a Laranja, dez anos após comandar a seleção nos sete jogos que impressionaram o mundo na Copa de 1974. Só o resultado destoou: com gol contra de Michel Valke, derrota para os austríacos – 1 a 0. De quebra, uma aposta de Michels na convocação se frustrou: iniciado na reserva, o temperamental meio-campista Mario Been ralhou ao só entrar aos 28 minutos do segundo tempo. Nunca mais foi convocado. A primeira vitória nas eliminatórias da Copa veio só na terceira rodada: 1 a 0 no Chipre, em 23 de dezembro de 1984.

A saúde impediu que Rinus Michels pudesse continuar seu trabalho ali: logo que 1985 começou, um grave problema cardíaco o forçou a passar por uma operação e a se licenciar do comando da seleção. Às pressas, a federação teve de achar um técnico para a Laranja. Achou em Leo Beenhakker, do Volendam, admirador confesso de Michels, que seguiria o trabalho nas eliminatórias.

Leo Beenhakker - à direita, com Dick Advocaat como auxiliar - teve de terminar em 1985 o que Rinus Michels começara nas eliminatórias da Copa (VI Images)

“Don Leo” seguiu o que Rinus vinha fazendo: intercalando a nova geração (Van Breukelen, Gullit, Van Basten) com os nomes frequentes daquele hiato (Michel Valke, Ronald Spelbos, os zagueiros Peter Boeve e Ernie Brandts – este, egresso da Copa de 1978 -, um raro veterano em Willy van de Kerkhof). Veio uma ligeira reação na quarta rodada da qualificação: 7 a 1 no Chipre, em 27 de fevereiro de 1985. Porém, enquanto a Hungria garantia a primeira colocação e a vaga direta na Copa, um empate com a Áustria (1 a 1, em 1º de maio, em Roterdã) diminuía novamente as expectativas. Se quisesse manter alguma chance de tentar lugar no Mundial, via repescagem, a Holanda teria de vencer a Hungria em Budapeste, para manter a segunda posição da chave. Poucos acreditaram.

Eis que, em 14 de maio de 1985, a sorte esteve do lado laranja. Por obra e graça de um nome tão fugaz quanto talentoso: o atacante Rob de Wit, 21 anos, do Ajax. Contra a Hungria, De Wit fazia seu segundo jogo pela seleção da Holanda. Aos 23 minutos do segundo tempo, iniciou uma sequência de dribles, que só parou com um toque sutil para o 1 a 0. Houve suspeitas de facilitação dos resultados por parte dos húngaros (que viviam momentos de polêmicas sobre corrupção no futebol). Mas a Laranja ganhava sua segunda chance: iria à repescagem por vaga na Copa de 1986. Contra a Bélgica, a vizinha e rival tradicional.


No primeiro jogo, em Bruxelas, Wim Kieft cometeu um erro fatal: agrediu um adversário aos quatro minutos de jogo, e foi expulso. Com superioridade numérica, a Bélgica fez 1 a 0 e levou a vantagem para a volta, em Roterdã, no dia 20 de novembro de 1985. Mesmo com nomes como Rijkaard e Gullit em campo (e no banco, um veterano Willy van de Kerkhof), Rob de Wit quase foi o herói da vaga na Copa: se Peter Houtman abriu o placar, De Wit fez 2 a 0. O lugar no México estava garantido. Mas a cinco minutos do fim, uma desatenção defensiva em De Kuip, e o zagueiro Georges Grün fez o gol da Bélgica. A vitória podia ser holandesa, mas os belgas é que iriam ao Mundial, pelo gol fora de casa.

Mais um trauma. Por falta de atenção no momento final. Falta de atenção que causou fortes críticas de Leo Beenhakker àquela geração: "Eles são ingênuos, nunca terão maturidade".


1986-1988: uma bomba ameaçou, mas o hiato acabou

Recuperado do problema no coração que o tirou dos campos em 1985, Rinus Michels pôde voltar a treinar a Holanda no ano seguinte. O destino tiraria um forte candidato a ser titular em sua equipe: grande destaque na reta final das eliminatórias da Copa, Rob de Wit sofreu um acidente vascular cerebral que inviabilizou sua carreira (De Wit sobreviveu, e ainda vive, embora com pequenas sequelas motoras, aos 58 anos). No entanto, Rinus já sabia: formaria a seleção rumo às eliminatórias da Euro 1988 com base em Frank Rijkaard, Ronald Koeman, Ruud Gullit e Marco van Basten. Todos já relativamente calejados, pelos traumas das qualificações na Euro 1984 e na Copa de 1986.

Os amistosos no primeiro semestre de 1986 reduziram as expectativas: em quatro jogos, só uma vitória. Ainda assim, quando a qualificação começou, a Holanda despontou bem no grupo 5: duas vitórias (1 a 0 na Hungria, 2 a 0 no Chipre) e um empate (0 a 0 com a Polônia). Rinus Michels ia encontrando a convocação mais confiável, pouco a pouco: reintegrava Arnold Mühren, aos 37 anos, após seis anos de ausência das convocações, dava a última chance (não aproveitada) a Simon Tahamata, abria espaço para nomes como Adri van Tiggelen e Jan Wouters.

E os Países Baixos pareceram um time maduro quando 1987 começou. Duas vitórias por 2 a 0, contra a Hungria (em 29 de abril) e a Polônia (em 14 de outubro), colocaram a Laranja na rota da Euro, mesmo com um empate contra a Grécia (1 a 1). Faltava pouco para voltar a uma grande competição. Um triunfo contra o Chipre, em 28 de outubro de 1987, em Roterdã, selaria a classificação.

Todavia, ainda no primeiro tempo, quando a Holanda já vencia por 1 a 0, atirou uma pequena bomba caseira, envolta numa casca de laranja. O artefato caiu na área cipriota, e explodiu perto do goleiro Andris Charitou, que desmaiou. Jogo interrompido por alguns minutos, para ser retomado e terminar em goleada neerlandesa: 8 a 0. De nada adiantaria: a UEFA não só anulou o resultado, como decretou vitória do Chipre a princípio (3 a 0). Tal punição devolveria chances de classificação à Grécia, vice-líder do grupo – e justamente a adversária holandesa na rodada final das eliminatórias da Euro.


O “bomincident” (incidente da bomba, em holandês) aumentou o temor da torcida. Aí, a federação entrou em campo: com um recurso contra a punição, alegou que ela era injustificada – afinal, Andris Charitou nem fora atingido pela bomba caseira. A UEFA aceitou: transformou a sanção da derrota numa obrigação de um novo jogo contra o Chipre, a portas fechadas, em De Meer, o estádio do Ajax na época. Aí, sim, a vaga na Euro foi garantida: Holanda 4 a 0, com três gols de John Bosman, atacante que andava até acima de Van Basten (então lesionado) nas preferências de Rinus Michels para o time. De quebra, na última rodada da qualificação, nova vitória holandesa: 3 a 0 na Grécia.

O hiato acabava. E o fio da meada, parado no vice-campeonato da Copa de 1978, seria retomado em grande estilo na Euro 1988. Mas essa história já não faz parte dos tempos difíceis. E a Holanda nunca mais ficou tanto tempo sem ir a Euros ou a Copas do Mundo, resolvendo rapidamente os hiatos (Copa de 2002, Euro 2016, Copa de 2018). Que nunca mais haja uma década perdida...

Versão revista e ampliada de texto publicado na edição nº 14 da revista Corner, em 2021

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Grandes laranjas: Cocu

A confiabilidade em campo pode não ter feito de Phillip Cocu um ídolo, mas o transformou num jogador de carreira respeitada - na Holanda e fora dela (Stewart Kendall/Sportsphoto/Allstar via Getty Images)

Assim como o dia 1º de julho de 1976 teve o nascimento de dois craques da Holanda (Países Baixos) - dois atacantes, Patrick Kluivert e Ruud van Nistelrooy -, o dia 29 de outubro de 1970 também tem a incrível coincidência de ser a data exata em que dois nomes marcantes na história da Laranja vieram ao mundo. Um deles, Edwin van der Sar, já teve texto em sua homenagem por aqui. Faltava a homenagem à carreira de seu contemporâneo e companheiro de aniversário.

Um nome que não brilhava tanto em sua geração quanto Dennis Bergkamp ou mesmo o supracitado Kluivert. Não tinha a personalidade forte de Clarence Seedorf e de Edgar Davids. Não tinha nem o aspecto marcante dos gêmeos Frank e Ronald de Boer. Mas era um meio-campo - às vezes, não somente - muito confiável. Por isso, Phillip Cocu teve tanto tempo de seleção holandesa. Por isso, também, pode-se dizer até mesmo um ídolo eterno de um clube: o PSV. Por isso, finalmente,  teve uma carreira de sucesso.

O encontro marcado demorou

Nascido em Eindhoven, seria até previsível que Cocu fosse um jogador com toda a carreira vinculada ao PSV. Esse momento até chegaria, mas só depois. Até porque ele e os pais, Peter e Rina, logo deixaram a cidade quando o pequeno Phillip tinha três anos de idade, rumo ao município de Zevenaar. E só lá, quando criança, ele começou a jogar, no amador DFC - ainda passaria pelo De Graafschap. Mas ser jogador só se tornou uma possibilidade real quando a família Cocu se mudou para outra cidade dos Países Baixos com tradição no futebol: Alkmaar. Lá, Phillip seguiu nos campos. Primeiro, no amador AFC '34; depois, já com o profissionalismo encaminhado, no AZ, que o localizou no clube amador e o levou para o time juvenil. Dali Cocu seguiu. E foi no AZ, à época na segunda divisão holandesa, que Cocu estreou no futebol, em 22 de janeiro de 1989, numa derrota para o NEC (3 a 1).

Cocu ficaria pouco no AZ, até: com o clube tendo azar na Eerste Divisie - em 1988/89, ficou fora da repescagem de acesso por pouco; em 1989/90, até entrou na repescagem, mas logo foi eliminado -, ele aproveitou a chance surgida com o interesse do Vitesse, migrando para o clube de Arnhem no meio de 1990, pouco antes da temporada 1990/91 começar. Com o Vites vivendo um primeiro período de sonhar desafiar os grandes - terminara 1989/90 com um surpreendente quarto lugar na Eredivisie, logo na volta à primeira divisão -, Cocu era visto como nome promissor quando chegou ao clube aurinegro. Só teria uma grande dificuldade: logo na partida de estreia (1 a 1 entre Vitesse e Sparta Rotterdam, em 26 de agosto de 1990), ele sofreu grave fratura na fíbula. Por ela, e por intercorrências inesperadas, Cocu só voltou aos campos em abril de 1991. Seu salto de desempenho esperaria mais um pouco.

Cocu poderia ter começado no PSV da cidade natal. Mas começou no AZ. E no Vitesse despontou na carreira. Só depois veio o encontro marcado (Divulgação)

Mas afinal aconteceu. Já na temporada 1991/92, em plena forma, Cocu já era titular num Vitesse que seguia surpreendendo. Não só por se manter perto do topo na liga holandesa - de novo, quarto colocado -, como por chegar até a terceira fase da Copa da UEFA (antecessora da Liga Europa), na qual foi eliminado pelo Real Madrid. Bastou para Cocu começar a atrair interesses de clubes maiores. De fora dos Países Baixos, sondagens do Arsenal. De dentro da terra natal, coisas mais concretas. Tão concretas que se cogitou até a convocação de Cocu para a Holanda que disputaria a Copa de 1994, mesmo sem partidas disputadas pela Laranja àquela altura (o que até aconteceu, coincidentemente, com Edwin van der Sar, seu "xará" de aniversário). A ascensão do meio-campista já era questão de tempo. E na metade de 1995, enfim se consumou o encontro esperado desde a maternidade: Phillip Cocu, que saíra de Eindhoven ainda no início da infância, foi contratado pelo PSV. Para, aí sim, confirmar a forte identificação com o clube.

Homem de confiança

Ao longo das três temporadas que durou sua primeira passagem pelo clube de Eindhoven, Cocu fortaleceu sua grande qualidade como jogador: a versatilidade. Tinha a posição original bem definida: o meio-campo, de preferência como homem central. Mas já no Vitesse, tivera suas experiências como ponta-esquerda. E em Eindhoven, quando necessário, jogou como meia-esquerda, ou até (muito de vez em quando) como lateral esquerdo. Se nomes como Luc Nilis ou Ronaldo - nos dois anos passados nos Boeren - chamavam mais a atenção, Cocu começou a ser visto como "homem de confiança" no time, um jogador taticamente importante, de atuações regulares, sem cair muito de produção.

Enfim no PSV, bastou a primeira passagem para Cocu já se fazer como um nome querido da torcida. Mas haveria a segunda, melhor ainda (Divulgação)

Isso foi importante para que Cocu alcançasse outro ponto alto, enfim: a seleção holandesa. Nela, foi convocado pela primeira vez em 1996, estreando ao entrar no lugar de Richard Witschge, em 24 de abril daquele ano, num amistoso contra a Alemanha. E a constância de suas atuações o fizeram merecedor de lugar na convocação de Guus Hiddink, técnico da Laranja então, para a Eurocopa daquele ano. Mesmo num torneio cheio de turbulências internas entre os neerlandeses, Cocu já teve algum espaço: jogou as partidas contra Escócia e Inglaterra (fase de grupos), saindo do banco em ambas, e foi o titular nas quartas de final, contra a França, quando a Oranje foi eliminada nos pênaltis, preenchendo a lacuna aberta pelo corte de Edgar Davids.

E os anos seguintes foram de plena afirmação para Cocu. No final de 1996, com Davids ainda fora da seleção devido à briga com Guus Hiddink durante a Euro, o meio-campo já era titular absoluto da Laranja, e assim seguiria por 1997, nas eliminatórias para a Copa de 1998. Em clubes, então, não poderia ser melhor: o PSV voltou a ser campeão holandês na temporada 1996/97, após domínio do Ajax nos anos anteriores, e Cocu esteve em todas as 34 partidas da campanha. 

Tudo isso culminou na ocasião de sua aparição no cenário mundial: a Copa de 1998. Nela, Cocu só não jogou todos os minutos da campanha da Laranja porque foi substituído no intervalo da decisão do terceiro lugar, contra a Croácia. De resto, mesmo sendo meio-campista e seguindo preferencialmente assim, foi importante como opção do técnico Guus Hiddink para alterações táticas: jogou como meia central, meia-esquerda e até mesmo como atacante, na goleada por 5 a 0 contra a Coreia do Sul, na fase de grupos (assim, aliás, fez um de seus gols naquela Copa - o outro foi no empate em 2 a 2 contra o México, último da Laranja naquela fase). Nem mesmo a cobrança perdida na eliminação contra o Brasil, nas semifinais, abalou o respeito por suas atuações.

Pela versatilidade tática, Cocu foi nome importante - embora menos falado - da Holanda na Copa de 1998 (Richard Sellers/Sportsphoto/Allstar via Getty Images)

Cocu já tinha chegado à fase em que estava grande demais para o futebol holandês. E comunicou ao PSV: não renovaria o contrato após a Copa, esperando chance num centro mais visto do futebol europeu. Depois das atuações confiáveis vistas no torneio, era esperar pelas propostas, que viriam. Atlético de Madrid, Real Madrid, Juventus, Internazionale, Milan... todos sondaram. Mas o Barcelona - justamente no auge da fase "BarçAjax", quando o técnico Louis van Gaal trouxera vários holandeses para o clube catalão - foi quem levou Cocu, em agosto de 1998.

Referência na turbulência

No Barça, Cocu logo se firmou entre os holandeses que "deram certo" no clube e ficaram muito tempo nele, ao lado de Frank de Boer e Patrick Kluivert. Já na temporada 1998/99, que terminou com título espanhol barcelonista, ele se entrosou no meio-campo com Pep Guardiola e Luis Figo, mostrando até um lado "goleador" pouco visto em sua carreira (fez 12 gols, sua melhor marca numa só temporada, assim como no PSV, em 1995/96). Em 1999/2000, mesmo com o Barcelona caindo um pouco de produção - vice-campeão espanhol e semifinalista da Liga dos Campeões -, o holandês seguiu titular absoluto no meio. Como seria titular absoluto da Holanda na Euro 2000, a segunda de sua carreira: novamente, só não jogou todos os minutos da campanha laranja por ter sido substituído numa partida (saiu aos cinco minutos do primeiro tempo da prorrogação da semifinal, contra a Itália).

Mas seria dali por diante que, mais do que jogador importante, Cocu viraria referência. No Barcelona, entrando numa fase altamente turbulenta naquele período, as saídas de Figo (2000) e Guardiola (2001) o transformaram no único jogador experiente que o meio-campo titular tinha. E Cocu seria o homem a ajudar dois novatos que virariam titulares a partir de então, vindos da base do Barça: Xavi Hernández e Gabri.

Cocu ficou do lado dos holandeses que deram certo no Barcelona. E como: por seis anos, foi nome certo no meio-campo da equipe catalã (Shaun Botterill/Allsport)

Na seleção holandesa, os tempos não seriam menos difíceis: ao longo da fracassada campanha nas eliminatórias da Copa de 2002, Cocu teve suas primeiras experiências como capitão da Laranja, com Frank de Boer suspenso por doping. Na entressafra vivida entre o trauma da ausência no Mundial e estar na Eurocopa, em 2004, o meio-campo já era visto como um dos experientes mais confiáveis, seguindo com atuações constantes.

Até por isso, mesmo quando seu ciclo no Barcelona dava mostras de chegar ao fim, Cocu foi tratado com respeito. Em 2003, no final de seu contrato, chegou a pensar em antecipar a saída (até porque o PSV já o sondava para um retorno), mas a condicionou aos resultados das eleições para a presidência do clube espanhol. Joan Laporta eleito, ainda renovou por mais um ano. Numa temporada em que a reconstrução do Barcelona se iniciou, com o vice-campeonato espanhol e o início da "era Ronaldinho" no clube, Cocu teve lá sua importância na temporada 2003/04: 36 jogos em La Liga. Contudo, ao final da temporada, o Barça ofereceu novo contrato com salário menor. Cocu, por sua vez, dizia sentir falta de estar perto da família. E enfim, saiu do Barcelona para retornar ao PSV que manteve a oferta de volta - não sem antes ser condecorado por Joan Laporta, com uma placa agradecendo pelos seis anos de passagem por Camp Nou.

Fins honrosos

Após jogar a terceira Eurocopa de sua carreira (nela, enfim, Cocu esteve em todos os minutos de todos os jogos da campanha semifinalista holandesa, mesmo perdendo sua cobrança nos pênaltis contra a Suécia, nas quartas de final), o meio-campo chegou de volta ao PSV. Se saíra ainda precisando se provar fora dos Países Baixos, Cocu já voltava como ídolo, só pelo fato de ter voltado a vestir a camisa listrada alvirrubra. Melhor ainda: voltava numa grande fase do PSV, que começaria ali a viver a jornada do segundo tetracampeonato holandês de sua história, começando com os títulos da Eredivisie em 2004/05 e 2005/06. Capitão em campo, liderando um time que contava com Gomes e Alex na defesa, o conhecimento tático fazia de Cocu capacitado a jogar mais recuado, até como um líbero. Ou mesmo como atacante - num período de ausência do marfinense Arouna Koné, atacante titular, Cocu foi até mesmo homem de área (e faria 10 gols na Eredivisie 2005/06). Coroando tudo isso, na campanha marcante do PSV na Champions 2004/05, indo às semifinais, Cocu foi o líder indubitável da equipe em campo.

As atuações no PSV serviram para que Cocu escapasse da "reformulação" por que a seleção da Holanda passara após a Euro 2004. Se o técnico Marco van Basten descartou vários veteranos, o meio-campo não foi um deles: só ficou fora de dois dos dez jogos da campanha nas eliminatórias para a Copa de 2006 (nas quais, inclusive, marcaria três gols). Presença certa na Copa, aos 35-para-36 anos, nela Cocu ainda começou todos os jogos como titular, sendo o responsável por variar posições: podia ajudar Mark van Bommel na marcação, ou até auxiliar Rafael van der Vaart (ou Wesley Sneijder) na criação de jogadas. Às vezes, até, tentava finalizar - chegou a acertar o travessão, no jogo das oitavas de final, contra Portugal. Entretanto, depois daquela eliminação, decidiu encerrar sua passagem pela Laranja em campo. Ainda atualmente, com 101 partidas vestindo laranja, é o 10º jogador com mais participações pela seleção masculina.

Cocu voltou ao PSV para ser referência em tempos gloriosos do clube: terminou sua passagem erguendo a salva de prata do tricampeonato (Divulgação)

No PSV, Cocu ainda esteve em campo na temporada 2006/07 do Campeonato Holandês. Esteve bastante, até: dos 34 jogos da campanha do tricampeonato do clube, só esteve fora de um. E terminou do melhor jeito possível a segunda passagem que o confirmou como ídolo em Eindhoven: na última rodada, coube a ele fazer o quinto gol na goleada por 5 a 1 sobre o Vitesse, possibilitando ao PSV passar o Ajax no saldo de gols (a última rodada começara com PSV, Ajax e AZ empatados em pontos) e garantir o tricampeonato. 

Como capitão, ele ergueu a salva de prata da Eredivisie. Mesmo já tendo uma proposta para ser auxiliar técnico do PSV, preferiu ainda uma temporada jogando sem pressões, entre 2007 e 2008, no Al-Jazira catarense, para, aí sim, encerrar a carreira nos campos. De modo honroso.

Como técnico: sempre próximo a Eindhoven

Bastou voltar à Holanda (Países Baixos), em 2008, após o fim da passagem pelo Catar, para Cocu começar o curso da federação holandesa para se tornar treinador. O convite do PSV continuou de pé, e agora Cocu aceitou, começando a treinar times de base. Foi até além: ainda em 2008, meses após iniciar sua passagem pela seleção holandesa, Bert van Marwijk convidou Cocu para ser um de seus auxiliares.

Deu tão certo que Cocu só aceitou ser auxiliar do time principal do PSV no primeiro semestre de 2009. Mais do que isso: recusou convite do VVV-Venlo, já em 2010, para começar ali sua carreira de técnico principal. Afinal de contas, o trabalho com Bert van Marwijk evoluía, a seleção da Holanda vivia uma ótima fase... e forneceu experiências valiosas a Cocu. Pelo lado bom, com o vice-campeonato na Copa de 2010. Pelo lado ruim, com a decepção da eliminação na fase de grupos da Euro 2012.

Cocu primeiro quis ser auxiliar técnico, para depois ser treinador. Teve experiência adequada, nos quatro anos ajudando Bert van Marwijk na seleção da Holanda (Phil Cole/Getty Images)

Àquela altura, de modo um pouco acidentado, Cocu já se iniciara como treinador. No próprio PSV, por sinal: em crise após a demissão de Fred Rutten, na temporada 2011/12, a diretoria pediu ao ex-jogador que conduzisse o time no fim da temporada. Até conduziu (e até ganhou um título, a Copa da Holanda, para cuja final o PSV já estava classificado quando Rutten foi demitido), mas deixou claro: queria mais tempo como auxiliar. O tempo foi dado: na temporada 2012/13, Cocu ainda foi auxiliar técnico de Dick Advocaat.

Em 2013/14, a carreira começou para valer. Contrato assinado como treinador principal do PSV, Cocu ainda teve alguns percalços na primeira temporada, dentro de campo (o clube terminou o Campeonato Holandês em quarto lugar) e fora também (um tumor nas costas, em estágio inicial, forçou Cocu a ceder o cargo a seu auxiliar, Ernest Faber, nas últimas rodadas da Eredivisie). Mas nas temporadas seguintes, o agora técnico acrescentou mais capítulos vitoriosos à sua idolatria em Eindhoven: foram três títulos holandeses (bicampeonato em 2014/15 e 2015/16, este ganho na última rodada, mais 2017/18), uma campanha elogiável na Liga dos Campeões em 2015/16 (caiu nos pênaltis para o Atlético de Madrid, que seria vice-campeão da Champions), um time considerado muito sólido em campo. Foi com a apoteose vivida em 2017/18 - um título confirmado com três rodadas de antecipação, numa vitória em clássico, 3 a 0 contra o Ajax, no Philips Stadion -, que Cocu encerrou seu ciclo treinando o PSV. Queria novas experiências.

Cocu nem precisava de mais nada para ser ídolo no PSV, com o que fizera como jogador. Mas fez também como técnico (Edwin van Zandvoort/Soccrates/Getty Images)

Elas não deram muito certo, é verdade. Cocu começou a temporada 2018/19 treinando o Fenerbahçe: foi demitido após quatro meses e 15 jogos. A tentativa seguinte foi no Derby County, então disputando a segunda divisão inglesa: só um ano e três meses, saindo em outubro de 2020. E na temporada 2022/23, o retorno a outro clube em que é ídolo: o Vitesse. Com o clube de Arnhem já vislumbrando a crise interna em que mergulharia, Cocu teria de manter os bons resultados vividos em tempos anteriores. Até conseguiu no começo, emplacou uma segunda temporada em Arnhem, mas com as dívidas já perturbando o Vites e fazendo a federação holandesa puni-lo com retiradas de pontos na tabela do Campeonato Holandês, Cocu se demitiu em novembro de 2023.

Para, desde então, aproveitar um pouco sua idolatria. No Barcelona, é comumente chamado para os jogos de veteranos do clube; no PSV, é nome respeitado a ponto de ter entregue a Luuk de Jong a salva de prata, pelo bicampeonato holandês ganho em 2024/25. Tudo isso, garantido pela confiabilidade que Phillip Cocu sempre mostrou ter em sua carreira.

(ProShots)

Phillip John William Cocu
Data de nascimento: 29 de outubro de 1970, em Eindhoven
Clubes: AZ (1989 e 1990), Vitesse (1990 a 1995), PSV (1995 a 1998 e 2004 a 2007), Barcelona-ESP (1998 a 2004) e Al Jazira-CAT (2007 a 2008)
Seleção: 101 jogos e 10 gols, entre 1996 e 2006