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domingo, 18 de outubro de 2015

As razões do vexame (III): vácuo entre o ontem e o hoje

Memphis Depay está cada vez mais pressionado, mas ainda é o único novato holandês confiável na seleção (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)
Uma das razões mais faladas para a eliminação holandesa na qualificação da Euro 2016 é a falta de renovação da equipe. Afinal de contas, quando se fala nos destaques da Oranje dentro de campo, as primeiras lembranças ainda são Wesley Sneijder, Arjen Robben e Robin van Persie - sem contar Klaas-Jan Huntelaar, que segue no banco de reservas. Só que tratar a razão assim deixa a questão um pouco incompleta. A falta de caras novas existe, de fato. Mas ela só está aí porque nem há gente pronta para entrar e tomar rapidamente a vaga de titular, e porque há um claro vácuo, típico de entressafras.

Antes da derrota para a República Tcheca, Danny Blind reconheceu o vácuo entre os novatos e os veteranos: "Temos poucos jogadores entre os 24 e os 28 anos. Jogadores nessa faixa estão no melhor da forma e ajudam os outros. Eles olham tudo durante uma partida, não se preocupam só como eles. Gini (apelido de Georginio Wijnaldum) é um desses jogadores, Kevin Strootman pode fazer algo assim. Daley Blind também. De fato, temos muitos talentos jovens e muitos bons veteranos. O pessoal do meio é que não tem gente suficiente".

A partir daí, só piora. Porque sabe-se que Strootman tem sido perturbado pelas sérias lesões em seu joelho direito, há quase dois anos. Além disso, Wijnaldum e Blind não desenvolveram um espírito suficiente de liderança para conseguirem auxiliar os veteranos (se é que têm essa qualidade). E outros jogadores que poderiam ajudar nisso já sofrem com outros fatores, como Jasper Cillessen (com 26 anos, o goleiro segue sendo questionado) e Stefan de Vrij (23 anos, titular absoluto da zaga nas eliminatórias da Euro, mas as dores no joelho lhe impediram de jogar as duas últimas partidas).

E desse vácuo entre veteranos e novatos, pouco preenchido, chega-se ao fator principal: a dificuldade na geração de novos talentos. Ou, no mínimo, a dificuldade de jogadores medianos crescerem de nível e se destacarem para terem presença garantida entre os titulares. Basta ver o ataque: fora Van Persie e Huntelaar, há apenas Bas Dost e Luuk de Jong como finalizadores preferenciais. E nenhum deles trouxe razões para animação usando a camiseta laranja. Além disso, não são mais novatos: o irmão de Siem tem 25 anos, e Dost, 26 anos. Poderiam já estar ocupando o meio do ataque. E não o fazem. 

A mesma coisa com Luciano Narsingh: aos 25 anos, já tendo até a Euro 2012 no currículo, tem capacidade para atuar pelas duas pontas, num 4-3-3. Mas não ameaça a posição de Arjen Robben e Memphis Depay como titulares. Memphis, por sua vez, é o símbolo de um drama: aos 21 anos, o único talento holandês confiável da atualidade sofre com os vícios típicos da idade em campo, como o excessivo individualismo nas jogadas. Pior: ainda paga por falhas minúsculas, que só ganham importância num cenário de crise, como o atual na seleção holandesa. Por exemplo, o erro ao vestir uma camisa personalizada do jogo entre Holanda e Islândia, na partida contra a... República Tcheca. Sem dúvida, o atacante do Manchester United merece mais paciência. Até porque outros novatos, como Anwar El Ghazi, ainda não receberam muitas chances.

Se no ataque, o problema é a falta de gente confiável para substituir Van Persie (e/ou Huntelaar) e Robben, no meio-campo e na defesa há substitutos "prontos". Os problemas são diferentes: para armarem o jogo, Davy Klaassen e Jordy Clasie já mostraram talento. Klaassen, por exemplo, foi o melhor da Oranje na vitória contra a Espanha, num amistoso em março. Ainda assim, Sneijder deverá continuar atuando pela seleção nas eliminatórias para a Copa de 2018. E cada partida que ele faz, será uma partida a menos para Klaassen e Clasie terem a sequência de que precisam. Até porque, com seus 118 jogos, não falta experiência a Wesley. Nem capacidade técnica: foi o destaque no título turco do Galatasaray, na temporada passada.

Na defesa, a questão é mais complicada. A média de idade do setor é relativamente baixa. Porém, dos convocados frequentes, o único a trazer mais segurança tem sido De Vrij, titular absoluto na Lazio. Na lateral direita, Gregory van der Wiel não só voltou à má fase no Paris Saint-Germain, mas também segue com sua insegurança defensiva - mas tem sido o titular, em detrimento do razoável Daryl Janmaat. Pela esquerda, há a indecisão: Daley Blind fica no meio-campo ou vai para lá? E se o volante do Manchester United for efetivado como volante, como confiar em Jetro Willems, que ainda sofre com as falhas na marcação?

Além disso, na zaga, ainda não há um parceiro que traga segurança a De Vrij. Bruno Martins Indi, que foi razoável na Copa do Mundo, tem ficado mais no banco de reservas do Porto - e ainda é marcante sua expulsão contra a Islândia, que prejudicou sobremaneira a Oranje naquela partida. Jeffrey Bruma tem ritmo de jogo, titular absoluto que é no PSV; mas não é o defensor que um dia prometia ser (fracassou em Chelsea e Hamburgo), nem traz segurança. Virgil van Dijk apenas agora começou a ter chances, após começar bem no Southampton, e ainda mostra irregularidades (foi bem contra o Cazaquistão, e péssimo contra a República Tcheca).

Pior: a seleção sub-21 também não mostra gente pronta para assumir imediatamente a titularidade. Em campanha que começou até bem nas eliminatórias para o Europeu da categoria, em 2017, a Jong Oranje tem o zagueiro Wesley Hoedt, ainda aposta na Lazio; o volante Jorrit Hendrix, só agora trazendo confiança no PSV; os atacantes Mimoun Mahi (Groningen) e Ricardo Kishna (Lazio), promissores, mas que cometem falhas semelhantes às de Memphis Depay. E ainda há gente com certa experiência, mas que começa a bordejar a fronteira entre ser "promessa" e "foguete molhado", como o zagueiro Nathan Aké e o volante Tonny Trindade de Vilhena.

Enfim, a transição holandesa segue em dificuldades, com entressafras e decepções. Obviamente, a situação pode mudar daqui a alguns anos. Afinal, tratam-se de novatos. No entanto, o trabalho até ali exigirá paciência, talvez até com a ausência da Copa de 2018. Com uma federação hesitante e confusa, técnicos que apostam num estilo tático antiquado e um vácuo entre os veteranos de ontem e as promessas de hoje (com esparsas decepções no meio), surpresa seria ver imediatamente outra ótima atuação como a da Copa de 2014.


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

As razões do vexame (II): futebol totalmente antiquado

Danny Blind e Guus Hiddink pensaram poder manter o 4-3-3 como esquema na seleção. Pensaram errado (Hans van Tilburg)
Terça-feira, 9 de setembro de 2014. 47 minutos do segundo tempo de República Tcheca x Holanda, pelas eliminatórias da Euro 2016, na Generali Arena de Praga. Cruzamento para a área de defesa da Holanda, e da direita, Daryl Janmaat tenta recuar de cabeça para Jasper Cillessen. A bola quica, engana o goleiro da Oranje, bate na trave, e sobra para Vaclav Pilar fazer 2 a 1 e decretar a vitória tcheca na estreia pela qualificação do torneio europeu.

Terça-feira, 13 de outubro de 2014. 21 minutos do segundo tempo de Holanda x República Tcheca, pelas eliminatórias da Euro 2016, na Amsterdam Arena, Escanteio cobrado para a área de defesa da Holanda. Robin van Persie está postado na direita. Ele nem precisa subir: a bola bate em sua cabeça, e sai direto para o gol de Jeroen Zoet, vendido no lance. É o 3 a 0 da República Tcheca, praticamente liquidando o jogo e decretando que a seleção holandesa não estaria na Euro.

Entre essas duas jogadas semelhantes, há uma ligação: a insegurança e a desorganização defensiva exibida pelos batavos durante todas as partidas da qualificação. Frutos do apego a um 4-3-3 antiquado, lembrança do Futebol Total, mas que não cabe mais nos dias atuais. E que prejudicou decisivamente o que os jogadores mostraram em campo, na campanha fracassada por um lugar no torneio a ser disputado na França.

A bem da verdade, defesa nunca foi o forte da seleção holandesa. São poucos os zagueiros do país que se tornaram respeitados mundial e simultaneamente pela habilidade e pela capacidade de marcação: só Ruud Krol, Ronald Koeman, Frank Rijkaard e Frank de Boer. Justamente por isso, o auxílio dos outros jogadores, a sabedoria tática de todos e medidas como a linha de impedimento bem adiantada ajudavam a equipe da Copa de 1974 a se sustentar defensivamente.

O problema é que o tempo passou. Os conceitos de "todos atacam e todos defendem" e "o jogador mais próximo ocupa o lugar daquele que saiu para o apoio" já foram deglutidos, digeridos e regurgitados nos 41 anos passados entre 1974 e hoje. Só a Holanda que ainda não percebeu. Ainda segue acreditando no 4-3-3 à moda antiga, com dois pontas velozes e troca de passes constante, para manter a posse de bola.

Não que faltassem tentativas de fazer a Holanda jogar tomando mais cuidados defensivos. O próprio Espreme a Laranja já comentou a mudança, na Euro 2008 - e a sequência, com o trabalho excelente (e polêmico) de Bert van Marwijk. Ainda assim, sua demissão, após a Euro 2012, foi tratada como se a Holanda estivesse expurgando alguém que tentou sufocar suas características naturalmente ofensivas. E a chegada de Louis van Gaal visava trazer isso de volta.

Deu certo nas eliminatórias. Mas no último teste sério antes da Copa de 2014, quando já se sabia do grupo dificílimo no mundial, a Oranje enfrentou a França. E foi trucidada: com uma atuação pavorosa da defesa, desprotegida após a lesão de Kevin Strootman, a vitória dos Bleus por 2 a 0 ficou muito pequena para o tamanho da superioridade francesa. Com o definitivo rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho direito, no domingo seguinte, num jogo da Roma, Strootman ficaria fora da Copa. Foi definitivo para Van Gaal, forçado a conter sua preferência por esquemas ofensivos. Ou ele deixava o 4-3-3 de lado, ou a Holanda "cumpriria as expectativas" na Copa: seria superado pelo entrosamento espanhol e pela intensidade chilena.

Van Gaal escolheu o 5-3-2, protegendo a defesa ao máximo. Ron Vlaar seria o líbero, com Bruno Martins Indi e Stefan de Vrij como "stoppers" - e ainda colocou Daryl Janmaat e Daley Blind nas laterais. Com o "muro erguido", ligações diretas para o ataque e Arjen Robben tendo vivido alguns dos melhores momentos de sua carreira (fora a "sorte" das boas atuações imprevistas de Vlaar, Blind e Memphis Depay), a Oranje alcançou um surpreendente e honroso terceiro lugar na Copa.

Ao assumir o comando da seleção após o mundial, Guus Hiddink até elogiou o trabalho de Van Gaal. Mas preferiu escalar o time no bom (menos) e velho (bem mais) 4-3-3. Desprotegeu de novo a defesa. Pior: sob seu comando, a equipe abusava da posse inútil de bola. Tinha a pelota por bem mais tempo nos jogos. Mas de nada adiantava, se raramente havia criação de jogadas e aceleração do ataque com a bola dominada.

Logo Hiddink foi demitido. Mas Danny Blind persistiu no erro. E nas duas partidas que praticamente "definiram" a eliminação holandesa nas eliminatórias da Euro 2016, alguns erros foram repetidos. Contra a Islândia, a insegurança da defesa e a posse de bola estéril; contra a Turquia, a desorganização da linha defensiva, o excessivo espaçamento entre os setores do campo e o individualismo do ataque.

Com a Holanda fora da Euro, muito se tem lido que o futebol holandês acabou. Ele não acabou, claro. Mas o Futebol Total de 1974? Pode nem estar morto, mas que está desatualizado, está. Voltar a defender é preciso.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As razões do vexame (I): (in)decisão na federação

Hesitante e dúbio com relação a técnicos, Van Oostveen também é responsável pelo fracasso da Oranje (Bas Czerwinski/ANP)

Por mais que estivesse fazendo um trabalho razoável à frente da seleção holandesa, Louis van Gaal logo deixou claro: após a Copa de 2014, deixaria a Oranje, por desejar voltar ao futebol de clubes, devido ao fastio de comandar uma seleção, com tudo que isso acarreta (pressões de vários lados, trabalho espaçado demais com os atletas, impossibilidade de treinar constantemente etc.). A partir daí, a KNVB (Koninklijke Nederland Voetbalbond, a federação holandesa) iniciou a procura por um um novo técnico. E agora está claro: este processo, vindo desde o início de 2014, mal conduzido e hesitante, foi uma das principais razões pela ausência da seleção batava na Euro 2016.

Porque o técnico previsto para comandar a seleção holandesa após a Copa não era Danny Blind. A rigor, nem era Guus Hiddink. A princípio, Ronald Koeman era o nome. Tanto por seu histórico como jogador - líbero, titular absoluto da equipe entre 1983 e 1994, 78 jogos e 14 gols, capitão esporádico da Oranje, campeão europeu em 1988, duas Euros e duas Copas no currículo, carreira vitoriosa em clubes, principalmente em PSV e Barcelona... -, como pelo desejo em treinar a seleção. A tal ponto que, no meio de 2013, após uma conversa com Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da federação, Koeman renovou seu contrato por apenas uma temporada, ao contrário do que o clube pretendia. Tudo para ficar livre ao final do mundial, para assumir a Oranje.

Era isso. Até o final de 2013, quando Guus Hiddink deixou o Anzhi, da Rússia. Rumo à saída do futebol, supunha-se, até por suas palavras. Isso até escrever algumas colunas, ao diário "De Telegraaf", comentando que só uma coisa impediria o fim de sua carreira: comandar a seleção holandesa. Paralelamente, o agente de Guus, Cees van Nieuwenhuizen, confirmou: era só a federação se interessar e conversar. Van Oostveen se interessou. Conversou com Hiddink. Em janeiro de 2014, definiu-se. E em fevereiro, anunciou-se: Hiddink seria o técnico até a Euro 2016. Depois, se tornaria o diretor técnico da federação, cedendo o lugar a Danny Blind, já então auxiliar técnico.

Pior: não só Koeman fora deixado de lado sem mais nem menos, mas também foi procurado posteriormente para... ser auxiliar de Hiddink, como já fora na Copa de 1998. Mas naquele torneio, ele havia acabado de deixar os campos. No início de 2014, Koeman já era um técnico, com uma carreira desenvolvida. Era até desrespeitoso tentar fazê-lo de novo um auxiliar. E ele deixou implícita certa mágoa com a falta de clareza e consideração da federação (leia-se Van Oostveen): "Sou capaz de fazer as coisas sozinho. Todos ficariam felizes se Hiddink e Koeman estivessem juntos, mas isso não é uma opção para mim".

Terminado a Copa, Hiddink assumiu o lugar de Van Gaal, com Blind como auxiliar. O que soava como "exemplo de organização e de visão" ocorria apenas por causa do interesse de Hiddink, correspondido por Van Oostveen. Que, além de ter hesitado entre o escolhido e Ronald Koeman, adotou postura dúbia posteriormente. Explica-se: segundo a revista holandesa "Voetbal International",  o preferido do diretor da federação para treinar a Oranje era e sempre foi Danny Blind. A tal ponto dele ter sido escolhido auxiliar para que não aceitasse uma proposta do... Manchester United, que o convidou para acompanhar Louis van Gaal em Old Trafford. Blind reconheceu isso, em entrevista ao diário "Algemeen Dagblad": "Falou-se nisso, mas afastei logo a hipótese. Se você tem ambição, o que pode ser melhor do que treinar a seleção de seu país?". Van Oostveen dava a chance a ele, para depois da Euro.

Aí, foi a vez do trabalho de Hiddink ser minado pouco a pouco. Começou após a derrota por 2 a 0 para a Islândia, em outubro de 2014, quando o sinal de alerta foi aceso: Van Oostveen disse que se reuniria com o técnico para a "avaliação" e para um "plano de desenvolvimento". E Hiddink desmentiu tal plano: "Eu li isso de 'plano de desenvolvimento' aqui e ali, mas não faz parte da minha terminologia".

Aos poucos, não só Hiddink foi errando e fazendo crescer sua parcela de culpa na derrocada holandesa, por fatores como a insistência no 4-3-3 e a falta de detalhismo na preparação do time (a grande qualidade de Van Gaal em sua segunda passagem), mas Van Oostveen também fez pouco para ajudar o trabalho. Já após a vitória contra a Letônia, em junho, Hiddink pensava em antecipar a mudança para diretor técnico, deixando Blind como treinador. Até que veio a gota d'água: em 22 de junho, Van Oostveen contratou como novo técnico da seleção sub-21 Fred Grim. Colega de Danny Blind como jogador, no Ajax campeão dos anos 1990 (Grim era o reserva de Van der Sar no gol). Sem avisar a Hiddink.

Não deu outra: no fim de junho, Guus pediu demissão. E deixou a federação em definitivo, abandonando o plano de ser diretor técnico, desenvolver um plano tático para as seleções holandesas etc. Com uma equipe desorganizada e mal definida taticamente, Blind assumiu às pressas. Só teve tempo de indicar a volta de Marco van Basten à Oranje, desta vez como auxiliar. E nem assim as coisas deram certo, culminando no primeiro vexame: a ausência da Euro 2016.

Pior: Danny Blind e Van Oostveen não dão muitos sinais de reconhecimento do vexame. O "bobo" (apelido derivado de "bondsbonzen", "chefe da federação" - termo holandês equivalente a "cartola" no Brasil) comunicou que o técnico segue; e o próprio Danny relembrou: "Eu aceitei a proposta de auxiliar Hiddink e depois comandar a seleção. Foi o que fiz, e é o que farei". E, de fato, não há nada que indique mudança. Frank Rijkaard deixou a carreira de técnico; Frank de Boer já informou que não será técnico - e de qualquer forma, também está sendo questionado no Ajax; e Ronald Koeman, ainda magoado, anunciou: "Não serei técnico da seleção, nem agora, nem no ano que vem". E Danny Blind provavelmente terá de continuar um trabalho já irremediavelmente manchado. Por causa dos erros de Guus Hiddink. E por causa da hesitação - e pela ambiguidade - de Bert van Oostveen.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Não merecia

Após o vexame, nada a dizer. Só lamentos e promessas (Koen van Weel/ANP)
"Hup Holland!" Assim é um dos gritos mais conhecidos da torcida holandesa para incentivar sua seleção. Depois da rodada passada, com a dependência de uma vitória da Islândia contra a Turquia para chegar à repescagem das eliminatórias da Euro 2016, o grito foi alterado: "Hup Ijsland!". Lógico, um alento aos islandeses, para que se esforçassem no jogo de Konya. Mas, depois do final da história, impossível não pensar em como isso conotava também uma falta de confiança profunda na própria seleção. Desconfiança "justificada" pelo que se viu nesta terça: o 3 a 2 da República Tcheca, em plena Amsterdam Arena, que consumou o vexame temido. A ausência da Oranje de mais um torneio grande, 14 anos após a Copa de 2002.

Curiosamente, o início da partida até deu razões para otimismo. Afinal de contas, os primeiros cinco minutos mostraram um volume ofensivo promissor da equipe. Novamente aparecendo com destaque, El Ghazi tentou fazer as jogadas tradicionais pela direita, Memphis Depay também começava com algo pela esquerda; enfim, pelo menos motivação não faltaria. Aí... aí entrou a exemplificação do que um time calmo e bem treinado pode fazer. A Holanda tentou repetir o que fizera contra o Cazaquistão (4-3-3, convertendo-se em 4-1-4-1, com Blind jogando à frente da defesa). Só que a República Tcheca não era o Cazaquistão: jogando num 4-5-1, a equipe visitante conseguia manter linhas de meio-campo e defesa próximas o suficiente para que a defesa sempre ficasse povoada, minorando gradualmente a pressão holandesa.

E se tinha somente Tomas Necid como atacante "de ofício", a seleção tcheca aos poucos se aproveitou do entrosamento deficiente da defesa laranja para começar a trazer mais perigo, graças ao avanço organizado de quem podia apoiar. Já a linha de quatro defensores, sob pressão, já não mostrava tanta segurança como contra os cazaques. Além disso, Riedewald e Tete deixaram espaços pelas laterais. E foi pela direita que Pavel Kaderábek avançou livre para fazer o primeiro gol, dando o sinal do desastre final. Mais do que isso: foi após uma cobrança de lateral, pela esquerda, que Josef Sural entrou como quis na área holandesa, passou entre Jeffrey Bruma e Virgil van Dijk e chutou por baixo do goleiro Zoet. Sem que Jaïro Riedewald estivesse perto para evitar.

Era o golpe fatal. Não importava a entrada de Robin van Persie, novamente saindo da reserva, colocando o time num 4-4-2, com Daley Blind preenchendo a lacuna do substituído Riedewald na lateral esquerda, enquanto Van Persie e Huntelaar serviam de referências na frente. Nem importava a expulsão de Marek Suchy, no final do primeiro tempo. Porque o desânimo já tinha se apossado de jogadores e torcida, que sequer vaiou ao fim do primeiro tempo.

E se houvesse alguma dúvida, ainda, o acidental gol contra de Van Persie só dava ares mais desalentadoras ao drama holandês. Aí a tática foi mandada às favas: as entradas de Bas Dost e Jeremain Lens colocaram a Oranje num 3-3-4. Até que o esforço deu resultado, com os dois gols que diminuíram a vantagem tcheca. Ainda assim, o gol da Turquia tirou qualquer resquício de ilusão que um milagre pudesse acontecer. E, a bem da verdade, a Holanda nem merecia, pela campanha preguiçosa e desorganizada nas eliminatórias da Euro.

O pós-jogo foi o que se suspeitava. Dos jogadores, desolação: Sneijder lamentou e prometeu ("Nós sofremos os gols muito facilmente, após o 3 a 0 estava tudo acabado. Mas ainda estou bem e não penso em parar"). Daley Blind falou em união ("Naturalmente, estou triste e penso no técnico também como meu pai, mas o grupo está totalmente do lado dele"). Klaas-Jan Huntelaar foi mais realista ("Se você não se classifica após dez jogos, isso é uma questão de qualidade. Não ganhamos nenhum jogo contra as equipes classificadas").

A reação da torcida e da imprensa era de desânimo ou de raiva. A mídia foi lacônica: "Oranje perde Euro após novo revés", no "AD Sportwereld", caderno de esportes do diário "Algemeen Dagblad"; "Holanda empobrecida perde e está fora da Euro", noticiou o site da NOS, a emissora pública de tevê; "A desolada Holanda perde a Euro", informou a revista "Voetbal International"; "Holanda naufraga e está fora da Euro", no jornal "De Telegraaf", o maior do país. Na torcida, as cornetas sopraram justa e fortemente: chegou-se a dizer que Bruma e Van Dijk era "a pior zaga da história da seleção", no Twitter. Mas a repercussão mais doída veio não da Holanda, mas da Inglaterra. Mais precisamente, o ex-jogador Gary Lineker, hoje respeitado comentarista: "Good heavens, Holland have turned into Andorra" ("Meu deus, a Holanda se transformou em Andorra").

Enquanto isso, Danny Blind desconversava sobre erros: "Não vou dizer que as coisas mudarão, agora é hora de ver onde erramos. (...) A única coisa que devemos fazer é olhar para frente. Eu aceitei trabalhar junto de Hiddink e depois ocupar seu cargo. Aceitei antes, e seguirei agora". Dono das decisões e cada vez mais sob pressão, o diretor de futebol profissional da federação holandesa, aberta van Oostveen, também confirmou: "Sempre houve pressão sobre o diretor, e ela agora será mais forte do que nunca. Entendo muito bem a tristeza de todos. Mas nós continuaremos, Danny e eu. Vamos construir o projeto para a Copa de 2018".

Será necessário muito cuidado nesse projeto. Afinal, o da Euro deu espetacularmente errado. E se errar é humano, persistir no erro... a Confederação Brasileira de Futebol já mostrou o que acontece nesse caso.

sábado, 10 de outubro de 2015

Por um fio

A boa estreia de El Ghazi e os gols de Wijnaldum e Sneijder ajudaram a tensa Holanda (ANP/Pro Shots)
A seleção da Holanda já tinha sérios problemas com lesões, suspensões... enfim, tinha sérios problemas com desfalques para enfrentar o Cazaquistão, na primeira das duas partidas fundamentais pelas últimas rodadas das eliminatórias da Euro 2016. E por mais que não fosse personagem fundamental na equipe, Jasper Cillessen foi mais um acréscimo à lista, ao lesionar as costas no aquecimento imediatamente anterior ao jogo na Astana Arena, dando forçosamente lugar entre os titulares a Tim Krul. Mais um revés num jogo já cercado de tensão - por mais que fosse contra o último colocado do grupo A da qualificação.

E essa tensão perturbou visivelmente a seleção holandesa. Não que estivesse sendo sufocada pelos cazaques. Nem que o péssimo gramado da Astana Arena atrapalhasse demais. Era melhor em campo: no 4-3-3 inicial (que mais pareceu um 4-1-4-1 ao longo do jogo), a proximidade entre os jogadores era bem mais notória do que contra Islândia e Turquia. Além disso, sempre que possível, as jogadas de ataque eram aceleradas. Na defesa, embora a saída de bola tivesse sobressaltos, Daley Blind fazia muito bem o papel de proteção à zaga. Porém, o Cazaquistão teve mais posse de bola no início do jogo. Estava mais animado. E isso fazia com que tivesse mais volume de jogo no ataque, no 5-4-1, com bons inícios de Bauryzhan Islamkhan e Ilam Konysbaev. Além disso, a defesa compactada dos anfitriões revelavam que segue o problema holandês de não conseguir se sobressair contra defesas fechadas.

Por isso, mesmo que se vissem bons pontos (como a estreia agradavelmente segura de Kenny Tete e, principalmente, Anwar El Ghazi, que foi constante opção pela direita), a equipe parecia tensa em campo. Não fazia fluir sua superioridade técnica - clara, embora não fosse categórica. Era preciso aproveitar pelo menos uma jogada de ataque para abrir o placar e tranquilizar o jogo. A primeira foi perdida, em chance valiosa que Memphis Depay chutou para fora. A segunda deu certo, no rápido passe de El Ghazi para Georginio Wijnaldum (atuação satisfatória), que chutou rasteiro para abrir o placar. A comemoração de "Gini", com o abraço coletivo, mostrou a importância daquele gol.

Aí, o ânimo cazaque baixou definitivamente. E a Oranje pôs em prática sua superioridade tática. Na defesa, além do auxílio de Blind, Jeffrey Bruma e o estreante Virgil van Dijk cuidavam das coisas para não correrem riscos desnecessários; no meio-campo, Wijnaldum era quem mais atacava, além de El Ghazi sempre procurar jogo e ter espaço para suas tentativas. Quem pecava eram Memphis Depay, individualista em excesso; Wesley Sneijder, que não ia mal, mas não comandava o jogo como se espera; e Klaas-Jan Huntelaar, atuando mais taticamente do que aparecendo para finalizar.

Ainda assim, a Laranja retomou a maior posse de bola. E valeu-se de nova rápida jogada de ataque para fazer 2 a 0, com Huntelaar servindo de pivô para Sneijder concluir e praticamente encaminhar a vitória dos visitantes. Aí houve o problema: pouco a pouco, relaxada por se saber superior, a Holanda foi permitindo a evolução ofensiva dos cazaques, Tete avançava bem e até continha os ataques por seu setor, mas aos poucos os cruzamentos aumentaram sobre a área holandesa. Mais: em saída de gol, Krul caiu de mau jeito, torceu o joelho e teve de ser substituído por Jeroen Zoet. Enquanto isso, Ibrahim Afellay e Robin van Persie (fazendo seu 100º jogo pela seleção) entravam para servirem de referência no time.

Por fim, veio o gol de honra de Islambek Kuat. A vitória holandesa já estava garantida, o jogo já estava nos acréscimos (precisamente no quarto dos cinco minutos dados pelo árbitro francês Clément Turpin), mas o gol foi um último aviso de que a seleção precisa cuidar de sua defesa. Pior: Danny Blind já sabia que teria de fazer novas convocações, com a lesão de Krul e Tete como único lateral direito, e chamou Kenneth Vermeer e Gregory van der Wiel (já com a suspensão cumprida). O capitão Sneijder reconheceu que houve certa sorte ("Foi sorte o juiz ter apitado o final logo depois do 2 a 1") e alertou que sua presença contra a República Tcheca não é certa ("Se o trabalho de parto [da esposa Yolanthe] começar, eu deixo a delegação"). 

De todo modo, embora tenha vencido, sabe-se que a Oranje nada mais fez do que cumprir a obrigação de superar o lanterna Cazaquistão. E a República Tcheca, jogando com um time misto, foi superada por uma Turquia que vê seus destaques (Selçuk Inan, Hakan Çalhanoglu e, principalmente, Arda Turan) crescerem na hora certa. Agora, a única alternativa para o time laranja é vencer os tchecos, na Amsterdam Arena, e torcer pelos islandeses, que enfrentam os turcos, em Konya. Tornou-se ainda mais difícil. A seleção holandesa está por um fio. Para muita gente na torcida e na imprensa, nem adianta mais esperar que o vexame seja evitado.

Como em 2003: em desespero, Oranje aposta nos jovens

Promessa em 2003, Sneijder agora lidera jovens holandeses na última cartada por vaga na Euro (VI Images)
19 de novembro de 2003. Na repescagem das eliminatórias para a Euro 2004, jogando contra a Escócia por uma das últimas vagas no torneio continental, a seleção da Holanda chega para a partida decisiva em sérias dificuldades: perdeu o jogo de ida em Glasgow, por 1 a 0, e o técnico Dick Advocaat está sob uma torrente de críticas, que pedem por um jogo mais ofensivo.

Advocaat decide apostar alto: escala a seleção num 3-4-3, colocando pela primeira vez como titular um meio-campista promissor: Wesley Sneijder, 19 anos, em sua terceira partida na Laranja. O resultado? 6 a 0, com Sneijder como grande destaque: abriu o placar e deu quatro passes para outros gols. Ali o jovem mostrava: poderia marcar época na história da seleção holandesa.

O tempo passou. Hoje, 9 de outubro de 2015, Sneijder se estabeleceu há muito tempo como um dos melhores jogadores holandeses de futebol em todos os tempos. Tem 117 jogos pela Oranje, número só inferior aos 130 jogos de Edwin van der Sar. E se era a aposta em 2003, agora o meio-campista será um dos líderes de uma Oranje que teve de se renovar, à força, para as duas últimas partidas nas eliminatórias da Euro 2016.

Partidas que são duas “decisões”, contra Cazaquistão, neste sábado, e República Tcheca, na próxima terça. Atrás da Turquia no grupo A, a Holanda não pode mais tropeçar – e espera que os turcos falhem. Ou seis pontos mais um mau resultado dos turcos (contra os tchecos ou contra a Islândia) para ir à repescagem, ou o vexame da ausência na Euro será real.

Está certo que, originalmente, nem era a intenção de Danny Blind apostar tanto em garotos para conseguir o que a imprensa do país chama de “Houdini-act” – um milagre, uma mágica, algo digno de Houdini. Mas as circunstâncias forçaram-no a isso. A começar pela defesa. Van der Wiel e Martins Indi estão suspensos, e De Vrij lesionou o joelho. Resultado: Blind repetiu a aposta em Jaïro Riedewald, do Ajax; promoveu o retorno de Karim Rekik (agora está no Olympique de Marselha, mas poderia repetir dupla com Jeffrey Bruma, parceiro no PSV); deu nova chance a Virgil van Dijk, pedido há muito na Oranje e começando bem no Southampton; e chamou para a lateral direita Kenny Tete, 19 anos, do Ajax.

Na entrevista coletiva que deu na segunda-feira passada, Blind reconheceu as poucas opções defensivas, mas voltou a criticar Van der Wiel e Martins Indi, negando-se a chamá-los apenas para o jogo contra a República Tcheca: “Eles não foram convocados porque estão suspensos. Mas não se pode dizer que eles não falharam nas partidas anteriores. Principalmente Martins Indi, mas também Van der Wiel, que errou no pênalti [contra a Islândia]. E a diferença para os outros jogadores não é tão grande a ponto de eu convocá-los só para jogarem a segunda partida”.

Mas desgraça pouca era bobagem: Daryl Janmaat, o substituto de Van der Wiel e titular quase certo, chegou à concentração em Hoenderloo com problemas no joelho. Resultado: foi cortado na terça-feira. O técnico até informou que ligou para Van der Wiel e pediu “que ficasse alerta”, mas é altamente provável que Tete será jogado aos leões contra o Cazaquistão. Até que o lateral está motivado (“Jogar por meu país é um grande sonho. As condições estão difíceis, mas darei tudo o que puder se eu jogar”), mas é de se pensar o impacto que as ausências terão na já frágil defesa da Oranje.

E como uma praga, as ausências se espalharam por outros setores. No meio-campo, Davy Klaassen saiu do clássico entre Ajax e PSV com uma leve concussão. Mais um corte, com outro novato como substituto: o volante Riechedly Bazoer, 18 anos (faz 19 na próxima segunda), companheiro de Klaassen no Ajax. Pior: até Sneijder pode se ausentar. Sua esposa, Yolanthe, espera o nascimento do primeiro filho do casal para qualquer momento. E o camisa 10 já anunciou: caso o bebê venha durante a semana de jogos, larga a seleção para acompanhar o novo rebento.

No ataque, o novato nem chegou por uma convocação de última hora, mas por merecimento: decidido a jogar pela seleção holandesa adulta (não sem um “empurrão” da opinião alheia, é verdade), Anwar El Ghazi mereceu sua primeira convocação, como um dos melhores jogadores do Campeonato Holandês atual. O que não significa que as lesões deixaram em paz os atacantes. Outro destaque da Eredivisie, Luuk de Jong, lesionou o tornozelo há duas semanas e perdeu uma chamada quase certa.

Outro atacante cortado foi Quincy Promes, que poderia ser usado pela ponta esquerda, mas também se machucou defendendo o Dynamo Moscou. Seu substituto, por sinal, foi uma surpresa: bastou um começo relativamente bom pelo Feyenoord para Eljero Elia voltar à Oranje, após três anos de ausência. Elia, claro, comemorou: “Foi por isso que voltei ao futebol holandês”.Mas nem mesmo todas essas adversidades tiraram Danny Blind da mira das críticas. Por duas razões. A primeira, frequência demasiada de jogadores do Ajax na convocação (além de Tete, Riedewald, Bazoer e El Ghazi, Cillessen está na lista), o que talvez indique certa parcialidade do técnico, que atuou pelos Amsterdammers dentro e fora de campo. Além de ser inegável exagero, para um time cujas atuações têm sido medianas. Claro, Blind negou: “Acho que isso é besteira, eu não me importo com o time em que jogam”.

Outra razão para reclamações é a insistência do treinador no 4-3-3, considerado uma das razões para a derrota contra a Turquia, pela desorganização extrema da defesa e pelo excesso de espaço entre os setores do time. Blind foi definitivo: “Vamos jogar no 4-3-3. Se nos classificarmos para a Euro, aí se olha para as outras possibilidades dentro do elenco que permitam outro sistema. Mas ainda há equipes que jogam com três atacantes. São melhores do que nós, mas eu acho que somos melhores do que o Cazaquistão”.

Se era apenas uma promessa naquela repescagem em 2003, Sneijder agora é o veterano que ditará os rumos, junto de Van Persie. E suas declarações são otimistas: “Espero que tenhamos outro final feliz”.  De fato, deu certo há 12 anos. Assim como já deu certo depender de uma vitória da República Tcheca, na fase de grupos da Euro 2004 (fato mencionado no fim deste texto aqui).

Mas agora é outra história, com outro time, em circunstâncias mais difíceis. Além disso, o Cazaquistão trouxe sérias dificuldades ao ser enfrentado em Amsterdã (a derrota por 3 a 1 só veio após os cazaques ficarem com dez). Sem  contar o gramado artificial da Astana Arena, com que a Oranje está desacostumada. Se der certo, e a Turquia “colaborar”, a Holanda segue em busca da Euro. Caso contrário, pelo menos as novas caras já começarão a aparecer. Seja como for, a última cartada foi dada. A partir deste sábado, a sorte está lançada.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 9 de outubro de 2015)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Agora não houve desculpas

A desilusão de Jeffrey Bruma reflete bem a desilusão da Oranje: ausência da Euro é bem provável (VI Images)

15 de outubro de 2013. Já classificada para a Copa do Mundo, a Holanda ainda tinha um desafio em sua última partida pelas eliminatórias: enfrentar a Turquia, em Istambul, com o adversário sedento pela última chance de ganhar a segunda posição do grupo D, disputada com Hungria e Romênia. Pois bem: naquela que foi a primeira partida de Memphis Depay pela Oranje, a equipe não tomou conhecimento da pressão, e fez tranquilos 2 a 0 nos turcos, acabando com as esperanças de chegarem à Copa. Atuação segura a ponto de merecer aplausos da fervilhante torcida turca ao fim dos 90 minutos.

Um ano, dez meses e 21 dias depois, o cenário é bem diferente. A Holanda enfrentou a Turquia, pelas eliminatórias da Euro 2016. Não mais em Istambul, mas em Konya. E a equipe que levou o jogo como bem quis foi a anfitriã, não mais a Oranje. Algo estampado nos categóricos 3 a 0 do placar, que trouxe o cenário que tanto a torcida temia: cair para a quarta posição do grupo A da qualificação, dois pontos atrás dos turcos, competidores diretos pela terceira posição que leva à repescagem. Em suma: nunca foi tão grande o perigo da Holanda perder sua primeira competição grande desde a ausência na Copa de 2002. 

E se o destino ainda fora um adversário a mais, pela lesão de Robben e a expulsão de Martins Indi que jogaram a partida de quinta passada nas mãos da agora classificada Islândia, agora não houve desculpas holandesas para a atuação ainda pior que se viu na Torku Arena. Danny Blind manteve o 4-3-3 velho de guerra, trouxe Van Persie de volta aos titulares (era necessário), e jogou as fichas na improvisação de Jaïro Riedewald, 18 anos (fará 19 nesta quarta), zagueiro do Ajax, na lateral esquerda.

De nada adiantou. Os mesmos defeitos que são vistos desde a segunda passagem de Guus Hiddink foram repetidos: um time excessivamente espaçado, que permitia a troca de passes entre os turcos - e a fácil marcação dos atacantes. Na parte ofensiva, aliás, as tentativas foram estéreis e repetitivas: apenas esforços de Memphis Depay e Luciano Narsingh pelas pontas, e jogadas nas quais Robin van Persie fazia o pivô para Wesley Sneijder chutar, vindo de trás. Não só o destino era sempre o mesmo (ora a linha de fundo, ora as mãos do goleiro Volkan Babacan), como a atuação apagada de Van Persie e Sneijder faz crer, de fato, que já é hora de pensar a seleção sem suas presenças. E que a geração deles está perto de dizer adeus sem um título. Como tantas outras, de tantos outros craques, no caso laranja.

Na defesa? Novamente, ingenuidades gritantes que facilitaram a vida turca. Com a subida da linha de quatro marcadores, o excessivo avanço de De Vrij ao meio-campo abriu o espaço para que Arda Turan (o melhor do jogo, com apenas 55 minutos em campo) lançasse a bola que Oguzhan Özyakup (nascido em Zaandam, e atleta da seleção holandesa sub-17 no mundial da categoria, em 2009) tocou na saída de Cillessen para abrir o placar. O segundo gol, então, foi ainda pior, com mais erros. 1) Van der Wiel cobrou um lateral para Daley Blind, que estava cercado por turcos; 2) Blind estava "na fogueira", mas perdeu a bola facilmente para Arda Turan; 3) A falha de Cillessen, que deixou passar um chute fraco; 4) A inacreditável preocupação de Jeffrey Bruma com um impedimento - que não existe em cobranças de lateral, como se sabe.

No segundo tempo, com a vitória garantida, a Turquia mostrou porque ganhava. Se estava no 4-4-2, isso não impedia de mostrar proximidade entre seus jogadores, envolvendo facilmente a Oranje em sua marcação. Restou a entrada de Luuk de Jong, para o famoso "abafa", que se revelou infrutífero. E o terceiro gol dos turcos, no fim do jogo, só foi a pá de cal numa Holanda ainda mais desalentadora do que fora contra a Islândia. O abatimento era tamanho que Van Persie só conseguiu dizer: "É terrível". O outro veterano, Sneijder, teorizou: "Talvez estejamos numa fase de muito azar". Danny Blind, de novo, atribuiu o revés a falhas individuais ("A Turquia se aproveitou delas").

Torcida e imprensa, atônitos, são catastróficos. O AD Sportwereld, caderno de esportes do diário  Algemeen Dagblad, foi definitivo na manchete desta segunda: "Fracos demais para a Euro". Dentro, a coluna do ex-jogador Willem van Hanegem foi virulenta contra os jogadores: "Na Oranje há alguns jogadores que só se preocupam com eles mesmos. Memphis é um exemplo, com os sapatos bonitos dele, parece Goldfinger. Do jeito que os jogadores se vestem, parecem ir a um jogo amistoso de bodyboarders. (...) A culpa é toda nossa, colocamos os jogadores num pedestal. Memphis toca a bola de calcanhar e o narrador já exagera. (...) Não quero culpar Danny Blind, é fácil demais".

Com tudo isso, incrível é saber que a Holanda ainda pode muito bem chegar à repescagem. Não é nada irreal voltar à terceira posição do grupo, ao vencer o Cazaquistão e ver a República Tcheca superar a Turquia, na próxima rodada. E os tchecos já fizeram isso uma vez, na fase de grupos da Euro 2004. Para ir às quartas de final, a Oranje precisava vencer a Letônia, e também de uma vitória deles, já classificados, contra a Alemanha. Desconfiava-se da motivação do time de Nedvěd, Poborský e cia, que já tinha a vaga assegurada. Mas fez 2 a 1 e despachou os germânicos da Euro, enquanto a Oranje fez 3 a 0 nos letões e foi às quartas.

Pode até acontecer. Mas não depende mais da Holanda. E ela não anda fazendo por merecer tal sorte dentro de campo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O desespero continua


Robben deixa o jogo: a seleção holandesa não resistiu aos dois fatos que a perturbaram, e segue em desespero (VI Images)
“Ísland! Ísland!". A seleção holandesa até compreendera escutar isso na vitória dos islandeses, por 2 a 0, em outubro do ano passado, no turno do grupo A das eliminatórias para a Euro 2016. Mas sabia: em casa, tinha de se esforçar para afastar o som incômodo da torcida adversária, vencer a primeira das "quatro finais" e se aproximar da classificação para o torneio continental de seleções. Só que o destino, e as decisões erradas a partir das peças que ele pregou, deixaram a Holanda novamente em apuros. E em situação pior do que antes: se a derrota em Reykjavik ainda tinha como ser revertida com resultados posteriores, agora a Oranje só tem a vaga na repescagem como objetivo possível. Pior: praticamente a decidirá com a Turquia, no confronto direto do próximo domingo.

Curiosamente, o temor de um novo vexame era pequeno, na primeira parte do jogo em Amsterdã. O time treinado por Danny Blind não jogava bem, é verdade. Se estivesse melhor, o 4-3-3 mantido pelo técnico não seguiria deixando desprotegida a insegura defesa. Prova disso foi o gol perdido por Jón Dadi Bödvarsson, logo aos três minutos de jogo: ele só recebeu a bola escorada porque Daley Blind, atrasado na linha de quatro defensores, deu condições para que Johann Berg Gudmundsson desviasse. Fosse como fosse, aos poucos a posse de bola tornou-se majoritariamente holandesa (chegaram a ser 70%), a defesa se recompôs, Depay e Robben criaram algumas chances, o ataque participava de jogadas coletivas... enfim, parecia tudo sob controle.

Mas a tentativa de levar o jogo pragmaticamente foi destruída em oito minutos. Primeiro, aos 26, com a lesão na virilha sofrida pelo capitão Arjen Robben, que forçou a troca dele por Luciano Narsingh. Não bastasse a liderança natural que o fizera dono da braçadeira, os arremates do camisa 11 vinham sendo perigosos, como sempre. Só restou a ele lamentar: "Os especialistas dirão agora que eu não estava bem, mas eu me sentia totalmente em forma. Num curto período de tempo, eu havia chegado duas vezes à grande área. Mas na segunda, algo se distendeu nas minhas costas. Daí foi para a virilha, e eu tive de sair. Para mim, ficou claro que eu não poderia continuar. Não dá para acreditar...”. 

Depois, aos 33 minutos, veio a expulsão de Bruno Martins Indi. Justamente o defensor holandês que mais estava seguro, sem errar tantos botes como Stefan de Vrij (que, aliás, já até tomara o cartão amarelo). Porém, a ingenuidade do quarto-zagueiro foi imperdoável. Está certo que a decisão do árbitro Milorad Mazic em dar o vermelho é até polêmica, já que Kolbeinn Sigthórsson também veio forte na disputa de corpo. Ainda assim, o zagueiro holandês se arriscou demais ao dar uma cotovelada que podia ser (e foi) interpretada como agressão. E a imprudência foi criticadíssima por Robben (“Como capitão, eu devo proteger meus jogadores. Mas não tenho mais nada a fazer além de dizer que [a cotovelada] foi estúpida. Ele deixou o time na mão, e condeno isso”) e Danny Blind (“Ele estava razoavelmente bem no jogo, não havia razão nenhuma para fazer aquilo”).

Os dois acontecimentos fortuitos haviam jogado a Holanda num cenário temível. E Blind, o técnico, não colaborou muito para melhorar a situação, ao tomar uma decisão criticada até agora na Holanda. Tendo de remontar a defesa, precisou queimar a segunda alteração, colocando Jeffrey Bruma no miolo de zaga. Até compreensível. Só que o substituído foi... Klaas-Jan Huntelaar, que seria a única referência de ataque da seleção a partir dali. Foi a senha para trazer a seleção da Islândia mais e mais perto da defesa holandesa, permitindo os contragolpes, principal qualidade da equipe de Lars Lagerbäck e Heimir Hallgrímsson. Ainda assim, o treinador defendeu a substituição (“Não me arrependo, eu precisava tornar o time defensivo”.

Se a saída precoce de Robben e a expulsão de Martins Indi haviam sido lances fortuitos, a evolução até o gol foi mérito claro da Islândia. O time manteve a compactação admirável de seu esquema tático: sem a bola, as linhas do 4-4-2 eram visíveis e próximas uma da outra, impedindo a Oranje de chegar ao gol de Hannes Thor Halldórsson por outras maneiras que não chutes de fora da área e inversões de jogo.

Mas o mérito realmente decisivo para a vitória islandesa foi ter calma e saber esperar o momento certo de mais um erro holandês. Mesmo com um 4-2-3 torto, em que Memphis Depay jogava forçosamente na área, a defesa continuava insegura e aberta. O que forçou o exagero de Gregory van der Wiel, arriscando o carrinho em Birkir Bjarnason em que foi marcado o pênalti. Outro ato desesperado que mereceu críticas de Danny Blind (“Ele é experiente o suficiente para saber que você precisa ficar em pé ali. Não dá para dar carrinho naquela situação, é o primeiro ensinamento”). Gylfi Sigurdsson converteu, como já convertera outro penal nos 2 a 0 em Reykjavik. E o azar de Cillessen seguiu: 26 pênaltis contra ele, 25 convertidos. Está certo que, com Cillessen no gol, o Jablonec até perdeu um pênalti contra o Ajax, nos play-offs da Liga Europa. Mas a bola foi na trave. Ou seja, o arqueiro nativo de Groesbeek continua sem defender penais, na prática... 

Depois, restaram as tentativas esparsas e até valorosas, com Memphis Depay, Narsingh e Sneijder. Mas todas indo nas mãos de Hannes Thór Halldórsson. Isso, sem que Blind arriscasse trazer uma referência de ataque de volta, colocando Van Persie ou até Luuk de Jong em campo. Luuk, aliás, poderia levar a uma reedição do trio de ataque tão exitoso na temporada passada, jogando pelo PSV. Todavia, somente em jogadas individuais pelas pontas e chutes de fora a Islândia sofria. 

E veio a derrota. Primeira da Oranje em partidas de eliminatórias em casa desde o 2 a 0 de Portugal, na qualificação para a Copa de 2002. Segundo revés doméstico na história da equipe em eliminatórias para a Eurocopa – a primeira derrota fora num longínquo 30 de novembro de 1963, 2 a 1 para Luxemburgo, em De Kuip. Ainda assim, pelo gol de Valerijs Sabala, que manteve Turquia e Letônia no empate por 1 a 1, a Holanda seguiu na terceira posição do grupo A. Ou seja: por mais que esteja justificando eventual ausência da Euro 2016, a Oranje ainda depende de suas próprias forças. Só que, agora, terá de enfrentar uma pressão incrível dos turcos, no jogo em Konya, na nova Torku Arena - mudança de sede criticada, aliás ("muito longe, muito cara, muito escondida", comentou o chefe da associação de torcedores da seleção, Theo Ponk, ao diário "Algemeen Dagblad").

Mas restou isso à Holanda. Como a própria torcida gritou na parte final do jogo desastroso desta quinta, é tudo ou nada. Veteranos (Van Persie jogará?) e novatos terão de mostrar valentia, calma e talento para tentar salvar a via-crucis, assegurando ao menos o terceiro lugar que leva à repescagem (“Primeiro e segundo lugares não são mais alcançáveis”, reconheceu Blind). Ou então, é esperar pelo desastre supremo: ficar fora de um grande torneio, pela primeira vez desde 2002. O desespero continua. Sonorizado pelo grito das torcidas adversárias: se os turcos já haviam encoberto os holandeses no empate em 1 a 1, em março, na mesma Amsterdam Arena, agora o pesadelo tem os gritos de "Ísland, Ísland...".

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A hora da verdade

Em seu primeiro desafio como técnico da Oranje, Danny Blind tem um objetivo claro: vaga na Eurocopa (Ons Oranje)
Quando confirmou-se que Danny Blind estava promovido ao cargo de técnico da seleção holandesa, em 1º de julho, a primeira frase do novo comandante da Oranje foi clara e cristalina: "Eu trabalharei duro com a comissão e os jogadores para que consigamos a vaga para a Euro, no ano que vem. É minha única meta, chegar à Euro. Não olho para trás e nem fico pensando num futuro posterior, só chegar à Euro é que conta".

E agora, enfim, chegou a hora de Blind mostrar o que pode fazer, no maior desafio de sua curtíssima carreira como técnico. Mais do que isso: chegou a hora da própria seleção holandesa cumprir a sua obrigação, solucionando uma campanha problemática nas eliminatórias do torneio continental de seleções. E se chegar à Euro é tudo o que conta, para evitar o aborrecimento de uma repescagem só resta a alternativa de vitórias contra Islândia (na próxima quinta, em Amsterdã) e Turquia (no próximo domingo, em Konya).

Para isso, o espírito de "ou vai ou racha" desejado pelo novo-velho treinador - o "velho" vai por conta de estar desde 2012 na comissão técnica da seleção - foi encampado por todos os 23 jogadores convocados, que treinam desde a segunda passada. Talvez o símbolo disso venha com o principal deles: Arjen Robben, tornado o novo capitão da Oranje. Já antes de ser oficializado como o novo dono da braçadeira, Robben pediu dedicação aos colegas, em entrevista à revista Voetbal International: "Temos uma desvantagem de cinco pontos para a Islândia. Precisamos jogar contra ela com a faca nos dentes. Entrar para matar. Mostrar desde o primeiro segundo que não temos nada a perder".

E é justo que o atacante tenha tomado de Van Persie a capitania da equipe. Afinal de contas, enquanto Robin tem vivido uma fase mais apagada na carreira, Arjen demonstra vitalidade em campo, sempre que as lesões permitem (e elas são cada vez menos frequentes, diga-se de passagem). Já na Copa de 2014, Robben ocupava a liderança da equipe, de certa forma, pelo modo como se impunha com sua técnica e sua velocidade. Além disso, sempre expunha vibração em campo. Exemplo disso se viu antes da decisão por pênaltis contra a Costa Rica, no Mundial, quando foi o cidadão a animar o elenco antes das cobranças. 

E foi exatamente por essa última característica que Blind escolheu trocar de capitão. Em entrevista coletiva, explicou a mudança: "Não escolhi [o capitão] com base nas qualidades futebolísticas. Na liderança e na orientação aos colegas, Robben e Van Persie se equivalem. Mas são duas personalidades diferentes. E eu escolhi um capitão que esteja presente de modo mais forte em campo". Pelo visto, Van Persie (ainda vice-capitão) entendeu bem a escolha: "Eu sempre disse que Robben, eu e os outros veteranos fazemos isso juntos, então também fico orgulhoso de ser o vice-capitão".

Na parte da convocação, poucas surpresas foram vistas. As maiores delas foram o lateral direito Kenny Tete, 19 anos, que ocupa a titularidade no Ajax, e Jaïro Riedewald, de 18 anos, zagueiro, também no Ajax, que está se saindo bem ao ocupar a vaga deixada por Niklas Moisander. Embora dificilmente ambos sejam titulares (Van der Wiel e Martins Indi são bem mais experientes, mesmo questionados), Blind aproveitou a convocação para alertar gente que ficou de fora, como Daryl Janmaat e Nigel de Jong: "Eu vejo vinte jogos por fim de semana, e semanalmente vejo gente experiente cometendo falhas. Você pode ter experiência, mas não pode deixar a pressão lhe vencer". Com o volante, o treinador foi até mais longe: "Talvez eu precisasse dele só para o jogo contra a Turquia, fora de casa, mas aí seria só o caso de evitar sofrer gols. Outros podem fazer isso melhor".

Ainda assim, fica o mistério: como Blind escalará a equipe? O 4-3-3 que será mantido terá condições de evitar o contra-ataque, arma principal dos islandeses na vitória por 2 a 0 em Reykjavik, ano passado? Supondo que Robben e Depay são presença certa no time, quem ocupará o lugar central no ataque: Van Persie, Luuk de Jong ou Huntelaar? Blind "filho" jogará na lateral esquerda ou no meio? Blind pai não respondeu a nada disso.

O importante, na verdade, será corrigir a lentidão da equipe na recomposição da defesa para o ataque (grande erro cometido sob Hiddink). Achar espaços no ataque e mostrar velocidade para fazer os gols e vencer as "quatro finais" que ainda restam nas eliminatórias da Euro 2016. Para isso, antes de tudo, são necessários o foco que Blind pediu - e a vontade que Robben representa.