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sábado, 1 de outubro de 2016

Entrevista: Eric Botteghin

Não faltam razões para Eric Botteghin comemorar na atual temporada (ANP/Pro Shots)

Difícil dizer qual tem sido o melhor ponto do Feyenoord neste bom início de temporada do clube holandês. O meio-campo, com a velocidade de Karim El Ahmadi e Tonny Vilhena - e a liderança costumeira de Dirk Kuyt? O ataque, em que Jens Toornstra se responsabiliza pelos passes para os gols de Nicolai Jorgensen, enquanto Steven Berghuis aparece bem na esquerda (como Eljero Elia já aparecia)? E na defesa? Há a segurança do goleiro Brad Jones, e o entrosamento da linha de quatro defensores. 

No miolo dessa zaga, há um personagem cada vez mais querido da torcida do Stadionclub. Há um ano e dois meses em Roterdã, o zagueiro brasileiro Eric Botteghin vive possivelmente a melhor fase de uma carreira com um longo capítulo holandês. Há nove anos no país - após passagens pelas categorias de base de Internacional e Grêmio Barueri, o zagueiro transferiu-se para o Zwolle em 2007 -, Botteghin segue com uma clara evolução: passou bem por NAC Breda e Groningen, e estabeleceu-se como titular absoluto em Roterdã. Apenas uma lesão, em meados da temporada passada, o tirou dos jogos.

Recuperado, Eric voltou. Participou da recuperação do Feyenoord rumo ao terceiro lugar na Eredivisie passada - e principalmente, do título na Copa da Holanda, primeira conquista do clube desde 2007/08. Na atual temporada, desnecessário descrever a satisfação da torcida e dos jogadores com o ótimo começo na Eredivisie e na Copa da Holanda - e a confiança que segue na Liga Europa, mesmo com a derrota para o Fenerbahçe. O camisa 33 tornou-se até um personagem de destaque, ao marcar o gol da vitória no clássico contra o PSV, pela sexta rodada. Até por isso, Eric Fernando Botteghin, paulistano de 29 anos, exala confiança na entrevista exclusiva cedida ao Espreme a Laranja. Confira.

Sete vitórias nos primeiros sete jogos pela Eredivisie, algo que o Feyenoord não conseguia desde 1993; classificação na Copa da Holanda; um começo promissor na Europa League; um gol seu definindo a vitória no importante clássico contra o PSV. Podia estar melhor? (risos) Falando sério: esse ótimo início de temporada tem animado os trabalhos do Feyenoord? Qual o principal mérito da equipe, neste momento, em sua opinião?

É verdade, acho que não poderia ser melhor (risos). Acho que por termos mantido praticamente o mesmo time da temporada passada, só com algumas contratações mais pontuais, se nota o entrosamento e o porquê de já estarmos bem logo no começo da temporada. Com certeza, deu ânimo e confiança também para uma temporada promissora.  

A reação da temporada passada, quando o time ficou invicto por onze partidas na Eredivisie (chegando ao terceiro lugar) e ainda ganhou a Copa da Holanda, já serviu para animar mais o ambiente rumo aos campeonatos atuais?

Esse foi um fator importante também para essa temporada, pois resgatamos a nossa força e ganhamos um título. Isso deixou um gostinho de que podemos mais.

Com os maus resultados numa parte da temporada passada, chegou a haver alguma conversa especial entre o elenco, ou mesmo do técnico com os jogadores, durante a recente pré-temporada feita na Áustria?

Sim, tivemos muitas conversas com a comissão técnica e com nosso grupo. Queríamos sair dessa situação o mais rápido possível.

Você tem sido (sempre foi, aliás) muito elogiado pelas atuações e pelo profissionalismo. Numa reportagem de jornal, um colega seu de Feyenoord (Rick Karsdorp) até comentou que você é querido no grupo, faz brincadeiras etc. É uma preocupação sua manter essa boa imagem ou é algo natural?

Algo natural. Procuro ser eu mesmo, me dou bem com todos e procuro ser o mais profissional possível. Quando acabar minha carreira, quero olhar para trás e ver que fiz tudo o que pude para tirar ainda mais do meu futebol.

Falemos mais de futebol. Na temporada passada, dentro do time, a defesa teve várias formações. Ao longo dos torneios, você dividiu a zaga com Van der Heijden, Kongolo ou Van Beek. Agora, a escalação é mais estável: em geral, você fica junto de Van der Heijden no miolo, enquanto Kongolo joga na esquerda, ou atua com o próprio Kongolo a seu lado. Isso tem facilitado a rapidez do entrosamento entre vocês? Afinal, o Feyenoord só tomou dois gols na liga...

Cada vez que jogamos mais juntos nos entrosamos, independente de quem joga. Já se nota a confiança que temos um no outro, mas o fato de termos tomado apenas dois gols mostra a boa fase do time e a maneira que todos tem se dedicado na marcação também.

Tanto nos treinos quanto nos jogos, você e os colegas de zaga conversam bastante, se alertam? Ou isso é mais espontâneo, vai aos poucos, de jogo em jogo? Como você descreveria o estilo de jogo de Kongolo e Van der Heijden?

Com certeza, acho que uma das principais características de um zagueiro é a comunicação, tem que partir de nós lá atrás, e manter todos ligados no jogo. São dois grandes jogadores, o Van der Heijden com mais experiência e o Kongolo como um dos grandes talentos do Feyenoord.

O Feyenoord tem um ídolo em campo: Dirk Kuyt, capitão do time. E um ídolo no banco: o técnico, Van Bronckhorst. Qual a importância deles, na sua opinião? Eles ajudam na relação do grupo com a torcida, que os admira tanto?

Ajudam e muito, não só com a torcida, mas também na relação do grupo. Todos tem um respeito muito grande por eles. 

Depois da vitória sobre o Manchester United, as expectativas sobre o Feyenoord cresceram muito. Como o time trabalha para segurar isso?

Na realidade, sempre tem uma grande expectativa aqui no Feyenoord, e já estamos acostumados com isso. Então, o trabalho continua o mesmo. Sabemos que temos que jogar sempre em alto nível todos os jogos, independentemente do adversário.

São nove anos jogando na Holanda. Inevitável perguntar: nos tempos de categorias de base, no Grêmio Barueri e no Internacional, ainda aqui no Brasil, passava pela sua cabeça ficar tanto tempo no futebol europeu?

Eu sonhava sim em jogar na Europa, mas não imaginava ficar tanto tempo em um só país.

Você já respondeu a essa pergunta em outra entrevista, mas repito aqui. Sua trajetória dentro da Holanda é bem regular: a chegada em 2007, para ficar quatro anos no Zwolle, um clube pequeno, que ainda estava na segunda divisão. Depois, uma passagem de dois anos pelo NAC Breda, um pouco maior, então ainda se mantendo no meio da tabela. Em 2013, você vai para o Groningen, clube médio, onde vira ídolo da torcida, titular absoluto, e coroa com o título da Copa da Holanda em 2015. Agora, o Feyenoord, um grande e tradicional clube, onde você também se estabeleceu. Essa evolução foi coincidência ou você pensava nela ao longo da carreira?

Sempre tomei minhas decisões pensando no melhor passo a ser tomado para o clube onde eu teria mais chances de crescer e de jogar. Graças a Deus fico muito feliz e orgulhoso por ter dado passos sempre à frente, e hoje jogo por um grande time da Holanda.

Outra vez, é preciso repetir a pergunta: você tem passaporte italiano. E nunca atuou por seleções nacionais - nem pela brasileira, nem pela italiana. Seleção é uma possibilidade que passa por sua cabeça?

Quem não sonha em um dia jogar na seleção brasileira né? Sei que pelo Feyenoord estou mais na vitrine, mas sei também que o campeonato holandês não é muito visto no Brasil e que a briga por uma vaga é muito grande. 

Juntando suas partidas nos quatro clubes holandeses em que esteve (mais precisamente, 301 jogos), você já marcou 24 gols. Dá para escolher algum mais marcante?

Difícil escolher um gol mais marcante. Por cada time teve a sua importância dependendo do jogo e da situação da equipe. Na temporada passada fiz um gol na prorrogação, que nos deu a classificação para a final da Copa da Holanda [nota: contra o Roda JC, na prorrogação da semifinal]. Esse foi bem legal.   

Nesses nove anos jogando na Holanda, você teve uma pessoa que lhe ajudou muito em seus primeiros tempos no país, atuando pelo Zwolle: Ria Dijk, dona de um café na cidade. No começo deste ano, ela faleceu, e você a homenageou no Instagram. Por favor, comente um pouco sobre ela - e a ajuda que lhe deu, em seu começo no Zwolle.

Ela foi uma pessoa muito importante para mim aqui na Holanda. Quando cheguei com dificuldades na comunicação e por não conhecer nada, ela e sua família me receberam com muito carinho e facilitaram minha adaptação. Sou muito grato, e eles vão estar sempre no meu coração.

Sabe-se que a sua família acompanha sua carreira. No entanto, é mais difícil que os jogos do Feyenoord passem na tevê brasileira, já que Ajax e PSV são mais falados. Como eles fazem, quando a tevê demora mais?

Eles acompanham mesmo. Assistem a todos os jogos. Quando não passa na TV brasileira, eles acompanham por sites que passam jogos do mundo todo e também pela Watch ESPN, que transmite todos os jogos do Feyenoord pelo Campeonato Holandês. E no caso da Liga Europa, que os canais brasileiros transmitem ao vivo.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Entrevista: Rodrigo Bueno (última parte)

Após a revelação de que Johan Cruyff está com câncer no pulmão, você colaborou de novo com a Folha, fazendo um texto sobre a relação de Cruyff com o cigarro. Comente um pouco sua visão sobre a importância do "Nummer 14" para o futebol mundial nos últimos 41 anos.

Cruyff foi, é e será sempre um dos principais jogadores de todos os tempos. Pelo que fez em campo e pelo legado que deixou. Ele é o símbolo maior do futebol total, do jogador moderno, múltiplo. Sempre foi um cara muito inteligente e inovador, como jogador inclusive.Ele foi fundamental para o Barcelona virar o que virou, uma escola e um símbolo de bom futebol. Sua carreira como jogador (não como atleta... - risos) foi brilhante. Nem a derrota na Copa, nem mesmo o fato de ele ter disputado só um Mundial o tiram da lista dos maiores do esporte. Alguma de suas ideias e frases sobre futebol são maravilhosas. Esse sim foi um jogador diferenciado.

Em 1999, no meio de todas aquelas eleições de "melhores do século XX", o jornal De Telegraaf fez Cruyff (colunista do jornal até hoje) eleger a "Oranje van de eeuw", a "Laranja do século". A escalação foi essa: Van der Sar; Gullit, Rijkaard e Krol; Neeskens, Cruyff e Van Hanegem; Van Basten, Faas Wilkes, Abe Lenstra e Piet Keizer. Alteraria alguma coisa? E dos jogadores que você viu na Oranje, qual seria a sua seleção?

Bom, vou montar a seleção com jogadores de 1974 para cá. Van der Sar; Koeman, Frank de Boer e Krol; Rijkaard, Bergkamp, Gullit e Neeskens; Robben, Van Basten e Cruyff. Poderia colocar o Davids no meio e puxar o Rijkaard para a defesa no lugar do Koeman. Sneijder e Van Persie ficam no banco.

Para encerrar, uma pergunta bem humorada: já conseguiu perdoar Robben, após ele perder AQUELA chance, naquele segundo tempo em Joanesburgo, na final da Copa de 2010?

Nunca vou perdoá-lo por isso. Ele esteve muito perto de realizar um raro sonho que tenho na vida que ainda não realizei. Não sei quantas oportunidades terei mais para ver a Holanda ser campeã mundial. Eu não consigo perdoar até hoje o Van Nistelrooy porque ele errou um gol de letra contra o Brasil em Salvador, num jogo que terminou 2 a 2 e que deveria ter sido 3 a 2 de virada para a Holanda, com um gol antológico do Van Nistelrooy [referência ao amistoso contra a Seleção Brasileira, em 5 de junho de 1999]. Imagina se vou perdoar Robben então... Nunca!

(Abaixo, o amistoso supracitado, com a chance de Van Nistelrooy mencionada por Rodrigo, a partir de 3min10)

sábado, 26 de dezembro de 2015

Entrevista: Rodrigo Bueno (3ª parte)

Pela Folha, você cobriu as Copas de 2006 e 2010 (afinal, 2002 não tinha a Oranje); pela FOX Sports, trabalhou na Copa de 2014. Conseguia alguma pauta para trabalhar acompanhando as delegações holandesas?

Cobri a Copa de 2002 in loco também e acabei torcendo pelo Brasil pelas circunstâncias. É bem mais legal cobrir Copa quando a Holanda está presente e quando ela está ainda na competição. Trabalho normalmente de olho em todas as seleções, não posso profissionalmente cobrir apenas a seleção da Holanda. Fiz em 2006 os jogos contra Sérvia e Montenegro e Costa do Marfim (duas vitórias), fiz em 2010 os jogos contra Camarões, Japão, Eslováquia e Espanha (só perdemos a final) e em 2014 comentei a virada sensacional sobre o México nas oitavas. Costumo dar sorte para a Laranja, mas atuei nesses jogos com todo o profissionalismo possível, escrevendo e comentando como um jornalista deve fazer, com isenção. É normal colegas de profissão me perguntarem muita coisa da Holanda porque sabem que acompanho muito o time, acho até que pauto muitos dos meus companheiros. Pautas legais que eu poderia fazer eu acabo terceirizando (risos).   


2014. Copa do Mundo no Brasil. A Oranje chegou meio desacreditada (tanto que você palpitou eliminação na primeira fase), mas conseguiu uma honrosa terceira colocação. Algum momento marcante da campanha da equipe de Louis van Gaal, para você? E qual a análise sobre a campanha? As perspectivas para a qualificação rumo à Copa de 2018 são ruins?

Foi a segunda Copa seguida que a Holanda queimou a minha língua. Ainda bem (risos). Em 2010, também não via a Holanda com muitas chances de ir à final, mesmo tendo consciência de que aquela equipe era muito competitiva. Na verdade, entendo que nesses dois últimos Mundiais a Holanda tinha apenas três craques: Robben, Sneijder e Van Persie. Em 2010, Van Persie não foi bem. Em 2014, Sneijder é quem ficou abaixo. Apesar disso, quem poderia ter nos dado o título mundial foi Robben, que perdeu duas grandes chances na final contra a Espanha em 2010 e a grande chance do jogo contra a Argentina na semifinal de 2014. 

Meu grande momento em 2014 com a Holanda foi o jogo contra o México, o único que comentei da equipe na Copa. Fui para Fortaleza muito animado com a chance de comentar meu primeiro jogo de mata-mata de Copa do Mundo. Sabia que seria um jogo enroscado: o México tem feito duras partidas contra a Holanda e vinha de fato jogando bem. Contra a Holanda, fez boa partida, mas perdeu a vaga nos minutos finais. Na transmissão, foi tudo bem. É claro que me empolguei com o golaço de Sneijder no fim e a virada no pênalti de Huntelaar. Fiz bons amigos mexicanos e os respeitei bastante, até porque eles se sentiram lesados pela arbitragem (não concordaram com o pênalti em cima de Robben de uma forma geral).Eu pude ver boa parte do estádio laranja, a torcida da Holanda é normalmente bem animada, e houve uma grande euforia pelo lado da chave em que a Holanda ficou na Copa. 

Depois de passar por um grupo difícil, o caminho ficou bem acessível até a semifinal. Minhas dúvidas antes da Copa sobre esse elenco da Holanda viraram certeza de que o time renderia bem até o fim, como acabou acontecendo. Era para termos vencido a Costa Rica no tempo normal ainda. Era para termos vencido a Argentina com um gol de Robben no final. E era para termos sido campeões do mundo em cima da Alemanha para vingar 1974. Era... (risos).

Sobre a classificação para a Copa de 2018, estou temeroso. A renovação da equipe se faz necessária e não temos tanto material humano bom assim, tanto que ficamos fora de uma Eurocopa de 24 seleções, algo vergonhoso. Ainda caímos num grupo duro, em que há uma França favorita e uma Suécia perigosa com Ibrahimovic. Não será nada fácil. Corremos sim risco considerável de terminarmos em terceiro lugar.

Depois da bonança de 2014, a tempestade, com a ausência na Euro 2016. Algum comentário do jornalista/torcedor para explicar o vexame nas eliminatórias?

Não há muito como explicar esse vexame. A Holanda precisou se esforçar muito para nem ir à repescagem. Perder da República Tcheca é algo até normal ao longo da história, mas ser derrotado duas vezes pela Islândia foi demais. Perder fora para a Turquia também é algo que dá para entender na fase atual de transição do time, mas a própria Turquia vacilou muito e deu todas as chances para a Holanda ficar ao menos em terceiro lugar. Após a Copa, alguns jogadores caíram muito de produção. É o caso de Blind e Van Persie, por exemplo. Houve troca no comando técnico, o que não é recomendável, e a sucessão do Van Gaal não foi bem conduzida. Alguns jogadores importantes se lesionaram, caso de Robben na reta final. 

Creio que a Holanda também se deixou levar muito pela boa campanha na Copa e pela suposta fragilidade do grupo. Em alguns jogos, parecia achar que venceria naturalmente. Foi assim contra a Islândia e a própria Turquia em casa. Teve um pouco de salto alto também porque parecia fácil demais a classificação. O time se deu ao luxo de mudar o esquema da Copa, em que a defesa contava com cinco homens e muita proteção, para ficar mais ousada, mais adequada ao sistema holandês. O time não melhorou na frente e piorou muito atrás. Não temos grandes defensores. Esses foram bem antes porque estavam bem protegidos. Que a experiência sirva de lição para os próximos anos. E que a Holanda rapidamente produza novos craques.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Entrevista: Rodrigo Bueno (2ª parte)

Certamente você tem alguma(s) camisa(s) laranja(s) da seleção. Dá para considerar que é coleção ou é somente uma aqui e outra ali?

Tenho muitas camisas da Holanda, sim. Virou algo corriqueiro ganhar camisas da Holanda de presente. Houve um tempo em que eu até pedi para a família parar de me dar camisas e coisas laranjas. Meu guarda-roupa normal estava virando quase 100% laranja. Só que, curiosamente, a marcante camisa da Holanda de 1988 eu não tenho ainda. A camisa que eu mais deveria ter, ainda não tenho. Certamente eu vou adquiri-la em algum momento diferenciado. 

Em 2010, precisamente em 7 de janeiro, você escreveu uma coluna lembrando dos 15 anos que completava na Folha, e de como ficara mais fácil se atualizar sobre futebol internacional, com o advento da internet. E para saber sobre a seleção da Holanda, quais as facilidades que você tem agora e não tinha em 1997, quando começou com a coluna na Folha?

Eu comecei com a minha coluna de futebol internacional na Folha no primeiro semestre de 1997. Fui o sucessor do mestre Silvio Lancellotti nesse nobre espaço do jornal, uma responsabilidade e tanto. Eu já fazia muito uso da internet desde 1996, quando cobri de forma experimental a Copa Africana de Nações na África do Sul entre janeiro e fevereiro. Na época, havia dois computadores apenas na redação da Folha com acesso à internet. Lembro que tinha cartazes em cima dos computadores, estimulando os jornalistas a usar aquela moderna ferramenta. Quase todo mundo passava pelos dois computadores e nem mexia na internet, era mesmo um novo mundo, bem estranho. 

Na Eurocopa da Inglaterra, no meio de 1996, eu já estava bem familiarizado com a internet e cobri o torneio do Brasil mesmo usando a grande rede. Foi uma cobertura tão boa quanto diferenciada. Não estava in loco, mas dei muitas informações que só eram possíveis devido ao uso da internet. Houve quem me criticasse por essa cobertura distante e muito virtual, mas já não havia volta. Eu podia colher frases de jogadores e técnicos dos sites da Uefa, das federações nacionais, dos clubes, dos mais diversos veículos de comunicação. Tudo isso sem estar na Inglaterra. Nada substitui estar presente no local do evento, mas sabemos hoje que o ideal é estar no local do evento conectado com a internet, com o mundo. Ainda mais para quem cobre futebol internacional. Em seu auge na Folha de S. Paulo e na TV Bandeirantes, o mestre Lancellotti não tinha essa poderosa arma à sua disposição. Ele e os adoradores do futebol mundial torciam para chegar em uma ou outra banca do centro da cidade uma revista estrangeira. Essa quase sempre servia como guia para a temporada. Hoje em dia vemos vários guias de futebol europeu produzidos no Brasil mesmo, os tempos são outros. 

Sobre a Holanda em especial, era ainda mais difícil obter boas informações. Ler a mais tradicional revista do país, a Voetbal International, era algo impensável, ainda mais em holandês (risos). Era mais fácil ver análises de fora da Holanda sobre o futebol da Holanda. Sabia mais do Gullit e do Van Basten pelo que via na Itália, por exemplo. Sabia mais do Cruyff pelo que lia em espanhol. Hoje há mais sites, jornalistas e fontes de quem posso pegar informações boas sobre o futebol holandês sem saber nada de holandês. A globalização faz com que quase todo mundo tente se comunicar mais e melhor com o mundo. O Campeonato Holandês inclusive passou a ser transmitido regularmente para o Brasil, isso faz muita diferença em relação a 1997. Antigamente, era raro ver jogos da seleção holandesa na tevê brasileira, exceto em Copas e Eurocopas. Hoje em dia, quase todo jogo amistoso da Oranje é exibido no Brasil. Temos como ver todas as partidas na internet, a Holanda agora é logo ali (risos). 

Sabe-se que você é um admirador do futebol europeu em geral, a ponto da hoje célebre frase "o futebol europeu vai dominar o mundo" ter intitulado uma coluna sua na Folha, em 7 de abril de 2011. Por mais que ele tenha nível técnico abaixo da crítica, o Campeonato Holandês tem algum espaço nessa admiração, ou só o Ajax?

A frase antológica que eu lancei foi “O futebol mundial vai dominar o mundo”. Trata-se de uma redundância, um trocadilho, mas é uma verdade, algo cada vez mais atual. Criei essa frase porque na imprensa esportiva brasileira quase sempre havia (e muitas vezes ainda há) uma separação de “Futebol” e “Futebol no Mundo”, como se fossem duas coisas bem diferentes, como se fossem dois esportes diferentes. Tinha chapéu [nota do blog: no jornalismo, "chapéu" significa uma pequena palavra acima de um texto, indicando o assunto a que ele se refere] para basquete, automobilismo, tênis, vôlei e futebol mundial na Folha, por exemplo. O que eu queria dizer, e hoje muitos entendem, é que o tal “futebol mundial” ia ganhar cada vez mais espaço, mais importância, mais popularidade. Cada vez mais, os campeonatos estaduais e os torneios regionais perdem espaço e relevância diante dos grandes torneios internacionais. Isso é reflexo da globalização, da internet, do videogame, das mídias sociais... o mundo ficou pequeno, tudo está ao alcance. Um indiozinho da Amazônia talvez tivesse acesso há algum tempo “apenas” a uma rádio que transmitia jogos dos Flamengo. Esse indiozinho hoje talvez veja o Barcelona de Messi e o Bayern de Guardiola sistematicamente. O futebol europeu reúne a nata da modalidade, é natural que seja hoje a maior referência do esporte mais popular do mundo. 

Da mesma forma, o futebol holandês não é o mais endinheirado da Europa, assim seu campeonato não é tão poderoso nem muito badalado. Entendo que muita gente não se interesse pelo Campeonato Holandês. Não é o meu caso. Além de ser um jornalista esportivo que busca notícias e informações de todos os lugares do mundo, eu tenho uma adoração pelo futebol holandês. Então sigo sim o “Holandesão”, mesmo quando não estou trabalhando diretamente na cobertura dele, e mesmo quando meu querido Ajax não está em campo.   

Euro 1996, Copa de 1998, Euro 2000, ausência da Copa de 2002, Euro 2004, Copa de 2006, Euro 2008, Copa de 2010, Euro 2012, Copa de 2014, ausência da Euro 2016... a lista de frustrações da Oranje só aumenta. E você noticiou ou comentou cada uma delas, fosse na Folha ou em seu blog no FOX Sports. Para você, torcedor assumido e militante da seleção laranja, qual dessas decepções doeu mais? 

A maior dor que eu tive com a seleção da Holanda foi na Euro 2000. Doeu muito ter perdido aquela, fiquei um mês pelo menos muito mal tentando me recuperar daquela derrota. Por vários fatores, aquele fracasso me machucou demais. Em primeiro lugar, o time da Holanda era bem bom. Apostava muito naquela base da Copa de 1998, que poderia (e deveria) ter sido campeã mundial na França. 

Em segundo lugar, a Holanda abrigou a competição. Eu nunca tinha visto a Holanda ser sede de nenhum torneio importante de futebol. Entendia que seria uma prova de grandeza a Holanda se impor mais sobre os adversários. Muitos ganharam torneio como anfitriões mesmo não sendo grandes times. Achava que a Holanda tinha mesmo a obrigação de ganhar aquele torneio. Foi a única vez que me senti, como torcedor da Holanda, obrigado a ser campeão. E isso não aconteceu  por causa de um jogo inacreditável. Foi quase uma "Batalha dos Aflitos" aquela semifinal entre Holanda e Itália [nota do blog: 0 a 0 em 120 minutos, Itália 3 a 1 nos pênaltis]. A Holanda pressionou o tempo todo, criou inúmeras chances, desperdiçou dois pênaltis no tempo normal, jogou muito tempo com um jogador a mais [nota do blog: Zambrotta fora expulso aos 33 minutos do primeiro tempo] e mesmo assim não conseguiu vencer aquela Azzurra, que nem era tudo aquilo. Não deu para engolir. Ali eu senti mesmo que o time amarelou, inclusive na disputa de pênaltis (nosso velho trauma). Respeitava apenas a França, que viria a ser campeã (e foi derrotada na fase de grupos pela Holanda numa grande virada) [nota do blog: 3 a 2 Holanda], e a República Tcheca, nossa tradicional carrasca (foi batida também pela Holanda na fase de grupos) [nota do blog: 1 a 0 Holanda)

Depois dessa derrota, eu jurei que nunca mais sofreria tanto por um tropeço da Holanda. Vi a final da Copa de 2010 torcendo como louco ao lado do Tostão - que torcia pela Espanha, então. Foi duro ver a realização de um sonho escorrer pelos dedos e pelos pés do Robben, mas nada se compara à dor que eu senti com aquela derrota para a Itália. Curioso ver que, quando eu torcia para o Brasil, só chorei naquele 3 a 2 da Azzurra no Sarriá em 1982... 

Em 9 de setembro de 2001, numa coluna sobre a eliminação holandesa ainda na qualificação para a Copa do Mundo do ano seguinte, sua coluna na Folha criticando o estilo técnico/tático da Seleção Brasileira de então, dizendo que torceria por Portugal, de estilo tão exuberante quanto o que a Holanda tinha então. Pois bem, a Oranje já não tem mais aquele estilo de coletividade maciça, de troca de passes incessante, de ofensividade quase suicida. Pelo menos desde a Copa de 2010. Sente falta disso ou acha que... faz parte?

Sinto falta disso. E essa questão ficou muito forte na Copa de 2006, quando a Holanda fez o jogo mais violento das Copas contra Portugal, justamente. A Holanda treinada por Van Basten jogava um futebol burocrático naquela época. E olha que o meu ídolo Van Basten tinha por obrigação até em contrato fazer um time vistoso, ofensivo... Van Basten italianizou demais a Holanda. Não gostava do jeito que a Holanda jogava ali, mas torcia como louco como de costume. Diante de Portugal, que tinha Felipão no comando, esperava um duelo entre o bem e o mal, entre o futebol-arte e o futebol-força, entre a técnica e a garra, mas ficou tudo igual. Os dois times apelaram. O Van Basten se igualou ao Felipão naquele jogo, teve pancada e falta de fair play dos dois lados, uma baixaria. Felipão infelizmente levou a melhor, mas a Holanda ao menos foi punida por esse jogo tacanho. Na Eurocopa seguinte, a Holanda não foi campeã, mas ao menos deu bons espetáculos, deu orgulho.  

(Abaixo, o vídeo com os melhores momentos de Holanda x Itália, semifinal da Euro 2000)



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Entrevista: Rodrigo Bueno (1ª parte)



Dentro da popularização do futebol europeu no Brasil - não só clara, mas inescapável, embora com inegáveis exageros -, há muitos blogs falando sobre os campeonatos/seleções/"futebóis" de vários países. Sobre Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra, França, Portugal... sendo assim, não é de se impressionar que haja alguém doid... quer dizer, ousado e visionário o suficiente para fazer um blog falando sobre futebol holandês. Certo, não há muitos autores - para dizer a verdade, só um -, e a audiência do Espreme a Laranja é inegavelmente minúscula. O que não quer dizer que o blog não devesse ser feito. Muito menos quer dizer que o futebol holandês não tenha seguidores fervorosos, a despeito de todos os dissabores (principalmente neste 2015 que se encerra). 

E um dos seguidores fervorosos da Oranje faz a ponte com o início deste texto. Pode-se dizer que o paulistano Rodrigo Tadeu Guerra Bueno colaborou bastante para a popularização do que outros países fazem no futebol. Primeiramente, por sua trajetória longa na Folha de São Paulo: o jornalista começou a carreira no diário, em 1995, e dois anos depois assumiu o espaço deixado por outro jornalista, Sílvio Lancellotti, iniciando uma coluna dedicada principalmente ao futebol internacional que foi até 2012, rendendo-lhe a cobertura in loco de três Copas do Mundo, uma Eurocopa, duas Copas Américas e três finais de Ligas dos Campeões. Mesmo tendo deixado a redação da Folha, em 2012, Rodrigo segue colaborando até hoje com o jornal. 

Além da indissociável ligação de sua carreira com a publicação da alameda Barão de Limeira, Bueno também desenvolve trabalho já longo nas emissoras esportivas de tevê a cabo. Entre 2002 e 2012, colaborou constantemente com os canais ESPN, principalmente a ESPN Brasil. E desde 2012, enfim, o jornalista é exclusivo dos canais FOX Sports, não só na tevê, mas também com seu blog, o Diferenciado - que já no nome, mostra o traço bem humorado de seus comentários, ao ironizar o uso indiscriminado (e mal empregado, aliás) do próprio termo "diferenciado", sem contar o particular "abrááço" que virou a marca registrada das despedidas das transmissões de "Bubu", como ficou conhecido entre os admiradores.

E entre tantas características que fizeram-no célebre, está a paixão pela seleção holandesa - e entre a admiração por tantos clubes estrangeiros pelo mundo, um carinho especial pelo Ajax. Pois bem, é para isso que o blog entrevistou-o via e-mail. A paixão ficou notória no tamanho da entrevista, a ser dividida em quatro partes. Sendo assim, para encurtar a já longa introdução, melhor apresentar. A partir de agora, a história de amor entre a Oranje e Rodrigo Bueno.

Como você tinha apenas dois anos em 1974, era novo demais para acompanhar as atuações da histórica seleção do Futebol Total. Mas virou torcedor da seleção holandesa desde 1987. Como conheceu e se encantou com a Oranje, a um ano da Euro 1988?

Eu nem tinha dois anos na Copa de 1974, então só fui ver (bastante) o Carrossel em VTs e em fitas que gravei dos jogos daquele Mundial da Alemanha. Costumo mandar para as pessoas como cartão virtual de Boas Festas nos finais de ano um clipe dos melhores momentos de Holanda 2 x 0 Uruguai, em 1974. Foi uma demonstração de futebol total para toda a eternidade. Algo realmente tocante.

Antes de chegar a 1987 e 1988, preciso fazer uma confissão. A primeira lembrança que tenho da Holanda jogando foi na final da Copa de 1978. Lembro que em casa meu pai e alguns outros torciam para a Holanda porque o adversário era a Argentina. E eu, garotinho de tudo, não entendia aquilo, pois os jogadores da Argentina pareciam piratas legais para mim e fiquei encantado com a chuva de papel picado e a festa da torcida. Posso dizer que torci de forma discreta contra a Holanda naquela final que quase vencemos mesmo (essa bateu na trave no final literalmente). Quis o destino que, dez anos depois, eu viraria um torcedor roxo da Laranja (que combinação de cores rs).

Eu comecei no meio dos anos 80 a acompanhar bastante o futebol italiano, então o Eldorado do futebol mundial. A coisa mais normal para mim seria torcer pelo Napoli por causa do Maradona e do Careca. Mas me encantei mesmo com a dupla Gullit e Van Basten. Admirava demais os caras, suas jogadas e virei torcedor do Milan na temporada 1987/88, temporada que acabou mesmo rubro-negra. Começou a Eurocopa de 1988 na Alemanha, e eu já torcia pela Holanda por causa deles, mas era meio que uma apresentação oficial da Laranja para mim.

E a conquista da Euro 88? Qual a importância dela para você, como torcedor - e hoje, 27 anos depois, como jornalista, como você analisa aquele time?

Lembro bem da final contra a União Soviética, time que aprendi a respeitar já na Copa de 1982 (deu trabalho para a seleção brasileira que eu amava) e que tinha o sensacional goleiro Dasaev. Eu vi o jogo em casa com meu pai e vibrei muito nos gols. Quando saiu aquele gol antológico do Van Basten, a alegria foi como a de um time do coração mesmo. Torcia pelo Van Basten e pela Holanda muito já. Nem me dei muito conta de que o técnico campeão ali era Rinus Michels, simplesmente o treinador do século para a Fifa e para quase todo mundo, nem me dei conta direito do Rijkaard, dos Koeman e outros bons jogadores que a Holanda tinha. Eu meio que me fiz uma promessa: dali em diante torceria sempre pela Holanda. E tenho cumprido bem a promessa (risos).

Você tem vários times com que simpatiza. E pelo Ajax, uma de suas "preferências" mais conhecidas, como a simpatia começou?

Eu não vi nenhum jogo ao vivo do Ajax com Van Basten. Queria ter visto ao menos a final da Recopa de 1987, quando fomos campeões com Van Basten decidindo, claro. Fui descobrir que Van Basten tinha sido jogador do Ajax quando ele já estava no Milan. Como ele virou meu ídolo, já tive logo uma simpatia pelo clube de Amsterdã. Depois, fui conhecendo mais a história do time, que deu base para o Carrossel, teve Cruyff como grande nome etc. Não dava para ver jogos do Campeonato Holandês na época, então mal deu para torcer muito pelo clube. Fiz isso na Copa da Uefa 1991/92, quando o Ajax foi campeão em cima do Torino, com Bergkamp - a quem passei a admirar muito -, Frank de Boer, Blind, Jonk, Winter, Roy, entre outros. No Brasil, vi gente torcendo pelo Torino por causa do Casagrande, mas eu fui de Ajax, de boa. A partir dali, como jornalista, ficou mais fácil acompanhar o clube. Vi a montagem daquele Ajax sensacional de Van Gaal que ganharia a Champions League e o Mundial de 1995. Foi a base da poderosa seleção holandesa que poderia (e deveria) ter vencido a Copa de 1998 e a Eurocopa de 2000. Pena que a Lei Bosman praticamente matou o Ajax em termos continentais. Ficou quase impossível para o Ajax concorrer com os endinheirados clubes de Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália, recheados de estrangeiros. Quando havia limite de estrangeiros, a forte base do Ajax conseguia levar a melhor sobre Real Madrid, Bayern, Manchester United etc. Agora, quando aparece um Sneijder ou um Van der Vaart ou mesmo um Ibrahimovic no Ajax, ele sai logo do clube. Só dá para lutar mesmo no mercado interno.

Em 1994, você ainda começava como jornalista: só no ano seguinte começaria sua passagem pela Folha de S. Paulo. E ainda como espectador, você viveu um momento engraçado no Brasil x Holanda das quartas de final da Copa do Mundo daquele ano, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Como foi?

Na verdade, na Copa de 1994, eu ainda não trabalhava na Folha. Eu tentei trabalhar no jornal, fiz teste para ser estagiário no Banco de Dados. Um colega meu que trabalhava no jornal (Rodrigo Bertolotto) me indicou dizendo que eu manjava muito de futebol, de esporte em geral e que eu estudava jornalismo na PUC-SP. Mas um cara pegou minha vaga usando essas mesmas referências. Devem ter perguntado para ele algo como “então você é o cara da PUC-SP que conhece muito de futebol?”. Contrataram o cara pensando que era eu. Vi então a Copa de 1994 como mero telespectador em casa mesmo.

Quem foi para o Vale do Anhangabaú foi meu pai. Ele não quis ver Brasil x Holanda nas quartas de final na mesma casa em que um filho dele torceria pela Holanda. Meu pai nunca digeriu bem essa minha preferência pela Holanda e pelo futebol internacional como um todo. O resto da minha família não ligava muito para minha predileção pela Holanda, mas, quando o Winter empatou o jogo de cabeça, eu levantei da cadeira e me atirei no chão. Minha família então viu que o negócio era sério, deviam pensar que eu só brincava de ser Holanda para sacanear meu pai (risos). A Holanda perdeu o jogo muito por causa do juiz: Romário estava impedido no gol de Bebeto, a bola foi para ele, e Branco cavou uma falta depois de ter feito falta naquele lance que gerou o terceiro gol do Brasil. Lamentei muito, claro, as ausências de Gullit e Van Basten naquela Copa. Mas ambos já estavam bem bichados, essa é a verdade. Com eles, a Holanda poderia muito bem vencer aquela Copa. Na Eurocopa de 1992, a Holanda estava jogando tão bem ou mais que em 1988. Mais um campeonato em que encantamos e não vencemos. 

Já viajou à Holanda? Em caso de resposta positiva, sua viagem teve um "roteiro futebolístico? E lá, virava-se no inglês ou conseguia algo na língua nativa?

Já viajei, sim. E uma viagem, em especial, foi sensacional, do ponto de vista esportivo. Fui em 2000 para lá como jornalista, num jabá de primeiro nível, voei de primeira classe na KLM e tudo. Era para conhecer os preparativos da Holanda para a Eurocopa de 2000, realizada no país e na Bélgica. Deu para conhecer bem os principais estádios holandeses: Amsterdam Arena, De Kuip, Philips Stadion, Gelredome (que era sensação na época pelo teto retrátil e pelo gramado que pode ser removido). Não falava nem falo nada de holandês, a não ser os nomes de clubes, jogadores e técnicos: falo com pronúncia quase sempre errada em relação ao holandês, que é complicado. Falar simplesmente Cruyff ou Seedorf de forma holandesa já é um desafio. Mas na Holanda todo mundo se vira bem no inglês, isso não é problema lá. O povo fala umas três línguas e é muito receptivo, aberto a estrangeiros.

(Nesta quarta, a segunda parte da entrevista com Rodrigo Bueno)