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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Pelo menos isso

A tristeza em ficar fora da Copa foi indisfarçável. Mas pelo menos, a vitória e a atuação esforçada renderam respeito à Holanda (Pim Ras)

"Estas eliminatórias já estavam perdidas quando eu cheguei." Por essa frase de Dick Advocaat à NOS, emissora pública holandesa de tevê, já se nota como era baixa a autoconfiança da seleção da Holanda, antes da partida decisiva contra a Suécia, pela última rodada das Eliminatórias da Copa de 2018. Também não havia muita crença da capacidade da Laranja em vencer os suecos por sete gols de diferença. De fato, a Holanda não passou do sonho. E está fora de uma Copa do Mundo, após 16 anos. Se serve de consolo, pelo menos não terminou a qualificação com derrota, como para a Euro 2016. Ao contrário: a atuação na vitória por 2 a 0 mostrou esforço. E se houve um grande responsável por isso, foi Arjen Robben. Que parecia saber do caráter agridoce do jogo, ao lacrimejar durante o hino holandês.

Jogo começado, duas impressões vieram. A primeira era positiva: as mudanças na escalação que começou o jogo ajudaram a Holanda a mostrar mais ofensividade - tanto nas mudanças pelas laterais (Kenny Tete começou o jogo na direita; Nathan Aké, na esquerda), quanto no início de Daley Blind como volante, qualificando a saída de bola. Mas a segunda impressão neutralizava os efeitos da primeira: o começo de jogo deu a impressão de que a Holanda repetiria a irritante rotina vista nestas Eliminatórias. Contra uma Suécia tranquila e bem postada defensivamente, fechando-se num 4-4-2 sem a bola, restava apenas trocar passes no campo de defesa.

Até Robben começar a aparecer. Não só na direita, o seu setor preferencial, mas também vindo para o meio-campo, buscando jogo, chamando a responsabilidade. Assim, aos poucos, a Laranja foi encurralando a Suécia. Como aos 8', quando Robben puxou a bola para a esquerda, serviu a Aké, e o lateral cruzou para Granqvist tirar de cabeça. Aos 9', o camisa 11 protagonizou a primeira chance, com sua jogada habitual: dominou pela direita, cortou e chutou, mas o goleiro Robin Olsen defendeu sem problemas. Depois, aos 12', Robben perdeu mais uma boa chance, numa jogada atribulada. Aké cruzou, Jakob Johansson tirou da área, mas Tete ainda pegou a sobra e cruzou para o capitão da Oranje tentar o cabeceio, mandando a bola por cima do gol.

Junto de Robben, outros começavam a aparecer. Como Ryan Babel, que fez o que pôde pela esquerda, com jogadas individuais elogiáveis. Junto do apenas esforçado Vincent Janssen, ele provocou a jogada do pênalti que deu o primeiro gol à Holanda: Janssen desviou a bola tentando fazê-la alcançar Babel, e Victor Lindelöf tocou com a mão. Nada absurdo, mas o juiz Sergei Karasev julgou pênalti, apitou. E Robben arriscou uma cavadinha. Saiu mal feita, mas foi suficiente para o 1 a 0 que aumentou as esperanças.

Aliás, a vantagem aumentou também o volume ofensivo holandês, com o segundo gol quase vindo aos 20', num belo lançamento de Blind, do meio-campo, agarrado por Olsen antes que Babel pudesse finalizar. Aos 26', outra boa chance, numa cobrança de falta ensaiada: Robben tocou a Blind, recebeu de volta e lançou Wijnaldum, que só não fez pelo desvio providencial de Sebastian Larsson. E aos 31', em outra falta, Babel mandou a esférica rente à trave esquerda de Olsen.

A garra de Arjen Robben foi inspiradora. E fechou com dignidade seu tempo na seleção (Getty Images)

Avançando mais, obviamente a Holanda cedia espaços. E a traiçoeira Suécia quase os aproveitou duas vezes, graças a Marcus Berg. Aos 20' Larsson manda para a área em cobrança de falta, e Berg cabeceou para Jasper Cillessen defender. O goleiro holandês voltou a aparecer bem aos 35', ao defender outra testada perigosa de Berg (e ainda atrapalhado por Aké, diga-se). Mas o que impressionava era a velocidade e o esforço holandeses em busca do gol. Que quase veio aos 37', em chance perdida por Tete (Aké fez boa jogada pela esquerda, passou a Babel, o atacante cruzou para o lateral tocar por cima, livre na segunda trave). E aos 39', em sequência de duas defesas de Olsen (primeiro em arremate de Babel, depois no rebote de Janssen). Finalmente, aos 40', Robben reapareceu, com o segundo gol. Ou melhor, golaço: de primeira, da meia-lua, aproveitando passe de Babel.

Uma chance de Vincent Janssen, aos 43', simbolizava o único momento em que a Holanda ousou sonhar que a façanha era possível. Mas o placar, frio, estampava apenas 2 a 0. No segundo tempo, para aumentar a pressão e a referência na área, Bas Dost substituiu Janssen. Porém, não demorou muito para se ver que a pressão do primeiro tempo não se repetiria. A velocidade e o entusiasmo haviam ficado no primeiro tempo. Dost não conseguia finalizar - embora os cruzamentos se avolumassem, como aos 48' e aos 50'. Houve exceção aos 53', em boa triangulação de Vilhena com Babel e Aké, cujo cruzamento só foi afastado por Larsson. Mas as bolas altas só serviram para "consagrar" Olsen, que fez boas defesas aos 58 - desviando providencialmente cruzamento de Tete - e no minuto seguinte, em voleio de Wijnaldum.

Davy Klaassen e Janmaat ainda entraram, para que o toque de bola no meio-campo e os cruzamentos fossem fortalecidos. Mas já estava claro que o sonho dos sete gols estava encerrado. E nem a Suécia estava interessada em avançar - só teve uma chance real, em chute de Emil Forsberg após bola roubada de Blind por Marcus Berg, aos 70'. A oportunidade derradeira para aumentar a honra veio aos 87'. De Robben, como sói acontecer: recebendo de Janmaat e batendo para nova defesa de Olsen.

Nisso, a torcida já apenas gritava "Arjen, bedankt" (Arjen, obrigado), ao ver o esforço de um esfalfado e claudicante Robben. Que era quem mais merecia uma despedida com honra. Afinal de contas, como já se desconfiava, era o último dos 96 jogos que o nativo de Bedum fez pela seleção - terminado com 37 gols, como quarto maior goleador da história da seleção, empatado com Dennis Bergkamp. A dor ficou clara nas palavras do capitão, cumprimentado calorosamente por todos após o apito final: "Não dependia de mim, eu sabia que poderia ser a última [partida]. Foi lindo, mas foi difícil". Aliás, a dor foi tão grande quanto o bom humor: "E o 'Homem de Vidro' foi quem mais durou...".

Restava apenas a gratidão. E a consciência de que a Holanda está diante de um duro caminho para tentar ganhar o respeito de tempos idos. Algo expresso nas palavras também tristes de Bas Dost: "Não quero falar muito. Estou envergonhado. É muito duro". E na serenidade de Babel ("A federação precisa fazer um plano melhor definido") e Blind ("Será um longo verão"). Pelo menos, desta vez, a despedida teve mais honra. Agora, é hora da Holanda ruminar suas dores.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 2x0 Suécia
Data: 10 de outubro de 2017
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Sergei Karasev (Rússia)
Gols: Arjen Robben, aos 16' e aos 40'

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete (Daryl Janmaat, aos 71'), Virgil van Dijk, Karim Rekik e Nathan Aké; Georginio Wijnaldum (Davy Klaassen, aos 71'), Tonny Vilhena e Daley Blind; Arjen Robben, Vincent Janssen (Bas Dost, no intervalo) e Ryan Babel. Técnico: Dick Advocaat

Suécia
Robin Olsen; Mikael Lustig, Andreas Granqvist, Victor Lindelöf e Ludwig Augustinsson; Viktor Claesson (Gustav Svensson, aos 68'), Sebastian Larsson (Martin Olsson, aos 82'), Jakob Johansson e Emil Forsberg; Marcus Berg e Ola Toivonen (Isaac Kiese Thelin, aos 76'). Técnico: Janne Andersson

domingo, 8 de outubro de 2017

Só o imponderável salva

O que era melhor, para a Holanda: perder as chances contra Belarus ou vencer, como venceu, mas ter perspectivas remotíssimas de repescagem? (ANP/Pro Shots)

"Eles não vão ganhar de 8 a 0. Que pergunta estúpida! De 8 a 0? Não, não acredito." Assim Dick Advocaat reagiu à pergunta de um repórter, na entrevista coletiva da sexta passada, comentando sobre as perspectivas para o resultado de Suécia x Luxemburgo. Pois é: o destino encarregou-se de fazer o técnico da seleção holandesa pagar com a língua. Pior ainda foi ver que a Laranja repetiu, contra Belarus, os seus erros crônicos: desorganização defensiva e desespero na hora de atacar. Quase houve o vexame supremo: perder neste sábado mesmo as escassas chances de classificação à repescagem das Eliminatórias europeias para a Copa de 2018. No final, ainda veio a vitória por 3 a 1. Mas não se sabe se vencer, no caso, foi ainda pior, por manter na teoria possibilidades que ninguém acredita que a equipe laranja tem.

Desde o começo, era possível ver: na Borisov Arena, os anfitriões se defenderiam com meio-campo e defesa atuando bem próximos, e apenas dois jogadores na frente. O antídoto clássico contra a lentidão holandesa. Sem espaço para avançar, foi necessário começar a trocar passes no campo de defesa. Ou então, acionar as pontas. Como aos 2', quando Daley Blind veio pela esquerda, cruzou, sem a bola alcançar Davy Pröpper. Ou aos 7': Arjen Robben tentou iniciar triangulação com Pröpper, mas o meio-campista falhou ao tentar tocar de calcanhar. E aos 12', quando Ryan Babel (voluntarioso em sua volta) dominou pela esquerda, driblou Alexei Rios e cruzou, mas Ivan Maevski conseguiu afastar a bola.

Mesmo com uma Holanda vulnerável, Belarus sequer tentava qualquer coisa. Quando tentava, sequer trazia perigo. Aos 8', por exemplo Rios cobrou falta de longe, para ainda mais longe. No minuto seguinte, Aleksandr Karnitski recebeu na entrada da área, mas chutou fraco, e Jasper Cillessen agarrou. Porém, a Oranje também errava na marcação por zona: cada tímido avanço bielorrusso puxava todos os defensores para o lado em que a bola estava. Foi assim que as chances para os contra-ataques apareceram - como aos 17', quando o gol só foi impedido por erro de passe de Ihar Stasevich.

Surpreendido pela realidade, Advocaat é o único que ainda acredita (ANP/Pro Shots)

Ainda assim, mesmo lenta e cedendo espaços, a Holanda tinha algumas atuações esforçadas. Como a de Vincent Janssen, sacrificando-se para segurar a bola e abrir os espaços. A aposta nas laterais começava a render, como aos 21', quando houve enfim uma tentativa (Robben serviu a bola a Blind, que bateu de primeira, para fora, até perto do gol de Sergei Chernik). Aos 24', Robben serviu a Janssen, e o camisa 9 arriscou da entrada da área, no travessão de Chernik. Finalmente, aos 25', o gol que uniu os únicos holandeses mais próximos de serem chamados de "destaques": Babel cruzou da esquerda, Robben ajeitou de cabeça, e Pröpper completou para as redes.

Um gol impedido de Janssen, aos 28', fez crer que a Oranje enfim desencantaria. Não só não aconteceu, como Belarus é que se insinuou mais. Como aos 30', num cruzamento de Stasevich que Blind precisou afastar para escanteio. Ou no minuto seguinte, em cruzamento de Sergei Balanovich afastado por Karim Rekik, de cabeça. Ou ainda aos 32', em jogada individual de Stanislav Dragun. A Laranja só tentou algo aos 38', em chute de Tonny Vilhena, de longe: a bola quicou no gramado e quase engana Chernik, que espalmou. O goleiro bielorrusso ainda apareceu bem em sequência: aos 42', defendendo um chute de Janssen - sozinho na área -, e aos 44', afastando providencialmente cruzamento de Daryl Janmaat que tomou o caminho do gol.

Todavia, o entusiasmo incipiente dos bielorrussos seguiu no começo do segundo tempo. Cillessen enfim trabalhou sério aos 53', espalmando pela linha de fundo o arremate de Balanovich. Na sequência, Dragun veio pela esquerda, cruzou rasteiro, e a bola passou pela área sem ninguém chegar. Finalmente, aos 55', o gol que premiou o esforço dos mandantes: Maksim Volodko veio pela esquerda, recebeu a bola sozinho e chutou cruzado para o 1 a 1.

Robben batalhou, se esforçou, fez gol. Mas também jogou a toalha (Maurice van Steen/VI Images)

Só aí se viu o pior lado holandês: a falta de um plano B, de alternativas táticas relativa e minimamente organizadas. Tão logo veio o empate, Dick Advocaat colocou Bas Dost em campo, deixando a Oranje num espaçado 4-1-1-4: Georginio Wijnaldum marcava no meio, Pröpper criava as jogadas, e quatro atacantes (Robben, Dost, Janssen e Babel) tentavam completar os cruzamentos frequentes. De volta à defesa, Belarus conseguia segurar a Holanda com sua compactação - como aos 61', quando Robben fez sua jogada tradicional, mas o arremate parou no zagueiro Sergei Politevich. Ou aos 63', quando Pröpper arriscou e Chernik defendeu. Ao mesmo tempo, avançando mais, a Holanda deixava espaços para os contra-ataques. Quase aproveitados aos 64', num cruzamento de Nikolai Signevich, pela esquerda.

O ataque holandês foi reorganizado com a alteração seguinte, aos 68' (saída de Janssen, entrada de Memphis Depay, com Babel indo para o meio da área). Ainda assim, os cruzamentos pelas pontas não davam frutos. Nem as esparsas chances - como um chute de Dost aos 72', na rede pelo lado de fora. Estava cada vez mais próximo o vexame de perder as chances em Borisov mesmo. De todo modo, de tanto tentar, uma hora os holandeses conseguiram. Imediatamente depois de reclamarem pênalti (aos 83', após cruzamento de Janmaat, Dost tentou o cabeceio com Rios, e pediu mão na bola do lateral), o juiz Michael Oliver assentiu no escanteio subsequente: Dost foi puxado na área, Robben bateu e fez 2 a 1. Os bielorrussos foram à frente no abafa, quase conseguiram empatar ainda (houve até cabeceio para fora, aos 90'), mas a cobrança de falta precisa de Memphis Depay, aos 90' + 3, manteve o fio de esperança: vencer a Suécia, por sete gols de diferença, colocará a Holanda na repescagem. Diferença que a Holanda não obtém desde 2013, quando fez 8 a 1 na Hungria, pelas Eliminatórias da Copa de 2014.

E mesmo esse fio de esperança está tênue a ponto de ser rompido. Robben saiu de campo com esperanças perdidas, conforme lamentou à NOS: "Eu deixaria a calculadora em casa. Claro que se deve lutar até o último minuto, mas é preciso ser realista. Não direi o que todos esperam. Não temos chances". Babel, de volta, fez bem ao lembrar que a crise não começou ontem: "No momento, este é nosso nível. Que as coisas melhorem no futuro". O único a ainda manter algum tipo de otimismo é Advocaat, que aprendeu a lição: "É possível. Não é provável? Ora, o 8 a 0 da Suécia também não era provável...".

A verdade é que a Holanda vive, na prática, a situação expressa numa frase de Millôr Fernandes: "O desespero, eu aguento. O que me mata é essa esperança...". Talvez fosse melhor nem ter chances, do que ter a chance microscópica que resta para a última rodada, em Amsterdã, às 15h45 da próxima terça. Só o imponderável, esta entidade que às vezes aparece no futebol, salva a Laranja.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Belarus 1x3 Holanda
Data: 7 de outubro de 2017
Local: Borisov Arena (Borisov)
Juiz: Michael Oliver (Inglaterra)
Gols: Davy Pröpper, aos 25'; Maksim Volodko, aos 55', Arjen Robben, aos 84', e Memphis Depay, aos 90' + 3

Holanda
Jasper Cillessen; Daryl Janmaat, Virgil van Dijk, Karim Rekik e Daley Blind; Georginio Wijnaldum, Davy Pröpper (Davy Klaassen, aos 83') e Tonny Vilhena (Bas Dost, aos 56'); Arjen Robben, Vincent Janssen (Memphis Depay, aos 68'). Técnico: Dick Advocaat

Belarus
Sergei Chernik; Aleksei Rios, Sergei Politevich, Aleksei Yanushkevich e Maksim Volodko; Ivan Maevski e Stanislav Dragun; Igor Stasevich, Aleksandr Karnitski e Sergei Balanovich (Igor Burko, aos 76'); Nikolai Signevich (Anton Saroka, aos 87'). Técnico: Igor Kriuschenko

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Preparada para a decepção

Seleção holandesa ficou tranquila nos treinos antes de decidir a sorte nas Eliminatórias. Talvez seja a paz da descrença (Pim Ras Fotografie)
Diante da situação desesperadora que vive no grupo A das Eliminatórias europeias para a Copa de 2018, era de se esperar um ambiente de alta ansiedade envolvendo a seleção da Holanda, antes das duas últimas rodadas que reservam tarefas dificílimas. Afinal de contas, ou a Laranja vence Belarus (neste sábado, às 15h45, em Borisov) e Suécia (próxima terça, também às 15h45, na Amsterdam Arena) – e supera os suecos no saldo de gols -, ou estará fora de uma Copa do Mundo, após 16 anos. Porém, o que se vê é uma melancólica tranquilidade. Como se a Holanda já não tivesse mais chances. 

A começar pelo próprio técnico. Dick Advocaat, 70 anos completados no dia 27 de setembro, cedeu entrevista inesperadamente calma à revista Voetbal International. Certo, a conversa falava sobre toda a carreira de Advocaat. Ainda assim, eram de se esperar palavras mais nervosas. Que nada: o treinador comentou sobre seu futuro na carreira (“Se eu parar e ninguém mais me telefonar, ficarei tranquilo. Mas telefonarão de novo. Sempre telefonam. (...) Eu já posso me aposentar, mas primeiro quero levar a Oranje à Copa. Depois? Não sei.”). E como se já estivesse de carreira terminada, até comentou sobre um hipotético substituto - o próprio auxiliar: “Ruud Gullit seria um excelente técnico da seleção. Os holandeses esquecem o tamanho do símbolo que ele é”. 

Nem mesmo a convocação causou celeuma. Talvez porque nem haja muito o que questionar, entre caras conhecidas (Arjen Robben, Daley Blind) e nomes que começam a ganhar espaço definitivo para os próximos anos, como Wesley Hoedt, Tonny Vilhena e... Davy Pröpper. Após a boa atuação contra a Bulgária, na rodada passada das Eliminatórias, o meio-campista deverá ocupar o lugar de Wesley Sneijder entre os titulares. 

Eis uma surpresa implícita: por mais que a importância histórica de Sneijder seja indiscutível, ninguém lamentou excessivamente sua ausência na convocação. Justo. Afinal de contas, o meio-campista já perde espaço para Allan Saint-Maximin no Nice (na Liga Europa, sequer é relacionado para algumas partidas). Diante dos perigos que a Holanda corre, e dependendo do que acontecer, pode ser que os 45 minutos jogados contra a França tenham sido os últimos momentos de Sneijder com a camisa laranja, após 14 anos e 132 partidas.

Se a história de um símbolo da seleção holandesa pode ter acabado, a história de um veterano recomeçou graças a uma surpreendente convocação. Certo, convocação merecida: Ryan Babel tem mostrado ótimo desempenho neste começo de temporada, no Besiktas. Mas já não jogava pela Laranja desde 15 de novembro de 2011 (derrota para a Alemanha em amistoso, 3 a 0), quando o técnico ainda era Bert van Marwijk. Babel sequer foi convocado pelos sucessores. Até o bom começo no Besiktas – e a lesão de Quincy Promes, habitual relacionado, possibilitando o retorno de Babel à seleção. Retorno tão imprevisto que o próprio se surpreendeu: “Seis anos é um longo tempo. Achei que todos tinham se esquecido de mim”.

Robben segue imperturbável na confiança da virada laranja (Pieter Stam de Jonge/VI Images)
Os 25 convocados chegaram já com o discurso decorado – e sintetizado nas palavras do capitão Robben à NOS, emissora pública holandesa: “Só vencer dois jogos já é uma tarefa muito difícil. E também precisar vencer por uma diferença de gols dessa... Nunca se deve dizer ‘nunca’, mas é muito, muito difícil. Vai depender muito do que acontecer nos jogos do final de semana. A diferença de saldo está em +6 [a favor dos suecos], e não pode ser maior do que isso depois de sábado”.

Num ambiente com tal obrigação, era de se esperar a contenção de quaisquer prejuízos em potencial. Não aconteceu (afinal, é a Holanda). Já antes da convocação definitiva, o lesionado Stefan de Vrij pediu à dupla Advocaat-Gullit para ficar de fora da lista. Pedido atendido. Mas nem o técnico, nem o auxiliar contavam com o que veriam no domingo: De Vrij jogando 67 minutos pela Lazio, até marcando gol nos 6 a 1 sobre o Sassuolo, pelo Campeonato Italiano. 

Gullit obviamente estranhou, como comentou à mesa redonda Rondo, do canal a cabo Ziggo Sport: “Telefonaram para nós, o médico disse que ele não poderia jogar, e era essa a informação que tínhamos. Aí se vê a escalação, e o nome dele está lá. E você pensa: como assim? Falamos com o jogador, e ele comentou que pôde jogar, mas que não se sentia bem o bastante para atuar pela seleção”. Nenhuma briga aconteceu, e De Vrij engrossou a voz contra as suspeitas de que não quis jogar pela Oranje, falando à NOS: “Joguei 67 minutos, mas não foi sem dor. A cada passe que eu dava, sentia dores. É absoluta besteira [que eu não quisesse jogar pela seleção]”. Mesmo assim, ficaram as desconfianças.

Dentro de campo (com Virgil van Dijk convocado para a zaga), a coisa piorou com o mau desempenho holandês nos treinos de finalização. Além do mais, com uma lesão muscular, Kevin Strootman foi cortado na quarta passada. O que não quer dizer que o ambiente é caótico. É apenas... melancólico. Cercado de opiniões quase unânimes: a Holanda não estará na Copa de 2018. Foi o que afirmou Ruud Gullit, entre um treino e outro: “Temos jovens talentosos, mas eles vão cedo para a Europa e ficam no banco”. Foi também o que escreveu Willem van Hanegem, em sua coluna no diário Algemeen Dagblad: “Naturalmente, seria lindo se alcançássemos o Mundial da Rússia, mas não acontecerá. Temo que os jogos contra Belarus e Suécia sejam os últimos de Robben com a seleção”.

Pois o dono da braçadeira de capitão na Oranje talvez seja o único a não dar o braço a torcer. Robben segue com uma ambição notável, pelas declarações emocionadas dadas à Voetbal International: “Claro que penso até quando aguentarei continuar na seleção. Mas não revelarei publicamente o que penso. Até porque, para mim, não acabou. A curto prazo, penso no cenário mais positivo: que nos classifiquemos para a Copa. Quero estar lá. Os outros cenários não entram na minha cabeça. Estar numa Copa é lindo. E a Oranje me traz algo muito bonito. Não pode terminar assim”.

A revelação sobre as perspectivas que a Holanda ainda pode ter surgirá até antes da equipe entrar no gramado da Borisov Arena, contra os bielorrussos. Afinal, a Suécia jogará antes contra Luxemburgo, às 13h do sábado. Enquanto um importante jogador da seleção da camisa amarela protestou (“É incrivelmente estranho que os dois jogos importantes da rodada não sejam disputados simultaneamente”, lamentou Sebastian Larsson), Robben advertiu: “O resultado [da Suécia] poderá nos impulsionar, saberemos o que será esperado de nós”.

Por enquanto, o que é esperado da Holanda é a confirmação da crise no futebol do país. Até pela baixa expectativa, e pelos maus resultados, ninguém espera que a sorte ajude. Enfim: torcida e imprensa já estão preparadas para a previsível decepção de ficar fora da Copa. A ver se a atitude terá sido precipitada ou previdente.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 6 de outubro de 2017)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Poucas esperanças


A seleção holandesa sub-21 atual tem a pesada função de dar alguma esperança de renovação. E começou mal (Pro Shots)

Que a seleção principal da Holanda vive uma crise, isso o leitor já sabe há muito tempo. E ela teve nova prova incontestável na semana passada, com as rodadas das Eliminatórias da Copa de 2018. Se a seleção da França ainda tem muito o que provar, também (algo indicado pelo empate relativamente vexatório com Luxemburgo – que teve um destaque em Gerson Rodrigues, que atua no Telstar, da segunda divisão holandesa), foi incontestável o 4 a 0 dos Bleus na Oranje, quinta-feira retrasada. E ninguém, torcida ou imprensa, se deixou levar excessivamente pelos 3 a 1 sobre a Bulgária, que manteve as esperanças remotas de ir à repescagem da qualificação europeia. Com o cenário desalentador na equipe adulta, a equipe laranja sub-21 vira esperança de dias melhores. Mas mesmo essa esperança também caiu, com o mau começo holandês nas eliminatórias da Euro sub-21.

Pois é: na equipe adulta, o que se vê são más atuações de um time que se divide entre veteranos e novatos. Os de mais idade ora se esforçam e mostram que têm algo a dar (Arjen Robben), ora têm dificuldades para encontrar ritmo (Wesley Sneijder foi tão lento contra a França que tornou inevitável sua ida para o banco contra a Bulgária; Robin van Persie entrou para jogar contra os franceses, lesionou o joelho e foi cortado). Já os novatos têm desempenhos altamente irregulares, entre o promissor – Davy Pröpper, contra a Bulgária – e o preocupante – Wesley Hoedt, contra a França. E assim, à beira de ficar fora da Copa, já começa o discurso: “Daqui a pouco a Holanda reage, daqui a pouco os garotos crescem e ganham experiência”.

Por isso, merecia alguma atenção a seleção sub-21 que também atuou nas datas Fifa. Tanto por alguns jogadores que até já estiveram na equipe principal (caso do meio-campista Bart Ramselaar), como pelo fato dela começar a disputar a qualificação para a Euro da categoria. E tendo um desafio respeitável no grupo 4, com apenas uma vaga direta para a edição de 2019, na Itália: a seleção da Inglaterra, semifinalista da Euro sub-21 realizada há dois meses - e reforçada por muita gente campeã mundial sub-20, como bem apontou Art Langeler, técnico da Jong Oranje (a “Laranja Jovem”).

Estreando na sexta passada, em Doetinchem, justamente contra a Inglaterra, a equipe treinada por Langeler teve desempenho até elogiável. Foi ofensiva e veloz no primeiro tempo contra os Young Lions – e também insegura defensivamente, como mostrou o contragolpe sofrido que levou ao gol de Dominic Calvert-Lewin para os ingleses, aos 20 minutos do primeiro tempo. Pelo menos, a velocidade continuou, e a troca de passes levou ao gol de Ramselaar para o empate, ainda aos 32 minutos, na etapa inicial. Continuando com uma atuação promissora, não faltou quem visse um consolo para as mazelas da equipe de cima no 1 a 1 dos jovens. Sensação fortalecida pelas palavras de Art Langeler: “Mostramos que a Holanda realmente tem muitos talentos, e que podemos disputar seriamente [a vaga]”.

Pois se a Holanda principal recuperou-se ligeiramente no domingo passado, foi a vez da Jong Oranje dar motivos para preocupação, na terça. Contra a Escócia, fora de casa, foi insegura defensivamente, sem conseguir a rapidez ofensiva da estreia. Segurou-se quanto foi possível, mas terminou sofrendo o 2 a 0 – para piorar, com o segundo gol escocês, de Stevie Mallan, mostrando falha do zagueiro Pablo Rosario, do PSV. Resultado: queda para a penúltima posição na chave, com apenas um ponto.

Derrota da Jong Oranje na semifinal da Euro sub-21 de 2013 já foi dura. Mas diante do que se vê agora, é honrosa (ANP)
Obviamente, há muito tempo para a seleção sub-21 se recuperar. Mas caso isso não ocorra, será mais um sinal preocupante para o futebol holandês. Não que apenas títulos sejam importantes para equipes jovens, mas participar do Europeu da categoria sempre é um sinal de que a reposição de veteranos será feita. E das Euros sub-21 da atual década, a Holanda participou da fase final apenas em 2013. Pior: dos titulares daquela campanha elogiável (queda para a Itália, nas semifinais), apenas Kevin Strootman e Stefan de Vrij são titulares absolutos na equipe adulta – Jeroen Zoet e Bruno Martins Indi até aparecem nas convocações, mas não conseguem uma sequência de atuações entre os titulares.

A preocupação só aumenta ao lembrar de eliminações anteriores da seleção holandesa, nas eliminatórias da Euro sub-21 – com regulamento diferente e apenas oito equipes na fase final, a Jong Oranje terminava liderando seus grupos, mas decepcionava na repescagem que definia os classificados. Para 2011, com Tim Krul, Luuk de Jong e Bas Dost titulares, queda para a Ucrânia onde jogava Yevhen Konoplyanka (derrota por 3 a 1 na ida, em casa, e vitória insuficiente por 2 a 0 na volta). Na edição retrasada, de 2015, mesmo com jogadores experientes (Terence Kongolo, Jetro Willems, Wout Weghorst), as atuações péssimas da defesa colocaram tudo a perder na repescagem de qualificação contra Portugal, futuro vice-campeão da categoria, contando com gente como Renato Sanches e Bernardo Silva (2 a 0 sofridos na ida, incrível derrota por 5 a 4 na volta).

E agora, este mau começo nas eliminatórias. Que ainda pode ser consertado. Há apostas: Ramselaar, Justin Kluivert, Steven Bergwijn, o atacante Gervane Kastaneer, até mesmo gente que pode se alternar entre seleção principal e sub-21 - como Timothy Fosu-Mensah, até chamado por Art Langeler antes da “promoção” às pressas na convocação de Dick Advocaat. Mas um novo fracasso diminuirá ainda mais as esperanças, mostrando que não bastará a confiança de que a nova geração um dia explodirá para o biênio 2020/2022. E só ampliará o desalento que vive o futebol holandês, em relação às suas seleções.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 8 de setembro de 2017)

domingo, 3 de setembro de 2017

Sobrevivendo no inferno

Robben foi um dos únicos a mostrar vontade, numa vitória insuficiente da Holanda (ANP/Pro Shots)

Depois da partida de quinta-feira revelar como a seleção da Holanda perdeu terreno no futebol europeu, graças aos 4 a 0 impostos pela França, a necessidade da Laranja nesta oitava rodada do grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018 era tão óbvia que é quase desnecessário citá-la: vencer a Bulgária. Pois bem, foi exatamente o que aconteceu, com os 3 a 1 vistos neste domingo, na Amsterdam Arena. O problema é que a Suécia também fez o óbvio: goleou Belarus fora de casa (4 a 0). E assim, seguem pequenas as chances da Holanda alcançar a repescagem para ainda tentar participar de um mundial pela 11ª vez.

Na entrevista coletiva dada no sábado, Dick Advocaat reconheceu a necessidade maior: "O jogo contra a França já foi. Precisamos de dedicação total contra a Bulgária. Precisamos vencer - e como isso será feito, não importa nada". Já na coletiva, o treinador antecipou algumas mudanças. Com a suspensão de Kevin Strootman, Tonny Vilhena já foi anunciado como titular no meio-campo. Recuperado das dores no joelho, Kenny Tete foi ocupar o lugar na lateral direita, como previsto. A surpresa veio pouco antes do jogo: Davy Pröpper receberia o voto de confiança como armador, enquanto Wesley Sneijder ia para o banco. À emissora pública NOS, Advocaat não fez rodeios: "Wesley não esteve na sua melhor forma contra a França. Então, é necessário tentar algo. Pröpper é bom com a bola nos pés, e se mexe mais. (...) Espero um time mais dinâmico, não podemos ficar tocando para lá e para cá".

Pelo menos no começo, deu muito certo. A Holanda mostrou mais velocidade pelas pontas - principalmente na esquerda, com Quincy Promes e Daley Blind aparecendo mais. E Pröpper justificou plenamente a aposta recebida, tentando não só criar, mas também aparecer na frente para a finalização. Símbolo disso tudo foi o primeiro gol, aos 7': Promes recebeu de Blind, tabelou com Vincent Janssen e cruzou para Pröpper finalizar na pequena área. Já significava algo: pelo menos, o desespero não seria tanto em busca do gol.

O que não quer dizer que a Oranje deslanchou a partir do 1 a 0. Longe disso. A Bulgária seguiu fechada em seu 4-1-4-1 (ou 4-4-2, quando não tinha a posse de bola), e a compactação impedia troca veloz de passes. Resultado: por várias vezes a bola tinha de ser recuada para Wesley Hoedt e Stefan de Vrij - e destes, até para Jasper Cillessen recomeçar as jogadas. Enquanto a Holanda atuava lentamente, a Suécia já encaminhava a vitória contra Belarus, fazendo 3 a 0 apenas na etapa inicial. E só para lembrar como a postura tática holandesa é deficiente, quase houve empate da Bulgária logo aos 17', quando Ivelin Popov cruzou e Georgi Kostadinov cabeceou na trave. Chance de gol para os holandeses? Só aos 34', quando Janssen enfim teve a bola nos pés, recuada por Pröpper, e arrematou rente à trave esquerda de Plamen Iliev. Ficava claro: a Holanda vencia, mas precisaria acelerar bem mais o jogo se quisesse diminuir a desvantagem no saldo de gols.

No segundo tempo, não só o marasmo seguiu, com a Holanda raramente achando espaços, como a Bulgária até começou a arriscar mais, com o espaço no meio-campo. Ainda assim, ficava demais depender apenas da dupla Popov-Kostadinov para fazer Cillessen trabalhar. Pelo lado laranja, de nada adiantava Janssen aparecer mais no jogo, se seus chutes invariavelmente saíam pela linha de fundo. Mais confiança mereciam Blind, Promes, Pröpper... e Robben. Três deles participaram da jogada do 2 a 0, aos 67': Promes passou, Blind cruzou, Robben escorou para fazer seu 34º gol pela seleção (sexto goleador na história, superando a marca dos 33, alcançada por Johan Cruyff e Abe Lenstra).

Novamente para lembrar a fragilidade crônica holandesa, a Bulgária diminuiu quase na sequência, quando Ivelin Popov cobrou falta e Kostadinov, quase imperceptivelmente, desviou a bola na área, fora do alcance de Cillessen - e sem marcação nenhuma. Tudo bem, a Holanda até merecia vencer - e assegurou os três pontos com o segundo gol de Pröpper, aos 80', de cabeça. Mas se sabia que era um triunfo com pouco significado. Primeiro, porque a goleada da Suécia ampliava a diferença no saldo de gols, primeiro critério de desempate nas eliminatórias da Copa (+11 para os suecos, +5 para os holandeses).

Em segundo lugar, porque a Oranje nunca deu a real impressão de que poderia golear os búlgaros - algo criticado pelo capitão Robben à NOS: "É necessário vencer, por muitos gols. Mas achei o time apático no segundo tempo. É necessário marcar. Há vontade, mas é necessário mais movimentação". Em terceiro lugar, porque algumas alterações pedidas não foram testadas, mesmo com a vitória garantida - como experimentar Bas Dost no lugar de Janssen.

E a única esperança holandesa é saber que ainda sobrevive ("Ainda estamos na briga", falou Robben; "Nada é impossível", apregoou Pröpper"). No entanto, o pessimismo é geral na Holanda: se o adversário da próxima rodada é Belarus, o da Suécia é Luxemburgo, que também oferece possibilidade de aumentar o saldo de gols. A Laranja sobrevive no inferno: segue em crise, longe de um lugar na Copa do Mundo. Nem mesmo o auxiliar técnico Ruud Gullit falando em "vitória fantástica", num vídeo que postou em seu perfil no Twitter, ilude mais.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 3x1 Bulgária
Data: 3 de setembro de 2017
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Anastasios Sidiropoulos (Grécia)
Gols: Davy Pröpper, aos 7' e aos 80'; Arjen Robben, aos 67', Georgi Kostadinov, aos 69'

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum e Tonny Vilhena; Arjen Robben, Davy Pröpper (Marco van Ginkel, aos 86') e Quincy Promes; Vincent Janssen. Técnico: Dick Advocaat

Bulgária
Plamen Iliev; Strahil Popov, Vasil Bozhikov, Georgi Terziev e Petar Zanev; Atanas Zehirov (Georgi Slavchev, aos 46'); Ivailo Chochev, Georgi Kostadinov, Aleksandar Tsvetkov (Simeon Slavchev, aos 24') e Stanislav Manolev (Andrei Galabinov, aos 60'); Ivelin Popov. Técnico: Petar Hubchev

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Inacreditável

A França já vinha melhorando antes deste gol de Griezmann, que abriu o placar. Daí por diante, foi o previsível diante de uma Holanda cada vez pior (Christophe Ena/AP)
O que é inacreditável? Seguramente, não é o fato da França ter vencido a Holanda, no grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018, nesta quinta. E diante do que se viu no campo do Stade de France, não é inacreditável nem mesmo a goleada por 4 a 0. Nada mais lógico do que ver uma seleção como a francesa, com vários jogadores cobiçados Europa afora, no último dia da janela de transferências, impondo seu nível técnico diante de uma Laranja cada vez mais desmoralizada.

De modo até curioso, o 4-3-3 com que a seleção holandesa entrou em campo (com a estreia de Timothy Fosu-Mensah pela equipe) até fez alguns minutos calmos, mantendo a posse de bola diante dos Bleus. Todavia, não tinha nenhum espaço para conseguir fazer jogadas, entre as linhas muito bem postadas e treinadas da equipe da casa. Aí, foi o de sempre: a partir dos 10 minutos do primeiro tempo, a equipe azul começou a ter mais a posse de bola. E diante de uma Holanda com incapacidade crônica de se recompor rapidamente na defesa, ditou o jogo como e quando quis.

Opções de jogada para os franceses não faltavam. Na esquerda, Layvin Kurzawa sempre estava à disposição para os ataques; na direita, eram dois jogadores à disposição, com Djibril Sidibé e Kingsley Coman (ótima atuação); pelo meio, N'Golo Kanté mostrava não só a disposição de sempre nos desarmes, mas também alta capacidade para trabalhar a bola. O único problema francês era a atuação deficiente de Paul Pogba. Por sorte, Antoine Griezmann voltava quase sempre ao meio para acelerar o jogo. Assim conseguia fazer jogadas, com o grande espaço que a defesa holandesa oferecia. Assim Griezmann abriu o placar, aos 14', após tabela com Olivier Giroud, passando facilmente por Wesley Hoedt, que apenas prestou atenção na bola.

Para a seleção holandesa, o pior não era perder. Até porque a Bulgária "fazia seu papel", com a vitória momentânea sobre a Suécia na partida simultânea. O pior era notar que não havia como avaliar sua atuação, porque... não havia atuação. Os desarmes eram facilmente feitos já quando Kevin Strootman ou Georginio Wijnaldum tinham a bola. Ou seja, a esférica sequer chegava a Wesley Sneijder ou Arjen Robben, para a criação de jogadas - quando muito, Quincy Promes a tinha nos pés. Para nem falar de Vincent Janssen, escolhido como atacante titular, que tocou na bola apenas nove vezes nos primeiros 45 minutos. Em suma: o goleiro da França, Hugo Lloris, sequer precisou fazer uma defesa digna do nome. Enquanto isso, Jasper Cillessen sempre precisava de atenção na meta holandesa - se falhou no gol de Griezmann, levado por baixo das pernas, fez boa defesa em arremate de Coman, aos 39'. Para piorar, a Suécia empatou contra a Bulgária no fim da etapa inicial.

Algo precisava ser feito. Dick Advocaat tentou fazer: para acelerar o meio-campo holandês, tirou Sneijder e colocou Tonny Vilhena para o segundo tempo. O espaço para jogadas laranjas até apareceu, já que a França começou a avançar. Ainda assim, na hora de perturbar o adversário, os anfitriões eram muito mais efetivos em Saint-Denis. O segundo gol quase veio já aos 53', quando Giroud e Pogba tiveram a bola nos pés, mas chutaram-na em cima da defesa. A velocidade do meio-campo francês desnorteava a Holanda, e o símbolo disso foi Kevin Strootman, expulso em seis minutos: levara o amarelo aos 56', após derrubar Kanté com um carrinho, e recebeu depois o vermelho - até injusto, pelo juiz Gianluca Rocchi ver pisão inexistente do camisa 8 holandês em Griezmann.

Cheia de lamentações como as de Van Persie, a Holanda ainda pode chegar à Copa, por incrível que pareça (Stanley Gontha)
Aí, já não adiantava nada. Nem a entrada de Robin van Persie, substituindo Janssen para tentar fazer o ataque holandês aparecer mais. Nem a grande chance do empate que Robben perdeu aos 69': após erro de Lloris na saída de bola, Promes cruzou da esquerda, e o capitão da Laranja cabeceou na área, em cima de Samuel Umtiti, que estava na pequena área. Não adiantava mais, porque os espaços estavam ainda mais abertos, e a França só precisava aproveitar uma. Aproveitou aos 73', com o belo gol de Thomas Lemar. Jogo definido, até Kylian Mbappé, febre europeia, pôde entrar - e marcar seu primeiro gol, o quarto da França, já nos acréscimos, minutos após Lemar fazer o terceiro. Sem contar outras ocasiões em que Cillessen precisou defender - como em chutes de Mbappé, aos 80', e Alexandre Lacazette, aos 87'.

4 a 0. Não era apenas a pior derrota da Holanda para a França; era também a pior derrota da história holandesa em partidas de competição, excetuando-se os torneios olímpicos. Houve força apenas para declarações humildes de Dick Advocaat, à emissora holandesa NOS: "Nunca estivemos no ritmo do jogo. A França foi muito melhor, em todos os aspectos. E 4 a 0 é um resultado exagerado, estou um pouco chocado". Na zona mista, Kevin Strootman criticou o árbitro sem se esquecer de apontar o dedo para a sua péssima atuação, frouxa na marcação: "O juiz foi do mesmo nível que eu, hoje". E Sneijder foi definitivo: "Precisamos conversar bastante. Não conseguiremos mais chances". Chances? Pois é, a Holanda ainda tem. No fim do jogo, a Bulgária fez 3 a 2 na Suécia - para ânimo repentino de Robben, que soube enquanto falava à NOS: "Sério [que a Bulgária ganhou]? Ótimo, vou contar ao pessoal no vestiário! Parabéns à França, e agora temos de partir para a Bulgária".

Se por um lado o triunfo búlgaro representou a queda laranja para a quarta posição do grupo A, com 10 pontos, abriu possibilidade para superar Bulgária e Suécia nos jogos diretos e ainda conseguir lugar na repescagem - a Bulgária, aliás, já pode ser superada no domingo, em Amsterdã. De mais a mais, a diferença no saldo de gols para a Suécia (7 dos suecos, 3 dos holandeses) ainda é descontável. 

Ou seja: apesar de desmoralizada, a seleção da Holanda ainda depende de suas próprias forças para alcançar a repescagem nas eliminatórias europeias. Não merece chegar à Copa, mas ainda sonha com ela. Isso, sim, é inacreditável. Aliás, quem consegue acreditar que a Holanda ganhará da Bulgária?

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
França 4x0 Holanda
Data: 31 de agosto de 2017
Local: Stade de France, em Saint-Denis
Juiz: Gianluca Rocchi (Itália)
Gols: Antoine Griezmann, aos 14'; Thomas Lemar, aos 73' e 88', e Kylian Mbappé, aos 90' + 1

França
Hugo Lloris; Djibril Sidibé, Laurent Koscielny, Samuel Umtiti e Layvin Kurzawa; N'Golo Kanté, Kingsley Coman (Alexandre Lacazette, aos 80'), Paul Pogba e Thomas Lemar; Antoine Griezmann (Nabil Fekir, aos 89') e Olivier Giroud (Kylian Mbappé, aos 75')  Técnico: Didier Deschamps

Holanda
Jasper Cillessen; Timothy Fosu-Mensah, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum e Kevin Strootman; Arjen Robben, Wesley Sneijder (Tonny Vilhena, no intervalo) e Quincy Promes; Vincent Janssen (Robin van Persie, aos 64'). Técnico: Dick Advocaat

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Apostando em tudo que pode

Holanda se prepara com toda a concentração. Afinal, as datas FIFA praticamente definirão o destino nas eliminatórias da Copa (ANP)

Após tantas decepções, principalmente nos últimos dois anos, a seleção da Holanda não recebe muita confiança – e nem a merece, aliás. Todavia, na rodada passada do grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018, a vitória sobre Luxemburgo (e a derrota da França para a Suécia) devolveu um pouco a esperança à Laranja. Enfim, chegou a hora de confirmar tal esperança – ou de afundar no desânimo. Porque, a partir destas datas FIFA, todas as partidas serão “decisões”. A primeira, nesta quinta-feira, já é a mais importante de todas: contra a França, em pleno Stade de France. E a Holanda precisa ganhar.

Pode parecer exagero, mas é a única alternativa para a equipe, se ainda quiser depender só de si para ter uma das duas vagas - direta ou na repescagem – e tentar estar na Rússia a partir de 14 de junho de 2018. Além de ser o resultado mais esperado pela maioria, uma derrota para os Bleus (na segunda colocação do grupo, com 13 pontos) seria naturalmente desastrosa para a Oranje (3ª colocada, com 10): a diferença dentro do grupo poderia ir a seis pontos, tanto para os franceses quanto para os suecos (líderes, com 16 pontos), caso estes vençam o jogo direto e simultâneo contra a Bulgária, em Sófia. Ou seja, a Holanda ficaria praticamente fora da Copa, se ausentando de outro torneio grande em sequência, pela primeira vez em 32 anos - não esteve nem na Euro 1984, nem na Copa de 1986. 

Nem mesmo um empate ajudaria: se por um lado, viria um ponto, pelo outro seguiria até o risco de cair para a quarta posição, em caso de vitória búlgara. Vencer seria triplamente importante. Primeiro, porque devolveria a Holanda definitivamente à disputa por uma vaga na Copa, podendo ficar a apenas um ponto da liderança, caso Suécia e Bulgária empatem. Segundo, porque colocaria a equipe laranja numa posição insuspeita de vantagem para as “decisões” seguintes: jogaria em casa contra Bulgária (já no próximo domingo, em Roterdã, às 13h) e Suécia (fechando a campanha nas eliminatórias, às 15h45 de 10 de outubro). Terceiro, e talvez mais importante: daria motivos para confiança na equipe holandesa. 

Para tentar alcançar tal façanha, Dick Advocaat fez uma convocação na qual decidiu apostar em todos os recursos à disposição. Jovens com potencial? Estão lá: apostou-se em Kenny Tete, de ótimo começo pelo Lyon na temporada. Donny van de Beek, que tem mostrado personalidade ao substituir Davy Klaassen no meio-campo do Ajax, foi chamado pela primeira vez - ainda que tenha falhado num dos gols do Rosenborg, na partida que eliminou o Ajax da Liga Europa. Wesley Hoedt, de atuação promissora contra Luxemburgo, também figurou entre os 23 - como Tonny Vilhena, que segue fundamental no Feyenoord, e Matthijs de Ligt, ainda badalado no Ajax. Até mesmo Timothy Fosu-Mensah, chamado para a seleção holandesa sub-21 que também jogará, foi incluído às pressas no elenco principal, caso Tete seja cortado (sente dores no joelho).

As surpresas começaram com alguns retornos. Quase três anos e meio após sua primeira e única partida pela Oranje adulta (justamente contra a França – um amistoso, em março de 2014, também em Saint-Denis), o zagueiro Karim Rekik foi chamado, mesmo ainda iniciando sua passagem pelo Hertha Berlim. Ao chegar à apresentação, no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk, Rekik assumiu: “Eu não contava com isto [a convocação], mas só torna ainda melhor”. Porém, Rekik claramente será reserva. A maior surpresa veio no ataque.

Claro, a convocação de Advocaat não ousaria prescindir de Wesley Sneijder e Arjen Robben – mesmo ainda voltando de lesão lombar sofrida nas férias, bastou Robben jogar confiavelmente pelo Bayern de Munique para estar na lista. O inesperado veio com a presença de Robin van Persie. Que estivesse na lista preliminar, tudo bem – nela estava até mesmo Ryan Babel, presença também surpreendente. Mas pouco se previa que Van Persie ficaria entre os 23 finais. E as evasivas declarações de Dick Advocaat para justificá-la (“Ele ainda é um dos melhores atacantes holandeses, por isso foi convocado. Havia dúvidas sobre sua forma, mas ele tem jogado pelo Fenerbahçe”) não esclareceram a surpresa. Ficou na conta do tempo juntos, no clube turco.

Volta de Van Persie surpreendeu. Seja como for, é a grande chance do atacante ter um novo final em sua trajetória na seleção (ANP)
De todo modo, se há uma ocasião para Van Persie reescrever o final de sua história com a camisa laranja, aos 34 anos recém-completos, é essa. Até porque sua última partida – há quase dois anos, em 13 de outubro de 2015 -, foi justamente a vexatória derrota por 3 a 2 para a República Tcheca, em plena Amsterdam Arena, confirmando a ausência holandesa da Euro 2016, com direito a gol contra “à la Oséas” do próprio atacante. Que, mesmo do alto da fama de maior goleador da história da seleção (50 gols), se apresentou com humildade: “Nem sempre eu estive bem o suficiente para ser convocado, a vida no futebol é assim, eu entendo, não tenho rancor de ninguém [pela ausência]. Estou apenas feliz. Não é a situação ideal para voltar, mas se temos uma chance, temos de buscá-la com tudo”. 

Uma lesão no ombro sofrida contra o Vardar-MCD, pela Liga Europa, quase causou seu corte, mas ter se apresentado e participado dos treinos desde segunda-feira passada faz crer que, se necessário, Van Persie pode até começar jogando. Não é provável, já que Dick Advocaat ainda aposta em Vincent Janssen ou Bas Dost como opções principais. Mas convém pensar que ele possa ser uma surpresa (jogaria junto de Sneijder e Robben pela primeira vez desde novembro de 2014), diante da grande experiência do retornado e das decepcionantes atuações de Janssen e Dost vestindo laranja - ainda mais no caso de Dost, que segue bem no Sporting. Assim como também surpreenderá o retorno do 5-3-2 visto na Copa do Mundo passada, opção experimentada num treino sem a imprensa, em Amsterdã, nesta terça.

De resto, o discurso foi o previsível: cheio de otimismo e vontade. Às vezes com mais introspecção, no caso do estreante Van de Beek, que apenas se disse “lisonjeado” pela confiança de Advocaat. Com mais ousadia, no caso do próprio técnico da seleção: “Por que não podemos vencer? Não devemos ter medo, também temos bons jogadores”. Com reconhecimento dos próprios erros, no caso de Kevin Strootman: "A pressão é grande, mas permitimos que isso acontecesse". E com a confiança digna do capitão que Robben é: “Não podemos pensar que somos menores. Podemos dizer que será difícil, e que a França tem um melhor time. Mas se é para pensar assim, é melhor ficar em casa”.

E chegou a hora da Holanda tentar evitar o destino pessimista que se prevê para ela nas eliminatórias da Copa. Por mais que também tenha muito o que melhorar, a França parece melhor e mais capacitada tecnicamente para deixar a Oranje definitivamente afastada do Mundial. Uma derrota no Stade de France teria até consequências futuras: representaria o fim da geração de Robben, Sneijder e Van Persie, além de transformar as três partidas restantes da qualificação em amistosos potencialmente melancólicos. Mas a Holanda irá a campo apostando em tudo o que pode apostar para tentar surpreender. Se serve de ânimo, também era assim antes de pegar o Brasil, na Copa de 2010, ou a Espanha, na Copa de 2014...

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de agosto de 2017)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Esperanças e desesperanças

Robben (à esquerda) ajudou, Sneijder viveu um dia marcante... e a Holanda cumpriu o esperado: goleou (Reuters)
Após muito tempo, havia relativo prazer em ver uma partida da seleção holandesa. Nada que estivesse enchendo realmente os olhos de torcida e imprensa, mas, ora bolas, pela primeira vez desde 1983 a Laranja vencia dois jogos em sequência por 5 a 0. E ainda que o adversário fosse a seleção de Luxemburgo, extremamente frágil (pior até do que na atuação honrosa tida na derrota por 3 a 1 para os holandeses, em novembro passado), tratava-se de um jogo pelas eliminatórias da Copa de 2018. E nelas, cada ponto conta para evitar que a Oranje outra vez fique ausente de um torneio importante.

E havia razão para ver um certo otimismo. Se a seleção holandesa não ofereceu brilhantismo em De Kuip (longe disso), cumpriu à perfeição o que Dick Advocaat preconizara na entrevista coletiva em que foi apresentado, na terça-feira passada: o importante seria o resultado. Enquanto tiveram mais espaço e motivação, os visitantes luxemburgueses até atacaram vez por outra - como em chutes de Vincent Thill, aos 16', e Christopher Martins, aos 19'. Todavia, quando achava espaço entre as linhas compactadas para atacar, a Holanda atacava. Às vezes, até com alguma "ajuda" do adversário - como aos 9', quando Vincent Janssen ficou livre com a bola após erro na saída, mas não conseguiu passar pelo goleiro Ralph Schön - que fez boa defesa em novo arremate do atacante, aos 14.

Porém, por essa atenção e as boas atuações dos veteranos Arjen Robben e Wesley Sneijder, era fácil supor que o gol aconteceria. Aconteceu aos 21', quando outra falha de Luxemburgo na saída de bola foi aproveitada por Wesley Hoedt (boa e segura atuação), que tabelou com Sneijder antes de lançar em profundidade para o capitão Robben dominar e fazer 1 a 0. O jogo estava praticamente ganho - e a impressão só aumentou aos 34', com o gol que aumentou a bonita festa por Wesley Sneijder, se isolando como recordista de aparições com a camisa laranja - 131, desde 2003 -, finalizando com precisão bela triangulação envolvendo Janssen e Memphis Depay, que ajeitou a bola de calcanhar para o camisa 10 marcar o segundo gol. Nada mais merecido para abrilhantar as homenagens a Sneijder, que teve tudo o que quis: celebração da torcida (até com bandeira estampando seu rosto), saudações variadas (de Edwin van der Sar, antigo detentor do recorde de partidas, a um vídeo com quase todos os técnicos que o comandaram na seleção), a presença da família (a esposa Yolanthe e os filhos).

Com o momentâneo empate entre Suécia e França e a surpreendente vitória de Belarus sobre a Bulgária, ficava a boa impressão de que a sorte poderia sorrir à Laranja - como fechara a cara, na aziaga derrota para os búlgaros em março. Impressão ampliada no segundo tempo, quando Luxemburgo deixou de lado a compactação defensiva e passou a ser apenas o sparring esperado, com uma defesa fraca e, às vezes, até violenta - cinco cartões amarelos no jogo. Aí, foi só esperar os gols. Que vieram - com Georginio Wijnaldum, com Quincy Promes (que segue aproveitando as chances que tem e se fixando no grupo de convocados habituais), com Janssen convertendo pênalti surgido de mais uma bobeada dos visitantes na saída de jogo. Isso, sem contar as várias chances perdidas (enquanto esteve em campo, Robben perdeu duas chances). A goleada por 5 a 0 era até previsível, e ninguém se empolgaria com ela. Mas diante de tudo que a seleção holandesa passou nos últimos meses, era um afago no ego.

Afago que perdeu boa parte da graça com o gol de Ola Toivonen (belíssimo, aliás) que deu a vitória à Suécia contra a França. Gol que levou os suecos à liderança do grupo A, embolando de vez a situação. E aumentando tanto a dificuldade da situação batava quanto a dimensão da obrigação: vencer todos os jogos, se quiser no mínimo uma vaga para a repescagem da qualificação europeia para a Copa. Vaga quase impossível, para alguns. Ainda assim, o capitão Robben mostrou a altivez de sempre à televisão pública holandesa: "Naturalmente, esperávamos por uma vitória francesa. Mas não se pode influir em outros jogos. Positivamente falando, também podemos chegar à liderança do grupo". De fato. 

Será muito difícil, pelo que a seleção da Holanda não mostra. Mas se tampouco a França, suposta favorita da chave, anda jogando bem, e se Suécia e Bulgária serão recebidas em casa para os outros jogos decisivos, também não parece impossível ver a Oranje chegar à Rússia. Torcida e imprensa seguem divididas entre esperanças e desesperanças. Mas sonhar ainda não custa nada.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 5x0 Luxemburgo
Data: 9 de junho de 2017
Local: Estádio Feijenoord (De Kuip), em Roterdã
Juiz: Bartosz Frankowski (Polônia)
Gols: Arjen Robben, aos 21'; Wesley Sneijder, aos 34'; Georginio Wijnaldum, aos 62'; Quincy Promes, aos 70'; Vincent Janssen, aos 84'.

Holanda
Jasper Cillessen; Joël Veltman, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum, Kevin Strootman e Wesley Sneijder (Nathan Aké, aos 82'); Arjen Robben (Jeremain Lens, aos 73'), Vincent Janssen e Memphis Depay (Quincy Promes, aos 66'). Técnico: Dick Advocaat

Luxemburgo
Ralph Schön; Laurent Jans,  Maxime Chanot (Ricardo Delgado, aos 26'), Enes Mahmutovic e Kevin Malget; Christopher Martins; Stefano Bensi, Gerson Rodrigues (Florian Bohnert, aos 85'), Vincent Thill (Lars Gerson, aos 54') e Sébastien Thill; David Turpel. Técnico: Luc Holtz

sábado, 25 de março de 2017

Esqueçam

Danny Blind parece perguntar: "o que eu posso fazer?". A federação talvez faça, com a demissão (Maurice van Steen/VI Images)
Na sexta, 24 de março, este blog publicou a coluna cujo faz-tudo publica no site Trivela, há quase nove anos. E o tom era até positivo: indicava que a seleção da Holanda passava por um período de depressão, mas que estava notando, pouco a pouco, que a vida continua. E que a Laranja não era um time irremediavelmente ruim. Podia muito bem vencer a Bulgária, em Sófia, pela quinta rodada das eliminatórias europeias para a Copa de 2018 - e, a partir disso, poderia provar a superioridade em relação às outras seleções do grupo A (excetuando-se a França).

Pois bem, o que se viu neste sábado, no estádio Vasil Levski, fez com que o blogueiro se reavaliasse pesadamente. E que era melhor esquecer o conteúdo publicado no dia anterior: sim, a Holanda é um time ruim. Já passava por dificuldades, claro. Mas, bem ou mal, notavam-se perspectivas aqui e ali: o empate fora de casa contra a Suécia, uma derrota honrosa para a França em casa, a vitória tranquila sobre Belarus. No entanto, a vitória sobre Luxemburgo já tivera dificuldades. E por fim, fazia tempo que a Laranja não passava uma impressão tão desalentadora, tão desanimadora, quanto a que se viu na derrota por 2 a 0 para a Bulgária, que deixou a equipe na quarta posição do grupo.

O desânimo que tomou conta da torcida holandesa (e o volume das críticas dos jornalistas) só foram menores, talvez, do que a surpresa provocada pelo técnico Danny Blind, tão logo a escalação foi anunciada. Sem Stefan de Vrij, lesionado no tornozelo, a zaga precisava de mudanças. E Blind deu chance imediata e inesperada a Matthijs de Ligt, 17 anos e sete partidas pela equipe adulta do Ajax no Campeonato Holandês. Já parecia ousadia demais convocar De Ligt, e ele figurou na lista de 25 chamados. Escalá-lo, então, parecia insensatez. Mas o novato tornou-se o estreante mais jovem da história da Oranje desde 1931, formando a zaga que começou jogando em Sófia com Bruno Martins Indi. Outra surpresa: para tornar o meio-campo mais acelerado, Blind colocou Davy Klaassen como titular no setor, junto a Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum, deixando Wesley Sneijder no banco de reservas.

Em entrevista à tevê holandesa, antes do jogo, Blind assumiu a responsabilidade pela escalação de De Ligt: "É um risco assumido. Eu não tenho um zagueiro destro [Martins Indi é canhoto]: não tenho Bruma, não tenho Van Dijk, nem mesmo Vlaar. Confio nele, pelo desempenho nos treinos". Porém, apostando nas bolas longas e na pressão contra a saída de bola holandesa, a Bulgária ensaiava trazer mais perigo - tanto que conseguira falta próxima à área, já nos primeiros segundos de jogo. Bastaram apenas cinco minutos de jogo para que se visse quanto a aposta do treinador fora errada e irresponsável. Num dos lançamentos longos, De Ligt falhou ao tentar acompanhar Spas Delev. E o atacante búlgaro aproveitou saída hesitante de gol de Jeroen Zoet (que ainda atrapalhou De Ligt) para ficar com a meta à sua frente, e fazer 1 a 0.

De Ligt (no centro) foi a aposta de Blind. E jogado na fogueira, queimou-se como um garoto desamparado (ANP)
O gol definiu o espírito da partida. Motivou ainda mais a Bulgária para continuar pressionando a saída de bola, já no meio-campo, contra uma Holanda que seguia em sua via-crúcis: um time dando espaço para os contra-ataques, perdendo bolas no meio-campo (principalmente com Kevin Strootman, de atuação péssima) - e quando tinha a posse de bola, tentava tocar para achar espaço no 4-1-4-1, de modo infrutífero. Além de sempre procurar a aposta de sempre, Arjen Robben, que tentava puxar espaço pela direita - sem estar, no entanto, no 1-contra-1 em que é tão bom, sempre tendo dois marcadores à sua espera.

Com os espaços deixados nas costas de Rick Karsdorp e Daley Blind, pelas laterais, a Bulgária chegava costumeiramente - principalmente pela direita, com o dia elogiável de Stanislav Manolev. Não demorou muito e, aos 20', veio o merecido segundo gol, em nova infelicidade de De Ligt. Mais uma bola longa, e Delev teve espaço para dominar a bola, virar-se e arriscar belo chute colocado, no canto esquerdo de Zoet, para deixar os anfitriões em definitiva tranquilidade com o 2 a 0.

Pior ainda do que a fragilidade na defesa, era a inatividade holandesa no meio-campo e no ataque. Bem postada na defesa, a Bulgária não dava espaço para criação de jogadas. No entanto, já com vantagem suficiente no placar para poder apostar nos contra-ataques, começou a ficar na defesa. Aí, a Holanda começou a tentar ataques - e esbarrou na própria inapetência. Apenas Davy Klaassen e Bas Dost tentavam algo. Porém, raras vezes se entendiam, e as bolas ficavam nas mãos do goleiro Nikolay Mihaylov. A falta de criação no meio-campo era tão exasperante que Robben precisava trazer a bola da direita para o setor. Mas, aos poucos, aos trancos e barrancos, a Oranje tentava algo. Principalmente, com Dost. Aos 40', o chute do atacante saiu longo, por cima do gol; mas aos 44', veio a primeira grande chance (talvez a única holandesa no jogo). Num lançamento de Strootman, Klaassen escorou de cabeça, e o atacante bateu pela linha de fundo.

A essa altura, no final do primeiro tempo, Danny Blind já colocara para aquecer o Wesley Sneijder velho de guerra, mais Wesley Hoedt, zagueiro. E ambos entraram para o segundo tempo. A entrada de Sneijder era mais do que justa, no lugar de um anônimo Georginio Wijnaldum. No entanto, o mal já estava feito, e não dava para notar na substituição de De Ligt por Hoedt um lamentável ar de "fritura", como se um jovem de 17 anos fosse o único culpado dos males que ocorriam para a Laranja em Sófia.

Tanto De Ligt não era culpado que o segundo tempo seguiu no mesmo ritmo do primeiro. A Holanda seguiu com a posse de bola - e sem saber o que fazer com ela. Até forçou Mihaylov a trabalhar mais: num chute de Quincy Promes, aos 58', e num arremate de Klaassen (após triangulação com Sneijder e Dost), aos 62'. Mas o time seguia perdido, atarantado contra uma Bulgária que já conseguira o que queria. E talvez a grande prova de como a Holanda esteve perdida em campo veio aos 70', com a entrada de Luuk de Jong no lugar de Quincy Promes. Luuk foi fazer a dupla de ataque com Bas Dost, enquanto Sneijder foi ocupar a lacuna deixada na ponta esquerda. Dois atacantes altos - mas nem Sneijder, nem Robben têm o cruzamento para a área entre suas características principais. E a pressão que a Holanda ensaiava morreu.

Aí, foi inevitável a derrota. Justa, mas inesperada. Que colocou a Holanda na quarta posição do grupo A, superada pela própria Bulgária. E que começou a tornar a chegada à Copa de 2018 algo distante: não só pela distância para a França, líder do Grupo A (12 pontos), mas pela distância para a repescagem (já são seis pontos para a Suécia, vice-líder, que goleou Belarus - 5 a 0). E mesmo que chegue à segunda posição, em caso de esperada derrota para a França, a Laranja ficaria com a perspectiva de chegar apenas a 19 pontos. Muito provavelmente, seria a pior segunda colocada - logo, não teria a vaga na repescagem.

Robben lamenta em gestos. E em palavras: "Dizer o quê?" (European Press Agency)
Porém, mesmo a repescagem parece distante demais, após a atuação triste neste sábado. Arjen Robben, o capitão, sintetizou tudo em duas frases: "Dizer o quê? É um pesadelo". Após entrar no segundo tempo, Wesley Hoedt mostrou certo inconformismo com a opção de Blind por De Ligt: "Eu aceito, mas não entendo. Escalar [De Ligt] porque é destro? Oras, Van Dijk e Bruma são destros e podem jogar juntos. Por que dois canhotos [Hoedt e Martins Indi] não poderiam?" E Sneijder também fez algumas críticas: "Faltou eficiência e agressividade. Não dá para treinarmos duro como treinamos, e aí começar o jogo de uma maneira tão ruim. Parece que jogamos no lixo outra chance de estar num grande torneio".

Para Blind, restou a tristeza, expressa nas frases à tevê holandesa: "Estou triste. Foi uma atuação muito ruim, está claro. Eles marcaram na primeira bola longa que conseguiram no jogo. Daí, puderam jogar como queriam". E talvez, a consciência de que sua sina de demissionário já está marcada, com tantos resultados ruins: "Eu preciso pensar, e a federação também fará isso". Na entrevista coletiva, mais indicações: "Preciso ser honesto, comigo e com a federação". Honestidade que Arjen Robben já mostrou, ao criticar o alarido pedindo a demissão de Blind: "Não acho que um novo técnico traria jogadores diferentes dos que estão aqui. Já antes da Copa de 2014 não tínhamos muita qualidade". E confirmando que não jogará o amistoso contra a Itália: "Combinamos que eu voltaria [ao Bayern] depois de hoje. Não estou fugindo da raia, mas nada está em jogo na terça".

Bem, se algo estava em jogo, a Holanda perdeu. E talvez o amistoso contra a Itália seja apenas o começo da procura nos escombros, após mais um vexame para a longa coleção dos últimos anos. Esqueçam o que se escreveu aqui: sim, a seleção da Holanda está ruim. Muito ruim.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Bulgária 2x0 Holanda
Data: 25 de março de 2017
Local: Estádio Vasil Levski, em Sófia
Juiz: William Collum (Escócia)
Gols: Spas Delev, aos 5' e 20'

Bulgária
Nikolay Mihaylov; Strahil Popov, Bozhidar Chorbadzhiyski, Vasil Bozhikov e Petar Zanev (Anton Nedyalkov, aos 86'); Simeon Slavchev; Stanislav Manolev, Georgi Kostadinov, Ivelin Popov (Bozhidar Kraev, aos 67') e Aleksandar Tonev; Spas Delev (Nikolay Bodurov, aos 88'). Técnico: Petar Hubchev

Holanda
Jeroen Zoet; Rick Karsdorp, Matthijs de Ligt (Wesley Hoedt, no intervalo), Bruno Martins Indi e Daley Blind; Kevin Strootman, Davy Klaassen e Georginio Wijnaldum (Wesley Sneijder, no intervalo); Arjen Robben, Bas Dost e Quincy Promes (Luuk de Jong, aos 68'). Técnico: Danny Blind

sexta-feira, 24 de março de 2017

A vida continua


Após algum tempo, enfim Danny Blind pode se apresentar um pouco mais otimista com a Holanda (European Press Agency)
Desde a fracassada participação nas eliminatórias da Euro 2016, a seleção da Holanda vive uma espécie de “depressão”. Para uma seleção tradicional como é a do país batavo, a ausência impactou demais – é certo que ficar de fora da Copa de 2002 foi até mais feio, mas a repercussão ainda era menor (embora já considerável). Pior: a “depressão” é agravada por dois fatores. A lembrança recente do que a seleção pode fazer (nem parece que se fala de uma equipe que fez o que fez na Copa de 2014, quando ninguém esperava o terceiro lugar, e que estava acostumada a despachar adversários nas eliminatórias dos torneios), e a desconfiança constante de torcida e acompanhantes de futebol em geral, a partir da ausência da Euro. A ponto de já se falar, até exageradamente, que a Holanda viverá uma espécie de “hungarização”, estando condenada a viver das lembranças para sempre, nos clubes e na seleção. Como a Hungria, após 1954 – participação na Euro 2016 à parte.

Tal desconfiança tem razão de ser. Afinal, também não se supunha que o vexame holandês fosse ser tão grande na qualificação para o torneio continental de seleções. Sem contar a dificuldade na renovação de jogadores, já abordada nesta coluna. No entanto, o olhar de soslaio para a Laranja já está tomando um vulto grande demais. E o grupo convocado para as datas Fifa – neste sábado, contra a Bulgária, em Sofia, pelas eliminatórias da Copa de 2018, e na próxima terça, em amistoso contra a Itália, na Amsterdam Arena – tem as condições de provar que, se não é a melhor geração de jogadores que a Holanda teve (longe disso), também não é a pior, como parece.

Para começo de conversa, os trabalhos de preparação dos 25 jogadores convocados, em Noordwijk, já tiveram um clima mais otimista. E ao olhar para a relação feita por Danny Blind, ela até abre algumas possibilidades. Principalmente num setor sempre problemático: a defesa. Que, tudo indicava, sofreria ainda mais para estes jogos: afinal, com as lesões de Jeffrey Bruma e Virgil van Dijk, nenhum dos zagueiros titulares nas últimas partidas de 2016 estará à disposição. 

Mas, se Bruma e Van Dijk estão machucados, Stefan de Vrij está recuperado e voltou a ser lembrado. Como já mostrou na Copa de 2014, o zagueiro oferece segurança - e até mais habilidade com a bola nos pés. Caso se recupere de um problema no tornozelo, sofrido durante os treinos, De Vrij ainda poderia formar a dupla de zaga no 4-3-3 com outro convocado: justamente o seu companheiro na Lazio, Wesley Hoedt, estreante na Laranja. Ambos formam a terceira melhor defesa do Campeonato Italiano, só perdendo para Juventus e Roma – e o entrosamento nos Biancocelesti pode muito bem ser reproduzido na Oranje.

De Vrij: se recuperado, pode ser muito útil na zaga da seleção holandesa (Soenar Chamid/VI Images)

Sem contar aquela que foi a maior surpresa da convocação: Matthijs de Ligt. Tudo bem, o zagueiro de 17 anos vem correspondendo nas oportunidades que ganha no Ajax; foi muito bem na partida de volta das oitavas de final da Liga Europa, contra o Copenhague; e o próprio técnico do Ajax, Peter Bosz, sugeriu: “Se eu fosse o técnico da seleção, ousaria com [a convocação de] De Ligt”. O que não se esperava era que Danny Blind atendesse aos pedidos e incluísse o jovem na lista final – embora só se devam esperar oportunidades no amistoso contra a Itália. 

Ainda assim, Blind foi bem positivo ao falar de De Ligt: “Eu não sou o pai dele, não o conheço como homem, mas gosto das reações dele em campo. Ele tem aprendido muito com o Ajax, sejam coisas boas ou ruins. Pode ser que ele comece jogando, ainda mais porque temos duas partidas a serem disputadas”. Se aproveitar a chance, o novato certamente será mais uma opção. Como o é Rick Karsdorp, muito bem pelo Feyenoord na temporada, já se consolidando como nome na lateral direita, onde disputa posição com a dupla do Ajax (o titular Joël Veltman e o reserva Kenny Tete). Na lateral esquerda, não há muita contestação: Daley Blind é o nome.

O meio-campo também foi outro setor do time que aparentemente sofreria, mas oferece motivos para esperança, aqui e ali. Davy Klaassen já entrou naquela categoria de jogadores que está grande demais para o Campeonato Holandês; é o mais importante na equipe do Ajax, controlando o ritmo da equipe e mostrando por que é o capitão Ajacied. Contrariando todas as expectativas, Kevin Strootman conseguiu ótima sequência de jogos na temporada, ganhou paz após as lesões, e enfim é o que todos esperavam que ele fosse quando chegou à Roma: um dos pilares da equipe. Assim como Georginio Wijnaldum, certamente um dos melhores e mais importantes jogadores do Liverpool na atualidade. Sem contar Jens Toornstra e Tonny Vilhena: também convocados, os meio-campistas certamente serão lembranças de destaque no Feyenoord cada vez mais próximo do consagrador título holandês. Porém, nenhum deles ainda é páreo para a importância do capitão Wesley Sneijder no elenco – e poucos ousam imaginar Danny Blind escalando a Oranje sem ele, por mais que o nível de suas atuações tenha caído visivelmente.

Robben: como ousar pensar a Oranje sem ele, ainda? (ANP/Pro Shots)

Mas se há quem pense que Sneijder devia ser passado na seleção holandesa (e nem é absurdo pensar assim), simplesmente não há quem imagine a Laranja sem Arjen Robben na ponta direita do ataque, com a camisa 11. E Robben assumiu, em entrevista coletiva, que pensou na possibilidade: “Eu me perguntei se deveria seguir nas duas frentes, clube e seleção, ou se somente jogaria pelo Bayern. Até falei com minha família, com minha esposa e com o técnico [Blind]”. Para a sorte da Holanda, as lesões renitentes deram uma trégua. Foi o suficiente para que o atacante voltasse a ser muito importante nos bávaros rubros. E para que ele decidisse seguir em frente: “Agora, já estou em forma há um tempo. Por isso, decidi continuar na seleção. Ainda quero jogar mais uma Copa”.

E ao lado de Robben, no centro do ataque, está uma das grandes dúvidas de Danny Blind. Até aqui, Vincent Janssen é grossa decepção – até previsível, a bem da verdade – no Tottenham, mas tem cumprido seu papel na seleção. Porém, tem na concorrência um Bas Dost que voltou a viver grande fase – não só como goleador do Campeonato Português, mas marcando gols a ponto de disputar seriamente a Chuteira de Ouro europeia. Para os dois jogos, a questão foi "resolvida" por uma gripe que levou ao corte de Janssen - Dost deverá ser o titular, com Luuk de Jong chamado às pressas para a reserva. No entanto, a dúvida está posta sobre quem será o “camisa 9” holandês. Na ponta esquerda, também parece clara a opção por outro “renascido das cinzas”: Memphis Depay, enfim com tempo e oportunidades para jogar no Lyon - e começando a se destacar nos Gones.

Bas Dost: crescendo no clube e na seleção (European Press Agency)

Aliás, os casos de Dost e Memphis merecem parênteses. Talvez estes dois atacantes estejam passando por um processo semelhante ao que Klaas-Jan Huntelaar passou em sua carreira. Após despontar muito bem em Heerenveen e, principalmente, no Ajax, Huntelaar chegou com muitas apostas sobre si no Real Madrid. Fracassou no clube da capital espanhola - e foi ainda pior no Milan, dizimando esperanças sobre ser um atacante de ponta. Ainda assim, foi para o Schalke 04, e conseguiu levar a carreira no futebol alemão com regularidade, mostrando que também não era totalmente desprovido de talento. Talvez a mesma coisa possa acontecer com Depay, que ganha no Lyon a possibilidade de jogar num campeonato de nível técnico acessível o suficiente para mostrar que não é a promessa apagada que se viu no Manchester United. E possa acontecer também com Dost: embora já não seja mais uma promessa, o atacante vive no Sporting uma fase que possibilita apagar as lembranças da passagem irregular pelo Wolfsburg. Ambos serão craques? Quase certamente, não serão. Mas também não serão de se jogar fora.

Janssen, Dost, Memphis, Klaassen, Wijnaldum, Strootman: várias boas opções para formar uma equipe boa. Não excelente, mas boa. Por incrível que pareça, também acaba sendo um problema para a Holanda, já que não são nomes respeitáveis como os veteranos Sneijder e Robben. Contudo, é preferível ter uma variedade razoável de nomes a uma variedade cheia de problemas. É justamente o que acontece entre os goleiros. Maarten Stekelenburg parecia definitivamente recuperado, mas lesionou-se novamente e perdeu o lugar no Everton; Jasper Cillessen parece contentar-se só de estar no Barcelona e poder jogar as partidas na Copa do Rei; Michel Vorm tem experiência e capacidade, mas não tem a menor chance de jogar no Tottenham; após a turbulenta passagem pelo Ajax, Tim Krul apenas recupera o ritmo de jogo no AZ. Resta Jeroen Zoet – que até já foi mais importante no PSV, mas tem cumprido seu papel, o que parece suficiente.

É um problema. Mas que, nem de longe, significa que o time da Holanda é indefensavelmente ruim. Parece melhor que todos os adversários do grupo A das eliminatórias europeias para a Copa (exceto a França, claro). Já seria suficiente para tentar a repescagem – onde um possível adversário seria a Itália, contra a qual a Laranja se testará no amistoso da próxima terça. Se toda morte traz um período de luto, após o qual é necessário continuar, a Holanda já parece serena para entender que a vida continua, nesta sexta que marca o primeiro ano do desaparecimento de Johan Cruyff.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 24 de março de 2017)