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segunda-feira, 26 de março de 2018

Viram só?

Quem diria? Portugal, de Cristiano Ronaldo, reclamou. A Holanda, de Cillessen e Pröpper, consolou - e, tranquila, venceu (Reuters)
De certa forma, é até comum nos tempos recentes: mesmo que esteja fora da Copa do Mundo, a seleção da Holanda costuma oferecer dificuldades nos amistosos contra adversários que se preparam com vistas ao Mundial. Em 2002, a Laranja empatou com a Inglaterra e ganhou de Espanha e Estados Unidos. Neste 2018, mesmo com a derrota para a Inglaterra mostrando preocupante inação ofensiva, já se via uma definição tática promissora. E o amistoso desta segunda-feira, com Portugal, mostrando sete mudanças em relação ao jogo da sexta passada, deixou claro que há possibilidades para a Laranja, com a elogiável vitória por 3 a 0.

Curiosamente, no começo, o 5-3-2 que se viu parecia ter os mesmos problemas do amistoso contra os ingleses. Mesmo com Tonny Vilhena experimentado na lateral esquerda, a linha de cinco defensores seguia retida no campo de defesa, enquanto Portugal mantinha posse de bola. Todavia, os Tugas também não criavam muitas chances - apenas projetos delas, como aos cinco minutos, em bola cruzada da direita por Ricardo Quaresma, mas recuada sem problemas por Matthijs de Ligt, sem problemas para Jasper Cillessen (que teve a chance no gol).

Mas na primeira vez que teve espaços para buscar o ataque, a Oranje já conseguiu seu primeiro gol, aos 11', contando justamente com a ajuda do setor que melhor impressão causou na sexta: a defesa. Afinal, após boa inversão de jogo de Davy Pröpper - seguro no meio-campo -, foi de Virgil van Dijk, mais avançado, o passe que chegou a Kenny Tete. O lateral cruzou, Donny van de Beek chutou fraco, mas Memphis Depay "consertou" e bateu mais forte para o 1 a 0 - de certa forma, um bom augúrio para a melhor atuação do atacante, enfim mais ativo para jogadas (assim como Ryan Babel trouxe mais mobilidade do que Bas Dost).

Memphis Depay teve, enfim, uma atuação para provar que pode ser útil (ANP/Pro Shots)
O gol abriu o caminho para uma Holanda diferente da que se viu na sexta-feira: mais confiante, ousada, ofensiva. Não a ponto de jogar aberta, mas a ponto de ser consistente na defesa - e de, a partir dela, chegar a mais gols. Até porque partiram de De Ligt os passes para o segundo gol, aos 32' (veio pela direita, cruzou forte - quase chutou, a bem da verdade - e Babel arriscou um desvio "corajoso" na bola veloz, sendo "premiado" com o gol), e também para o terceiro, nos acréscimos (Memphis Depay cobrou falta para a área, De Ligt ajeitou e Virgil van Dijk chutou para o terceiro gol). Aliás, o tento poderia ter vindo até mais cedo - aos 43', Vilhena cruzou da esquerda, e Memphis Depay apareceu livre para cabecear à queima-roupa, causando ótima defesa de Anthony Lopes. Os portugueses? Só tentaram algo aos 39', quando Bruno Fernandes desviou a bola de pé direito, em cima de Cillessen.

No segundo tempo, a seleção das Quinas até viu um início promissor, com as entradas de André Silva e Gonçalo Guedes. Cristiano Ronaldo, até então meio isolado, já teve mais a bola nos pés - e começou a causar os problemas que pode causar, dando trabalho a Nathan Aké. Aí apareceu outro destaque: Cillessen, que fez ótimas defesas em sequência - aos 48', num leve desvio de Cristiano Ronaldo, de cabeça, e no minuto seguinte, quando Quaresma arrematou de fora da área. Mas a expulsão de João Cancelo - por carrinho violento, de fato, no tornozelo de Vilhena, aos 61' - praticamente acabou com o jogo. Portugal teve seu ímpeto ofensivo amainado definitivamente; e a Holanda apenas conservou a vantagem que já tinha, além de fazer algumas alterações. Steven Berghuis e Timothy Fosu-Mensah levaram o time a tentar alguns minutos no 4-3-3 velho de guerra; e tiveram seus primeiros minutos pela Oranje adulta Guus Til e Justin Kluivert.

Assim, o amistoso terminou no 3 a 0 do primeiro tempo. E a Holanda deixou claro que, se não é páreo para as maiores seleões europeias, não é de se jogar fora. Viram só?

Amistoso
Portugal 0x3 Holanda
Data: 26 de março de 2018
Local: Estádio de Genebra (Genebra, na Suíça)
Árbitro: Ruddy Buquet (França)
Gols: Memphis Depay, aos 12', Ryan Babel, aos 32', e Virgil van Dijk, aos 45' + 2

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete (Guus Til), Matthijs de Ligt (Timothy Fosu-Mensah), Virgil van Dijk, Nathan Aké e Tonny Vilhena (Stefan de Vrij); Donny van de Beek, Davy Pröpper e Georginio Wijnaldum (Marten de Roon); Ryan Babel (Steven Berghuis) e Memphis Depay (Justin Kluivert). Técnico: Ronald Koeman

Portugal
Anthony Lopes; João Cancelo, Rolando (Luis Neto), José Fonte e Mário Rui; Manuel Fernandes e André Gomes (André Silva); Ricardo Quaresma (Gelson Martins), Bruno Fernandes (João Mário) e Adrien Silva (Gonçalo Guedes); Cristiano Ronaldo (João Moutinho). Técnico: Fernando Santos

domingo, 25 de março de 2018

A defesa melhorou. O ataque...

Em que pese a derrota, Holanda mostrou mais segurança na defesa, com De Ligt se sobressaindo. Falta melhorar no ataque (Pro Shots)
Na via-crúcis enfrentada pela seleção holandesa nos últimos três anos, uma das falhas que mais chamava a atenção era a falta de compactação defensiva. Como era fácil invadir a defesa da Laranja, como era fácil achar espaços nela. Pois bem, pelo menos nesse ponto, já foi possível enxergar qualidades no início do trabalho que Ronald Koeman faz, durante o amistoso contra a Inglaterra, primeiro jogo sob o comando do ex-zagueiro, nesta sexta. Só que ainda há muito a corrigir. Até por isso, a Oranje ainda saiu de campo com derrota para os ingleses.

Por mais mediano que seja, o time britânico tem alguns jogadores capazes de dar o mínimo de velocidade e técnica às jogadas de ataque, além de maior entrosamento. Isso se viu aos 17 minutos do primeiro tempo, numa tabela que já ocorrera antes: Raheem Sterling veio pela esquerda, chegou à área, e ajeitou para o arremate de Jesse Lingard, para fora. O que salvava a Holanda era a proximidade e a firmeza dos três zagueiros. Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij e Virgil van Dijk não só mostravam técnica para evitarem ataques (até impediram três finalizações em sequência, no jogo aéreo), como também experimentavam avanços. Aos 21', após se antecipar, De Ligt - provavelmente o melhor holandês no jogo - avançou com a bola, arriscando chute rasteiro, de fora da área, defendido por Jordan Pickford.

Aos poucos, a Laranja tentou se assanhar mais. Por exemplo, aos 26', quando Patrick van Aanholt cruzou a bola, mas Quincy Promes falhou ao tentar o domínio, e a esférica ficou com Pickford. Porém, aos poucos se notaram dois defeitos: a gritante falta de alguém que criasse jogadas no meio-campo (por melhores que sejam, Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum não são armadores) e a alarmante falta de ação de Bas Dost no ataque, caso a bola não viesse pelo alto. Pior: Dost ainda errou um recuo aos 28', originando jogada de ataque inglesa, que só foi salva por De Ligt.

Não basta Dost pedir a bola: será preciso aparecer mais para virar referência do ataque holandês (Tom Bode/VI Images)
Sorte da Inglaterra, que aos poucos mostrou maior qualidade. Aos 32', Kieran Trippier cobrou falta da esquerda, a bola foi para a área, e Jordan Henderson desviou levemente de cabeça, mandando à esquerda de Zoet, perto do gol. Cinco minutos depois, na única falha cometida pelo trio de zagueiros, Zoet precisou antecipar a saída de gol para evitar finalização de Lingard. Só aos 40' houve qualquer coisa que se pudesse chamar de finalização holandesa - se é que foi finalização a bola batendo no rosto de Dost e saindo por cima da meta. E depois, nos acréscimos, quando Promes aproveitou falha de Maguire, passou a Memphis Depay, e este bateu de fora, para a defesa de Pickford.

A maior velocidade da Inglaterra rendia chances como o lançamento em profundidade que encontrou Marcus Rashford livre na área (ao cair após choque com Zoet e De Ligt, o atacante pediu pênalti), aos 51'. O próprio Rashford tentou um chute colocado, no minuto seguinte, que passou perto da trave. Até que, numa jogada bem trabalhada, veio o gol de Lingard, aos 59'. Danny Rose cruzou da esquerda, a bola bateu em Kevin Strootman e sobrou para o atacante completar, num chute firme e rasteiro, no canto direito de Zoet. Só aí a Oranje se esforçou mais. Na sequência, aos 62', vieram finalizações de Memphis Depay (rebateu em John Stones) e Patrick van Aanholt (por cima do gol). No minuto seguinte, Dost apareceu pela segunda - e última - vez, ao desviar de calcanhar um arremate de Wijnaldum, defendido por Pickford. e Ligt tentou outra vez, em outro arremate de fora da área, ao 67'.

A última tentativa da Laranja veio aos 83', em falta cobrada por Memphis Depay e defendida por Pickford. E veio a derrota, num jogo que revelou pontos positivos sobre os quais a Holanda pode começar a reconstrução - como a segurança de De Ligt, elogiado por Ronald Koeman na entrevista coletiva, e a evolução de Hans Hateboer no decorrer da partida.. Porém, mostrou a séria necessidade de alguém mais criativo, para armar jogadas e para finalizá-las. Pelo menos no jogo, esse alguém não foi Dost. Nem Memphis Depay. O amistoso contra Portugal, nesta segunda, será cenário dos experimentos necessários do ataque.

Amistoso
Holanda 0x1 Inglaterra
Data: 23 de março de 2018
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Jesús Gil Manzano (Espanha)
Gol: Jesse Lingard, aos 59'

Holanda
Jeroen Zoet; Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij (Wout Weghorst) e Virgil van Dijk; Hans Hateboer, Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum (Donny van de Beek) e Patrick van Aanholt; Memphis Depay, Bas Dost (Ryan Babel) e Quincy Promes (Davy Pröpper). Técnico: Ronald Koeman

Inglaterra
Jordan Pickford; Kieran Trippier, Kyle Walker, Joe Gomez (Harry Maguire) (Eric Dier), John Stones e Danny Rose (Ashley Young); Jordan Henderson, Alex Oxlade-Chamberlain e Jesse Lingard (Dele Alli); Marcus Rashford (Jamie Vardy) e Raheem Sterling (Danny Welbeck) Técnico: Gareth Southgate

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Um respiro

Goleada sobre Belarus fez Oranje respirar (Pim Ras)
Pressão de todos os lados. Pressão pela falta de Arjen Robben, que mostra talento e liderança sempre que as contusões dão uma trégua; pressão sobre o técnico Danny Blind, que precisa mostrar ter aprendido a lição após "terminar" o fracasso nas eliminatórias da Euro; pressão sobre os jogadores, que têm de provar que esta nova geração holandesa pode ser, pelo menos, razoável; pressão, pressão, pressão. A seleção holandesa tem vários olhos negativos - no mínimo, desconfiados - sobre ela atualmente, e cada jogo é uma tentativa de recuperar um pouco do crédito. Pelo menos nesta sexta, conseguiu: se impôs, e conseguiu fazer 4 a 1 em Belarus sem muitas dificuldades, pela segunda rodada das eliminatórias da Copa de 2018.

A atuação da Laranja em Roterdã tornou a vitória fácil porque foi, surpreendentemente, mais calma do que se viu na estreia pelas eliminatórias, contra a Suécia. Ao invés de atacar desde o começo como fez em Solna, com inversões rápidas de jogo e lançamentos longos, a equipe trabalhou na manutenção da posse de bola. Desacelerou o ritmo, com recuos de bola para a defesa e mais toques no meio-campo - aí entraram a capacidade que Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum têm para ditarem o andamento de uma partida. Isso até poupou trabalho de Wesley Sneijder, discreto na criação de jogadas, talvez por causa da lesão muscular que novamente sentiu, precisando sair no intervalo.

Coube, então, a Davy Klaassen (bem no jogo) armar mais as jogadas. Para a sorte dele, contou com os dois grandes destaques da partida. Vincent Janssen credencia-se mais e mais como o atacante titular da Oranje, de fato e de direito. É tão corpulento quanto Bas Dost ou Luuk de Jong, mas oferece algo que esses dois ainda não dão ao time de Danny Blind: capacidade de voltar, de ajudar o meio-campo a desenvolver jogadas. Claro, Janssen é meio desengonçado no andar. Mas isso não o impede de ser um bom pivô (como Luuk de Jong), nem de saber criar com a bola nos pés (é melhor nisso do que Dost).

Maior capacidade técnica com a bola nos pés faz Vincent Janssen se firmar cada vez mais como titular (Maurice van Steen/VI Images)

Até por isso, o atacante fez jogadas como a primeira chance real da Holanda no jogo, aos 7', recebendo de Quincy Promes, girando e finalizando para Andriy Gorbunov - ou Harbunow, dependendo da fonte - espalmar. Ou então, marcou seu gol, o mais bonito da partida, aos 63', aproveitando falha de Sergei Politevich para correr com a bola dominada e chutar forte no ângulo. Otimista, Janssen desejou à NOS, tevê holandesa, no fim do jogo: "Sempre fico alegre quando marco, e espero fazer isso também pelo Tottenham". Chances para isso, ele está tendo, com a lesão de Harry Kane. Quanto mais marcar pelos Spurs, mais Janssen será indiscutível como titular da seleção.

Se Janssen foi sempre uma opção na área, Quincy Promes era a opção correndo pelo campo. Partindo da ponta direita, o camisa 11 justificou porque tem merecido a confiança de Blind, sendo titular constante na ausência de Robben. Correu, dominou a bola, apareceu para finalizar, mostrou confiança... também não foi à toa que arriscou o chute para abrir o placar, aos 15', marcando seu primeiro gol pela Oranje - e abraçando Memphis Depay no banco de reservas. Nem impressionou que o jogador do Spartak Moscou-RUS tenha crescido ainda mais em campo, a ponto de aproveitar hesitação de Politevich para chutar de voleio e fazer 2 a 0, aos 31'.

Se tivesse ficado nessa parte do meio-campo e do ataque, a Holanda poderia ter somente otimismo. Todavia, a defesa voltou a ter suas costumeiras panes no final do primeiro tempo. Impressiona a falta de compactação da equipe: raras vezes se vê nitidez nas linhas do 4-3-3 com que a Laranja é escalada. Isso abre espaços; e basta ao time adversário aproveitá-los com passes longos para sempre chegar na frente, principalmente pelas pontas, trazendo perigo. Foi o que aconteceu com Belarus: Sergei Kornilenko quase marcou; depois foi Mikhail Gordeychuk, que superou Jeffrey Bruma na corrida e só não fez o gol porque Maarten Stekelenburg (surpreendentemente, o titular - mas cumpriu seu papel) fechou bem o ângulo na saída de gol. Finalmente, tão logo começou o segundo tempo, Aleksei Rios diminuiu para 2 a 1 entrando livre no meio da área, sem que Virgil van Dijk o acompanhasse. Isso, em jogada surgida pela lateral direita, onde Rick Karsdorp, outro titular pela primeira vez, cedeu muitos espaços.

Por mais que os gols de Klaassen e Janssen tenham tranquilizado, Danny Blind não deixou passar tais erros, e ralhou na entrevista coletiva: "Vi coisas boas, mas também vi coisas ruins. Por quinze minutos, jogamos muito mal. Se cometermos esse tipo de falha contra a França, será fatal. Abrimos espaço, deixamos o adversário chegar". Pior: dificilmente Sneijder estará disponível, conforme antecipou o técnico ("A chance dele jogar [contra a França] é muito, mas muito pequena"). Caberá à nova geração, já consolidada - com Janssen, Promes, Klaassen -, superar os Bleus na próxima segunda-feira, na Amsterdam Arena. E quem sabe, aumentar o respiro na pressão sobre eles, como fez a goleada nos bielorrussos.

Ficha do jogo

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 4x1 Belarus
Data: 7 de outubro de 2016
Local: De Kuip, em Roterdã
Juiz: Craig Thomson (ESC)
Gols: Quincy Promes, aos 15' e aos 31', Davy Klaassen, aos 55', e Vincent Janssen, aos 64'; Aleksei Rios, aos 46'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Rick Karsdorp, Jeffrey Bruma, Virgil van Dijk e Daley Blind; Davy Klaassen, Kevin Strootman (Jordy Clasie, aos 79') e Georginio Wijnaldum; Quincy Promes, Vincent Janssen (Bas Dost, aos 83') e Wesley Sneijder (Davy Pröpper, no intervalo).Técnico: Danny Blind

Belarus
Andriy Gorbunov; Denis Polyakov, Mikhail Sivakov, Sergei Politevich e Maksim Bordachev; Mikhail Gordeychuk (Maksim Volodko, aos 74'), Ivan Maevski (Aliaksandr Hleb, no intervalo), Nikita Korzun e Aleksei Rios; Sergei Krivets (Sergei Kislyak, aos 67'); Sergei Kornilenko. Técnico: Aleksandr Khatskevich

Oranje renovada. Com saudades de Robben

Robben marcando pela seleção holandesa (contra País de Gales, em novembro de 2015); dá saudades, mas Oranje precisa superá-las (Stu Forster; Getty Images)
Amsterdã, 5 de junho de 2010. No amistoso de despedida da sua torcida, rumo à Copa do Mundo que começaria dali a seis dias, a seleção da Holanda indica que está pronta para um papel digno no torneio, ao golear a Hungria por 6 a 1 na Amsterdam Arena. Poupado após ter jogado a final da Liga dos Campeões pelo Bayern de Munique, Arjen Robben é colocado no segundo tempo do amistoso – e brilha, marcando dois gols. Todavia, ele deixa um travo amargo e um ponto de interrogação em todo o país, ao lesionar um músculo da coxa no fim do jogo. Ficava a pergunta torturante: iria Robben à África do Sul?

A delegação foi, estreou no torneio, mas o esperava. E após uma semana de tratamento ultraintensivo com o fisioterapeuta Dick van Toorn, Robben voou para a Copa. No primeiro jogo em que foi relacionado, contra Camarões, o camisa 11 saiu do banco – e participou da jogada do gol de Klaas-Jan Huntelaar que decidiu o 2 a 1 na Cidade do Cabo. Nas oitavas de final, ele abriu o placar contra a Eslováquia. Enfim, após a dúvida, Robben brilhou de novo, só abaixo de Wesley Sneijder em importância técnica na campanha do vice-campeonato mundial.

Seis anos, quatro meses e dois dias depois, a Laranja viveu uma situação semelhante. Voltou a ficar à espera de Robben, antes das partidas contra Belarus (nesta sexta) e França (próxima segunda), pelas eliminatórias da Copa de 2018. Mas ao contrário da ansiedade gostosa que cerca uma Copa do Mundo, como em 2010, o cenário é mais melancólico e preocupante. Melancólico, porque as desconfianças seguem sobre a equipe comandada por Danny Blind. Preocupante porque, apesar de já ter uma equipe predominantemente jovem em campo, o técnico ainda parece precisar muito de Arjen. Mas ele estará ausente, de novo, por contusões. Não poderá ocupar o posto de capitão da Oranje - ainda dele.

Se essas lesões já eram renitentes quando Robben estava no esplendor técnico, agora o perturbam de modo quase definitivo. Basta ver o que ocorre com ele no Bayern. Ainda na pré-temporada, o canhoto mais famoso do futebol mundial lesionou um músculo da coxa, num amistoso contra o Lippstadt 08, em julho. Ficou dois meses em recuperação. Voltou em 21 de setembro, pelo Campeonato Alemão, entrando durante o jogo contra o Hertha Berlim... e marcando gol. Daí, no sábado passado, enfim começou uma partida como titular, contra o Köln... e saiu machucado de novo – agora,  nas costelas.

A bem da verdade, Danny Blind já não relacionara o nativo de Bedum entre os 23 jogadores convocados, um dia antes do jogo contra o Köln. E o treinador da seleção foi bem claro e cauteloso na abordagem do assunto: “Precisamos ver as coisas numa conversa com a federação, o Bayern e o próprio Robben. Mas ainda está muito cedo. Ele queria muito [vir], mas também tem compromissos com o clube. Se houver uma possibilidade, veremos o que fazer”. Ainda assim, ficou uma esperança, como o treinador da Oranje sinalizou na segunda-feira passada, durante a apresentação dos chamados. A lesão nas costelas sofrida no sábado já não incomodava tanto Robben, e os contatos com a equipe médica do Bayern seriam mantidos. Se estivesse pronto, o capitão da seleção viajaria para integrar-se ao grupo que treinou na cidade de Noordwijk.

Assim ficou a situação: por mais que os 23 jogadores já treinassem, a espera por Robben seguia. Até o início desta sexta, prazo final para que o jogador fosse incluído na lista dos relacionados para o jogo contra Belarus. Sem recuperação completa, aquele de quem todos ainda esperam algo na seleção holandesa de novo estará ausente. Restou a Danny Blind lamentar: “Falei com ele, que não virá – e isso também vale para o jogo contra a França. Ele não está suficientemente em forma, o que é chato”.

Se fosse só o apego do técnico por um jogador brilhante tecnicamente, sua ausência não abateria tanto. Mas incomoda notar que outro veterano, Wesley Sneijder, foi até mais fundo na lamentação dos problemas físicos por que passa o colega de geração: “Ele [Robben] é muito importante para nós.
Não só dentro, mas fora de campo também. É uma peça fundamental, que não podemos perder. Já vimos isso no passado, é a dura realidade”. E o que dizer se um novato que desponta como possível substituto, Quincy Promes, é o primeiro a falar que Robben “não pode ser substituído”?

Pior ainda é reconhecer que Robben continua sendo importante, apesar da relação custo-benefício cada vez mais desvantajosa para Bayern e Holanda. Machuca-se muito? Sim. Mas segue demonstrando vontade e disposição de atender às convocações de Blind, sempre que possível. Uma vez no grupo de jogadores, o calvo precoce também apresenta um espírito de liderança inegável, como se viu na Copa de 2014. Sem contar a conhecidíssima capacidade de mudar uma partida, com sua jogada-muito-manjada-mas-que-ninguém-para de cortar para a esquerda e chutar. Continua sendo assim, mesmo atualmente: foi assim que Robben marcou um dos gols contra o País de Gales, em novembro do ano passado, no seu ultimo jogo pela seleção. E foi assim que marcou contra o Hertha Berlim. Ou seja: não é um caso de desprezo puro e simples. Em forma, o ponta direita pode ser útil, sim, senhora.

O excessivo apego à importância (inegável) de Robben fica ainda perturbador tendo em vista que a renovação holandesa já está completa. Não, a geração não impressiona tecnicamente. Ainda assim, pensar mais num atleta ausente do que nos 23 que lá estão dá a sensação de que o temor de novo vexame nas eliminatórias da Copa existe – temor exagerado, já que a Holanda foi razoável na estreia contra a Suécia, e pode muito bem vencer os bielorrussos nesta sexta. Claro, pensar em superar os franceses já é bem mais difícil. No jogo de Amsterdã, dia 10, os Bleus são favoritos, mesmo com os problemas na zaga (o convocado Jérémy Mathieu não só pediu dispensa, mas decidiu parar de defender a seleção; e o substituto, Eliaquim Mangala, lesionou-se).

Holanda atual é mediana. Mas é o que há para hoje. E parece mais entrosada (Remko de Waal/ANP)

Todavia, mesmo inferior, a Oranje demonstra mais firmeza do que no amistoso entre ambas, em março passado. Enfim, parece haver um time titular de fato. Começando por uma defesa relativamente entrosada. Jeroen Zoet parece ter ganho definitivamente a vaga de titular no gol (“Cillessen não jogará”, informou Blind), Rick Karsdorp pode ganhar chance na lateral direita, e o recuperado Stefan de Vrij pode oferecer mais qualidade no miolo de zaga. No meio-campo, Kevin Strootman e o supracitado Sneijder tiveram lesões leves, mas já se integraram aos treinamentos normais e estão à disposição para as partidas. Com a ausência de Robben, Sneijder ganha cada vez mais importância: tanto pelo que ainda tenta oferecer tecnicamente (foi dele o gol contra a Suécia, pelas eliminatórias), pela experiência indubitável: jogando contra Belarus e França, alcançará as 125 partidas pela seleção.

No ataque é que se deu uma polêmica. Não na posição de “camisa 9”, que é de Vincent Janssen – pelo menos por enquanto. Mas na ponta esquerda: além da volta de um Memphis Depay em baixa no Manchester United, a escolha de Danny Blind por Siem de Jong para substituir o lesionado Steven Berghuis pegou mal. A escolha pelo irmão mais velho de Luuk, voltando à Oranje após três anos, soou estranha: só recentemente Siem fez seu primeiro jogo completo pelo PSV, enquanto Jens Toornstra tem ido muito bem no Feyenoord líder do Campeonato Holandês.

De todo modo, essa base mais entrosada das últimas partidas – e com uma média de idade mais baixa – tem ficado em segundo plano, diante do peso da ausência de Robben. Mas é assim que a Holanda precisará enfrentar Belarus, que surpreendeu... a França, adversário da próxima segunda. E talvez seja assim que a Laranja precise jogar daqui para frente. Robben faz e fará falta? Muita. Porém, a Oranje deve seguir, mesmo sendo um time pior sem ele.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 7 de outubro de 2016. Revista e ampliada)