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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Depois do terremoto

O Ajax parecia em céu de brigadeiro para o restante da temporada. A revelação dos assédios e comportamentos impróprios de Marc Overmars trouxe uma forte tempestade (ANP)

Em cada jogo do Ajax na Johan Cruyff Arena, era comum ver, lado a lado, o diretor geral Edwin van der Sar e o diretor de futebol Marc Overmars acompanhando o que o time de Amsterdã fazia em campo. Neste domingo, nos 3 a 0 sobre o Heracles Almelo, pela 21ª rodada do Campeonato Holandês, só Van der Sar estava nas tribunas do estádio. Mas estava tudo bem: a vitória levava o Ajax a ter cinco pontos de vantagem na liderança da Eredivisie. Era mais uma afirmação de força do clube mais conhecido da Holanda (Países Baixos) na atualidade: atual campeão nacional masculino - e da Copa da Holanda também -, classificado para as oitavas de final da Liga dos Campeões, badalado Europa afora. Uma terra firme. Arrasada pelo terremoto que começou por volta das 23h30 de Amsterdã (19h30 de Brasília - hora escolhida exatamente para o Ajax ser o primeiro a informar, não os jornais holandeses, cujas edições já tinham sido impressas), no domingo passado, com a nota que anunciava a saída imediata de Overmars, após dez anos de clube

Mais chocante do que a saída também era o motivo que a nota anunciava: "Uma série de comportamentos impróprios, por muito tempo, com muitas mulheres". Motivo reconhecido envergonhadamente pelo ex-jogador: "Estou muito envergonhado. Na semana passada, encarei relatos sobre meu comportamento. Lamentavelmente, não me dei conta de que cruzei uma linha, mas nos últimos dias isso ficou claro para mim. Quero pedir desculpas". E lamentado pelo presidente do Conselho Deliberativo do Ajax, Leen Meijaard: "Isso é dramático para todos os envolvidos. Foi devastador para todas as mulheres que lidaram com esse comportamento. Quando soubemos, avaliamos cuidadosamente o que fazer (...) Marc provavelmente é o melhor diretor de futebol que o Ajax já teve. Não foi à toa que tínhamos renovado seu contrato. Mas ele realmente passou do ponto. Não tinha como seguir".

Tal comportamento foi detalhado em vários sites, nesta segunda. O portal do diário Het Parool comentou que Overmars tinha hábitos como o stalking (seguir alguém insistentemente, pessoalmente ou por mídias sociais) - e chegou a compartilhar fotos de pênis, via aplicativos, com funcionárias do Ajax. Dois diários aprofundaram os relatos: o De Telegraaf registrou que a direção do clube já sabia de tais denúncias desde 25 de janeiro (no mesmo dia Edwin van der Sar escreveu e-mail a todos os funcionários, alertando sobre más práticas), enquanto o Algemeen Dagblad noticiou que o diretor geral "negava fortemente" as primeiras denúncias de assédio de Overmars. Finalmente, o NRC Handelsblad ouviu onze funcionárias do clube de Amsterdã, que se queixaram do chamado "haantjesgedrag" ("comportamento de galos", em holandês): diretores, funcionários e jogadores fazendo gracejos pesados contra mulheres, querendo forçar valentia e virilidade. Uma delas criticou: "O sexismo está dentro da cultura do clube".

Antes de qualquer aspecto esportivo, o aspecto social foi o que mais abalou com as revelações sobre o mau comportamento de Marc Overmars. E um ponto foi unânime: o importante devia ser o estado das funcionárias acossadas pelo ex-diretor, não as lamentações dele. Pesquisadora sobre comportamentos ofensivos no esporte na Universidade Livre de Amsterdã (e conselheira do Ajax entre 2011 e 2012), Marjan Olfers começou à emissora NOS: "Antes de mais nada: como estão as vítimas? Elas foram bem tratadas, sentiram-se contempladas pela nota do clube?" Ex-jogadora de hóquei e apresentadora de tevê na Holanda, Fátima Moreira de Melo indicou que a nota teve uma abordagem errada: "Li que Van der Sar achou [o fato] horrível para todos. Aí penso: esse 'todos' inclui Overmars? Parece-me que algo precisava ser diferente. Foi um pouco infeliz, falando honestamente". Colunista do diário De Telegraaf, Hester Zitvalt foi irônica: "Meu coração está com todos os torcedores do Ajax, que precisarão lidar com esse problema por um tempo. Pobres homens...”.

O tema de assédios contra mulheres já vinha na ordem do dia dentro dos Países Baixos, desde a interrupção abrupta da temporada do programa The Voice, em sua versão holandesa, exatamente por acusação de assédios de um dos jurados, o rapper Ali B, contra algumas candidatas. Por sinal, foi exatamente ao ver a repercussão dessa interrupção que as denúncias enfim chegaram à direção do Ajax - e que Van der Sar decidiu escrever o e-mail de alerta em 25 de janeiro, antes que Overmars fosse chamado às falas e demitido. Até ali, os relatos já vinham acontecendo, desde, pelo menos, o fim do ano passado. O fato de só terem sido revelados agora talvez seja bem resumido pelo título do editorial da revista Voetbal International sobre o tema: "O caso Overmars diz muito sobre o mundo do futebol, em geral - e sobre o Ajax, em particular".

O comportamento omisso de Van der Sar em muitos temas; a má conduta de Overmars, que foi a gota d'água; e o projeto ambicioso do Ajax fica por um fio, com as desconfianças sobre o futuro de Ten Hag (Pro Shots)

Mesmo que o Ajax tenha sido elogiado pelas medidas práticas que tomou em relação ao assunto, o comportamento ofensivo que levou Overmars à ruína foi mais um dos temas espinhosos a atingir a gestão de Edwin van der Sar como diretor geral. Afinal de contas, se o clube foi direto com relação ao motivo da demissão, também é verdade que tem sido muito omisso em relação a pontos nebulosos vividos por importantes personagens, nos últimos tempos. Antes mesmo da revelação de tudo, Overmars já tinha sido acusado de envolvimento com uma empresa de criptomoedas; o atacante Quincy Promes foi indiciado por esfaquear um familiar numa briga, e foi discretamente vendido ao Spartak Moscou; o atacante Zakaria Labyad perdeu espaço no Ajax após ser acusado de ameaçar uma advogada que cuidava de seu contrato; e houve a viagem à pausa de inverno em Portugal, frustrada pela onda de infecções pelo novo coronavírus.

Claro, também há conversas sobre os desdobramentos esportivos que o "terremoto" causado pela queda de Overmars pode (e deve) ter no Ajax. Afinal, trata-se de um dos artífices da reação do clube no cenário europeu, nos últimos anos, com a postura mais agressiva em contratações. Para começo de conversa, já se fala que Erik ten Hag - concordante com a linha de atuação de Overmars no futebol - perdeu o maior estímulo que tinha para continuar no Ajax, devendo sair ao fim da temporada. E até que o time volte a campo, ficará a dúvida sobre a influência que o aspecto fora de campo terá dentro.

Por falar nisso, uma frase conhecida de Overmars, nos últimos anos, falava em "tornar o Ajax o Bayern de Munique da Holanda". Projeto que vinha dando certo, mas que tinha certos furos. E que sofreu duro golpe com os assédios de Overmars. Talvez reflita um velho hábito do Ajax que, enfim, voltou: tão convencido de sua grandeza, tão certo de que estava no bom caminho, o diretor errou pesadamente. E pode ter posto tudo a perder.

Como ocorre com muitos homens.

sábado, 28 de abril de 2018

A última chance

O AZ teve a chance de brilhar, na final da Copa da Holanda. Perdeu, e Weghorst lamentou bastante. Agora, pode se refazer contra o Ajax (Sander Chamid/VI Images)
O principal atrativo que o Campeonato Holandês ainda poderia ter já acabou: afinal de contas, a salva de prata já foi para a sala de troféus do PSV há quase duas semanas. No entanto, entre aquelas disputas periféricas que definem uma liga europeia, ainda há algo em que se prestar atenção na penúltima rodada, com todos os nove jogos neste domingo. Afinal de contas, a disputa pelo vice-campeonato (e junto dele, uma vaga na segunda fase preliminar da Liga dos Campeões) está aberta. E tanto o Ajax, atual segundo colocado (73 pontos), quanto o AZ, na terceira posição (68 pontos), entrarão no gramado sob pressão para fazerem o jogo direto. E neste momento, a pressão é até mais pesada sobre o time que menos sofreria com ela, em tese: o AZ. 

Jogando como visitante, com a terceira posição garantida na pior das hipóteses, tendo um estilo ofensivo, vista quase unanimemente como a mais agradável de ser assistida na Eredivisie, a equipe de Alkmaar teria tudo para conseguir surpreender o Ajax e encurtar sua desvantagem para dois pontos, esperando a sorte ajudar na última rodada. A atuação na 32ª rodada foi exemplar dessas qualidades dos Alkmaarders: contra o Vitesse, o 2 a 0 foi aberto com tanta facilidade que gerou até falta de concentração – aproveitada pelo adversário, que empatou ainda no primeiro tempo. Sem problemas: o AZ chegou ao 4 a 2, depois ainda diminuído para 4 a 3. E na partida, brilhou Alireza Jahanbakhsh: com três gols, o iraniano chegou a 18, alcançando a artilharia da Eredivisie.

Com a fase esplendorosa de Alireza, outro sinônimo momentâneo de gols em Wout Weghorst (foram 16 no campeonato), mais o promissor começo de carreira de Guus Til e Teun Koopmeiners no meio-campo, as seguras atuações de Marco Bizot no gol e a ajuda de alguns coadjuvantes - Jonas Svensson e Thomas Ouwejan nas laterais, Joris van Overeem no meio-campo, Oussama Idrissi no ataque -, razões para otimismo não faltavam do lado de Alkmaar. Até porque vinha, no domingo passado, a final da Copa da Holanda, contra o Feyenoord. Oportunidade inigualável para antecipar o generoso prêmio de consolação, apagar a memória da copa perdida para o Vitesse em 2016/17 e até consertar o pior defeito da equipe na temporada: a falta de coragem contra o trio de grandes holandeses (haviam sido cinco partidas e cinco derrotas na liga – e nos 14 jogos anteriores contra Ajax, PSV e Feyenoord, 13 derrotas).

Só que nada deu certo para o AZ na decisão, em De Kuip. Entrando com três zagueiros (o começo foi no 5-3-2), o time buscava proteger sua defesa potencializando os seus dois grandes destaques neste 2017/18, com Alireza e Weghorst no ataque. O começo até foi equilibrado, mas depois a equipe foi irreconhecível: viu o Feyenoord se assenhorar do jogo em casa, fazendo 3 a 0 quase sem resistência para ganhar a Copa da Holanda. Alireza e Weghorst foram totalmente anulados, o Stadionclub dominou as ações (graças às boas atuações de Karim El Ahmadi, Steven Berghuis e Robin van Persie), e poucas coisas simbolizaram mais o tamanho da decepção do AZ do que a imagem de Weghorst, desalentado, assistindo à festa do Feyenoord no pódio, para receber o troféu.

E o atacante reconheceu o quanto seu time ficou devendo, numa ocasião em que estava proibido de fazer isso: “Não fizemos o que sabemos fazer tão bem, mostramos pouquíssimo. Vale para todos: não fomos bons o bastante”. Crítica ainda mais precisa veio do técnico John van den Brom: “Perder nunca é legal, ainda mais numa final. Mas como treinador, me importa ainda mais a maneira como perdemos. Poderíamos ter ido muito melhor, e havíamos mostrado isso nos jogos das semanas anteriores. Espera-se ver isso numa decisão, mas muitos jogadores atuaram abaixo de suas médias”.  Pior: após lesão sofrida em treino nesta sexta, Weghorst está fora do jogo.

De todo modo, dias depois, o ânimo de Van den Brom já estava restabelecido, pelo que falou nesta quinta: “Acho que um jogador precisa aparecer de verdade em partidas como a de domingo passado. E não estamos fazendo muito isso. Agora, temos outro bom desafio pela frente: fora de casa, contra o Ajax. Se quisermos o vice-campeonato, temos de vencer”. Até porque, apesar dos penosos pesares, o AZ ainda não tem a situação tão problemática quanto a do Ajax.

A pressão sobre Ziyech se avoluma cada vez mais neste turbulento fim de temporada do Ajax (ANP/Pro Shots)
E os problemas se mostraram aos Ajacieden horas após a partida decisiva da Eredivisie, com jogo e título inquestionavelmente perdidos para o PSV. Bastou o ônibus que levava os jogadores chegar à (então) Amsterdam Arena para acontecer uma cena digna do que se vê vez por outra no Brasil: um grupo de torcedores impedir a passagem do transporte, exigindo que os jogadores descessem para uma conversa nada amistosa. Tanto que o ainda jovem Matthijs de Ligt assumiu: “Num certo momento, foi assustador”. Coube a um grupo de atletas – incluindo Justin Kluivert, Hakim Ziyech e o capitão Joël Veltman – descer para ouvir o que os torcedores tinham a dizer. Falou-se até num leve empurrão de um dos adeptos a Ziyech, mas a conversa foi mais tensa do que propriamente violenta. 

Já em sua casa, o diretor geral Edwin van der Sar tomou às pressas o caminho de Amsterdã para estar na conversa improvisada – até porque um dos pedidos dos torcedores era pela sua saída do cargo. Outra reclamação foi pelo comportamento de Ziyech em campo: se, tecnicamente, o marroquino é um dos melhores e mais capazes jogadores do Ajax nesta temporada, não faltam críticas a seus supostos pouco caso e arrogância quando é criticado (ao comemorar um gol de falta contra o NAC Breda, Ziyech nem comemorou: fez o sinal de “fala muito”, semelhante ao de Tite na semifinal do Campeonato Paulista de 2011).

Para piorar, ainda após o jogo contra o PSV, o goleiro André Onana não fez segredo algum à versão holandesa do site Goal.com: “Posso até ficar e tentar o título [holandês] no ano que vem, mas se surgir algo melhor para mim, quero sair. Estou pronto para o próximo passo na minha carreira”. Onana ainda foi além nas críticas, minorando a parcela de culpa do técnico Erik ten Hag: “Ele não é o único culpado. Há Van der Sar, há Overmars... quem está envolvido com este time tem um pouco de culpa por estarmos jogando tão mal”.

Entretanto, mesmo com apenas quatro meses, o trabalho de Ten Hag já recebe críticas pesadas, pela inconstância, pela indefinição nas escalações e pela falta de coragem ofensiva. O jornal De Telegraaf até revelou: não só as críticas são abertas da parte de alguns jogadores, como De Ligt, cobiçado por muitos graúdos Europa afora, ouviu deles o conselho de deixar o Ajax tão logo seja possível. 

Antes do jogo contra o VVV-Venlo, na semana passada, pela 32ª rodada, Van der Sar foi definitivo: “Eu continuarei como diretor geral, e Ten Hag continuará como treinador”. A crise parecia ganhar contornos incendiários no primeiro tempo, com o VVV abrindo o placar e o rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho de Veltman (fora pelos próximos nove meses). Ziyech era alvo de controvérsias nas arquibancadas: parte da torcida o vaiou, parte da torcida criticou as vaias. Coube a David Neres minorar a pressão, virando o jogo para 2 a 1 e se destacando no segundo tempo, quando o Ajax rumou para o 4 a 1 que evitou momentos ainda piores. Ziyech, com ambiente cada vez mais controverso perante a torcida, deu de ombros para as discussões sobre seu nome: “Só ouvi aplausos. Não ouvi o resto, nem me importo com isso durante o jogo, nem quero saber sobre o assunto neste momento”.

Os dias entre a 32ª e a 33ª rodadas conseguiram baixar um pouco a fervura que o Ajax vive. Só que, na entrevista coletiva com as perspectivas contra o AZ, Ten Hag lembrou outro problema potencial: a renovação de contrato de Justin Kluivert, cujo compromisso expira no meio do ano. O próprio deseja sair, mais cedo ou mais tarde, mas fazê-lo agora é algo cada vez menos recomendado por outros. O técnico apenas espera: “Gostaríamos muito que ele não saísse. Até porque, teoricamente, ainda é da nossa equipe de juniores”.

Entre virtuais saídas (De Ligt, Ziyech, Kluivert) e virtuais chegadas (Hassane Bandé, já treinando com a equipe, e Lisandro Magallán), o Ajax procurará ganhar um respiro, com a vitória sobre o AZ, para garantir o vice-campeonato. É sua parte, neste jogo em que as duas equipes virão sabendo que jogam a última chance de alívio sobre o gramado da Johan Cruyff Arena – desde quarta-feira, o nome do estádio de Amsterdã.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 27 de abril de 2018)

sexta-feira, 30 de março de 2018

O problema do Twente chega ao campo


As demissões do técnico Verbeek (à esquerda) e do diretor técnico Van Halst foram mais um capítulo no drama do Twente. Que tem seis rodadas para resolver sua situação no Campeonato Holandês (Emiel Muijderman)

Durante esta semana, quem acompanha futebol na Holanda prestou mais atenção na seleção. E até que foram muitos os comentários sobre ela, tanto pela derrota para a Inglaterra (reações mistas ao 1 a 0, pela atuação promissora da defesa e pelo desalento que o ataque causou), quanto pela vitória em cima de Portugal (3 a 0 relativamente animador, em que pese o time reserva dos Tugas, por novo destaque dos zagueiros, De Ligt à frente, e pela maior mobilidade dos avantes). Com tudo isso, passaram quase despercebidas as demissões no Twente. Sim, no plural: tanto o técnico Gertjan Verbeek quanto o diretor técnico Jan van Halst viram o fim de suas passagens. É mais um capítulo da crise gigantesca que vivem os Tukkers. Enfim, com dramáticas consequências vistas no gramado – mais precisamente, com a última colocação no Campeonato Holandês. 

É até surpreendente que só agora o clube de Enschede esteja aflito com a ameaça de rebaixamento, a seis rodadas do fim desta Eredivisie. Afinal, os problemas vêm fortes há pelo menos três anos, quando se descobriu o custo que teriam as parcerias feitas pelo antigo presidente Joop Munsterman. Aqui mesmo já foram citados o enorme prejuízo deixado pelas transações envolvendo o fundo de investimentos Doyen (neste blog, no final de 2015), a imposição do rebaixamento ao clube, como punição da federação às falhas nos balanços financeiros (em maio de 2016), e finalmente a discutível decisão de restringir as sanções apenas no campo esportivo, proibindo o Twente de disputar competições continentais pelos próximos três anos (em junho, pouco depois).

Talvez animado por essa decisão, o clube vermelho teve uma atuação surpreendentemente elogiável em 2016/17. Obviamente, para minorar a sangria dos cofres, vendeu quem pudesse vender, pelo máximo que conseguisse – Hakim Ziyech e Felipe Gutiérrez à frente. Buscou empréstimos camaradas, alguns até com clubes de ponta (caso do Manchester City). E das trevas fez-se a luz: com as boas atuações de Bersant Celina e Mateusz Klich no meio-campo, o esforço habitual dos defensores e, acima de tudo, com os gols de Enes Ünal – foram 19, disputando a artilharia até o final da temporada -, o Twente alcançou o 7º lugar na liga. Deixou os torcedores imaginando o que poderia ter sido não fosse a punição que o tirava dos torneios da Uefa: afinal, estaria na repescagem que dá direito a uma vaga na Liga Europa.

Só que o tempo passou. Enes Ünal voltou ao Manchester City – e de lá foi vendido ao Villarreal -, Bersant Celina e Yaw Yeboah também... e o técnico René Hake precisou começar a temporada com um time ligeiramente refeito. Nem tanto na defesa, onde ainda figurariam jogadores como o zagueiro Stefan Thesker e o lateral direito Hidde ter Avest. Mas no meio-campo, setor em que o time precisaria ser reconstruído em torno de Fredrik Jensen e Mateusz Klich. E no ataque, também dizimado pelos fins de empréstimos, restaria apostar em Oussama Assaidi para dar a habitual velocidade nas pontas – e em Tom Boere, de bom desempenho na segunda divisão, para marcar os gols. 

Aparentemente, daria certo, já que a atuação contra o Feyenoord, na primeira rodada, foi honrosa: sim, houve derrota por 2 a 1, mas o Twente jogou bem, viu um golaço de Jensen e mostrou que, talvez, quem sabe, poderia continuar desafiando os três grandes – e brigando de igual para igual com os médios do mesmo tamanho, como Heerenveen e AZ. Pois é: não aconteceu. Foram quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, já despertando os primeiros temores de uma temporada na parte de baixo da tabela. Uma goleada sobre o Utrecht – 4 a 0, na quinta rodada – deu a impressão de que tudo se acalmaria, e tal impressão se fortaleceu com a vitória sobre o Heracles Almelo, que faz junto do Twente o “clássico” da região (Almelo e Enschede, as cidades respectivas, são muito próximas, na região do Twenthe, dentro da província do Overijssel), na sétima rodada. 

Contudo, na 8ª rodada, o revés para o Willem II (3 a 1) rendeu aquela que é, provavelmente, a decisão mais desastrada no caminho do Twente rumo à queda: a demissão do técnico René Hake. Claro, Hake fazia um trabalho longe de ser perfeito. Mas a torcida ainda tinha por ele grande respaldo, pela surpresa positiva de 2016/17. E há longo tempo trabalhando com os jovens nas categorias de base, o treinador conquistara o respeito dos jogadores. A diretoria ainda tentou contemporizar, dizendo que a demissão era apenas um “rebaixamento” de Hake às categorias de base, mas o próprio se negou e preferiu deixar o clube de vez. Para a torcida, a impressão era de que a escolha do bode expiatório fora a errada. Ali a crise financeira do Twente começava a ter, enfim, as consequências dentro de campo.

A torcida até apoia o Twente, mas sua pressão está cada vez mais forte (Marco Munnink)

Gertjan Verbeek foi contratado, com apostas na sua experiência e nos seus bons trabalhos em Heracles Almelo e AZ. No começo, a garra que não falta ao grupo de jogadores se fazia sentir – e dois jogos contra grandes foram a prova disso. Na estreia de Verbeek, contra o líder PSV, na 11ª rodada, por três vezes o Twente ficou atrás no placar, e nas três vezes buscou o empate, antes de sofrer o 4 a 3 nos acréscimos. Contra o Ajax, na 14ª rodada, foi até mais honroso: os Tukkers chegaram a ficar com uma desvantagem de 3 a 1, mas correram atrás do empate. E os avanços na Copa da Holanda (com direito a eliminação do Ajax) davam a impressão de que o time conseguiria ficar acima da zona de repescagem/rebaixamento. Contratações na janela de transferências do começo do ano, como as vindas de Adam Maher, Mounir El Hamdaoui e Luciano Slagveer (este por empréstimo, davam mais esperança de fortalecimento técnico, para debelar o impacto de perdas como Mateusz Klich, que se foi para o Utrecht.

Tudo isso caiu por terra tão logo a temporada foi retomada. Fosse no 4-3-3 ou no 5-3-2, o Twente seguia com a defesa fragilizada, mesmo com o esforço de sempre. Escalado como titular no gol, Joël Drommel mostra deficiências crônicas. No meio-campo, Maher falhava na criação das jogadas, e restava apenas a Assaidi vir buscar a bola para iniciar as jogadas de ataque. Na Copa da Holanda, ainda houve como mascarar tais falhas, chegando às semifinais. Mas no Campeonato Holandês, a crise ficou a nu: até agora, com onze rodadas transcorridas no returno, o Twente espera por vitórias. Foram cinco empates e seis derrotas. E a partir da 22ª rodada, o clube caiu na zona das três últimas posições para não mais sair dela, até agora.

Irritando ainda mais a torcida, Verbeek escondia a fragilidade do Twente em campo atrás de críticas aos adversários – como o célebre uso do termo “schijtbakkenvoetbal” (“futebol de m****”, citado aqui), em referência à aposta do PSV nos contra-ataques, que rendeu o 2 a 0 do líder do campeonato em Enschede. Enquanto isso, avolumavam-se as derrotas: 4 a 0 para o AZ nas semifinais da Copa da Holanda, o dramático 2 a 1 para o Heracles Almelo na 27ª rodada – neste revés, a torcida perseguiu nas arquibancadas o diretor técnico Jan van Halst, que saiu do estádio para evitar males maiores.

Assim, não surpreendeu a demissão da dupla nesta semana. Verbeek saiu com a marca péssima de ser o único técnico da história do Twente sob cujo comando o time teve menos de 22% de vitória na Eredivisie. Para Van Halst, então, a demissão foi um alívio, conforme ele reconheceu: “Algumas vezes eu pensei em me demitir pessoalmente”. A decisão simboliza a desordem desalentadora no clube, conforme comentou Gerard Marsman, diretor técnico da associação holandesa de treinadores: “Demitir dois treinadores numa só temporada: nunca pensei que veria isso na Holanda. Parece o Palermo, que contrata quatro técnicos por ano”. Para piorar, já havia a fratura no tornozelo que tirou Ter Avest do resto da temporada - e nos treinos desta semana, o meio-campo Haris Vuckic rompeu o ligamento cruzado anterior, sendo mais um desfalque definitivo nas seis partidas restantes.

Agora, sob o interino Marino Pusic – que já prometeu um estilo mais ofensivo -, o Twente jogará tudo nas próximas seis rodadas. Para sair da última posição e tentar se salvar na repescagem de acesso/descenso, evitando uma queda que não lhe ocorre desde a temporada 1983/84. Uma queda que seria o fim melancólico de um sonho de grandeza, que teve o apogeu no título histórico de 2009/10. Uma queda que, acima de tudo, provaria como, em busca de tal sonho, o Twente está pagando o mais caro dos preços.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 30 de março de 2018)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Crônica de uma demissão anunciada

Marcel Keizer, Hennie Spijkerman, Dennis Bergkamp e Aron Winter (da direita para a esquerda): a direção os apoiou no Ajax, com a saída de Peter Bosz. Mudou de ideia com os resultados. Agora, só Winter segue (ANP)
Estava normal demais para ser verdade. Vencer o PSV, há duas rodadas, já realimentara as esperanças do Ajax no Campeonato Holandês. E tais esperanças foram consolidadas com um triunfo ainda mais importante: o 2 a 1 de virada, fora de casa, sobre o AZ, concorrente direto na disputa pela segunda posição da Eredivisie. Com esses resultados (mais o 3 a 1 sobre o Excelsior no meio), o time de Amsterdã se isolou como o grande adversário do PSV na busca do título. Ambiente acalmado, certo? Errado. Porque, no meio desta semana, uma inesperada eliminação na Copa da Holanda apressou algo que só se esperava para o final da temporada: a demissão do técnico Marcel Keizer.

O mais curioso é que, apesar do anúncio da demissão ter surpreendido meio mundo na Holanda durante esta quinta, ela foi até compreensível. Afinal de contas, esperava-se que os Ajacieden tivessem aprendido a lição, já que o adversário nas oitavas de final da Copa da Holanda era conhecido: o Twente, que oferecera dificuldades no encontro pela Eredivisie (com 2 a 0 atrás, os Tukkers buscaram o empate, levaram o 3 a 2, mas tiveram disposição para ainda chegarem aos 3 a 3 nos acréscimos, pela 14ª rodada). E o Ajax, aparentemente, se livraria do incômodo adversário sem grandes problemas na quarta passada, graças ao belo gol de Justin Kluivert que abriu o placar no Grolsch Veste, em Enschede.

Aí entrou o erro de Marcel Keizer no jogo: com a vantagem mantida em relativa segurança, o técnico decidiu fazer duas alterações. A primeira estagnou o time, taticamente: foi tirado Frenkie de Jong, o jogador que vinha acertando o Ajax com sua transição fluida entre defesa e meio-campo, para a entrada de outro De Jong, o Siem, fixando mais a equipe no 4-3-3. A segunda foi para que os visitantes de Amsterdã meramente conservassem a vitória: a saída de Justin Kluivert, dando espaço ao lateral direito colombiano Luis Orejuela, mandando Joël Veltman para a zaga, junto a Matthijs de Ligt. 

Mudança punida de modo cruel: nos acréscimos, o Twente empatou, com Oussama Assaidi. Na prorrogação, nem mesmo a expulsão de um jogador do time de Enschede (Thomas Lam, pelo segundo cartão amarelo) foi bem aproveitada pelo Ajax. O jogo foi para os pênaltis. Após um chute desperdiçado por cada time na série regulamentar de cinco cobranças, o zagueiro Peet Bijen acertou o segundo arremate do Twente nas alternadas, De Ligt mandou a bola por cima do gol na sua vez, e o Ajax estava fora da Copa da Holanda. O único grande eliminado, já que o PSV despachara o VVV-Venlo anteriormente naquela quarta, e o Feyenoord cumpriu seu objetivo contra o Heracles Almelo nesta quinta.

Nem foi necessário esperar o Ajax deixar o estádio: as críticas amainadas com a melhora no Campeonato Holandês voltaram com toda a força. Começando pela autocrítica dos jogadores, fosse de Veltman (“Erramos completamente como um time, um jogo desses tem de ser resolvido logo”) ou de Ziyech (“Eu cobrei o pênalti de uma maneira escandalosa, fomos eliminados por minha causa”). E seguindo pela tentativa de Marcel Keizer para explicar as mudanças: “Precisávamos melhorar alguma coisa na defesa, foi má sorte”.

O time do Ajax vinha evoluindo - mas a eliminação na Copa da Holanda parece ter trazido de volta a desconfiança (Soenar Chamid/VI Images)
Ainda assim, os trabalhos começaram normalmente para a partida contra o Willem II, no próximo domingo, pela 18ª rodada (primeira do returno), no último jogo antes da pausa de inverno na Eredivisie e da consequente intertemporada em Portugal. Até a chamada de Marcel Keizer (e de toda a comissão técnica) para a reunião com o diretor de futebol Marc Overmars e o diretor geral Edwin van der Sar. Ali, Keizer foi comunicado de sua demissão. Mas ela não foi a única, nem a mais importante. 

Também estavam demitidos o auxiliar Hennie Spijkerman e, principalmente, Dennis Bergkamp, o “diretor técnico não-oficial”, principal preocupado em fazer o Ajax jogar como seu ideário pede. A importância dessas demissões? Com elas, a dupla Overmars-Van der Sar mudava novamente de ideia, “consertando” tardiamente um erro que perturbou toda a preparação do Ajax para a temporada. Ao darem respaldo a Spijkerman e Bergkamp, mantiveram o “modo Ajax” de jogar e descontentaram Peter Bosz, que aceitou a proposta do Borussia Dortmund. 

Resultado: sob Marcel Keizer, promovido do Jong Ajax (o time B), a equipe esteve longe de ser regular. Teve média de gols pró maior do que com Bosz, verdade (3 gols por jogo, contra 2,3 com o antecessor), mas também aumentou a média de gols sofridos (0,9, contra 0,7 com Bosz). As eliminações nas fases preliminares de Liga dos Campeões e Liga Europa também prejudicaram muito. E no turno da Eredivisie desta temporada, o Ajax já perdera tantos jogos quanto em toda a temporada passada, sob Bosz: três derrotas, sendo duas em plena Amsterdam Arena. Estava difícil defender o trabalho, mesmo com o alívio das rodadas recentes. A eliminação na Copa da Holanda foi a gota d’água. E as demissões representavam a “mudança de ideia” da direção.

Mesmo com a surpresa dos jogadores e com a irritação de Bergkamp (segundo a imprensa holandesa, o ex-atacante ficou irado, se considerando traído pelo antigo aliado Overmars), este momento perto da pausa era o ideal para uma demissão, se era para ela acontecer. Porém, o erro cometido no início dos campeonatos dificilmente será corrigido pelo Ajax. Obviamente, a volta de Peter Bosz virou o murmúrio unânime por quem acompanha futebol na Holanda – chegou-se até a falar que o técnico estivera na Amsterdam Arena, mas o boato foi prontamente desmentido pelo próprio. Além do mais, seriam necessárias muitas conversas entre o técnico e a dupla que manda no Ajax para que as mágoas fossem acertadas. Outras opções parecem menos prováveis: Ronald Koeman espera coisa maior, Frank de Boer ainda tem a passagem recente demais, e parece faltar o “DNA Ajax” em Dick Advocaat (sim, foi cogitado).

Sendo assim, o mais provável é que aconteça o que se falava, no começo de madrugada holandesa entre a quinta e esta sexta: o Ajax aproveitará a intertemporada para ir com tudo e tentar Erik ten Hag, ainda no Utrecht (para auxiliar Ten Hag, seria buscado Alfred Schreuder, auxiliar de Julian Nagelsmann no Hoffenheim). Se não der certo, o jeito será aceitar a manutenção de dois interinos conhecidos dentro de campo: Michael Reiziger, “aquele”, técnico da equipe B que por enquanto acumulará os trabalhos da equipe principal – bem como seu auxiliar, Winston Bogarde, outro “aquele”. E esperar que o destino seja menos amargo no resto de uma temporada que parecia tão promissora para o Ajax – mas que se mostra desastrosa, pelos desacertos dentro e fora de campo.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 22 de dezembro de 2011)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um jogo para simbolizar o impasse

O Zwolle tentou, se esforçou, até foi melhor... mas quem terminou ganhando foi mesmo o PSV (Pim Ras Fotografie)
Desnecessário detalhar novamente aqui a apatia assustadora por que passa o futebol holandês, na atualidade. Também é desnecessário lembrar a situação da seleção. E finalmente, a derrota do Feyenoord na Liga dos Campeões (atuação até honrosa, mas superada pelo 1 a 0 do Manchester City) e o empate do Vitesse na Liga Europa (outro desempenho até melhor do que o esperado, no 1 a 1 com a Lazio) decretaram: não haverá clubes holandeses nas fases eliminatórias dos torneios continentais europeus. Todos eliminados, nas fases preliminares ou na fase de grupos. Não acontecia desde a temporada 1998/99. 

Já não é mais o caso de lutar por vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões, a partir de 2018/19 (esta já foi perdida): é lutar para que o campeão da Copa da Holanda mantenha seu lugar direto nos grupos da Liga Europa. Claro, o desânimo é notório entre imprensa e torcida. É como se a esperança apenas existisse porque tem de existir. E uma partida na 12ª rodada do Campeonato Holandês simbolizou essa incômoda tendência de a realidade sempre se impor para o futebol do país: a derrota do Zwolle para o PSV, que manteve o time de Eindhoven seguro na liderança – 33 pontos, oito à frente dos empatados Ajax e AZ (os Ajacieden ficam na segunda posição pelo saldo de gols).

Aparentemente, Zwolle e PSV jogavam só uma partida. Mas seu significado se ampliava pela campanha que fazem os Zwollenaren: a situação já descrita nesta coluna só melhora, com a equipe alviazul tendo desempenhos primorosos, não só ocupando as primeiras posições da tabela, mas também desafiando os três grandes do país. Já havia sido assim contra o Feyenoord: em pleno De Kuip, os “Dedos Azuis” tiveram empate por 0 a 0, e até jogaram melhor diante da lentidão do atual campeão da Eredivisie. Com tais resultados – e recebendo os visitantes de Eindhoven sabendo que uma vitória os levaria à segunda posição -, já virara lugar comum falar que os jogadores treinados por John van’t Schip protagonizavam um “conto de fadas”. Falava-se até na possibilidade de igualar a façanha do Leicester City – e por que não dizer, de Twente e AZ.

Sabendo disso, o PSV foi ao estádio Mac³Park para tentar conter os ataques mais frequentes do Zwolle – e, controlando-os, tentar ser eficiente nos contragolpes, para conseguir a vitória. Assim, o 4-3-3 dos Boeren não seria nada ofensivo. Exatamente o inverso do time da casa – que tentaria ser bem mais acelerado, além de manter a troca de passes. Jogadores para isso, o Zwolle tinha: nas duas pontas do ataque, com Younes Namli e Youness Mokhtar. Na armação, ajudava bastante o trabalho do neozelandês Ryan Thomas. E pelas laterais, ainda ofereceriam ajuda ofensiva Kingsley Ehizibue, na direita, e Bram van Polen, na esquerda.

Por esse ponto de vista, deu muito certo. O PSV até teve a chance de gol mais perigosa no primeiro tempo – aos 18 minutos, Luuk de Jong chutou após escanteio escorado, e Thomas tirou em cima da linha. De resto, o Zwolle despontou no final dos primeiros 45 minutos, fazendo o goleiro trabalhar, criando chances, agradando. Algo provado até pelas estatísticas – o Zwolle tinha mais posse de bola, mais chutes a gol, e menos faltas do que os Eindhovenaren.

No segundo tempo, continuou assim. Chances sucessivas criadas: por Namli, por Erik Israelsson (o atacante), por Mokhtar. Um estilo de jogo acelerado, que atacava, mas também neutralizava um lento PSV. Que só tentou algo no final, em cabeceio de Marco van Ginkel. Ryan Thomas e Van Polen quase conseguiram, nos minutos finais. Parecia ficar no placar um 0 a 0 altamente honroso para o Zwolle. Aí, faltando alguns segundos para o final dos três minutos de acréscimo, o gol que surpreendeu quem assistia ao jogo: Jürgen Locadia cruzou da esquerda, Luuk de Jong cabeceou, o goleiro Diederik Boer defendeu, e o zagueiro Nicolas Isimat-Mirin estava a postos para completar no rebote, fazendo o 1 a 0 do PSV praticamente no último lance do jogo.

Sim, o time de Eindhoven foi eficiente. Sim, aproveita as chances. Sim, merece a larga vantagem que já o deixa tranquilo na liderança do campeonato. Todavia, o estilo de jogo lento é algo que não tem agradado no futebol holandês – exatamente o oposto do que se viu no Zwolle, cujos jogadores têm sido cada vez mais paparicados pela imprensa holandesa. A dupla de Younes – o Namli e o Mokhtar – foram muito ouvidos nesta semana, e a análise do jornalista Marco Timmer, da revista Voetbal International, foi simples e definitiva: “O Zwolle foi melhor do que o PSV, em todos os aspectos”.

Um nível tático mais acelerado e moderno, mas que ainda não vence. Enquanto isso, o trio de grandes atua com lentidão e falta de imaginação (e nível técnico) assustadoras. Os torneios continentais, mais cruéis e realistas, já despacharam esse baixo nível técnico. Segue o impasse entre o antigo e o novo. E se, ainda assim, o PSV já desponta como destacado líder do Campeonato Holandês, é sinal de que a temporada será desagradavelmente longa, desanimada, arrastada. 

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 24 de novembro de 2017)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Mais um sintoma da crise

Ronald Koeman começou bem e terminou mal no Everton: mais um técnico holandês em baixa (Tony Marshall/Getty Images)
A crise do futebol holandês vive um capítulo por semana. Bem, talvez ela seja mais visível nas semanas em que se disputam os torneios continentais – como nesta, com as derrotas de Feyenoord (Liga dos Campeões) e Vitesse (Liga Europa) praticamente definindo que o país não terá nenhum time nas fases eliminatórias dos dois certames, algo que não ocorria desde a temporada 1998/99. Mas há vários exemplos de como a Holanda está sem rumo, sem certeza nenhuma do que fazer dentro ou fora das quatro linhas. E um deles é o descrédito dos técnicos do país Europa afora.

Não era assim, e não faz muito tempo. Para citar dois nomes: ainda se considerava que Guus Hiddink e Dick Advocaat eram técnicos de ponta. Ambos sempre eram cogitados e contratados por clubes e seleções em busca de uma mentalidade, de um rumo. Basta mencionar os trabalhos de Hiddink na Austrália que fez honrosa campanha na Copa de 2006, e na Rússia de bons momentos na Euro 2008 (óbvio, dá para citar a Coreia do Sul semifinalista da Copa de 2002, arbitragens controversas à parte). E lembrar também que Advocaat treinava o bom time do Zenit, campeão da antiga Copa Uefa em 2007/08.

Nas décadas anteriores, então, falar em técnicos holandeses – ou de influência no futebol do país – era falar em profissionais um passo à frente em questões táticas. Nos anos 1970, havia o nome dos nomes: Rinus Michels (influenciado por dois ingleses que passaram pelo Ajax antes, Vic Buckingham e Jack Reynolds). Mas havia ainda o pouco mencionado Wiel Coerver, treinador no Feyenoord campeão da Copa Uefa 1973/74, criador do “método Coerver”. Havia o antecessor de Coerver no Feyenoord, Ernst Happel – austríaco, é verdade, mas marcante na história do clube, como condutor do técnico campeão europeu em 1969/70, e a “antítese” de Michels. 

A mesma coisa se repetiu nos anos 1990: se era gênio em campo, Johan Cruyff mostrou ser gênio no banco. E tinha sua nêmesis em Louis van Gaal. Sem contar os nomes periféricos: Leo Beenhakker, Aad de Mos, Clemens Westerhof, Jo(hannes) Bonfrère... E nos anos 2000, além dos citados Hiddink e Advocaat, é possível citar os bons momentos de Bert van Marwijk e Frank Rijkaard. Enfim, a Holanda era a meca da tática.

Frank de Boer vive encruzilhada cada vez maior na carreira (Alex Lifesey/Getty Images)
Deixou de ser assim. E três personagens provam a derrocada holandesa neste quesito. O primeiro, e mais conhecido, é Frank de Boer. Se os primeiros anos de trabalho do ex-zagueiro no Ajax faziam crer que surgira um técnico capaz de atualizar o ideário do Futebol Total em que a Holanda tanto acredita, a sequência revelou uma grande dificuldade de Frank em sair da camisa-de-força do 4-3-3 com pontas e troca de passes. 

Nos últimos tempos de Ajax, houve a queda para o PSV – expressa na inesquecivelmente dolorosa perda do título holandês de 2015/16, na última rodada. Veio a saída, Frank de Boer recebeu a aposta da Internazionale, e fracassou fragorosamente: certo, o caos administrativo em Appiano Gentile era geral, mas De Boer não colaborou com decisões atrapalhadas nos 85 dias à frente dos Nerazzurri. O irmão de Ronald passou o resto da temporada 2016/17 em pausa. Recebeu o voto de confiança do Crystal Palace e... foi ainda pior. Num time que briga para não cair no Campeonato Inglês, apostou no 4-3-3 e durou meros 77 dias. Caiu após quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, sem marcar gol algum. Pode até reagir na carreira, mas no momento, seu filme está completamente carbonizado.

Não chega a ser assim com Ronald Koeman. Afinal de coisas, o irmão mais novo de Erwin possui alguns bons trabalhos na carreira – na própria Holanda, com Ajax e Feyenoord, no Southampton, e até na primeira fase com o Everton. Porém, o ex-capitão da seleção holandesa mostra certa irregularidade, como exemplificam os esquecíveis trabalhos por Benfica, Valencia... e agora, na decepcionante continuação do trabalho com os Toffees: na zona de rebaixamento da Premier League, eliminado na Liga Europa, ninguém preferiu esperar para ver. Koeman foi demitido. 

Pelo menos, parece ter destino traçado, conforme reconheceu à revista Voetbal International: “Assumir a seleção seria a sequência ideal para minha carreira”. E o próprio ocupante atual do cargo, o supracitado Dick Advocaat, reconheceu: “Acho que Ronald seria uma boa escolha. Ele treinou e jogou em altíssimo nível, tem a idade ideal, e agora está livre”. Ou seja: pelo visto, após Advocaat terminar seu compromisso com a Oranje treinando-a nos amistosos contra Escócia e Romênia, o caminho ficará aberto para que Koeman, enfim, chegue ao cargo que, para muitos (o colunista aqui se inclui), deveria ter sido dele já após a Copa de 2014. Não melhoraria muito as coisas, mas pelo menos haveria mais proteção à defesa.

Peter Bosz: após a badalação, a pressão (Deutsche Presse Agentur)
Finalmente, há Peter Bosz. Que virou coqueluche na Europa ao comandar o Ajax que chegou à final da Liga Europa na temporada passada – e que ganhou chance de ouro no Borussia Dortmund, aproveitada pelos litígios crescentes com a diretoria do clube de Amsterdã. Bosz chegou, credenciado para manter o estilo ofensivo que o clube alemão ostenta. Está mantendo – até demais: com a defesa cada vez mais frágil, o time do Vale do Ruhr começa a fraquejar no Campeonato Alemão, e se vê às voltas com a crescente possibilidade de uma eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões. Hipóteses que aumentariam a pressão sobre Bosz, se concretizadas – e mais: com a atual fase do Ajax, também motivariam a pergunta de como os Godenzonen conseguiram o que conseguiram em 2016/17.

Dentro da Holanda, o cenário também não é animador. Se o Utrecht de Erik ten Hag prometia no começo da temporada, tem se mostrado frágil demais na defesa – a ponto de minorar as cogitações de que ele pudesse ser a novidade no comando da seleção. Phillip Cocu até remonta o PSV com sucesso, mas os vexames do começo de temporada e o tempo de trabalho em Eindhoven fazem crer que ele já esteve melhor na carreira, e que talvez seja mais lúcido correr mundo na carreira antes de assumir a seleção (desejo que Cocu já assumiu, para daqui a alguns anos). A mesma coisa será recomendável para Giovanni van Bronckhorst, que não consegue incutir no Feyenoord a garra vista na temporada passada – e nem acha soluções satisfatórias para remontar a defesa perturbada por lesões, como se vê nas derrotas inapeláveis pela Liga dos Campeões.

Enfim, não só a Holanda não sabe para onde ir, taticamente, como os seus principais nomes no banco de reservas também sinalizam uma decadência. Pior: a frequência de ex-jogadores talvez denote certa falta de preparação prévia, como reclamou Robert Maaskant (também técnico medíocre, a bem da verdade) ao jornal De Volkskrant, em agosto: “Quando comecei como técnico, pensava: ‘eu não tive grande carreira como jogador, então é melhor começar o quanto antes. Porque, quando todas as estrelas da seleção nos anos 1990 chegarem aos 40 anos, elas quererão ser treinadoras e conseguirão os melhores cargos’. Começou com Marco van Basten treinando a seleção, sem experiência. Desde então, você não constrói mais uma carreira no futebol holandês: ela simplesmente acontece para você”.

Ninguém sabe o que fazer. Que dirá a federação holandesa.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 3 de novembro de 2017)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Pelo menos isso

A tristeza em ficar fora da Copa foi indisfarçável. Mas pelo menos, a vitória e a atuação esforçada renderam respeito à Holanda (Pim Ras)

"Estas eliminatórias já estavam perdidas quando eu cheguei." Por essa frase de Dick Advocaat à NOS, emissora pública holandesa de tevê, já se nota como era baixa a autoconfiança da seleção da Holanda, antes da partida decisiva contra a Suécia, pela última rodada das Eliminatórias da Copa de 2018. Também não havia muita crença da capacidade da Laranja em vencer os suecos por sete gols de diferença. De fato, a Holanda não passou do sonho. E está fora de uma Copa do Mundo, após 16 anos. Se serve de consolo, pelo menos não terminou a qualificação com derrota, como para a Euro 2016. Ao contrário: a atuação na vitória por 2 a 0 mostrou esforço. E se houve um grande responsável por isso, foi Arjen Robben. Que parecia saber do caráter agridoce do jogo, ao lacrimejar durante o hino holandês.

Jogo começado, duas impressões vieram. A primeira era positiva: as mudanças na escalação que começou o jogo ajudaram a Holanda a mostrar mais ofensividade - tanto nas mudanças pelas laterais (Kenny Tete começou o jogo na direita; Nathan Aké, na esquerda), quanto no início de Daley Blind como volante, qualificando a saída de bola. Mas a segunda impressão neutralizava os efeitos da primeira: o começo de jogo deu a impressão de que a Holanda repetiria a irritante rotina vista nestas Eliminatórias. Contra uma Suécia tranquila e bem postada defensivamente, fechando-se num 4-4-2 sem a bola, restava apenas trocar passes no campo de defesa.

Até Robben começar a aparecer. Não só na direita, o seu setor preferencial, mas também vindo para o meio-campo, buscando jogo, chamando a responsabilidade. Assim, aos poucos, a Laranja foi encurralando a Suécia. Como aos 8', quando Robben puxou a bola para a esquerda, serviu a Aké, e o lateral cruzou para Granqvist tirar de cabeça. Aos 9', o camisa 11 protagonizou a primeira chance, com sua jogada habitual: dominou pela direita, cortou e chutou, mas o goleiro Robin Olsen defendeu sem problemas. Depois, aos 12', Robben perdeu mais uma boa chance, numa jogada atribulada. Aké cruzou, Jakob Johansson tirou da área, mas Tete ainda pegou a sobra e cruzou para o capitão da Oranje tentar o cabeceio, mandando a bola por cima do gol.

Junto de Robben, outros começavam a aparecer. Como Ryan Babel, que fez o que pôde pela esquerda, com jogadas individuais elogiáveis. Junto do apenas esforçado Vincent Janssen, ele provocou a jogada do pênalti que deu o primeiro gol à Holanda: Janssen desviou a bola tentando fazê-la alcançar Babel, e Victor Lindelöf tocou com a mão. Nada absurdo, mas o juiz Sergei Karasev julgou pênalti, apitou. E Robben arriscou uma cavadinha. Saiu mal feita, mas foi suficiente para o 1 a 0 que aumentou as esperanças.

Aliás, a vantagem aumentou também o volume ofensivo holandês, com o segundo gol quase vindo aos 20', num belo lançamento de Blind, do meio-campo, agarrado por Olsen antes que Babel pudesse finalizar. Aos 26', outra boa chance, numa cobrança de falta ensaiada: Robben tocou a Blind, recebeu de volta e lançou Wijnaldum, que só não fez pelo desvio providencial de Sebastian Larsson. E aos 31', em outra falta, Babel mandou a esférica rente à trave esquerda de Olsen.

A garra de Arjen Robben foi inspiradora. E fechou com dignidade seu tempo na seleção (Getty Images)

Avançando mais, obviamente a Holanda cedia espaços. E a traiçoeira Suécia quase os aproveitou duas vezes, graças a Marcus Berg. Aos 20' Larsson manda para a área em cobrança de falta, e Berg cabeceou para Jasper Cillessen defender. O goleiro holandês voltou a aparecer bem aos 35', ao defender outra testada perigosa de Berg (e ainda atrapalhado por Aké, diga-se). Mas o que impressionava era a velocidade e o esforço holandeses em busca do gol. Que quase veio aos 37', em chance perdida por Tete (Aké fez boa jogada pela esquerda, passou a Babel, o atacante cruzou para o lateral tocar por cima, livre na segunda trave). E aos 39', em sequência de duas defesas de Olsen (primeiro em arremate de Babel, depois no rebote de Janssen). Finalmente, aos 40', Robben reapareceu, com o segundo gol. Ou melhor, golaço: de primeira, da meia-lua, aproveitando passe de Babel.

Uma chance de Vincent Janssen, aos 43', simbolizava o único momento em que a Holanda ousou sonhar que a façanha era possível. Mas o placar, frio, estampava apenas 2 a 0. No segundo tempo, para aumentar a pressão e a referência na área, Bas Dost substituiu Janssen. Porém, não demorou muito para se ver que a pressão do primeiro tempo não se repetiria. A velocidade e o entusiasmo haviam ficado no primeiro tempo. Dost não conseguia finalizar - embora os cruzamentos se avolumassem, como aos 48' e aos 50'. Houve exceção aos 53', em boa triangulação de Vilhena com Babel e Aké, cujo cruzamento só foi afastado por Larsson. Mas as bolas altas só serviram para "consagrar" Olsen, que fez boas defesas aos 58 - desviando providencialmente cruzamento de Tete - e no minuto seguinte, em voleio de Wijnaldum.

Davy Klaassen e Janmaat ainda entraram, para que o toque de bola no meio-campo e os cruzamentos fossem fortalecidos. Mas já estava claro que o sonho dos sete gols estava encerrado. E nem a Suécia estava interessada em avançar - só teve uma chance real, em chute de Emil Forsberg após bola roubada de Blind por Marcus Berg, aos 70'. A oportunidade derradeira para aumentar a honra veio aos 87'. De Robben, como sói acontecer: recebendo de Janmaat e batendo para nova defesa de Olsen.

Nisso, a torcida já apenas gritava "Arjen, bedankt" (Arjen, obrigado), ao ver o esforço de um esfalfado e claudicante Robben. Que era quem mais merecia uma despedida com honra. Afinal de contas, como já se desconfiava, era o último dos 96 jogos que o nativo de Bedum fez pela seleção - terminado com 37 gols, como quarto maior goleador da história da seleção, empatado com Dennis Bergkamp. A dor ficou clara nas palavras do capitão, cumprimentado calorosamente por todos após o apito final: "Não dependia de mim, eu sabia que poderia ser a última [partida]. Foi lindo, mas foi difícil". Aliás, a dor foi tão grande quanto o bom humor: "E o 'Homem de Vidro' foi quem mais durou...".

Restava apenas a gratidão. E a consciência de que a Holanda está diante de um duro caminho para tentar ganhar o respeito de tempos idos. Algo expresso nas palavras também tristes de Bas Dost: "Não quero falar muito. Estou envergonhado. É muito duro". E na serenidade de Babel ("A federação precisa fazer um plano melhor definido") e Blind ("Será um longo verão"). Pelo menos, desta vez, a despedida teve mais honra. Agora, é hora da Holanda ruminar suas dores.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 2x0 Suécia
Data: 10 de outubro de 2017
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Sergei Karasev (Rússia)
Gols: Arjen Robben, aos 16' e aos 40'

Holanda
Jasper Cillessen; Kenny Tete (Daryl Janmaat, aos 71'), Virgil van Dijk, Karim Rekik e Nathan Aké; Georginio Wijnaldum (Davy Klaassen, aos 71'), Tonny Vilhena e Daley Blind; Arjen Robben, Vincent Janssen (Bas Dost, no intervalo) e Ryan Babel. Técnico: Dick Advocaat

Suécia
Robin Olsen; Mikael Lustig, Andreas Granqvist, Victor Lindelöf e Ludwig Augustinsson; Viktor Claesson (Gustav Svensson, aos 68'), Sebastian Larsson (Martin Olsson, aos 82'), Jakob Johansson e Emil Forsberg; Marcus Berg e Ola Toivonen (Isaac Kiese Thelin, aos 76'). Técnico: Janne Andersson

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Inacreditável

A França já vinha melhorando antes deste gol de Griezmann, que abriu o placar. Daí por diante, foi o previsível diante de uma Holanda cada vez pior (Christophe Ena/AP)
O que é inacreditável? Seguramente, não é o fato da França ter vencido a Holanda, no grupo A das eliminatórias europeias para a Copa de 2018, nesta quinta. E diante do que se viu no campo do Stade de France, não é inacreditável nem mesmo a goleada por 4 a 0. Nada mais lógico do que ver uma seleção como a francesa, com vários jogadores cobiçados Europa afora, no último dia da janela de transferências, impondo seu nível técnico diante de uma Laranja cada vez mais desmoralizada.

De modo até curioso, o 4-3-3 com que a seleção holandesa entrou em campo (com a estreia de Timothy Fosu-Mensah pela equipe) até fez alguns minutos calmos, mantendo a posse de bola diante dos Bleus. Todavia, não tinha nenhum espaço para conseguir fazer jogadas, entre as linhas muito bem postadas e treinadas da equipe da casa. Aí, foi o de sempre: a partir dos 10 minutos do primeiro tempo, a equipe azul começou a ter mais a posse de bola. E diante de uma Holanda com incapacidade crônica de se recompor rapidamente na defesa, ditou o jogo como e quando quis.

Opções de jogada para os franceses não faltavam. Na esquerda, Layvin Kurzawa sempre estava à disposição para os ataques; na direita, eram dois jogadores à disposição, com Djibril Sidibé e Kingsley Coman (ótima atuação); pelo meio, N'Golo Kanté mostrava não só a disposição de sempre nos desarmes, mas também alta capacidade para trabalhar a bola. O único problema francês era a atuação deficiente de Paul Pogba. Por sorte, Antoine Griezmann voltava quase sempre ao meio para acelerar o jogo. Assim conseguia fazer jogadas, com o grande espaço que a defesa holandesa oferecia. Assim Griezmann abriu o placar, aos 14', após tabela com Olivier Giroud, passando facilmente por Wesley Hoedt, que apenas prestou atenção na bola.

Para a seleção holandesa, o pior não era perder. Até porque a Bulgária "fazia seu papel", com a vitória momentânea sobre a Suécia na partida simultânea. O pior era notar que não havia como avaliar sua atuação, porque... não havia atuação. Os desarmes eram facilmente feitos já quando Kevin Strootman ou Georginio Wijnaldum tinham a bola. Ou seja, a esférica sequer chegava a Wesley Sneijder ou Arjen Robben, para a criação de jogadas - quando muito, Quincy Promes a tinha nos pés. Para nem falar de Vincent Janssen, escolhido como atacante titular, que tocou na bola apenas nove vezes nos primeiros 45 minutos. Em suma: o goleiro da França, Hugo Lloris, sequer precisou fazer uma defesa digna do nome. Enquanto isso, Jasper Cillessen sempre precisava de atenção na meta holandesa - se falhou no gol de Griezmann, levado por baixo das pernas, fez boa defesa em arremate de Coman, aos 39'. Para piorar, a Suécia empatou contra a Bulgária no fim da etapa inicial.

Algo precisava ser feito. Dick Advocaat tentou fazer: para acelerar o meio-campo holandês, tirou Sneijder e colocou Tonny Vilhena para o segundo tempo. O espaço para jogadas laranjas até apareceu, já que a França começou a avançar. Ainda assim, na hora de perturbar o adversário, os anfitriões eram muito mais efetivos em Saint-Denis. O segundo gol quase veio já aos 53', quando Giroud e Pogba tiveram a bola nos pés, mas chutaram-na em cima da defesa. A velocidade do meio-campo francês desnorteava a Holanda, e o símbolo disso foi Kevin Strootman, expulso em seis minutos: levara o amarelo aos 56', após derrubar Kanté com um carrinho, e recebeu depois o vermelho - até injusto, pelo juiz Gianluca Rocchi ver pisão inexistente do camisa 8 holandês em Griezmann.

Cheia de lamentações como as de Van Persie, a Holanda ainda pode chegar à Copa, por incrível que pareça (Stanley Gontha)
Aí, já não adiantava nada. Nem a entrada de Robin van Persie, substituindo Janssen para tentar fazer o ataque holandês aparecer mais. Nem a grande chance do empate que Robben perdeu aos 69': após erro de Lloris na saída de bola, Promes cruzou da esquerda, e o capitão da Laranja cabeceou na área, em cima de Samuel Umtiti, que estava na pequena área. Não adiantava mais, porque os espaços estavam ainda mais abertos, e a França só precisava aproveitar uma. Aproveitou aos 73', com o belo gol de Thomas Lemar. Jogo definido, até Kylian Mbappé, febre europeia, pôde entrar - e marcar seu primeiro gol, o quarto da França, já nos acréscimos, minutos após Lemar fazer o terceiro. Sem contar outras ocasiões em que Cillessen precisou defender - como em chutes de Mbappé, aos 80', e Alexandre Lacazette, aos 87'.

4 a 0. Não era apenas a pior derrota da Holanda para a França; era também a pior derrota da história holandesa em partidas de competição, excetuando-se os torneios olímpicos. Houve força apenas para declarações humildes de Dick Advocaat, à emissora holandesa NOS: "Nunca estivemos no ritmo do jogo. A França foi muito melhor, em todos os aspectos. E 4 a 0 é um resultado exagerado, estou um pouco chocado". Na zona mista, Kevin Strootman criticou o árbitro sem se esquecer de apontar o dedo para a sua péssima atuação, frouxa na marcação: "O juiz foi do mesmo nível que eu, hoje". E Sneijder foi definitivo: "Precisamos conversar bastante. Não conseguiremos mais chances". Chances? Pois é, a Holanda ainda tem. No fim do jogo, a Bulgária fez 3 a 2 na Suécia - para ânimo repentino de Robben, que soube enquanto falava à NOS: "Sério [que a Bulgária ganhou]? Ótimo, vou contar ao pessoal no vestiário! Parabéns à França, e agora temos de partir para a Bulgária".

Se por um lado o triunfo búlgaro representou a queda laranja para a quarta posição do grupo A, com 10 pontos, abriu possibilidade para superar Bulgária e Suécia nos jogos diretos e ainda conseguir lugar na repescagem - a Bulgária, aliás, já pode ser superada no domingo, em Amsterdã. De mais a mais, a diferença no saldo de gols para a Suécia (7 dos suecos, 3 dos holandeses) ainda é descontável. 

Ou seja: apesar de desmoralizada, a seleção da Holanda ainda depende de suas próprias forças para alcançar a repescagem nas eliminatórias europeias. Não merece chegar à Copa, mas ainda sonha com ela. Isso, sim, é inacreditável. Aliás, quem consegue acreditar que a Holanda ganhará da Bulgária?

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
França 4x0 Holanda
Data: 31 de agosto de 2017
Local: Stade de France, em Saint-Denis
Juiz: Gianluca Rocchi (Itália)
Gols: Antoine Griezmann, aos 14'; Thomas Lemar, aos 73' e 88', e Kylian Mbappé, aos 90' + 1

França
Hugo Lloris; Djibril Sidibé, Laurent Koscielny, Samuel Umtiti e Layvin Kurzawa; N'Golo Kanté, Kingsley Coman (Alexandre Lacazette, aos 80'), Paul Pogba e Thomas Lemar; Antoine Griezmann (Nabil Fekir, aos 89') e Olivier Giroud (Kylian Mbappé, aos 75')  Técnico: Didier Deschamps

Holanda
Jasper Cillessen; Timothy Fosu-Mensah, Stefan de Vrij, Wesley Hoedt e Daley Blind; Georginio Wijnaldum e Kevin Strootman; Arjen Robben, Wesley Sneijder (Tonny Vilhena, no intervalo) e Quincy Promes; Vincent Janssen (Robin van Persie, aos 64'). Técnico: Dick Advocaat

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Difícil não falar

De Ligt e Schöne lamentam: a opção eterna pela ofensividade e a fragilidade defensiva impuseram outro vexame ao Ajax (ANP)

A rigor, não é praxe deste blog comentar muito sobre resultados de clubes holandeses nas competições europeias. Em primeiro lugar, porque em tal caso o foco seria mais a Liga Europa do que a Liga dos Campeões - e a Liga Europa raramente interessa mais ao público leitor. Em segundo lugar, porque nem mesmo na Liga Europa os clubes do país costumam ter desempenhos dignos. Quando há uma exceção, o destaque é tamanho que só aí este Espreme a Laranja se mobiliza.

Contudo, mesmo com o adiantado da hora, é difícil para o blog não falar a respeito do que se viu na tarde desta quinta, pelos jogos de volta dos play-offs definindo lugar na fase de grupos da Liga Europa. Nem tanto sobre o Utrecht, que teve queda das mais honrosas para o Zenit-RUS - e da qual se falará mais proximamente nesta sexta-feira. Mas principal e obviamente sobre o Ajax, que até sonhou se recuperar contra o Rosenborg-NOR, mas que viu afinal a derrota por 3 a 2, que o tira de qualquer competição europeia, apenas três meses depois de ser finalista da própria Liga Europa contra o Manchester United, na temporada passada. Pior: os Ajacieden ficarão fora de torneios continentais pela primeira vez desde a temporada 1990/91.

A rigor, a história se repetiu. Como em tantas outras vezes, o Ajax começou ofensivamente. No estádio Lerkendal, em Trondheim, alguns jogadores pressionaram bastante o gol do Rosenborg. Amin Younes criava jogadas sem parar, pela esquerda; nem parecia que ficara fora do jogo contra o Groningen, domingo passado, pelo Campeonato Holandês. No meio-campo, Hakim Ziyech era o destaque de sempre: o camisa 10 era opção constante para jogadas. E assim, o goleiro André Hansen teve de trabalhar bastante. Aos 5', num desvio de Matthijs de Ligt; aos 7', num chute de Ziyech.

Porém, o Rosenborg foi reagindo. Ficou mais com a bola nos pés - por obra e graça da boa atuação de Marius Lundemo, no meio-campo. E a falta de organização que os Godenzonen mostram na recomposição defensiva cobrou o preço aos 25': Donny van de Beek perdeu a bola no círculo central, a equipe norueguesa trocou passes, e um cruzamento encontrou Nicklas Bendtner livre na segunda trave (Joël Veltman falhou na marcação) para cabecear e abrir o placar.

Se desgraça pouca era bobagem, a situação já dramática do Ajax ficou pior com a lesão muscular que forçou Justin Kluivert a sair de campo, aos 38', dando lugar a Vaclav Cerny - aposta do técnico Marcel Keizer no lugar de David Neres, que sequer ficou no banco em Trondheim ("Cerny tem mais profundidade", justificou Keizer à emissora de tevê Ziggo Sport). Nada acontecia. A única alternativa era ousar: Klaas-Jan Huntelaar veio a campo no lugar de Van de Beek, e o Ajax foi para um 3-4-3 ultraofensivo. Se só dois gols resolveriam a situação, era preciso buscá-los, custasse o que custasse.

Podia dar errado. Deu muito certo, a princípio. Os visitantes voltaram ao segundo tempo tão ofensivos quanto haviam sido no começo do jogo: pressionando, forçando Hansen a fazer mais defesas. E Younes, o melhor jogador do Ajax na partida, pareceu se converter no herói da classificação, ao participar de dois gols em um minuto. Aos 59', completando lançamento na área, ele mesmo empatou; no giro seguinte do ponteiro, o alemão fez jogada individual pela esquerda e cruzou para Lasse Schöne virar o jogo para 2 a 1. Uma chegada heróica à fase de grupos da Liga Europa se avizinhava. Principalmente se o Ajax cuidasse de sua defesa.

Não cuidou. Porque o Ajax seguiu sua "maldição": continuou no ataque - quase fez gols com Cerny (defesa de Hansen em chute do tcheco, livre num contra-ataque aos 75') e com Younes (bola na trave aos 77'). Pouco depois, Keizer colocou pressão na defesa: tirou Dolberg para colocar o lateral Deyovaisio Zeefuik, 19 anos e só 21 minutos na equipe principal do Ajax, aos 78'. Aí, o Rosenborg reanimou-se no ataque. E enquanto a defesa do Ajax se reorganizava, o destino foi selado. Samuel Adegbenro, que saíra do banco, se converteu no destaque da classificação da equipe alvinegra à fase de grupos da Liga Europa. Autor do gol da vitória no 1 a 0 de Amsterdã, o atacante nigeriano empatou aos 80', em cabeceio. E só para mostrar como era patética a organização defensiva do Ajax, fez jogada individual para o 3 a 2 do Rosenborg, driblando Zeefuik e Veltman para chutar no canto direito de André Onana.

Depois, foi o de sempre: Marcel Keizer assumindo a culpa pela eliminação, o capitão Veltman reclamando ("Não se pode permitir o empate que nós permitimos, falhamos coletivamente", lamentou à Ziggo Sport), o diretor geral Edwin van der Sar contemporizando ("Você realmente acha que fomos piores nas duas partidas?", indagou irônico ao repórter da FOX Sports holandesa) e lamentando ("A tristeza é grande. Todos devem se olhar no espelho e se questionar: nós, diretores, os jogadores, e o técnico"). E a certeza de que o Ajax precisa, novamente, se reformular, após o período de rara bonança que viveu, definitivamente encerrado pelo vexame gigante.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

De novo, brincando com a sorte

Aposta arriscada do Roda JC: a união do acionista Korotaev e a novidade Anelka como conselheiro técnico (Marcel van Hoorn/ANP)

“Anelka é do Roda”. Calma, Alexandre Kalil não se mudou para Kerkrade, a cidade do mencionado clube holandês (até porque Kalil tem muito a fazer, prefeito belorizontino que se tornou). No entanto, a frase inicial é verdade: o Roda JC é o mais novo empregador do ex-atacante francês, de 37 anos. E é possível dizer que sua chegada, para ser um conselheiro técnico, simboliza que novamente o clube irá apelar para uma situação conhecida nas duas últimas temporadas do Campeonato Holandês: na dificuldade, arrisca-se. Seriamente ameaçado pelo rebaixamento de novo, o Roda contratou nada menos que nove jogadores nesta janela de transferências recém-encerrada. 

Até justificável: o clube seguiu exatamente essa receita em 2015/16. Chegou ao final do turno em 15º lugar, a primeira posição fora da zona de repescagem/queda. Aproveitou a pausa do inverno europeu para contratar oito jogadores (quatro por empréstimo, quatro em definitivo). Alguns deles emplacaram: principalmente no meio-campo, com o cazaque Georgi Zhukov, o turco Ugur Inceman e o espanhol Marcos Gullón. E ainda vale a pena mencionar alguns que estavam nos Koempels desde o começo da temporada, como o atacante Maecky Ngombo. Alguns bons resultados vieram, principalmente na parte final da temporada (como o 2 a 1 no NEC, na penúltima rodada, com golaço do meia Tom van Hyfte). E o Roda conseguiu se salvar.

Salvou-se evitando, por sinal, o retorno à segunda divisão que frequentara em 2014/15 – e da qual só saiu nos play-offs, superando o NAC Breda. E se caiu, foi apenas e tão somente por terminar na última colocação em 2013/14 – e já estivera nos play-offs contra a queda, ao terminar em 16º na temporada anterior. Sem contar a persistente ameaça de falência. Ameaça que quase virou fato em meados de 2015, não fosse Frits Schrouff, empresário de Kerkrade e torcedor fanático do “Orgulho do Sul”, que decidiu virar acionista majoritário, comprando 99,8 por cento das ações do clube. O dinheiro que Schrouff investiu permitiu aquela compra “de baciada” na pausa da temporada 2015/16, que deu certo e impediu novo rebaixamento.

Eis que a temporada atual mostra situação semelhante. Em uma disputa altamente equilibrada contra o rebaixamento, o Roda JC terminou o primeiro turno da Eredivisie atual na penúltima posição, apenas um ponto acima do lanterna Go Ahead Eagles. Pior: ficou nove rodadas sem vencer. Pior ainda: entre a 14ª e a 18ª rodada, sequer marcou gols. Para aprofundar ainda mais a crise: a primeira vitória em casa na temporada veio somente há duas rodadas (4 a 0 sobre o Excelsior).

Foi aí que surgiu um novo “salvador da pátria”, como Frits Schrouff já fora. Aliás, o Roda JC já está acostumado a ter alguém com tal papel em sua história, desde os tempos do mecenas Nol Hendriks, conselheiro do clube e diretor técnico entre 1981 e 2006, que não só investia, mas também chegava até a ser “olheiro” do clube (e teve certo êxito – basta lembrar que o Roda foi vice-campeão holandês, em 1994/95). 

Neste janeiro de 2017, o “salvador” surgiu na figura de um empresário suíço de ascendência russa, morador de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos: Aleksei Korotaev. Negociando desde outubro para tornar-se acionista minoritário do clube de Kerkrade, Korotaev afinal foi anunciado, em 24 de janeiro. E a história de sua aproximação com o clube aurinegro é daquelas bizarras, esquisitas, tragicômicas. Empresário em sua cidade adotiva, o suíço desejava investir em futebol havia muito tempo. Aí, o “cupido chegou”, na forma de Stijn Janssen, advogado de 44 anos. Outro torcedor fanático do Roda JC, Janssen foi trabalhar justamente em Dubai, após o escritório para o qual trabalha ter aberto uma filial na cidade emiratense.

Lá, trabalhando e acompanhando o Roda JC de longe, Janssen encontrou Korotaev. E o resto, ele contou à revista Voetbal International: “O assunto das nossas conversas era sempre futebol. Falávamos das últimas notícias de transferências, analisávamos jogos a que havíamos assistido. Aleksei é um amante intenso de esportes. Quando jovem, até atuou na base do Servette [clube suíço], mas uma lesão interrompeu seu sonho”. Juntas a fome de Janssen em fazer o clube do coração melhorar com a vontade de comer (e investir em futebol) de Korotaev, bastou o empresário suíço apresentar-se ao conselho e à direção em Kerkrade para ser aceito no ato.

Obviamente, os olhares de esguelha e desconfiança para chegada tão repentina foram gigantescos. O próprio diretor geral do Roda, Wim Collard, reconheceu isso: “É lógico que compreendemos [o ceticismo]”. Porém, em tempos nos quais um clube da Eredivisie sofre cada vez mais com as rusgas entre conselheiros e o mecenas (o ADO Den Haag, já comentado aqui – e agora, aliás, na zona de repescagem/rebaixamento), Collard se apressou em tentar tranquilizar a torcida sobre o temor de Korotaev ser um “para-quedista”: “Acreditem que estamos muito alertas, com os acontecimentos anteriores no futebol. Fizemos nossa lição de casa. (...). As pessoas ligadas ao Roda JC, e a imprensa, podem ter certeza que não definimos isso em uma noite”.

Chegando no final de janeiro, houve tempo para um pequeno aporte financeiro do novo acionista, que permitiu negociações frenéticas, e a chegada às pressas de nove jogadores antes do final da janela. Um deles, o atacante grego Athanasios Papazoglou, chegou para já ser titular absoluto. Outros dois atacantes, Gyliano van Velzen e Simeon Raykov, entraram na rodada passada. Chegaram a Kerkrade ainda o atacante Beni Badibanga; os meio-campistas Stefan Savic, Ognjen Gnjatic e Mohamed El Makrini; e o zagueiro Bryan Verboom - mais o novato Lyes Houri, que foi para a categoria de base.

Todavia, a apresentação que interessava era mesmo a de Aleksei Korotaev. Ocorrida na semana passada, trouxe um cidadão que repetiu clássicos discursos de mecenas, em vários lugares do mundo, em vários momentos: “É um sonho que se torna realidade. Espero ficar ligado a este clube por 50 anos. Em cinco anos, quero ver o Roda jogando a Liga dos Campeões”. Não bastasse isso, havia ainda a surpreendente contratação de Anelka como conselheiro técnico – o francês foi vizinho de Korotaev em Dubai. E o francês também foi rápido para tentar dirimir as desconfianças sobre sua capacidade para o cargo: “Eu acho que posso reconhecer um jogador talentoso. Joguei muito tempo, em vários lugares. Vi muitos jogadores talentosos. Já fiz esse serviço em Xangai, Mumbai e na Argélia”. Korotaev ainda falou sobre o jogo que ocorreria domingo passado: “O Roda vai ganhar do Ajax por 2 a 1”. 

Não deu – embora os Koempels tenham até vendido caro a vitória, no final os visitantes de Amsterdã conseguiram um 2 a 0 que lhes manteve na vice-liderança do Campeonato Holandês. E o Roda JC segue na penúltima colocação do campeonato. É esperar para ver se a brincadeira com a sorte vai, de novo, render a salvação. E, principalmente, se Korotaev será uma fada madrinha fiel ou um príncipe que abandona a gata borralheira.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 10 de fevereiro de 2017)

sábado, 24 de dezembro de 2016

Retrospectiva: o "fim da história"?


"Natal sem Cruyff: nosso futebol perdeu seu farol". Mais um lamento, no triste 2016 que a Holanda viveu no futebol (AD Sportwereld)

Já faz algum tempo (precisamente, um ano, dois meses e 10 dias) que a seleção da Holanda teve confirmado o seu maior vexame nos últimos tempos: a ausência na Euro 2016. Ausência que não foi esquecida, nesse tempo todo: basta um tropeço da Laranja, seja pelas eliminatórias para a Copa de 2018, seja por um amistoso, para que volte o olhar pesado de desconfiança sobre a presença da equipe na próxima edição da Copa. Sem contar a já crônica má fase da maioria dos times do país em torneios continentais. Ou a rotina repetitiva do Campeonato Holandês, cuja disputa pelo título já parece resumida a Feyenoord e Ajax - embora a luz do PSV tenha se mantido ainda acesa com o empate no clássico contra o Ajax, domingo passado.

Tudo isso já serviria para que 2016 tivesse sido um ano esquecível para o futebol holandês. Porém, um fato foi (e é) ainda mais marcante nesse olhar melancólico com que o ludopédio é visto atualmente no país: claro, a morte de Johan Cruyff, em 24 de março. Ainda dói lembrar do falecimento do maior jogador de sua história, do primus inter pares, do sujeito que lhe deu uma cara dentro de campo. Prova disso é a capa da edição do AD Sportwereld, o caderno de esportes do diário Algemeen Dagblad, que abre esta coluna. A mensagem fala em "um Natal sem Cruyff". Em suma, ainda é triste saber que a Holanda não tem mais seu JC.

E é triste não só pela morte em si. Mas porque ela representou para muita gente, em imprensa e torcida, uma espécie de “fim da história”. Como se fosse, implicitamente, o final do capítulo que tornou a Holanda conhecida por seu futebol no mundo todo. E como se, daqui por diante, o caminho fosse inexorável rumo ao esquecimento, ou a viver das memórias. Mas isso é inevitável, mesmo? De fato, o caminho da Holanda é inevitavelmente voltar ao que ela era antes de 1974: uma seleção do terceiro escalão europeu?

Claro, não dá para responder isso agora. E mesmo se fosse possível, muito provavelmente, a resposta seria negativa. O futebol holandês já viveu períodos de baixa, e este é apenas mais um deles. De mais a mais, ciclos vêm e vão dentro do futebol – que o diga a vizinha Bélgica, há dez anos uma seleção considerada decadente, e hoje relativamente respeitada (até um pouquinho além da conta, às vezes). Ou seja: por mais que pareça pequena a chance de reação em algum momento, ela ainda existe.

O problema é que, para aumentar as chances dessa reação, duas características são indispensáveis: humildade e modernização. Duas coisas que andam em falta no futebol holandês. Um bom exemplo disso é o anacronismo tático visto no país, tanto na seleção quanto nos clubes. Casos dos últimos anos deixam claro como a Holanda precisa urgentemente modernizar o estereótipo do “4-3-3 com dois pontas”, vindo desde 1974, no qual confia. Jogando no 4-2-3-1, com mais proteção à defesa, a Oranje conseguiu chegar à final da Copa de 2010; no 5-3-2 pensado por Louis van Gaal, pela força das circunstâncias, a equipe laranja fez uma campanha surpreendentemente agradável na Copa de 2014.

Fenômeno semelhante também ocorreu com clubes. Sendo assumidamente defensivo fora de casa, o PSV também foi boa surpresa na Liga dos Campeões passada; e agora, tentando ser mais veloz e ofensivo, o Ajax causou impressão relativamente boa na fase de grupos da Liga Europa. Isto é, aqui e ali, há exemplos de que ainda é possível ser mais atual, mais... “moderno”. O problema é que tais opções colidem com o ideário holandês de futebol – obviamente, calcado muito nas ideias de Johan Cruyff. Para o Número 14, o futebol era menos estudo, menos previsibilidade, e mais imaginação individual, mais decisões rápidas dentro de campo, mais dependência do acaso - aliás, uma das frases do gênio diz: “Coincidência é lógica”. 

Até tem seu fundo de verdade. Mas hoje, por mais contraditório que pareça, para que um time seja fluido e circule bem dentro de campo, mudando taticamente ao sabor das circunstâncias da partida (como fazia, ora bolas, a seleção holandesa de 1974), muito precisa ser “estudado” fora de campo. Citando uma discussão que esteve em voga: mesmo para o time jogar com a despreocupação de um Renato Gaúcho, é preciso ter um metodismo – como mostram vários exemplos por aí, alguns até de um jeito obsessivo. 

Eis o drama da Holanda: não quer largar as ideias de Cruyff, mas ao mesmo tempo sabe que precisa fazer isso algumas vezes, se quiser ser realmente grande no futebol. Eis outra dúvida gigantesca (até comentada aqui vez por outra, principalmente no espaço de comentários), a que a morte de Cruyff pode levar a pensar: afinal de contas, a Holanda é grande? A resposta mais próxima da verdade: é uma seleção média, com status de seleção grande. Ninguém mandou ter atuações de sonho em 1974, descortinando novos rumos para o futebol mundial – coisa que outras “médias”, como Inglaterra e Portugal, jamais fizeram. Mas também ninguém mandou perder três finais de Copa, muito menos ter uma raquítica estante de títulos. E como bem souberam Espanha e França antes da bonança, sem títulos você pode até ser respeitada, mas isso vai até a página 2. Por mais cruel e impiedoso que seja, cabe o ditado: se a Holanda quer respeito definitivo, que faça por merecer. E só merecerá respeito definitivo... com títulos. Não adianta chorar. E conquistar esses títulos está mais e mais difícil.

Assim como dificilmente adiantará a Eredivisie querer ser um campeonato novamente atraente para novatos se não tomar atitudes práticas. Está certo que o Campeonato Holandês jamais foi tão interessante quanto se pensa (nem mesmo nos tempos campeões de Ajax e PSV o nível técnico era atraente). Sempre foi uma liga de segundo escalão. Mas até por isso, era um cenário ideal para o desenvolvimento de novos atletas, como um “ensaio geral” na Europa antes de craques tentarem coisa melhor. Provas disso não faltam: Romário, Ronaldo, Luis Suárez... mas isso mudou. Gigantes europeus têm suas redes de olheiros muito mais desenvolvidas. As contratações são muito mais precoces. 

Não há muito jeito das ligas menores sanarem isso – e se há um jeito, não é desejando mudar o formato de disputa do campeonato, como pensa a Eredivisie, inspirada na variedade maior de vencedores na liga da Bélgica. Há a velha ideia de unificar as ligas belga e holandesa, formando a famosa "Beneliga", mas ela anda em baixa hoje, por dois motivos. O primeiro é que isso já foi tentado nas ligas de futebol feminino, sem sucesso - tanto que ambas já voltaram a ser autônomas. O segundo é até mais complicado: num momento em que há clara guinada mais nacionalista no mundo, como falar em união - ainda mais sendo a Holanda a terra de Geert Wilders, sonhando em se tornar primeiro-ministro do país com discurso anti-Islã? Talvez o jeito seja fazer os grandes holandeses se organizarem, tentarem falar mais grosso, serem mais ambiciosos. Até porque, tradição por tradição, não deixam nada a dever a grandes portugueses, russos, ucranianos...

Enfim, talvez a morte de Cruyff não seja “o fim da história”. Mas só se ela representar o fim de certas utopias que não cabem mais no momento atual do futebol mundial. Se a Holanda seguir grudada a elas, aí sim, o perigo será grande de o “sonho” ter acabado.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 23 de dezembro de 2016. Revista e atualizada)