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| O Fortuna Sittard mantém a turbulência do lado de fora do campo: está perto do título e do retorno à primeira divisão (Gerrit van Keulen/VI Images) |
Na
primeira divisão do Campeonato Holandês, o PSV já se prepara timidamente para a
festa do título que se aproxima (timidamente por causa de razões que serão
explicadas no final deste texto). Então, acabou-se a emoção que o futebol
holandês possa ter para oferecer em 2017/18? Muito longe disso. Porque, na
segunda divisão, também restando apenas cinco rodadas, Fortuna Sittard, Jong
Ajax e NEC protagonizam uma disputa pelo título – e pelo consequente acesso
direto – como havia tempos a Eerste Divisie não via. Apenas um ponto separa as
três equipes.
A equipe B Ajacied está na terceira posição, com 64 pontos e saldo de gols menor
do que o time de Nijmegen, rebaixado na temporada passada, atual ocupante da
segunda posição, com pontuação igual. E ambos estão abaixo do Fortuna Sittard,
que viu a sorte lhe sorrir há duas rodadas, na sexta passada: não só viu
derrotas dos adversários diretos – no “clássico dos times B”, o Jong PSV fez 3
a 0 no Jong Ajax, enquanto o NEC sucumbiu ao FC Eindhoven (3 a 2) -, mas
cumpriu sua tarefa ao golear o Almere City (4 a 1) para voltar à primeira
colocação. E a situação se manteve como tal na 33ª rodada, ocorrida na segunda
passada, quando todos venceram. O NEC fez 3 a 0 no Telstar; o Jong Ajax superou
o Dordrecht (3 a 2); e o Fortuna também ostentou 3 a 0, no Helmond Sport.
Conseguir
a liderança na reta final, ainda que longe de ser definitiva, é bastante
surpreendente para o Fortuna. Não pelo clube ter vivido uma ascensão
vertiginosa: como a coluna citou no fim de janeiro, já então o time auriverde
de Sittard estava presente na disputa pela liderança, sonhando com a volta à
Eredivisie após 16 anos. Porém, coincidentemente, naquela semana a equipe fora
derrotada pelo Dordrecht (3 a 0). E o nigeriano Sunday Oliseh, ainda técnico,
já começara a pedir mais apoio da diretoria – o que incluía contratações.
Foi
o início da fase mais turbulenta que o Fortuna Sittard viveu em sua campanha.
Primeiro, porque no começo de fevereiro, alguns jornais e sites divulgaram
suposta demissão de Oliseh, por suas declarações criticando a diretoria. O
clube rapidamente desmentiu – e, de fato, o ex-jogador seguiu comandando a
equipe. Mas estava claro que o clima era o pior possível entre as partes. Seguiram-se
mais dois jogos sem vitória. E aí, sim, não só Oliseh foi demitido, no meio de
março, como o conflito se tornou aberto.
O
nigeriano deu a primeira estocada, à revista Voetbal International: “Eu não
queria continuar. Não queria fazer parte de práticas ilegais”. O clube –
leia-se o proprietário Isitan Gün – quis ouvir quais eram tais práticas. E
levou o ex-comandante à Justiça Comum holandesa, onde ambas as partes estão até
agora. Em audiência acalorada no dia 20 de março, Oliseh acusou o clube de
pagar irregularmente jogadores e treinadores; Gün vociferou contra os métodos e
comportamentos do técnico. O veredito veio nesta sexta: a comissão independente decidiu que a razão estava com o Fortuna Sittard, e Oliseh ficou sem direito a indenização pela demissão.
Em
meio a tal tormenta, parece incrível que o português Cláudio Braga, que passou
de técnico dos juvenis a interino do principal sem escalas, conseguisse blindar
a equipe. Blindou. Paralelamente, os destaques voltaram a se sobressair, em
figuras como Finn Stokkers e Lisandro Semedo. E mesmo após a demissão, o
Fortuna se manteve próximo da primeira posição. Está invicto desde então, com
três empates e sete vitórias. Na última, como já dito, retomou a liderança. Não
que as dificuldades tenham cessado. Longe disso – no supracitado triunfo contra
o Almere City, o clube perdeu um dos destaques na campanha, o atacante Djibril
Dianessy, fora da temporada após romper o ligamento cruzado anterior. Mas está
claro que o sonho do retorno à Eredivisie segue muito vivo.
Assim
como segue vivo para o NEC, também disputando firmemente a liderança. Como
ocorreu com outros campeões da segunda divisão, o clube de Nijmegen tenta
retornar rapidamente à primeira divisão com a mesma base que sofreu o
rebaixamento. Ainda seguem no time treinado por Pepijn Lijnders o goleiro Joris
Delle, o zagueiro Wojciech Golla, o volante Janio Bikel, o atacante Mohamed
Rayhi. Uma contratação até inesperada – Anass Achahbar, que era promissor no
Feyenoord – também tem mostrado talento: é o goleador da equipe na temporada.
Além
do mais, jovens que eram apenas promessas em 2016/17 já amadureceram
suficientemente para tomarem conta de suas posições e se destacarem na
campanha. É o caso do meio-campista Ferdi Kadioglu e do atacante Arnaut
Groeneveld. Todavia, um hábito da segunda divisão holandesa bem conhecido de
brasileiros tem perturbado a campanha: a ausência de paralisação do campeonato
nas datas Fifa. Há três rodadas, com Kadioglu e Groeneveld na seleção holandesa
sub-21, o NEC tropeçou contra o De Graafschap (1 a 1). A derrota para o FC
Eindhoven devolveu a ponta ao Fortuna Sittard. E agora, os Nijmegenaren apenas
esperam tropeços – possíveis – do primeiro colocado.
E
o terceiro colocado da Eerste Divisie poderia estar muito tranquilo na disputa.
Afinal, o Jong Ajax não será promovido caso seja campeão, por motivos óbvios.
Porém, a temporada decepcionante da equipe principal coloca uma certa pressão
na equipe B dos Amsterdammers. Pressão que às vezes prejudica, como na derrota
para o Jong PSV. De mais a mais, os jogadores às vezes sofrem com o vai-e-volta
entre o banco do time de cima e a titularidade absoluta na equipe B. É o caso
de vários jogadores: Luis Orejuela, Noussair Mazraoui, Carel Eiting e, acima de
tudo, Mateo Cassierra, goleador da equipe na temporada. Além do mais, até pelo
investimento que o Ajax faz em sua base (muito mais alto que o dos rivais,
obviamente), considera-se que ganhar a segunda divisão seria um
certo prêmio de
consolação. E perdê-la, mais uma decepção.
Está
certo que Fortuna Sittard e NEC, mesmo perdendo o título, continuariam na
disputa pelo acesso – afinal, como “campeões de período”, estão garantidos na
repescagem. Ainda assim, a mobilização na disputa pelo título da segunda
divisão os faz esquecer tal possibilidade. Afinal, viria o acesso direto junto
da taça. E a ansiedade da reta final foi expressa justamente por quem tem menos
“obrigação” de ser campeão: Michael Reiziger, técnico do Jong Ajax. “Está uma
competição legal. E está surpreendente, todo mundo pode perder pontos”. Após a 34ª rodada ser jogada nesta sexta, a vitória do Jong Ajax sobre o NEC (2 a 0) fortaleceu o time de Amsterdã - e também o Fortuna, que venceu o Go Ahead Eagles (1 a 0) e segue na ponta. Mas quem garante que isso durará?
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| Se há um time que pode impedir o sonho apoteótico do PSV, é o AZ, com a dupla Alireza-Weghorst (Tom Bode/VI Images) |
PSV: a decisão antes da decisão
Sete
pontos à frente do Ajax, com cinco rodadas para o final do Campeonato Holandês:
a torcida do PSV já esfrega as mãos pensando em comemorar o título. Se tudo der
certo para os Boeren, a comemoração seria deliciosa: precisando de duas
vitórias, os três pontos decisivos viriam justamente no clássico contra o vice-líder
de Amsterdã, na 31ª rodada, no próximo dia 15. Aí mora o perigo. Porque, antes
do clássico, neste sábado, a partida da 30ª rodada traz justamente uma visita
contra... o AZ, terceiro colocado. E não será nada fácil vencer a equipe
altamente ofensiva e rápida que vem de Alkmaar.
Seja
nas laterais, com Jonas Svensson e Thomas Ouwejan; no meio, com Guus Til e Teun
Koopmeiners; no ataque, com Alireza Jahanbakhsh, Wout Weghorst e Oussama
Idrissi; as opções ofensivas não faltam a John van den Brom. E a organização
tática dá aos Alkmaarders franca superioridade sobre a maioria dos rivais –
como provou o fácil 3 a 0 sobre o ADO Den Haag, na rodada passada. Não à toa, o
AZ chega à final da Copa da Holanda pela segunda temporada consecutiva. Menos à
toa, sonha até com o vice-campeonato – desvantagem ainda reversível de cinco
pontos, para o Ajax, que será enfrentado na penúltima rodada. Menos à toa ainda
foi ver alguns destaques (o goleiro Marco Bizot, Til, Weghorst) lembrados por
Ronald Koeman na convocação da seleção.
Se
há algum álibi com que os Eindhovenaren podem contar, é o péssimo retrospecto
do AZ na temporada contra os grandes. Ao enfrentar o Feyenoord, o mais
decepcionante do trio, foram duas derrotas – incluindo aí um 4 a 0 em plena
Alkmaar. Contra o Ajax, numa partida que poderia dar a vice-liderança, fez-se o
1 a 0, mas foi tomada a virada. E contra o PSV, na primeira rodada, o AZ até
saiu na frente, mas levou o 3 a 2. Ainda assim, num momento decisivo da
temporada, e diante de um time elogiável tecnicamente (nem que seja para chegar
na Liga Europa e passar vexame – quem esquece os 7 a 1 do Lyon?), o PSV precisa
de atenção. Afinal, ainda há esta decisão contra o AZ antes da sonhada
“decisão” contra o Ajax.
(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 6 de abril de 2018)