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sábado, 5 de julho de 2025

A calma antes da tempestade

A estreia na Eurocopa feminina, contra o País de Gales, mostrava a Holanda (Países Baixos) sem espaço para os gols, embora superior. Aí veio Miedema, veio o recorde, veio a vitória (Aitor Alcalde - UEFA/Getty Images)

Sabe-se que o grupo da seleção feminina da Holanda (Países Baixos) na Eurocopa feminina é exigente: a maioria de quem acompanha é unânime sobre o grupo D ser o "Grupo da Morte", incluindo a atual campeã Inglaterra e a França. Porém, também era unânime que o País de Gales, adversário restante da chave, é o time que pode oferecer "alívio" às seleções mais fortes. As galesas seriam as adversárias das Leoas Laranjas na estreia pela Euro - uma vitória era, pois, necessária, e quanto mais gols, melhor. Não chegou a ser uma goleada, mas a vitória por 3 a 0 aumentou um pouco o otimismo holandês rumo aos desafios dificílimos que virão nesta fase de grupos.

No começo do jogo, a Holanda já sinalizou que dominaria a posse de bola. Não com toques curtos, mas com lançamentos longos. De preferência, para as pontas, onde se poderia chegar ao ataque. Assim surgiu a primeira chance: aos 5', Jill Roord passou pela lateral direita Josephine Green e já chutou. A goleira Olivia Clark rebateu meio no susto, a bola ricocheteou e quase entrou. Assim surgiriam vários momentos perigosos holandeses no primeiro tempo em Lucerna.

O segundo foi com Vivianne Miedema: aos 16', pela esquerda da grande área (onde geralmente ficava, partindo do meio da área), ela arrematou e o chute foi bloqueado por Rhiannon Roberts. Na sequência, mais tentativas: Daniëlle van de Donk - despontando menos em campo do que nos amistosos recentes - cruzou, Wieke Kaptein (esta, sim, aparecendo bastante) finalizou, e outra vez a zaga bloqueou. A sobra foi pega por Jackie Groenen, que tentou e... de novo, bola em cima da zaga galesa.

Era perigoso? Nem tanto, porque o País de Gales não tinha a bola. E quando a tinha, não conseguia pressionar. O único momento merecedor de mais atenção foi um cruzamento de Esther Morgan, aos 20', pego sem problemas por Daphne van Domselaar, que ficou sem muita ação no jogo. Depois, aos 44', uma sequência de escanteios galeses, que terminou com um arremate de Lily Woodham, que passou muito acima do gol neerlandês. Em suma: a Holanda mais perdia chances do que sofria ataques. E o grande símbolo disso foi o chute com que Jill Roord acertou a bola na trave esquerda de Clark, aos 35'.

Sem conseguir entrar com troca de passes, já sem acelerar tanto com as bolas longas, a Holanda começava a depender demais de um lance individual para furar o bloqueio galês. Para a sorte das Leoas Laranjas, há uma jogadora plenamente capacitada para tais lances individuais. E ela fez um desses, brilhantes, para o 1 a 0 que desafogou a nacionalidade neerlandesa: já nos acréscimos do 1º tempo, Miedema dominou a bola na área, ajeitou-a (e nisso, já se livrou da marcação de Roberts) e arrematou, colocado, no ângulo esquerdo de Clark. Um golaço digno da marca histórica que alcançou: foi a 100ª vez que a camisa 9 das Leoas Laranjas acertou a bola na rede.

Um gol, passe para outro, e Pelova se destacou no triunfo (Leiting Gao/BSR Agency/Getty Images)

Prevendo que a situação ficaria difícil para as galesas, que precisariam ir mais ao ataque no segundo tempo, a técnica Rhian Wilkinson decidiu proteger mais a defesa das "Dragoas", com a entrada de Ella Powell. Porém, já aos 48', antes mesmo que tal alteração tivesse efeito, Buurman lançou a bola em profundidade pela direita, Van de Donk a alcançou e a cruzou para Victoria Pelova dominar, girar e fazer o segundo gol holandês. O domínio estava assegurado. Poderia ter sido ampliado aos 52', em bela jogada: Miedema deixou Roord na cara do gol, mas novamente a camisa 6 acertou a trave de Clark. Pelo menos, o terceiro gol não demorou: logo após outra bola na trave - Jackie Groenen, em um de seus chutes de fora -, a jogada seguiu, Pelova cruzou, e Esmee Brugts completou para as redes na pequena área.

A partir daí, o jogo estava decidido. Andries Jonker poderia levar a campo nomes como Chasity Grant - que teve sua chance, aos 70', chutando cruzado para fora. Poderia até dar alguns minutos à recuperada Lineth Beerensteyn, que teve possibilidades de marcar aos 75' (Olivia Clark defendeu). Ambas fizeram juntas a mesma jogada de ataque, aos 86': Beerensteyn passou, Grant concluiu, e Josephine Green tirou a bola na pequena área. Mesmo nos acréscimos, as Leoas Laranjas tiveram chances em dois chutes: Groenen (90' + 2, em sobra de escanteio, mandando de voleio para fora) e Pelova (também arrematando por cima, após passe de Grant, que aproveito erro de Olivia Clark na saída de bola).

Esperava-se domínio holandês nesta estreia na Euro. Ele veio. Com calma. A calma antes da "tempestade" dos duelos contra Inglaterra, na próxima quarta, e França, no dia 13.

Euro feminina 2025 - Fase de grupos - Grupo D

País de Gales 0x3 Holanda
Data: 5 de julho de 2025
Local: Allmend (Lucerna)
Juíza: Frida Klarlund (Dinamarca)
Gols: Vivianne Miedema, aos 45' + 3, Victoria Pelova, aos 48', e Esmee Brugts, aos 57'

PAÍS DE GALES
Olivia Clark; Josephine Green, Rhiannon Roberts, Gemma Evans e Lily Woodham; Ceri Holland (Carrie Jones, aos 79'), Angharad James-Turner, Hayley Ladd e Esther Morgan (Ella Powell, aos 46'); Jess Fishlock (Rachel Rowe, aos 64'); Hannah Cain (Ffion Morgan, aos 64'). Técnica: Rhian Wilkinson

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Kerstin Casparij (Lynn Wilms, aos 64'), Veerle Buurman (Caitlin Dijkstra, aos 81'), Dominique Janssen e Esmee Brugts (Sherida Spitse, aos 71'); Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk (Chasity Grant, aos 64') e Wieke Kaptein; Victoria Pelova, Vivianne Miedema (Lineth Beerensteyn, aos 71') e Jill Roord. Técnico: Andries Jonker

terça-feira, 14 de junho de 2022

Valeu, mas...

As falhas da defesa quase colocaram uma vitória da Holanda a perder. Mas de novo, houve tempo para a salvação nos acréscimos - com Memphis Depay (à direita) (Pro Shots)

Os jogadores da seleção da Holanda se cansaram. Muitos tiveram de prolongar a temporada com os jogos da Liga das Nações. O técnico Louis van Gaal precisou alternar as escalações - mais titulares contra Bélgica e Polônia, mais opções alternativas contra o País de Gales. Assim foi, de novo, contra Gales, nesta terça-feira, em Roterdã. E a impressão ao final destas duas semanas de datas FIFA foi positiva, com ressalvas. Sim, ao buscar a vitória por 3 a 2 nos acréscimos diante dos galeses - de novo, como no 2 a 1 de Cardiff! -, a Laranja indicou que tem qualidade em sua equipe decente. Porém, como indicou a digna (de novo) atuação da equipe visitante em De Kuip, há problemas a serem consertados até a Copa. 

Tais problemas demoraram um pouco a aparecer, ainda. Porque, se o caso era testar de novo os jogadores mais jovens, Noa Lang e Cody Gakpo aproveitaram bem a oportunidade. Noa pela esquerda, Gakpo pela direita, os dois atacantes mostraram velocidade e ofensividade - tendo até a referência com Vincent Janssen, voltando a ser titular da seleção após cinco anos, numa atuação de mais ajuda que talento. Os dois gols, um de cada ponta, que abriram vantagem para a Holanda no placar - destaque para o bonito gol de Lang - prometiam o começo de uma atuação mais tranquila do que a vista contra a Polônia, sábado passado.

Porém, novamente, a defesa colocou tudo isso em risco. Novamente, Jordan Teze falhou - desta vez, com consequências: uma perda de bola do zagueiro, no meio-campo, abriu caminho para Brennan Johnson (jogara bem em Cardiff, voltou a jogar bem em Roterdã) diminuir a vantagem neerlandesa logo depois que ela fizera 2 a 0. Foi um sinal de que a Holanda, de fato, continua sofrendo com seus zagueiros - ainda mais quando Virgil van Dijk não está em campo. Stefan de Vrij no sábado, Matthijs de Ligt no domingo, ambos jogaram como comandantes do trio de zagueiro, mas nenhum deles com o mesmo controle e liderança dos colegas de zaga como o capitão da seleção.

A falha de Teze (camisa 2) no gol de Brennan Johnson foi o primeiro indício: a zaga holandesa ainda tem falhas notáveis (Perry vd Leuvert/NESImages/DeFodi Images via Getty Images)

Para tentar minorar essas falhas, Van Gaal já colocou mais titulares no segundo tempo: De Vrij e Denzel Dumfries já vieram a campo no começo dele. E as chances de ataque continuaram: um chute de Noa Lang cujo rebote Gakpo não conseguiu aproveitar aos 59', uma tentativa de Gakpo aos 72'. Pouco depois, Memphis Depay e Steven Bergwijn foram mais dois destaques a virem ao campo - e tentaram atacar, como Bergwijn, aos 76'. Porém, nenhuma delas foi ao local que deveriam ir: o gol de Wayne Hennessey.

Além do mais, mesmo voltando, a defesa deixava espaços suficientes para o time de Gales atacar. A boa atuação de Brennan Johnson ampliava os perigos. Aaron Ramsey veio a campo no segundo tempo. Mais alguns minutos, e veio Gareth Bale. Aos poucos, a defesa foi sendo acuada. Até um lançamento pelo alto, já aos 89', no qual Malacia acertou a cabeça de Connor Roberts, numa disputa aérea. Pênalti marcado, cobrança de Gareth Bale já nos acréscimos - e a Holanda parecia jogar fora uma vitória que parecia garantida, pelo demérito de sua defesa.

Só não jogou porque a história se repetiu: de novo, um gol neerlandês após tomar o empate. Agora, com Memphis Depay, aproveitando desatenção da zaga e contra-ataque rápido para o 3 a 2, também nos acréscimos. Um fim até merecido: a Laranja teve bom desempenho nessas datas FIFA, teve avanços, fez por onde para terminar em alta. Ou seja, valeu. Mas ficaram as falhas, como uma lembrança de que há muito trabalho a fazer até a Copa do Mundo. E poucos "treinos" serão melhores do que as rodadas finais da Liga das Nações, contra Polônia e Bélgica, em setembro.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 4

Holanda 3x2 País de Gales
Data: 14 de junho de 2022
Local: De Kuip (Roterdã)
Árbitro: Horatiu Fesnic (Romênia)
Gols: 
Noa Lang, aos 17', Cody Gakpo, aos 23', Brennan Johnson, aos 26', Gareth Bale, aos 90' + 2, e Memphis Depay, aos 90' + 3

Holanda
Jasper Cillessen; Jordan Teze (Stefan de Vrij, aos 46'), Matthijs de Ligt e Bruno Martins Indi; Hans Hateboer (Denzel Dumfries, aos 46'), Teun Koopmeiners, Frenkie de Jong e Tyrell Malacia; Cody Gakpo, Vincent Janssen e Noa Lang. Técnico: Louis van Gaal

País de Gales
Wayne Hennessey; Ben Davies, Chris Mepham, Joe Rodon (Chris Gunter, aos 67') e Wesley Burns (Connor Roberts, aos 46');  Harry Wilson, Matthew Smith (Aaron Ramsey, aos 63'), Ethan Ampadu e Sorba Thomas; Daniel James (Gareth Bale, aos 70') e Brennan Johnson. Técnico: Rob Page

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Mudanças importantes

A Holanda teve dificuldades no 1º tempo contra o País de Gales. Mudou, melhorou... mas precisou de esforço adicional para a segunda vitória na Liga das Nações (Pro Shots)


A Liga das Nações tem lá seu caráter competitivo. Ganhar suas partidas tem lá sua importância. Contudo, pelo menos neste momento da seleção masculina da Holanda, é mais importante manter as experiências para formar o grupo dos (provavelmente) 26 convocados que irão à Copa do Mundo. A partida desta quarta, contra o País de Gales, foi prova disso: uma escalação completamente diferente da vista na goleada contra a Bélgica. A princípio, ela teve problemas. Mas antes mesmo que os titulares fossem a campo nas substituições, algumas mudanças abriram o caminho da Holanda para a vitória. E mesmo com um susto final, a busca neerlandesa foi recompensada com o 2 a 1 que a mantém na liderança de seu grupo.

Entre os nomes que começaram jogando em Cardiff, numa tática alternada (laterais ora mais avançados, configurando um 3-4-3, ora mais recuados, para o 5-3-2 que o técnico Louis van Gaal tem em mente), os escalados do lado direito foram os que deram mais problemas. Na zaga, Jordan Teze - estreando pela Laranja - já levava cartão amarelo aos três minutos, e errava mais do que o recomendável na saída de bola. Na lateral destra, Hans Hateboer cedia espaços para os avanços dos galeses. Além disso, no gol, Mark Flekken deu pelo menos um susto, ao errar uma saída de bola aos 20' (Harry Wilson chutou para fora). 

No meio-campo e no ataque, a coisa não melhorava muito. Nem Teun Koopmeiners, nem o estreante Jerdy Schouten tinham espaço para lançamentos. Com isso, Noa Lang e Cody Gakpo ficavam sem conseguir atacar, diante de uma defesa galesa forte, com até cinco jogadores. Só no decorrer do primeiro tempo as coisas progrediram para os holandeses. No fim, a primeira chance dos visitantes apareceu, num chute de Gakpo aos 45', sem contar uma tentativa desastrada de voleio de Stefan de Vrij. Mesmo com as dificuldades do começo, havia um caminho para a Holanda.

Jerdy Schouten agradou em sua estreia na seleção, ajudando bastante no meio-campo (Michael Bulder/NESImages/DeFodi Images via Getty Images)


As mudanças importantes escancararam esse caminho. Ao invés de atuar mais na ponta, Noa Lang foi recuado no segundo tempo, para ajudar na criação de jogadas. Schouten teve a boa atuação potencializada pela liberdade maior para avançar. Bastaram cinco minutos para essas alterações sutis surtirem o efeito desejado: Lang fez a jogada, Schouten passou, Koopmeiners chutou com precisão para o seu primeiro gol pela seleção. 

Iniciava-se ali o melhor momento holandês no jogo. As falhas de Hateboer e Teze foram minoradas pela boa atuação de Schouten, pelo crescimento de Koopmeiners, pela técnica de Gakpo e Noa Lang, e até pelo esforço de Wout Weghorst: mesmo sem grandes chances, o atacante se esforçava para manter a posse de bola e para ganhar as divididas, ajudando muito a equipe. Aqui e ali, entradas como a de Frenkie de Jong e Steven Bergwijn faziam crer que a equipe dos Países Baixos manteria o controle do resultado, na reta final.

Poucos sustos poderiam ser maiores, então, do que o empate de Rhys Norrington-Davies, já nos acréscimos. Em mais uma falha de marcação pela direita (Hateboer deixou o meio-campista livre para cabecear), surgiu o empate - que seria até merecido se fosse o placar final, pelo esforço galês, principalmente no primeiro tempo. Todavia, De Jong justificou de novo porque é, atualmente, o "maestro da Laranja", como a revista Voetbal International estampou em sua capa desta semana. O meio-campo da camisa 21 teve calma para achar Tyrell Malacia livre na esquerda. O lateral foi preciso no cruzamento. E livre na área, Weghorst foi premiado, fazendo o gol da vitória.

Se golear os belgas na estreia distorceu um pouco a visão, o difícil triunfo desta quarta deixou claro que a Holanda ainda tem muito a melhorar. Ainda assim, é bem melhor seguir o caminho com vitórias. Elas aumentam a sequência invicta da Laranja sob o comando de Van Gaal - nenhuma derrota nos 11 jogos desta terceira passagem. Mantêm alguma paz para o trabalho rumo à Copa. E, por último (mas também importante), conserva a liderança na Liga das Nações, rumo a dois jogos em casa. Não é uma Copa do Mundo, mas... é um torneio.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 4

País de Gales 1x2 Holanda
Data: 8 de junho de 2021
Local: Cardiff City Stadium (Cardiff)
Árbitro: Glenn Nyberg (Suécia)
Gols: 
Teun Koopmeiners, aos 50', Rhys Norrington-Davies, aos 90' + 2 e Wout Weghorst, aos 90' + 4

País de Gales
Danny Ward (Adam Davies, aos 46'); Connor Roberts, Ben Davies, Chris Mepham e Joe Rodon; Rhys Norrington-Davies, Harry Wilson, Joe Morrell (Rubin Colwill, aos 60') e Dylan Levitt (Matthew Smith, aos 68'); Daniel James (Rabbi Matondo, aos 77') e Brennan Johnson (Gareth Bale, aos 77'). Técnico: Rob Page

Holanda
Mark Flekken; Hans Hateboer, Jordan Teze, Stefan de Vrij, Matthijs de Ligt (Bruno Martins Indi, aos 84') e Tyrell Malacia; Noa Lang (Guus Til aos 90' + 1), Teun Koopmeiners, Jerdy Schouten (Frenkie de Jong, aos 67') e Cody Gakpo (Steven Bergwijn, aos 67'); Wout Weghorst. Técnico: Louis van Gaal

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Os testes aumentam, a pressão também

Com o novo auxiliar Davids a seu lado, Van Gaal já teve de dar mais satisfações sobre escolhas polêmicas. Tudo para seguir os testes rumo à Copa (Jeroen Meuwsen/BSR Agency/Getty Images)

 
Desde que os trabalhos da seleção masculina da Holanda começaram em 2022, o técnico Louis van Gaal ressalta: sem muito tempo para treinos, cada data FIFA da fase inicial do ano servirá para testes, testes e mais testes. Tudo para que a Laranja tenha um time titular bem treinado (e alternativas táticas) quando chegar o 21 de novembro - agora se sabe, o dia da estreia na Copa do Mundo, contra Senegal, no grupo A, abrindo o torneio na prática. E neste ciclo de junho, os testes serão até mais exigentes do que já foram os razoáveis amistosos contra Dinamarca (vitória por 4 a 2) e Alemanha (empate em 1 a 1). Afinal, vêm aí quatro rodadas de Liga das Nações. Por mais que o peso seja menor, enfrentar Bélgica (a estreia, nesta sexta, em Bruxelas), Polônia (dia 11, em Roterdã) e País de Gales (dia 8, em Cardiff, e dia 14, em Roterdã), em jogos oficiais, já aumenta um pouco a intensidade dos testes.

Por isso, também já começam ponderações mais incisivas sobre algumas escolhas de Van Gaal na lista dos 26 convocados. O técnico até ganhou muitos pontos com a opinião pública pela coragem ao expor o tratamento por que passa contra um câncer na próstata - a primeira fase do tratamento já se encerrou ("Preciso lidar com muita coisa, mas felizmente tenho energia para isso", definiu o treinador na coletiva da segunda passada). No entanto, pela primeira vez desde seu retorno à Oranje, Louis teve de explicar mais suas escolhas. Principalmente aquela que deixou de fora da convocação Georginio Wijnaldum, um dos jogadores mais importantes da seleção masculina nos últimos anos.

Van Gaal tinha seus motivos, e os explicou a seu modo: aberta e seriamente. "Wijnaldum não entregou desempenho. A seleção não é um centro de reabilitação, eu preciso dos melhores aqui, de gente que esteja bem em seu clube. E ele não andou no seu melhor, por todos os problemas no PSG". Inclusive, o técnico indicou que o meio-campista já não andava bem há um certo tempo. "Nas eliminatórias [da Copa], eu estive em seis jogos, ele jogou em cinco e foi substituído em três. (...) Já nas partidas anteriores, eu não o escalei, mas eu ainda o chamei. Já era uma tentativa de alertá-lo". E mesmo exigente, fez questão de deixar a porta aberta: "Se ele vai à Copa? Não sei, não sei se ele vai melhorar a forma. Se ele melhorar, eu o convoco imediatamente, e ele vai jogar comigo, porque gosto muito do estilo dele".

Wijnaldum (no amistoso contra a Alemanha, em março) ficou de fora da convocação, desta vez. E se não melhorar, a vaga na Copa pode correr riscos (David Streubel/Getty Images)


De fato, Van Gaal tinha um ponto: Wijnaldum ficou do lado das contratações do Paris Saint-Germain que decepcionam até aqui, mais ficou na reserva do que jogou, e já mostrou certa lentidão nos amistosos do começo do ano. Ainda assim, sua ausência calou fundo. E foi criticada. A revista Voetbal International trouxe um artigo do jornalista, apontando incoerências do treinador da seleção - Van Gaal gosta de trabalhar levando em conta o que chama de totalemens principe, o princípio do homem total, abordando a pessoa além do jogador: "Após uma temporada difícil no Paris Saint-Germain, Wijnaldum precisava de uma abordagem calorosa. Um técnico que demonstrasse confiança, porque sabe que esse jogador de alto nível será importante no futuro da seleção. Van Gaal não fez isso: ele afastou o jogador". E durante os treinos no centro da federação, na cidade de Zeist, Memphis Depay opinou com franqueza: "Eu o teria chamado. Acho que ele [Wijnaldum] mostrou muito aqui. Convocar é uma coisa e ser titular é outra, mas acho que Wijnaldum cabe na seleção. Não tenho dúvidas de que ele voltará".

Pois é: cinco anos depois, mesmo com uma passagem apagada pelo Monterrey, Vincent Janssen está de volta à seleção (Azael Rodriguez/Getty Images)

A ausência de Wijnaldum até eclipsou outra polêmica escolha de Van Gaal. Afinal de contas, está de volta à seleção, após cinco anos, um atacante cujo desempenho é discutível: Vincent Janssen. Jogando pelo Monterrey-MEX, Janssen se alterna entre reserva e titularidade - e mesmo titular, raramente faz gols: no Clausura mexicano deste ano, foram só três gols em 18 jogos pelos Rayados. O holandês sequer foi relacionado para o grupo do Monterrey que disputou o Mundial de Clubes, no começo do ano. E de resto, ainda ecoa sua passagem desastrosa pelo Tottenham, quando fracassou em dar sequência ao fulgurante começo no AZ. Ainda assim, querendo um atacante de área na seleção ("Memphis Depay e Bergwijn voltam demais para buscar jogo, e não quero isso"), Van Gaal decidiu apostar em Janssen. Com base nas observações de um nome da comissão técnica que o convocou bastante quando treinou a seleção, entre 2016 e 2017 - não Edgar Davids, estreando como auxiliar técnico da seleção, mas Danny Blind. "Blind foi o responsável [pela sugestão]. Ele o convocou, e então Janssen fez muitos gols. Temos uma lista de 40 a 50 nomes a observar, Danny está acompanhando, Malen está machucado, e eu tinha espaço para um novo atacante". 

Atacante que chegará só depois do jogo contra a Bélgica: a convocação era tão inesperada que Janssen marcara seu casamento para o dia 3 de junho, e manteve a cerimônia mesmo depois de ser chamado. A surpresa chegou até mesmo no México: o comentarista Heloi Doroh falou que ele "é o jogador mais sortudo de toda a Holanda", e o diário Noticias Pamboleras foi curto e grosso na manchete: "Não dá para acreditar". Na Holanda, o ex-jogador Kenneth Perez, comentarista da ESPN holandesa, assoprou e mordeu: "Acredito que ele deve ter um plano magistral para Janssen. Se fosse Frank de Boer fazendo isso...". Em coluna no jornal Algemeen Dagblad, o antológico Willem van Hanegem também evocou o contestado antecessor de Van Gaal para completar a frase e criticar a convocação do atacante: "Se Frank de Boer tivesse feito isso, o país seria pequeno para tanta crítica". A pressão fica para Janssen, sete gols em 17 jogos pela seleção entre 2016 e 2017.

Diante dessas duas convocações, outras experiências até foram eclipsadas. Como outro retorno: desde 2017 o zagueiro Bruno Martins Indi estava fora da Laranja, mas foi incluído nesta lista. De certa forma, uma lembrança de Van Gaal ao bom desempenho e ao bom entendimento que teve com Bruno na Copa de 2014 - e um prêmio às boas atuações pelo AZ, na temporada: "Ele melhorou na construção de jogadas, e tem experiência em Copas. Agora, tem a chance de mostrar isso na seleção. Veremos todos se ele agarra essa chance". Chance que também terá uma novidade: o estreante volante Jerdy Schouten, também reconhecido pela boa temporada que fez no Bologna-ITA, com eficiência nos desarmes - opção válida para Marten de Roon, também machucado.

Van Dijk chegou, mas só joga contra a Bélgica - e depois irá para as férias (ANP)


Além das lesões, Van Gaal ainda lida com o cansaço pós-temporada dos jogadores. Que o diga Virgil van Dijk: vindo de uma final de Liga dos Campeões (sem contar a temporada inglesa), o capitão da seleção somente jogará na estreia contra a Bélgica, e depois será desligado da delegação para ter férias antecipadas: "Ele jogou 60 partidas na temporada. De todos os que jogam na Premier League, ele foi quem atuou mais. Claro que ele está nas últimas. Nós conhecemos Virgil: se você deixar, ele quer jogar tudo, mas é óbvio que é melhor ele ser liberado mais cedo".

Fora essas lesões, fora as convocações controversas, a Holanda ainda lida com as alternâncias de esquemas táticos - o 4-3-3 pode ser preferido de imprensa, torcida e até de jogadores, mas Van Gaal já deixou claro: apostará no 5-3-2, com três zagueiros, para tentar ir longe na Copa. Lida também com a falta de confiabilidade em algumas posições. O gol, por exemplo. Mark Flekken ainda tem de se estabelecer como titular, mesmo vindo de boa temporada no Freiburg-ALE; Jasper Cillessen sofreu demais com lesões no Valencia-ESP; e Tim Krul, falhando aqui e ali, amargou o rebaixamento do Norwich City em que joga no Campeonato Inglês.

Mas os testes seguem. E seguirão, como Van Gaal indicou: "Precisamos fazer o máximo possível no tempo disponível. Enfatizo: todo mundo está no meu radar, mesmo jogadores que não foram convocados". No entanto, o caráter mais competitivo da Liga das Nações aumentará a intensidade desses testes. E aumentará a pressão sobre a seleção da Holanda. Até porque ela já precisará chegar pronta para começar a Copa do Mundo no 21 de novembro que virá.

Os convocados da Holanda

GOLEIROS: Mark Flekken (Freiburg-ALE), Jasper Cillessen (Valencia-ESP) e Tim Krul (Norwich City-ING)

LATERAIS: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Hans Hateboer (Atalanta-ITA), Daley Blind (Ajax) e Tyrell Malacia (Feyenoord)

ZAGUEIROS: Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Jurriën Timber (Ajax), Matthijs de Ligt (Juventus-ITA), Stefan de Vrij (Internazionale-ITA), Nathan Aké (Manchester City-ING), Jordan Teze (PSV) e Bruno Martins Indi (AZ)

MEIO-CAMPISTAS: Frenkie de Jong (Barcelona-ESP), Steven Berghuis (Ajax), Davy Klaassen (Ajax), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Guus Til (Feyenoord) e Jerdy Schouten (Bologna-ITA)

ATACANTES: Memphis Depay (Barcelona-ESP), Steven Bergwijn (Tottenham-ING), Cody Gakpo (PSV), Noa Lang (Club Brugge-BEL), Wout Weghorst (Burnley-ING) e Vincent Janssen (Monterrey-MEX)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Um pequeno ânimo

Robben prestou muita atenção às jogadas de ataque, e as aproveitou duas vezes. Sorte da Holanda (AFP)
Manter o esquema tático da seleção da Holanda num 4-3-3 espaçado demais entre os setores foi uma das principais razões para o fracasso da equipe nas eliminatórias da Euro 2016, tanto sob Guus Hiddink como sob Danny Blind. Pelo menos, após o vexame, Blind teve tempo para reconsiderar seus erros. Tratou de proteger mais a defesa. E bastou uma atuação mais acelerada e relativamente entrosada no ataque para a Oranje conseguir vencer o País de Gales, por 3 a 2, no amistoso desta sexta, em Cardiff.

E já após os treinos na capital galesa, na quinta, o treinador indicou que precisaria se preocupar mais com a parte de trás da equipe. Só não sabia qual alternativa escolher. Uma delas era clara: o 5-3-2 com que Louis van Gaal pensou a equipe terceira colocada na Copa do Mundo passada. A outra foi indicada pelo próprio Danny Blind: "Uma outra possibilidade seria jogar com dois meio-campistas mais defensivos [no 4-3-3]". De qualquer modo, ele reconhecia: "Precisamos fortalecer mais nossa defesa. Só que ainda guardarei em segredo o que farei".

Por fim, a equipe foi escalada no 5-3-2. E ainda se viram algumas experiências nos titulares: Daley Blind ficou na zaga, pela esquerda, enquanto Terence Kongolo era o lateral propriamente dito. No meio-campo, Quincy Promes foi experimentado, enquanto Bas Dost superou a escolha previsível de Klaas-Jan Huntelaar e começou jogando ao lado de Arjen Robben. Essas mudanças geraram um estilo interessante. Sim, sem a bola via-se claramente a linha de cinco defensores. Mas com a bola, não só a Holanda jogava mais num 3-4-1-2, com Quincy Promes às vezes avançando mais, como também tinha mais volume ofensivo.

No início do jogo, os galeses ainda se aproveitaram da falta de prática holandesa no novo-velho esquema tático para conseguirem algumas chances. Por duas vezes Virgil van Dijk avançou demais até para um líbero, e o espaço ficou aberto para que Tom Lawrence aproveitasse essas duas vezes com a bola e arriscasse chutes a gol. Mas após esse período de "adaptação", os holandeses se recompuseram. Jogando mais atrás, como armador, Wesley Sneijder começou a fazer bons lançamentos. Robben, enfim, voltou a atuar como "líder técnico": sempre se apresentava como opção de jogadas, e não só pela esquerda, sua faixa tradicional. Bas Dost, por sua vez, saía de suas características: ao invés de esperar as jogadas para finalizar, também participava das tabelas. 

Bastou um dos vários avanços de Daryl Janmaat (boa atuação) dar certo, para uma jogada bem tramada resultar no gol de Dost que abriu o placar. E a Oranje até merecia sair do primeiro tempo com a vantagem. Mas uma "imprudência" levou ao pênalti que empatou a partida, já nos acréscimos: Kongolo levantou as mãos para se livrar de um chute que lhe pegaria em cheio. Involuntário? Talvez. Mas cada vez mais árbitros marcam as penalidades em lances assim. Joe Allen bateu, e Jasper Cillessen teria um grande momento de glória, ao defender uma cobrança pela primeira vez em sua carreira... se Joe Ledley não tivesse aproveitado o rebote para empatar.

Acertadamente, Danny Blind não alterou demais a equipe logo na volta para os vestiários: apenas o lesionado Van Dijk deu lugar a Joël Veltman. Mais do que isso: continuaram os bons lançamentos de Sneijder. E principalmente, continuou a movimentação de Robben. Que aproveitou rápido contra-ataque para fazer o que sabe de melhor: cortar para a esquerda, sem marcação, e chutar a gol. Fez 2 a 1 e deu razões para que o jornalista Willem Vissers, do diário De Volkskrant, colocasse em seu perfil no Twitter: "Mais importante do que escolher entre 5-3-2 e 4-3-3 é ter um jogador como Robben em forma". De fato, ainda não dá para prescindir do nativo de Bedum na Oranje.

Mas novas falhas de posicionamento da defesa resultaram em empate dos galeses: após cruzamento para a área, o trio de zagueiros deixou alguns adversários livres ao sair para cortar. Um deles, Emyr Huws, cabeceou livre para as redes de Cillessen. A decepção só não foi maior porque, novamente, um contra-ataque acelerado (por um rápido passe de Dost, no caso) pegou Robben livre. E ele não errou, garantindo a vitória por 3 a 2. Só então Danny Blind pôde experimentar por alguns minutos na equipe - por exemplo, promovendo a estreia de Riechedly Bazoer no meio-campo

Na saída de campo, Danny Blind ainda alertou: "Só é chato termos sofridos dois gols em bolas paradas. Nas eliminatórias, sofremos três ou quatro gols de escanteios e bolas paradas. Isso precisa melhorar". Mas também afagou: "Estou razoavelmente feliz. Não cedemos muitas chances e jogamos compactos". Cillessen também se alternou entre a lamentação ("Eu ainda estava na bola, no rebote [do pênalti], mas foi muito frustrante. Legal que eu tenha defendido um pênalti, e nada mais. No fim, foi um gol que sofremos") e o otimismo ("Espero que da próxima vez eu defenda sem dar rebote"). E Arjen Robben, de novo o salvador da Holanda, também se alegrou: "Estamos recomeçando, com um sistema antigo. Por isso, precisamos trabalhar. Mas estou com um bom sentimento para o futuro". 

Exatamente por isso a Holanda precisava da vitória: para recuperar o bom sentimento. Obviamente, a vitória desta sexta não quer dizer que a equipe virou favorita para o jogo de terça, contra a Alemanha. Mas, pelo menos, deu um pequeno ânimo. Já é algo, na situação atual da Oranje.

Tentando recomeçar

Como a vaga para a Euro não veio, a Holanda tem de baixar a cabeça e treinar para os amistosos (Bas van Lonkuijsen/ANP)
“São jogos estranhos. Você faz amistosos como preparação para a Euro, ou a Copa – se necessário, até para jogos de repescagem. Mas faremos jogos de preparação só para setembro do ano que vem. Até o final desta Euro eu me lembrarei de que a gente não está lá. Não jogaremos uma Euro na França, que é tão perto [da Holanda]. Teria sido um grande torneio”.

Essas palavras de Arjen Robben, na última segunda-feira, no diário “Algemeen Dagblad”, exemplificaram com perfeição o clima com que a seleção holandesa se reúne nesta semana, para amistosos contra País de Gales - nesta sexta, em Cardiff - e Alemanha - próxima terça, em Hannover. A Laranja ainda se envergonha do vexame da ausência no torneio continental. E chega aborrecida ao limbo em que ficará até o início das eliminatórias europeias para a Copa de 2018. Mais ou menos como aquele estudante que gazeteou quando não devia, ficou em recuperação (com justiça) e agora tem de amargar o início das férias sentado, estudando para as provas, enquanto os colegas que fizeram tudo direitinho já entram com todo o gás no período da diversão.

E não é por falta de ação que o elenco holandês está meio desanimado. Primeiramente, houve novidades entre os jogadores. Na convocação definitiva, feita na última sexta, Terence Kongolo enfim retornou à seleção, para a qual não era convocado desde a Copa do Mundo, quando só jogou os segundos finais contra o Chile. Se fora chamado às pressas para substituir o lesionado Davy Klaassen, na última rodada das eliminatórias da Euro 2016, agora o volante Riechedly Bazoer recebe uma chance mais concreta.

Caso semelhante ao de Bazoer é o de Maarten Stekelenburg: relacionado apenas para substituir Tim Krul no banco de reservas na partida derradeira da qualificação, o goleiro está de volta à Oranje para valer. E o bom início de Eredivisie, oferecendo qualidade na saída de bola e na marcação pelo meio-campo do Feyenoord, rendeu a primeira convocação à seleção adulta para o volante Marko Vejinovic (nascido e criado em Amsterdã, apesar do nome entregar a ascendência sérvia).

Todavia, mais surpreendentes do que as presenças foram as ausências. Já na pré-convocação, há duas semanas, Danny Blind abriu mão de Robin van Persie. O jornal “De Telegraaf” já havia vazado a notícia no dia anterior, mas ainda assim a confirmação causou espanto. Blind esclareceu tudo na entrevista coletiva, abrindo o novo “ciclo” de seu trabalho com declarações mais carregadas: “Acho que Robin não está no seu ritmo normal, desde que se transferiu para a Turquia. Ainda não jogou uma partida completa. Isso não é um bom sinal. Acho que ele não está jogando bem. Não está afiado, não está em boa forma”.

Está certo que Blind colocou panos quentes quase imediatamente após as justificativas (“Se ele estiver bem para os próximos jogos, provavelmente será convocado”). E Wesley Sneijder lembrou de situação semelhante que viveu na Oranje, sob Louis van Gaal, em 2013, ao site NUSport: “É a mesma situação. Primeiro eu perdi a faixa de capitão, e já saquei onde iria terminar. Dói muito quando não se é convocado. (...) Eu senti o que ele deve estar sentindo. Mas num momento assim, você tem dois caminhos. Ou não pensa mais no assunto, ou trabalha ainda mais duro”.

O próprio barrado minimizou sua ausência: “Não muda nada, eu não abandono a seleção. Estou à disposição. Sim, foram palavras duras [de Blind], mas isso não é relevante”. No entanto, pela má fase inegável no Fenerbahçe, e pelas situações nos últimos dois jogos (contra o Cazaquistão, o atacante ficou no banco, e teria brigado com Memphis Depay; contra a República Tcheca, também começou na reserva, e ainda teve o gol contra), muito se cogita que Danny Blind talvez tenha encerrado abruptamente a carreira de Robin van Persie com a camisa laranja, após 101 jogos e 50 gols – ninguém marcou mais pela Oranje, bom lembrar. As próximas convocações responderão.

Outra ausência foi “alarme falso”, mas ainda repercute. Na pré-convocação, o treinador também deixou de fora Memphis Depay. E ainda passou uma carraspana leve no atacante: “Ele é um jogador para o futuro. Mas há outras coisas em questão. No futebol de alto nível, você deve funcionar dentro do coletivo. E ele nem sempre faz isso”. Curiosamente, quem saiu em defesa de Memphis foi justamente quem o colocou no banco no Manchester United: seu “tutor” Louis van Gaal. “Eu já disse que ele é o maior talento [no futebol] de sua faixa etária, mas ele só tem 21 anos e não podemos esperar regularidade dele. (...) Tenho certeza de que voltará, e mais forte do que antes, mas precisamos lhe dar tempo”.

Seja como for, Blind deu um voto de confiança após o puxão de orelhas e incluiu Memphis na convocação definitiva para os amistosos. E justiça seja feita: o alerta do técnico veio ao encontro do que torcida e imprensa, em sua maioria, pensam do jovem. Depay anda sofrendo críticas na Holanda pelos mesmos motivos por que Neymar era (ainda é, um pouco) olhado com desagrado por alguns, no Brasil: excessivo individualismo dentro de campo, maior preocupação com a badalação e com o vestuário fora dele. Porém, o nível das atuações do brasileiro no Barcelona anda a tal ponto que minora até as lembranças dos processos judiciais que correm contra ele e sua família, no Brasil e na Espanha.

Já o holandês não tem conseguido responder dentro de campo. Pior: a imprensa do país se desagradou com algumas atitudes suas (como não parar na zona de entrevistas, após a derrota para a República Tcheca, nas eliminatórias da Euro). E sua apresentação à comissão técnica, na última segunda, não mudou muito as coisas: Depay chegou ao hotel com um chapelão que chamou mais a atenção dos jornalistas do que a própria situação da Oranje. Aí o jogador decidiu reagir: “Sim, é um chapéu. O que um homem faz com um chapéu? Eu visto. É só um chapéu. Eu achei bonito. (...) Não é estrelismo, não tem nada a ver, porque eu sou a mesma pessoa que era nos tempos de PSV. As pessoas leem muita coisa. Quem faz parte do meu círculo sabe da verdade, o resto do mundo, não”. E o próprio Danny Blind também não ligou muito para o alarido, brincando: “[O chapéu] não faz meu tipo... se achei um outro mau sinal dele? Não, eu presto atenção em outras coisas”.

E os problemas não pararam em Van Persie e Depay. Ao chamar inicialmente cinco atletas do Ajax para os amistosos (Cillessen, Tete, Veltman, Riedewald e Klaassen), Blind novamente ouviu críticas de um suposto favorecimento excessivo a jogadores dos Amsterdammers. Mas não foi apenas de torcida e imprensa: foi de um jogador. Em declarações à emissora de tevê Omroep Brabant, o lateral Joshua Brenet, do PSV, não economizou: "Como ele [Blind] é alguém com história no clube, pode-se dizer que talvez isso interfira". Brenet ainda acrescentou dúvidas sobre os critérios do técnico: "Alguns caras jogam bem três jogos, e ele já chama". O treinador ignorou: "Eu li algo sobre [as críticas de Brenet], mas não posso me preocupar muito com isso".

Outra polêmica veio quando Blind revelou que pedira a Dirk Kuyt que aceitasse voltar à Oranje para os últimos dois jogos das eliminatórias, mas que o atacante teria respondido que só atenderia convocações caso tivesse garantida a titularidade. Kuyt negou veementemente: “Soou estranho ouvir que eu teria exigido ser titular. Não exigi nada. Nem eu ao técnico e nem ele a mim. Pronto”. Mas antes que a frase se tornasse outro foco exagerado de crise, o atacante do Feyenoord tranquilizou: “Falei com o técnico durante a semana, e minimizamos a ‘tempestade’”.

Bom para o técnico, que viu as contusões diminuírem sua convocação pouco a pouco. Na semana passada, Anwar El Ghazi (tornozelo) já fora cortado. Após a rodada da Eredivisie, o goleiro Kenneth Vermeer foi mais um descartado. Jaïro Riedewald mal se apresentou e também foi dispensado, com dores no joelho – o que promoveu mais um retorno à seleção, o de Erik Pieters. E finalmente, nesta quinta Davy Klaassen deixou o elenco, também por causa do joelho. Tendo saído de Feyenoord x Ajax com dores musculares, Bazoer quase engrossou a lista, mas se recuperou aos poucos. E se já tem jogado após a distensão na virilha que o tirou da fase final das eliminatórias da Euro, Arjen Robben ainda prefere jogar num ritmo um pouco menor, e por isso só estará em campo contra País de Gales.

Com tantos incidentes, a seleção da Holanda poderia estar em séria turbulência. Nada disso. O ambiente é calmo, mas melancólico. A lembrança da ausência da Euro ainda incomoda, mas é uma realidade inescapável. E Danny Blind está tentando inserir algumas mudanças no grupo de jogadores. Contudo, nem mesmo vencer os dois amistosos vai tirar o clima macambúzio e as desconfianças que ainda cercam a Oranje após o vexame.