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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Mais é melhor

De novo, o AZ sofreu com a falta de pontaria. Mas afinal, superou o Royal Antwerp, e é mais um dos três holandeses na Liga Europa (Getty Images)

O Ajax é o clube mais falado da Holanda na atualidade. Também, pudera: é o atual campeão da Eredivisie, é o campeão da Copa da Holanda, teve campanha marcante na Liga dos Campeões passada. Mais do que isso, o sorteio da fase de grupos desta nova Champions League deixou os Ajacieden num grupo acessível. Equilibrado também: Chelsea, Valencia e Lille também são adversários capazes de sonhar com a classificação às oitavas de final (ou, no mínimo, com o "prêmio de consolação" do lugar na segunda fase da Liga Europa). Mas o fato mais importante desta quinta para o futebol holandês não se relacionou à Liga dos Campeões, e sim à Liga Europa: os três clubes do país que disputavam lugar na fase de grupos do segundo torneio europeu de clubes o obtiveram.

E melhor foi ver que, na maioria das vezes, a vaga nas chances da Europa League foi obtida de modo categórico, mostrando até evolução dos times para a sequência do Campeonato Holandês. Tome-se por exemplo o PSV. Ó clube de Eindhoven ainda causava alguma impressão temerária - pela eliminação precoce na Liga dos Campeões (queda para o Basel, na segunda fase preliminar) e pelas atuações apagadas, já na Liga Europa. Por exemplo, na terceira fase preliminar, os Boeren passaram sufoco inesperado contra o Haugesund, da Noruega: magro 1 a 0 fora de casa na ida, 0 a 0 em pleno Philips Stadion na volta. E mesmo no jogo de ida nos play-offs, contra o Apollon Limassol, houve problemas no primeiro tempo, encerrado num 0 a 0 preocupante.

A juventude de Ihattaren (de frente) e Malen (9) já começa a se impor no PSV, também classificado (ANP)

Veio o segundo tempo, e, aí sim, o PSV engrenou: em 16 minutos, fez 3 a 0 e encaminhou a vaga na fase de grupos da Liga Europa. Entre uma semana e outra, o time se afinou nos treinamentos. Nomes novos, como Cody Gakpo e Mohamed Ihattaren, se entrosaram definitivamente aos titulares. Chegaram reforços que podem acrescentar algo, como Ritsu Doan (meio-campo) e Kostas Mitroglou (atacante). E o que se viu nesta quinta, em Nicósia, no Chipre, no jogo de volta, foi tranquilizador: uma equipe com autoridade, resistindo facilmente aos ataques do Apollon, e partindo decisiva para a goleada por 4 a 0 no segundo tempo. Posições que pareciam cheias de incerteza no PSV, como a zaga e a lateral esquerda, agora já têm nomes que podem se consolidar (na lateral, o francês Olivier Boscagli; na zaga, há o retorno de Daniel Schwaab e o promissor alemão Timo Baumgartl). Donyell Malen parece mais e mais acostumado ao miolo do ataque. Enfim, o PSV se animou.

É o mesmo caso do Feyenoord. Quando o time de Roterdã começou o caminho na Liga Europa, o objetivo era só um: evitar o vexame de 2018/19, quando a queda foi precoce - para o Trencín, da Eslováquia, na terceira fase preliminar. E o começo da temporada do Stadionclub no Campeonato Holandês colocou várias pulgas atrás da orelha dos torcedores, com três magros empates, algo nunca acontecido antes na história do clube. Na terceira fase preliminar da Liga Europa, contra o Dinamo Tbilisi georgiano, o Feyenoord abriu 1 a 0 de vantagem, mas só engrenou rumo aos 4 a 0 após ficar com um homem a mais em campo. E na volta, em Tbilisi, chegou a levar 1 a 0, numa falha da defesa - só teve a certeza de que nada de errado ocorreria quando Eric Botteghin empatou.

O Feyenoord controla a pressão da torcida: se está mal na Eredivisie, chegou bem aos grupos na Liga Europa (BSR Agency)

Aí, como em Eindhoven, as contratações ajudaram a equipe a se estabilizar. Jaap Stam ganhou nomes capazes de assumir a titularidade - como o português Edgar Miguel Ié, que sucedeu Jan-Arie van der Heijden (de saída, e questionado) no miolo de zaga e já caiu nas graças da torcida. Embora ainda tenha o que melhorar fisicamente, o velho conhecido Leroy Fer estabilizou o meio-campo do Feyenoord. Steven Berghuis mostra a capacidade de sempre no ataque. E entre os novatos vindos da base, o meio-campista Orkun Kökcü já parece nome frequente no time titular. O resultado foi visto nos play-offs, com duas vitórias categóricas sobre o Hapoel Be'er Sheva, de Israel: 3 a 0 tanto na ida em De Kuip, quanto na volta, na cidade israelense de Berseba. Ainda há o que melhorar na Eredivisie, mas a vaga na fase de grupos da Liga Europa dá o tempo que o Feyenoord precisava para definir de vez o time.

Se PSV e Feyenoord ganharam um "salvo conduto" para continuarem à procura da melhor escalação, o AZ já estava com o time definido desde o começo. E tendo o caminho mais longo na Liga Europa (desde a segunda fase preliminar), a equipe de Alkmaar mostrou um estranho hábito: dificuldades no jogo de ida, facilidades no jogo de volta. Foi assim contra o primeiro adversário, o Häcken-SUE: 0 a 0 decepcionante em Alkmaar, 3 a 0 tranquilos na Suécia. Na terceira fase preliminar, contra o Mariupol, da Ucrânia, outra vez o jogo de ida foi perturbado pelo alto número de chances de gol perdidas: 0 a 0 preocupante. Já na partida de volta, o ataque aproveitou suas chances. Resultado: 4 a 0, e Alkmaarders nos play-offs por um lugar nos grupos.

Porém, aí veio o adversário mais árduo: o Royal Antwerp, da Bélgica, com um time formado por muitos jogadores experientes (o goleiro Sinan Bolat, o lateral Ritchie de Laet, o atacante Dieumerci Mbokani). Prometia dificuldades. Pior ainda foi ver o inesperado acidente da queda de parte da cobertura do AFAS Stadion, em Alkmaar, impedindo temporariamente jogos em casa. Mandando a partida de ida em Enschede, no estádio do Twente, o AZ penou: levou o 1 a 0, e só no final conseguiu o empate. Na volta, em Bruxelas, a classificação foi a mais dramática possível. 

Nem era necessário: a expulsão precoce de Mbokani (carrinho duro em Ron Vlaar) deixou o AZ em superioridade numérica por mais de uma hora. Mas o time, novamente, perdia chances e mais chances, pelo nervosismo e pela falta de precisão na pontaria. O drama aumentou quando Didier Lamkel Zé fez 1 a 0 para o Royal Antwerp - mas uma chance se abriu quando Lamkel Zé comemorou no alambrado, levou o segundo amarelo e foi expulso. Ainda assim, a eliminação estava próxima, mesmo com um time altamente promissor - com destaque para o ataque. E foram justamente dois dos integrantes do trio ofensivo que salvaram o AZ, aos 90': Oussama Idrissi cruzou, e Calvin Stengs completou para o 1 a 1 que levou o jogo à prorrogação. Com mais homens em campo e vantagem psicológica, a prorrogação premiou o talentoso AZ: 4 a 1 e vaga nos grupos.

Com três clubes na Liga Europa e um na Liga dos Campeões, o futebol da Holanda vê abertas as chances de, quem sabe, ter mais boas histórias para contar na temporada. Só ter uma boa história, como a do Ajax na Liga dos Campeões passada, já era bom. Mas mais é sempre melhor. Até para poder ganhar mais facilidades e mais vagas diretas, no futuro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Citricultura: camisas de clubes

"Camisa 'raiz' é aquela do Ajax do meio dos anos 1990, com o patrocínio do ABN-Amro." "Ainda é difícil ver a camisa do PSV sem a Philips como patrocínio." "Ué, o Feyenoord já teve camisa reserva verde e branca?" Pois bem: há muitos colecionadores de camisas de times de futebol por aí. E se ouvem várias frases assim sobre as camisas holandesas, de vários colecionadores. Para nem falar da incrível coincidência de tantos clubes com as cores vermelha e branca em seus uniformes principais (os três grandes, AZ, Twente, Utrecht, Sparta Rotterdam...).

Pois bem: exatamente para trazer algumas curiosidades de que o leitor talvez já saiba - e outras que talvez não lhe fizessem a menor falta - é que a seção "Citricultura" reaparece, mostrando o histórico de alguns clubes holandeses por meio de suas camisetas. Que têm algumas similaridades com o histórico brasileiro - por exemplo, o fato de patrocínios nelas só terem sido aceitos a partir de 1982. E algumas diferenças. Ah, sim: de quebra, cada clube terá um modelo pitoresco mostrado aqui. E olha que muito time ficou de fora na lista...

Eis a versão do Ajax para a "camisa vinagrete" que a Portuguesa tornou famosa no começo dos anos 1990, aqui no Brasil. Esta era a camisa reserva dos Godenzonen na temporada 1989/90 (oldfootballshirts.com)
AJAX

Patrocinador:
1982-1991 - TDK (fábrica de eletroeletrônicos e materiais de reprodução - fitas K7, por exemplo)
1991-2008 - ABN-Amro (banco)
2008-2013 - AEGON (seguradora)
Desde 2013 - Ziggo (operadora de telefonia móvel, contrato até 2020)

Material esportivo:
1973-1977 - Le Coq Sportif
1977-1979 - Puma
1979-1980 - Cor du Buy
1980-1984 - Puma
1985-1989 - Kappa
1989-2000 - Umbro
Desde 2000 - Adidas (contrato atual até 2020)

Curiosidade: pela óbvia importância de Johan Cruyff na história do clube, a camisa 14 foi aposentada pelo Ajax em 2007. O último a vesti-la foi o meio-campista espanhol Roger García Junyent.

Esta foi a camiseta reserva na temporada 1987/88, quando o PSV conquistou a Tríplice Coroa. De quebra, foi vestida na final da Copa dos Campeões. Para homenagear os 30 anos, a Umbro copiou o desenho, na terceira camisa do PSV para a temporada 2018/19 (oldfootballshirts.com)
PSV

Patrocinador:
1984-2016 - Philips (fábrica de eletroeletrônicos e eletrodomésticos)
(2011-2015 - nas mangas, houve o patrocínio do banco Freo)
Desde 2016 - Energie Direct (empresa desenvolvedora de energia sustentável, contrato até o fim da temporada 2018/19. Atrás da camisa, há o patrocínio da GoodHabitz, empresa fabricante de comida natural)

Material esportivo:
1970-1974 - Le Coq Sportif
1974-1995 - Adidas
1995-2015 - Nike
Desde 2015 - Umbro

Curiosidade: Você, leitor deste texto que só alimenta sua cultura (in)útil sobre futebol, sente saudades da Philips na camiseta do PSV? Ora, não sinta. Como empresa que fez o clube nascer, ela nunca deixou o PSV de lado. Internamente, segue como investidora minoritária. De mais a mais, o logotipo da conhecida multinacional segue na camisa - agora, nas mangas...

Por que esta camisa alviverde foi a reserva do Feyenoord em 2008/09? Por que, aliás, às vezes se veem bandeiras alviverdes na torcida do Feyenoord? Simplesmente porque assim é a bandeira da cidade de Roterdã: verde e branca (oldfootballshirts.com)
FEYENOORD

Patrocinador:
1982-1984 - Gouden Gids (lista telefônica holandesa - literalmente, em holandês, o "guia dourado")
1984-1989 - Opel (fábrica automotiva)
1989-1990 - HCS (empresa de informática)
1990-2004 - Stad Rotterdam Verzekeringen (seguradora estatal de Roterdã)
2004-2008 - Fortis (banco)
2008-2009 - Fortis/ASR (fusão entre o Fortis e o ASR, outra instituição financeira holandesa)
2009-2013 - ASR (banco/seguradora holandesa)
2013 - Diergaarde Blijdorp (zoológico holandês)
2013-2017 - Opel
Desde 2016 - Qurrent (empresa de energia sustentável - contrato até 2021)

Material esportivo:
1963-1970 - Bukta/Jansen & Tilanus
1970-1978 - Le Coq Sportif
1978-1983 - Adidas
1983-1987 - Puma
1987-1990 - Hummel
1990-2000 - Adidas
2000-2009 - Kappa
2009-2013 - Puma
Desde 2013 - Adidas (contrato até 2023)

Curiosidade: na segunda metade da temporada 2012/13 - ou seja, já em 2013 -, o contrato do Feyenoord com a ASR já tinha se encerrado. Então, o clube decidiu fazer um contrato temporário com o Diergaarde Blijdorp, zoológico de Roterdã, até o fim da temporada. Houve até comercial, com direito a Van Bronckhorst (então ainda auxiliar técnico) com um elefante... 

O torcedor do AZ sempre terá gratidão por esta camisa: era a reserva na campanha do título holandês, em 2008/09 (oldfootballshirts.com)
AZ

Patrocinador:
1982-1986 - Sony (empresa de eletroeletrônicos)
1986-1988 - Electrolux (empresa de eletrodomésticos)
1988-1989 - Swingbo (empresa desenvolvedora de softwares)
1989-1990 - Reebok (empresa de material esportivo)
1990-2002 - Frisia (primeiro nome do banco dirigido por Dirk Scheringa, mecenas do AZ entre 1993 e 2009)
2002-2004 - Actus Notarissen (tabelião)
2004-2005 - Frisia
2005-2009 - DSB (segundo nome do banco dirigido por Dirk Scheringa, mecenas do AZ entre 1993 e 2009)
2010 - BUKO (transportadora)
Desde 2010 - AFAS (empresa desenvolvedora de softwares - contrato até 2022)

Material esportivo:
1977-1986 - Adidas
1986-1989 - Lotto
1989-1990 - Reebok
1990-1993 - Hi-Tec
1993-1998 - Hummel
1998-1999 - Kappa
1999-2001 - produção doméstica
2001-2006 - Umbro
2006-2008 - Quick
2008-2009 - Canterbury
2009-2011 - Quick
2011-2015 - Macron
Desde 2015 - Under Armour

Curiosidade: Com a falência do banco DSB que o mecenas Dirk Scheringa dirigia, em 2009, o AZ se viu obrigado obviamente a trocar de patrocínio. E ficou meia temporada, em 2010, com a transportadora BUKO ocupando a camisa. A coisa só se resolveu com a chegada da AFAS, a partir da temporada 2010/11. E não só para patrocinar a camisa, mas também para dar nome ao estádio do clube de Alkmaar.

Esta camisa dos anos 1980 marcou tanto a torcida do Utrecht que até versão retrô dela foi feita, nos dias atuais (oldfootballshirts.com)
UTRECHT

Patrocinador:
1982-1992 - Nissan (empresa automotiva)
1992-2005 - AMEV (banco)
2005-2011 - Phanos (imobiliária)
2011 - Bank of Scotland
2011-2012 - Simpel.nl (desenvolvedora de softwares para telefones celulares)
2012-2015 - HealthCity (rede de academias)
Desde 2015 - Zorg van de Zaak (empresa de auxílio profissional)

Material esportivo:
1970-1972 - Sparta
1972-1976 - Le Coq Sportif
1976-1979 - Puma
1979-1981 - Pony
1981-1983 - Admiral
1983-1989 - Puma
1989-1995 - Lotto
1995-2001 - Reebok
2001-2009 - Puma
2009-2012 - Kappa
Desde 2012 - Hummel

Curiosidade: o Utrecht é outro time que tem números aposentados em sua camisa. E não é por razão feliz: ninguém joga com o número 4 dos Utregs, em celebração à memória do zagueiro francês David Di Tommaso, falecido por um ataque cardíaco enquanto dormia, em 2005, aos 26 anos. "DiTo" usava justamente a 4...

Este modelo do Vitesse ficou bem conhecido na Holanda, no final dos anos 1990 (oldfootballshirts.com)
VITESSE

Patrocinador:
1992-2001 - Nuon (empresa de energia)
2001-2003 - sem patrocínio
2003 - Sunweb (agência de viagens)
2003-2004 - sem patrocínio
2004-2010 - AFAB (banco)
2010-2011 - Zuka.nl (empresa de webdesign)
2011-2012 - Simpel.nl (desenvolvedora de softwares para telefones celulares) e Spieren voor Spieren (empresa beneficente para auxílio de crianças com doenças motoras)
2012-2014 - Youfone (operadora de telefonia celular)
2014-2017 - Truphone (operadora de telefonia celular)
2017-2018 - Swoop (revendedora de equipamentos eletrônicos usados)
2018-2019 - Droomparken (agência de viagens)

Material esportivo:
1998-1999 - Lotto
1999-2005 - Uhlsport
2005-2006 - Quick
2006-2009 - Legea
2009-2012 - Klupp
2012-2014 - Nike
Desde 2014 - Macron

Modelo do Groningen na temporada 1999/2000: com uma dessas, Arjen Robben começou sua carreira (oldfootballshirts.com)
GRONINGEN

Patrocinador:
1983-1984 - AGO
1985-1987 - AEGON (seguradora)
1987-1996 - Pioneer (fabricante de eletroeletrônicos)
1996-2000 - ANOZ (seguradora)
2000-2002 - Idee voor Vakwerk (empresa de auxílio profissional)
2002-2003 - Beaufort (lojas de material de construção)
2003-2007 - Centric (empresa de teconolgia da informação)
2007-2011 - Noordlease (locadora de carros)
2011-2017 - Essent (empresa energética)
Desde 2017 - Payt (empresa de informática bancária)

Material esportivo:
1985-1996 - Puma
1996-2008 - Umbro
2008-2014 - Klupp
2014-2017 - Masita
Desde 2017 - Puma

Acha esta camisa do Heerenveen feia? Respeite-a assim mesmo: foi com este modelo, na temporada 2006/07, que Afonso Alves fez história (oldfootballshirts.com)
HEERENVEEN

Patrocinador:
Data não encontrada - AA Drink
Data não encontrada - Telekabel/UPC Nederland
1988-1993 - Unibind (empresa identificadora de documentos)
1993-2001 - Batavus (fabricante de bicicletas)
2001-2016 - Univé (seguradora holandesa)
Desde 2016 - GroenLeven (empresa desenvolvedora de painéis de energia solar - a Univé segue nas mangas da camisa)

Material esportivo:
Data não encontrada-1990 - Adidas
1990-1991 - Fila
1991-1993 - Adidas
1993-1994 - ABE
1994-1998 - Adidas
1998-2000 - Fila
2000-2002 - ABE
2002-2008 - Umbro
Desde 2008 - Jako

Curiosidade: muita gente já sabe - se não sabe, ficará sabendo agora - que a camisa do Heerenveen reproduz o desenho da bandeira da província da Frísia (onde a cidade de Heerenveen fica), e que os desenhos em vermelho não são corações, e sim folhas de lírio, flor comum na região - em holandês, "pomperbladen". Fica, então, uma informação simpática: na temporada 2016/17, o clube fez algumas partidas tendo "KiKa" no espaço do patrocínio. Homenagem a uma mulher? Não: simplesmente as iniciais da campanha "Kinderen Kankervrij", iniciativa beneficente para apoiar crianças com câncer - iniciativa que o Heerenveen apoia até hoje, aliás.

Muita gente ficou conhecendo o Twente com esta camiseta - na temporada 2007/08, quando o clube conquistou uma vaga nas fases preliminares da Liga dos Campeões, após eliminar o Ajax numa repescagem em plena Amsterdam Arena (oldfootballshirts.com)
TWENTE

Patrocinador:
1986-1989 - NCR (fabricante de caixas registradoras)
1989-1991 - Laser Computer (loja de informática)
1991-1992 - sem patrocínio
1992-1997 - SNS Bank (banco)
1997-1998 - On (predecessora da Amicon)
1998-1999 - Amicon (seguradora na área da saúde)
1999-2000 - Essent/CasTel (empresa de telefonia que se fundira na época com a Essent)
2000-2002 - Essent (empresa energética)
2002-2005 - Zwanenberg (fabricante de alimentos em conserva)
2005-2013 - Arke (agência de viagens)
2013-2015 - XXImo (empresa de cartões)
2015-2016 - Web Print (empresa impressora)
2016-2021 - Pure Energie (empresa de energia renovável)

Material esportivo:
1982-1984 - Adidas
1984-1985 - Admiral
1985-1990 - Adidas
1990-1995 - Hummel
1995-1998 - Adidas
1998-2001 - Fila
2001-2008 - Umbro
2008-2011 - Diadora
2011-2012 - Burrda
2012-2016 - Nike
Desde 2016 - Sondico (contrato até 2021)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Questão de tempo

A grama sintética pode estar com os dias contados no Campeonato Holandês - e não seria a única mudança (Joep Leenen/Pro Shots)
Diante da queda brusca que os clubes da Holanda vivem em competições continentais na última década (Ajax na final da Liga Europa 2016/17 à parte), virou comum uma pergunta, feita em tom simultaneamente saudosista e esperançoso: o que fazer para que os holandeses voltem a demonstrar força no futebol europeu? Mais do que isso: o que fazer para que o Campeonato Holandês volte a ter algum respeito mundo afora? Se já foi assim alguma vez, só será comentado no final deste texto. Seja como for, pelo visto, a Eredivisie tentará fazer isso nos próximos anos. Graças a uma proposta que veio dos três clubes grandes do país - claro, Ajax, PSV e Feyenoord. Foi o que revelou o jornal Algemeen Dagblad, na segunda passada. 

Nesta matéria, o jornalista Sjoerd Mossou revelou a sugestão trazida pelo Trio de Ferro aos outros integrantes da liga holandesa: doar, no mínimo, 10% das rendas obtidas pelos participantes do país em Liga dos Campeões e Liga Europa - um montante que poderia atingir até 10 milhões de euros, em caso de boas campanhas continentais. Claro, as contrapartidas foram exigidas. A primeira delas: os clubes da primeira divisão que têm grama sintética em seus estádios (a saber: Zwolle, VVV-Venlo, Heracles Almelo, Excelsior, ADO Den Haag e Emmen) deverão aboli-la, trocando por grama natural - haveria um fundo para custear a mudança. 

A segunda: a partir de 2021/22, o regulamento da Eredivisie mudaria. Ao invés do formato em pontos corridos com 18 clubes, o número de competidores diminuiria para 16, e haveria uma "fase final" para a disputa do título, quando se acabassem as rodadas regulares. Os clubes da Eerste Divisie (segunda divisão) também entraram na discussão: sugeriram que, ao invés de uma, sejam duas as vagas destinadas para promoção direta à primeira divisão, com os tradicionais play-offs definindo a terceira.

A proposta pareceu bem recebida. Pelo menos, foi o que disse Jan de Jong, diretor geral do Feyenoord: "Pode ser que as coisas avancem rapidamente, fiquei muito otimista". E de fato, as sugestões de novidades se tornam mais confiáveis quando se sabe que elas chegaram à Eredivisie CV (entidade que comanda o Campeonato Holandês) por meio de uma empresa inglesa, que planejou o relatório de modo independente. Além do mais, embora as opiniões variem, há um certo consenso: algo precisa mudar no Campeonato Holandês. "Mas precisa ser o formato? Por que desistir dos pontos corridos?" Porque, pelo visto, já não estão sendo mais atraentes. 

Se os estádios grandes (Johan Cruyff Arena, De Kuip, Philips Stadion) seguem tendo ocupação quase total, pesquisa da empresa Gracenote revelou no mês passado que o número de gente que ainda vai aos estádios em clubes médios/pequenos está caindo - basta citar o Heerenveen (média de 20.341 espectadores no Abe Lenstra em 2017/18, para 17.760 nesta temporada) e o Utrecht (média de 18.971 espectadores presentes aos jogos no Galgenwaard em 2017/18, para 16.661 na atualidade). O Groningen talvez seja o exemplo mais claro: de 20.000 espectadores, em média, há duas temporadas, para média de 16.138 na atual edição da Eredivisie - são visíveis os clarões no Hitachi Stadion, durante os jogos do time alviverde. 

Van der Sar: tomando a frente nos debates para mudar a Eredivisie (Jan Kruger/Getty Images)
Além da queda de afluência do público aos estádios, o "mata-mata" tem chamado atenção na Holanda. Basta citar a Nacompetitie passada: o Emmen conseguiu sobrepujar o tradicional Sparta Rotterdam, para estrear na Eredivisie. Sem dúvida, é atraente para os clubes médios/pequenos imaginarem que há uma chance de desafiar os tradicionais. Tendo em vista o que ocorre em países como Bélgica e Dinamarca, é possível imaginar que a Holanda seja mais um país que tente apelar para a "fase final" na tentativa de tornar seus campeões menos previsíveis. Se valer para chamar a atenção do mundo, também servirá. Pelo menos, é o que revela um tal de Edwin van der Sar. Hoje diretor geral do Ajax, o ex-goleiro faz parte de um grupo de dirigentes que tenta pensar em novos rumos para o campeonato, junto dos diretores de Groningen (Hans Nijland), Excelsior (Ferry de Haan) e NAC Breda (Justin Goetzee). 

Além do mais, a imagem conhecidíssima dos 20 anos de carreira dentro das quatro linhas abriu caminhos internos para Van der Sar, hoje vice-presidente da Associação Europeia de Clubes e integrante de grupos de estudo em UEFA e FIFA. E o ex-jogador é um dos mais entusiasmados defensores de uma maior ambição da Eredivisie, conforme comentou em entrevista à revista Voetbal International, no mês passado: "Desde os anos 1990, com o futebol cada vez mais comercializado, a Premier League tem sido fantasticamente vendida no exterior. La Liga é desejada no mercado sul-americano, com Real Madrid e Barcelona. Com 17 milhões de habitantes e poucas pessoas fora daqui que são fanáticas pela Holanda, fica difícil para a gente. A pergunta é se nós investimos energia suficiente nas nossas relações com o exterior. A ponto, por exemplo, de nossos jogos serem transmitidos na China. Isso interessa muito. Fazemos o bastante para atrair alguns países importantes para a Eredivisie? Tenho minhas dúvidas".

Portanto, pode-se esperar: vêm aí mudanças na Eredivisie. É questão de tempo.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Mudança também fora de campo

Angeliño se destaca no NAC Breda - graças à parceria com o Manchester City (Pro Shots)
Na semana passada, a coluna mostrou que, dentro de campo, o futebol holandês aparentemente cai na real: tanto a chegada de Ronald Koeman para treinar a seleção como a liderança cada vez mais absoluta do PSV no Campeonato Holandês mostravam que o pragmatismo, no momento, está sendo a ideia que mais ganha espaço no país, diante da crise de identidade deflagrada nos anos recentes. Pois bem, fora de campo, os clubes também passam por uma mudança. Ela ainda não é profunda. Talvez nem seja necessariamente positiva. Mas começa a ficar claro: aos poucos, as agremiações profissionais do país se abrem aos investimentos estrangeiros. E tais investimentos não se devem somente a empresas, mas também a times. Dois exemplos são conhecidos no atual Campeonato Holandês. 

Um deles já virou clássico: o “Vit-Chelsea”, ou melhor, Vitesse. Que nem tem relação oficial com o Chelsea. Mas que se valeu da proximidade dos seus proprietários com Roman Abramovich – primeiro, o georgiano Merab Jordania; depois, o russo Aleksandr Chigrinskiy – para se tornar paradeiro de vários emprestados de Stamford Bridge nesta década: de Nemanja Matic a Slobodan Rajkovic, passando por Tomas Kalas, Dominic Solanke, Lewis Baker, Gaël Kakuta, Bertrand Traoré... e os três atuais: o lateral direito Fankaty Dabo, o zagueiro Matt Miazga e os meio-campistas Mason Mount e Mukhtar Ali. Destes, só Ali está fora do time titular absoluto – e Mount, cada vez mais, se converte no principal meia no Vites, fazendo boas partidas e até chegando ao ataque para finalizar (já fez seis gols, só abaixo de Bryan Linssen e Tim Matavz na lista de goleadores do clube nesta temporada).

Porém, se a relação entre Vitesse e Chelsea está “apenas” muito bem apalavrada, a relação entre NAC Breda e Manchester City tem papel passado. Não bastassem os três acionistas (Wim van Aalst, Rob van Weelde e Paul Burema), todos dividindo 56 por cento das ações do clube, o clube do sul holandês se tornou um “clube-satélite” dos Citizens, membro que passou a ser do City Football Group. Assumidamente, passou a ser um entreposto de jovens que ganham tempo de jogo antes de retornarem a Manchester. E se não fosse por eles, a situação do time aurinegro poderia ser ainda pior do que o já aflitivo 15º lugar, a primeira posição acima da zona de repescagem/rebaixamento. 

Basta mencionar que, da equipe titular preferencial, são quatro os emprestados pelo City ao NAC Breda. E que são justamente esses quatro os maiores destaques técnicos na equipe. Embora alguns jogadores de propriedade do clube sejam úteis, como o meio-campista Rai Vloet e o atacante Giovanni Korte, algumas respostas esclarecem o assunto. Qual é o principal goleador do time na temporada? Com 8 gols, responde “presente” o francês Thierry Ambrose. E quem mais deu passes para gol? Aqui se sobressai o lateral esquerdo espanhol José Angel Esmoris, o "Angeliño": já foram quatro bolas que saíram dos pés dele para terminarem nas redes. Quem é saudado como o jogador mais técnico pela torcida? Outro espanhol, o meio-campista Manu García. Todos eles terão de voltar ao clube inglês, tão logo a temporada termine.

No ADO Den Haag, Hui Wang personifica as vantagens e os problemas de um mecenas num clube (Pro Shots)
Se a questão se resumisse apenas ao escambo de jogadores e a apenas um clube de propriedade estrangeira no Campeonato Holandês, seria insuficiente para se chamar de mudança real. Mas a coisa muda de figura ao se ver detidamente todos os 18 clubes que formam a Eredivisie. Tal quadro foi fornecido pela reportagem de capa da revista Voetbal International, nesta semana. Pelo menos metade das agremiações tem um acionista estrangeiro. E das restantes, as únicas três que se negam veementemente a pensar na alternativa são o Heerenveen, o Heracles Almelo... e o PSV, que nem precisa disso por já ser um clube de empresa (sim, apesar de não ter mais o nome na camisa, a Philips continua e continuará ligada financeiramente aos Boeren). No clube da Frísia, o diretor geral Luuc Eisenga apregoa: “Habitualmente, chegam sugestões [de venda] a nós, e aí explicamos que tipo de clube o Heerenveen é, e que por isso a venda está fora de cogitação”. No Heracles, como novo comandante, Jan Smit seguirá o lema bradado por seu antecessor Nico-Jan Hoogma, agora diretor técnico da federação holandesa: “Nosso clube é dos torcedores, e sempre será”.

Palavras cada vez mais distantes do que pensam os outros quinze times. Em maior ou menor grau, todos se mostram abertos a investidores do exterior. Alguns, com reservas, como os dois “médios/pequenos” que mais se destacam nesta temporada: o AZ (o diretor geral Robert Eenhoorn ponderou: “Estamos abertos a tudo, desde que caiba na visão e na cultura do clube”) e o Zwolle (mecenas do clube, o empresário Adriaan Visser comentou: “Não tenho nada contra outras formas de financiamento, desde que aconteça respeitando o clube”). 

Já outros têm palavras mais conformistas. Como Hans Nijland, o comandante do Groningen: “De outro modo, como poderemos competir com o Vitesse?”. E Hai Berden, presidente do VVV-Venlo: “Prevejo que todos os clubes serão propriedade privada daqui a cinco anos. Vemos arquibancadas vazias, e se dependermos somente de nossos próprios custos, o futebol correrá riscos”. O próprio Feyenoord avalia ter mais acionistas, para abater os custos que aumentarão a partir da sonhada construção de De Nieuwe Kuip (o novo estádio, à beira do rio Maas) – de mais a mais, em 2011, quando vivia grave crise, o clube foi salvo por um conjunto de investidores/torcedores que despejaram 30 milhões de euros. Não bastasse ser o primeiro clube do país na bolsa de valores, o Ajax já tem uma pequena porcentagem de ações na mão de outros investidores. 

E além de Vitesse e Zwolle, já têm seus próprios mecenas clubes como ADO Den Haag e Roda JC. Aliás, ambos expõem o lado mais perigoso dessa abertura: o clube de Haia vive na corda bamba entre o que desejam os conselheiros e o que deseja a United Vansen, empresa e acionista majoritária controlada pelo chinês Hui Wang. E o Roda JC, penúltimo colocado, viu o russo-suíço Alexander Korotaev terminar 2017 na cadeira – e já corre atrás de outro investidor que solucione sua grave crise nos cofres: o holandês de ascendência iraniana Salar Azimi, que assistiu à partida contra o Ajax, há duas rodadas.

A mudança começou fora de campo. E assim como se divide entre ficar com suas ideias táticas e ser mais flexível no jogo, a Holanda já espera a delícia de ter cofres mais cheios para tentar investir mais – e a dor de bordejar o perigo de ver vários clubes se encantando pelo primeiro bolso cheio de euros que aparece.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 16 de fevereiro de 2018)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O 2015 do futebol holandês: crise escancarada

Frank de Boer pensou o que todo o futebol holandês de clubes pensa: o que fazer? (Jasper Juinen/Getty Images)
“O desmascaramento da Oranje em 2015.” Assim foi intitulado um texto do jornalista Willem Vissers, para o diário “De Volkskrant”, comentando sobre a desastrada (e desastrosa, como se veria) transição entre Guus Hiddink e Danny Blind no comando da seleção holandesa. Pois bem: se quisesse, Vissers poderia muito bem ter escrito sobre o desmascaramento do futebol holandês em 2015. Foi um ano que expôs de modo nu e cru o estado preocupante da modalidade na Holanda.

Houve uma tentativa de acreditar que a crise podia ser contornada. A própria seleção nacional deu essa impressão: em março, o empate em casa com a Turquia (eliminatórias da Euro) mostrara as falhas sérias que a Oranje tinha, mas a vitória no amistoso contra a Espanha podia indicar alguma evolução. Pois bem: não indicou, como ficou claro nas rodadas finais da qualificação para o torneio europeu, já sob o comando de Blind. As atuações lamentáveis decretaram o vexame da primeira ausência holandesa num importante torneio de seleções desde a Copa de 2002 - e avermelharam de vez um sinal que já andava amarelo desde que as eliminatórias começaram, em setembro de 2014.

Mesmo que a crise interna do futebol holandês já esteja clara há quase uma década, alguns bons resultados da Laranja nos torneios (as atuações auspiciosas na Euro 2008, o vice-campeonato mundial em 2010, o terceiro lugar surpreendente na Copa de 2014) minoravam o impacto da crise. Mas em 2015, não houve como fugir disso: a ausência da equipe nacional na Euro 2016 escancarou sem rodeios o cenário combalido que os clubes já mostram, temporada após temporada.

É fácil repetir a ladainha de que a falta de adaptação à Lei Bosman dilapidou a competitividade continental da Holanda no futebol europeu. Fácil e correto. Mas não justifica completamente a depressão vivida neste 2015 que está acabando. Uma explicação mais completa precisa mencionar um tema comentado perfeitamente pelo jornalista Pieter Zwart, no site catenaccio.nl (e traduzido para o inglês por Michiel Jongsma, do blog BeneFoot): o futebol holandês está perdido dentro de campo. Há muito tempo. E curiosamente, está perdido justamente por manter o lado mais envelhecido do seu estilo de jogo. 

Embora o conceito de “escola” esteja cada vez mais maleável, no sentido tático do futebol, ainda é possível apontar a essência da “escola brasileira”, da “escola argentina”, da “escola italiana”, da “escola alemã” etc. A questão é que todos esses países, em algum momento, puderam mesclar a essência aos avanços táticos naturais – aliás, mesclaram tanto que isso foi até danoso em alguns casos, como no brasileiro. Sem contar a maior possibilidade de gastos com preparações e transferências que a Europa tem, possibilitando um salto de desempenho impossível de ser igualado.

Pois bem: na hora de particularizar o desenvolvimento das escolas táticas ao redor do mundo, é que se vê como a Holanda ficou defasada. Enquanto Alemanha e Espanha despontaram, por exemplo, misturando o melhor do Futebol Total (a velocidade, a verticalidade no ataque, o esforço coletivo na marcação por zona, pressão incessante na saída de bola adversária) com os avanços na preparação física, os holandeses ainda apostam em variações preguiçosas do 4-3-3, em que só há troca de passes e, vez por outra, uma jogada mais aguda de ataque.

Exemplos assim campeiam no Campeonato Holandês. Talvez o maior deles seja o Ajax, que repetiu domesticamente a história da seleção holandesa. Enquanto ganhou o tetracampeonato nacional entre 2010/11 e 2013/14, os erros na concepção do time eram relevados. Neste 2015, a Eredivisieschaal não veio. E a participação continental foi indefensável, com as eliminações na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões e na fase de grupos da Liga Europa. Mesmo assim, a equipe seguia apostando no 4-3-3, que tocava e tocava a bola no meio esperando um espaço na defesa adversária para criar as jogadas e fazer os gols. 

Contra a maioria dos adversários na Eredivisie – também com a defesa desacelerada e espaçada -, isso até é possível, como se vê em muitas rodadas. Não à toa, os Ajacieden lideram o torneio após o turno, encerrado no domingo passado. Já nos torneios continentais, contra adversários mais capacitados, o que se viu foi uma exasperante ineficiência, uma assustadora falta de criatividade. Também não é à toa que essa disputa entre o pragmatismo e o apego à velha tradição provocou o racha na diretoria do Ajax, enfim encerrado com o acordo entre o demissionário Wim Jonk, ex-diretor das categorias de base, e a direção do clube, que já contratou Patrick Ladru para a função - nome defendido por Marc Overmars e Dennis Bergkamp, os "vencedores" da cisão.

Já o PSV mostrou um estilo bem mais conservador no 4-3-3. Uma defesa dedicada, que conta com o apoio de Andrés Guardado e Jorrit Hendrix na marcação, já desde o meio-campo. E que tem pelas pontas ajuda mútua entre os atacantes, que marcam a saída de bola, e os laterais, que podem avançar vez por outra. Jogando assim, os Eindhovenaren mostraram consistência elogiável na temporada. E foram premiados com a primeira classificação de um holandês às oitavas de final da Liga dos Campeões desde 2006/07.

Há outros bons exemplos. Vários clubes “médios” mostraram esse estilo de jogo que trouxe mais pragmatismo ao futebol holandês, sem tirar totalmente sua essência ofensiva. E obtiveram bons resultados. Campeão da Copa da Holanda em 2014/15, o Groningen faz boa campanha no Holandês, com uma equipe bem veloz, que fornece rapidez nas chegadas ao ataque, pelas pontas, mas também tem esforço conjunto na marcação - desde o meio-campo, onde Hedwiges Maduro persegue os adversários junto de Simon Tibbling, que por sua vez também pode sair jogando. Tudo isso com o 4-3-3 como esquema básico.

Mesmo caso de Heracles Almelo e Vitesse, outras duas boas surpresas. No Heracles, a defesa tem o mérito de se manter compacta durante os 90 minutos, possibilitando que o meio-campo avance constantemente para o ataque - não à toa, um armador, Iliass Bel Hassani, é dos destaques dos Heraclieden na temporada. Já o Vitesse se vale de métodos parecidos com os do Groningen: tem um ataque muito acelerado (destaque para a revelação Dominic Solanke), possui um bom ponta de lança em Valeri Qazaishvili, mas tem ajuda de todos esses na marcação, desde a área de defesa adversária.

O Zwolle, por sua vez, faz mais uma boa temporada apostando no 4-2-3-1 conservador, com uma barreira de até seis homens na defesa (os dois volantes são predominantemente marcadores), enquanto o meio-campo tem dois homens velozes pelos lados, ajudando nas jogadas o atacante finalizador (já foi Tomas Necid; hoje, é Lars Veldwijk).

Sem contar que, ao olhar para o que Bayern e Barcelona fazem, nota-se: a “escola holandesa” de jogar bola ainda vive. Só não está mais na Holanda. E nem parou no tempo, como ainda se acredita nos Países Baixos. Que sofrem com esse atraso tático, mais a natural desvantagem financeira em relação a grandes centros. Prova disso é que, a despeito da surpresa agradabilíssima do PSV na Liga dos Campeões, a Liga Europa viu desempenhos lamentáveis das equipes holandesas. Basta dizer que só houve uma vitória holandesa na fase de grupos do torneio (o 2 a 1 do Ajax no Celtic, na quinta rodada, em novembro).

Resta olhar esses bons exemplos que ainda surgem e esperar que sejam a luz no fim do túnel. Só assim, o péssimo ano do futebol holandês terá servido de algo.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 24 de dezembro de 2015)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Vai ser mais difícil

Na Liga Europa 2010/11, Twente só parou nas quartas. Terá de se esforçar para não parar antes dessa vez (UEFA.com)

Sabe-se que a última vez em que algum clube holandês saiu de campo comemorando um grande título continental foi na temporada 2001/02, quando o Feyenoord viveu o melhor dos cenários: ganhando o título da Copa Uefa, contra o Borussia Dortmund, em decisão marcada previamente para o... De Kuip! Sabe-se também que o último time vindo da Holanda que fez fama pelo brilhantismo foi o Ajax campeão da Liga dos Campeões, em 1994/95. E, finalmente, sabe-se que, após o título do Feyenoord, houve alguns bons momentos - destaque para os bons duelos do Milan, na Liga dos Campeões, contra Ajax (quartas de final, 2002/03) e PSV (semifinais, 2004/05), quando uma classificação das equipes batavas chegou a parecer bem possível.

E, na véspera da estreia dos times holandeses nas fases de grupos dos campeonatos europeus de clubes, convém notar que 2010/11 também foi um período honroso, apesar dos pesares. Talvez, o clube que mais decepcionou foi o Ajax: mesmo com boas atuações contra o Milan, ser facilmente superado pelo Real Madrid e perder para o Auxerre, na França, matou as chances de classificação às oitavas de final da Liga dos Campeões. E, na segunda fase da Liga Europa, os Ajacieden decepcionaram, sendo presas fáceis para o Spartak Moscou.

Só que Twente e PSV mostraram valor, de certa forma. Principalmente o clube de Enschede: longe de ter sido saco de pancadas na Liga dos Campeões, a equipe conseguiu superar o Werder Bremen, e garantiu uma bela consolação com a ida para a Liga Europa. Aí ficou ainda melhor: superando Rubin Kazan, nos 16-avos de final, e Zenit, nas oitavas (dois clubes em situação melhor), os Tukkers chegaram às quartas de final. Foram facilmente superados pelo Villarreal, mas a boa impressão permaneceu. Os Eindhovenaren, por sua vez, também tiveram bom rival no Lille, mas passaram pelos franceses. Nas oitavas de final, só sofreram com a defesa férrea dos Rangers, já que foram francamente melhores. Só foram parar também nas quartas, pela superioridade do Benfica.

Porém, o cenário deverá ser diferente, nesta temporada. Não que os clubes holandeses tenham mudado sua situação. Apenas os desafios são mais difíceis. Tome-se por exemplo a situação do Ajax, que começa na Liga dos Campeões enfrentando o Lyon, na Amsterdam ArenA, nesta quarta. A chave que coube aos Godenzonen na LC foi novamente indigesta. Para começo de conversa, o temível Real Madrid será adversário, de novo. E, se inspira menos respeito do que o Milan, o Lyon também é melhor, e favorito à outra vaga do grupo D. Dos duelos contra os Gones sairá a possibilidade dos Amsterdammers sonharem com as oitavas de final - isso, se não houver tropeços contra o Dinamo Zagreb.

Na Liga Europa, o cenário é um pouco mais auspicioso. AZ, PSV e Twente tiveram grupos bastante acessíveis. Contra Hapoel Tel Aviv, Rapid Bucareste e Legia Varsóvia, no Grupo C, o time de Eindhoven terá oportunidades para melhorar aos poucos, se entrosar e esquecer o começo irregular que está tendo na Eredivisie. Já na chave G, o AZ terá mais exigências contra Metalist Kharkiv, Austria Wien e Malmö, mas pode avançar sem problemas. Finalmente, o Twente terá no Fulham um rival elogiável, na chave K. Mas Odense e Wisla Cracóvia não deverão oferecer muita resistência. Tudo bem até o sorteio dos jogos da segunda fase. Aí, a coisa deve complicar.

E deve complicar porque os clubes holandeses não dão razões para confiança mínima (exceto, talvez, o regular Twente). Nesta temporada, definitivamente, ocasiões honrosas como as do ano passado devem ser mais raras. Com a Grécia não muito atrás no ranking da Uefa, não custa batalhar para evitar eliminações precoces - e indesejáveis.