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domingo, 13 de outubro de 2019

Mais três pontos

Wijnaldum (8) evitou que a Holanda sofresse mais contra Belarus. Mas a vitória veio novamente sem brilho (EPA)

De novo, nas Eliminatórias da Euro 2020, a seleção da Holanda encarou um adversário fechado - que trouxe algum perigo nos contra-ataques. De novo, a maior qualidade individual dos jogadores holandeses acabou trazendo a vitória - agora, de maneira um pouco mais tranquila do que na quinta-feira, contra a Irlanda do Norte. E de novo, o triunfo veio sem o bom nível técnico que esta geração pode oferecer em campo. Mas a eficiência traz algo importante: a Laranja está muito perto da volta a uma grande competição. Falta pouco.

Pareceu que faltaria mais quando a partida começou no Estádio Dínamo. E nem deveria, uma vez que Ronald Koeman enfim fez o que muito se pede: escalou um time bastante ofensivo. No meio-campo, Donny van de Beek enfim começava como titular, no lugar de Marten de Roon. E no ataque, sem o lesionado e cortado Memphis Depay, Donyell Malen ganhava uma oportunidade para dar sequência à boa fase que vive em campo. Sem contar Quincy Promes, mais "agudo" do que Ryan Babel - e, por isso, iniciando entre os titulares na esquerda.

Porém, o que se viu no início da partida em Minsk foi preocupantemente parecido com o que se viu em Roterdã, há três dias: um time tocando e tocando, sem o mínimo espaço para chegar à grande área de Belarus - afinal, a defesa bielorrussa evitava deixar espaços para os lançamentos em profundidade. Além do mais, os anfitriões tinham um perigo adicional: eram mais perigosos nos contra-ataques, graças à força física de Denis Laptev, o único atacante. E às falhas frequentes de Matthijs de Ligt: o zagueiro segue lento, perdendo bolas - perdeu duas, aos 24'. No escanteio surgido logo depois, aos 26', o próprio Laptev deu o primeiro grande susto, num chute na pequena área, à direita de Jasper Cillessen.

Para piorar, a Laranja não criava chances. As únicas coisas "próximas" disso foram um toque de Van de Beek que tentou encobrir o goleiro Alyaksandr Gutor, aos 20' - e Gutor também evitou finalização de Promes, aos 31'. Aí, Georginio Wijnaldum foi o responsável por tranquilizar rapidamente as coisas. Pelo gol de cabeça que fez aos 32', após cruzamento de Promes. E pelo belíssimo segundo gol que marcou, aos 41', num chute de fora da área, que rumou ao ângulo esquerdo de Gutor, indefensável.

De Ligt foi constantemente pressionado pelos bielorrussos na tentativa de um contra-ataque - e às vezes, falhou (AFP)

E aí, a Holanda relaxou. Tanto que, já aos dez segundos da etapa final, Igor Stasevich deu um chute perigoso, que passou perto do gol. Mesmo em vantagem, o time visitante seguia perdendo bolas no meio-campo, seguia dando espaço para os contragolpes, seguia oferecendo aos bielorrussos a chance de um gol. Chance enfim aproveitada, aos 54', quando Dzyanis Polyakov cruzou, De Ligt abandonou cedo demais a jogada, Virgil van Dijk demorou para subir, e Stanislav Dragun cabeceou para fazer o gol de Belarus.

O temor de um empate só não foi mais real porque os próprios mandantes perderam o ritmo. Dali por diante, só mais uma chance concreta de gol: Stasevich, aos 59', num chute após roubar a bola de Daley Blind. Depois, a Holanda voltou a controlar o jogo. Sem brilhar, apenas trocando passes, vendo a entrada de Luuk de Jong para tentar reter a bola no ataque, até conseguindo algumas oportunidades valiosas para o terceiro gol - oportunidades perdidas: por Malen, aos 79', e por Wijnaldum, no último minuto.

De todo modo, a Holanda conseguiu. Mais três pontos, liderança mantida no grupo C das Eliminatórias. E bastam mais três pontos para se garantir na Euro. A única necessidade é manter a competitividade alta.

Eliminatórias da Euro 2020
Belarus 1x2 Holanda
Local: Estádio Dínamo (Minsk)
Data: 13 de outubro de 2019
Árbitro: Tasos Sidiropoulos (Grécia)
Gols: Georginio Wijnaldum, aos 32' e aos 41'; Stanislav Dragun, aos 54'

Belarus
Alyaksandr Gutor; Aleh Veretilo, Alyaksandr Martynovich, Nikita Naumov e Dzyanis Polyakov; Yevgeny Yablonski; Yuri Kovalev (Maksym Skavysh), Stanislav Dragun, Igor Stasevich e Ivan Bakhar (Max Ebong); Denis Laptev (Yevgeny Shevchenko). Técnico: Mikhail Markhel

Holanda
Jasper Cillessen; Joël Veltman, Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Daley Blind; Donny van de Beek (Marten de Roon), Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Steven Bergwijn (Ryan Babel), Donyell Malen e Quincy Promes (Luuk de Jong). Técnico: Ronald Koeman

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Para afastar os medos

Sorrisos e tranquilidade: a seleção da Holanda segue assim. Mas tem dois jogos em que a vitória é fundamental. Até para manter isso (BSR Agency)
Está certo, a pessoa que lê os escritos neste blog já sabe que a seleção masculina da Holanda voltou a ser minimamente respeitada, que há talentos inegáveis na Laranja, que a vitória contra a Alemanha na rodada passada das Eliminatórias da Euro 2020 foi mais uma prova de força, que houve o vice-campeonato na Liga das Nações (é pouca coisa, mas é alguma coisa)... mas ainda não dá para dizer, com certeza e segurança totais, que "a Holanda voltou" - coisa já escrita aqui, precipitadamente. Isso só poderá ser dito sem contestação quando a Oranje retornar a um grande torneio. E a vaga na Euro ficará mais próxima caso ela vença seus jogos pela qualificação, nestas datas FIFA, contra Irlanda do Norte (nesta quinta, em Roterdã) e Belarus (no próximo domingo, em Minsk).

Para sorte da seleção dos homens dos Países Baixos, segue tudo bem nela. A base dos 23 convocados traz os nomes habituais, Ronald Koeman faz um razoável trabalho como técnico, todos os jogadores estão em forma para as partidas contra norte-irlandeses e bielorrussos. Mais importante de tudo, talvez: a confiança está em alta. Tão em alta que Koeman já apregoou, na entrevista coletiva da segunda-feira passada: as próximas convocações podem trazer algumas novidades, como esta já trouxe, com um atacante a mais. "Talvez possamos mudar mais jogadores entre uma partida e outra, o que fizemos menos nos últimos tempos. Acho que temos uma seleção comparável às de muitos outros países. Em especial, com a dos melhores países. Isso também ocorre pelo fato de termos muitos nomes na frente, que se desenvolvem, que conseguem mais criatividade e velocidade no jogo deles, tornando [o time] mais perigoso com isso". 

Koeman também antecipou que os nomes em destaque simultâneo podem até entrar em convocações futuras: "Geralmente trabalhamos com um grupo fixo. Mas se alguém embalar, estar imparável, eu também abrirei caminho para ele". Foi o que aconteceu com Donyell Malen: nome que ajudou demais na vitória sobre a Alemanha, o atacante do PSV e goleador atual do Campeonato Holandês foi convocado de novo. Pode ser o que acontecerá com nomes como Sergiño Dest, lateral direito que vem se destacando no Ajax, e que ganhava espaço nas seleções dos Estados Unidos... até uma reunião que o treinador da seleção holandesa mencionou: "Eu e Nico-Jan Hoogma [diretor técnico da federação] conversamos com ele. Não prometi nada, mas comuniquei, da minha maneira, que vejo futuro para ele dentro da seleção da Holanda". Outro desses é Mohamed Ihattaren, meio-campista que vem crescendo no PSV. Além dos nomes da seleção sub-21: Justin Kluivert - que pediu convocação -, Calvin Stengs, Myron Boadu...

Ronald Koeman já sabe o time que deseja escalar. Confia nele. Mas pede cuidado (Pro Shots)
Um outro nome holandês que vem se destacando provém uma das raras contestações ao trabalho de Koeman: Wout Weghorst. Alguns perguntaram: por que o atacante, em bom momento no ataque do Wolfsburg, segue de fora das convocações? Enfim, o treinador justificou. Com poucas palavras: "Se eu preciso forçar mais no ataque, acho Luuk [de Jong] melhor nisso do que Weghorst". Logo depois, amenizou: "Mas é verdade que ele [Weghorst] está bem, marcando muitos gols, não posso ignorar. Precisa continuar fazendo isso, e também mostrar que melhorou como um todo, não se preocupando só com os gols".

É a única contestação que perturba um pouco o time titular. Jasper Cillessen ainda é contestado no gol, após algumas falhas no Valencia? Koeman dá de ombros: "Se eu for reagir a cada crítica dos comentaristas de televisão, melhor parar". Matthijs de Ligt ainda está inconstante demais na Juventus? O próprio tenta acalmar as desconfianças: "Já posso dizer que estou mais acostumado [em relação às primeiras partidas], mas ainda posso melhorar. Você anda na corda bamba, vá bem ou vá mal. Infelizmente, é a vida de um zagueiro. Tento aprender com meus erros".

De todo modo, a Holanda está bem. Confiante, como o próprio Koeman pediu que seja para os jogos: "No geral, precisamos mostrar nossa superioridade e pressioná-los". Tão confiante que o técnico sempre tenta colocar um alerta - principalmente para o jogo desta quinta em De Kuip, contra a Irlanda do Norte, que ainda sonha com uma das vagas diretas à Euro. Primeiro, o técnico alertou que os norte-irlandeses são "uma máquina de lutar", em razão do conhecido esforço do adversário em campo. Depois, repreendendo algumas desatenções nos treinos em Zeist: "Eu vi alguns momentos em que as coisas não foram boas. Por uma preparação curta, por cansaço. Sim, talvez por presunção também". E deixando claro que, se a Holanda é favorita, precisará entrar com todo o gás para justificar isso: "Demos aos jogadores toda a informação possível sobre o jogo. Mas eles precisam estar atentos".

Se estiverem, o caminho estará andado para superar Irlanda do Norte e Belarus. E para entrar de vez na rota da classificação da Euro 2020, afastando os medos - pequenos, mas ainda existentes - de que uma crise possa voltar à seleção masculina holandesa.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Feliz (e calmo) aniversário

Memphis Depay: sua ótima atuação simbolizou a estreia tranquila da Holanda nas Eliminatórias da Euro (Pim Ras Fotografie)
"É um fato menor, não tem muito a ver." Assim o técnico Ronald Koeman comentou a coincidência da estreia da seleção masculina da Holanda nas Eliminatórias da Euro 2020, contra Belarus, ser no mesmo 21 de março em que ele completa seu aniversário (56 anos, neste 2019). De fato, não tem muito a ver o fato da vida privada com o que a Laranja mostra em campo. Mas é possível supor que a Laranja tenha alegrado Koeman. Afinal, cumpriu plenamente o que se esperava e se desejava: teve uma atuação categórica contra os bielorrussos, fazendo 4 a 0.

E qualquer dificuldade que o jogo em De Kuip pudesse trazer se acabou logo aos 50 segundos de jogo, quando o recuo curto demais do zagueiro Igor Shitov foi interceptado por Memphis Depay, que driblou o goleiro Andriy Gorbunov e fez 1 a 0. A partir daquele começo já positivo, o único obstáculo que os visitantes impuseram à Oranje foi a compactação dos quatro defensores e dos cinco meio-campistas, fazendo com que os holandeses tivessem de trocar passes e mais passes até acharem caminho para as jogadas de ataque.

Sem problemas. Ajudava na abertura desse caminho a constante movimentação dos três escalados no ataque: Bergwijn, Babel e Depay trocavam de lugar, sendo opções com a bola nos pés. Memphis, então, comprovava o que disse várias vezes nesta semana: por mais irregular que seja sua fase no Lyon, gosta de estar na seleção holandesa - e mostrou isso trazendo perigo constante (como em chute de fora da área, aos 11 minutos). De certa forma, o camisa 10 mostrava ser algo parecido com um líder da equipe. Não bastassem os três mencionados, havia ainda as chegadas frequentes de Denzel Dumfries e Georginio Wijnaldum ao ataque. E nada exemplificou isso melhor do que o segundo gol, aos 21 minutos: Dumfries cruzou, Memphis ajeitou - que toque de classe! - e Wijnaldum marcou pela terceira vez nos últimos quatro jogos.

Se havia algum ponto negativo a alertar, era a lentidão de Marten de Roon na volta para marcar os bielorrussos quando estes tinham alguma chance - e mesmo assim, Frenkie de Jong sempre estava a postos para desarmar na hora certa. De todo modo, Koeman preferiu preservar o time de riscos, colocando Davy Pröpper após o intervalo. E a Holanda diminuiu o ritmo no segundo tempo - afinal, já tinha encaminhado a vitória. E se não tivesse encaminhado, teria feito isso quando Depay fez seu segundo gol no jogo, de pênalti.

Mais alterações vieram: Quincy Promes foi para a ponta esquerda, Kenny Tete ganhou a chance na direita... e no caso do lateral, sua chance durou apenas alguns segundos: a lesão muscular na coxa foi o único ponto negativo do dia. Mesmo que a Holanda tenha precisado cuidar de algumas chegadas esporádicas dos bielorrussos, ainda mostrava o tamanho de sua superioridade nos contra-ataques. Foi assim que Memphis forçou Gorbunov a dar um escanteio a Holanda. E deste escanteio saiu o quarto gol, de Virgil van Dijk, que marcou pelo segundo jogo consecutivo no dia em que fazia sua 25ª partida pela seleção.

E a Holanda irá sem problemas para o jogo de domingo, muito mais exigente, contra a Alemanha. Até porque ela viu que tudo continua bem. E nesta quinta, tarefa cumprida, Ronald Koeman terá um feliz e calmo aniversário para celebrar.

Eliminatórias da Euro 2020
Holanda 4x0 Belarus
Data: 21 de março de 2019
Local: De Kuip (Roterdã)
Juiz: Davide Massa (Itália)
Gols: Memphis Depay, ao 1' e aos 55'; Georginio Wijnaldum, aos 21', e Virgil van Dijk, aos 86'

Holanda
Jasper Cillessen; Denzel Dumfries (Kenny Tete), Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Daley Blind; Marten de Roon (Davy Pröpper), Georginio Wijnaldum e Frenkie de Jong; Steven Bergwijn, Memphis Depay e Ryan Babel (Quincy Promes). Técnico: Ronald Koeman

Belarus
Andriy Gorbunov; Aliaksandr Martinovitch, Igor Shitov, Dzyanis Poljakov e Mikhail Sivakov; Iuri Kovalev (Pavel Savitski), Stanislav Dragun (Denis Laptev), Anton Putsila, Ivan Majevski e Igor Stasevich; Nikolai Signevitch (Anton Saroka). Técnico: Igor Kriuschenko

quarta-feira, 20 de março de 2019

Continuar para continuar bem

Após o fim de ano em alta, os sorrisos seguem na seleção da Holanda. E o objetivo na Laranja é continuar assim (Pim Ras Fotografie)
Mesmo que a seleção da Holanda tivesse sido eliminada na fase de grupos da liga A, dentro da Liga das Nações da Europa, ela teria terminado 2018 reconciliada com a torcida. Afinal de contas, após três anos depressivos e vexaminosos, vencer Alemanha e França já era uma tremenda massagem no ego laranja. De quebra, aquele empate frenético contra os alemães, nos acréscimos do segundo tempo, levando os holandeses às semifinais da Nations League, no próximo mês de junho, só aumentou essa animação, só deu mais tempo para a Holanda se aprumar. Pois bem: é exatamente assim que os holandeses querem continuar após as primeiras datas FIFA de 2019, estreando nas Eliminatórias da Euro 2020, contra Belarus - nesta quinta, às 16h45 de Brasília, em Roterdã - e Alemanha - no domingo, também às 16h45 no horário brasileiro, em Amsterdã.

E para continuar assim, o técnico Ronald Koeman aposta na continuidade. Já era algo notável quando ele divulgou a lista preliminar de 30 convocados. Embora houvesse uma ou outra novidade - Kenneth Vermeer foi pré-convocado pela primeira vez desde 2016, caso Jasper Cillessen estivesse incapacitado no gol -, Koeman já advertia que os nomes que ficariam para a lista final eram absolutamente previsíveis: "É ótimo saber que você já tem um grupo formado. Você não precisa explicar nada, cada um já sabe qual sua tarefa dentro do estilo de jogo, cada um sabe como queremos trabalhar". E foi isso que se viu na convocação final de 25 jogadores, na sexta-feira passada. Lá estavam todas as peças que já despontam como basilares na seleção holandesa. Já dá até para imaginar a escalação nas duas partidas (Cillessen; Dumfries, Van Dijk, De Ligt e Blind; Wijnaldum, Frenkie de Jong e De Roon; Babel, Memphis Depay e Promes).

A rigor, novidades mesmo, só os retornos de Davy Pröpper, no meio-campo, e Steven Berghuis, no ataque. De resto, em todo o ambiente que se viu no centro de treinamentos/alojamento da seleção, na cidade de Zeist, há interesse em apenas duas coisas: manter entrosada a escalação de 2018 e manter animada a torcida. Que se empolga como havia tempos não se empolgava, nas palavras de Pröpper: "Estou feliz por toda a nação estar nos apoiando de novo". O único impacto negativo nem veio do futebol: veio do atentado ocorrido na cidade de Utrecht, na segunda-feira passada, que causou até cancelamento da ideia de abrir o treino para a torcida.

De resto, Koeman trouxe poucas novidades em suas entrevistas. Indagado sobre a badalação a respeito de Frenkie de Jong, agora já nome comentado e conhecido no futebol mundial, o técnico preferiu estender os elogios: "Não sei se é apropriado falar só de um jogador. Ele influencia em nosso estilo de jogo, mas há outros jovens que se desenvolveram rapidamente. Pensemos em Bergwijn e De Ligt. E não se esqueçam do desenvolvimento de Van Dijk, Wijnaldum e Memphis Depay". 

Memphis Depay tenta se equilibrar: mal no Lyon, tenta seguir bem na seleção (ANP)
Por sinal, a queda recente de produção do atacante do Lyon (muito importante para fazer o 4-3-3 ser acelerado) foi minimizada pelo treinador: ""Ele quer marcar gols, quer ter importância. Mas às vezes as coisas ocorrem de modo diferente do que se quer. O treinador dele está fazendo outras escolhas agora. Memphis não precisa provar nada para mim". Alívio para Memphis, em sua entrevista ao jornal Algemeen Dagblad: "Estatisticamente, sou o jogador envolvido em mais chances de gol [no Lyon]. Então, fico ainda mais chateado com essa situação. Mas, bem, estou aqui com a seleção, e deixemos isso de lado".

Até porque a delegação parece saber: para que tudo continue bem, é preciso continuar trabalhando cautelosamente. Se a Liga das Nações, embora tenha seu prestígio, ainda é amistosa, as Eliminatórias da Euro são um caminho para recuperar respeito definitivo. E Koeman sabe disso: "Agora é que vai começar [a coisa séria]. Não jogaremos amistosos. Queremos começar bem a campanha, contra Belarus e Alemanha. Cada tropeço pode ser fatal". A partir disso, ele deixou claro que o interesse dos clubes holandeses - principalmente do Ajax, interessado em seguir na Liga dos Campeões - fica em segundo plano: "O importante são as eliminatórias, e falei isso aos técnicos".

Se há um problema, não está na seleção adulta. Está nas seleções de base: para Koeman, os jogadores mais jovens têm atuado pouco em seus clubes, por vários motivos, o que dificulta a ampliação de opções nas convocações. Três exemplos de jovens já chamados para a equipe principal foram citados: Justin Kluivert, desprestigiado na Roma-ITA, e a dupla Javairô Dilrosun e Arnaut Danjuma Groeneveld, ambos lesionados. De quebra, Koeman ainda tem de começar a se antecipar para evitar perdas de novatos para outras seleções: já começou a fazer isso com Mohammed Ihattaren, revelação do PSV, convocado para a seleção sub-19. "Ele estava com a seleção sub-19, em Zeist, e então falei com ele, antes mesmo da federação de Marrocos consultá-lo. Ainda não escolheu. Tentamos manter todos os grandes talentos na Holanda, mas ao fim, a decisão é do jogador".

De todo modo, nenhuma lesão se viu nos treinamentos até agora, os jogadores treinam, o clima segue otimista... de fato, a Holanda voltou a ter favoritismo nos jogos que encara. E o técnico reconheceu: agora que houve a melhora, a Holanda precisa seguir evoluindo. "Agora, queremos sempre ter atuações 'nota 7', olhando para cima, não para baixo". Por isso, a Laranja continuará apostando nos nomes que reanimaram a seleção em 2018: a segurança da dupla Van Dijk-De Ligt na zaga, a capacidade de Frenkie de Jong, a velocidade maior de Wijnaldum, a troca de posições mais frequentes entre Babel e Memphis Depay na frente. Tudo isso continuará, para que a Holanda continue bem.

domingo, 8 de outubro de 2017

Só o imponderável salva

O que era melhor, para a Holanda: perder as chances contra Belarus ou vencer, como venceu, mas ter perspectivas remotíssimas de repescagem? (ANP/Pro Shots)

"Eles não vão ganhar de 8 a 0. Que pergunta estúpida! De 8 a 0? Não, não acredito." Assim Dick Advocaat reagiu à pergunta de um repórter, na entrevista coletiva da sexta passada, comentando sobre as perspectivas para o resultado de Suécia x Luxemburgo. Pois é: o destino encarregou-se de fazer o técnico da seleção holandesa pagar com a língua. Pior ainda foi ver que a Laranja repetiu, contra Belarus, os seus erros crônicos: desorganização defensiva e desespero na hora de atacar. Quase houve o vexame supremo: perder neste sábado mesmo as escassas chances de classificação à repescagem das Eliminatórias europeias para a Copa de 2018. No final, ainda veio a vitória por 3 a 1. Mas não se sabe se vencer, no caso, foi ainda pior, por manter na teoria possibilidades que ninguém acredita que a equipe laranja tem.

Desde o começo, era possível ver: na Borisov Arena, os anfitriões se defenderiam com meio-campo e defesa atuando bem próximos, e apenas dois jogadores na frente. O antídoto clássico contra a lentidão holandesa. Sem espaço para avançar, foi necessário começar a trocar passes no campo de defesa. Ou então, acionar as pontas. Como aos 2', quando Daley Blind veio pela esquerda, cruzou, sem a bola alcançar Davy Pröpper. Ou aos 7': Arjen Robben tentou iniciar triangulação com Pröpper, mas o meio-campista falhou ao tentar tocar de calcanhar. E aos 12', quando Ryan Babel (voluntarioso em sua volta) dominou pela esquerda, driblou Alexei Rios e cruzou, mas Ivan Maevski conseguiu afastar a bola.

Mesmo com uma Holanda vulnerável, Belarus sequer tentava qualquer coisa. Quando tentava, sequer trazia perigo. Aos 8', por exemplo Rios cobrou falta de longe, para ainda mais longe. No minuto seguinte, Aleksandr Karnitski recebeu na entrada da área, mas chutou fraco, e Jasper Cillessen agarrou. Porém, a Oranje também errava na marcação por zona: cada tímido avanço bielorrusso puxava todos os defensores para o lado em que a bola estava. Foi assim que as chances para os contra-ataques apareceram - como aos 17', quando o gol só foi impedido por erro de passe de Ihar Stasevich.

Surpreendido pela realidade, Advocaat é o único que ainda acredita (ANP/Pro Shots)

Ainda assim, mesmo lenta e cedendo espaços, a Holanda tinha algumas atuações esforçadas. Como a de Vincent Janssen, sacrificando-se para segurar a bola e abrir os espaços. A aposta nas laterais começava a render, como aos 21', quando houve enfim uma tentativa (Robben serviu a bola a Blind, que bateu de primeira, para fora, até perto do gol de Sergei Chernik). Aos 24', Robben serviu a Janssen, e o camisa 9 arriscou da entrada da área, no travessão de Chernik. Finalmente, aos 25', o gol que uniu os únicos holandeses mais próximos de serem chamados de "destaques": Babel cruzou da esquerda, Robben ajeitou de cabeça, e Pröpper completou para as redes.

Um gol impedido de Janssen, aos 28', fez crer que a Oranje enfim desencantaria. Não só não aconteceu, como Belarus é que se insinuou mais. Como aos 30', num cruzamento de Stasevich que Blind precisou afastar para escanteio. Ou no minuto seguinte, em cruzamento de Sergei Balanovich afastado por Karim Rekik, de cabeça. Ou ainda aos 32', em jogada individual de Stanislav Dragun. A Laranja só tentou algo aos 38', em chute de Tonny Vilhena, de longe: a bola quicou no gramado e quase engana Chernik, que espalmou. O goleiro bielorrusso ainda apareceu bem em sequência: aos 42', defendendo um chute de Janssen - sozinho na área -, e aos 44', afastando providencialmente cruzamento de Daryl Janmaat que tomou o caminho do gol.

Todavia, o entusiasmo incipiente dos bielorrussos seguiu no começo do segundo tempo. Cillessen enfim trabalhou sério aos 53', espalmando pela linha de fundo o arremate de Balanovich. Na sequência, Dragun veio pela esquerda, cruzou rasteiro, e a bola passou pela área sem ninguém chegar. Finalmente, aos 55', o gol que premiou o esforço dos mandantes: Maksim Volodko veio pela esquerda, recebeu a bola sozinho e chutou cruzado para o 1 a 1.

Robben batalhou, se esforçou, fez gol. Mas também jogou a toalha (Maurice van Steen/VI Images)

Só aí se viu o pior lado holandês: a falta de um plano B, de alternativas táticas relativa e minimamente organizadas. Tão logo veio o empate, Dick Advocaat colocou Bas Dost em campo, deixando a Oranje num espaçado 4-1-1-4: Georginio Wijnaldum marcava no meio, Pröpper criava as jogadas, e quatro atacantes (Robben, Dost, Janssen e Babel) tentavam completar os cruzamentos frequentes. De volta à defesa, Belarus conseguia segurar a Holanda com sua compactação - como aos 61', quando Robben fez sua jogada tradicional, mas o arremate parou no zagueiro Sergei Politevich. Ou aos 63', quando Pröpper arriscou e Chernik defendeu. Ao mesmo tempo, avançando mais, a Holanda deixava espaços para os contra-ataques. Quase aproveitados aos 64', num cruzamento de Nikolai Signevich, pela esquerda.

O ataque holandês foi reorganizado com a alteração seguinte, aos 68' (saída de Janssen, entrada de Memphis Depay, com Babel indo para o meio da área). Ainda assim, os cruzamentos pelas pontas não davam frutos. Nem as esparsas chances - como um chute de Dost aos 72', na rede pelo lado de fora. Estava cada vez mais próximo o vexame de perder as chances em Borisov mesmo. De todo modo, de tanto tentar, uma hora os holandeses conseguiram. Imediatamente depois de reclamarem pênalti (aos 83', após cruzamento de Janmaat, Dost tentou o cabeceio com Rios, e pediu mão na bola do lateral), o juiz Michael Oliver assentiu no escanteio subsequente: Dost foi puxado na área, Robben bateu e fez 2 a 1. Os bielorrussos foram à frente no abafa, quase conseguiram empatar ainda (houve até cabeceio para fora, aos 90'), mas a cobrança de falta precisa de Memphis Depay, aos 90' + 3, manteve o fio de esperança: vencer a Suécia, por sete gols de diferença, colocará a Holanda na repescagem. Diferença que a Holanda não obtém desde 2013, quando fez 8 a 1 na Hungria, pelas Eliminatórias da Copa de 2014.

E mesmo esse fio de esperança está tênue a ponto de ser rompido. Robben saiu de campo com esperanças perdidas, conforme lamentou à NOS: "Eu deixaria a calculadora em casa. Claro que se deve lutar até o último minuto, mas é preciso ser realista. Não direi o que todos esperam. Não temos chances". Babel, de volta, fez bem ao lembrar que a crise não começou ontem: "No momento, este é nosso nível. Que as coisas melhorem no futuro". O único a ainda manter algum tipo de otimismo é Advocaat, que aprendeu a lição: "É possível. Não é provável? Ora, o 8 a 0 da Suécia também não era provável...".

A verdade é que a Holanda vive, na prática, a situação expressa numa frase de Millôr Fernandes: "O desespero, eu aguento. O que me mata é essa esperança...". Talvez fosse melhor nem ter chances, do que ter a chance microscópica que resta para a última rodada, em Amsterdã, às 15h45 da próxima terça. Só o imponderável, esta entidade que às vezes aparece no futebol, salva a Laranja.

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Belarus 1x3 Holanda
Data: 7 de outubro de 2017
Local: Borisov Arena (Borisov)
Juiz: Michael Oliver (Inglaterra)
Gols: Davy Pröpper, aos 25'; Maksim Volodko, aos 55', Arjen Robben, aos 84', e Memphis Depay, aos 90' + 3

Holanda
Jasper Cillessen; Daryl Janmaat, Virgil van Dijk, Karim Rekik e Daley Blind; Georginio Wijnaldum, Davy Pröpper (Davy Klaassen, aos 83') e Tonny Vilhena (Bas Dost, aos 56'); Arjen Robben, Vincent Janssen (Memphis Depay, aos 68'). Técnico: Dick Advocaat

Belarus
Sergei Chernik; Aleksei Rios, Sergei Politevich, Aleksei Yanushkevich e Maksim Volodko; Ivan Maevski e Stanislav Dragun; Igor Stasevich, Aleksandr Karnitski e Sergei Balanovich (Igor Burko, aos 76'); Nikolai Signevich (Anton Saroka, aos 87'). Técnico: Igor Kriuschenko

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Preparada para a decepção

Seleção holandesa ficou tranquila nos treinos antes de decidir a sorte nas Eliminatórias. Talvez seja a paz da descrença (Pim Ras Fotografie)
Diante da situação desesperadora que vive no grupo A das Eliminatórias europeias para a Copa de 2018, era de se esperar um ambiente de alta ansiedade envolvendo a seleção da Holanda, antes das duas últimas rodadas que reservam tarefas dificílimas. Afinal de contas, ou a Laranja vence Belarus (neste sábado, às 15h45, em Borisov) e Suécia (próxima terça, também às 15h45, na Amsterdam Arena) – e supera os suecos no saldo de gols -, ou estará fora de uma Copa do Mundo, após 16 anos. Porém, o que se vê é uma melancólica tranquilidade. Como se a Holanda já não tivesse mais chances. 

A começar pelo próprio técnico. Dick Advocaat, 70 anos completados no dia 27 de setembro, cedeu entrevista inesperadamente calma à revista Voetbal International. Certo, a conversa falava sobre toda a carreira de Advocaat. Ainda assim, eram de se esperar palavras mais nervosas. Que nada: o treinador comentou sobre seu futuro na carreira (“Se eu parar e ninguém mais me telefonar, ficarei tranquilo. Mas telefonarão de novo. Sempre telefonam. (...) Eu já posso me aposentar, mas primeiro quero levar a Oranje à Copa. Depois? Não sei.”). E como se já estivesse de carreira terminada, até comentou sobre um hipotético substituto - o próprio auxiliar: “Ruud Gullit seria um excelente técnico da seleção. Os holandeses esquecem o tamanho do símbolo que ele é”. 

Nem mesmo a convocação causou celeuma. Talvez porque nem haja muito o que questionar, entre caras conhecidas (Arjen Robben, Daley Blind) e nomes que começam a ganhar espaço definitivo para os próximos anos, como Wesley Hoedt, Tonny Vilhena e... Davy Pröpper. Após a boa atuação contra a Bulgária, na rodada passada das Eliminatórias, o meio-campista deverá ocupar o lugar de Wesley Sneijder entre os titulares. 

Eis uma surpresa implícita: por mais que a importância histórica de Sneijder seja indiscutível, ninguém lamentou excessivamente sua ausência na convocação. Justo. Afinal de contas, o meio-campista já perde espaço para Allan Saint-Maximin no Nice (na Liga Europa, sequer é relacionado para algumas partidas). Diante dos perigos que a Holanda corre, e dependendo do que acontecer, pode ser que os 45 minutos jogados contra a França tenham sido os últimos momentos de Sneijder com a camisa laranja, após 14 anos e 132 partidas.

Se a história de um símbolo da seleção holandesa pode ter acabado, a história de um veterano recomeçou graças a uma surpreendente convocação. Certo, convocação merecida: Ryan Babel tem mostrado ótimo desempenho neste começo de temporada, no Besiktas. Mas já não jogava pela Laranja desde 15 de novembro de 2011 (derrota para a Alemanha em amistoso, 3 a 0), quando o técnico ainda era Bert van Marwijk. Babel sequer foi convocado pelos sucessores. Até o bom começo no Besiktas – e a lesão de Quincy Promes, habitual relacionado, possibilitando o retorno de Babel à seleção. Retorno tão imprevisto que o próprio se surpreendeu: “Seis anos é um longo tempo. Achei que todos tinham se esquecido de mim”.

Robben segue imperturbável na confiança da virada laranja (Pieter Stam de Jonge/VI Images)
Os 25 convocados chegaram já com o discurso decorado – e sintetizado nas palavras do capitão Robben à NOS, emissora pública holandesa: “Só vencer dois jogos já é uma tarefa muito difícil. E também precisar vencer por uma diferença de gols dessa... Nunca se deve dizer ‘nunca’, mas é muito, muito difícil. Vai depender muito do que acontecer nos jogos do final de semana. A diferença de saldo está em +6 [a favor dos suecos], e não pode ser maior do que isso depois de sábado”.

Num ambiente com tal obrigação, era de se esperar a contenção de quaisquer prejuízos em potencial. Não aconteceu (afinal, é a Holanda). Já antes da convocação definitiva, o lesionado Stefan de Vrij pediu à dupla Advocaat-Gullit para ficar de fora da lista. Pedido atendido. Mas nem o técnico, nem o auxiliar contavam com o que veriam no domingo: De Vrij jogando 67 minutos pela Lazio, até marcando gol nos 6 a 1 sobre o Sassuolo, pelo Campeonato Italiano. 

Gullit obviamente estranhou, como comentou à mesa redonda Rondo, do canal a cabo Ziggo Sport: “Telefonaram para nós, o médico disse que ele não poderia jogar, e era essa a informação que tínhamos. Aí se vê a escalação, e o nome dele está lá. E você pensa: como assim? Falamos com o jogador, e ele comentou que pôde jogar, mas que não se sentia bem o bastante para atuar pela seleção”. Nenhuma briga aconteceu, e De Vrij engrossou a voz contra as suspeitas de que não quis jogar pela Oranje, falando à NOS: “Joguei 67 minutos, mas não foi sem dor. A cada passe que eu dava, sentia dores. É absoluta besteira [que eu não quisesse jogar pela seleção]”. Mesmo assim, ficaram as desconfianças.

Dentro de campo (com Virgil van Dijk convocado para a zaga), a coisa piorou com o mau desempenho holandês nos treinos de finalização. Além do mais, com uma lesão muscular, Kevin Strootman foi cortado na quarta passada. O que não quer dizer que o ambiente é caótico. É apenas... melancólico. Cercado de opiniões quase unânimes: a Holanda não estará na Copa de 2018. Foi o que afirmou Ruud Gullit, entre um treino e outro: “Temos jovens talentosos, mas eles vão cedo para a Europa e ficam no banco”. Foi também o que escreveu Willem van Hanegem, em sua coluna no diário Algemeen Dagblad: “Naturalmente, seria lindo se alcançássemos o Mundial da Rússia, mas não acontecerá. Temo que os jogos contra Belarus e Suécia sejam os últimos de Robben com a seleção”.

Pois o dono da braçadeira de capitão na Oranje talvez seja o único a não dar o braço a torcer. Robben segue com uma ambição notável, pelas declarações emocionadas dadas à Voetbal International: “Claro que penso até quando aguentarei continuar na seleção. Mas não revelarei publicamente o que penso. Até porque, para mim, não acabou. A curto prazo, penso no cenário mais positivo: que nos classifiquemos para a Copa. Quero estar lá. Os outros cenários não entram na minha cabeça. Estar numa Copa é lindo. E a Oranje me traz algo muito bonito. Não pode terminar assim”.

A revelação sobre as perspectivas que a Holanda ainda pode ter surgirá até antes da equipe entrar no gramado da Borisov Arena, contra os bielorrussos. Afinal, a Suécia jogará antes contra Luxemburgo, às 13h do sábado. Enquanto um importante jogador da seleção da camisa amarela protestou (“É incrivelmente estranho que os dois jogos importantes da rodada não sejam disputados simultaneamente”, lamentou Sebastian Larsson), Robben advertiu: “O resultado [da Suécia] poderá nos impulsionar, saberemos o que será esperado de nós”.

Por enquanto, o que é esperado da Holanda é a confirmação da crise no futebol do país. Até pela baixa expectativa, e pelos maus resultados, ninguém espera que a sorte ajude. Enfim: torcida e imprensa já estão preparadas para a previsível decepção de ficar fora da Copa. A ver se a atitude terá sido precipitada ou previdente.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 6 de outubro de 2017)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Um respiro

Goleada sobre Belarus fez Oranje respirar (Pim Ras)
Pressão de todos os lados. Pressão pela falta de Arjen Robben, que mostra talento e liderança sempre que as contusões dão uma trégua; pressão sobre o técnico Danny Blind, que precisa mostrar ter aprendido a lição após "terminar" o fracasso nas eliminatórias da Euro; pressão sobre os jogadores, que têm de provar que esta nova geração holandesa pode ser, pelo menos, razoável; pressão, pressão, pressão. A seleção holandesa tem vários olhos negativos - no mínimo, desconfiados - sobre ela atualmente, e cada jogo é uma tentativa de recuperar um pouco do crédito. Pelo menos nesta sexta, conseguiu: se impôs, e conseguiu fazer 4 a 1 em Belarus sem muitas dificuldades, pela segunda rodada das eliminatórias da Copa de 2018.

A atuação da Laranja em Roterdã tornou a vitória fácil porque foi, surpreendentemente, mais calma do que se viu na estreia pelas eliminatórias, contra a Suécia. Ao invés de atacar desde o começo como fez em Solna, com inversões rápidas de jogo e lançamentos longos, a equipe trabalhou na manutenção da posse de bola. Desacelerou o ritmo, com recuos de bola para a defesa e mais toques no meio-campo - aí entraram a capacidade que Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum têm para ditarem o andamento de uma partida. Isso até poupou trabalho de Wesley Sneijder, discreto na criação de jogadas, talvez por causa da lesão muscular que novamente sentiu, precisando sair no intervalo.

Coube, então, a Davy Klaassen (bem no jogo) armar mais as jogadas. Para a sorte dele, contou com os dois grandes destaques da partida. Vincent Janssen credencia-se mais e mais como o atacante titular da Oranje, de fato e de direito. É tão corpulento quanto Bas Dost ou Luuk de Jong, mas oferece algo que esses dois ainda não dão ao time de Danny Blind: capacidade de voltar, de ajudar o meio-campo a desenvolver jogadas. Claro, Janssen é meio desengonçado no andar. Mas isso não o impede de ser um bom pivô (como Luuk de Jong), nem de saber criar com a bola nos pés (é melhor nisso do que Dost).

Maior capacidade técnica com a bola nos pés faz Vincent Janssen se firmar cada vez mais como titular (Maurice van Steen/VI Images)

Até por isso, o atacante fez jogadas como a primeira chance real da Holanda no jogo, aos 7', recebendo de Quincy Promes, girando e finalizando para Andriy Gorbunov - ou Harbunow, dependendo da fonte - espalmar. Ou então, marcou seu gol, o mais bonito da partida, aos 63', aproveitando falha de Sergei Politevich para correr com a bola dominada e chutar forte no ângulo. Otimista, Janssen desejou à NOS, tevê holandesa, no fim do jogo: "Sempre fico alegre quando marco, e espero fazer isso também pelo Tottenham". Chances para isso, ele está tendo, com a lesão de Harry Kane. Quanto mais marcar pelos Spurs, mais Janssen será indiscutível como titular da seleção.

Se Janssen foi sempre uma opção na área, Quincy Promes era a opção correndo pelo campo. Partindo da ponta direita, o camisa 11 justificou porque tem merecido a confiança de Blind, sendo titular constante na ausência de Robben. Correu, dominou a bola, apareceu para finalizar, mostrou confiança... também não foi à toa que arriscou o chute para abrir o placar, aos 15', marcando seu primeiro gol pela Oranje - e abraçando Memphis Depay no banco de reservas. Nem impressionou que o jogador do Spartak Moscou-RUS tenha crescido ainda mais em campo, a ponto de aproveitar hesitação de Politevich para chutar de voleio e fazer 2 a 0, aos 31'.

Se tivesse ficado nessa parte do meio-campo e do ataque, a Holanda poderia ter somente otimismo. Todavia, a defesa voltou a ter suas costumeiras panes no final do primeiro tempo. Impressiona a falta de compactação da equipe: raras vezes se vê nitidez nas linhas do 4-3-3 com que a Laranja é escalada. Isso abre espaços; e basta ao time adversário aproveitá-los com passes longos para sempre chegar na frente, principalmente pelas pontas, trazendo perigo. Foi o que aconteceu com Belarus: Sergei Kornilenko quase marcou; depois foi Mikhail Gordeychuk, que superou Jeffrey Bruma na corrida e só não fez o gol porque Maarten Stekelenburg (surpreendentemente, o titular - mas cumpriu seu papel) fechou bem o ângulo na saída de gol. Finalmente, tão logo começou o segundo tempo, Aleksei Rios diminuiu para 2 a 1 entrando livre no meio da área, sem que Virgil van Dijk o acompanhasse. Isso, em jogada surgida pela lateral direita, onde Rick Karsdorp, outro titular pela primeira vez, cedeu muitos espaços.

Por mais que os gols de Klaassen e Janssen tenham tranquilizado, Danny Blind não deixou passar tais erros, e ralhou na entrevista coletiva: "Vi coisas boas, mas também vi coisas ruins. Por quinze minutos, jogamos muito mal. Se cometermos esse tipo de falha contra a França, será fatal. Abrimos espaço, deixamos o adversário chegar". Pior: dificilmente Sneijder estará disponível, conforme antecipou o técnico ("A chance dele jogar [contra a França] é muito, mas muito pequena"). Caberá à nova geração, já consolidada - com Janssen, Promes, Klaassen -, superar os Bleus na próxima segunda-feira, na Amsterdam Arena. E quem sabe, aumentar o respiro na pressão sobre eles, como fez a goleada nos bielorrussos.

Ficha do jogo

Eliminatórias para a Copa de 2018 - Europa
Holanda 4x1 Belarus
Data: 7 de outubro de 2016
Local: De Kuip, em Roterdã
Juiz: Craig Thomson (ESC)
Gols: Quincy Promes, aos 15' e aos 31', Davy Klaassen, aos 55', e Vincent Janssen, aos 64'; Aleksei Rios, aos 46'

Holanda
Maarten Stekelenburg; Rick Karsdorp, Jeffrey Bruma, Virgil van Dijk e Daley Blind; Davy Klaassen, Kevin Strootman (Jordy Clasie, aos 79') e Georginio Wijnaldum; Quincy Promes, Vincent Janssen (Bas Dost, aos 83') e Wesley Sneijder (Davy Pröpper, no intervalo).Técnico: Danny Blind

Belarus
Andriy Gorbunov; Denis Polyakov, Mikhail Sivakov, Sergei Politevich e Maksim Bordachev; Mikhail Gordeychuk (Maksim Volodko, aos 74'), Ivan Maevski (Aliaksandr Hleb, no intervalo), Nikita Korzun e Aleksei Rios; Sergei Krivets (Sergei Kislyak, aos 67'); Sergei Kornilenko. Técnico: Aleksandr Khatskevich

Oranje renovada. Com saudades de Robben

Robben marcando pela seleção holandesa (contra País de Gales, em novembro de 2015); dá saudades, mas Oranje precisa superá-las (Stu Forster; Getty Images)
Amsterdã, 5 de junho de 2010. No amistoso de despedida da sua torcida, rumo à Copa do Mundo que começaria dali a seis dias, a seleção da Holanda indica que está pronta para um papel digno no torneio, ao golear a Hungria por 6 a 1 na Amsterdam Arena. Poupado após ter jogado a final da Liga dos Campeões pelo Bayern de Munique, Arjen Robben é colocado no segundo tempo do amistoso – e brilha, marcando dois gols. Todavia, ele deixa um travo amargo e um ponto de interrogação em todo o país, ao lesionar um músculo da coxa no fim do jogo. Ficava a pergunta torturante: iria Robben à África do Sul?

A delegação foi, estreou no torneio, mas o esperava. E após uma semana de tratamento ultraintensivo com o fisioterapeuta Dick van Toorn, Robben voou para a Copa. No primeiro jogo em que foi relacionado, contra Camarões, o camisa 11 saiu do banco – e participou da jogada do gol de Klaas-Jan Huntelaar que decidiu o 2 a 1 na Cidade do Cabo. Nas oitavas de final, ele abriu o placar contra a Eslováquia. Enfim, após a dúvida, Robben brilhou de novo, só abaixo de Wesley Sneijder em importância técnica na campanha do vice-campeonato mundial.

Seis anos, quatro meses e dois dias depois, a Laranja viveu uma situação semelhante. Voltou a ficar à espera de Robben, antes das partidas contra Belarus (nesta sexta) e França (próxima segunda), pelas eliminatórias da Copa de 2018. Mas ao contrário da ansiedade gostosa que cerca uma Copa do Mundo, como em 2010, o cenário é mais melancólico e preocupante. Melancólico, porque as desconfianças seguem sobre a equipe comandada por Danny Blind. Preocupante porque, apesar de já ter uma equipe predominantemente jovem em campo, o técnico ainda parece precisar muito de Arjen. Mas ele estará ausente, de novo, por contusões. Não poderá ocupar o posto de capitão da Oranje - ainda dele.

Se essas lesões já eram renitentes quando Robben estava no esplendor técnico, agora o perturbam de modo quase definitivo. Basta ver o que ocorre com ele no Bayern. Ainda na pré-temporada, o canhoto mais famoso do futebol mundial lesionou um músculo da coxa, num amistoso contra o Lippstadt 08, em julho. Ficou dois meses em recuperação. Voltou em 21 de setembro, pelo Campeonato Alemão, entrando durante o jogo contra o Hertha Berlim... e marcando gol. Daí, no sábado passado, enfim começou uma partida como titular, contra o Köln... e saiu machucado de novo – agora,  nas costelas.

A bem da verdade, Danny Blind já não relacionara o nativo de Bedum entre os 23 jogadores convocados, um dia antes do jogo contra o Köln. E o treinador da seleção foi bem claro e cauteloso na abordagem do assunto: “Precisamos ver as coisas numa conversa com a federação, o Bayern e o próprio Robben. Mas ainda está muito cedo. Ele queria muito [vir], mas também tem compromissos com o clube. Se houver uma possibilidade, veremos o que fazer”. Ainda assim, ficou uma esperança, como o treinador da Oranje sinalizou na segunda-feira passada, durante a apresentação dos chamados. A lesão nas costelas sofrida no sábado já não incomodava tanto Robben, e os contatos com a equipe médica do Bayern seriam mantidos. Se estivesse pronto, o capitão da seleção viajaria para integrar-se ao grupo que treinou na cidade de Noordwijk.

Assim ficou a situação: por mais que os 23 jogadores já treinassem, a espera por Robben seguia. Até o início desta sexta, prazo final para que o jogador fosse incluído na lista dos relacionados para o jogo contra Belarus. Sem recuperação completa, aquele de quem todos ainda esperam algo na seleção holandesa de novo estará ausente. Restou a Danny Blind lamentar: “Falei com ele, que não virá – e isso também vale para o jogo contra a França. Ele não está suficientemente em forma, o que é chato”.

Se fosse só o apego do técnico por um jogador brilhante tecnicamente, sua ausência não abateria tanto. Mas incomoda notar que outro veterano, Wesley Sneijder, foi até mais fundo na lamentação dos problemas físicos por que passa o colega de geração: “Ele [Robben] é muito importante para nós.
Não só dentro, mas fora de campo também. É uma peça fundamental, que não podemos perder. Já vimos isso no passado, é a dura realidade”. E o que dizer se um novato que desponta como possível substituto, Quincy Promes, é o primeiro a falar que Robben “não pode ser substituído”?

Pior ainda é reconhecer que Robben continua sendo importante, apesar da relação custo-benefício cada vez mais desvantajosa para Bayern e Holanda. Machuca-se muito? Sim. Mas segue demonstrando vontade e disposição de atender às convocações de Blind, sempre que possível. Uma vez no grupo de jogadores, o calvo precoce também apresenta um espírito de liderança inegável, como se viu na Copa de 2014. Sem contar a conhecidíssima capacidade de mudar uma partida, com sua jogada-muito-manjada-mas-que-ninguém-para de cortar para a esquerda e chutar. Continua sendo assim, mesmo atualmente: foi assim que Robben marcou um dos gols contra o País de Gales, em novembro do ano passado, no seu ultimo jogo pela seleção. E foi assim que marcou contra o Hertha Berlim. Ou seja: não é um caso de desprezo puro e simples. Em forma, o ponta direita pode ser útil, sim, senhora.

O excessivo apego à importância (inegável) de Robben fica ainda perturbador tendo em vista que a renovação holandesa já está completa. Não, a geração não impressiona tecnicamente. Ainda assim, pensar mais num atleta ausente do que nos 23 que lá estão dá a sensação de que o temor de novo vexame nas eliminatórias da Copa existe – temor exagerado, já que a Holanda foi razoável na estreia contra a Suécia, e pode muito bem vencer os bielorrussos nesta sexta. Claro, pensar em superar os franceses já é bem mais difícil. No jogo de Amsterdã, dia 10, os Bleus são favoritos, mesmo com os problemas na zaga (o convocado Jérémy Mathieu não só pediu dispensa, mas decidiu parar de defender a seleção; e o substituto, Eliaquim Mangala, lesionou-se).

Holanda atual é mediana. Mas é o que há para hoje. E parece mais entrosada (Remko de Waal/ANP)

Todavia, mesmo inferior, a Oranje demonstra mais firmeza do que no amistoso entre ambas, em março passado. Enfim, parece haver um time titular de fato. Começando por uma defesa relativamente entrosada. Jeroen Zoet parece ter ganho definitivamente a vaga de titular no gol (“Cillessen não jogará”, informou Blind), Rick Karsdorp pode ganhar chance na lateral direita, e o recuperado Stefan de Vrij pode oferecer mais qualidade no miolo de zaga. No meio-campo, Kevin Strootman e o supracitado Sneijder tiveram lesões leves, mas já se integraram aos treinamentos normais e estão à disposição para as partidas. Com a ausência de Robben, Sneijder ganha cada vez mais importância: tanto pelo que ainda tenta oferecer tecnicamente (foi dele o gol contra a Suécia, pelas eliminatórias), pela experiência indubitável: jogando contra Belarus e França, alcançará as 125 partidas pela seleção.

No ataque é que se deu uma polêmica. Não na posição de “camisa 9”, que é de Vincent Janssen – pelo menos por enquanto. Mas na ponta esquerda: além da volta de um Memphis Depay em baixa no Manchester United, a escolha de Danny Blind por Siem de Jong para substituir o lesionado Steven Berghuis pegou mal. A escolha pelo irmão mais velho de Luuk, voltando à Oranje após três anos, soou estranha: só recentemente Siem fez seu primeiro jogo completo pelo PSV, enquanto Jens Toornstra tem ido muito bem no Feyenoord líder do Campeonato Holandês.

De todo modo, essa base mais entrosada das últimas partidas – e com uma média de idade mais baixa – tem ficado em segundo plano, diante do peso da ausência de Robben. Mas é assim que a Holanda precisará enfrentar Belarus, que surpreendeu... a França, adversário da próxima segunda. E talvez seja assim que a Laranja precise jogar daqui para frente. Robben faz e fará falta? Muita. Porém, a Oranje deve seguir, mesmo sendo um time pior sem ele.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 7 de outubro de 2016. Revista e ampliada)