Neste prolongamento da fase de grupos que é a segunda fase (16-avos de final), novidade desta Copa do Mundo masculina com 48 seleções, a impressão que fica é que uma eliminação separa as seleções capazes das incapazes de crescer no decorrer do Mundial. E a seleção masculina da Holanda (Países Baixos), antes de ser uma candidata realmente forte, já era. Já está destinada a voltar à terra natal, eliminada por Marrocos. E eliminada de um jeito que deixa claro, dentro de tanta contestação às seleções europeias: enquanto equipes nacionais do Velho Continente, como Portugal e Croácia, cresceram, e seleções de outros continentes se afirmam mais e mais (Marrocos, um dos países-sedes da Copa de 2030, que o diga), a Laranja fica apegada à tradição e às lembranças de 1974, de 1998, de grandes participações em Copas, cada vez mais enferrujadas por um pragmatismo tosco. Na verdade, beirando a covardia, como se assumisse a inferioridade ao adversário.
A decisão de colocar Nathan Aké como um "falso volante" (na prática, um terceiro zagueiro, com Tijjani Reijnders e Donyell Malen indo para o banco) deixou claro o tamanho da preocupação holandesa em evitar os contra-golpes marroquinos, com Brahim Díaz lançando para Ismael Saibari finalizar. E até que deu certo: os cruzamentos marroquinos eram infrutíferos, como um de Achraf Hakimi, aos 5', para fora. Contido o ataque dos "Leões do Atlas", a questão era aproveitar as pouquíssimas chances que viriam, com o meio-campo totalmente neutralizado. A única tentativa holandesa, aos 16', foi inválida: Crysencio Summerville passou a Brian Brobbey, que chutou para fora - mas Summerville estava impedido.
Se não deu nos lançamentos longos para Marrocos, quase deu nas bolas paradas. Só o goleiro Bart Verbruggen impediu o 1 a 0 adversário em Monterrey, aos 20', quando Azzedine Ounahi cabeceou - e na sequência, também mandou para fora a bola, após chute de Hakimi. Sem conseguir dominar o meio-campo, sem fazer a bola chegar ao ataque, a Laranja sofria. Só deu sinal de vida para tentar o gol aos 37', num desvio de Denzel Dumfries para fora, e aos 43', num chute de Micky van de Ven de fora da área, e para fora. Contudo, o respiro acabou nos acréscimos do 1º tempo. Primeiro, no único erro holandês que levou a contragolpe adversário, com Azzedine Ounahi finalizando para fora. Depois, com Saibari desviando levemente falta de Hakimi, para fora. A pressão era gigante, em campo e nas arquibancadas, com os marroquinos deixando claro que a "micareta laranja" era do estádio para fora.
Se já era gigante, a pressão ficou, talvez, algo acima disso logo que o segundo tempo começou. Nem tanto no chute de Ayyoub Bouaddi, para fora, aos 48'. Mas sim no chute de Hakimi que mandou a bola no travessão, aos 52'. No arremate de Bilal El Khannouss que Verbruggen pegou, aos 58'. E principalmente, aos 62', quando um desvio acidental de Dumfries em escanteio só não foi às redes porque Verbruggen estava atento e afastou. Tudo isso, sem contar as interceptações em momentos cruciais, como Micky van de Ven fez com Hakimi aos 56', e Van Dijk com Saibari, aos 61'.
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| O gol de Gakpo, alívio após o gigantesco drama pessoal, poderia ter sido o símbolo de uma vitória superando várias adversidades. Mas... (Martín Fonseca/Eurasia Sport Images/Getty Images) |
A Holanda não tinha saída para o contra-ataque, não ficava com a bola, nada. Até para melhorar isso, Teun Koopmeiners e Wout Weghorst vieram a campo. Mas aos 72', antes mesmo de agirem, imediatamente depois da pausa para hidratação, Summerville enfim teve espaço para correr, além da bola nos pés. Chegou à grande área e foi derrubado, mas ainda conseguiu desviar a bola para que Cody Gakpo fizesse um dos gols mais marcantes da Copa até aqui, caindo em justas lágrimas com a lembrança de Elijah, filho que a companheira Noa perdeu na semana passada. O esforço holandês era inegável, como mostrava a comemoração de Van Dijk num desarme de Saibari, aos 85'. Só que a fragilidade defensiva holandesa fazia crer que, uma hora, a Laranja não aguentaria. E não aguentou: com apenas 20 segundos passados do tempo regulamentar, um cruzamento, e o zagueiro Issa Diop fez o gol pelo qual Marrocos lutou tanto.
E Marrocos seguiu lutando bem mais pelo gol na prorrogação que se seguiu. Porém, de jeito mais cadenciado e menos intenso do que nos 90 minutos. Ainda assim, se houve uma única chance de gol nos 30 minutos extras, ela foi dos "Leões do Atlas". E Soufiane Rahimi só não fez o gol da virada porque Verbruggen fez uma das grandes defesas da Copa do Mundo. Só que a Holanda voltava a atuar temerariamente, até porque nenhuma das alterações teve sucesso. Quinten Timber não protegeu bem o meio-campo, Jorrel Hato não ajudou muito a marcação na esquerda, Marten de Roon foi menos esforçado do que Frenkie de Jong, Justin Kluivert entrou para substituir um esgotado Gakpo. Restava confiar que, nas cobranças da marca do pênalti, fosse tudo diferente.
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| A Holanda perdeu, Verbruggen ganhou: o goleiro da Laranja fez excelentes defesas. Mesmo com o azar numa das cobranças, se consolidou (Cesar Gomez/Jam Media/Getty Images) |
Do jeito como começou, com Koopmeiners convertendo seu chute e Neil El Aynaoui mandando a bola no travessão, parecia que seria diferente. Mas vieram as sucessivas cobranças desperdiçadas: Justin Kluivert, Quinten Timber, Summerville... e a Holanda, antes de ser qualquer coisa nesta Copa do Mundo, já era. E enquanto outras seleções europeias - e de outros continentes - crescem historicamente nos últimos anos, a Laranja se apega a uma tradição cada vez mais enferrujada.
COPA DO MUNDO FIFA 2026 - 16-AVOS DE FINAL (SEGUNDA FASE)
Holanda 1x1 Marrocos - Marrocos 3x2 nos pênaltis
Data: 29 de junho de 2026
Local: Estádio de Monterrey/Estadio BBVA (Monterrey, México)
Árbitro: Wilton Pereira Sampaio (Brasil)
Gols: Cody Gakpo, aos 72', e Issa Diop, aos 90' + 1
Ordem dos pênaltis: Koopmeiners (1 a 0), El Aynaoui (no travessão, 1 a 0), Justin Kluivert (na trave, 1 a 0), Rahimi (1 a 1), Weghorst (2 a 1), Taibi (2 a 2), Quinten Timber (2 a 2, para fora), Hakimi (2 a 2, na trave), Summerville (2 a 2, Bono pegou) e Saibari (3 a 2)
HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries, Jan Paul van Hecke, Virgil van Dijk, Micky van de Ven (Jorrel Hato, aos 86') e Nathan Aké (Teun Koopmeiners, aos 70'); Ryan Gravenberch (Quinten Timber, aos 86'), Frenkie de Jong (Marten de Roon, aos 110') e Cody Gakpo (Justin Kluivert, aos 113'); Crysencio Summerville e Brian Brobbey (Wout Weghorst, aos 70'). Técnico: Ronald Koeman
MARROCOS
Yassine "Bono" Bounou; Issa Diop, Chadi Riad (Anass Salah-Eddine, aos 75') e Noussair Mazraoui; Achraf Hakimi, Neil El Aynaoui, Ayyoub Bouaddi (Samir El Mourabet, aos 79') e Bilal El Khannouss (Chemsdine Taibi, aos 86'); Brahim Díaz (Gessime Yassine, aos 79') e Azzedine Ounahi Soufiane Rahimi, aos 86'); Ismael Saibari. Técnico: Mohamed Ouahbi













