quarta-feira, 27 de maio de 2026

A Holanda na Copa de 2026: a comissão técnica

AUXILIARES

(KNVB Media/Divulgação)

Erwin Koeman (20 de setembro de 1961)

Antes mesmo de começarem seus caminhos no futebol, Erwin esteve sempre ao lado do técnico Ronald Koeman. Aliás, chegou até antes mesmo dele, irmão dois anos mais velho que é. Durante a infância, o futebol sempre foi o passatempo preferido da dupla de irmãos - algo também previsível, sendo o pai de ambos, Martin Koeman (1938-2013), também jogador profissional. O começo de carreira de Erwin, meio-campista mais recuado, foi no mesmo Groningen onde o irmão mais novo iniciaria a carreira profissional. Aí, o decorrer da carreira de ambos foi diferente. Mas mesmo que Erwin Koeman tenha ficado mais restrito a clubes do país natal (três passagens pelo Groningen, outras duas pelo PSV, e uma destacada no Mechelen, da Bélgica, onde foi campeão da antiga Recopa Europeia 1987/88), os dois irmãos Koeman se encontraram na seleção da Holanda (Países Baixos), em duas grandes competições. Juntos comemoraram o título da Euro 1988. Juntos amargaram a decepção da Laranja na Copa de 1990. Mas se Ronald foi um dos grandes símbolos daquela geração da Laranja, na defesa, Erwin teve trajetória um pouco mais discreta no meio-campo: 31 jogos e dois gols, entre 1983 e 1994 - esteve cotado, esteve até no álbum, mas ficou fora da Copa do Mundo daquele ano.

Carreira encerrada dentro de campo, fora dele Erwin Koeman também teve passagens mais discretas do que Ronald no banco, como técnico. Feyenoord (2005 a 2007), seleção da Hungria (2008 a 2010), Utrecht (2011)... até que o irmão mais novo decidiu trazer o mais velho para ser seu auxiliar técnico constante. Nas andanças de Ronald treinando times ingleses, por Southampton (2014 a 2016) e Everton (2016 a 2017), Erwin Koeman era seu auxiliar. Mas ficou de fora da primeira passagem de Ronald Koeman pela seleção holandesa: trabalhou então junto a Phillip Cocu, na curta passagem deste pelo Fenerbahçe-TUR, em 2018. Aí, voltou a ser treinador, comandando a seleção do Omã rapidamente, em 2019. Porém, no ano seguinte, também como o irmão, a saúde lhe deu um susto: problemas cardíacos forçaram Erwin a passar por uma cirurgia. Recuperado, ainda teve passagem treinando o Beitar Jerusalém (Israel) em 2021, mas preferiu encerrar ali sua carreira como técnico. Só voltaria à beira do campo como auxiliar. Quem lhe deu a chance? O irmão Ronald Koeman: ao montar sua comissão técnica para a volta à Holanda, em 2023, Ronald fez de Erwin seu auxiliar. E ambos irão juntos à Copa de 2026. Mais um capítulo de uma união consolidada até em estátuas: a família Koeman - além dos dois, o pai Martin - está imortalizada à frente do estádio do Groningen, onde tudo começou.

(KNVB Media/Divulgação)

Wim Jonk (12 de outubro de 1966)

Quando jogador, Wim Jonk era bom meio-campista. Capaz de marcar e atacar, tendo no chute de fora da área sua principal qualidade, teve passagens elogiáveis por Ajax - campeão da antiga Copa da UEFA, em 1991/92 -, Internazionale - mais um título de Copa da UEFA, em 1993/94 - e PSV - no time de Eindhoven, Jonk jogou com Vampeta e Ronaldo. Seu bom nível técnico o levou à seleção da Holanda (Países Baixos). E não foi para ser coadjuvante, pelo menos em Copas do Mundo (foi reserva na Euro 1992). No Mundial de 1994, Jonk jogou todos os minutos da Laranja em campo, fez dois gols - ambos em chutes de fora da área, nos 2 a 1 na Arábia Saudita, na fase de grupos, e nos 2 a 0 na Irlanda, nas oitavas de final. Na França, em 1998, Jonk só ficou de fora das oitavas de final, contra a Iugoslávia. Ou seja: Jonk esteve em duas partidas marcantes da Holanda contra o Brasil. Nas quartas de final da Copa de 1994, inclusive, cometeu em Branco a falta que resultaria no terceiro gol brasileiro; na semifinal da Copa de 1998, só saiu de campo já no segundo tempo da prorrogação, aos seis minutos.

Terminada a carreira nos campos, Jonk ficou muito vinculado a trabalhos internos. Principalmente quando o assunto era categorias de base. Trabalhando bem com jovens, ele foi um dos indicados por ninguém menos que Johan Cruyff a reestruturar a base do Ajax, em 2011, ficando quatro anos no clube de Amsterdã, só saindo por discordâncias com a direção de futebol de então, que desejava voltar a apostar em contratações mais ousadas. Só voltaria a trabalhar justamente no clube em que surgiu: o Volendam, que o trouxe em 2019, para seu primeiro trabalho como treinador de um time principal. Trabalho de sucesso: após paciente reação, Jonk comandou a campanha que levou os Volendammers de volta à primeira divisão holandesa, na temporada 2021/22. Na temporada seguinte da Eredivisie, ainda foi técnico dos Volendammers em campo; já em 2023/24, em rota de colisão com a diretoria do clube, preferiu voltar aos gabinetes, como diretor de futebol, deixando o auxiliar Matthias Kohler em seu lugar. Sem sucesso: o Volendam foi rebaixado, e Jonk, demitido. Só que, justamente na mesma época - meados de 2024 -, Ronald Koeman ficara sem outro auxiliar técnico, com a saída de Dwight Lodeweges. Decidiu trazer o ex-meio-campista. Assim como foi na Copa de 1994, quando ambos foram titulares absolutos da Laranja, Koeman e Jonk estarão lado a lado nos Estados Unidos. No Canadá e no México também, claro.

(KNVB Media/Divulgação)

Ruud van Nistelrooy (1º de julho de 1976)

Nem é nada tão incomum que Ruud van Nistelrooy esteja numa comissão técnica da seleção masculina da Holanda (Países Baixos). Já em 2014, carreira de atacante encerrada havia três anos, Van Nistelrooy foi chamado para ser auxiliar de Guus Hiddink, trazendo seu respeitável currículo - duas Euros, uma Copa do Mundo, nono maior goleador da história da Liga dos Campeões, oitavo maior goleador da história da seleção holandesa (35 gols, entre 1998 e 2011). Mas o ex-atacante viu de perto uma malograda era da Laranja, com a demissão de Hiddink, a promoção de seu colega Danny Blind a treinador, o fracasso nas eliminatórias da Euro 2016. Àquela altura, Ruud já começara suas aspirações a virar técnico também em clubes, trabalhando na base do PSV em que começara a se destacar. Sua primeira passagem pela comissão técnica da Holanda acabou em 2017, mas sua ascensão no PSV continuou, alcançando a equipe B do clube em 2021. Não sem antes uma breve volta à Laranja: para a Euro 2020+1, foi chamado às pressas pelo técnico de então, Frank de Boer, e o auxiliou no torneio. Não demorou muito, e em 2022, antes mesmo do que queria, Van Nistelrooy foi confirmado para treinar o time principal do PSV. Até que seu trabalho teve pontos elogiáveis, culminando no ápice do título da Copa da Holanda, na temporada 2022/23. Contudo, foi considerado técnico exigente demais, a ponto de entrar em rota de colisão com alguns jogadores (o esforço e o foco extremos de Ruud eram notáveis desde seus tempos de atacante destacado). 

A caminho de romper até com o diretor de futebol do PSV então, John de Jong, Van Nistelrooy foi demitido antes mesmo da temporada 2022/23 acabar. Ficou um tempo inativo, até ser chamado por Erik ten Hag, em 2024, para ser seu auxiliar técnico em outro clube no qual marcou época: o Manchester United (é o 11º maior goleador da história dos Diabos Vermelhos, com 150 gols feitos entre 2001 e 2006). Com a demissão de Ten Hag, chegou mesmo a ser técnico interino do United, em quatro jogos. Saindo após a chegada do português Rúben Amorim, Van Nistelrooy teria chance para valer no Leicester City, ainda na temporada 2024/25. Sem sucesso: as Raposas foram rebaixadas na Premier League, e Van Nistelrooy rescindiu contrato. Estava inativo. Mas sua imagem no futebol holandês ainda era forte a ponto de lhe render respeito contínuo das gerações posteriores. Em janeiro, Ronald Koeman lhe convidou. E o ex-atacante aceitou voltar para a terceira passagem como auxiliar técnico da Holanda, sendo uma espécie de "ouvidor" dos atletas, que também o respeitam. Falando ao site oficial da seleção, Van Nistelrooy comemorou: "É ótimo estar de volta". E espera ter como auxiliar, em 2026, uma lembrança melhor de Copas do que quando jogou, em 2006, quando, mesmo marcando um gol, teve problemas com o técnico Marco van Basten.

TREINADOR DE GOLEIROS

(KNVB Media/Divulgação)

Patrick Lodewijks (21 de fevereiro de 1967)

Patrick Lodewijks surgiu num bom momento do PSV: como reserva de Hans van Breukelen no gol, fez parte da campanha histórica da Tríplice Coroa do clube de Eindhoven, na temporada 1987/88. Mas não seria por lá que sua carreira de goleiro ganharia regularidade, e sim no Groningen, onde Lodewijks passaria nove anos. Nunca chegaria à seleção da Holanda (Países Baixos) como jogador, mas ganharia respeito o suficiente para não só voltar ao PSV e ainda passar pelo Feyenoord, como ser - pouca gente sabe - incluído na pré-convocação da Holanda para a Copa de 2006, já aos 39 anos de idade. Ao final da temporada 2006/07, carreira encerrada, prontamente Lodewijks começou a ser treinador de goleiros, no próprio Feyenoord. Passaria ainda pelo Groningen, e também teria sua primeira experiência na seleção masculina da Holanda, durante a fugaz passagem de Guus Hiddink, entre 2014 e 2015.

Mas Lodewijks só conheceu (e se tornou membro de confiança das comissões técnicas de) Ronald Koeman a partir de 2016, quando trabalhou sob o comando do técnico no Everton-ING. Ganhou a confiança suficientemente para se voltar a ser treinador de goleiros da Laranja quando Koeman teve sua primeira passagem por lá, entre 2018 e 2020. Nem mesmo a saída para o Barcelona colocou risco à sua passagem: o sucessor, Frank de Boer, também manteve Lodewijks como seu treinador de goleiros. Somente após a Euro 2020+1 é que ele deu lugar a outro - Frans Hoek, o treinador preferencial para os arqueiros de Louis van Gaal, que voltava então à seleção holandesa. Mas com a saída de Van Gaal e a volta de Ronald Koeman à Laranja, Lodewijks também voltou a treinar os goleiros do selecionado neerlandês. Adotando um estilo prático, conseguiu ajudar a solucionar a roda-viva na posição. E pela primeira vez, viverá a experiência de um grande torneio com a seleção holandesa. Ainda que no banco.

DEMAIS INTEGRANTES

Preparadores físicos - Jan Kluitenberg e Martin Cruijff
Chefe de logística - Cor Asp
Cientista esportivo - David van Maurik
Fisioterapeutas - Ricardo de Sanders, Gert-Jan Goudswaard e Luc van Agt
Médicos - Edwin Goedhart e Rien Heijboer
Massagistas - Rob Koster
Analistas de desempenho - Cees Lok, Gert Aandewiel e Dennis Demmers

O guia da Holanda na Copa 2026: melhorou só um pouco

Esta foi a escalação da Holanda (Países Baixos) na última rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo - inclui Xavi Simons (terceiro agachado da esquerda para a direita), fora da Copa. A qualificação mostrou: a Laranja tem um bom time, mas abaixo das favoritas (KNVB Media/Divulgação)

A coincidência chega a ser até engraçada. Antes da Copa de 2022 começar, a seleção da Holanda (Países Baixos) era considerada uma equipe boa, mas não exatamente candidata a título - e teria um grande desafio na estreia, encarando Senegal, então campeã africana de seleções, com bons jogadores, muito capacitada a ser uma das surpresas daquele Mundial. Quatro anos - na verdade, três anos e meio - depois, a Copa do Mundo de 2026 está aí. A Laranja, novamente, é considerada uma equipe de boa qualidade. Em relação a 2022, até melhorou um pouco. Mas ainda tem nível técnico e resultados insuficientes para ser considerada, sem hesitação, como favorita ao título (até porque o histórico de decepções se impõe). E também novamente, ela estreará na sua 12ª participação numa Copa tendo de se provar contra um seleção considerada sólida e candidata a ser surpresa no torneio: o Japão, primeiro adversário à espera no grupo F, no dia 14 de junho (domingo), em Dallas, às 17h de Brasília. Pela frente, outras duas adversárias traiçoeiras: a Suécia (20 de junho, sábado, às 14h de Brasília, em Houston) e a Tunísia (25 de junho, quinta-feira, às 20h de Brasília, em Kansas City).

A Laranja terá de se provar, em última análise, porque embora ela tenha jogadores inegavelmente qualificados, o trabalho de Ronald Koeman ainda não conseguiu convencer. Se evitou um dos principais problemas no ciclo para 2022 (uma roda-viva de técnicos - entre o terceiro lugar de 2014 e o retorno aos Mundiais, no Catar, foram oito treinadores), por outro lado, em três anos da segunda passagem de Koeman, a inconstância holandesa foi clara. Nem é preciso citar aqui, em 2023, a decepção de ficar no quarto lugar da Liga das Nações, em casa: afinal de contas, era começo de trabalho. Mas mesmo que o resultado na Euro 2024 tenha sido relativamente satisfatório - nunca é ruim chegar à semifinal, ainda mais tendo perdido três meio-campistas importantes antes do torneio -, até hoje muitos julgam que a Laranja conseguiu essa campanha mais pela fragilidade do chaveamento do que por seus méritos. Até porque terminou seu grupo em terceiro lugar, após uma derrota para a Áustria. E mesmo com um chaveamento considerado mais fácil, a equipe suou para virar contra a Turquia, nas quartas de final.

Ronald Koeman tem inegável sequência de trabalho, mas nunca conseguiu convencer, nem mesmo na campanha de semifinalista da Euro 2024 (KNVB/Divulgação)

E aí, entra o problema que mais aborrece torcida e imprensa holandesas: não conseguir superar seleções grandes, nos últimos tempos. Em todo o trabalho de Koeman, desde 2023, só quatro vezes houve vitória contra equipes nas 40 primeiras posições do ranking da FIFA (2 a 1 na Turquia, 22ª, nas citadas quartas de final da Euro 2024; os 4 a 0 no Canadá, 30º do ranking, em amistoso pré-Euro; os 2 a 1 na Noruega, 31ª, no amistoso de 27 de março passado; e os 2 a 1 na Polônia, 35ª colocada, na estreia pela Euro). No mais... França, dois jogos nas Eliminatórias da Euro, duas derrotas, um reencontro na fase de grupos da Euro, um empate; Alemanha, dois jogos pela Liga das Nações 2024/25, uma derrota e um empate; Inglaterra, a derrota na semifinal da Euro 2024. Contra a Espanha, no momento reconhecido como o melhor da Oranje sob Koeman, dois empates nas quartas de final da Liga das Nações passada, um time que fez jogo duro para a atual campeã europeia... mas, afinal, derrota nos pênaltis.

Embora seja algo contraindicado para uma seleção que deseje ir longe na Copa, vá lá, perder de seleções grandes é algo compreensível em cenários equilibrados. Até porque a derrota nas quartas da Liga das Nações levou a um grupo muito acessível nas Eliminatórias da Copa do Mundo (o grupo G europeu, com Finlândia, Lituânia, Malta e Polônia). E do modo como a campanha foi iniciada, em junho do ano passado, parecia que essa facilidade seria aproveitada, com duas vitórias tranquilas - 2 a 0 na Finlândia e 8 a 0 em Malta (goleada fundamental para o saldo de gols, primeiro critério de desempate). 

Contudo, nas datas FIFA de setembro, os problemas apareceram. Na terceira rodada, dia 4, abrindo o placar contra a Polônia, a Laranja perdeu muitos gols. Dependeu demais de Denzel Dumfries e de Cody Gakpo. E no fim, tomou o castigo, com os poloneses empatando (1 a 1) em pleno De Kuip. Pior, muito pior, foi ver, três dias depois, um inesperado sufoco. Contra a Lituânia, fora de casa, a Laranja abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo - com Memphis Depay superando o recorde de então de Robin van Persie, fazendo 52 gols pela seleção neerlandesa e se isolando como o maior goleador dos 120 anos de história dela. Tudo resolvido, certo? Errado: lentíssima, a Holanda viu os lituanos não só empatarem, como ameaçarem a virada, no que seria um tremendo vexame, além de colocar a esperada vaga direta na Copa em risco. Coube a Memphis Depay, fazendo um de seus melhores jogos da carreira pela seleção, resolver as coisas fazendo o 3 a 2 do vídeo abaixo. Mas que pegou mal, pegou.


De certa forma, a Holanda não resolveu o mau humor em relação a ela nem mesmo com duas goleadas por 4 a 0 nas rodadas de outubro das Eliminatórias: sobre Malta, fora de casa, e sobre a Finlândia, em Amsterdã. Até porque, na penúltima rodada, em novembro, quando poderia garantir a vaga na Copa por antecipação caso vencesse a Polônia fora de casa, um novo empate (1 a 1) - pois é, a Holanda ficou sem vencer os poloneses, únicos que poderiam lhe fazer frente no grupo das eliminatórias. Pelo menos, a vitória que garantiu lugar no Mundial foi convincente: novos 4 a 0, na Lituânia, em 17 de novembro de 2025.


Essa e outras goleadas deixaram claro: quando se entendem em campo, os holandeses formam uma boa seleção. Também, pudera, tendo em vista que nada menos do que sete prováveis titulares estão na Premier League, considerada a liga mais prestigiosa da Europa. O meio-campo, sem dúvida, é o setor da Laranja que mais melhorou em relação a 2022: se na Copa passada Frenkie de Jong monopolizava as ações, tendo em Davy Klaassen e Marten de Roon apenas bons coadjuvantes, agora Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch são tão criativos quanto Frenkie. Na zaga, segue a "fartura" de sempre: Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke, Jurriën Timber, Nathan Aké. Nas laterais, Denzel Dumfries de um lado, Micky van de Ven do outro, ambos são velocíssimas opções de ataque. O gol, se vivia uma roda-viva antes do Mundial passado, agora tem em Bart Verbruggen um nome firme. E mesmo o ataque, se segue um pouco abaixo em termos de opções, pelo menos tem Donyell Malen em grande fase na Roma.

Se nada de errado ocorrer, esta é a formação tática com que a Holanda (Países Baixos) estreará na Copa (buildlineup.com)

Só que os maus momentos indicaram os problemas que esta Holanda ainda tem. Para começo de conversa, algo que independe do que se faça ou se deixe de fazer: as tantas lesões que vitimaram jogadores importantes da Laranja. Dumfries passou por cirurgia em março passado; Jurriën Timber chega à Copa do Mundo vindo de lesão muscular que lhe atrapalhou a reta final da temporada com o Arsenal; Frenkie de Jong, também com problema muscular, chegou a temer a repetição do drama da ausência da Euro 2024; e Memphis Depay, por fim, com a lesão na parte posterior da coxa sofrida em março passado, quase repetiu a história de 2022, quando foi à Copa sem ter jogado partidas desde que se machucou (ainda fez duas partidas pelo Corinthians). Enfim, raríssimas vezes a escalação foi a ideal. Depois, se o time flui no ataque, é cada vez mais lento na defesa, quando tem de se proteger de contra-ataques - até por isso, não se pode descartar a ideia de Ronald Koeman colocar o time com três zagueiros, para que uma dupla proteja Van Dijk, ficando cada vez mais na sobra. Além do mais, o último amistoso de março - 1 a 1 contra o Equador, com Dumfries expulso no primeiro tempo - deixou claro que os Países Baixos sofrem contra seleções fisicamente intensas.

Por essas questões é que a Laranja começará a Copa do Mundo já tendo de se provar contra o Japão, quando muita gente suspeita que a zebra passeará. Caberá ao time de Ronald Koeman - que começará como treinador em Dallas, a mesma cidade em que terminou sua trajetória como jogador da seleção, nas quartas de final da Copa de 1994 - provar que não é para tanta desconfiança. Porque a Holanda melhorou só um pouco em relação a 2022, mas continua abaixo das favoritas.

Os 26 convocados da Holanda para a Copa (clique nos nomes e saiba mais sobre eles)

GOLEIROS

LATERAIS

ZAGUEIROS

MEIO-CAMPISTAS
ATACANTES

A Holanda na Copa 2026: Ronald Koeman, o técnico

Na sua segunda passagem treinando a Holanda (Países Baixos), Ronald Koeman tem sido mais criticado. Mas por toda a carreira, dentro e fora de campo, poucos currículos impõem mais respeito no futebol holandês (KNVB Media/Divulgação)

Ronald Koeman
Data de nascimento: 21 de março de 1963, em Zaandam
Clubes como jogador: Groningen (1980 a 1983), Ajax (1983 a 1986), PSV (1986 a 1989), Barcelona-ESP (1989 a 1995) e Feyenoord (1995 a 1997)
Clubes como treinador: Vitesse (2000 a 2001), Ajax (2001 a 2005), Benfica-POR (2005 a 2006), PSV (2006 e 2007), Valencia-ESP (2007 a 2008), AZ (2009), Feyenoord (2011 a 2014), Southampton-ING (2014 a 2016), Everton-ING (2016 a 2017), seleção masculina da Holanda (Países Baixos) (2018 a 2020 e desde 2023) e Barcelona-ESP (2020 a 2021)
Seleção (como jogador): 78 jogos e 14 gols, entre 1983 e 1994
Seleção (como treinador): 58 jogos (32 vitórias, 14 empates e 12 derrotas)

(Versão revista e ampliada do texto feito em lembrança dos 60 anos de Ronald Koeman, em 2023)

É impossível tratar Ronald Koeman com a total reverência normalmente destinada a um grande jogador do passado. Afinal de contas, o treinador de 63 anos coloca seu respaldo à prova desde 2023, na segunda passagem como técnico da seleção masculina da Holanda (Países Baixos). Aliás, nesta segunda passagem, Koeman é até mais criticado do que na primeira, entre 2018 e 2020: tem menos vitórias respeitáveis, a Laranja faz atuações oscilantes sob seu comando, considera-se que até mesmo um momento bom - alcançar a semifinal da Euro 2024 - se deu mais por sorte no chaveamento do que por competência. Entretanto, a pressão por que passa no comando da Laranja fica pequena, diante do tamanho dos feitos de "Kuifje" ("Tintim") - apelido carinhoso de Koeman no país natal, por sua semelhança ao personagem célebre de Hergé nas histórias em quadrinhos.

Em campo, Koeman foi dos melhores zagueiros de sua geração, no fim dos anos 1980/início dos anos 1990. Esbanjava técnica na zaga, iniciando as jogadas das equipes por que passou, virando quase sinônimo de "zagueiro artilheiro" de tantos gols que fez, graças à tremenda habilidade nas bolas paradas. Desde quando corria atrás da bola, também transparecia espírito de liderança: era o capitão costumeiro de suas equipes. E nos Países Baixos, ser o único holandês a ter passado como jogador e treinador pelo Trio de Ferro (Ajax, PSV e Feyenoord), e agora, se tornar o segundo holandês a jogar pela Oranje  (1990 e 1994) e treiná-la numa Copa do Mundo são provas inequívocas do respeito que Ronald Koeman construiu.

Na família Koeman, o patriarca Martin (centro) abriu o caminho para os irmãos Erwin (direita) e Ronald. O Groningen que o diga (Arquivo pessoal)

Questão de família

Nascido em Zaandam e criado em Koog aan de Zaam (vilarejo vizinho), Ronald teve exemplo para o futebol desde o princípio da vida. Ninguém menos do que o pai, Martin Koeman (1938-2013), que já era jogador. Um zagueiro, como o filho seria. E um zagueiro razoável: Martin fez uma partida pela seleção da Holanda - empate contra a Áustria (1 a 1), num amistoso em 1964 -, e ficou muito ligado a clubes do norte dos Países Baixos. Principalmente o Groningen: passou oito anos (1963 a 1971) no GVAV, uma das agremiações cujas fusões deram origem ao Groningen atual. Nele, Koeman pai ficou mais dois anos, entre 1971 e 1973. Depois, o patriarca jogou mais um ano no Heerenveen, antes de encerrar a carreira.

E a vida que levava o pai Martin inspirou os filhos: não só Ronald, mas também Erwin Koeman, irmão dois anos mais velho (e seu auxiliar técnico na Holanda, atualmente). No caso de Ronald, ele logo tomou Groningen como seu caminho. Na cidade, primeiro começou em duas equipes amadoras, o VV Helpman e o GRC Groningen, ainda entre a infância e a adolescência. Já nesta, sempre ao lado do irmão Erwin, Ronald rumou para o Groningen em que o pai fizera alguma fama. Não demoraria muito para igualá-lo: em 21 de setembro de 1980, aos 17 anos e 183 dias, Koeman fez sua primeira partida pelo time principal do Groningen, substituindo o lateral Sip Bloemberg para os 15 minutos finais na vitória por 2 a 0 sobre o NEC, pelo Campeonato Holandês. Seu primeiro gol foi nos 2 a 2 contra o Excelsior, em 1º de fevereiro de 1981, pela 17ª rodada da Eredivisie.

O começo de Ronald, no Groningen, ao lado do irmão Erwin (direita), jogando pelo PSV(Arquivo ANP)

Então, o Groningen acabara de subir para a primeira divisão holandesa. E Koeman seria o símbolo da estabilização do clube alviverde na Eredivisie. Escalado no meio-campo, tendo parceiros constantes no setor em Jan van Dijk e no irmão Erwin Koeman (que fora ao PSV e voltara rápido), Ronald foi titular absoluto no sétimo lugar em 1981/82 e, principalmente, no quinto lugar em 1982/83, posição que levou o clube a disputar pela primeira vez uma competição europeia (a Copa da UEFA, na temporada seguinte). Mais do que isso: já mostrava pendor goleador incomum para um meio-campo - foram 14 gols pelo Groningen, nas duas temporadas supracitadas. Mais ainda: mostrando talento desde então - nos chutes, nas bolas paradas, até na criação -, Koeman ganhou espaço na seleção da Holanda. Estreou pela Laranja numa derrota para a Suécia (3 a 0, amistoso), ainda defendendo o Groningen, em 27 de abril de 1983.

O espaço se ampliaria ainda mais. Na seleção e nos clubes.

A calma leva ao sucesso

No meio de 1983, Koeman teve o reconhecimento ao valor que já mostrava: foi contratado pelo Ajax. Na passagem por Amsterdã, se consolidou dentro do futebol holandês, mesmo em meio a turbulências. Se o Ajax foi inconstante na temporada 1983/84, naquela época Koeman começou a ser titular absoluto da seleção - algo notável para quem tinha apenas 20 anos. Mesmo em meio ao fracasso nas eliminatórias da Euro 1984, ele já fez seu primeiro gol pela Laranja (nos 3 a 0 sobre a Islândia, pela qualificação para a Euro, em 7 de setembro de 1983). Foi um dos nomes fundamentais num jogo marcante: a virada por 3 a 2 sobre a Irlanda, fora de casa, na sexta rodada das eliminatórias. Aquela partida uniu Koeman a Ruud Gullit e Marco van Basten, como símbolos de uma geração muito promissora, que começava a tomar espaços na Laranja - e que era vista com otimismo, mesmo com a ausência na Euro 1984.

Jogando pelo Ajax, Koeman confirmou que era uma referência de zagueiro na Holanda, mesmo ainda jovem. Mas sofreu com o ambiente turbulento (VI Images/Getty Images)

No Ajax, Koeman seguiu fundamental. Porém, só teria algum respiro no ambiente durante a temporada 1984/85, que marcou o primeiro título de sua carreira - o título do Campeonato Holandês (Koeman fez nove gols em 30 jogos). Em 1985/86, Johan Cruyff voltou ao clube de Amsterdã, para sua primeira experiência como treinador. E rapidamente entrou em rota de colisão com vários jogadores. Um deles, o zagueiro. Numa temporada em que os Ajacieden foram estonteantes no ataque (120 gols), mas também frágeis na defesa, perderam o título da Eredivisie para o PSV. Koeman foi sincero: falou abertamente que de nada adiantava uma equipe ofensiva e perdedora. A colisão com Cruyff ficou irremediável. Uma proposta de renovação do Ajax foi considerada baixa. A salvação veio com uma proposta do... PSV.

Com grandes ambições para se firmar como clube grande - processo que vinha desde os anos 1970 -, o PSV queria jogadores de ponta. Koeman estava entre eles. E chegou a Eindhoven, logo após a Copa de 1986. Num ambiente mais calmo, o defensor decolou de vez. Para começo de conversa, já foi titular na conquista de mais uma Eredivisie (1986/87) - com marca impressionante para um zagueiro: 16 gols em 34 jogos. Poderia ficar melhor, e ficou. Porque o técnico Guus Hiddink, recém-efetivado no PSV, decidiu tornar Koeman um "líbero", aproveitando sua visão de jogo para iniciar jogadas a partir da defesa, se alternando entre a zaga e o meio-campo, sem perder seu talento para avanços, chutes e cobranças. 

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Começava aí o período mais dourado da carreira de Koeman. Porque o PSV foi tricampeão holandês então - com ele indo além como "zagueiro artilheiro": 21 gols em 32 jogos. Porque o PSV fez de 1987/88 o ponto mais alto de sua história, com a Tríplice Coroa, tendo como símbolo o título da Copa dos Campeões - e Koeman, claro, como titular absoluto, um dos líderes da equipe. E finalmente, como a cereja mais deliciosa que poderia haver naquele bolo de sucessos, a Euro 1988. Também estabelecido e inquestionável na Holanda (às vezes, era até capitão da seleção), Koeman jogou todos os minutos no torneio continental. Foi autor do gol - de pênalti - que empatou a semifinal contra a Alemanha. Na vitória final, 2 a 1, foi personagem de uma gozação algo grotesca: após trocar camisas com o alemão Olaf Thon, fingiu "usá-la" como papel higiênico (a torcida achou graça, mas Koeman teve de pedir desculpas dias depois). Finalmente, um mês depois de ser campeão europeu de clubes, Koeman se consagrava de vez: em 25 de junho de 1988, era campeão europeu de seleções, tendo ao lado o irmão Erwin Koeman, também convocado, também tendo sucesso em seu clube - o Mechelen-BEL, em que Erwin jogava, conquistara então a Recopa Europeia.

Koeman precisou pedir desculpas pelo gracejo pesado com alemães, após a Euro 1988. Mas nem isso apagou o tamanho de sua importância naquele título (ANP)

Após o título da Holanda na Euro 1988, Ronald Koeman virou uma transferência esperando para acontecer. Ainda ficou no PSV para a temporada 1988/89. Celebrou o tetracampeonato holandês, feito inédito então na história do clube de Eindhoven - sem contar o bicampeonato na Copa da Holanda. Aí foi impossível segurá-lo. Coube justamente a Johan Cruyff, com quem vivera às turras nos tempos de Ajax, abrir caminho para um novo auge em sua carreira. Partiu de Cruyff o pedido para que o Barcelona contratasse o zagueiro que já era símbolo das modernidades da posição na Europa. E no meio de 1989, por 12,5 milhões de florins (moeda holandesa pré-euro), Koeman partiu para a Catalunha.

Também faria história lá.

Cruyff escolheu Koeman para ser um dos pilares de um Barcelona que faria história. E o zagueiro cumpriria as expectativas do técnico à perfeição (VI Images/Getty Images)

O "melhor zagueiro do mundo" vira ícone barcelonista - com decepções

Cruyff já estava remodelando o Barcelona, para que o clube pudesse fazer frente diante de um Real Madrid que vivia grande fase, com a "Quinta del Buitre" pentacampeã espanhola. E contava com Koeman como um dos jogadores que lhe ajudaria nisso. Só que ele viveu grandes decepções em 1990. Primeiro, o fracasso ao evitar mais um título do Real em La Liga. Depois, e pior, com a Holanda protagonizando um grande vexame na Copa de 1990: chegou como a badalada campeã europeia e saiu com crise aberta no grupo de jogadores, sem nenhuma vitória, eliminada nas oitavas de final. O zagueiro até foi capitão da Laranja no Mundial, até marcou um gol (o de honra, na derrota por 2 a 1 da eliminação para a Alemanha), mas não saiu totalmente ileso: era apontado como arrogante, e começou ali a sofrer com acusações de estar acima do peso, comuns na reta final de sua carreira.

Ronald Koeman continua sob pressão - afinal, é o técnico da Holanda. Mas essa pressão é amenizada pelo respeito ao grande zagueiro que foi (Serge Philippot/Onze/Icon Sport/Getty Images)

Nada que os anos seguintes não pudessem consertar plenamente. Pela seleção, Koeman se manteve estável como capitão, seguiu absoluto na zaga, emplacou mais uma Euro em 1992 (novamente jogando todos os minutos da Holanda no torneio), foi se isolando como referência dentro da Laranja. No Barcelona, então... se o zagueiro ainda penou na sua primeira temporada pelos Blaugranas, começou a colher os frutos de ser um dos nomes escolhidos por Cruyff logo depois. Em 1990/91, fez parte do digno vice-campeonato na Recopa Europeia. E com o título espanhol, se iniciou como um dos símbolos do Barça tetracampeão espanhol até 1994 - tinha tanta preponderância quanto Michael Laudrup, Hristo Stoichkov e Romário, outros símbolos daquela época. Fazia com a camisa azul-e-grená o que já fizera no PSV: gols aos borbotões, faltas e pênaltis cobradas com muita força e categoria. A torcida amava o "Floquet de Neu" (em catalão, "floco de neve" - mais um apelido para Koeman, em referência ao apelido de um gorila albino, popular à época no zoológico da cidade espanhola/catalã, tão branco quanto a pele de Koeman).

A melhor prova disso foi em 20 de maio de 1992, no estádio de Wembley. O Barcelona decidia a Liga dos Campeões contra a Sampdoria. Final equilibrada, indo à prorrogação após 90 minutos de 0 a 0. Até os 112'. Foi quando surgiu uma falta perto da área, de média distância. Era para Ronald Koeman. Estava para ele. Que cobrou, forte, como sempre. A bola estufou as redes defendidas pelo goleiro Gianluca Pagliuca. E o zagueiro holandês fazia o gol mais importante dos 67 que marcou pelo Barça. O gol do primeiro título europeu do clube. O gol que o tornou, para sempre, um ícone barcelonista.

Em suma: principalmente entre 1992 e 1994, Koeman viveu um "círculo virtuoso". A segurança de suas atuações no Barcelona (e os gols de "brinde") o mantinham absoluto na seleção masculina da Holanda. Na Laranja, por sua vez, era o capitão, indispensável. Ainda mais com os problemas que seus companheiros de geração viviam (Ruud Gullit entrou em rota de colisão com o técnico Dick Advocaat, em 1993; Marco van Basten sofria com as lesões no tornozelo que encurtaram sua carreira; Frank Rijkaard chegou a deixar a Laranja entre 1990 e 1991, após a decepção na Copa). Se o gol do título da Liga dos Campeões 1991/92 o marcou no Barcelona, gols como o do 2 a 0 na Inglaterra - em jogo difícil nas eliminatórias da Copa de 1994 - reforçavam seu status à época, até comentado no guia da revista Veja para aquele Mundial. Era, e podia ser considerado como, o melhor zagueiro do mundo.

Um fim honroso

Todavia, a Copa de 1994 foi o início do fim para Koeman como jogador. Não, a Copa não foi desastrosa para ele: nos Estados Unidos, emplacou mais um torneio pela Holanda sem perder um só minuto em campo (até por ser o capitão), com atuações aceitáveis. Entretanto, o peso dos anos se fez sentir. Sob o calor dos jogos em Orlando e Dallas, ele sofreu. Preservou-se, preferindo ficar mais recuado, sem correr tanto, apenas comandando a zaga. Em meio a uma turbulenta Copa para a Laranja, foi novamente alvo de críticas de torcida e imprensa: sua influência sobre o técnico Dick Advocaat iria além da conta, seu peso voltava a ser assunto. E a partida da eliminação para o Brasil, naquela Copa, foi o fim para ele: mesmo sem anúncios oficiais, após 11 anos e 78 partidas de Oranje, Ronald Koeman não voltaria a defender a seleção dentro de campo.

No Barcelona, mesmo ainda titular na temporada 1994/95 (32 jogos e nove gols pelo Campeonato Espanhol), o clima de fim de ciclo também ficou claro. E em meados de 1995, Koeman decidiu aceitar o retorno aos Países Baixos. Chance aproveitada para igualar um feito: ao invés de voltar a PSV ou mesmo ao Ajax, o zagueiro optou por experimentar o Feyenoord. Chegando ao Stadionclub, igualava o feito do atacante Ruud Geels (anos 1970), para jogar pelos três maiores clubes do país. Se não ganhou títulos, tampouco fez feio. Voltando a jogar no meio-campo, Koeman esteve ao lado de nomes marcantes do clube, como Ed de Goey, Gaston Taument, Jean-Paul van Gastel e Giovanni van Bronckhorst. Foi o capitão nas campanhas de um terceiro lugar (1995/96 - marcou dez gols nela) e do vice-campeonato na Eredivisie (1996/97).


Ronald Koeman teve um digno fim de carreira no Feyenoord - aqui, as homenagens após o último jogo da carreira, com a esposa Bartina e os três filhos (VI Images/Getty Images)

Sob festas e homenagens da torcida em De Kuip, Koeman encerrou a trajetória como jogador tão logo a temporada 1996/97 acabou. Trajetória que deixava (e ainda deixa) uma marca: com 193 gols em jogos de liga, tratava-se do zagueiro com mais gols na história do futebol, de acordo com algumas fontes. 

Mas a liderança mostrada em campo teria consequência - e sequência.

Como treinador, altos e baixos

Mesmo sem jogar mais, Koeman tinha um comando e uma ascendência tão grandes que as experiências no banco de reservas começaram quase imediatamente após sua carreira de jogador. Em 1998, para impedir que problemas de relacionamento voltassem a afetar a delegação da Holanda como na Euro masculina de 1996, ele foi um nome de primeira hora escolhido como um dos "auxiliares especiais" do técnico Guus Hiddink para a Copa do Mundo naquele ano. Não só deu certo, com a boa campanha da Laranja, como abriu de vez o caminho para o ex-zagueiro virar técnico.

Koeman mal parou de jogar e já aprendeu a treinar. A primeira experiência foi auxiliando Guus Hiddink na Copa de 1998 (VI Images/Getty Images)

Imediatamente após a Copa, Ronald foi para o Barcelona que conhecia tão bem, como auxiliar de Louis van Gaal - e treinador do Barça B. Mas sua primeira experiência para valer começaria em novembro de 1999, comandando o Vitesse. Já com sucesso: naquela temporada, comandando um Vites de ataque elogiável (Mamadou Zongo e Pierre van Hooijdonk), Koeman conduziu o time ao quarto lugar no Campeonato Holandês - rendendo uma vaga na Copa da UEFA. Em 2000/01, uma queda mais leve, mas ainda uma campanha honrosa: sexto lugar para o clube de Arnhem.

A ascensão foi acelerada: em dezembro de 2001, logo após a demissão de Co Adriaanse, o Ajax buscou Koeman, após rápidos acertos com o Vitesse. Reencontrando o clube de Amsterdã após quase 20 anos, ele começava ali a primeira grande fase de sua carreira no banco. Comandando um time com vários novatos - Rafael van der Vaart, Christian Chivu e Zlatan Ibrahimovic como destaques -, o ex-zagueiro conseguiu os dois primeiros títulos como treinador em 2001/02: a "dupla coroa" holandesa, campeonato e copa. Na temporada seguinte, chamou ainda mais a atenção, com os Ajacieden alcançando as quartas de final da Liga dos Campeões. E em 2003/04, mais um título na Eredivisie comandando os Godenzonen.

Koeman já começou a carreira fazendo um trabalho com ótimos momentos no Ajax (Matthew Ashton/EMPICS/Getty Images)

Só que 2005 começou a marcar os altos e baixos que ditam a carreira de Ronald Koeman como técnico. Em fevereiro daquele ano, tendo problemas com Louis van Gaal (então diretor técnico do Ajax), em má fase no Campeonato Holandês, Koeman saiu do clube. Meses depois, foi para o Benfica - e fez um trabalho mediano no clube português: mesmo quadrifinalistas da Liga dos Campeões, os Encarnados perderam o título nacional para o Porto em 2005/06. Koeman preferiu a volta ao país natal, retornando ao PSV para suceder Guus Hiddink a partir de 2006. Tinha um trabalho promissor nos Boeren: em 2006/07, conquistou o título holandês e chegou às quartas de final da Liga dos Campeões. Mas preferiu largar tudo, apostando numa ida para o Valencia, em outubro de 2007. Fracasso: mesmo dando a primeira chance no clube espanhol a jovens como Juan Mata, só um título, a Copa do Rei, e demissão já em abril de 2008. Pior ainda seria no AZ. Em maio de 2009, com o clube de Alkmaar badalado como campeão holandês, Koeman foi anunciado como sucessor de Louis van Gaal, a partir da temporada seguinte. Não chegou ao final dela: em dezembro daquele ano, já estava demitido. 

No AZ, o pior momento de Koeman como treinador (Marcel Antonisse/AFP/Getty Images)

Em 2011, Ronald Koeman estava em baixa. Assim como o Feyenoord, clube que o contratou, em julho daquele ano. Pois os três anos que passou comandando o Stadionclub foram reabilitadores para as duas partes. Mesmo sem títulos, só conquistar o vice-campeonato holandês em 2011/12 - com direito a voltar a vencer o Ajax pelo Campeonato Holandês, após um jejum de alguns anos - já massageou o ego do Feyenoord, que andava tão maltratado. Cercado de nomes que haviam jogado com ele em Roterdã (como Jean-Paul van Gastel e Giovanni van Bronckhorst, seus auxiliares), Koeman mostrou um trabalho sólido, com um time firme. Tudo com um objetivo na cabeça: se tornar o técnico da seleção holandesa, após a Copa de 2014. Até por isso, anunciou que deixaria o Feyenoord, ao fim da temporada 2013/14, concluída com mais um vice-campeonato na Eredivisie.

A passagem pelo Feyenoord reabilitou definitivamente Koeman como técnico no país natal (VI Images/Getty Images)

A federação teve planos diferentes: até se interessou por Koeman, mas preferiu trazer Guus Hiddink depois do Mundial. Ainda convidou o ex-capitão da Laranja para ser auxiliar de Hiddink, como em 1998. Magoado, Koeman negou. Após a marcante passagem pelo Feyenoord, preferiu vivenciar a Premier League. Novamente, com alternâncias. No Southampton, com o irmão Erwin como auxiliar, foi bem: comandou os Saints na melhor campanha da história do clube na Premier League, o sexto lugar de 2015/16, tendo Virgil van Dijk e Sadio Mané como destaques. Recebeu uma chance no Everton, em 2016, e foi até bem no começo, conduzindo os Toffees à vaga na Liga Europa. Contudo, em 2017/18, quando as ambições do clube azul de Liverpool eram maiores, Koeman fracassou: o Everton chegou a estar na zona de rebaixamento da Premier League, e ele caiu, em outubro de 2017.

Nas andanças inglesas, alternâncias, como sempre: Koeman foi bem no Southampton e mal no Everton (Steve Bardens/Getty Images)

Novamente em baixa. Como... a seleção holandesa masculina, ausente da Euro 2016 e da Copa de 2018. Falando à revista Voetbal International, o próprio Koeman brincou: "Finalmente tenho a sequência ideal". Visto como o melhor técnico do país à época, foi afinal contratado para treinar a Laranja que conhecia tão bem, em fevereiro de 2018. Novamente, sua reação foi a reação de seu time. Reabilitando nomes como Memphis Depay e Georginio Wijnaldum, abrindo caminho para nomes como Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong, Koeman comandou do banco uma fase de reabilitação da Holanda. Na primeira edição da Liga das Nações (2018/19), superou um grupo com Alemanha e França, indo à final contra Portugal. Nas eliminatórias da Euro 2020, ao longo de 2019, uma ótima campanha (que teve como auge um triunfo sobre a Alemanha fora de casa, por 4 a 2) devolveu a Laranja a uma grande competição. Com outro trabalho levando a um time firme, as perspectivas da Holanda na Euro eram muito boas.

Porém, em novembro de 2019, o Barcelona o sondou. Koeman aproveitou e revelou uma cláusula de seu contrato com a federação holandesa: se o Barça (e só o Barça, mais nenhum clube) fizesse uma proposta vantajosa, ele poderia ser liberado. Afinal de contas, pelo seu histórico no clube catalão, treiná-lo era seu maior objetivo, em termos de futebol de clubes. Mas naquele momento, ele ainda preferiu ficar onde estava. Veio 2020. O Barcelona o sondou de novo, após a demissão de Ernesto Valverde. Veio a pandemia, que adiou a Euro e freou o embalo que a Holanda vivia sob seu comando. Veio um susto de saúde: uma arritmia cardíaca, que o deixou internado por alguns dias (sem contar um período sofrendo com a COVID-19). E finalmente, veio um vexame no Barcelona, eliminado na Liga dos Campeões 2019/20 ao sofrer um 8 a 2 do Bayern de Munique nas quartas de final. Novamente, o Barcelona quis Koeman, após algumas recusas. E ele decidiu realizar seu sonho, jogando o que tinha para o alto: deixou a seleção neerlandesa, rumando para o clube a que estava tão ligado, em agosto de 2020, sucedendo Quique Setién.

Koeman fazia bom trabalho na seleção da Holanda. Abriu mão dele para realizar o sonho de treinar o Barcelona. E lá, sofreu com a má fase - e com escolhas polêmicas (Tullio Puglia/UEFA/Getty Images)

Koeman chegou ao Barça numa fase pesada: seria ele, afinal, o nome obrigado a conduzir um período de mudanças, após o vexame na Champions anterior. E fez um trabalho mediano, como outros anteriores. Virou a cara de decisões polêmicas (até criticadas), como a dispensa de Luis Suárez. Conseguiu pelo menos um título, a Copa do Rei, em 2020/21. Contudo, passou longe de impressionar, no Campeonato Espanhol ou na Liga dos Campeões. Amargou a saída traumática de Lionel Messi. O mau começo na liga nacional, na temporada 2021/22, aumentou a pressão. Bastaram uma derrota no clássico para o Real Madrid - 2 a 1, na 10ª rodada de La Liga -, outra queda (para o Rayo Vallecano, 1 a 0, na rodada seguinte), e o sonho acabou, com a demissão de Koeman, em outubro de 2021.

Àquela altura, a seleção masculina da Holanda já estava sob o comando de Louis van Gaal. Mas já sabia: precisaria de alguém para sucedê-lo após a Copa de 2022. Koeman estava novamente à disposição. Numa série de que foi personagem - Força Koeman, documentário sobre seu trabalho no Barcelona, da plataforma holandesa Videoplay -, ele confessou: ainda queria comandar a Laranja num grande torneio. E as memórias do trabalho consistente que vinha fazendo entre 2018 e 2020 fizeram a federação decidir, já em abril de 2022, antes mesmo da Copa daquele ano: ele voltaria a treinar a seleção de seu país.

Na volta à seleção holandesa, Koeman tem lidado com mais problemas do que na primeira passagem. Não só na carreira, mas particulares (Pro Shots/IconSport/Getty Images)

Sua segunda passagem pela Laranja - na qual prometia um estilo mais ofensivo do que o visto na Copa de 2022 ("Eu mesmo via os jogos e achava a Holanda chata") - começou na mesma semana em que completou 60 anos. E começou mal, com uma goleada sofrida para a França (4 a 0), na primeira rodada das Eliminatórias da Euro 2024, três dias depois de se tornar um sexagenário. Na segunda partida, os 3 a 0 sobre Gibraltar foram mais criticados pelas tantas chances perdidas do que pelo triunfo. E mesmo que o trabalho começasse, perder a chance do título da Liga das Nações em casa - queda para a Croácia nas semifinais, e ainda para a Itália na decisão de 3º/4º lugares - já deixava uma ameaça de crise. Que Koeman teria de debelar no restante daquele 2023, nas Eliminatórias da Euro 2024.

Conseguiu, de certa forma. Mesmo sem brilhar, a vaga na Euro 2024 veio. Só que a pressão estava ali. Dentro de campo: bastou a derrota contra a Áustria, na fase de grupos (3 a 2), para que alguns cogitassem sua demissão, ao fim da participação holandesa na campanha. E o próprio balançou, após o revés: "Me perguntem [se fico] depois das oitavas de final". Bastou a sorte de um chaveamento melhor, um convincente 3 a 0 na Romênia, e Koeman retrucou, triunfante: "Vocês não se verão livres de mim". Nem mesmo a derrota para a Inglaterra, na semifinal, tirou do técnico o respeito - como se vê nas imagens abaixo, logo após a citada eliminação.

Mesmo com oscilações nas eliminatórias da Copa do Mundo, ao longo de 2025, a Holanda seguiu tranquila por ela. Koeman tinha e tem problemas mais graves para lidar. Por exemplo, o drama de Bartina, sua companheira há 41 anos, lidando com o tratamento de um câncer de mama, em recidiva revelada justamente durante a Euro. O treinador precisou até se ausentar, às pressas, de treinos durante as datas FIFA de outubro de 2025, nos jogos contra Malta e Finlândia, por causa de complicações no tratamento de Bartina - Ronald revelou depois que foi detectada metástase no fígado. Ainda assim, a esposa segue. Assim como a tradição familiar no futebol, com o irmão Erwin a lhe auxiliar. E também no campo: Ronald Koeman Jr. (um dos três filhos do casal Ronald-Bartina), é titular do Telstar, da primeira divisão dos Países Baixos. Em 2025, quando o Telstar disputou com sucesso a repescagem de acesso à Eredivisie, Ronald pai foi ver Ronald filho em campo - não como técnico da seleção, mas simplesmente como pai. E até hoje faz isso, de vez em quando.

Ronald Koeman pai não vai aos jogos do Campeonato Holandês só para observar jogadores: no caso do Telstar, é para ver também Ronald Koeman Junior, no gol (Olaf Kraak/ANP/Getty Images)

Como técnico da seleção holandesa que é, Ronald Koeman está acostumado às cornetas e desconfianças, que serão ainda mais fortes nesta Copa do Mundo. Até porque pode continuar no cargo: a federação holandesa já informou que qualquer decisão sobre a permanência de Koeman ocorrerá só após o Mundial. Em caso de saída, pode ser até o fim de sua "vida pública" no futebol: já realizado o sonho de treinar o Barcelona, Koeman reconheceu que não se vê mais trabalhando em clubes.

Fora de todo o alarido de uma grande competição, com calma, as análises chegam a uma conclusão: poucos personagens do futebol do Reino dos Países Baixos são mais respeitados, nos últimos 50 anos, do que Ronald Koeman. Por clubes, já lhe bastou o prêmio especial "pelo conjunto da obra", que a Eredivisie lhe deu, em agosto do ano passado. E por seleções, quem sabe o primeiro prêmio que receba não seja o maior que uma seleção nacional de futebol pode receber? 

Vencedor, Ronald Koeman é. E sabe como ser.

(Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto/Getty Images)

A Holanda na Copa 2026: Summerville

Summerville cresceu paulatinamente em campo, nos últimos anos. Mesmo sem ter partidas pela seleção da Holanda (Países Baixos), Ronald Koeman sempre sinalizava: o que era dele, estava guardado. Foi entregue na sua primeira convocação, logo para a Copa (KNVB Media/Divulgação)

Ficha técnica
Nome: Crysencio Jilbert Sylverio Cirro Summerville
Posição: Atacante
Data e local de nascimento: 30 de outubro de 2001, em Roterdã
Clubes na carreira: Feyenoord (2018 a 2020), Dordrecht (2018 a 2019, por empréstimo), ADO Den Haag (2019 a 2020, por empréstimo), Leeds United-ING (2020 a 2024) e West Ham-ING (desde 2024)
Desempenho na seleção: ainda não jogou partidas pela Holanda (Países Baixos)
Torneios pela seleção: nenhum

Ronald Koeman sempre esperava por ele. Mesmo sem nenhuma partida jogada pela seleção masculina da Holanda (Países Baixos), mesmo tendo se machucado em março passado (quando, muito provavelmente, seria convocado para os amistosos nas datas FIFA), mesmo até podendo optar por defender o Suriname, o atacante Crysencio Summerville manteve sua paciência para ter a vez na Laranja. Paciência atendida: como se fosse um combinado, até porque já manifestara várias vezes tal vontade, Koeman fez da convocação para a Copa do Mundo a primeira convocação de Summerville para a seleção neerlandesa. É o ponto alto - e a possibilidade de estreia -, numa carreira que teve de ser construída pé ante pé.

Nem era para ser assim. Afinal de contas, Summerville foi tratado como grande promessa durante todo o tempo de permanência no clube em que se formou: o Feyenoord. E foi um longo tempo: nascido em Roterdã, seus primeiros anos infantis batendo bola foram no amador RVVV Noorderkwartier, da própria cidade natal. Mas duraram pouco: já em 2008, ele tomou o caminho do Feyenoord. Em Varkenoord - centro de treinamentos do clube, onde as categorias de base também se formam -, Summerville passaria os dez anos seguintes.

Criado futebolisticamente no Feyenoord, Summerville nunca chegou a ter chances no time principal do Stadionclub (Erwin Spek/Soccrates/Getty Images)

Antes mesmo de chegar ao time principal do Feyenoord, Summerville - já então jogando como ponta, podendo atuar pelos dois lados - começou a ter chances aqui e ali. Pelas seleções de base da Holanda (Países Baixos), começou na equipe sub-16, entre 2016 e 2017. Ainda neste ano, veio a evolução para a seleção sub-17 - e nela, Summerville figurou jogando em quatro partidas na campanha do título europeu da categoria para os holandeses, em 2018. 

No mesmo ano, por sinal, começou a primeira experiência do atacante em clubes: assinado o primeiro contrato com o Feyenoord, por três anos, "Crys" (seu apelido) foi prontamente emprestado ao Dordrecht, da segunda divisão holandesa, em dezembro de 2018. No que teve para jogar durante a temporada 2018/19 da segunda divisão, Summerville rendeu bem: 15 jogos pelo Dordrecht, com cinco gols e passe para outro. Mesmo num clube que terminou aquela temporada em 17º lugar, já servia para ganhar ritmo de jogo.

No ADO Den Haag, Summerville deu os primeiros sinais de talento de forma mais forte (Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images)

Mas seria em 2019/20 que Summerville começaria a chamar a atenção. Novamente emprestado pelo Feyenoord - desta vez para o ADO Den Haag, então ainda na Eredivisie, a primeira divisão holandesa -, o atacante se deu bem num time de trás da tabela: foi titular, mostrou velocidade, e mesmo com poucos gols (2), conseguiu manter seu status de promessa, sendo titular da equipe de Haia (21 jogos, só interrompidos pela pandemia de COVID-19). Quando a pandemia se amenizasse, era possível supor: enfim, Summerville teria a chance no Feyenoord em que passara tanto tempo. Não foi o que ocorreu.

De volta do empréstimo ao ADO Den Haag, integrado à seleção sub-19 da Holanda (Países Baixos), Summerville encontrou o Feyenoord sendo treinado por Dick Advocaat - técnico de história respeitável, mas cauteloso ao lançar jovens talentos. Cauteloso até demais. A ponto de, em agosto de 2020, notando que seria difícil achar espaço no grupo principal do Feyenoord (que contava então, para as pontas, com Steven Berghuis, Bryan Linssen, Christian Conteh, Luciano Narsingh e Luis Sinisterra), já tendo algumas propostas de clubes ingleses, Summerville recusou a proposta de renovação do Feyenoord, ainda mais sabendo que ficaria restrito ao time sub-21. E aceitou a proposta do Leeds United, em setembro de 2020, rumando para a Premier League - e saindo do clube holandês com indisfarçável decepção.

No Leeds, o atacante seria gradativamente usado. Na temporada 2020/21, ficaria restrito ao time sub-23, sem partidas pela equipe de cima dos Whites. Só haveria chances para Summerville em 2021/22, logo no começo da temporada: em 17 de setembro de 2021, na quinta rodada da Premier League inglesa, o holandês substituiu Raphinha para jogar os 23 minutos finais do empate por 1 a 1 contra o Newcastle. Era o primeiro dos seis jogos feitos por ele na Premier League, sem gols (assim como seria no único jogo de Summerville pela Copa da Inglaterra, mais outros dois pela Copa da Liga Inglesa). Se ainda se alternava entre o time principal e o de aspirantes no Leeds United, porém, o atacante começou a ter chances na seleção sub-21 da Holanda, nas eliminatórias para a Euro da categoria. Só foi atrapalhado por uma lesão no tornozelo, que o tirou da reta final da temporada, em abril de 2022.

Pé ante pé, Summerville já apareceu mais pelo Leeds United em 2022/23: entre banco (16 jogos) e titularidade (12), foram 28 jogos pelo Campeonato Inglês, incluindo o primeiro gol, na 13ª rodada, numa derrota por 3 a 2 para o Fulham. Falando nisso, entre a 13ª e a 16ª rodadas, Summerville marcou quatro gols em sequência, aumentando sua importância no Leeds. Contudo, nada disso impediu o rebaixamento dos "Whites" para a Championship, a segunda divisão inglesa. Mas garantiu a presença do atacante na convocação da Holanda (Países Baixos) para a Euro sub-21, em 2023. Porém, houve nova decepção: a "Laranja Jovem" caiu na fase de grupos, e Summerville decepcionou - mesmo começando os três jogos como titular, foi substituído em dois deles.

Nos quatro anos de Leeds United, Summerville viveu seu melhor momento na temporada 2023/24: foi o melhor jogador da segunda divisão inglesa. Faltou o acesso... (Ed Sykes/Getty Images)

Pelo menos, a temporada 2023/24 marcou o despontar definitivo de Summerville. Na segunda divisão inglesa, o atacante holandês foi um dos destaques do Leeds United. Criando boa parceria com o "quase-compatriota" Joël Piroe - um holandês que passaria a defender a seleção do Suriname -, o atacante fez 19 gols (e deu passes para 9) pela Championship, jogando bem pela ponta-esquerda, a ponto de ser artilheiro do Leeds nas 46 rodadas regulares - e de ser escolhido o Melhor Jogador da Temporada. Todavia, a volta à Premier League dependeria dos play-offs; e neles, mesmo com um gol marcado, o Leeds United cairia para o Southampton na decisão, ficando na segunda divisão. Mas só o clube ficou: a boa temporada feita rendeu a Summerville oferta de clubes da Premier League... e ele aceitou a do West Ham, em agosto de 2024. Se fosse bem, certamente entraria no radar de Ronald Koeman para as convocações da seleção principal da Holanda (Países Baixos). Só que...

Só que Summerville teve problemas em 2024/25, sua primeira temporada pelos Hammers. Em primeiro lugar, pelo aspecto físico-técnico: na primeira parte da temporada, só começou jogando em sete partidas (jogou 19), fazendo apenas um gol, na vitória sobre o Manchester United (2 a 1, 9ª rodada). Em segundo lugar, veio a lesão: um sério problema muscular na coxa levou Summerville a passar por uma cirurgia, perdendo todo o resto da temporada 2024/25. Restou voltar já no início da temporada 2025/26, em setembro do ano passado.

Summerville melhorou gradativamente pelo West Ham. Só as lesões atrapalharam. Até em termos de estrear pela seleção da Holanda (Justin Tallis/AFP/Getty Images)

Pelo menos, Summerville voltou bem. Com velocidade na ponta-esquerda, voltou a ser titular com frequência (31 jogos), repetiu uma sequência de gols marcados - quatro, entre a 22ª e a 25ª rodadas -, foi o segundo a mais marcar gols pelo West Ham, somadas todas as competições: foram cinco pela Premier League e dois pela Copa da Inglaterra, só abaixo dos 11 de Jarrod Bowen. O bom desempenho foi notado por quem devia, em termos de seleção. Falando à ESPN holandesa, no começo deste ano, Ronald Koeman opinou: "Vejo Summerville de modo positivo. Ele joga num grande campeonato pelo West Ham, pode jogar pelas duas pontas, e a concorrência no ataque está menor do que em outras posições". 

Entretanto, valia a lembrança: filho de afro-surinameses, o atacante poderia optar em defender a seleção da América Central (futebolisticamente falando). E bem que o Suriname tentou - o técnico Henk ten Cate até lamentou a "perda" do jogador. Porque a Holanda se antecipou: Summerville foi convocado para os amistosos contra Noruega e Equador, nas datas FIFA de março passado. Só não os jogou pelo azar de uma lesão na panturrilha, que o forçou a ser cortado. Mas Koeman sinalizou, nas coletivas: Summerville poderia ser uma surpresa na convocação para a Copa.

E nem o rebaixamento do West Ham impediu que isso ocorresse. Enfim, Summerville chega à seleção principal da Holanda (Países Baixos). E sua primeira convocação é logo para a maior ocasião em que isso poderia ocorrer... ele ajudará?

Sem partida pela seleção principal da Holanda, Summerville tem esta foto, defendendo a seleção sub-21, em 2023 (Pascual Mendez Noguera/BSR Agency/Getty Images)