O PSV se sagrou campeão, e o Campeonato Holandês feminino saiu ganhando em 2025/26, com mais equilíbrio na disputa, mesmo com muito a melhorar (Photo Prestige/Soccrates/Getty Images)
Ajax e Twente: durante muito tempo, a disputa pelo título do Campeonato Holandês feminino parecia coisa privada a estes dois clubes. Era até compreensível - tratam-se das esquadras mais tradicionais dedicadas ao futebol de mulheres no Reino dos Países Baixos, afinal -, mas traziam o risco de uma apatia, de uma acomodação, pouco recomendáveis a um campeonato em desenvolvimento, que pode ser porta de entrada interessante para as grandes ligas europeias, como a Vrouwen Eredivisie pode ser. Pois bem: a temporada 2025/26 reduziu este temor.
A disputa pelo título não só incluiu mais clubes, como também foi até a penúltima rodada. E premiou um clube que não só aposta na base, como também tem ousadia para mais contratações: o PSV, enfim campeão. De certa forma, o Feyenoord também foi premiado: a evolução lenta do Stadionclub terá a primeira chance numa competição europeia, com a terceira posição que lhe deu lugar na Women's Europa Cup. E mesmo Ajax e Twente, frustrados desta vez, ainda mantêm a força e a tradição para tentarem voltar a levantar a salva de prata.
Se há muito a melhorar - que o diga a preocupante retração do Utrecht nas rodadas finais -, se o nível técnico ainda é baixo, se haverá nova mudança no sistema de acesso (de doze times, com três rebaixados, a liga holandesa terá dez times, com dois caindo, a partir de 2026/27)... a temporada atual já valeu pelo equilíbrio. Vejamos como ela foi.
Devagar e sempre, o PSV manteve a paciência. Quando necessário, com um time equilibrado e experiente, arrancou para ser, enfim, campeão (Photo Prestige/Soccrates/Getty Images)
1º - PSV
Campanha: 54 pontos (17 vitórias, 3 empates e 2 derrotas - campeão)
Time-base: Evrard; Bross, Folkertsma, Cayman (Chibani) e Frijns; Strik (Lacroix), Nijstad e Jacobs; Ripa (Renate Jansen), Xhemaili e Rijsbergen
Técnico: Roeland ten Berge
Competição continental: Women's Europa Cup (eliminado pelo Eintracht Frankfurt-ALE, nas oitavas de final)
Copa nacional: vice-campeão
Artilheira: Riola Xhemaili (atacante), com 14 gols
Quem deu mais passes para gol: Liz Rijsbergen (atacante), com 7 passes
Quem mais jogou: Lore Jacobs (meio-campista), Nina Nijstad (meio-campista), Liz Rijsbergen (atacante) e Riola Xhemaili (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaques: Liz Rijsbergen (atacante) e Riola Xhemaili (atacante)
Um bom time, com jogadoras experientes - mas isso o PSV já era na temporada passada, e na retrasada também. A questão era ver se o time de Eindhoven manteria o fôlego que nunca chegara a ter, na disputa do título da liga - afinal de contas, nunca foi campeão dela - e que perdera na Copa da Holanda. Na fase inicial, pareceu que não, com derrotas para os dois principais adversários (Twente 3 a 1, em pleno De Herdgang, na 4ª rodada; Ajax 2 a 1, na 7ª rodada). Porém, o tempo passou. Jogadoras como Nina Nijstad, Riola Xhemaili e Liz Rijsbergen cresceram ainda mais de produção. Renate Jansen, encerramento da carreira previamente anunciado para o fim da temporada, seguia mostrando a liderança tão necessária às Eindhovenaren. Na virada do ano, duas grandes contratações, para trazer experiência (Shanice van de Sanden) e garantia de gols (Fenna Kalma). E enquanto Ajax e Twente começaram a perder pontos, o PSV embalou na hora certa. Depois da supracitada derrota para o Ajax, as Boeren não sofreram mais derrotas. Ao contrário: a não ser por três empates - um deles, 1 a 1 com o Ajax, na 18ª rodada -, só vitórias no caminho. Nem mesmo a neve, por exemplo, impediu os 3 a 0 no Zwolle, na 14ª rodada. Duas rodadas depois, liderança assumida com a derrota do Twente - e uma goleada (6 a 0 no Excelsior). Até que, na 21ª rodada, num De Herdgang renovado durante a temporada (reinaugurado como TenCate Stadion), e com boa lotação, vieram os 2 a 0 no ADO Den Haag, garantindo o primeiro título da história do time feminino de Eindhoven, com uma rodada de antecedência. Enfim, o PSV conseguiu o passo que tanto buscava. Agora, sob comando de novo técnico - vem aí o dinamarquês Kasper Kurland -, o objetivo é aumentar as perspectivas. Até porque a final da Copa da Holanda foi perdida nos pênaltis, e campeãs sempre querem mais.
Apostando em jovens como Xanne Kip (foto), o Ajax mostrou força. Caiu na hora de decisão, de novo, mas pelo menos agora termina mais animado (Marcel Bonte/Soccrates/Getty Images)
2º - AJAX
Campanha: 50 pontos (15 vitórias, 5 empates e 2 derrotas)
Time-base: Van Eijk; De Klonia, Van Asten, Visscher e Van de Velde; Spitse, Noordman e Van Hensbergen (Van Schoonhoven); Van Dijk (Van Egmond), Smits (Tolhoek) e Kip (Van Koppen)
Técnica: Anouk Bruil
Competição continental: Women's Europa Cup (eliminado pelo Hammarby-SUE, nas oitavas de final)
Copa nacional: eliminado pelo AZ, nas oitavas de final
Artilheira: Danique Tolhoek (atacante), com 10 gols
Quem deu mais passes para gol: Bo van Egmond (atacante), com 5 passes
Quem mais jogou: Regina van Eijk (goleira) e Jonna van de Velde (ala esquerda), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Danique Noordman (meio-campista)
Para apagar o clima de "terra arrasada" do fim da temporada passada, quando a técnica Hesterine de Reus fez declarações desanimadas ainda em meio à disputa do título, a nova treinadora, Anouk Bruil, apostou na juventude: foram várias novatas que ganharam espaço, em meio à experiência (maior) de Sherida Spitse e Joëlle Smits e (menor, mas considerável) de Regina van Eijk, Danique Noordman e Danique Tolhoek. E por algum tempo, deu certo. Renée van Asten, na defesa; Jade van Hensbergen, no meio; Bo van Egmond, Xanne Kip e Elisa van Dijk - titular a partir do returno, a mais jovem jogadora da história do time feminino Ajacied - no ataque; o Ajax conseguiu goleadas e mais goleadas (4 a 1 no Heerenveen, na 4ª rodada; 5 a 0 no HERA United, na 6ª rodada; 8 a 0 no Utrecht, na 9ª rodada; 5 a 1 no NAC Breda, na 10ª). Porém, tomou pelo menos uma goleada, na maior surpresa do campeonato - Zwolle 7 a 1, na 8ª rodada. E na reta final da Vrouwen Eredivisie, justamente quando não podia fraquejar se quisesse voltar a ser campeão... o Ajax negou fogo. Na 13ª rodada, outra derrota surpreendente: em casa, 2 a 1 sofridos para o HERA United, depois rebaixado. Contra os adversários pela disputa do título, nenhuma vitória no returno (0 a 0 com Twente, na 15ª rodada, e Feyenoord, na 19ª; 1 a 1 com o PSV, na 18ª). Perdeu seu principal destaque, Danique Tolhoek, machucada e fora da temporada. E assim, com tropeços e falhas em jogos diretos, o Ajax perdeu a chance do título. Pelo menos, terá uma vaga na Liga dos Campeões feminina. E deixa, ao contrário de 2024/25, uma última impressão promissora, de um time que pode evoluir mais, que está animado.
O Feyenoord nem esperava muito - só ficar em seu lugar já agradaria. Mas Mao Itamura cresceu, o time foi com ela... e o terceiro lugar deixa claro: o Stadionclub cresce no futebol feminino (feyenoord.nl/Divulgação)
3º - FEYENOORD
Campanha: 47 pontos (14 vitórias, 5 empates e 3 derrotas)
Time-base: Dinkla (Weimar); Van Bentem, Takeshige, Obispo e Brandau; Talia DellaPeruta e Iwasaki; Van de Lavoir (Van der Sluijs), Itamura e Hulswit (Van de Westeringh); De Graaf (Van Kerkhoven/Tori DellaPeruta)
Técnica: Jessica Torny
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo AZ, nas quartas de final
Artilheira: Mao Itamura (meio-campista), com 8 gols
Quem deu mais passes para gol: Mao Itamura (meio-campista), com 6 passes
Quem mais jogou: Celainy Obispo (zagueira), Kokona Iwasaki (meio-campista) e Esmee de Graaf (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Mao Itamura (meio-campista)
Não parecia que o Feyenoord conseguiria um salto nesta temporada feminina na Holanda (Países Baixos). Não que isso significasse coisa ruim, longe disso: o Stadionclub voltou a ter um desempenho elogiável em casa, voltou para a parte de cima da tabela, e a técnica Jessica Torny enfim teve uma equipe entrosada e competitiva. Além de velhas conhecidas - Esmee de Graaf, Ella van Kerkhoven, uma Kirsten van de Westeringh enfim livre das lesões ligamentares nos joelhos -, reforços como as irmãs ítalo-americanas Talia e Victoria "Tori" DellaPeruta e as japonesas Kokona Iwasaki e Mao Itamura só acrescentaram à equipe de Roterdã. Que, além de ostentar suas goleadas - 4 a 1 no AZ, pela 5ª rodada, e 6 a 1 no Heerenveen, na 6ª rodada -, mostrou a segunda melhor defesa do campeonato (17 gols sofridos), sem oscilar nem mesmo com a lesão da goleira Jacintha Weimar abrindo caminho para Claire Dinkla assumir a titularidade. No returno, então, a vitória por 2 a 0 sobre o Twente (16ª rodada) ajudou, indiretamente, a mudar a disputa do título - e a fazer de Mao Itamura, além de revelação, uma das melhores jogadoras da temporada. Dois empates nas duas rodadas seguintes, contra AZ (3 a 3) e Ajax (0 a 0), tiraram as chances de título, é verdade. Mas três vitórias, somadas ao despencar do Twente, renderam um belo prêmio: a última vaga em torneios europeus, na Women's Europa Cup. Vaga corretamente comemorada: afinal, o projeto feminino do Feyenoord, enfim, decolou.
Depois de dominar o futebol feminino holandês por muito tempo, ficar fora até de competições europeias, após despencar na reta final da temporada, foi tombo dolorido para o Twente (Pro Shots)
4º - TWENTE
Campanha: 46 pontos (14 vitórias, 4 empates e 4 derrotas)
Time-base: Lemey; Vliek (Te Brake), Knol, Carleer (Wiefferink) e Tuin; Groenewegen, Van Ginkel e Van der Vegt; Roord; Oude Elberink (Ivens/Pennock) e Ravensbergen
Técnica: Corina Dekker
Competição continental: Liga dos Campeões (eliminado na fase de liga)
Copa nacional: Campeão
Artilheira: Jaimy Ravensbergen (atacante), com 16 gols
Quem deu mais passes para gol: Jill Roord (meio-campista), com 9 passes
Quem mais jogou: Diede Lemey (goleira), Anna Knol (zagueira), Alieke Tuin (ala esquerda), Lynn Groenewegen (meio-campista) e Jaimy Ravensbergen (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaques: Jill Roord (meio-campista) e Jaimy Ravensbergen (atacante)
A experiência de Danique van Ginkel e Alieke Tuin; a evolução de Lieske Carleer e Lynn Groenewegen, ambas convocadas constantes da seleção holandesa de mulheres; os gols em profusão de Jaimy Ravensbergen; a revelação Liv Pennock, já contratada pelo Barcelona; todas elas, lideradas pelo reforço de qualidade e trajetória respeitáveis que era Jill Roord. Com um grupo desses, não era de se impressionar que o Twente, atual bicampeão, começasse impondo força para dar a impressão de que era favorito para conquistar o terceiro título seguido da Vrouwen Eredivisie. Basta dizer que não perdeu, no primeiro turno (oito vitórias, três empates), mantendo-se em alta mesmo com uma eliminação algo decepcionante na fase de liga da Liga dos Campeões. Sempre ao enfrentar os adversários diretos, a competitividade era tamanha que, mesmo em dias de más atuações, pelo menos um empate aparecia, como na 15ª rodada, fora de casa, garantindo um ponto com o 0 a 0 junto ao Ajax. Só que na 16ª rodada, uma atuação esplendorosa de Mao Itamura, e o Feyenoord impôs às Tukkers a primeira derrota da temporada - um 2 a 0 com o qual elas não contavam. Dali para frente, o Twente foi só para trás. Dois reveses seguidos - ADO Den Haag 1 a 0 na 18ª rodada, Utrecht 2 a 0 na 19ª -, e se perdeu espaço para PSV e Ajax. As lesões que tiraram Jill Roord e Lieske Carleer da temporada foram problemas adicionais. Mesmo vitórias, como os 3 a 2 no Zwolle (20ª rodada), vinham em dificuldades - a citada veio numa virada. E na última rodada, a derrota para o PSV já campeão (2 a 1) decretou: nem mesmo uma vaga em competições europeias restaria ao Twente. Está certo que o título da Copa da Holanda manteve alguma força, mas foi um tremendo tombo.
Com seus gols, Lobke Loonen ajudou o Utrecht em mais uma boa temporada. Com sua saída, sinaliza uma diminuição de investimentos do clube em seu time feminino (Stan Oosterhof/Soccrates/Getty Images)
5º - UTRECHT
Campanha: 37 pontos (11 vitórias, 4 empates e 7 derrotas)
Time-base: Bastiaen; Koopman (Verhoeve), Hermans (Op den Kelder), Weerelts (Bormans) e Paliama; Mahieu e Renfurm; Van Straten, Munsterman (Snellenberg) e Tromp; Loonen (De Jong)
Técnica: Linda Helbling
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo PSV, nas quartas de final
Artilheira: Lobke Loonen (atacante), com 14 gols
Quem deu mais passes para gol: Nikita Tromp (atacante), com 7 passes
Quem mais jogou: Femke Bastiaen (goleira), Joni Paliama (lateral) e Nikita Tromp (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Lobke Loonen (atacante)
Como sempre desde que entrou na disputa do Campeonato Holandês feminino, o Utrecht foi um time firme. Revelou pelo menos duas boas jogadoras - a zagueira Aline Weerelts e a meio-campista Rosalie Renfurm, ambas presentes na Holanda vice-campeã mundial sub-17, no ano passado. E contou com os gols de Lobke Loonen para sempre ficar no meio de tabela, extremamente estável, sem problemas nem mesmo com um 8 a 0 sofrido para o Ajax (9ª rodada). Trabalho de tanta constância fez com que a treinadora Linda Helbling ganhasse chance para a próxima temporada, contratada que foi para ser auxiliar técnica no campeão PSV. O problema é que a reta final foi de preocupações. Mesmo com uma vitória fora de casa sobre o Twente - 2 a 0, 19ª dada -, começaram as impressões de que a diretoria das Utregs reduziria bastante o investimento na equipe feminina. Impressões fortalecidas com o anúncio da transferência de Lobke Loonen para o Bayer Leverkusen e, pior, o anúncio de nove dispensas ao fim da temporada. As jogadoras cumpriram bem sua tarefa ao fim da temporada: duas vitórias nas duas últimas rodadas. Mas na última - 2 a 1 no HERA United, nos minutos finais, de virada -, deixaram recado: primeiro, lamentando as dispensas em perfil no Instagram, e depois, antes da partida, usando camisas com os dizeres irônicos "Nós não cabemos no orçamento". Projeto tão consistente assim merece sequência.
Hanna Huizenga foi o principal destaque de um Zwolle que se estabilizou de novo (Jeroen van den Berg/Soccrates/Getty Images)
6º - ZWOLLE
Campanha: 34 pontos (11 vitórias, 1 empate e 10 derrotas)
Time-base: Szymczak; Dijsselhof, Rutgers, Lindner, Kemper e Weiman; Kemper, Van de Velde e Jonsdottir (Roosjen); Iedema e Huizenga
Técnico: Gert Peter van de Gunst
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo Feyenoord, nas oitavas de final
Artilheira: Hanna Huizenga (atacante), com 9 gols
Quem deu mais passes para gol: Hanna Huizenga (atacante), com 5 passes
Quem mais jogou: Mayke Lindner (zagueira), Chihiro Ishida (meio-campista), Sophie van Vugt (meio-campista) e Hanna Huizenga (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Hanna Huizenga (atacante)
Quando se mudou o técnico para esta temporada, após o mau trabalho de Jim Brinkhof na temporada 2024/25, a expectativa dos "Dedos Azuis" era que Gert Peter van de Gunst conduzisse a equipe de mulheres por águas mais tranquilas nesta temporada. Conseguiu. O Zwolle voltou a ficar numa posição tranquila durante boa parte da temporada: na verdade, só perdeu a quinta posição na última rodada. Também, pudera: teve pelo menos um tremendo resultado ao impor 7 a 1 no Ajax (contando com um dia de neve, é verdade). Contou com um bom ataque, tendo em Hanna Huizenga o grande destaque. No gol, a polonesa Oliwia Szymczak aproveitou bem o empréstimo junto ao Feyenoord. Enfim, as Zwollenaren superaram o solavanco da temporada passada, voltando a estar bem.
O Heerenveen teve problemas defensivos, mas os gols de Aymée Altena (foto) ajudaram o time a seguir estável (Jeroen van den Berg/Soccrates/Getty Images)
7º - HEERENVEEN
Campanha: 26 pontos (8 vitórias, 2 empates e 12 derrotas)
Time-base: Resink (Badenhop); Van Vilsteren, Meijer, Appelmann e Venema; De Haas e Nassette; Kroezen, Maass e Maatman; Altena
Técnico: Niklas Tarvajärvi
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo Utrecht, nas oitavas de final
Artilheira: Aymée Altena (atacante), com 10 gols
Quem deu mais passes para gol: Sterre Kroezen (meio-campista), com 6 passes
Quem mais jogou: Ana Nassette (zagueira), Fenna Meijer (zagueira), Sterre Kroezen (meio-campista) e Elfi Maass (meio-campista), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Aymée Altena (atacante)
Esta certo que o time da Frísia já mostrou mais fragilidades defensivas: notável ver que se o Zwolle, sexto colocado, tomou 32 vezes a bola na rede, o Fean amargou isso por 51 vezes. Ainda assim, tendo em vista o início preocupante de temporada que fez (só duas vitórias nas dez primeiras rodadas), até que o Heerenveen contornou bem seus problemas - como, por exemplo, a lesão que tirou a goleira Jasmijn Resink de boa parte da temporada, com Brenda Badenhop a substituindo. Na reta final, até mesmo venceu o Feyenoord (2 a 1, 17ª rodada). E teve pelo menos dois destaques ofensivos - talvez três: se Sterre Kroezen justificou a contratação junto ao Zwolle, se Evi Maatman seguiu bem com a camisa alviazul das folhas de lírio, é correto citar que Aymée Altena - destaque da Holanda vice-campeã mundial sub-17 - confirmou-se como atacante promissora. Um toque de juventude num Heerenveen que conseguiu reagir, e espera ter mais segurança na próxima temporada.
O AZ contou com a confiança da veterana Desirée van Lunteren... e quase que só com ela (Rico Brouwer/Soccrates/Getty Images)
8 º - AZ
Campanha: 24 pontos (6 vitórias, 6 empates e 10 derrotas)
Time-base: Copier (Booms); Caprino (De Ridder), Woons, Stoop (Groot) e Mol; Van Uden (De Vette), Van Lunteren e Van Beijeren; Kroese, Ellouzi (Dessing) e Thomas
Técnico: Wouter de Vogel
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo PSV, nas semifinais
Artilheira: Desirée van Lunteren (meio-campista/atacante), com 16 gols
Quem deu mais passes para gol: Manique de Vette (meio-campista), com 5 passes
Quem mais jogou: Karlijn Woons (zagueira) e Fieke Kroese (atacante), que jogou todas as 21 partidas
Destaque: Desirée van Lunteren (atacante)
Pode um time que teve uma das goleadoras do campeonato decepcionar ao longo das 22 rodadas? Até que pode, no caso do AZ. Porque, se Desirée van Lunteren, aos 33 anos, parece voltar à melhor fase de sua carreira após retomá-la, não só liderando um time com muitas novatas como também sendo a principal artilheira que ele tem, é bem verdade que poderia contar com mais colegas despontando a seu lado. Bem que Jet van Beijeren, Fieke Kroese e a tunisiana Sabrine Ellouzi tentaram, mas faltou ao AZ depender menos de Van Lunteren (já fora da seleção holandesa, pela qual foi campeã europeia em 2017 e vice mundial em 2019). Tanto que as Alkmaarders só venceram, no returno, os rebaixados HERA United e NAC Breda. Precisarão melhorar na próxima temporada, por mais entrosado que seja o time, até porque a carreira de Van Lunteren não durará para sempre. Não é à toa que a ex-zagueira Stefanie van der Gragt, diretora de futebol feminino, descerá do gabinete para o campo: será a nova treinadora, em substituição a Wouter de Vogel.
Floortje Bol (em pé) ajudou o ADO Den Haag a se salvar, no instante final da temporada (Pim Waslander/Soccrates/Getty Images)
9º - ADO DEN HAAG
Campanha: 22 pontos (6 vitórias, 4 empates e 12 derrotas)
Time-base: Lorsheyd; Blom (Den Turk), Boussatta, Van Mierlo, Koeleman e Van den Ende; Mulder, Dupon e Sonoda (De Bondt/Henry); Bol e Van Egmond
Técnicos: Morten Glotzbach (até a 7ª rodada) e Sandra van Tol (a partir da 8ª rodada)
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo Twente, nas oitavas de final
Artilheira: Floortje Bol (atacante), com 9 gols
Quem deu mais passes para gol: Nienke Mulder (meio-campista), com 3 passes
Quem mais jogou: Barbara Lorsheyd (goleira) e Jet van Mierlo (zagueira), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Floortje Bol (atacante)
Estava difícil. Pelo primeiro turno péssimo que fez, alternado entre a última e a penúltima posições, o Den Haag - clube tradicionalíssimo no futebol feminino da Holanda (Países Baixos), celeiro que foi de nomes como Sarina Wiegman - corria sérios riscos de rebaixamento. A operação de socorro começou rápido, com a troca de Morten Glotzbach (marido de Sarina, inevitável citar) por Sandra van Tol, primeiro interina, depois confirmada. E até que no segundo turno, o Den Haag melhorou. Meio na marra, mas melhorou. Mesmo em jogos com derrota, não se entregava sem luta, como nos 3 a 0 sofridos para o Ajax, na 12ª rodada. Algumas contratações, como a japonesa Yuna Sonoda, colaboraram. Com a defesa mais protegida com três zagueiras, os problemas foram amenizados. E o alívio, afinal, veio: com cinco vitórias nas últimas sete rodadas - destaque para o 1 a 0 no Twente, na 18ª rodada -, o Den Haag escapou do rebaixamento exatamente na última rodada. Terá calma para a reformulação que virá, comandada pelo novo técnico (se é que é novo, já que Sjaak Polak conhece bem o clube - Sandra van Tol auxiliará Corina Dekker no Twente), com as saídas de nomes históricos como a goleira Barbara Lorsheyd, 350 jogos pelo clube depois. O time de Haia escapou de boa, mas precisa reagir.
O HERA United bem que se esforçou, teve bons momentos, mas caiu na última rodada (HERA United/Divulgação)
10º - HERA UNITED
Campanha: 20 pontos (5 vitórias, 5 empates e 12 derrotas - rebaixado)
Time-base: Steen; Tiebie (Donker/Van de Pol), Stoop, Tanaka e Kopp (Daalman); Kleef e Kira (Berrevoets); Oudejans (Khanchouch), Kaagman e Vis (Hassani); Van Belen.
Técnico: Ed Engelkes
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo Twente, na semifinal
Artilheira: Jannette van Belen (atacante), com 7 gols
Quem deu mais passes para gol: Samya Hassani (atacante), com 3 passes
Quem mais jogou: Kelly Steen (goleira), que jogou todas as 22 partidas
Destaque: Jannette van Belen (atacante)
Uma bela história com triste fim: assim foi a temporada inicial do HERA United, o primeiro clube profissional da Holanda (Países Baixos) dedicado exclusivamente ao futebol feminino. Herdando o departamento feminino do Telstar demorou a embalar - até porque nem se sabia, quando a temporada começou, se o clube sediado em Amsterdã iria jogar como HERA United ou como Telstar. Primeiro nome assegurado, aos poucos os resultados apareceram. A primeira vitória (1 a 0 no ADO Den Haag, na 7ª rodada). A primeira surpresa - e que surpresa: vencer o Ajax em Amsterdã - 2 a 1, 13ª rodada, com Ina Booms como o grande destaque. Algumas contratações até ajudaram destaques como Jannette van Belen: a meio-campista Inessa Kaagman e a atacante Eline Oudejans vieram na virada de ano e logo se tornaram titulares. Só que, na reta final, uma sequência de quatro derrotas. Interrompidas por vitórias contra Heerenveen (2 a 1, 18ª rodada) e NAC Breda (3 a 1, 19ª rodada), que pareciam a salvação. Só que "retomadas" com três derrotas. A última delas, na última rodada, com virada sofrida nos últimos minutos (2 a 1 Utrecht, com gols sofridos aos 88' e aos 90'), foi lamentada com lágrimas: era o rebaixamento, já que o De Graafschap tinha sido campeão da segunda divisão. Pelo menos, o triste fim do começo não é bem um fim. O futebol sempre dá a chance de retomadas, e o HERA United está apenas começando.
O Excelsior caiu. E agora, Yara Helderman sai do campo e vai para o gabinete ajudar, como diretora, na reformulação ( Jeroen van den Berg/Soccrates /Getty Images)
11º - EXCELSIOR
Campanha: 8 pontos (2 vitórias, 2 empates e 18 derrotas - rebaixado)
Time-base: Van der Klooster; Burgers, Helderman, Westerink e Cherif; Balkhir e Van der Vlist; Martina, Homan e Van Spijk; Verheijen (Gomez)
Técnico: Mathijs Kreugel
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo Twente, nas quartas de final
Artilheira: Janneke Verheijen (atacante), com 4 gols
Quem deu mais passes para gol: June Burgers (lateral direita), Veerle van Spijk (atacante) e Naomi Hilhorst (atacante), todas com 2 passes
Quem mais jogou: June Burgers (lateral direita) e Isa Gomez (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Mare Westerink (defensora)
Se antes mesmo do rebaixamento ser instituído no Campeonato Holandês de mulheres, o Excelsior já sofria, era previsível que o time de Roterdã fosse um sério ameaçado a ser rebaixado. Não faltou esforço para evitar sua sina, como nunca faltou nas Kralingers. Aqui e ali, a goleira Anouk van der Klooster fez boas defesas; Shi-jona Martina já é convocada pela seleção feminina de Curaçao; Janneke Verheijen e Isa Gomez foram atacantes dedicadas. Só que, com apenas uma vitória no returno (2 a 0, na 18ª rodada, no... NAC Breda, também rebaixado), ficava difícil esperar destino diferente de precisar jogar a Eerste Divisie, a segunda divisão dos Países Baixos. Caberá a um nome que sairá do campo para o gabinete - Yara Helderman, agora ex-zagueira, escolhida para dirigir o futebol feminino do Excelsior - ajudar na reformulação.
Brigitte Franken, o único destaque, bem que se esforçou. Mas o NAC Breda já começou a temporada como provável rebaixado. E o provável se realizou (Caroline van Leusden/EYE4images/NurPhoto/Getty Images)
12º - NAC BREDA
Campanha: 7 pontos (2 vitórias, 1 empates e 19 derrotas)
Time-base: De Haan; Heshof (Van den Burg), Heijblom (Van Houwelingen), Verhoef e Van Goch; Coelho Aurelio e Van der Vliet; Visser, Schneijderberg e Hendriks; Franken
Técnico: Jan de Hoon
Competição continental: nenhuma
Copa nacional: eliminado pelo HERA United, nas oitavas de final
Artilheira: July Schneijderberg (meio-campista), com 5 gols
Quem deu mais passes para gol: Yentl van Goch (lateral esquerda), Stephanie Coelho Aurélio (meio-campista), Emely van der Vliet (meio-campista), Brigitte Franken (atacante) e Indi van Dalen (atacante), todas com 2 passes
Quem mais jogou: Lynn Verhoef (zagueira), Kim Hendriks (meio-campista), July Schneijderberg (meio-campista) e Brigitte Franken (atacante), que jogaram todas as 22 partidas
Destaque: Brigitte Franken (atacante)
Poucos rebaixamentos eram tão previsíveis quanto o do time de Breda. Estreante na Eredivisie feminina, o clube aurinegro começou mostrando sérias dificuldades já nas primeiras temporadas. No ataque, dependia demais de Brigitte Franken, seu único destaque, por mais que nomes experientes em termos de Vrouwen Eredivisie lá estivessem, como Kim Hendriks e Yentl van Goch, tentando ajudar. Com tamanha dependência, não surpreendeu que as únicas vitórias viessem contra o também rebaixado Excelsior (2 a 1, 7ª rodada) e o ADO Den Haag, então ainda em dificuldades (1 a 0, 11ª rodada). Nem surpreendeu que se tratasse do pior ataque - 17 gols - e da pior defesa - 71 gols sofridos - de todo o campeonato. Nem que o returno tivesse sido só de derrotas. Muito menos que o técnico Jan de Hoon tenha tido sua saída anunciada ainda antes do fim do campeonato. A única coisa surpreendente foi positiva: a diretoria do clube fez questão de confirmar que o projeto de futebol feminino seguirá. Quem sabe, com a experiência ganha neste ano, a queda seja apenas um bate-e-volta.
Esta foi a escalação da Holanda (Países Baixos) na última rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo - inclui Xavi Simons (terceiro agachado da esquerda para a direita), fora da Copa. A qualificação mostrou: a Laranja tem um bom time, mas abaixo das favoritas (KNVB Media/Divulgação)
A coincidência chega a ser até engraçada. Antes da Copa de 2022 começar, a seleção da Holanda (Países Baixos) era considerada uma equipe boa, mas não exatamente candidata a título - e teria um grande desafio na estreia, encarando Senegal, então campeã africana de seleções, com bons jogadores, muito capacitada a ser uma das surpresas daquele Mundial. Quatro anos - na verdade, três anos e meio - depois, a Copa do Mundo de 2026 está aí. A Laranja, novamente, é considerada uma equipe de boa qualidade. Em relação a 2022, até melhorou um pouco. Mas ainda tem nível técnico e resultados insuficientes para ser considerada, sem hesitação, como favorita ao título (até porque o histórico de decepções se impõe). E também novamente, ela estreará na sua 12ª participação numa Copa tendo de se provar contra um seleção considerada sólida e candidata a ser surpresa no torneio: o Japão, primeiro adversário à espera no grupo F, no dia 14 de junho (domingo), em Dallas, às 17h de Brasília. Pela frente, outras duas adversárias traiçoeiras: a Suécia (20 de junho, sábado, às 14h de Brasília, em Houston) e a Tunísia (25 de junho, quinta-feira, às 20h de Brasília, em Kansas City).
A Laranja terá de se provar, em última análise, porque embora ela tenha jogadores inegavelmente qualificados, o trabalho de Ronald Koeman ainda não conseguiu convencer. Se evitou um dos principais problemas no ciclo para 2022 (uma roda-viva de técnicos - entre o terceiro lugar de 2014 e o retorno aos Mundiais, no Catar, foram oito treinadores), por outro lado, em três anos da segunda passagem de Koeman, a inconstância holandesa foi clara. Nem é preciso citar aqui, em 2023, a decepção de ficar no quarto lugar da Liga das Nações, em casa: afinal de contas, era começo de trabalho. Mas mesmo que o resultado na Euro 2024 tenha sido relativamente satisfatório - nunca é ruim chegar à semifinal, ainda mais tendo perdido três meio-campistas importantes antes do torneio -, até hoje muitos julgam que a Laranja conseguiu essa campanha mais pela fragilidade do chaveamento do que por seus méritos. Até porque terminou seu grupo em terceiro lugar, após uma derrota para a Áustria. E mesmo com um chaveamento considerado mais fácil, a equipe suou para virar contra a Turquia, nas quartas de final.
Ronald Koeman tem inegável sequência de trabalho, mas nunca conseguiu convencer, nem mesmo na campanha de semifinalista da Euro 2024 (KNVB/Divulgação)
E aí, entra o problema que mais aborrece torcida e imprensa holandesas: não conseguir superar seleções grandes, nos últimos tempos. Em todo o trabalho de Koeman, desde 2023, só quatro vezes houve vitória contra equipes nas 40 primeiras posições do ranking da FIFA (2 a 1 na Turquia, 22ª, nas citadas quartas de final da Euro 2024; os 4 a 0 no Canadá, 30º do ranking, em amistoso pré-Euro; os 2 a 1 na Noruega, 31ª, no amistoso de 27 de março passado; e os 2 a 1 na Polônia, 35ª colocada, na estreia pela Euro). No mais... França, dois jogos nas Eliminatórias da Euro, duas derrotas, um reencontro na fase de grupos da Euro, um empate; Alemanha, dois jogos pela Liga das Nações 2024/25, uma derrota e um empate; Inglaterra, a derrota na semifinal da Euro 2024. Contra a Espanha, no momento reconhecido como o melhor da Oranje sob Koeman, dois empates nas quartas de final da Liga das Nações passada, um time que fez jogo duro para a atual campeã europeia... mas, afinal, derrota nos pênaltis.
Embora seja algo contraindicado para uma seleção que deseje ir longe na Copa, vá lá, perder de seleções grandes é algo compreensível em cenários equilibrados. Até porque a derrota nas quartas da Liga das Nações levou a um grupo muito acessível nas Eliminatórias da Copa do Mundo (o grupo G europeu, com Finlândia, Lituânia, Malta e Polônia). E do modo como a campanha foi iniciada, em junho do ano passado, parecia que essa facilidade seria aproveitada, com duas vitórias tranquilas - 2 a 0 na Finlândia e 8 a 0 em Malta (goleada fundamental para o saldo de gols, primeiro critério de desempate).
Contudo, nas datas FIFA de setembro, os problemas apareceram. Na terceira rodada, dia 4, abrindo o placar contra a Polônia, a Laranja perdeu muitos gols. Dependeu demais de Denzel Dumfries e de Cody Gakpo. E no fim, tomou o castigo, com os poloneses empatando (1 a 1) em pleno De Kuip. Pior, muito pior, foi ver, três dias depois, um inesperado sufoco. Contra a Lituânia, fora de casa, a Laranja abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo - com Memphis Depay superando o recorde de então de Robin van Persie, fazendo 52 gols pela seleção neerlandesa e se isolando como o maior goleador dos 120 anos de história dela. Tudo resolvido, certo? Errado: lentíssima, a Holanda viu os lituanos não só empatarem, como ameaçarem a virada, no que seria um tremendo vexame, além de colocar a esperada vaga direta na Copa em risco. Coube a Memphis Depay, fazendo um de seus melhores jogos da carreira pela seleção, resolver as coisas fazendo o 3 a 2 do vídeo abaixo. Mas que pegou mal, pegou.
De certa forma, a Holanda não resolveu o mau humor em relação a ela nem mesmo com duas goleadas por 4 a 0 nas rodadas de outubro das Eliminatórias: sobre Malta, fora de casa, e sobre a Finlândia, em Amsterdã. Até porque, na penúltima rodada, em novembro, quando poderia garantir a vaga na Copa por antecipação caso vencesse a Polônia fora de casa, um novo empate (1 a 1) - pois é, a Holanda ficou sem vencer os poloneses, únicos que poderiam lhe fazer frente no grupo das eliminatórias. Pelo menos, a vitória que garantiu lugar no Mundial foi convincente: novos 4 a 0, na Lituânia, em 17 de novembro de 2025.
Essa e outras goleadas deixaram claro: quando se entendem em campo, os holandeses formam uma boa seleção. Também, pudera, tendo em vista que nada menos do que sete prováveis titulares estão na Premier League, considerada a liga mais prestigiosa da Europa. O meio-campo, sem dúvida, é o setor da Laranja que mais melhorou em relação a 2022: se na Copa passada Frenkie de Jong monopolizava as ações, tendo em Davy Klaassen e Marten de Roon apenas bons coadjuvantes, agora Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch são tão criativos quanto Frenkie. Na zaga, segue a "fartura" de sempre: Virgil van Dijk, Jan Paul van Hecke, Jurriën Timber, Nathan Aké. Nas laterais, Denzel Dumfries de um lado, Micky van de Ven do outro, ambos são velocíssimas opções de ataque. O gol, se vivia uma roda-viva antes do Mundial passado, agora tem em Bart Verbruggen um nome firme. E mesmo o ataque, se segue um pouco abaixo em termos de opções, pelo menos tem Donyell Malen em grande fase na Roma.
Se nada de errado ocorrer, esta é a formação tática com que a Holanda (Países Baixos) estreará na Copa (buildlineup.com)
Só que os maus momentos indicaram os problemas que esta Holanda ainda tem. Para começo de conversa, algo que independe do que se faça ou se deixe de fazer: as tantas lesões que vitimaram jogadores importantes da Laranja. Dumfries passou por cirurgia em março passado; Jurriën Timber chega à Copa do Mundo vindo de lesão muscular que lhe atrapalhou a reta final da temporada com o Arsenal; Frenkie de Jong, também com problema muscular, chegou a temer a repetição do drama da ausência da Euro 2024; e Memphis Depay, por fim, com a lesão na parte posterior da coxa sofrida em março passado, quase repetiu a história de 2022, quando foi à Copa sem ter jogado partidas desde que se machucou (ainda fez duas partidas pelo Corinthians). Enfim, raríssimas vezes a escalação foi a ideal. Depois, se o time flui no ataque, é cada vez mais lento na defesa, quando tem de se proteger de contra-ataques - até por isso, não se pode descartar a ideia de Ronald Koeman colocar o time com três zagueiros, para que uma dupla proteja Van Dijk, ficando cada vez mais na sobra. Além do mais, o último amistoso de março - 1 a 1 contra o Equador, com Dumfries expulso no primeiro tempo - deixou claro que os Países Baixos sofrem contra seleções fisicamente intensas.
Por essas questões é que a Laranja começará a Copa do Mundo já tendo de se provar contra o Japão, quando muita gente suspeita que a zebra passeará. Caberá ao time de Ronald Koeman - que começará como treinador em Dallas, a mesma cidade em que terminou sua trajetória como jogador da seleção, nas quartas de final da Copa de 1994 - provar que não é para tanta desconfiança. Porque a Holanda melhorou só um pouco em relação a 2022, mas continua abaixo das favoritas.
Os 26 convocados da Holanda para a Copa (clique nos nomes e saiba mais sobre eles)
Na sua segunda passagem treinando a Holanda (Países Baixos), Ronald Koeman tem sido mais criticado. Mas por toda a carreira, dentro e fora de campo, poucos currículos impõem mais respeito no futebol holandês (KNVB Media/Divulgação)
Ronald Koeman
Data de nascimento: 21 de março de 1963, em Zaandam
Clubes como jogador: Groningen (1980 a 1983), Ajax (1983 a 1986), PSV (1986 a 1989), Barcelona-ESP (1989 a 1995) e Feyenoord (1995 a 1997)
Clubes como treinador: Vitesse (2000 a 2001), Ajax (2001 a 2005), Benfica-POR (2005 a 2006), PSV (2006 e 2007), Valencia-ESP (2007 a 2008), AZ (2009), Feyenoord (2011 a 2014), Southampton-ING (2014 a 2016), Everton-ING (2016 a 2017), seleção masculina da Holanda (Países Baixos) (2018 a 2020 e desde 2023) e Barcelona-ESP (2020 a 2021)
Seleção (como jogador): 78 jogos e 14 gols, entre 1983 e 1994
Seleção (como treinador): 58 jogos (32 vitórias, 14 empates e 12 derrotas)
(Versão revista e ampliada do texto feito em lembrança dos 60 anos de Ronald Koeman, em 2023)
É impossível tratar Ronald Koeman com a total reverência normalmente destinada a um grande jogador do passado. Afinal de contas, o treinador de 63 anos coloca seu respaldo à prova desde 2023, na segunda passagem como técnico da seleção masculina da Holanda (Países Baixos). Aliás, nesta segunda passagem, Koeman é até mais criticado do que na primeira, entre 2018 e 2020: tem menos vitórias respeitáveis, a Laranja faz atuações oscilantes sob seu comando, considera-se que até mesmo um momento bom - alcançar a semifinal da Euro 2024 - se deu mais por sorte no chaveamento do que por competência. Entretanto, a pressão por que passa no comando da Laranja fica pequena, diante do tamanho dos feitos de "Kuifje" ("Tintim") - apelido carinhoso de Koeman no país natal, por sua semelhança ao personagem célebre de Hergé nas histórias em quadrinhos.
Em campo, Koeman foi dos melhores zagueiros de sua geração, no fim dos anos 1980/início dos anos 1990. Esbanjava técnica na zaga, iniciando as jogadas das equipes por que passou, virando quase sinônimo de "zagueiro artilheiro" de tantos gols que fez, graças à tremenda habilidade nas bolas paradas. Desde quando corria atrás da bola, também transparecia espírito de liderança: era o capitão costumeiro de suas equipes. E nos Países Baixos, ser o único holandês a ter passado como jogador e treinador pelo Trio de Ferro (Ajax, PSV e Feyenoord), e agora, se tornar o segundo holandês a jogar pela Oranje (1990 e 1994) e treiná-la numa Copa do Mundo são provas inequívocas do respeito que Ronald Koeman construiu.
Na família Koeman, o patriarca Martin (centro) abriu o caminho para os irmãos Erwin (direita) e Ronald. O Groningen que o diga (Arquivo pessoal)
Questão de família
Nascido em Zaandam e criado em Koog aan de Zaam (vilarejo vizinho), Ronald teve exemplo para o futebol desde o princípio da vida. Ninguém menos do que o pai, Martin Koeman (1938-2013), que já era jogador. Um zagueiro, como o filho seria. E um zagueiro razoável: Martin fez uma partida pela seleção da Holanda - empate contra a Áustria (1 a 1), num amistoso em 1964 -, e ficou muito ligado a clubes do norte dos Países Baixos. Principalmente o Groningen: passou oito anos (1963 a 1971) no GVAV, uma das agremiações cujas fusões deram origem ao Groningen atual. Nele, Koeman pai ficou mais dois anos, entre 1971 e 1973. Depois, o patriarca jogou mais um ano no Heerenveen, antes de encerrar a carreira.
E a vida que levava o pai Martin inspirou os filhos: não só Ronald, mas também Erwin Koeman, irmão dois anos mais velho (e seu auxiliar técnico na Holanda, atualmente). No caso de Ronald, ele logo tomou Groningen como seu caminho. Na cidade, primeiro começou em duas equipes amadoras, o VV Helpman e o GRC Groningen, ainda entre a infância e a adolescência. Já nesta, sempre ao lado do irmão Erwin, Ronald rumou para o Groningen em que o pai fizera alguma fama. Não demoraria muito para igualá-lo: em 21 de setembro de 1980, aos 17 anos e 183 dias, Koeman fez sua primeira partida pelo time principal do Groningen, substituindo o lateral Sip Bloemberg para os 15 minutos finais na vitória por 2 a 0 sobre o NEC, pelo Campeonato Holandês. Seu primeiro gol foi nos 2 a 2 contra o Excelsior, em 1º de fevereiro de 1981, pela 17ª rodada da Eredivisie.
O começo de Ronald, no Groningen, ao lado do irmão Erwin (direita), jogando pelo PSV(Arquivo ANP)
Então, o Groningen acabara de subir para a primeira divisão holandesa. E Koeman seria o símbolo da estabilização do clube alviverde na Eredivisie. Escalado no meio-campo, tendo parceiros constantes no setor em Jan van Dijk e no irmão Erwin Koeman (que fora ao PSV e voltara rápido), Ronald foi titular absoluto no sétimo lugar em 1981/82 e, principalmente, no quinto lugar em 1982/83, posição que levou o clube a disputar pela primeira vez uma competição europeia (a Copa da UEFA, na temporada seguinte). Mais do que isso: já mostrava pendor goleador incomum para um meio-campo - foram 14 gols pelo Groningen, nas duas temporadas supracitadas. Mais ainda: mostrando talento desde então - nos chutes, nas bolas paradas, até na criação -, Koeman ganhou espaço na seleção da Holanda. Estreou pela Laranja numa derrota para a Suécia (3 a 0, amistoso), ainda defendendo o Groningen, em 27 de abril de 1983.
O espaço se ampliaria ainda mais. Na seleção e nos clubes.
A calma leva ao sucesso
No meio de 1983, Koeman teve o reconhecimento ao valor que já mostrava: foi contratado pelo Ajax. Na passagem por Amsterdã, se consolidou dentro do futebol holandês, mesmo em meio a turbulências. Se o Ajax foi inconstante na temporada 1983/84, naquela época Koeman começou a ser titular absoluto da seleção - algo notável para quem tinha apenas 20 anos. Mesmo em meio ao fracasso nas eliminatórias da Euro 1984, ele já fez seu primeiro gol pela Laranja (nos 3 a 0 sobre a Islândia, pela qualificação para a Euro, em 7 de setembro de 1983). Foi um dos nomes fundamentais num jogo marcante: a virada por 3 a 2 sobre a Irlanda, fora de casa, na sexta rodada das eliminatórias. Aquela partida uniu Koeman a Ruud Gullit e Marco van Basten, como símbolos de uma geração muito promissora, que começava a tomar espaços na Laranja - e que era vista com otimismo, mesmo com a ausência na Euro 1984.
Jogando pelo Ajax, Koeman confirmou que era uma referência de zagueiro na Holanda, mesmo ainda jovem. Mas sofreu com o ambiente turbulento (VI Images/Getty Images)
No Ajax, Koeman seguiu fundamental. Porém, só teria algum respiro no ambiente durante a temporada 1984/85, que marcou o primeiro título de sua carreira - o título do Campeonato Holandês (Koeman fez nove gols em 30 jogos). Em 1985/86, Johan Cruyff voltou ao clube de Amsterdã, para sua primeira experiência como treinador. E rapidamente entrou em rota de colisão com vários jogadores. Um deles, o zagueiro. Numa temporada em que os Ajacieden foram estonteantes no ataque (120 gols), mas também frágeis na defesa, perderam o título da Eredivisie para o PSV. Koeman foi sincero: falou abertamente que de nada adiantava uma equipe ofensiva e perdedora. A colisão com Cruyff ficou irremediável. Uma proposta de renovação do Ajax foi considerada baixa. A salvação veio com uma proposta do... PSV.
Com grandes ambições para se firmar como clube grande - processo que vinha desde os anos 1970 -, o PSV queria jogadores de ponta. Koeman estava entre eles. E chegou a Eindhoven, logo após a Copa de 1986. Num ambiente mais calmo, o defensor decolou de vez. Para começo de conversa, já foi titular na conquista de mais uma Eredivisie (1986/87) - com marca impressionante para um zagueiro: 16 gols em 34 jogos. Poderia ficar melhor, e ficou. Porque o técnico Guus Hiddink, recém-efetivado no PSV, decidiu tornar Koeman um "líbero", aproveitando sua visão de jogo para iniciar jogadas a partir da defesa, se alternando entre a zaga e o meio-campo, sem perder seu talento para avanços, chutes e cobranças.
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Começava aí o período mais dourado da carreira de Koeman. Porque o PSV foi tricampeão holandês então - com ele indo além como "zagueiro artilheiro": 21 gols em 32 jogos. Porque o PSV fez de 1987/88 o ponto mais alto de sua história, com a Tríplice Coroa, tendo como símbolo o título da Copa dos Campeões - e Koeman, claro, como titular absoluto, um dos líderes da equipe. E finalmente, como a cereja mais deliciosa que poderia haver naquele bolo de sucessos, a Euro 1988. Também estabelecido e inquestionável na Holanda (às vezes, era até capitão da seleção), Koeman jogou todos os minutos no torneio continental. Foi autor do gol - de pênalti - que empatou a semifinal contra a Alemanha. Na vitória final, 2 a 1, foi personagem de uma gozação algo grotesca: após trocar camisas com o alemão Olaf Thon, fingiu "usá-la" como papel higiênico (a torcida achou graça, mas Koeman teve de pedir desculpas dias depois). Finalmente, um mês depois de ser campeão europeu de clubes, Koeman se consagrava de vez: em 25 de junho de 1988, era campeão europeu de seleções, tendo ao lado o irmão Erwin Koeman, também convocado, também tendo sucesso em seu clube - o Mechelen-BEL, em que Erwin jogava, conquistara então a Recopa Europeia.
Koeman precisou pedir desculpas pelo gracejo pesado com alemães, após a Euro 1988. Mas nem isso apagou o tamanho de sua importância naquele título (ANP)
Após o título da Holanda na Euro 1988, Ronald Koeman virou uma transferência esperando para acontecer. Ainda ficou no PSV para a temporada 1988/89. Celebrou o tetracampeonato holandês, feito inédito então na história do clube de Eindhoven - sem contar o bicampeonato na Copa da Holanda. Aí foi impossível segurá-lo. Coube justamente a Johan Cruyff, com quem vivera às turras nos tempos de Ajax, abrir caminho para um novo auge em sua carreira. Partiu de Cruyff o pedido para que o Barcelona contratasse o zagueiro que já era símbolo das modernidades da posição na Europa. E no meio de 1989, por 12,5 milhões de florins (moeda holandesa pré-euro), Koeman partiu para a Catalunha.
Também faria história lá.
Cruyff escolheu Koeman para ser um dos pilares de um Barcelona que faria história. E o zagueiro cumpriria as expectativas do técnico à perfeição (VI Images/Getty Images)
O "melhor zagueiro do mundo" vira ícone barcelonista - com decepções
Cruyff já estava remodelando o Barcelona, para que o clube pudesse fazer frente diante de um Real Madrid que vivia grande fase, com a "Quinta del Buitre" pentacampeã espanhola. E contava com Koeman como um dos jogadores que lhe ajudaria nisso. Só que ele viveu grandes decepções em 1990. Primeiro, o fracasso ao evitar mais um título do Real em La Liga. Depois, e pior, com a Holanda protagonizando um grande vexame na Copa de 1990: chegou como a badalada campeã europeia e saiu com crise aberta no grupo de jogadores, sem nenhuma vitória, eliminada nas oitavas de final. O zagueiro até foi capitão da Laranja no Mundial, até marcou um gol (o de honra, na derrota por 2 a 1 da eliminação para a Alemanha), mas não saiu totalmente ileso: era apontado como arrogante, e começou ali a sofrer com acusações de estar acima do peso, comuns na reta final de sua carreira.
Ronald Koeman continua sob pressão - afinal, é o técnico da Holanda. Mas essa pressão é amenizada pelo respeito ao grande zagueiro que foi (Serge Philippot/Onze/Icon Sport/Getty Images)
Nada que os anos seguintes não pudessem consertar plenamente. Pela seleção, Koeman se manteve estável como capitão, seguiu absoluto na zaga, emplacou mais uma Euro em 1992 (novamente jogando todos os minutos da Holanda no torneio), foi se isolando como referência dentro da Laranja. No Barcelona, então... se o zagueiro ainda penou na sua primeira temporada pelos Blaugranas, começou a colher os frutos de ser um dos nomes escolhidos por Cruyff logo depois. Em 1990/91, fez parte do digno vice-campeonato na Recopa Europeia. E com o título espanhol, se iniciou como um dos símbolos do Barça tetracampeão espanhol até 1994 - tinha tanta preponderância quanto Michael Laudrup, Hristo Stoichkov e Romário, outros símbolos daquela época. Fazia com a camisa azul-e-grená o que já fizera no PSV: gols aos borbotões, faltas e pênaltis cobradas com muita força e categoria. A torcida amava o "Floquet de Neu" (em catalão, "floco de neve" - mais um apelido para Koeman, em referência ao apelido de um gorila albino, popular à época no zoológico da cidade espanhola/catalã, tão branco quanto a pele de Koeman).
A melhor prova disso foi em 20 de maio de 1992, no estádio de Wembley. O Barcelona decidia a Liga dos Campeões contra a Sampdoria. Final equilibrada, indo à prorrogação após 90 minutos de 0 a 0. Até os 112'. Foi quando surgiu uma falta perto da área, de média distância. Era para Ronald Koeman. Estava para ele. Que cobrou, forte, como sempre. A bola estufou as redes defendidas pelo goleiro Gianluca Pagliuca. E o zagueiro holandês fazia o gol mais importante dos 67 que marcou pelo Barça. O gol do primeiro título europeu do clube. O gol que o tornou, para sempre, um ícone barcelonista.
Em suma: principalmente entre 1992 e 1994, Koeman viveu um "círculo virtuoso". A segurança de suas atuações no Barcelona (e os gols de "brinde") o mantinham absoluto na seleção masculina da Holanda. Na Laranja, por sua vez, era o capitão, indispensável. Ainda mais com os problemas que seus companheiros de geração viviam (Ruud Gullit entrou em rota de colisão com o técnico Dick Advocaat, em 1993; Marco van Basten sofria com as lesões no tornozelo que encurtaram sua carreira; Frank Rijkaard chegou a deixar a Laranja entre 1990 e 1991, após a decepção na Copa). Se o gol do título da Liga dos Campeões 1991/92 o marcou no Barcelona, gols como o do 2 a 0 na Inglaterra - em jogo difícil nas eliminatórias da Copa de 1994 - reforçavam seu status à época, até comentado no guia da revista Veja para aquele Mundial. Era, e podia ser considerado como, o melhor zagueiro do mundo.
Um fim honroso
Todavia, a Copa de 1994 foi o início do fim para Koeman como jogador. Não, a Copa não foi desastrosa para ele: nos Estados Unidos, emplacou mais um torneio pela Holanda sem perder um só minuto em campo (até por ser o capitão), com atuações aceitáveis. Entretanto, o peso dos anos se fez sentir. Sob o calor dos jogos em Orlando e Dallas, ele sofreu. Preservou-se, preferindo ficar mais recuado, sem correr tanto, apenas comandando a zaga. Em meio a uma turbulenta Copa para a Laranja, foi novamente alvo de críticas de torcida e imprensa: sua influência sobre o técnico Dick Advocaat iria além da conta, seu peso voltava a ser assunto. E a partida da eliminação para o Brasil, naquela Copa, foi o fim para ele: mesmo sem anúncios oficiais, após 11 anos e 78 partidas de Oranje, Ronald Koeman não voltaria a defender a seleção dentro de campo.
No Barcelona, mesmo ainda titular na temporada 1994/95 (32 jogos e nove gols pelo Campeonato Espanhol), o clima de fim de ciclo também ficou claro. E em meados de 1995, Koeman decidiu aceitar o retorno aos Países Baixos. Chance aproveitada para igualar um feito: ao invés de voltar a PSV ou mesmo ao Ajax, o zagueiro optou por experimentar o Feyenoord. Chegando ao Stadionclub, igualava o feito do atacante Ruud Geels (anos 1970), para jogar pelos três maiores clubes do país. Se não ganhou títulos, tampouco fez feio. Voltando a jogar no meio-campo, Koeman esteve ao lado de nomes marcantes do clube, como Ed de Goey, Gaston Taument, Jean-Paul van Gastel e Giovanni van Bronckhorst. Foi o capitão nas campanhas de um terceiro lugar (1995/96 - marcou dez gols nela) e do vice-campeonato na Eredivisie (1996/97).
Ronald Koeman teve um digno fim de carreira no Feyenoord - aqui, as homenagens após o último jogo da carreira, com a esposa Bartina e os três filhos (VI Images/Getty Images)
Sob festas e homenagens da torcida em De Kuip, Koeman encerrou a trajetória como jogador tão logo a temporada 1996/97 acabou. Trajetória que deixava (e ainda deixa) uma marca: com 193 gols em jogos de liga, tratava-se do zagueiro com mais gols na história do futebol, de acordo com algumas fontes.
Mas a liderança mostrada em campo teria consequência - e sequência.
Como treinador, altos e baixos
Mesmo sem jogar mais, Koeman tinha um comando e uma ascendência tão grandes que as experiências no banco de reservas começaram quase imediatamente após sua carreira de jogador. Em 1998, para impedir que problemas de relacionamento voltassem a afetar a delegação da Holanda como na Euro masculina de 1996, ele foi um nome de primeira hora escolhido como um dos "auxiliares especiais" do técnico Guus Hiddink para a Copa do Mundo naquele ano. Não só deu certo, com a boa campanha da Laranja, como abriu de vez o caminho para o ex-zagueiro virar técnico.
Koeman mal parou de jogar e já aprendeu a treinar. A primeira experiência foi auxiliando Guus Hiddink na Copa de 1998 (VI Images/Getty Images)
Imediatamente após a Copa, Ronald foi para o Barcelona que conhecia tão bem, como auxiliar de Louis van Gaal - e treinador do Barça B. Mas sua primeira experiência para valer começaria em novembro de 1999, comandando o Vitesse. Já com sucesso: naquela temporada, comandando um Vites de ataque elogiável (Mamadou Zongo e Pierre van Hooijdonk), Koeman conduziu o time ao quarto lugar no Campeonato Holandês - rendendo uma vaga na Copa da UEFA. Em 2000/01, uma queda mais leve, mas ainda uma campanha honrosa: sexto lugar para o clube de Arnhem.
A ascensão foi acelerada: em dezembro de 2001, logo após a demissão de Co Adriaanse, o Ajax buscou Koeman, após rápidos acertos com o Vitesse. Reencontrando o clube de Amsterdã após quase 20 anos, ele começava ali a primeira grande fase de sua carreira no banco. Comandando um time com vários novatos - Rafael van der Vaart, Christian Chivu e Zlatan Ibrahimovic como destaques -, o ex-zagueiro conseguiu os dois primeiros títulos como treinador em 2001/02: a "dupla coroa" holandesa, campeonato e copa. Na temporada seguinte, chamou ainda mais a atenção, com os Ajacieden alcançando as quartas de final da Liga dos Campeões. E em 2003/04, mais um título na Eredivisie comandando os Godenzonen.
Koeman já começou a carreira fazendo um trabalho com ótimos momentos no Ajax (Matthew Ashton/EMPICS/Getty Images)
Só que 2005 começou a marcar os altos e baixos que ditam a carreira de Ronald Koeman como técnico. Em fevereiro daquele ano, tendo problemas com Louis van Gaal (então diretor técnico do Ajax), em má fase no Campeonato Holandês, Koeman saiu do clube. Meses depois, foi para o Benfica - e fez um trabalho mediano no clube português: mesmo quadrifinalistas da Liga dos Campeões, os Encarnados perderam o título nacional para o Porto em 2005/06. Koeman preferiu a volta ao país natal, retornando ao PSV para suceder Guus Hiddink a partir de 2006. Tinha um trabalho promissor nos Boeren: em 2006/07, conquistou o título holandês e chegou às quartas de final da Liga dos Campeões. Mas preferiu largar tudo, apostando numa ida para o Valencia, em outubro de 2007. Fracasso: mesmo dando a primeira chance no clube espanhol a jovens como Juan Mata, só um título, a Copa do Rei, e demissão já em abril de 2008. Pior ainda seria no AZ. Em maio de 2009, com o clube de Alkmaar badalado como campeão holandês, Koeman foi anunciado como sucessor de Louis van Gaal, a partir da temporada seguinte. Não chegou ao final dela: em dezembro daquele ano, já estava demitido.
No AZ, o pior momento de Koeman como treinador (Marcel Antonisse/AFP/Getty Images)
Em 2011, Ronald Koeman estava em baixa. Assim como o Feyenoord, clube que o contratou, em julho daquele ano. Pois os três anos que passou comandando o Stadionclub foram reabilitadores para as duas partes. Mesmo sem títulos, só conquistar o vice-campeonato holandês em 2011/12 - com direito a voltar a vencer o Ajax pelo Campeonato Holandês, após um jejum de alguns anos - já massageou o ego do Feyenoord, que andava tão maltratado. Cercado de nomes que haviam jogado com ele em Roterdã (como Jean-Paul van Gastel e Giovanni van Bronckhorst, seus auxiliares), Koeman mostrou um trabalho sólido, com um time firme. Tudo com um objetivo na cabeça: se tornar o técnico da seleção holandesa, após a Copa de 2014. Até por isso, anunciou que deixaria o Feyenoord, ao fim da temporada 2013/14, concluída com mais um vice-campeonato na Eredivisie.
A passagem pelo Feyenoord reabilitou definitivamente Koeman como técnico no país natal (VI Images/Getty Images)
A federação teve planos diferentes: até se interessou por Koeman, mas preferiu trazer Guus Hiddink depois do Mundial. Ainda convidou o ex-capitão da Laranja para ser auxiliar de Hiddink, como em 1998. Magoado, Koeman negou. Após a marcante passagem pelo Feyenoord, preferiu vivenciar a Premier League. Novamente, com alternâncias. No Southampton, com o irmão Erwin como auxiliar, foi bem: comandou os Saints na melhor campanha da história do clube na Premier League, o sexto lugar de 2015/16, tendo Virgil van Dijk e Sadio Mané como destaques. Recebeu uma chance no Everton, em 2016, e foi até bem no começo, conduzindo os Toffees à vaga na Liga Europa. Contudo, em 2017/18, quando as ambições do clube azul de Liverpool eram maiores, Koeman fracassou: o Everton chegou a estar na zona de rebaixamento da Premier League, e ele caiu, em outubro de 2017.
Nas andanças inglesas, alternâncias, como sempre: Koeman foi bem no Southampton e mal no Everton (Steve Bardens/Getty Images)
Novamente em baixa. Como... a seleção holandesa masculina, ausente da Euro 2016 e da Copa de 2018. Falando à revista Voetbal International, o próprio Koeman brincou: "Finalmente tenho a sequência ideal". Visto como o melhor técnico do país à época, foi afinal contratado para treinar a Laranja que conhecia tão bem, em fevereiro de 2018. Novamente, sua reação foi a reação de seu time. Reabilitando nomes como Memphis Depay e Georginio Wijnaldum, abrindo caminho para nomes como Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong, Koeman comandou do banco uma fase de reabilitação da Holanda. Na primeira edição da Liga das Nações (2018/19), superou um grupo com Alemanha e França, indo à final contra Portugal. Nas eliminatórias da Euro 2020, ao longo de 2019, uma ótima campanha (que teve como auge um triunfo sobre a Alemanha fora de casa, por 4 a 2) devolveu a Laranja a uma grande competição. Com outro trabalho levando a um time firme, as perspectivas da Holanda na Euro eram muito boas.
Porém, em novembro de 2019, o Barcelona o sondou. Koeman aproveitou e revelou uma cláusula de seu contrato com a federação holandesa: se o Barça (e só o Barça, mais nenhum clube) fizesse uma proposta vantajosa, ele poderia ser liberado. Afinal de contas, pelo seu histórico no clube catalão, treiná-lo era seu maior objetivo, em termos de futebol de clubes. Mas naquele momento, ele ainda preferiu ficar onde estava. Veio 2020. O Barcelona o sondou de novo, após a demissão de Ernesto Valverde. Veio a pandemia, que adiou a Euro e freou o embalo que a Holanda vivia sob seu comando. Veio um susto de saúde: uma arritmia cardíaca, que o deixou internado por alguns dias (sem contar um período sofrendo com a COVID-19). E finalmente, veio um vexame no Barcelona, eliminado na Liga dos Campeões 2019/20 ao sofrer um 8 a 2 do Bayern de Munique nas quartas de final. Novamente, o Barcelona quis Koeman, após algumas recusas. E ele decidiu realizar seu sonho, jogando o que tinha para o alto: deixou a seleção neerlandesa, rumando para o clube a que estava tão ligado, em agosto de 2020, sucedendo Quique Setién.
Koeman fazia bom trabalho na seleção da Holanda. Abriu mão dele para realizar o sonho de treinar o Barcelona. E lá, sofreu com a má fase - e com escolhas polêmicas (Tullio Puglia/UEFA/Getty Images)
Koeman chegou ao Barça numa fase pesada: seria ele, afinal, o nome obrigado a conduzir um período de mudanças, após o vexame na Champions anterior. E fez um trabalho mediano, como outros anteriores. Virou a cara de decisões polêmicas (até criticadas), como a dispensa de Luis Suárez. Conseguiu pelo menos um título, a Copa do Rei, em 2020/21. Contudo, passou longe de impressionar, no Campeonato Espanhol ou na Liga dos Campeões. Amargou a saída traumática de Lionel Messi. O mau começo na liga nacional, na temporada 2021/22, aumentou a pressão. Bastaram uma derrota no clássico para o Real Madrid - 2 a 1, na 10ª rodada de La Liga -, outra queda (para o Rayo Vallecano, 1 a 0, na rodada seguinte), e o sonho acabou, com a demissão de Koeman, em outubro de 2021.
Àquela altura, a seleção masculina da Holanda já estava sob o comando de Louis van Gaal. Mas já sabia: precisaria de alguém para sucedê-lo após a Copa de 2022. Koeman estava novamente à disposição. Numa série de que foi personagem - Força Koeman, documentário sobre seu trabalho no Barcelona, da plataforma holandesa Videoplay -, ele confessou: ainda queria comandar a Laranja num grande torneio. E as memórias do trabalho consistente que vinha fazendo entre 2018 e 2020 fizeram a federação decidir, já em abril de 2022, antes mesmo da Copa daquele ano: ele voltaria a treinar a seleção de seu país.
Na volta à seleção holandesa, Koeman tem lidado com mais problemas do que na primeira passagem. Não só na carreira, mas particulares (Pro Shots/IconSport/Getty Images)
Sua segunda passagem pela Laranja - na qual prometia um estilo mais ofensivo do que o visto na Copa de 2022 ("Eu mesmo via os jogos e achava a Holanda chata") - começou na mesma semana em que completou 60 anos. E começou mal, com uma goleada sofrida para a França (4 a 0), na primeira rodada das Eliminatórias da Euro 2024, três dias depois de se tornar um sexagenário. Na segunda partida, os 3 a 0 sobre Gibraltar foram mais criticados pelas tantas chances perdidas do que pelo triunfo. E mesmo que o trabalho começasse, perder a chance do título da Liga das Nações em casa - queda para a Croácia nas semifinais, e ainda para a Itália na decisão de 3º/4º lugares - já deixava uma ameaça de crise. Que Koeman teria de debelar no restante daquele 2023, nas Eliminatórias da Euro 2024.
Conseguiu, de certa forma. Mesmo sem brilhar, a vaga na Euro 2024 veio. Só que a pressão estava ali. Dentro de campo: bastou a derrota contra a Áustria, na fase de grupos (3 a 2), para que alguns cogitassem sua demissão, ao fim da participação holandesa na campanha. E o próprio balançou, após o revés: "Me perguntem [se fico] depois das oitavas de final". Bastou a sorte de um chaveamento melhor, um convincente 3 a 0 na Romênia, e Koeman retrucou, triunfante: "Vocês não se verão livres de mim". Nem mesmo a derrota para a Inglaterra, na semifinal, tirou do técnico o respeito - como se vê nas imagens abaixo, logo após a citada eliminação.
Words from Ronald Koeman after our semi-final at #EURO2024. 💬
Mesmo com oscilações nas eliminatórias da Copa do Mundo, ao longo de 2025, a Holanda seguiu tranquila por ela. Koeman tinha e tem problemas mais graves para lidar. Por exemplo, o drama de Bartina, sua companheira há 41 anos, lidando com o tratamento de um câncer de mama, em recidiva revelada justamente durante a Euro. O treinador precisou até se ausentar, às pressas, de treinos durante as datas FIFA de outubro de 2025, nos jogos contra Malta e Finlândia, por causa de complicações no tratamento de Bartina - Ronald revelou depois que foi detectada metástase no fígado. Ainda assim, a esposa segue. Assim como a tradição familiar no futebol, com o irmão Erwin a lhe auxiliar. E também no campo: Ronald Koeman Jr. (um dos três filhos do casal Ronald-Bartina), é titular do Telstar, da primeira divisão dos Países Baixos. Em 2025, quando o Telstar disputou com sucesso a repescagem de acesso à Eredivisie, Ronald pai foi ver Ronald filho em campo - não como técnico da seleção, mas simplesmente como pai. E até hoje faz isso, de vez em quando.
Ronald Koeman pai não vai aos jogos do Campeonato Holandês só para observar jogadores: no caso do Telstar, é para ver também Ronald Koeman Junior, no gol (Olaf Kraak/ANP/Getty Images)
Como técnico da seleção holandesa que é, Ronald Koeman está acostumado às cornetas e desconfianças, que serão ainda mais fortes nesta Copa do Mundo. Até porque pode continuar no cargo: a federação holandesa já informou que qualquer decisão sobre a permanência de Koeman ocorrerá só após o Mundial. Em caso de saída, pode ser até o fim de sua "vida pública" no futebol: já realizado o sonho de treinar o Barcelona, Koeman reconheceu que não se vê mais trabalhando em clubes.
Fora de todo o alarido de uma grande competição, com calma, as análises chegam a uma conclusão: poucos personagens do futebol do Reino dos Países Baixos são mais respeitados, nos últimos 50 anos, do que Ronald Koeman. Por clubes, já lhe bastou o prêmio especial "pelo conjunto da obra", que a Eredivisie lhe deu, em agosto do ano passado. E por seleções, quem sabe o primeiro prêmio que receba não seja o maior que uma seleção nacional de futebol pode receber?
Vencedor, Ronald Koeman é. E sabe como ser.
(Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto/Getty Images)