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terça-feira, 25 de abril de 2017

Tudo por meio da prática

Cruyff não teve diploma nenhum. Mas sua inteligência prática o levou a estar para sempre entre os grandes do futebol (Popperfoto/Getty Images)
"Eu não tenho diploma: tudo que conquistei foi por meio da prática".

Pode parecer que tal frase não seja de Hendrik Johannes Cruyff, que nasceu há exatos 70 anos. Afinal de contas, o maior jogador da história do futebol holandês será conhecido para sempre por sua genialidade dentro de campo, como se soubesse de todos os rumos que eram tomados durante uma partida. Genialidade que sempre lhe permitiu ter um ideário próprio sobre o futebol, que já lhe tornou um dos maiores teóricos que o esporte já teve.

No entanto, é aquela frase do começo que inicia a autobiografia do "Nummer 14" - sem edição brasileira (ainda). E é a mais apropriada das frases. Porque foi a prática simples do futebol que levou Cruyff onde ele foi. 

Foi praticando futebol nas ruas de Betondorp, o bairro de Amsterdã onde nasceu e cresceu, que ele desenvolveu seu estilo fluido de jogar. Foi jogando com os amigos, nas peladas sem regra e sem medo, que ele criou seu estilo destemido de ser. Foi assim que ele virou sócio do Ajax. Que ele foi subindo, até a estreia na equipe adulta, em 1964. Que ele estreou pela seleção holandesa, num amistoso contra a Hungria, em 7 de setembro de 1966. Que ele virou o primeiro jogador da história da Oranje a ser expulso de campo - na segunda partida, contra a então Tchecoslováquia, em 6 de novembro daquele 1966.

Foi assim que Cruyff simbolizou, junto de Rinus Michels, a transformação do Ajax no começo dos anos 1970: de clube de bairro a potência europeia e mundial. Foi assim, baseado na prática, na fluidez e entrosamento com os companheiros, que ele idealizou o Futebol Total - que durou mais tempo no Ajax, mas teve apenas os sete jogos da Holanda na Copa de 1974 para se tornar inesquecível. Foi assim, leal ao sogro e agente Cor Coster, que Cruyff se tornou um dos primeiros craques da história a saber de seu valor - e a capitalizá-lo com propagandas mil.

Foi assim que Cruyff chegou ao Barcelona para colorir definitivamente a história do clube catalão, que andava triste pelos 13 anos sem títulos espanhóis - jejum encerrado na primeira temporada de Jopie, em 1973/74. Foi assim, fazendo o que desejava, como uma criança, que Cruyff já deixava claro: por vários motivos, 1974 seria sua primeira e última Copa. Foi assim que ele pensou ter encerrado a carreira, em 1978, jogando um amistoso com as cores de seu primeiro amor, o Ajax.

Depois, graças a péssimos investimentos, perdeu boa parte do que tinha amealhado na carreira. Talvez porque não soubesse mesmo fazer outra coisa que não fosse ter uma bola nos pés. Por isso, voltou. Mesmo que para recuperar seu dinheiro, voltou. Los Angeles Aztecs, Washington Diplomats, Levante, a passagem de apenas um jogo pelo Milan. Quando voltou ao Ajax, em 1981, o marido de Danny nem jogaria: seria auxiliar técnico de Leo Beenhakker. Oras, e o capitão lá aguentaria ficar sem jogar?! Disse Cruyff em sua biografia: "Eu fui muito mais um técnico do que um treinador. E fui muito mais um jogador do que um técnico". Pois voltou ao lado de dentro do campo já em 1981. Foi campeão holandês, em 1981/82 e 1982/83. Foi ignorado pelo Ajax - e decidiu jogar no arquirrival Feyenoord. Não chegou a estar em casa quando jogou em Roterdã, mas foi campeão (1983/84). 

Enfim, saiu do campo. Mas continuava tendo suas ideias. Por elas, tornou-se técnico do Ajax, a partir de 1985, levando comandados com quem jogara (Marco van Basten, Frank Rijkaard, Gerald Vanenburg) e gente que surgiu com ele (Dennis Bergkamp, Frank Verlaat, Aron Winter, Rob Witschge) ao título da Recopa Europeia. Por elas, brigou com quase todo mundo na Holanda, país que sempre pareceu contestar o mais contestador e genial de seus jogadores. Que se cansou, e a partir de 1988 foi viver na cidade que mais amou na vida: Barcelona. Onde levou os Culés ao tetracampeonato espanhol, e ao primeiro título europeu da história azul-grená.

Claro, Cruyff uma hora cansou-se. Brigou com o presidente Josep Lluis Núñez, já vinha desgastado do infarto sofrido em 1991, e deixou Les Corts em 1996. Já tinha o nome marcado na história do futebol. E de lá para cá, isso continuou. Sempre por meio da prática - se não gostasse de jogar futebol acima de tudo, Cruyff não questionaria, não incentivaria o jogo com suas Cruyff Courts (quadras que fazia em projetos beneficentes, mundo afora). 

E continuará para sempre, enquanto se olhe para a imagem de um sujeito vestindo laranja, ou alvirrubro, ou azul-grená, com a camisa 14, apontando rumos ou tendo a serena expressão de quem sempre soube o que fazer.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A saudade importa mais

Davinson Sánchez já ganhou importância no Ajax. Mas segue ligado ao Nacional de Medellín (mundodeportivo.es)

Como se sabe, este é um blog de futebol holandês. Que começou em março de 2011, quando o único responsável pelos textos dele ainda trabalhava no site Trivela. Com uma faculdade de História por fazer ao longo de quatro anos (que viraram cinco), mais a própria coluna para o site, o blog acabou adormecendo. Para acordar justamente na pior época possível: setembro de 2015, às vésperas do fracasso da Oranje nas eliminatórias da Euro. Que foi mais um item a colaborar para o cenário atual, pelo qual o futebol holandês atrai cada vez menos atenção – se é que um dia realmente atraiu atenção no Brasil, mesmo em tempos de brilho de Romário, Ronaldo, Gomes, Alex etc. A má fase da seleção também não ajuda: tudo bem, terminará 2016 na segunda posição de seu grupo nas eliminatórias da Copa de 2018, mas não há a menor confiança sobre as possibilidades dela de realmente chegar à Rússia. Cá entre nós, 2018 é meio a "data limite" deste blog.

Várias vezes pensei e penso em interromper o blog. Não significa que o blogueiro deixará de gostar de futebol holandês. Longe, muito longe disso. Mas é óbvio que trata-se de um assunto que só trará algum interesse ao público em casos especiais, ou em épocas de Copa do Mundo - e olhe lá. Resta ajudar as pessoas que se interessam pelo assunto, conversar com elas. O retorno de leitura que isso traz me faz pensar que talvez o futebol holandês não seja tão desinteressante assim, também continua sendo um óbvio estimulante para continuar. “Mas há sempre coisas para falar? Como fazer para que a coluna não vire uma sequência semanal de Ajax, PSV e Feyenoord?”, pode-se perguntar. Há, sempre há. 

E houve nesta semana. A coluna teria uma variedade considerável de temas para escolher. Para começo de conversa, o interesse crescente da federação holandesa em uma mudança no sistema de disputa para o Campeonato Holandês, já a partir da próxima temporada. Inspirado no relativo crescimento da Pro League na Bélgica, que ganhou certo espaço na Europa e mostra mais equilíbrio entre os campeões, pensa-se na adoção de um hexagonal ao final das rodadas regulares, para a decisão do título – sem contar a definição das vagas europeias, como até ocorreu em temporadas passadas. A ideia ainda está na fase inicial, mas certamente será discutida e comentada. Até aqui, mesmo.

Assim como a nova série de problemas entre o ADO Den Haag e o mecenas do clube, Hui Wang: o clube reclama que o dinheiro da Vansen United, empresa de Wang, novamente está demorando para chegar a Haia, enquanto o chinês retruca dizendo que o clube é que está fazendo mau uso do montante pesado investido. Sem contar o conflito cada vez mais crescente, à beira de explodir, entre o Conselho Deliberativo do clube, desejoso de manter a presença “holandesa” no clube, e Wang, cuja intenção é aumentar a presença de chineses na direção do Den Haag.

Mais assunto? Claro: a apresentação do ambicioso projeto do Feyenoord para seu novo estádio, à beira do Rio Maas, na zona sul de Roterdã, com duas claras intenções: não só substituir De Kuip, mas ser um complexo de entretenimento que traga muito mais dinheiro ao Stadionclub – com direito a cervejaria, hotel e cinema dentro do espaço. Óbvio, haverá muita conversa com a prefeitura, para ver se é possível haver alguma ajuda. Mais óbvio ainda, a iniciativa privada de Roterdã será chamada para abrir a carteira.

Enfim, tudo isso mereceria uma coluna. Mas não agora. O acidente aéreo que dispensa menção torna o futebol holandês, merecedor desse espaço, realmente desimportante. Só vale a pena citar as homenagens comuns e esperadas – fosse por mídias sociais, tanto de clubes (PSV, Feyenoord, Heerenveen, Heracles, Zwolle, AZ, Utrecht) quanto de jogadores (Dirk Kuyt, Eljero Elia, Eric Botteghin), fosse como o Ajax fez, com a simpática decisão de enviar a Chapecó uma carta, escrita e assinada pelo diretor geral Edwin van der Sar.

Talvez, até, o fato doloroso ocorrido no Cerro El Gordo, em La Ceja, na madrugada de terça, fosse um gancho para um texto trazendo uma triste lembrança relacionada com a Holanda: do desastre aéreo com um DC-8 da empresa surinamesa SLM, na cidade de Zanderij, também no Suriname, em 7 de junho de 1989, vitimando 176 pessoas e ferindo gravemente 11 – entre as quais, toda a delegação do Kleurrijk Elftal, o “11 colorido”, combinado formado a partir de 1986 com jogadores surinameses (ou holandeses com ascendência no país) para fazer jogos beneficentes na antiga colônia nederlandesa, contando com as óbvias presenças de gente como Ruud Gullit, Frank Rijkaard, Aron Winter, Henk Fräser – que se salvaram por não terem sido liberados por seus clubes – e Stanley Menzo – este escapou do desastre por ter viajado num voo anterior.

No FC Eindhoven, Alemão chocou-se ao saber do acidente que vitimou os antigos colegas de clube (Pro Shots)
Tal sugestão foi dada pelo confrade Leandro Stein, na quarta passada. Mas com uma advertência: talvez fosse melhor esperar um pouco, para que não soasse como oportunismo. Pois bem: o colunista decidiu que a saudade importa mais. Mais do que a mudança do sistema de disputa, mais do que a crise no ADO Den Haag, mais do que o projeto do Feyenoord, mais do que trazer mais dor com a triste lembrança do Kleurrijk Elftal, mais do que tudo isso. Daí, este texto não dizer nada. Ser um silêncio, ainda que cheio de palavras, para dedicar a mente à torcida de que as famílias das vítimas consigam apoio no processo duro de transformar luto e dor em saudade e boas lembranças. 

Enfim, um texto que levasse a condolências. Como as que fez Davinson Sánchez, destaque do Nacional de Medellín na Copa Libertadores, já titular absoluto no Ajax. Ou as que fez o atacante brasileiro Alemão, do FC Eindhoven (segunda divisão holandesa) que defendeu a Chapecoense em 2014, ano em que ela reestreou na Série A.

Enfim, paremos por aqui. Qualquer outro assunto fica para a próxima semana.

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 2 de dezembro de 2016. Revista e corrigida)

quinta-feira, 24 de março de 2016

Cruyff colocou o futebol holandês no mapa

Cruyff para sempre apontou os caminhos do futebol holandês (Sportfotodienst gmbH/VI Images)
Antes de Pelé? Ah, antes de Pelé houvera Friedenreich, Leônidas, Zizinho, Ademir de Menezes. Antes de Maradona? Ah, antes de Maradona houvera Loustau, Pedernera, Di Stéfano. Antes de Beckenbauer? Ah, antes de Beckenbauer houvera Fritz Walter e Helmut Rahn. Antes de Zidane? Ah, antes de Zidane houvera Michel Platini, Raymond Kopa, Just Fontaine. Antes de Roberto Baggio? Ah, antes de Baggio houvera Silvio Piola, Giuseppe Meazza, Giampiero Boniperti, Gigi Riva, Luigi Rivera. Antes de Andrés Iniesta e Xavi? Ah, antes deles houvera Telmo Zarra, Ladislao Kubala, Enrique "Quini" Castro, Emilio Butragueño...

Claro, houve gente da Holanda que tratou bem a bola antes dele. Mas nenhum (ressalte-se: NENHUM) com a capacidade de pensar sobre o jogo, colocar em prática um estilo de jogar futebol que marcasse tanto um país - e que colocasse, por tabela, o próprio país no mapa do futebol mundial -, que criasse raízes tão fundas, até hoje seguidas de um modo ou de outro pelos times e pelas seleções holandesas depois dele. Enfim: nenhum jogador holandês simbolizara tanto o país no resto do mundo. Por isso, é justo dizer: não havia futebol holandês, não havia seleção holandesa antes de Hendrik Johannes Cruyff, falecido nesta quinta aos 68 anos, vestir a camiseta laranja.

Nascido em Amsterdã (cresceu na Akkerstraat, no bairro de Betondorp), Cruyff foi maturando sua habilidade nas peladas pelas ruas de Amsterdã - isso, quando não tinha de trabalhar na quitanda mantida pela mãe, Petronella "Nel" Bernarda Draaijen, e pelo pai, Hermanus "Manus" Cornelis Cruyff. Porém, em 1959, seu pai "Manus" morreu, vitimado por um ataque cardíaco, no que foi um dos maiores traumas de sua vida. A perda também levou-o para um caminho decisivo em sua carreira: já trabalhando voluntariamente no Ajax, não só "Nel" passou a ser remunerada pelo clube, mas também foi trabalhar como empregada doméstica na casa do inglês Vic Buckingham, técnico do Ajax. Enquanto isso, "Jopie" (apelido de infância de Cruyff) já estava na escolinha do Ajax desde 1957. E não demorou a ascender para marcar época. Veloz e técnico ao mesmo tempo. Parecia correr o que não pudera na infância, por um problema de saúde. Ao mesmo tempo, parecia ter o campo todo em sua cabeça.

Tanto é que marcou gol logo em sua estreia pelos profissionais do Ajax, ainda com Vic Buckingham como o treinador – o único do time na derrota por 3 a 1 para o GVAV, em 15 de novembro de 1964, pela 11ª rodada do Campeonato Holandês 1964/65. E justamente em 1965, chegou aquele que seria seu mestre, o sujeito que exigiria demais dele – mas também o trataria como seu pupilo, numa relação de amor e ódio: Rinus Michels. Que faria de Cruyff o  ponto principal, o “primus inter pares”, o craque entre craques, o personagem a ajudá-lo em campo no caminho que levou o Ajax a se transformar num clube lendário no futebol europeu e mundial. O pupilo reconheceu isso quando Michels faleceu, em março de 2005: "Ele me deu muitas broncas, mas me fez ser o que sou".

Também ficou marcada desde cedo a irascibilidade do gênio. Basta mencionar sua primeira partida pela seleção holandesa, em 7 de setembro de 1966, contra a Hungria, num amistoso. Ele já marcou o primeiro de seus 33 gols pela Oranje. Mas também foi o primeiro jogador da história da equipe nacional holandesa a ser expulso de campo. Afetou tanto sua imagem que recebeu uma suspensão de um ano. Seu temperamento pode ser resumido numa frase dita orgulhosamente: "Nunca aceitei uma ordem".

Tão logo voltou, viu-se que não se poderia prescindir daquele jogador único. E único não só dentro de campo. Sua parceria com o sogro Cor Coster (sogro a partir de 1968, após o casamento com Danny) o transformou no primeiro jogador holandês a capitalizar em cima da própria imagem naquele futebol de riqueza crescente. Cada patrocínio, cada camisa que vestia, cada produto que propagandeava: tudo rendia a Johan milhares de florins, a moeda holandesa antes do euro. Vale dizer: Cruyff não era só um símbolo do futebol holandês, era um símbolo da mudança da sociedade holandesa nos anos 1960-70. Basta lembrar da camisa de duas listras que a Adidas fez para ele na Copa de 1974, já que ele se negava a usar a camisa com as três listras que marcam a multinacional de material esportivo - rival da... Puma, que patrocinava... Cruyff.

E tudo isso - seu brilhantismo dentro de campo, seu temperamento fortíssimo, sua capacidade para promover sua imagem – foi visto no início dos anos 1970. No Ajax, como já dito, ele foi o personagem principal daquela equipe que colocou os Ajacieden no mapa, com o tricampeonato da Copa dos Campeões, mais Mundial Interclubes de 1972 (nos outros anos, o Ajax declinou da participação), três títulos holandeses (1969/70, 1971/72 e 1972/73) e três Copas da Holanda (1969/70, 1970/71 e 1971/72). Pessoalmente, foi o goleador da Eredivisie em 1966/67 e em 1971/72. Sem contar seus três prêmios como melhor jogador da Europa, em 1971, 1973 e 1974.

Nesse tempo de Ajax, duas histórias merecem menção. Em 30 de agosto de 1970, Cruyff voltava de uma lesão na virilha, num clássico contra o PSV, pela rodada do Campeonato Holandês. Na reserva, vestia a camisa 14, enquanto a 9 (seu número habitual até então) ficou com Gerrie Mühren. O Ajax venceu por 1 a 0. Na semana seguinte, por "ter achado legal", Cruyff usou novamente a 14. E estva definido o número que usou por toda a carreira, e que até lhe rendeu um de seus apelidos. A outra história: em 1973, o técnico Stefan Kovacs decidiu fazer uma votação para ver quem seria o capitão do Ajax. Cruyff era o titular da braçadeira, mas o atacante Piet Keizer a exigia. Por 13 votos a 3, o elenco decidiu que Keizer seria o novo capitão. Bastou: julgando que o elenco cometera uma quebra de confiança, o "Nummer 14" saiu da sala de votação direto para seu quarto no hotel, ligando para o sogro e empresário Cor Coster. Suas palavras: "Ligue imediatamente para o Barcelona. Estou saindo". E assim Cruyff tomou o caminho de Les Corts, onde também fez história definitiva.

Na Oranje, participou das eliminatórias para as Copas de 1970 e 1974. Mas, acima de tudo, teve fundamental papel na decisão de trazer Rinus Michels para o comando da seleção, no início de 1974. E, óbvio, foi o principal interlocutor e principal peça da equipe que assombrou o mundo na Copa daquele ano. De fato, Cruyff merecia cada um dos apelidos que ganhou a partir dali: “Nummer 14” (Número 14), “Pitágoras de chuteiras”, “O salvador” (dado pela torcida do Barcelona, após o título espanhol de 1973/74, encerrando 14 anos de jejum). Enfim, o personagem principal do Totaalvoetbal.

Depois da Copa de 1974, é justo dizer que Cruyff estaria para sempre na história do futebol mundial. Tanto é que seu nome só ganhou o “y” então, para facilitar a leitura do resto do mundo, distanciando-o da grafia holandesa “Cruijff”. Porém, a partir dali seu nome perdeu um pouco de força. Na seleção, uma participação turbulenta na Euro 1976, e a recusa em participar da Copa de 1978. Até hoje, vários motivos são ventilados: a ameaça de sequestro da família, recusa em viajar à Argentina então sob ditadura militar, eventual ordem da mulher após suposta noite passada com prostitutas às vésperas da final de 1974... enfim, o fato é que Cruyff parou com a Laranja após 48 jogos e 33 gols.

Pior: também sua produtividade pelos clubes caiu. A ponto dele declarar o fim da carreira já em 1978, um dos seus mais melancólicos anos. Na partida de “despedida”, o Ajax encarou o Bayern Munique... e perdeu por 8 a 0, a mais dura derrota da carreira de Cruyff. Mais: carreira encerrada, ele tentou viver dos negócios em Barcelona com o amigo Michel Basilevitch, na criação de porcos e na exportação de vinho, cimento e imóveis. Fracasso, prejuízo e fuga de Basilevitch, deixando Cruyff com seis milhões de florins em débitos variados.

Restou tirar as chuteiras do armário e aceitar ofertas variadas para pagar as dívidas. Na lucrativa NASL, a liga norte-americana da época, passagens pelo Los Angeles Aztecs e pelo Washington Diplomats; um jogo único pelo Milan; um semestre rapidíssimo no Levante-ESP... mas sua carreira só voltou aos eixos após o retorno ao Ajax, em 1981. Inicialmente, nem era para jogar, mas para auxiliar o treinador Leo Beenhakker. Qual nada: Cruyff voltou aos gramados e foi personagem fundamental nos títulos holandeses de 1981/82 e 1982/83. Daí, o Ajax acreditou que ele estava “velho”, e não renovou seu contrato. Bastou para a vingança maligna: Cruyff aceitou a proposta do arquirrival Feyenoord, onde conquistou a Eredivisie e a Copa da Holanda na temporada 1983/84. 

Carreira encerrada no campo, Cruyff começou no banco de reservas. Treinando o Ajax entre 1985 e 1988, não só levou os Amsterdammers ao título da Recopa europeia, em 1987/88, mas também revelou vários jogadores: os De Boer, Dennis Bergkamp, Sonny Silooy... sem contar gente com quem havia jogado e que ganhou espaço com ele no banco, como Marco van Basten e Frank Rijkaard. Como não poderia deixar de ser, um desentendimento com a diretoria do Ajax o tirou do clube, em 1988, levando-o ao Barcelona – sua outra casa, o outro clube em que fez história. 

Também por sua personalidade irascível é que a federação holandesa nunca o chamou seriamente para treinar a Oranje, coisa que muito se esperou até hoje. E por ela, também, sua relação com o Ajax sempre foi turbulenta – basta citar o projeto natimorto de trabalho com Van Basten quando este assumiu o clube, em 2008, ou a “Revolução de veludo" rachada nesta temporada.

Ainda assim, se a importância de Cruyff no Barcelona é gigante, no futebol holandês ela é ainda maior, definitiva. Basta saber que até livros foram editados com suas frases. “Toda desvantagem tem sua vantagem”; “Os italianos não podem lhe vencer, mas você pode perder para eles”; “Antes de cometer um erro, eu não cometo um erro”... viraram marcas das “Cruijfiaans”, suas tiradas misteriosas e até curiosas.

Mas hoje, neste dia em que a Holanda para, pela perda de um de seus símbolos mundiais (Cruyff foi eleito o sexto holandês mais importante da história do país, numa pesquisa de 2004 - à frente de Anne Frank, Rembrandt e Vincent van Gogh), basta lembrar duas frases para dimensionar sua importância. A primeira: “Jogar futebol é muito simples, mas jogar o futebol de modo simples é a coisa mais difícil que há”. E a segunda: “Em qualquer sentido, eu provavelmente sou imortal”. De fato: em cada Cruyff Court (quadras destinadas a crianças carentes para a prática do futebol), em cada aluno da Cruyff University (faculdade destinada à formação de dirigentes esportivos), em cada mudança tática vista atualmente, em cada elogio de gente como Josep Guardiola, não há como não reconhecer: Verdade, Johan, verdade. De fato, você é imortal.