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quarta-feira, 9 de julho de 2025

Caindo na real

A Inglaterra mostrou sua força na Eurocopa feminina. Azar da Holanda, cujas expectativas levemente positivas foram reduzidas a pó (Fran Santiago - UEFA/Getty Images)

Em qualquer momento entre os 5 e os 10 minutos do primeiro tempo, a bola ficou para uma dividida. Victoria Pelova, meio-campista da Holanda (Países Baixos), foi tentar dominá-la na disputa com a inglesa Georgia Stanway, e... foi facilmente superada por Stanway, fisicamente e tecnicamente. Stanway saiu com a bola, e a jogada seguiu. Foi um lance perdido, mas foi exemplar de como a seleção feminina da Inglaterra se impôs diante das Leoas Laranjas, no segundo jogo de ambas pela fase de grupos da Eurocopa de mulheres. A imposição foi técnica, foi tática, foi em gols: uma goleada por 4 a 0, que apagou qualquer boa impressão que se tivesse da equipe holandesa, após a estreia contra Gales.

Na verdade, a imposição inglesa já se fez notar com apenas 44 segundos de bola rolando em Zurique: com as inglesas pressionando as holandesas, Ella Toone (substituindo Beth Mead para começar o jogo) chegou perto de Wieke Kaptein a ponto de fazer com que a meio-campista precisasse recuar a bola para Daphne van Domselaar. Toone fez falta, mas já era um sinal. Fortalecido pelo tamanho do domínio da dupla Alex Greenwood-Lauren Hemp sobre Kerstin Casparij, na esquerda do ataque inglês, já iniciado aos 4': Greenwood cruzou, e quase Lauren James marcou o gol, cabeceando para fora. E seguido aos 9', quando Hemp foi quem cruzou, e Alessia Russo foi quem quase colocou a bola na rede.

Talvez a única vez em que jogadoras holandesas conseguiram escapar com a bola para o ataque tenha sido aos cinco minutos. Chasity Grant (substituta de Daniëlle van de Donk nas titulares) cruzou, e Vivianne Miedema dominou na área, mas a bola escapou do domínio, e a goleira Hannah Hampton pegou. No mais, a Inglaterra jogou as Leoas Laranjas num "círculo vicioso". Não conseguiam atacar, porque não tinham a bola. E não tinham a bola porque, nas divididas, quase sempre as inglesas ganhavam. Ao ganharem a bola, empurravam as holandesas para a defesa, e elas não conseguiam atacar. O primeiro gol das "Lionesses" até demorou - e nem teve tanta troca de passes assim. Foi mais eficiente: o tiro de meta de Hannah Hampton virou lançamento, Alessia Russo superou Dominique Janssen facilmente na corrida, veio pela direita com a bola, tocou para o meio, e Lauren James dominou na entrada da área antes de um belo chute, no ângulo esquerdo, indefensável para Van Domselaar.

Só um chute de Jill Roord, colocado, para fora, aos 26', interrompeu um pouco a ampla superioridade inglesa. Que teve até mais chances à medida que o primeiro tempo ficava perto do fim. Principalmente, em cruzamentos para a área. E agora, também da esquerda. Como aos 36', quando Keira Walsh cruzou e Lauren Hemp cabeceou para fora. Aos 38', Van Domselaar teve de trabalhar, rebatendo cabeceio de Russo - que voltou a tentar, aos 42', também mandando para fora. O segundo gol inglês ainda viria antes do intervalo, mas pelos pés. De Georgia Stanway, que aproveitou rebote de falta e chutou, no canto direito de Van Domselaar - que talvez pudesse ter defendido, não tivesse tantas holandesas (linha de cinco) acuadas à sua frente, impedindo visão melhor.

Das vindas a campo no intervalo para o time holandês, Spitse foi a "menos pior". Pelo menos, participou de algumas jogadas (Stan Oosterhof/Soccrates/Getty Images)

Restava fazer algo para evitar que o já ruim ficasse pior. E Andries Jonker até fez, colocando Sherida Spitse (para melhorar a saída de bola holandesa), Caitlin Dijkstra (para melhorar a marcação na lateral esquerda) e Lineth Beerensteyn (para, quem sabe, dar tanta velocidade na esquerda quanto Grant poderia dar na direita). A realidade? Já aos 51', Alessia Russo teve gol anulado, por impedimento. Spitse, de fato, entrou até bem, participando da primeira chance holandesa, lançando a bola para Grant completar, para fora. Porém, o lance do terceiro gol inglês, aos 60', foi exemplar da desorganização defensiva das Leoas Laranjas. Um lançamento longo, Keira Walsh dominou na esquerda, passou facilmente por Spitse na direita, cruzou, Ella Toone dominou a bola na esquerda da grande área e chutou, Van Domselaar ainda rebateu, mas Lauren James estava livre para fazer 3 a 0. 

Veio ainda a entrada de Van de Donk, para minorar o tamanho do domínio inglês no meio-campo. Era pouco. E ficou menos ainda com o quarto gol, em outro lançamento longo inglês aproveitado de jeito eficiente: Hemp dominou pela esquerda, cruzou, e Ella Toone teve todo o espaço para dominar e chutar em diagonal no quarto gol. Chances holandesas, só aos 79', quando Spitse aproveitou lançamento de Victoria Pelova mas chutou para fora, e aos 84', em outro arremate errado, de Wieke Kaptein. Mas a Inglaterra sempre deixava claro quem era melhor, em chances como aos 82', quando quase saiu belo gol em triangulação: de Lauren Hemp para Grace Clinton, desta para Alessia Russo, e só Van Domselaar, à queima-roupa, evitou o quinto gol.

Gols a mais ou a menos não fariam diferença, para uma Inglaterra que fez o que a torcida dela desejava: se impôs, mostrou que não está na Euro feminina a passeio. Deixou claro que é bem melhor do que a Holanda, ao fazê-la ser derrotada por mais de dois gols, pela primeira vez num grande torneio (e por mais de um gol, pela primeira vez em participações holandesas na Eurocopa). Às Leoas Laranjas, restam alguns dias para recuperação, antes de outro desafio, contra a França. Que precisa ser vencido, para que a eliminação na fase de grupos não venha. E não aumente a dureza da realidade que ficou clara nesta quarta-feira.

Euro feminina 2025 - Fase de grupos - Grupo D

Inglaterra 4x0 Holanda
Data: 9 de julho de 2025
Local: Letzigrund (Zurique)
Juíza: Edina Alves Batista (Brasil)
Gols: Lauren James, aos 22' e aos 60', Georgia Stanway, aos 45' + 2, e Ella Toone, aos 67'

INGLATERRA
Hannah Hampton; Lucy Bronze (Niamh Charles, aos 83'), Leah Williamson, Alex Greenwood e Jess Carter; Keira Walsh e Georgia Stanway; Ella Toone (Grace Clinton, aos 75'), Lauren James (Chloe Kelly, aos 69') e Lauren Hemp (Beth Mead, aos 75'); Alessia Russo (Agnes Beever-Jones, aos 83'). Técnica: Sarina Wiegman

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Kerstin Casparij, Veerle Buurman (Sherida Spitse, aos 46'), Dominique Janssen e Esmee Brugts (Caitlin Dijkstra, aos 46'); Victoria Pelova, Wieke Kaptein e Jackie Groenen (Damaris Egurrola Wienke, aos 85'); Chasity Grant, Vivianne Miedema (Daniëlle van de Donk, aos 66') e Jill Roord (Lineth Beerensteyn, aos 46'). Técnico: Andries Jonker

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Falta quem decida

O começo da semifinal da Euro foi ótimo para a Holanda. O meio, porém, foi terrível. Mas quando parecia que o pior passara, aí é que ele veio: a eliminação, com gol nos acréscimos (Ian MacNicol/Getty Images)

Apoio não faltou à seleção masculina da Holanda (Países Baixos): tanto nas 110 mil pessoas que lotaram as ruas de Dortmund no caminho até o Signal Iduna Park, quanto nas que efetivamente estiveram no estádio. Esforço, também não faltou: para uma seleção que jogou a Euro 2024 praticamente sem o seu meio-campo titular, chegar às semifinais já foi uma campanha digna de aplausos, indicando que se encontrou um caminho. Todavia, ainda falta a esta geração da Laranja o jogador capaz de ser decisivo em momentos importantes. Coisa que a Inglaterra tem, de sobra. Assim como alguma ousadia a mais. E por isso, os ingleses impuseram mais uma decepção à Oranje, eliminada nas semifinais da Euro com um gol nos acréscimos do segundo tempo.

Com Donyell Malen começando como titular, na direita, a Laranja pensava em ter alguma velocidade com a bola nos pés, para tentar aproveitar os espaços que a Inglaterra desse. E tudo isso deu certo, do melhor jeito possível: aos 7', Xavi Simons roubou a bola de Declan Rice, carregou-a um pouco mais, arriscou o chute de fora e... petiscou, acertando o ângulo direito do goleiro Jordan Pickford e fazendo 1 a 0 para o selecionado dos Países Baixos. Um começo tão promissor que parecia bom demais para ser verdade. Até porque o resto da etapa inicial mostrou que não era. Pouco depois, a Inglaterra é que começou a aproveitar mais os espaços que o time holandês lhe dava.E os seus destaques começaram a trazer mais perigo. Começou com Harry Kane, aos 13', num chute de média distância espalmado por Bart Verbruggen. 

Paralelamente, Bukayo Saka tinha muito espaço às costas de Cody Gakpo - e na frente de Nathan Aké, preocupado com o miolo de zaga. Bastou uma jogada dele, aos 18', para que Kane tentasse finalizar de voleio, sendo atingido no tornozelo por Denzel Dumfries. O juiz Felix Zwayer até deixou passar num primeiro momento, mas o VAR, não: pênalti, cartão amarelo para Dumfries, Kane cobrou, 1 a 1. Era só o começo da superioridade inglesa. Além dos dois citados, Phil Foden começou a se impor, quase fazendo o segundo gol aos 23', após passar por Aké, Tijjani Reijnders e Verbruggen (Dumfries salvou rigorosamente em cima da linha). Após um rápido sinal de vida holandês - Dumfries cabeceou a bola no travessão aos 30' -, os espaços e a posse de bola ingleses seguiam. Assim como os chutes colocados de Foden. O primeiro, aos 32', na trave; o segundo, aos 39', defendido por Verbruggen. Para piorar a situação holandesa, as dores crônicas de Memphis Depay no músculo posterior da coxa voltaram, na mais imprópria das horas. Já aos 35', ele precisou ser substituído, com Joey Veerman tentando recompor o meio-campo, tirando indiretamente as capacidades ofensivas já pequenas da Holanda.

A Laranja vinha sem lesões no decorrer da Euro... mas os problemas de Memphis Depay com o músculo posterior da coxa voltaram, na pior hora possível. E o ataque sofreu (Koen van Weel/ANP/Getty Images)

Seria uma partida "longa". Ainda mais porque Wout Weghorst já veio a campo, no intervalo, substituindo Malen e indicando: a Holanda seria bem mais reativa. Esperaria as chances para que Weghorst aproveitasse. Seria bem mais... lenta. A tal ponto que, por boa parte do segundo tempo, parecia até que a Laranja tivera um jogador expulso, de tão retraída que estava em campo. Contudo, a Inglaterra também não pressionava tanto quanto no primeiro tempo, com o meio-campo mais fechado - e, faça-se destaque, Jerdy Schouten foi quem mais ajudou nisso, evitando que muitos ataques chegassem à defesa. Com isso, em algumas poucas chances, até que a Holanda teve esperanças. Como aos 64', quando Joey Veerman cobrou falta, Virgil van Dijk desviou, e Jordan Pickford teve de espalmar para escanteio. Ou mesmo aos 78', quando Weghorst ajeitou um cruzamento com a cabeça, e Xavi Simons chutou de voleio - mas chutou fraco, sem trazer muitos problemas.

Entretanto, outro problema que a Holanda tem apareceu na pior das horas: a falta de ousadia de Ronald Koeman nas substituições. Na reta final do jogo, o técnico neerlandês manteve o time sem alterações. Já Gareth Southgate, mesmo contestado, mesmo vendo a Inglaterra ter no segundo tempo a lentidão que mostrou na maior parte da Euro... arriscou. Tirou Kane e Foden, talvez seus dois melhores jogadores na partida, para acelerar o ataque com Cole Palmer, no meio, e Ollie Watkins, na frente. Foi premiado. Porque coube a Palmer fazer o lançamento em profundidade, já nos acréscimos (90' + 1). E coube a Ollie Watkins ser mais rápido do que Stefan de Vrij para chutar cruzado e fazer o gol tardio que colocou a Inglaterra na segunda final seguida de Eurocopa.

Porque, no fim das contas, a Holanda se esforçou, fez uma Euro até além das expectativas... mas lhe faltou nomes decisivos. Nomes que a Inglaterra tem. Por isso ela está classificada.

UEFA Euro 2024 - Semifinal

Holanda 1x2 Inglaterra
Local: Signal Iduna Park/BVB Stadion (Dortmund)
Data: 10 de julho de 2024
Árbitro: Felix Zwayer (Alemanha)
Gols: Xavi Simons, aos 7', Harry Kane, aos 18', e Ollie Watkins, aos 90' + 1

HOLANDA
Bart Verbruggen; Denzel Dumfries (Joshua Zirkzee, aos 90' + 3), Stefan de Vrij, Virgil van Dijk e Nathan Aké; Jerdy Schouten e Tijjani Reijnders; Donyell Malen (Wout Weghorst, aos 46'), Xavi Simons (Brian Brobbey, aos 90' + 2) e Cody Gakpo; Memphis Depay (Joey Veerman, aos 35'). Técnico: Ronald Koeman

INGLATERRA
Jordan Pickford; Bukayo Saka (Ezri Konsa, aos 90' + 3), Kyle Walker, John Stones, Marc Guéhi e Kieran Trippier (Luke Shaw, aos 46'); Declan Rice, Kobbie Mainoo (Conor Gallagher, aos 90' + 3), Phil Foden (Cole Palmer, aos 81') e Jude Bellingham; Harry Kane (Ollie Watkins, aos 81'). Técnico: Gareth Southgate

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Sorte até no azar

A seleção feminina da Holanda oscilou, mas se esforçou. Teve um prêmio comovente: classificação eletrizante às semifinais da Liga das Nações (KNVB Media/Divulgação)

Quando terminou o jogo entre Holanda e Inglaterra, pela Liga das Nações feminina, o técnico Andries Jonker se manteve tranquilo. Até comemorou, falando à emissora NOS: "Uma das metas da Liga das Nações é a classificação para os Jogos Olímpicos. Podíamos passar por uma derrota por um gol de diferença. E tomamos, por um fio, no segundo tempo. Mas ao conseguir isso... bacana". Pois é. Até mesmo em momentos de decepção, as Leoas Laranjas mantinham as chances de irem às semifinais da Nations League. Como sempre, em se tratando da equipe de mulheres holandesas, esforço não faltou. E somado à sorte, ele rendeu um prêmio inesperadamente dramático: a goleada por 4 a 0 sobre a Bélgica, garantindo a esperada vaga nas semifinais, mantendo a esperança de um lugar no torneio olímpico, já está entronizada como um dos momentos mais comoventes da história recente do futebol feminino neerlandês.

Poderia ter sido mais tranquilo, é verdade. Porque o primeiro tempo em Wembley, na sexta passada, foi exemplar do que os Países Baixos podem jogar no futebol feminino, diante de uma Inglaterra vice-campeã mundial, que obviamente iria com tudo em busca do primeiro lugar do grupo 1 da liga A. Na defesa, Daphne van Domselaar fez uma ótima defesa em chute de Lauren Hemp, aos 11' (em lance no qual a Holanda até foi favorecida pela juíza sueca Tess Olofsson - afinal, não foi marcado escanteio). No ataque, Lineth Beerensteyn enfim aproveitou muitas chances de ataque. Na primeira, aos 12', após lançamento primoroso de Victoria Pelova, a atacante ajeitou, aproveitou falha da defesa inglesa e fez 1 a 0; no segundo, aos 35', ela recebeu a bola ajeitada de cabeça por Lieke Martens e chutou bola defensável... mas que entrou, em falha inegável da goleira Mary Earps. E as neerlandesas tiveram até chances de ampliar, surpreendendo pelo domínio e pela eficiência: Daniëlle van de Donk mandou para fora aos 17', e Jill Roord acertou o travessão aos 22'. Tudo isso, amparado em uma atuação soberana de Jackie Groenen, evitando qualquer problema para a defesa ao ser incansável na marcação, no 1º tempo. As Leoas - no caso, "Lionesses", não as "Leeuwinnen" - só chegaram com Lauren James, aos 24', e Chloe Kelly, aos 37'.

Só que Groenen se machucou já no primeiro tempo, e teve de sair no intervalo. Já mais recuperada após o rompimento de seu ligamento cruzado anterior, Beth Mead veio a campo para ser mais uma a fortalecer a pressão que a Inglaterra certamente faria na etapa final, além de quem já estava em campo (Georgia Stanway, Lauren James, Chloë Kelly, Lauren Hemp, Lucy Bronze ajudando...). Diante de uma Holanda que demorou para se assentar, o empate demorou só dois minutos: Stanway cabeceou cruzamento primoroso de James aos 58', e Lauren Hemp bateu forte após Stanway ajeitar na área aos 60'. A coisa foi piorando para a Holanda: Sherida Spitse sentiu dores e teve de sair aos 70' - tirando a experiência de uma zaga cronicamente problemática -, Van de Donk também deixou o campo aos 85' (sentia tantas cãibras que se temeu até lesão grave), a Inglaterra pressionava cada vez mais (em que pese tentativa de Martens aos 89')... e Andries Jonker resumiu à ESPN neerlandesa: "Não aguentamos". No primeiro minuto dos acréscimos, mais um cruzamento preciso de Lauren James, Ella Toone cabeceou à queima-roupa, Inglaterra 3 a 2. E as inglesas quiseram mais gols. Não conseguiram.

Foi o que animou um pouco a Holanda: afinal, a liderança no grupo ainda estava mantida, pela vantagem no saldo de gols. Mesmo com o descuido da UEFA ao permitir Inglaterra e Escócia na mesma chave (com a Inglaterra mantendo a chance de ir aos Jogos Olímpicos, como Grã-Bretanha, com algumas jogadoras escocesas podendo entrar debaixo do "guarda-chuva" britânico...), havia plena confiança em uma vitória contra a Bélgica. Confiança que se esvaiu, pelo menos no primeiro tempo. Porque no jogo em Tilburg, as holandesas mais perderam chances - Esmee Brugts aos 25', Damaris Egurrola aos 33', até um gol anulado de Lieke Martens - do que fizeram gols. Só Beerensteyn abriu o placar, aos 34'. Vantagem que parecia insuficiente, tendo em vista que a Inglaterra, com todos os destaques ofensivos, já fazia 4 a 0 na Escócia, prometendo fazer mais no segundo tempo.

Fez 5 a 0, com Lucy Bronze, tão logo a etapa final começou. Mesmo fazendo rapidamente 2 a 0 - também Beerensteyn, 11º gol dela pela seleção no ano -, a Holanda sofria. Sofria para tentar achar espaços, numa Bélgica bem postada defensivamente, com várias zagueiras impedindo espaços em frente ao gol de Nicky Evrard. Sofria até na defesa, cedendo espaços para alguns contragolpes (Daphne van Domselaar até fez defesa importante aos 69', em chute de Tessa Wullaert). Restava a Andries Jonker colocar toda a força ofensiva que convocou, especialmente para momentos assim. Primeiro, com o nome mais importante: Vivianne Miedema, vinda aos 66' (e tendo chance para um golaço aos 80', driblando cinco zagueiras antes do chute que Evrard pegou). Depois, Katja Snoeijs, Renate Jansen, Romée Leuchter... tudo por um gol. Que veio, no primeiro minuto dos acréscimos, com Damaris Egurrola Wienke, substituindo a machucada Jackie Groenen nos 90 minutos.

O segundo gol de Damaris Egurrola, contra a Bélgica, já nasceu histórico: loucura em campo e na torcida em Tilburg (KNVB Media/Divulgação)

Poderia ser o final heróico, já que a Holanda superava a Inglaterra no saldo de gols. Inglesas que tinham parado nos 5 a 0... até fazerem o sexto gol, segundos depois do 3 a 0 de Damaris, com Lucy Bronze. Decepção pesada? Não. Porque, num "ataque contra defesa" absoluto dos minutos finais, com a goleira trocada na Bélgica (Diede Lemey, que joga no Fortuna Sittard holandês, no lugar da machucada Evrard), Leuchter cruzou, aos 90' + 5, o último minuto dos acréscimos. Damaris, já avançada, cabeceou. E a bola foi, lenta, lenta... até o canto direito de Lemey. Era o 4 a 0 que enlouqueceu quem estava em campo e fora dele em Tilburg. O gol que fazia a Holanda superar de novo o saldo da Inglaterra, cujo jogo já acabara em Glasgow - e cujos destaques viram, impotentes e lamuriosas, as Leoas Laranjas assegurarem a vaga nas semifinais da Liga das Nações.

Vaga até merecida, pelo esforço que a Holanda sempre demonstrou após a derrota para a Bélgica na estreia. Esforço que, até mesmo no azar da derrota da sexta-feira passada, teve sorte. Mas se a sorte às vezes ajuda quem cumpre sua tarefa... as Leoas Laranjas cumpriram. E agora podem esperar ansiosa e gostosamente pelo sorteio da semifinal (contra França, Alemanha ou Espanha) a ser jogada em fevereiro. Podem continuar sonhando com os Jogos Olímpicos.

Liga das Nações da UEFA - Liga A - Grupo 1

Inglaterra 3x2 Holanda
Data: 1º de dezembro de 2023
Local: Wembley (Londres)
Árbitra: Tess Olofsson (Suécia)
Gols: Lineth Beerensteyn, aos 12' e aos 35', Georgia Stanway, aos 58', Lauren Hemp, aos 60', e Ella Toone, aos 90' + 1

INGLATERRA
Mary Earps; Lucy Bronze, Jessica Carter (Esme Morgan, aos 63'), Alex Greenwood e Niamh Charles (Rachel Daly, aos 85'); Fran Kirby, Keira Walsh e Georgia Stanway (Ella Toone, aos 68'); Chloe Kelly (Beth Mead, aos 46'), Lauren Hemp (Alessia Russo, aos 68') e Lauren James. Técnica: Sarina Wiegman

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Caitlin Dijkstra, Sherida Spitse (Merel van Dongen, aos 70') e Dominique Janssen (Kerstin Casparij, aos 63'); Victoria Pelova (Renate Jansen, aos 63'), Jackie Groenen (Damaris Egurrola Wienke, aos 46'), Daniëlle van de Donk (Shanice van de Sanden, aos 85') e Esmee Brugts; Jill Roord; Lieke Martens e Lineth Beerensteyn. Técnico: Andries Jonker


Holanda 4x0 Bélgica
Data: 5 de dezembro de 2023
Local: Willem II Stadion (Tilburg)
Árbitra: Stéphanie Frappart (França)
Gols: Lineth Beerensteyn, aos 34' e aos 54', e Damaris Egurrola Wienke, aos 90' + 1 e aos 90' + 5

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Caitlin Dijkstra, Sherida Spitse (Kerstin Casparij, aos 73') e Dominique Janssen (Katja Snoeijs, aos 74'); Victoria Pelova (Renate Jansen, aos 88'), Damaris Egurrola Wienke, Daniëlle van de Donk e Esmee Brugts (Vivianne Miedema, aos 66'); Jill Roord; Lieke Martens e Lineth Beerensteyn (Romée Leuchter, aos 88'). Técnico: Andries Jonker

BÉLGICA
Nicky Evrard (Diede Lemey, aos 90' + 4);  Féli Delacauw (Jassina Blom, aos 46'), Janice Cayman, Sari Kees e Laura Deloose (Davina Philtjens, aos 76');  Tine de Caigny,  Kassandra Missipo (Welma Fon, aos 77') e Justine Vanhaevermaet; Marie Detruyer, Tessa Wullaert e Sarah Wijnants (Jody Vangheluwe, aos 76'). Técnico: Ives Serneels


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Ao ataque

A Holanda, alegre e ofensiva, tentará superar Inglaterra e Bélgica para manter o sonho da vaga olímpica, via Liga das Nações (ANP)

Fora a derrota decepcionante para a Bélgica na estreia, até que a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) está se dando bem na Liga das Nações feminina. Afinal, lidera o seu grupo - até inesperadamente, tendo em vista que o favoritismo prévio iria para a Inglaterra, vice-campeã mundial. De todo modo, a impressão é de que será nestas últimas datas FIFA do ano para as seleções de mulheres que as Leoas Laranjas provarão a boa fase que vivem. Até estão perto da vaga nas semifinais (e nelas, a decisão da vaga no torneio olímpico de 2024), mas para a alcançarem, precisam vencer Inglaterra - em Londres, na sexta, 1º de dezembro - e Bélgica - no dia 5, em Tilburg. Dois jogos exigentes. E para eles, a convocação deixou claro: a Holanda vai ao ataque.

O técnico Andries Jonker sinalizou isso ao explicar a convocação: "Queremos vencer, queremos nos classificar. E nos parece compreensível que a gente convoque atacantes de todos os tipos e tamanhos, a essas alturas". A convocação provava isso, de fato. Entre as 24 relacionadas para os jogos, há o que o futebol feminino neerlandês tem de melhor em termos de ataque. Há as titulares habituais dos tempos recentes: Jill Roord (em boa fase no Manchester City), Lieke Martens, Lineth Beerensteyn. Há Vivianne Miedema, ainda em retorno entrecortado no Arsenal, conseguindo alguns minutos em certos jogos e ficando de fora em outros. Há Esmee Brugts, jovem de talento - e cada vez mais importante em termos técnicos, como prova o belo gol da vitória contra a Escócia. Há Renate Jansen, coadjuvante sempre a postos - como esquecer seu gol contra a Inglaterra, nos 2 a 1 de setembro?

Mas há duas novidades. A primeira era a maior (talvez a única) contestação às convocações de Andries Jonker, enfim compensada: Romée Leuchter, a mais destacada atacante do Ajax, atual campeão holandês. Leuchter indicou na Euro passada ser muito promissora (até gol fez), mas sempre ficou afastada das convocações - mesmo relacionada na lista preliminar para a Copa do Mundo, ficou fora das 23 jogadoras que viajaram a Austrália/Nova Zelândia. Agora, ela enfim está de volta às Leoas Laranjas. A segunda novidade foi uma velha conhecida do grupo habitual de convocadas: Shanice van de Sanden. A veterana, querida do grupo, experimenta uma boa fase dentro e fora de campo. Dentro, por estar sendo útil ao Liverpool; fora, por ter se tornado mãe, recentemente. E o feliz fato pessoal motiva ainda mais "Shaan", como ela mesma deixou claro na chegada ao centro de treinamentos da federação, na cidade de Zeist: "Agora que minha filha nasceu, tenho ainda mais energia e felicidade em campo. Mal posso esperar para estar com elas em campo de novo".

Van de Sanden (em primeiro plano, com Snoeijs ao lado): crescendo em campo e com alegria fora dele, a volta à seleção (KNVB Media/Divulgação)

A alegria de Van de Sanden se estabeleceu em treinos tranquilos em Zeist. E a empolgação ofensiva de Andries Jonker seguiu nas palavras à emissora NOS: "Será uma semana empolgante. Agora é a fase decisiva, agora é que tem de acontecer. Escolhemos trazer mais atacantes". Lembrou até da única ausência: "Queríamos trazer até Fenna Kalma, mas seria demais". Empolgação espalhada ao se lembrar do tamanho do desafio que espera a Holanda na sexta-feira: pegar a Inglaterra, em Wembley, lotado. Tanto da parte de Jonker ("Tanto para as jogadoras quanto para a comissão, será incrível. É um estádio que tem muita história") quanto de Jill Roord - esta, falando a Asif Burhan, para a revista Forbes: "Acho que temos muitas jogadoras experientes em nosso time. Gostamos da pressão. A gente meio que curte quando todo mundo está contra a gente, isso nos dá uma motivação. Não acho que será um problema".

Também, pudera. Vencer a Inglaterra praticamente eliminará a vice-campeã mundial na Liga das Nações - e abrirá chance para ir às semifinais que podem valer vaga olímpica. Chance que terá um adversário surpreendente e difícil: a Bélgica, lembrada por Jonker. "Achar que a Bélgica não seria competitiva era coisa da imprensa holandesa. São adversárias duras, aguerridas. Sarina [Wiegman] e eu continuamos dizendo que elas não seriam fáceis. Só a imprensa holandesa achava isso. Mas parece que eu e Sarina estávamos certas".

Ainda assim, com o peso da Inglaterra e a surpresa da Bélgica pela frente, a Holanda está otimista. Não bastasse o poder ofensivo que costuma ter, Vivianne Miedema será a "opção decisiva", como foi nas datas FIFA - e como Andries Jonker prefere que ela seja, por enquanto: "O combinado é como da vez passada: se o jogo estiver acessível, Vivianne terá alguns minutos. E ela precisa se sentir bem, é claro. Veremos como ela se sai nos treinos". Acima de tudo, fica claro em mais palavras do técnico: a Holanda vai ao ataque. "Desde que cheguei à seleção, nós escolhemos ser ofensivos, seja qual for o adversário. Todas se sentem bem com isso. Não vejo razões para mudar. Tentaremos vencer em Wembley".

As 24 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Daphne van Domselaar (Aston Villa-ING), Jacintha Weimar (Feyenoord) e Barbara Lorsheyd (ADO Den Haag)

Laterais: Kerstin Casparij (Manchester City-ING), Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE) e Merel van Dongen (Atlético de Madrid-ESP)

Zagueiras: Caitlin Dijkstra (Twente), Sherida Spitse (Ajax) e Dominique Janssen (Wolfsburg-ALE)

Meio-campistas: Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Victoria Pelova (Arsenal-ING), Damaris Egurrola Wienke (Lyon-FRA), Jill Baijings (Bayern de Munique-ALE) e Wieke Kaptein (Twente)

Atacantes: Lineth Beerensteyn (Juventus-ITA), Lieke Martens (Paris Saint Germain-FRA), Jill Roord (Manchester City-ING), Renate Jansen (Twente), Vivianne Miedema (Arsenal-ING), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Katja Snoeijs (Everton-ING),  Shanice van de Sanden (Liverpool-ING) e Romée Leuchter (Ajax)

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Ganhou quem errou menos

Mais uma reação: Holanda superou falhas, superou o cansaço, superou a Inglaterra. Está na final da Liga das Nações (ANP)
Desde o ano passado, a seleção da Holanda anda mostrando elogiável espírito de reação. Já tinha feito isso na Liga das Nações, no fim do ano passado, com o gol de Virgil van Dijk para empatar o jogo contra a Alemanha e render a vaga na semifinal. Fez isso já em 2019, pelas Eliminatórias da Euro 2020, ao correr atrás da desvantagem em 2 a 0 para a Alemanha e igualar o placar em 2 a 2 (tudo bem, levou o terceiro gol alemão no fim...). E voltou a fazer isso, na semifinal da Liga das Nações, nesta quinta, contra a Inglaterra. De certa forma, foi esse espírito que fez a Laranja superar os erros cometidos no campo do Dom Afonso Henriques, em Guimarães. E alcançar a decisão do torneio amistoso europeu.

Curiosamente, a Holanda até se controlava no primeiro tempo. Mesmo num jogo truncado, a Laranja controlava a saída de bola. Frenkie de Jong já se mostrava pronto para outra atuação primorosa, Georginio Wijnaldum ainda mostrava velocidade, e Denzel Dumfries era opção sempre à disposição pela direita. O problema era quando a bola chegava aos três atacantes. Pelos lados, Steven Bergwijn e Ryan Babel eram pouco acionados. Pelo meio, Memphis Depay tentava - e errava, como na grande chance perdida aos 12', quando Wijnaldum acelerou contra-ataque, passou ao camisa 10 da Oranje, mas este errou a jogada, permitindo que a defesa da Inglaterra tirasse a bola.

Mesmo assim, se a Holanda errava nas chegadas à frente, a Inglaterra sequer chegava à frente. Até os 31 minutos, quando Matthijs de Ligt cometeu erro que fez lembrar: apesar de promissor, ainda tem muito o que aprender. Afinal, por melhor que o zagueiro do Ajax seja (e é), talvez tenha sido arriscado demais apostar na saída de bola rasteira. Uma hora, ela pode dar errado. E deu, quando De Ligt derrubou Marcus Rashford, o juiz Clément Turpin marcou pênalti, e o próprio Rashford fez 1 a 0 para a Inglaterra. 

De Ligt errou no tempo normal, mas corrigiu da melhor maneira possível: fazendo 1 a 1 (BSR Agency)

Por mais que jogasse razoavelmente, a Holanda errara. A Inglaterra punira. E poderia ter sido o golpe fatal, porque a Oranje trocava passes no segundo tempo, buscava espaço, queria o empate... e ele não vinha. Exatamente porque, em vantagem, a seleção inglesa podia apostar nos contra-ataques. Pior: o ataque justificava porque é o ponto fraco desta seleção: Bergwijn, Babel e Memphis Depay fracassavam ao tentar chutes a gol. Aí veio uma jogada que ofereceu o que os holandeses queriam. Assim como houvera o pênalti no 1º tempo, houve um escanteio - e nele, De Ligt "consertou" seu erro, empatando o jogo.


A seleção britânica dos Três Leões poderia até impor novo desastre aos 83', quando levou toda a defesa holandesa de vencida numa bela jogada: do calcanhar de Harry Kane para Raheem Sterling, deste para Jesse Lingard, e de Lingard para o gol. Só que o VAR não deixou, apontando impedimento quase imperceptível (o pé de Lingard estava à frente). O 1 a 1 ficou no placar, a Oranje superou o cansaço e conseguiu levar o jogo à prorrogação. Mas terminou o tempo normal prensada na defesa. Teria de buscar mais coragem - e manter alguma forma - na prorrogação.


Aí a Inglaterra cometeu erros. Tanto no erro de John Stones quanto no de Ross Barkley, Memphis Depay estava a postos, mostrando que é importante mesmo quando tem partida péssima nas finalizações, como ocorreu. No primeiro erro, Memphis falhou, com o goleiro Jordan Pickford rebatendo, mas Quincy Promes teve mais sorte: seu chute desviou em Kyle Walker, e era o 2 a 1. No segundo erro, Depay fez melhor: cruzou para Promes completar, fazer 3 a 1 e levar a seleção à quinta decisão de sua história.

Decisão que será difícil. Portugal tem muitas coisas a seu favor: o retrospecto, a torcida, Cristiano Ronaldo, um time mais descansado (Frenkie de Jong, deitado por alguns segundos após sofrer falta na prorrogação, era a imagem do desgaste holandês). No entanto, a Holanda mostrou capacidade de reação. Por incrível que pareça, mesmo errando, errou menos do que a Inglaterra. Por isso, está na final da Liga das Nações. Se estiver melhor e um pouco mais concentrada, tem toda a capacidade de buscar o título.

Liga das Nações da UEFA - semifinal
Inglaterra 1x3 Holanda
Data: 6 de junho de 2019
Local: Dom Afonso Henriques (Guimarães)
Árbitro: Clément Turpin (França)
Gols: Marcus Rashford, aos 31'; Matthijs de Ligt, aos 73', Kyle Walker (contra), aos 93', e Quincy Promes, aos 114'

Holanda
Jasper Cillessen; Denzel Dumfries, Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Daley Blind; Marten de Roon (Donny van de Beek), Frenkie de Jong (Kevin Strootman) e Georginio Wijnaldum; Steven Bergwijn (Davy Pröpper), Memphis Depay e Ryan Babel (Quincy Promes). Técnico: Ronald Koeman

Inglaterra
Jordan Pickford; Kyle Walker, Barry Maguire, John Stones e Ben Chilwell; Declan Rice (Dele Alli), Fabian Delph (Jordan Henderson) e Ross Barkley; Jadon Sancho (Jesse Lingard), Raheem Sterling e Marcus Rashford (Harry Kane). Técnico: Gareth Southgate

domingo, 25 de março de 2018

A defesa melhorou. O ataque...

Em que pese a derrota, Holanda mostrou mais segurança na defesa, com De Ligt se sobressaindo. Falta melhorar no ataque (Pro Shots)
Na via-crúcis enfrentada pela seleção holandesa nos últimos três anos, uma das falhas que mais chamava a atenção era a falta de compactação defensiva. Como era fácil invadir a defesa da Laranja, como era fácil achar espaços nela. Pois bem, pelo menos nesse ponto, já foi possível enxergar qualidades no início do trabalho que Ronald Koeman faz, durante o amistoso contra a Inglaterra, primeiro jogo sob o comando do ex-zagueiro, nesta sexta. Só que ainda há muito a corrigir. Até por isso, a Oranje ainda saiu de campo com derrota para os ingleses.

Por mais mediano que seja, o time britânico tem alguns jogadores capazes de dar o mínimo de velocidade e técnica às jogadas de ataque, além de maior entrosamento. Isso se viu aos 17 minutos do primeiro tempo, numa tabela que já ocorrera antes: Raheem Sterling veio pela esquerda, chegou à área, e ajeitou para o arremate de Jesse Lingard, para fora. O que salvava a Holanda era a proximidade e a firmeza dos três zagueiros. Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij e Virgil van Dijk não só mostravam técnica para evitarem ataques (até impediram três finalizações em sequência, no jogo aéreo), como também experimentavam avanços. Aos 21', após se antecipar, De Ligt - provavelmente o melhor holandês no jogo - avançou com a bola, arriscando chute rasteiro, de fora da área, defendido por Jordan Pickford.

Aos poucos, a Laranja tentou se assanhar mais. Por exemplo, aos 26', quando Patrick van Aanholt cruzou a bola, mas Quincy Promes falhou ao tentar o domínio, e a esférica ficou com Pickford. Porém, aos poucos se notaram dois defeitos: a gritante falta de alguém que criasse jogadas no meio-campo (por melhores que sejam, Kevin Strootman e Georginio Wijnaldum não são armadores) e a alarmante falta de ação de Bas Dost no ataque, caso a bola não viesse pelo alto. Pior: Dost ainda errou um recuo aos 28', originando jogada de ataque inglesa, que só foi salva por De Ligt.

Não basta Dost pedir a bola: será preciso aparecer mais para virar referência do ataque holandês (Tom Bode/VI Images)
Sorte da Inglaterra, que aos poucos mostrou maior qualidade. Aos 32', Kieran Trippier cobrou falta da esquerda, a bola foi para a área, e Jordan Henderson desviou levemente de cabeça, mandando à esquerda de Zoet, perto do gol. Cinco minutos depois, na única falha cometida pelo trio de zagueiros, Zoet precisou antecipar a saída de gol para evitar finalização de Lingard. Só aos 40' houve qualquer coisa que se pudesse chamar de finalização holandesa - se é que foi finalização a bola batendo no rosto de Dost e saindo por cima da meta. E depois, nos acréscimos, quando Promes aproveitou falha de Maguire, passou a Memphis Depay, e este bateu de fora, para a defesa de Pickford.

A maior velocidade da Inglaterra rendia chances como o lançamento em profundidade que encontrou Marcus Rashford livre na área (ao cair após choque com Zoet e De Ligt, o atacante pediu pênalti), aos 51'. O próprio Rashford tentou um chute colocado, no minuto seguinte, que passou perto da trave. Até que, numa jogada bem trabalhada, veio o gol de Lingard, aos 59'. Danny Rose cruzou da esquerda, a bola bateu em Kevin Strootman e sobrou para o atacante completar, num chute firme e rasteiro, no canto direito de Zoet. Só aí a Oranje se esforçou mais. Na sequência, aos 62', vieram finalizações de Memphis Depay (rebateu em John Stones) e Patrick van Aanholt (por cima do gol). No minuto seguinte, Dost apareceu pela segunda - e última - vez, ao desviar de calcanhar um arremate de Wijnaldum, defendido por Pickford. e Ligt tentou outra vez, em outro arremate de fora da área, ao 67'.

A última tentativa da Laranja veio aos 83', em falta cobrada por Memphis Depay e defendida por Pickford. E veio a derrota, num jogo que revelou pontos positivos sobre os quais a Holanda pode começar a reconstrução - como a segurança de De Ligt, elogiado por Ronald Koeman na entrevista coletiva, e a evolução de Hans Hateboer no decorrer da partida.. Porém, mostrou a séria necessidade de alguém mais criativo, para armar jogadas e para finalizá-las. Pelo menos no jogo, esse alguém não foi Dost. Nem Memphis Depay. O amistoso contra Portugal, nesta segunda, será cenário dos experimentos necessários do ataque.

Amistoso
Holanda 0x1 Inglaterra
Data: 23 de março de 2018
Local: Amsterdam Arena (Amsterdã)
Juiz: Jesús Gil Manzano (Espanha)
Gol: Jesse Lingard, aos 59'

Holanda
Jeroen Zoet; Matthijs de Ligt, Stefan de Vrij (Wout Weghorst) e Virgil van Dijk; Hans Hateboer, Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum (Donny van de Beek) e Patrick van Aanholt; Memphis Depay, Bas Dost (Ryan Babel) e Quincy Promes (Davy Pröpper). Técnico: Ronald Koeman

Inglaterra
Jordan Pickford; Kieran Trippier, Kyle Walker, Joe Gomez (Harry Maguire) (Eric Dier), John Stones e Danny Rose (Ashley Young); Jordan Henderson, Alex Oxlade-Chamberlain e Jesse Lingard (Dele Alli); Marcus Rashford (Jamie Vardy) e Raheem Sterling (Danny Welbeck) Técnico: Gareth Southgate

sexta-feira, 23 de março de 2018

O ano é 2018, o exemplo é 2014

Ronald Koeman deixou bem claro: neste começo de trabalho, a seleção holandesa precisa de foco, acima de tudo (Pa Photos/VI Images)
Já era algo conhecido de todos – talvez, até, esta coluna tenha citado algo a respeito. E nesta semana, confirmou-se algo que fora falado por Eric Gudde, diretor técnico da federação holandesa, durante a entrevista coletiva que apresentou Ronald Koeman como novo técnico da seleção: “O padrão deve ser o da Copa de 2014”. O tempo mostrou: aquela equipe laranja (ou azul, como nos jogos contra Espanha, Austrália e Brasil) tinha mais esforço do que talento, mas assim obteve bons resultados e foi elogiada. É exatamente tal objetivo que guia esta nova fase da Laranja, que será começada nesta sexta, com o amistoso contra a Inglaterra, em Amsterdã, e seguirá na segunda, em outra partida amigável, contra Portugal, em Genebra - a princípio, seria contra a Espanha.

Aliás, as novidades não ficam só dentro de campo. As que ocorrem fora parecem indicar, no fundo, uma coisa só: a Holanda quer se assumir como uma seleção... média, que não merece tanta atenção nem tanta celebração, que deseja apenas foco total no trabalho. Algo exemplificado até na mudança da sede da preparação para as datas Fifa. Antes, a apresentação dos convocados era feita no hotel Huis ter Duin, na cidade de Noordwijk – e havia uma curta viagem de ônibus até Katwijk, para os treinamentos no campo do Quick Boys, clube amador. Agora, a mudança de pessoas motivou a federação a também mudar de lugares: treinamentos e concentração serão feitos no KNVB Campus, espécie de centro nacional de desenvolvimento do futebol holandês (com alojamento para os atletas, claro), construído em anexo à sede da federação, em Zeist.

Um lugar mais discreto, para uma preparação mais discreta. Tanto nas entrevistas – Ronald Koeman só concedeu duas delas, na segunda e na quinta desta semana, além de ter enviado a convocação final dos 23 jogadores num simples e-mail à imprensa – quanto nos treinamentos. Conforme já preconizara em sua apresentação, Koeman trouxe à seleção os treinos fechados. Por dois motivos, segundo a imprensa: um óbvio (trazer mais concentração ao grupo de jogadores, livrando-os de chateações de imprensa ou excessivos assédios) e outro implícito, até decorrente do primeiro (fazer com que os jogadores sejam mais... profissionais, tenham mais dedicação enquanto estiverem na seleção – uma das grandes preocupações do novo treinador).

Tudo isso, de certa forma, remete ao exemplo que guiará a seleção holandesa: a supracitada Copa de 2014. Se Eric Gudde foi claro ao citá-la, Koeman aprofundou mais a explicação: “Pode-se dizer que ela deve ser um padrão pelo resultado prático, com a terceira posição que alcançamos. Mas acho que Eric também se referia ao que ocorreu fora de campo. Todos sabiam quem era o técnico, então, e mesmo com uma qualidade menor, o coletivo alcançou um feito maravilhoso. Naquela época, em todos os setores, havia clareza. E acho que clareza é uma de minhas qualidades”.

De fato, Koeman foi claro para assumir várias coisas. A primeira: de fato, a seleção dificilmente jogará no 4-3-3 sob seu comando. Adivinhem: voltarão os três zagueiros – seja no 5-3-2 de 2014, seja no 3-5-2. A justificativa foi até óbvia: “Com todo respeito, não temos mais os melhores de verdade. Então, procuram-se outras coisas, como um outro esquema. Na minha convocação, procurei escolher jogadores que pudessem ir bem nesse sistema [com três zagueiros]. Trabalhamos duro, treinamos duro, e quero ver o resultado contra a Inglaterra”.

Procuraram-se “outras coisas...”, mas Koeman também procurou os três jogadores que eram símbolos de talento em 2014. Para cada um deles, uma conversa diferente. Com Wesley Sneijder, o objetivo foi dizer que ele não faria parte dos novos planos – até por isso, o anúncio do fim da carreira do meio-campista na seleção, após 15 anos e o recorde de 133 partidas pela Laranja. O meio-campista ficou ligeiramente sentido. Ficou ainda mais desapontado com sua ausência dos amistosos – esperava fazer deles uma espécie de “despedida”, mas novamente o técnico foi claro: “Ele terá uma despedida como merece, mas, com todo respeito a Wesley, isso [um jogo pela seleção] fica para outra hora”. Restou a Sneijder, de folga do Al Gharafa, uma visita aos compatriotas que treinam em Zeist, nesta quinta.

Com Arjen Robben, a prosa foi ligeiramente diferente. Koeman assumiu: queria saber se o atacante realmente havia fechado o capítulo da Oranje em sua carreira contra a Suécia, nas Eliminatórias da Copa, em outubro passado. “No momento em que ele jogou sua última partida, parecia que ele tinha deixado a porta entreaberta. Foi uma das razões pelas quais fui falar com ele”. Robben fechou a porta de vez, mas ainda assim, foi útil: “Acima de tudo, quis saber o que ele achou desses últimos tempos da seleção”. E caso o calvo precoce de Bedum mude de ideia, o técnico já abriu o caminho: “Robben ainda me pareceria um ganho de valor para a seleção”.

Quem também pode pensar numa eventual volta é o terceiro da lista de “decisivos” em 2014: Robin van Persie. Desde que sob certas condições, conforme o treinador alertou: “Estive no Feyenoord, falei com ele, quis saber sua opinião. Ele não disse que havia parado com a seleção. E mostrou de novo sua classe [com os dois gols contra o Zwolle, na rodada do Campeonato Holandês]. Só que, mesmo que a qualidade seja o critério principal, primeiro ele precisa entrar em forma”.

Em meio a várias caras novas, Virgil van Dijk (em primeiro plano) já desponta como um dos possíveis símbolos da Laranja (ANP/Pro Shots)
Enquanto isso, os convocados da vez tentam mostrar a vontade vista nas palavras de Bas Dost: “Eu quero demais mostrar o valor que tenho”. Caras novas, não faltam: há Justin Kluivert (pode estrear na Oranje adulta aos 18 anos, como o pai fez em 1994), Hans Hateboer (ótimo na Atalanta, o ala é forte candidato a tomar a lateral direita de Timothy Fosu-Mensah e Kenny Tete, outros relacionados da posição), Guus Til (merecida convocação deste novato meio-campista, destaque na ótima campanha do AZ na Eredivisie), Wout Weghorst (mais um membro do AZ – por sinal, junto de Dost, mostrando uma certa tendência de atacantes holandeses altos e corpulentos, sem o maior dos talentos com a bola nos pés). Se alguma ausência surpreende, é a de Daley Blind, somente.

Simultaneamente, Koeman já começa a escolher os jogadores que sustentarão sua base. Um deles já dizia durante os treinos em Zeist: “Ser capitão da seleção é um sonho”. Pois bem, Virgil van Dijk teve a quimera realizada, e certamente será o sustentáculo da defesa de cinco homens, provavelmente ao lado de Stefan de Vrij e Matthijs de Ligt. No ataque, o treineiro holandês carregou mais nas palavras: confiará em Memphis Depay, desconfiando simultaneamente. Afinal, Koeman é daqueles que tanto admira o talento do atacante quanto lamenta a falta de foco às vezes apresentada por ele na carreira: “Eu quis trazê-lo para o Everton. Ele tem muita qualidade. E tive ótima impressão na conversa com ele. Mas é um caminho de mão dupla: eu trabalharei duro para ajudá-lo, mas ele também precisará fazer isso”.

E há os nomes previsíveis: Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum, Davy Pröpper, Quincy Promes... 
A única dúvida de Koeman, a bem da verdade, está no gol. Nenhum dos dois nomes mais cogitados inspira total confiança. Quem escolher? Jeroen Zoet, com ritmo total de jogo (é titular absoluto do PSV), mas num campeonato de nível técnico baixo? Ou Jasper Cillessen, melhor no jogo com os pés, acostumado ao altíssimo nível de competição (reserva do Barcelona que é), mas não só acomodado na suplência, como jogando apenas na Copa do Rei – por mais que tenha ido bem em suas atuações recentes? Pelo menos nos amistosos, Zoet ganhará a escolha.

As condições estão dadas: trabalho duro e foco no coletivo, como na Copa de 2014. Assim, Ronald Koeman e os jogadores tentarão fazer a Holanda recuperar algum respeito. Afinal, se ela não faz frente às grandes forças europeias – Alemanha, França, Espanha, Bélgica -, também não é pior do que Islândia ou Dinamarca ou Polônia, como muita gente tem achado.

(Ou será que é? Vai saber...)

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 23 de março de 2018)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Luzes (fracas) no fim do túnel

O pênalti convertido pelo promissor Janssen animou a Holanda na vitória honrosa diante da Inglaterra (ANP/Pro Shots)
Só de não ter tomado um gol aos dois minutos de jogo, como ocorrera no amistoso da sexta passada, contra a França, já era possível dizer que a seleção da Holanda jogava melhor contra a Inglaterra, nesta terça, no estádio de Wembley. E se a vitória por 2 a 1 teve algo de sorte, também foi possível ver na atuação da Oranje algumas coisas que, se bem trabalhadas, indicam possibilidade de melhora para a base da equipe que Danny Blind tenta formar, com vistas às eliminatórias para a Copa de 2018.

E se já fora difícil tentar formar uma base antes do jogo contra os Bleus, com tantas lesões em convocados/possíveis convocados, ficou ainda mais árduo para o duelo com o English Team. Já na partida de sexta, Wesley Sneijder lesionou o músculo superior da coxa e foi cortado (ficará um mês fora dos campos). No treino de domingo, mais dois desligamentos foram necessários. Ao sair do gol para evitar chute de Klaas-Jan Huntelaar, Jasper Cillessen teve o rosto atingido involuntariamente pelo pé do atacante: nariz fraturado e goleiro cortado. Pouco depois, Davy Klaassen sentiu dores na coxa, e foi mais um dispensado.

Com tantas adversidades, nem mesmo as convocações rápidas de dois substitutos para Cillessen (Michel Vorm) e Klaassen (Marco van Ginkel) minoravam os problemas de Danny Blind para formar o esquema tático da equipe, que seguiria no 4-3-3 de certo êxito no segundo tempo contra a França. Restou colocar Ibrahim Afellay como principal armador, trazendo de volta aos titulares Georginio Wijnaldum como volante, em papel semelhante ao feito na Copa de 2014. 

No ataque é que veio a grande surpresa: ao invés da prevista escalação de Huntelaar, Vincent Janssen já começaria como titular em seu segundo jogo pela Laranja. Falando à SBS, emissora holandesa de tevê que mostrou o jogo, Danny Blind reconheceu e explicou: "Naturalmente, Huntelaar não ficou feliz, pois queria jogar. Mas eu já defini o papel dele. Sei como joga, e como funciona. Quero ver como os outros atacantes atuam. Em novembro [no amistoso contra País de Gales], eu vi Bas Dost. No jogo passado, vi Luuk de Jong. Agora, quero ver Janssen".

Pelo primeiro tempo, até deu certo. Meio-campo e ataque criaram mais jogadas, e tiveram mais velocidade do que contra a França. Wijnaldum e Riechedly Bazoer protegeram melhor a defesa, e Afellay assumiu bem a responsabilidade de pensar o jogo. Se bem que nem foi o meio-campo o responsável por trazer mais perigo, e sim os jogadores pelas pontas: tanto Quincy Promes (destaque, na soma dos dois amistosos) quanto  Memphis Depay mostraram rapidez para avançar e proteger os laterais - algo necessário, com as atuações temerosas de Joël Veltman e Jetro Willems.

Porém, a rapidez ofensiva não se viu na defesa. Prova disso foi o gol inglês que abriu o placar. Havia ampla superioridade numérica de holandeses na área de defesa: cinco contra quatro. Nem isso impediu que Adam Lallana, Kyle Walker e o autor do gol, Jamie Vardy, trocassem passes com velocidade, envolvendo facilmente o miolo de zaga da Oranje para o 1 a 0 do English Team. Foi o 14º gol sofrido pela seleção, em sete jogos sob o comando de Danny Blind: sem dúvida, a insegurança da defesa é o grande problema do trabalho. Seja no 5-3-2 ou no 4-3-3.

Ainda assim, veio a virada no segundo tempo. Com sorte, como já se disse: o gol de empate saiu de pênalti - ou seja, bola parada -, e foi clara a falta cometida por Janssen na jogada que levou ao gol de Luciano Narsingh. Ainda assim, os méritos holandeses foram inegáveis. A começar pelo goleiro: sempre que foi exigido, Jeroen Zoet se mostrou seguro, e vai se firmando como reserva imediato de Cillessen (por enquanto...). Na zaga, mesmo com a lentidão que possibilitou o gol da Inglaterra, Daley Blind mostrou espírito de liderança e até algum senso de posicionamento, suficientes para justificarem a braçadeira de capitão que ostentou no jogo. No meio-campo, Afellay dava velocidade na criação; e no ataque, enquanto Memphis Depay seguiu com a boa atuação, Narsingh teve um dia de "sim". Irregular no PSV, o ponta-direita entrou bem no lugar de Promes, com velocidade e sem individualismos, e mereceu fazer o gol da vitória.

Mas é inegável: o destaque do dia em Wembley foi Vincent Janssen. Tanto pela coragem em bater o pênalti e empatar o jogo, em seu primeiro gol pela seleção ("Quando marcaram o pênalti, eu pensei 'essa é minha, não vou mais deixar escapar', descreveu Janssen após o jogo, lembrando da chance perdida na jogada imediatamente anterior ao penal), quanto pela participação "decisiva" no gol de Narsingh, ao fazer a falta sem que fosse marcada e ainda cruzar para a finalização. Com 16 gols em 15 jogos no ano, juntando clube e seleção, o nativo de Heesch agarrou bem a sua chance. Impressionou Danny Blind ("Ele não se impressionou, não ficou nervoso", comentou o técnico), e certamente será observado bem mais de perto no restante da temporada. Por Danny Blind, por Fred Grim (técnico da seleção sub-21), por clubes de centros maiores do futebol europeu... nada mal para alguém que só estivera em Wembley a passeio, como Janssen falou à imprensa.

Enfim, a vitória sobre a Inglaterra foi até surpreendente. Pelo que os ingleses haviam apresentado no segundo tempo sobre a Alemanha - e pelo que a Holanda NÃO apresentara contra a França. Valeu pela alegria vista em jogadores e comissão técnica após o jogo. Danny Blind assumiu: "Precisávamos disso, o time e a comissão técnica. Precisamos tentar trazer de volta a vontade". Só ela não basta: é preciso melhorar a fragilidade da defesa e os espaços entre os setores do time holandês. Contudo, é inegável: a vitória em Wembley trouxe as luzes (fracas) no fim do túnel que a Oranje precisa para acreditar numa reação, na nova fase do trabalho.

sexta-feira, 25 de março de 2016

A mudança começou na Oranje. E é bom que continue

Quincy Promes (à frente) pode ser parte da renovação da Oranje, na qual Depay (à direita) será protagonista (Soenar Chamid/VI Images)

Já nas duas últimas rodadas das eliminatórias para a Euro 2016, quando a esperança de vaga era muito escassa, era notável a presença de jogadores novatos na seleção da Holanda. Claro, era fruto da campanha caótica na qualificação, a última aposta. Ela não deu certo, e a Oranje verá o torneio continental pela tevê. Mas as convocações para estes primeiros amistosos de 2016 (contra a França, nesta sexta, em Amsterdã; contra a Inglaterra, na próxima terça, em Londres) mostram: enfim, Danny Blind decidiu dar as chances que os novatos precisavam na equipe nacional. Não que isso importe muito: nesta quinta, a morte de Johan Cruyff fez a Holanda parar e prantear o jogador maior de sua história. Mesmo assim, com os amistosos confirmados, será curioso ver a mudança de gerações no elenco que irá a campo.

Basta dizer que, dos 23 chamados, 12 têm menos de dez partidas com a camisa laranja. Mais do que isso: alguns deles, embora já tendo uma convocação na carreira, não eram chamados havia tempos. O índice de novidades podia até ter sido maior, se a rodada passada dos campeonatos nacionais não houvesse vitimado nada menos que cinco jogadores escolhidos por Blind pai: Daryl Janmaat, Ron Vlaar, Erik Pieters, Davy Pröpper e Jurgen Locadia lesionaram-se, e foram cortados tão logo se apresentaram à comissão técnica no hotel Huis ter Duin, em Noordwijk, clássico local de concentração da Oranje.

Os cortes foram inoportunos para três deles: Vlaar, que coroaria a renascença de sua carreira no AZ com o retorno à seleção; Pröpper, que estava voltando (jogou um amistoso contra os Estados Unidos, ano passado), mas agora sendo merecedor de mais confiança, pelas atuações razoáveis no PSV; e Locadia, que teve azar pela segunda vez seguida. Ele estrearia entre os titulares no amistoso contra a Alemanha, em novembro, mas este foi cancelado por ameaça de atentado terrorista em Hannover; agora, Locadia distendeu os ligamentos do tornozelo, jogando pelo PSV no clássico contra o Ajax, domingo passado.

Ainda assim, são vários os jogadores que poderão ser experimentados – e que, se aprovados, poderão formar uma base para a nova fase do trabalho. Um deles merece destaque: o atacante Vincent Janssen faz um ano admirável pelo AZ. No primeiro turno, fizera seis gols pelo Campeonato Holandês (e um na fase de grupos da Liga Europa). Foi 2016 começar para Janssen despontar: nos onze jogos do returno até agora, 14 gols – na rodada passada, o gol contra o Twente lhe fez passar Luuk de Jong para tornar-se o goleador desta Eredivisie. 

Se já era titular da seleção holandesa sub-21, nada mais merecido que sua primeira convocação para a Oranje adulta. Mas o próprio Janssen sabe que não poderá decepcionar, como reconheceu: “Ser convocado é uma coisa, ficar é outra. E farei de tudo para ficar”. Até porque seu concorrente na disputa da artilharia da liga, Luuk de Jong, também está entre os convocados. E pela maior experiência, certamente está na frente quando Danny Blind pensa numa novidade para marcar os gols. Provavelmente, De Jong será o titular no 5-3-2 com que a seleção deverá ser escalada. A seu lado, uma surpresa: Quincy Promes. O atacante do Spartak Moscou desbancou Memphis Depay e Luciano Narsingh, e até mereceu elogios do técnico pela aplicação: “Ele é um exemplo para os jovens que querem dar passos adiante”. 

Também vale citar Davy Klaassen e Riechedly Bazoer, ambos titulares absolutos do meio-campo no Ajax, símbolos da melhora técnica que levou os Ajacieden a voltarem à primeira colocação do Holandês. Mais: improvisado na lateral direita com a lesão de Kenny Tete, Joël Veltman tem saído a contento nos Ajacieden. Prova disso foi o cruzamento primoroso para o gol de Arkadiusz “Arek” Milik que abriu o caminho para a vitória sobre o PSV. Com a lesão de Janmaat, é possível imaginar Veltman começando os amistosos nessa posição – até porque o reserva convocado para a vaga aberta (o estreante Rick Karsdorp, do Feyenoord) tem claros problemas na marcação.

Na lateral esquerda, sem esquecer da alternativa sempre válida que é Daley Blind, há Jetro Willems. Após uma lesão renitente no joelho, o jogador do PSV parece ter voltado melhor. Não só continua bem no apoio (aliás, está até melhor nos cruzamentos), mas parece ter minorado suas falhas antes crônicas na marcação. Para a zaga, ainda há a convocação de mais um neófito completo em Oranje: Timo Letschert, um dos pilares da ótima campanha do Utrecht na Eredivisie. Sem contar retornos de gente que ainda não foi testada suficientemente, como Virgil van Dijk (precisa reagir após as más atuações nas eliminatórias da Euro) ou Patrick van Aanholt (de volta após dois anos). E no gol, mesmo que Jasper Cillessen esteja absoluto, Jeroen Zoet tem sido elogiado no PSV.

Seja como for, com estreias ou retornos, o fato é que Danny Blind abriu espaço definitivo para a transição entre o pessoal mais novo e os veteranos. E precisava fazer isso (talvez já precisasse até durante as eliminatórias da Euro). Em queda no Fenerbahçe, Robin van Persie ficou novamente de fora da convocação.  Na entrevista coletiva em que anunciou a convocação, o treinador fez questão de ressaltar que pode chamá-lo “no futuro”, mas também reconheceu que o máximo goleador da história da Laranja segue irregular: “Eu sempre assisto aos jogos, e segue difícil. Ele joga, depois não joga. Sai do banco numa partida, é titular noutra, depois sai do banco de novo...”.

Arjen Robben é outro veterano com cuja ausência a Oranje precisará aprender rapidamente a lidar. Não seria assim em situações normais: Robben segue num bom nível técnico, e é, ora bolas, o capitão da equipe. Todavia, mais uma vez, uma lesão (coxa) o tirou de convocações. O que é quase o padrão: levantamento feito pela revista “Voetbal International” revelou que, desde a estreia do ponta-direita pela seleção (2003), ele fez 88 partidas, mas ficou fora de... 79 outras, por lesão ou opção técnica. Com seus 32 anos, cabe pensar que a propensão já alta a problemas físicos pode aumentar. Uma pena, pois Robben é ainda o único craque holandês indubitável da atualidade. Mas pensar numa alternativa para ele é imperioso.

Restam Wesley Sneijder e Klaas-Jan Huntelaar, que estão na relação. E Sneijder, 120 jogos pela Oranje, reconheceu que o momento é de reformulação: “Duas derrotas [nos amistosos] seriam o normal, mas não acho que o importante é o resultado, nesse momento. Mais importante é como poderemos atuar”.A conferir, então, como será a atuação da Oranje, a partir desta sexta, num amistoso contra a França, que deverá ser carregado de homenagens a Cruyff (aos 14 minutos, o jogo será interrompido para outro minuto de silêncio, além do inicial). Vale citar as palavras de Danny Blind para – mais uma – homenagem ao “Nummer 14”: “Ele colocou a Holanda e o Ajax no mapa do futebol mundial. Até hoje colhemos os frutos disso”. A colheita continua.