A confiabilidade em campo pode não ter feito de Phillip Cocu um ídolo, mas o transformou num jogador de carreira respeitada - na Holanda e fora dela (Stewart Kendall/Sportsphoto/Allstar via Getty Images)
Assim como o dia 1º de julho de 1976 teve o nascimento de dois craques da Holanda (Países Baixos) - dois atacantes, Patrick Kluivert e Ruud van Nistelrooy -, o dia 29 de outubro de 1970 também tem a incrível coincidência de ser a data exata em que dois nomes marcantes na história da Laranja vieram ao mundo. Um deles, Edwin van der Sar, já teve texto em sua homenagem por aqui. Faltava a homenagem à carreira de seu contemporâneo e companheiro de aniversário.
Um nome que não brilhava tanto em sua geração quanto Dennis Bergkamp ou mesmo o supracitado Kluivert. Não tinha a personalidade forte de Clarence Seedorf e de Edgar Davids. Não tinha nem o aspecto marcante dos gêmeos Frank e Ronald de Boer. Mas era um meio-campo - às vezes, não somente - muito confiável. Por isso, Phillip Cocu teve tanto tempo de seleção holandesa. Por isso, também, pode-se dizer até mesmo um ídolo eterno de um clube: o PSV. Por isso, finalmente, teve uma carreira de sucesso.
O encontro marcado demorou
Nascido em Eindhoven, seria até previsível que Cocu fosse um jogador com toda a carreira vinculada ao PSV. Esse momento até chegaria, mas só depois. Até porque ele e os pais, Peter e Rina, logo deixaram a cidade quando o pequeno Phillip tinha três anos de idade, rumo ao município de Zevenaar. E só lá, quando criança, ele começou a jogar, no amador DFC - ainda passaria pelo De Graafschap. Mas ser jogador só se tornou uma possibilidade real quando a família Cocu se mudou para outra cidade dos Países Baixos com tradição no futebol: Alkmaar. Lá, Phillip seguiu nos campos. Primeiro, no amador AFC '34; depois, já com o profissionalismo encaminhado, no AZ, que o localizou no clube amador e o levou para o time juvenil. Dali Cocu seguiu. E foi no AZ, à época na segunda divisão holandesa, que Cocu estreou no futebol, em 22 de janeiro de 1989, numa derrota para o NEC (3 a 1).
Cocu ficaria pouco no AZ, até: com o clube tendo azar na Eerste Divisie - em 1988/89, ficou fora da repescagem de acesso por pouco; em 1989/90, até entrou na repescagem, mas logo foi eliminado -, ele aproveitou a chance surgida com o interesse do Vitesse, migrando para o clube de Arnhem no meio de 1990, pouco antes da temporada 1990/91 começar. Com o Vites vivendo um primeiro período de sonhar desafiar os grandes - terminara 1989/90 com um surpreendente quarto lugar na Eredivisie, logo na volta à primeira divisão -, Cocu era visto como nome promissor quando chegou ao clube aurinegro. Só teria uma grande dificuldade: logo na partida de estreia (1 a 1 entre Vitesse e Sparta Rotterdam, em 26 de agosto de 1990), ele sofreu grave fratura na fíbula. Por ela, e por intercorrências inesperadas, Cocu só voltou aos campos em abril de 1991. Seu salto de desempenho esperaria mais um pouco.
Cocu poderia ter começado no PSV da cidade natal. Mas começou no AZ. E no Vitesse despontou na carreira. Só depois veio o encontro marcado (Divulgação)
Mas afinal aconteceu. Já na temporada 1991/92, em plena forma, Cocu já era titular num Vitesse que seguia surpreendendo. Não só por se manter perto do topo na liga holandesa - de novo, quarto colocado -, como por chegar até a terceira fase da Copa da UEFA (antecessora da Liga Europa), na qual foi eliminado pelo Real Madrid. Bastou para Cocu começar a atrair interesses de clubes maiores. De fora dos Países Baixos, sondagens do Arsenal. De dentro da terra natal, coisas mais concretas. Tão concretas que se cogitou até a convocação de Cocu para a Holanda que disputaria a Copa de 1994, mesmo sem partidas disputadas pela Laranja àquela altura (o que até aconteceu, coincidentemente, com Edwin van der Sar, seu "xará" de aniversário). A ascensão do meio-campista já era questão de tempo. E na metade de 1995, enfim se consumou o encontro esperado desde a maternidade: Phillip Cocu, que saíra de Eindhoven ainda no início da infância, foi contratado pelo PSV. Para, aí sim, confirmar a forte identificação com o clube.
Homem de confiança
Ao longo das três temporadas que durou sua primeira passagem pelo clube de Eindhoven, Cocu fortaleceu sua grande qualidade como jogador: a versatilidade. Tinha a posição original bem definida: o meio-campo, de preferência como homem central. Mas já no Vitesse, tivera suas experiências como ponta-esquerda. E em Eindhoven, quando necessário, jogou como meia-esquerda, ou até (muito de vez em quando) como lateral esquerdo. Se nomes como Luc Nilis ou Ronaldo - nos dois anos passados nos Boeren - chamavam mais a atenção, Cocu começou a ser visto como "homem de confiança" no time, um jogador taticamente importante, de atuações regulares, sem cair muito de produção.
Enfim no PSV, bastou a primeira passagem para Cocu já se fazer como um nome querido da torcida. Mas haveria a segunda, melhor ainda (Divulgação)
Isso foi importante para que Cocu alcançasse outro ponto alto, enfim: a seleção holandesa. Nela, foi convocado pela primeira vez em 1996, estreando ao entrar no lugar de Richard Witschge, em 24 de abril daquele ano, num amistoso contra a Alemanha. E a constância de suas atuações o fizeram merecedor de lugar na convocação de Guus Hiddink, técnico da Laranja então, para a Eurocopa daquele ano. Mesmo num torneio cheio de turbulências internas entre os neerlandeses, Cocu já teve algum espaço: jogou as partidas contra Escócia e Inglaterra (fase de grupos), saindo do banco em ambas, e foi o titular nas quartas de final, contra a França, quando a Oranje foi eliminada nos pênaltis, preenchendo a lacuna aberta pelo corte de Edgar Davids.
E os anos seguintes foram de plena afirmação para Cocu. No final de 1996, com Davids ainda fora da seleção devido à briga com Guus Hiddink durante a Euro, o meio-campo já era titular absoluto da Laranja, e assim seguiria por 1997, nas eliminatórias para a Copa de 1998. Em clubes, então, não poderia ser melhor: o PSV voltou a ser campeão holandês na temporada 1996/97, após domínio do Ajax nos anos anteriores, e Cocu esteve em todas as 34 partidas da campanha.
Tudo isso culminou na ocasião de sua aparição no cenário mundial: a Copa de 1998. Nela, Cocu só não jogou todos os minutos da campanha da Laranja porque foi substituído no intervalo da decisão do terceiro lugar, contra a Croácia. De resto, mesmo sendo meio-campista e seguindo preferencialmente assim, foi importante como opção do técnico Guus Hiddink para alterações táticas: jogou como meia central, meia-esquerda e até mesmo como atacante, na goleada por 5 a 0 contra a Coreia do Sul, na fase de grupos (assim, aliás, fez um de seus gols naquela Copa - o outro foi no empate em 2 a 2 contra o México, último da Laranja naquela fase). Nem mesmo a cobrança perdida na eliminação contra o Brasil, nas semifinais, abalou o respeito por suas atuações.
Pela versatilidade tática, Cocu foi nome importante - embora menos falado - da Holanda na Copa de 1998 (Richard Sellers/Sportsphoto/Allstar via Getty Images)
Cocu já tinha chegado à fase em que estava grande demais para o futebol holandês. E comunicou ao PSV: não renovaria o contrato após a Copa, esperando chance num centro mais visto do futebol europeu. Depois das atuações confiáveis vistas no torneio, era esperar pelas propostas, que viriam. Atlético de Madrid, Real Madrid, Juventus, Internazionale, Milan... todos sondaram. Mas o Barcelona - justamente no auge da fase "BarçAjax", quando o técnico Louis van Gaal trouxera vários holandeses para o clube catalão - foi quem levou Cocu, em agosto de 1998.
Referência na turbulência
No Barça, Cocu logo se firmou entre os holandeses que "deram certo" no clube e ficaram muito tempo nele, ao lado de Frank de Boer e Patrick Kluivert. Já na temporada 1998/99, que terminou com título espanhol barcelonista, ele se entrosou no meio-campo com Pep Guardiola e Luis Figo, mostrando até um lado "goleador" pouco visto em sua carreira (fez 12 gols, sua melhor marca numa só temporada, assim como no PSV, em 1995/96). Em 1999/2000, mesmo com o Barcelona caindo um pouco de produção - vice-campeão espanhol e semifinalista da Liga dos Campeões -, o holandês seguiu titular absoluto no meio. Como seria titular absoluto da Holanda na Euro 2000, a segunda de sua carreira: novamente, só não jogou todos os minutos da campanha laranja por ter sido substituído numa partida (saiu aos cinco minutos do primeiro tempo da prorrogação da semifinal, contra a Itália).
Mas seria dali por diante que, mais do que jogador importante, Cocu viraria referência. No Barcelona, entrando numa fase altamente turbulenta naquele período, as saídas de Figo (2000) e Guardiola (2001) o transformaram no único jogador experiente que o meio-campo titular tinha. E Cocu seria o homem a ajudar dois novatos que virariam titulares a partir de então, vindos da base do Barça: Xavi Hernández e Gabri.
Cocu ficou do lado dos holandeses que deram certo no Barcelona. E como: por seis anos, foi nome certo no meio-campo da equipe catalã (Shaun Botterill/Allsport)
Na seleção holandesa, os tempos não seriam menos difíceis: ao longo da fracassada campanha nas eliminatórias da Copa de 2002, Cocu teve suas primeiras experiências como capitão da Laranja, com Frank de Boer suspenso por doping. Na entressafra vivida entre o trauma da ausência no Mundial e estar na Eurocopa, em 2004, o meio-campo já era visto como um dos experientes mais confiáveis, seguindo com atuações constantes.
Até por isso, mesmo quando seu ciclo no Barcelona dava mostras de chegar ao fim, Cocu foi tratado com respeito. Em 2003, no final de seu contrato, chegou a pensar em antecipar a saída (até porque o PSV já o sondava para um retorno), mas a condicionou aos resultados das eleições para a presidência do clube espanhol. Joan Laporta eleito, ainda renovou por mais um ano. Numa temporada em que a reconstrução do Barcelona se iniciou, com o vice-campeonato espanhol e o início da "era Ronaldinho" no clube, Cocu teve lá sua importância na temporada 2003/04: 36 jogos em La Liga. Contudo, ao final da temporada, o Barça ofereceu novo contrato com salário menor. Cocu, por sua vez, dizia sentir falta de estar perto da família. E enfim, saiu do Barcelona para retornar ao PSV que manteve a oferta de volta - não sem antes ser condecorado por Joan Laporta, com uma placa agradecendo pelos seis anos de passagem por Camp Nou.
Fins honrosos
Após jogar a terceira Eurocopa de sua carreira (nela, enfim, Cocu esteve em todos os minutos de todos os jogos da campanha semifinalista holandesa, mesmo perdendo sua cobrança nos pênaltis contra a Suécia, nas quartas de final), o meio-campo chegou de volta ao PSV. Se saíra ainda precisando se provar fora dos Países Baixos, Cocu já voltava como ídolo, só pelo fato de ter voltado a vestir a camisa listrada alvirrubra. Melhor ainda: voltava numa grande fase do PSV, que começaria ali a viver a jornada do segundo tetracampeonato holandês de sua história, começando com os títulos da Eredivisie em 2004/05 e 2005/06. Capitão em campo, liderando um time que contava com Gomes e Alex na defesa, o conhecimento tático fazia de Cocu capacitado a jogar mais recuado, até como um líbero. Ou mesmo como atacante - num período de ausência do marfinense Arouna Koné, atacante titular, Cocu foi até mesmo homem de área (e faria 10 gols na Eredivisie 2005/06). Coroando tudo isso, na campanha marcante do PSV na Champions 2004/05, indo às semifinais, Cocu foi o líder indubitável da equipe em campo.
As atuações no PSV serviram para que Cocu escapasse da "reformulação" por que a seleção da Holanda passara após a Euro 2004. Se o técnico Marco van Basten descartou vários veteranos, o meio-campo não foi um deles: só ficou fora de dois dos dez jogos da campanha nas eliminatórias para a Copa de 2006 (nas quais, inclusive, marcaria três gols). Presença certa na Copa, aos 35-para-36 anos, nela Cocu ainda começou todos os jogos como titular, sendo o responsável por variar posições: podia ajudar Mark van Bommel na marcação, ou até auxiliar Rafael van der Vaart (ou Wesley Sneijder) na criação de jogadas. Às vezes, até, tentava finalizar - chegou a acertar o travessão, no jogo das oitavas de final, contra Portugal. Entretanto, depois daquela eliminação, decidiu encerrar sua passagem pela Laranja em campo. Ainda atualmente, com 101 partidas vestindo laranja, é o 10º jogador com mais participações pela seleção masculina.
Cocu voltou ao PSV para ser referência em tempos gloriosos do clube: terminou sua passagem erguendo a salva de prata do tricampeonato (Divulgação)
No PSV, Cocu ainda esteve em campo na temporada 2006/07 do Campeonato Holandês. Esteve bastante, até: dos 34 jogos da campanha do tricampeonato do clube, só esteve fora de um. E terminou do melhor jeito possível a segunda passagem que o confirmou como ídolo em Eindhoven: na última rodada, coube a ele fazer o quinto gol na goleada por 5 a 1 sobre o Vitesse, possibilitando ao PSV passar o Ajax no saldo de gols (a última rodada começara com PSV, Ajax e AZ empatados em pontos) e garantir o tricampeonato.
Como capitão, ele ergueu a salva de prata da Eredivisie. Mesmo já tendo uma proposta para ser auxiliar técnico do PSV, preferiu ainda uma temporada jogando sem pressões, entre 2007 e 2008, no Al-Jazira catarense, para, aí sim, encerrar a carreira nos campos. De modo honroso.
Como técnico: sempre próximo a Eindhoven
Bastou voltar à Holanda (Países Baixos), em 2008, após o fim da passagem pelo Catar, para Cocu começar o curso da federação holandesa para se tornar treinador. O convite do PSV continuou de pé, e agora Cocu aceitou, começando a treinar times de base. Foi até além: ainda em 2008, meses após iniciar sua passagem pela seleção holandesa, Bert van Marwijk convidou Cocu para ser um de seus auxiliares.
Deu tão certo que Cocu só aceitou ser auxiliar do time principal do PSV no primeiro semestre de 2009. Mais do que isso: recusou convite do VVV-Venlo, já em 2010, para começar ali sua carreira de técnico principal. Afinal de contas, o trabalho com Bert van Marwijk evoluía, a seleção da Holanda vivia uma ótima fase... e forneceu experiências valiosas a Cocu. Pelo lado bom, com o vice-campeonato na Copa de 2010. Pelo lado ruim, com a decepção da eliminação na fase de grupos da Euro 2012.
Cocu primeiro quis ser auxiliar técnico, para depois ser treinador. Teve experiência adequada, nos quatro anos ajudando Bert van Marwijk na seleção da Holanda (Phil Cole/Getty Images)
Àquela altura, de modo um pouco acidentado, Cocu já se iniciara como treinador. No próprio PSV, por sinal: em crise após a demissão de Fred Rutten, na temporada 2011/12, a diretoria pediu ao ex-jogador que conduzisse o time no fim da temporada. Até conduziu (e até ganhou um título, a Copa da Holanda, para cuja final o PSV já estava classificado quando Rutten foi demitido), mas deixou claro: queria mais tempo como auxiliar. O tempo foi dado: na temporada 2012/13, Cocu ainda foi auxiliar técnico de Dick Advocaat.
Em 2013/14, a carreira começou para valer. Contrato assinado como treinador principal do PSV, Cocu ainda teve alguns percalços na primeira temporada, dentro de campo (o clube terminou o Campeonato Holandês em quarto lugar) e fora também (um tumor nas costas, em estágio inicial, forçou Cocu a ceder o cargo a seu auxiliar, Ernest Faber, nas últimas rodadas da Eredivisie). Mas nas temporadas seguintes, o agora técnico acrescentou mais capítulos vitoriosos à sua idolatria em Eindhoven: foram três títulos holandeses (bicampeonato em 2014/15 e 2015/16, este ganho na última rodada, mais 2017/18), uma campanha elogiável na Liga dos Campeões em 2015/16 (caiu nos pênaltis para o Atlético de Madrid, que seria vice-campeão da Champions), um time considerado muito sólido em campo. Foi com a apoteose vivida em 2017/18 - um título confirmado com três rodadas de antecipação, numa vitória em clássico, 3 a 0 contra o Ajax, no Philips Stadion -, que Cocu encerrou seu ciclo treinando o PSV. Queria novas experiências.
Cocu nem precisava de mais nada para ser ídolo no PSV, com o que fizera como jogador. Mas fez também como técnico (Edwin van Zandvoort/Soccrates/Getty Images)
Elas não deram muito certo, é verdade. Cocu começou a temporada 2018/19 treinando o Fenerbahçe: foi demitido após quatro meses e 15 jogos. A tentativa seguinte foi no Derby County, então disputando a segunda divisão inglesa: só um ano e três meses, saindo em outubro de 2020. E na temporada 2022/23, o retorno a outro clube em que é ídolo: o Vitesse. Com o clube de Arnhem já vislumbrando a crise interna em que mergulharia, Cocu teria de manter os bons resultados vividos em tempos anteriores. Até conseguiu no começo, emplacou uma segunda temporada em Arnhem, mas com as dívidas já perturbando o Vites e fazendo a federação holandesa puni-lo com retiradas de pontos na tabela do Campeonato Holandês, Cocu se demitiu em novembro de 2023.
Para, desde então, aproveitar um pouco sua idolatria. No Barcelona, é comumente chamado para os jogos de veteranos do clube; no PSV, é nome respeitado a ponto de ter entregue a Luuk de Jong a salva de prata, pelo bicampeonato holandês ganho em 2024/25. Tudo isso, garantido pela confiabilidade que Phillip Cocu sempre mostrou ter em sua carreira.
(ProShots)
Phillip John William Cocu
Data de nascimento: 29 de outubro de 1970, em Eindhoven
Clubes: AZ (1989 e 1990), Vitesse (1990 a 1995), PSV (1995 a 1998 e 2004 a 2007), Barcelona-ESP (1998 a 2004) e Al Jazira-CAT (2007 a 2008)
Ronald Koeman continua sob pressão - afinal, é o técnico da Holanda. Mas essa pressão é amenizada pelo respeito ao grande zagueiro que foi (Serge Philippot/Onze/Icon Sport/Getty Images)
É impossível tratar Ronald Koeman com a total reverência normalmente destinada a um grande jogador do passado. Afinal de contas, o aniversariante desta terça-feira coloca seu respaldo à prova atualmente, técnico da seleção masculina da Holanda (Países Baixos) que voltou a ser. Entretanto, a pressão por que passa no comando da Laranja é pequena, diante do tamanho dos feitos de "Kuifje" ("Tintim") - apelido carinhoso de Koeman, por sua semelhança ao personagem célebre de Hergé nas histórias em quadrinhos.
Em campo, Koeman foi dos melhores zagueiros de seu tempo, no fim dos anos 1980/início dos anos 1990. Esbanjava técnica na zaga, iniciando as jogadas das equipes por que passou, virando quase sinônimo de "zagueiro artilheiro" de tantos gols que fez, graças à tremenda habilidade nas bolas paradas. Desde quando corria atrás da bola, também transparecia espírito de liderança: era o capitão costumeiro de suas equipes. E no país natal, o fato de ser o único holandês a ter passado como jogador e treinador pelo Trio de Ferro (Ajax, PSV e Feyenoord) é uma prova inequívoca do respeito que Ronald Koeman construiu - e que o faz ser celebrado nesta data em que completa 60 anos.
Na família Koeman, o patriarca Martin (centro) abriu o caminho para os irmãos Erwin (direita) e Ronald. O Groningen que o diga (Arquivo pessoal)
Questão de família
Nascido em Zaandam e criado em Koog aan de Zaam (vilarejo vizinho), Ronald teve exemplo para o futebol desde o princípio da vida. Ninguém menos do que o pai, Martin Koeman (1938-2013), que já era jogador. Um zagueiro, como o filho seria. E um zagueiro razoável: Martin fez uma partida pela seleção da Holanda - empate contra a Áustria (1 a 1), num amistoso em 1964 -, e ficou muito ligado a clubes do norte dos Países Baixos. Principalmente o Groningen: passou oito anos (1963 a 1971) no GVAV, uma das agremiações cujas fusões deram origem ao Groningen atual. Nele, Koeman pai ficou mais dois anos, entre 1971 e 1973. Depois, o patriarca jogou mais um ano no Heerenveen, antes de encerrar a carreira.
E a vida que levava o pai Martin inspirou os filhos: não só Ronald, mas também Erwin Koeman, irmão dois anos mais velho. No caso de Ronald, ele logo tomou Groningen como seu caminho. Na cidade, primeiro começou em duas equipes amadoras, o VV Helpman e o GRC Groningen, ainda entre a infância e a adolescência. Já nesta, sempre ao lado do irmão Erwin, Ronald rumou para o Groningen em que o pai fizera alguma fama. Não demoraria muito para igualá-lo: em 21 de setembro de 1980, aos 17 anos e 183 dias, Koeman fez sua primeira partida pelo time principal do Groningen, substituindo o lateral Sip Bloemberg para os 15 minutos finais na vitória por 2 a 0 sobre o NEC, pelo Campeonato Holandês. Seu primeiro gol foi nos 2 a 2 contra o Excelsior, em 1º de fevereiro de 1981, pela 17ª rodada da Eredivisie.
O começo de Ronald, no Groningen, ao lado do irmão Erwin (direita), jogando pelo PSV(Arquivo ANP)
Então, o Groningen acabara de subir para a primeira divisão holandesa. E Koeman seria o símbolo da estabilização do clube alviverde na Eredivisie. Escalado no meio-campo, tendo parceiros constantes no setor em Jan van Dijk e no irmão Erwin Koeman (que fora ao PSV e voltara rápido), Ronald foi titular absoluto no sétimo lugar em 1981/82 e, principalmente, no quinto lugar em 1982/83, posição que levou o clube a disputar pela primeira vez uma competição europeia (a Copa da UEFA, na temporada seguinte). Mais do que isso: já mostrava pendor goleador incomum para um meio-campo - foram 14 gols pelo Groningen, nas duas temporadas supracitadas. Mais ainda: mostrando talento desde então - nos chutes, nas bolas paradas, até na criação -, Koeman ganhou espaço na seleção da Holanda. Estreou pela Laranja numa derrota para a Suécia (3 a 0, amistoso), ainda defendendo o Groningen, em 27 de abril de 1983.
O espaço se ampliaria ainda mais. Na seleção e nos clubes.
A calma leva ao sucesso
No meio de 1983, Koeman teve o reconhecimento ao valor que já mostrava: foi contratado pelo Ajax. Na passagem por Amsterdã, se consolidou dentro do futebol holandês, mesmo em meio a turbulências. Se o Ajax foi inconstante na temporada 1983/84, naquela época Koeman começou a ser titular absoluto da seleção - algo notável para quem tinha apenas 20 anos. Mesmo em meio ao fracasso nas eliminatórias da Euro 1984, ele já fez seu primeiro gol pela Laranja (nos 3 a 0 sobre a Islândia, pela qualificação para a Euro, em 7 de setembro de 1983). Foi um dos nomes fundamentais num jogo marcante: a virada por 3 a 2 sobre a Irlanda, fora de casa, na sexta rodada das eliminatórias. Aquela partida uniu Koeman a Ruud Gullit e Marco van Basten, como símbolos de uma geração muito promissora, que começava a tomar espaços na Laranja - e que era vista com otimismo, mesmo com a ausência na Euro 1984.
Jogando pelo Ajax, Koeman confirmou que era uma referência de zagueiro na Holanda, mesmo ainda jovem. Mas sofreu com o ambiente turbulento (VI Images/Getty Images)
No Ajax, Koeman seguiu fundamental. Porém, só teria algum respiro no ambiente durante a temporada 1984/85, que marcou o primeiro título de sua carreira - o título do Campeonato Holandês (Koeman fez nove gols em 30 jogos). Em 1985/86, Johan Cruyff voltou ao clube de Amsterdã, para sua primeira experiência como treinador. E rapidamente entrou em rota de colisão com vários jogadores. Um deles, o zagueiro. Numa temporada em que os Ajacieden foram estonteantes no ataque (120 gols), mas também frágeis na defesa, perderam o título da Eredivisie para o PSV. Koeman foi sincero: falou abertamente que de nada adiantava uma equipe ofensiva e perdedora. A colisão com Cruyff ficou irremediável. Uma proposta de renovação do Ajax foi considerada baixa. A salvação veio com uma proposta do... PSV.
Com grandes ambições para se firmar como clube grande - processo que vinha desde os anos 1970 -, o PSV queria jogadores de ponta. Koeman estava entre eles. E chegou a Eindhoven, logo após a Copa de 1986. Num ambiente mais calmo, o defensor decolou de vez. Para começo de conversa, já foi titular na conquista de mais uma Eredivisie (1986/87) - com marca impressionante para um zagueiro: 16 gols em 34 jogos. Poderia ficar melhor, e ficou. Porque o técnico Guus Hiddink, recém-efetivado no PSV, decidiu tornar Koeman um "líbero", aproveitando sua visão de jogo para iniciar jogadas a partir da defesa, se alternando entre a zaga e o meio-campo, sem perder seu talento para avanços, chutes e cobranças.
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Começava aí o período mais dourado da carreira de Koeman. Porque o PSV foi tricampeão holandês então - com ele indo além como "zagueiro artilheiro": 21 gols em 32 jogos. Porque o PSV fez de 1987/88 o ponto mais alto de sua história, com a Tríplice Coroa, tendo como símbolo o título da Copa dos Campeões - e Koeman, claro, como titular absoluto, um dos líderes da equipe. E finalmente, como a cereja mais deliciosa que poderia haver naquele bolo de sucessos, a Euro 1988. Também estabelecido e inquestionável na Holanda (às vezes, era até capitão da seleção), Koeman jogou todos os minutos no torneio continental. Foi autor do gol - de pênalti - que empatou a semifinal contra a Alemanha. Na vitória final, 2 a 1, foi personagem de uma gozação algo grotesca: após trocar camisas com o alemão Olaf Thon, fingiu "usá-la" como papel higiênico (a torcida achou graça, mas Koeman teve de pedir desculpas dias depois). Finalmente, um mês depois de ser campeão europeu de clubes, Koeman se consagrava de vez: em 25 de junho de 1988, era campeão europeu de seleções, tendo ao lado o irmão Erwin Koeman, também convocado, também tendo sucesso em seu clube - o Mechelen-BEL, em que Erwin jogava, conquistara então a Recopa Europeia.
Koeman precisou pedir desculpas pelo gracejo pesado com alemães, após a Euro 1988. Mas nem isso apagou o tamanho de sua importância naquele título (ANP)
Após o título da Holanda na Euro 1988, Ronald Koeman virou uma transferência esperando para acontecer. Ainda ficou no PSV para a temporada 1988/89. Celebrou o tetracampeonato holandês, feito inédito então na história do clube de Eindhoven - sem contar o bicampeonato na Copa da Holanda. Aí foi impossível segurá-lo. Coube justamente a Johan Cruyff, com quem vivera às turras nos tempos de Ajax, abrir caminho para um novo auge em sua carreira. Partiu de Cruyff o pedido para que o Barcelona contratasse o zagueiro que já era símbolo das modernidades da posição na Europa. E no meio de 1989, por 12,5 milhões de florins (moeda holandesa pré-euro), Koeman partiu para a Catalunha.
Também faria história lá.
Cruyff escolheu Koeman para ser um dos pilares de um Barcelona que faria história. E o zagueiro cumpriria as expectativas do técnico à perfeição (VI Images/Getty Images)
O "melhor zagueiro do mundo" vira ícone barcelonista - com decepções
Cruyff já estava remodelando o Barcelona, para que o clube pudesse fazer frente diante de um Real Madrid que vivia grande fase, com a "Quinta del Buitre" pentacampeã espanhola. E contava com Koeman como um dos jogadores que lhe ajudaria nisso. Só que ele viveu grandes decepções em 1990. Primeiro, o fracasso ao evitar mais um título do Real em La Liga. Depois, e pior, com a Holanda protagonizando um grande vexame na Copa de 1990: chegou como a badalada campeã europeia e saiu com crise aberta no grupo de jogadores, sem nenhuma vitória, eliminada nas oitavas de final. O zagueiro até foi capitão da Laranja no Mundial, até marcou um gol (o de honra, na derrota por 2 a 1 da eliminação para a Alemanha), mas não saiu totalmente ileso: era apontado como arrogante, e começou ali a sofrer com acusações de estar acima do peso, comuns na reta final de sua carreira.
Nada que os anos seguintes não pudessem consertar plenamente. Pela seleção, Koeman se manteve estável como capitão, seguiu absoluto na zaga, emplacou mais uma Euro em 1992 (novamente jogando todos os minutos da Holanda no torneio), foi se isolando como referência dentro da Laranja. No Barcelona, então... se o zagueiro ainda penou na sua primeira temporada pelos Blaugranas, começou a colher os frutos de ser um dos nomes escolhidos por Cruyff logo depois. Em 1990/91, fez parte do digno vice-campeonato na Recopa Europeia. E com o título espanhol, se iniciou como um dos símbolos do Barça tetracampeão espanhol até 1994 - tinha tanta preponderância quanto Michael Laudrup, Hristo Stoichkov e Romário, outros símbolos daquela época. Fazia com a camisa azul-e-grená o que já fizera no PSV: gols aos borbotões, faltas e pênaltis cobradas com muita força e categoria. A torcida amava o "Floquet de Neu" (em catalão, "floquinho de neve" - mais um apelido para Koeman, em referência ao apelido de um gorila albino, popular à época no zoológico da cidade espanhola, tão branco quanto a pele de Koeman).
A melhor prova disso foi em 20 de maio de 1992, no estádio de Wembley. O Barcelona decidia a Liga dos Campeões contra a Sampdoria. Final equilibrada, indo à prorrogação após 90 minutos de 0 a 0. Até os 112'. Foi quando surgiu uma falta perto da área, de média distância. Era para Ronald Koeman. Estava para ele. Que cobrou, forte, como sempre. A bola estufou as redes defendidas pelo goleiro Gianluca Pagliuca. E o zagueiro holandês fazia o gol mais importante dos 67 que marcou pelo Barça. O gol do primeiro título europeu do clube. O gol que o tornou, para sempre, um ícone barcelonista.
Em suma: principalmente entre 1992 e 1994, Koeman viveu um "círculo virtuoso". A segurança de suas atuações no Barcelona (e os gols de "brinde") o mantinham absoluto na seleção masculina da Holanda. Na Laranja, por sua vez, era o capitão, indispensável. Ainda mais com os problemas que seus companheiros de geração viviam (Ruud Gullit entrou em rota de colisão com o técnico Dick Advocaat, em 1993; Marco van Basten sofria com as lesões no tornozelo que encurtaram sua carreira; Frank Rijkaard chegou a deixar a Laranja entre 1990 e 1991, após a decepção na Copa). Se o gol do título da Liga dos Campeões 1991/92 o marcou no Barcelona, gols como o do 2 a 0 na Inglaterra - em jogo difícil nas eliminatórias da Copa de 1994 - reforçavam seu status à época, até comentado no guia da revista Veja para aquele Mundial. Era, e podia ser considerado como, o melhor zagueiro do mundo.
Um fim honroso
Todavia, a Copa de 1994 foi o início do fim para Koeman como jogador. Não, a Copa não foi desastrosa para ele: nos Estados Unidos, emplacou mais um torneio pela Holanda sem perder um só minuto em campo (até por ser o capitão), com atuações aceitáveis. Entretanto, o peso dos anos se fez sentir. Sob o calor dos jogos em Orlando e Dallas, ele sofreu. Preservou-se, preferindo ficar mais recuado, sem correr tanto, apenas comandando a zaga. Em meio a uma turbulenta Copa para a Laranja, foi novamente alvo de críticas de torcida e imprensa: sua influência sobre o técnico Dick Advocaat iria além da conta, seu peso voltava a ser assunto. E a partida da eliminação para o Brasil, naquela Copa, foi o fim para ele: mesmo sem anúncios oficiais, após 11 anos e 78 partidas de Oranje, Ronald Koeman não voltaria a defender a seleção dentro de campo.
No Barcelona, mesmo ainda titular na temporada 1994/95 (32 jogos e nove gols pelo Campeonato Espanhol), o clima de fim de ciclo também ficou claro. E em meados de 1995, Koeman decidiu aceitar o retorno aos Países Baixos. Chance aproveitada para igualar um feito: ao invés de voltar a PSV ou mesmo ao Ajax, o zagueiro optou por experimentar o Feyenoord. Chegando ao Stadionclub, igualava o feito do atacante Ruud Geels (anos 1970), para jogar pelos três maiores clubes do país. Se não ganhou títulos, tampouco fez feio. Voltando a jogar no meio-campo, Koeman esteve ao lado de nomes marcantes do clube, como Ed de Goey, Gaston Taument, Jean-Paul van Gastel e Giovanni van Bronckhorst. Foi o capitão nas campanhas de um terceiro lugar (1995/96 - marcou dez gols nela) e do vice-campeonato na Eredivisie (1996/97).
Ronald Koeman teve um digno fim de carreira no Feyenoord - aqui, as homenagens após o último jogo da carreira, com a esposa Bartina e os três filhos (VI Images/Getty Images)
Sob festas e homenagens da torcida em De Kuip, Koeman encerrou a trajetória como jogador tão logo a temporada 1996/97 acabou. Trajetória que deixava (e ainda deixa) uma marca: com 193 gols em jogos de liga, tratava-se do zagueiro com mais gols na história do futebol, de acordo com algumas fontes.
Mas a liderança mostrada em campo teria consequência - e sequência.
Como treinador, altos e baixos
Mesmo sem jogar mais, Koeman tinha um comando e uma ascendência tão grandes que as experiências no banco de reservas começaram quase imediatamente após sua carreira de jogador. Em 1998, para impedir que problemas de relacionamento voltassem a afetar a delegação da Holanda como na Euro masculina de 1996, ele foi um nome de primeira hora escolhido como um dos "auxiliares especiais" do técnico Guus Hiddink para a Copa do Mundo naquele ano. Não só deu certo, com a boa campanha da Laranja, como abriu de vez o caminho para o ex-zagueiro virar técnico.
Koeman mal parou de jogar e já aprendeu a treinar. A primeira experiência foi auxiliando Guus Hiddink na Copa de 1998 (VI Images/Getty Images)
Imediatamente após a Copa, Ronald foi para o Barcelona que conhecia tão bem, como auxiliar de Louis van Gaal - e treinador do Barça B. Mas sua primeira experiência para valer começaria em novembro de 1999, comandando o Vitesse. Já com sucesso: naquela temporada, comandando um Vites de ataque elogiável (Mamadou Zongo e Pierre van Hooijdonk), Koeman conduziu o time ao quarto lugar no Campeonato Holandês - rendendo uma vaga na Copa da UEFA. Em 2000/01, uma queda mais leve, mas ainda uma campanha honrosa: sexto lugar para o clube de Arnhem.
A ascensão foi acelerada: em dezembro de 2001, logo após a demissão de Co Adriaanse, o Ajax buscou Koeman, após rápidos acertos com o Vitesse. Reencontrando o clube de Amsterdã após quase 20 anos, ele começava ali a primeira grande fase de sua carreira no banco. Comandando um time com vários novatos - Rafael van der Vaart, Christian Chivu e Zlatan Ibrahimovic como destaques -, o ex-zagueiro conseguiu os dois primeiros títulos como treinador em 2001/02: a "dupla coroa" holandesa, campeonato e copa. Na temporada seguinte, chamou ainda mais a atenção, com os Ajacieden alcançando as quartas de final da Liga dos Campeões. E em 2003/04, mais um título na Eredivisie comandando os Godenzonen.
Koeman já começou a carreira fazendo um trabalho com ótimos momentos no Ajax (Matthew Ashton/EMPICS/Getty Images)
Só que 2005 começou a marcar os altos e baixos que ditam a carreira de Ronald Koeman como técnico. Em fevereiro daquele ano, tendo problemas com Louis van Gaal (então diretor técnico do Ajax), em má fase no Campeonato Holandês, Koeman saiu do clube. Meses depois, foi para o Benfica - e fez um trabalho mediano no clube português: mesmo quadrifinalistas da Liga dos Campeões, os Encarnados perderam o título nacional para o Porto em 2005/06. Koeman preferiu a volta ao país natal, retornando ao PSV para suceder Guus Hiddink a partir de 2006. Tinha um trabalho promissor nos Boeren: em 2006/07, conquistou o título holandês e chegou às quartas de final da Liga dos Campeões. Mas preferiu largar tudo, apostando numa ida para o Valencia, em outubro de 2007. Fracasso: só um título, a Copa do Rei, e demissão já em abril de 2008. Pior ainda seria no AZ. Em maio de 2009, com o clube de Alkmaar badalado como campeão holandês, Koeman foi anunciado como sucessor de Louis van Gaal, a partir da temporada seguinte. Não chegou ao final dela: em dezembro daquele ano, já estava demitido.
No AZ, o pior momento de Koeman como treinador (Marcel Antonisse/AFP/Getty Images)
Em 2011, Ronald Koeman estava em baixa. Assim como o Feyenoord, clube que o contratou, em julho daquele ano. Pois os três anos que passou comandando o Stadionclub foram reabilitadores para as duas partes. Mesmo sem títulos, só conquistar o vice-campeonato holandês em 2011/12 - com direito a voltar a vencer o Ajax pelo Campeonato Holandês, após um jejum de alguns anos - já massageou o ego do Feyenoord, que andava tão maltratado. Cercado de nomes que haviam jogado com ele em Roterdã (como Jean-Paul van Gastel e Giovanni van Bronckhorst, seus auxiliares), Koeman mostrou um trabalho sólido, com um time firme. Tudo com um objetivo na cabeça: se tornar o técnico da seleção holandesa, após a Copa de 2014. Até por isso, anunciou que deixaria o Feyenoord, ao fim da temporada 2013/14, concluída com mais um vice-campeonato na Eredivisie.
A passagem pelo Feyenoord reabilitou definitivamente Koeman como técnico no país natal (VI Images/Getty Images)
A federação teve planos diferentes: até se interessou por Koeman, mas preferiu trazer Guus Hiddink depois do Mundial. Ainda convidou o ex-capitão da Laranja para ser auxiliar de Hiddink, como em 1998. Magoado, Koeman negou. Após a marcante passagem pelo Feyenoord, preferiu vivenciar a Premier League. Novamente, com alternâncias. No Southampton, com o irmão Erwin como auxiliar, foi bem: comandou os Saints na melhor campanha da história do clube na Premier League, o sexto lugar de 2015/16, tendo Virgil van Dijk e Sadio Mané como destaques. Recebeu uma chance no Everton, em 2016, e foi até bem no começo, conduzindo os Toffees à vaga na Liga Europa. Contudo, em 2017/18, quando as ambições do clube azul de Liverpool eram maiores, Koeman fracassou: o Everton chegou a estar na zona de rebaixamento da Premier League, e ele caiu, em outubro de 2017.
Nas andanças inglesas, alternâncias, como sempre: Koeman foi bem no Southampton e mal no Everton (Steve Bardens/Getty Images)
Novamente em baixa. Como... a seleção holandesa masculina, ausente da Euro 2016 e da Copa de 2018. Falando à revista Voetbal International, o próprio Koeman brincou: "Finalmente tenho a sequência ideal". Visto como o melhor técnico do país à época, foi afinal contratado para treinar a Laranja que conhecia tão bem, em fevereiro de 2018. Novamente, sua reação foi a reação de seu time. Reabilitando nomes como Memphis Depay e Georginio Wijnaldum, abrindo caminho para nomes como Matthijs de Ligt e Frenkie de Jong, Koeman comandou do banco uma fase de reabilitação da Holanda. Na primeira edição da Liga das Nações (2018/19), superou um grupo com Alemanha e França, indo à final contra Portugal. Nas eliminatórias da Euro 2020, ao longo de 2019, uma ótima campanha devolveu a Laranja a uma grande competição. Com outro trabalho levando a um time firme, as perspectivas da Holanda na Euro eram boas.
Porém, em novembro de 2019, o Barcelona o sondou. Koeman aproveitou e revelou uma cláusula de seu contrato com a federação holandesa: se o Barça (e só o Barça, mais nenhum clube) fizesse uma proposta vantajosa, ele poderia ser liberado. Afinal de contas, pelo seu histórico no clube catalão, treiná-lo era seu maior objetivo, em termos de futebol de clubes. Mas naquele momento, ele ainda preferiu ficar onde estava. Veio 2020. O Barcelona o sondou de novo, após a demissão de Ernesto Valverde. Veio a pandemia, que adiou a Euro e freou o embalo que a Holanda vivia sob seu comando. Veio um susto de saúde: uma arritmia cardíaca, que o deixou internado por alguns dias (sem contar um período sofrendo com a COVID-19). E finalmente, veio um vexame no Barcelona, eliminado na Liga dos Campeões 2019/20 ao sofrer um 8 a 2 do Bayern de Munique nas quartas de final. Novamente, o Barcelona quis Koeman, após algumas recusas. E ele decidiu realizar seu sonho, jogando o que tinha para o alto: deixou a seleção neerlandesa, rumando para o clube a que estava tão ligado, em agosto de 2020, sucedendo Quique Setién.
Koeman fazia bom trabalho na seleção da Holanda. Abriu mão dele para realizar o sonho de treinar o Barcelona. E lá, sofreu com a má fase - e com escolhas polêmicas (Tullio Puglia/UEFA/Getty Images)
Koeman chegou ao Barça numa fase pesada: seria ele, afinal, o nome obrigado a conduzir um período de mudanças, após o vexame na Champions anterior. E fez um trabalho mediano, como outros anteriores. Virou a cara de decisões polêmicas (até criticadas), como a dispensa de Luis Suárez. Conseguiu pelo menos um título, a Copa do Rei, em 2020/21. Contudo, passou longe de impressionar, no Campeonato Espanhol ou na Liga dos Campeões. Amargou a saída traumática de Lionel Messi. O mau começo na liga nacional, na temporada 2021/22, aumentou a pressão. Bastaram uma derrota no clássico para o Real Madrid - 2 a 1, na 10ª rodada de La Liga -, outra queda (para o Rayo Vallecano, 1 a 0, na rodada seguinte), e o sonho acabou, com a demissão de Koeman, em outubro de 2021.
Àquela altura, a seleção masculina da Holanda já estava sob o comando de Louis van Gaal. Mas já sabia: precisaria de alguém para sucedê-lo após a Copa de 2022. Koeman estava novamente à disposição. Numa série de que foi personagem - Força Koeman, documentário sobre seu trabalho no Barcelona, da plataforma holandesa Videoplay -, ele confessou: ainda queria comandar a Laranja num grande torneio E as memórias do trabalho consistente que vinha fazendo entre 2018 e 2020 fizeram a federação decidir, já em abril do ano passado: ele voltaria a treinar a seleção.
Seu trabalho recomeça nesta mesma semana em que ele completa 60 anos. Ao lado dele, Ronald terá o irmão Erwin a lhe auxiliar. A tradição familiar no futebol segue: Ronald Koeman Jr. (um dos três filhos com Bartina, companheira nestes anos todos) é titular do Telstar, da segunda divisão dos Países Baixos. E pelo menos nesta terça, as cornetas e desconfianças darão uma folga. Para que Ronald Koeman seja celebrado, pela história que tem no futebol da Holanda.
(Pro Shots/IconSport/Getty Images)
Ronald Koeman
Data de nascimento: 21 de março de 1963, em Zaandam
Clubes: Groningen (1980 a 1983), Ajax (1983 a 1986), PSV (1986 a 1989), Barcelona-ESP (1989 a 1995) e Feyenoord (1995 a 1997)
O fôlego inesgotável na marcação, o auxílio ao ataque, a imagem reconhecível de longe: Edgar Davids era um símbolo do futebol da Holanda (e europeu) de sua geração (Shaun Botterill/Allsport)
8 de junho de 2022. Em Cardiff, as seleções masculinas de Holanda (Países Baixos) e País de Gales se enfrentavam, pela segunda rodada da Liga das Nações. Ainda no início da transmissão do SporTV 3 para aquela partida que a Laranja venceria (2 a 1), Edgar Davids foi focado no banco, ao lado do técnico Louis van Gaal, a quem auxiliava. Comentarista da transmissão, Richarlyson reconheceu: "Confesso pra você [Odinei Ribeiro, o narrador da transmissão] que eu era um cara que me inspirava no Davids. Um dos melhores meio-campistas na época dele. Era um cara fora-de-série, com uma intensidade de jogo e uma leitura de jogo grandíssima. Extraordinário jogador. Era um cara que, às vezes, eu olhava e falava 'poxa, esse sim'."
Elogios tão abertos de Richarlyson, um dos volantes vitoriosos de sua geração no futebol brasileiro (destaque para os títulos em São Paulo e Atlético Mineiro), são uma relativa comprovação de que Davids foi um nome marcante da posição em sua geração. E foi mesmo, em todo o planeta: entre os anos 1990 e 2000, ele foi dos raros nomes a unir qualidade na saída de bola à combatividade na marcação, no futebol mundial. Além do mais, tinha uma imagem e um comportamento altamente carismáticos. O "Pitbull" virou, e ainda é, nome importante no futebol holandês - ainda mais nesta data, em que completa 50 anos de idade.
Combatividade desde o começo
Mais do que ter ascendência do Suriname (como tantos jogadores holandeses, antes e depois dele), Davids nasceu no país da América do Sul - "futebolisticamente" da América Central: ele veio ao mundo em Paramaribo, a capital surinamesa, quando a nação ainda era colônia da Holanda, dois anos antes de obter sua independência. Mesmo sendo futebolisticamente "holandês", Davids mantém até hoje sólidos vínculos com o Suriname: por várias vezes, já fez parte dos amistosos beneficentes dos "Suriprofs", combinado de jogadores holandeses com ascendência no país que se reúnem de vez em quando.
Ainda na infância, a família migrou para Amsterdã. E nela, Davids teve uma infância de dificuldades. Não exatamente de miséria, mas de dureza. Só o futebol era uma fonte de diversão - ou nem tanto: Davids ficou conhecido por ser temperamental, desde os primeiros bate-bolas de que participava, nas redondezas de sua casa, ao lado do irmão. É possível até dizer que a necessidade de se virar naquelas partidas de rua foram fundamentais para o jogador que seria, dentro e fora de campo. Numa expressão: as peladas "formaram o caráter" de Davids. Até hoje ele as valoriza - o futebol de rua voltará a ser assunto no fim deste texto.
Davids demorou para ser aprovado no Ajax. Mas quando foi, se tornou fundamental para Louis van Gaal desde jovem (VI Images/Getty Images)
Não fosse assim, e talvez Davids fracassasse na primeira dificuldade que teve com a bola nos pés. Já no ASV Schellingwoude, clube amador de Amsterdã em que passou a praticar o futebol em meados da infância, o jovem tentou a sorte pela primeira vez na categoria de base do Ajax. Fracassou. Tentou de novo. Nova decepção. Só em 1985, na terceira tentativa, deu certo. A partir dali, a carreira - e a vida - de Davids mudavam. Passaria o resto da adolescência forjando seu estilo em De Toekomst ("O Futuro", em holandês). Na virada para a década de 1990, ele começou a ser acompanhado de perto pelo auxiliar técnico do Ajax na época. Era... Louis van Gaal, talvez a figura mais decisiva na carreira do jogador. Tanto que, tão logo virou técnico do Ajax, em 1991, Van Gaal levou Davids para o grupo principal da equipe de Amsterdã.
E ele seria um dos primeiros nomes de uma geração altamente promissora a ter chances em campo: sua primeira partida pelo Ajax foi em 8 de setembro de 1991, como titular na goleada por 5 a 1 sobre o RKC Waalwijk, pela quarta rodada do Campeonato Holandês (por sinal, última partida do Ajax sob o comando de Leo Beenhakker). Em 30 de outubro de 1991, o primeiro gol pelo clube, marcando nos 3 a 0 sobre o Willem II, também pela Eredivisie. Edgar Davids só tinha 18 anos. Mas o jovem seria um pioneiro, não uma aposta precoce.
Imposição precoce. Confusões também
Davids ainda passaria a temporada 1991/92 frequentemente no banco de reservas. Nele, porém, já faria parte do grupo campeão da Copa da UEFA (em cuja campanha foi titular em três partidas). E foi na temporada 1992/93 que ele virou peça-chave para o Ajax que Louis van Gaal pensava: Davids já se tornou preferencialmente o titular no meio-campo, tanto no Campeonato Holandês, quanto na Copa da UEFA, quanto no primeiro título de sua carreira, a Copa da Holanda daquela temporada. Mais importante: seu esforço na marcação e sua velocidade para iniciar os ataques já tinham tanta qualidade, eram tão intensos, que ali Van Gaal lhe deu, numa entrevista coletiva, o apelido para sempre ligado a ele: "Pitbull" (curiosidade: antes, ainda, um técnico na base do Ajax o apelidou de "Piranha", exatamente por "morder" o jogador adversário na marcação).
A postura desafiadora e esforçada de Davids tiveram, enfim, a explosão nos dois anos seguintes. Ele começou sendo figura preponderante no título holandês do Ajax, em 1993/94. Ainda antes da Copa de 1994, em 20 de abril daquele ano, veio a primeira partida pela seleção principal da Holanda: Davids estreou pela Laranja como titular num amistoso contra a Irlanda - que o venceu: 1 a 0. Já após a Copa, Davids teve o grande reconhecimento. Cercado de vários colegas de geração (Edwin van der Sar, Michael Reiziger, Clarence Seedorf - como esquecer a parceria no meio-campo? -, Ronald de Boer), tendo a liderança de Frank Rijkaard, o jovem volante foi um dos símbolos do fulgurante Ajax campeão holandês invicto e, principalmente, campeão europeu. Por sinal, Davids quase perdeu a final da Liga dos Campeões, contra o Milan. A razão? Uma operação no olho esquerdo, já sinalizando os problemas que seriam conhecidos dali a quatro anos.
Àquela altura, sua personalidade já era notável, para alguém tão jovem. O que deu margem a algumas histórias. Uma delas: dividindo o fisioterapeuta pessoal com o tenista Richard Krajicek, também holandês, certa vez Davids encontrou Krajicek. Teria falado a ele: "Oi, eu sou Edgar Davids. Logo você vai ouvir falar de mim". Anos depois, em entrevista à revista Four Four Two, Davids minimizou sem desmentir: "[A história] não foi totalmente verdadeira, mas naquele tempo, poderia ter sido. Eu era jovem, não tinha freio".
Imponência dentro de campo, insolência fora dele: mesmo jovem, Davids já era destaque absoluto do Ajax campeão europeu em 1995 (Alain Gadoffre/Onze/Icon Sport/Getty Images)
Contudo, o brilho de 1995 foi minorado nos anos seguintes. Davids seguiu no Ajax, e teve até mais liberdade ofensiva para se destacar no tricampeonato neerlandês: fez sete gols em 28 jogos, mostrando mais uma qualidade: os chutes de fora da área. Também seguiu titular absoluto, na campanha que levou os Godenzonen novamente à final da Liga dos Campeões. Contudo, justamente na final, cometeu um erro prejudicial: após 1 a 1 contra a Juventus em 120 minutos, Davids perdeu uma das cobranças, na decisão por pênaltis em que a Juve conquistou a taça (4 a 2 nos chutes).
Coisa pior ainda ocorreria na Euro 1996, seu primeiro grande torneio defendendo a Holanda. Até surpreendentemente, Davids começou a Euro jogando mal. Na estreia da Laranja (0 a 0 contra a Escócia), foi discreto; na vitória por 2 a 0 sobre a Suíça, só entrou nos últimos dez minutos de jogo, substituindo Ronald de Boer. Naquela partida, enquanto estava no banco, conversou aqui e ali com o colega de time e seleção Clarence Seedorf. Entre as palavras, algumas reclamações mal disfarçadas ao técnico Guus Hiddink.
Se eram mal disfarçadas, ficaram abertas de vez na zona mista pós-jogo. Davids falou sem rodeios a um jornalista alemão: "Ele [Hiddink] deveria parar de lamber o saco dos jogadores brancos, para ver melhor o time". Mark van den Heuvel, da NOS (emissora holandesa de tevê), ouviu e quis mais clareza, perguntando: "A quem você se refere?". Davids confirmou: "Ao técnico". A NOS divulgou as palavras - e no dia seguinte, Davids estava cortado da Euro por Hiddink. Crise aberta na Holanda durante aquela Euro, em críticas que misturaram questões financeiras, racismo, discordâncias trazidas dos jogadores do Ajax para a seleção... e Davids foi o bode expiatório de tudo. A polêmica passou, mas ainda hoje, quase trinta anos depois daquelas turbulências na Inglaterra, ele se nega a comentar o assunto.
As críticas de Davids a Guus Hiddink abriram uma tremenda crise na Holanda durante a Euro 1996 - e viraram assunto proibido com o ex-jogador (Arquivo ANP)
A má fase seguiria para o começo da temporada 1996/97. Na seleção, ele continuaria pagando pelas palavras na Euro: Guus Hiddink deixaria Davids longe das convocações durante o resto de 1996 - e todo o ano de 1997. Em clubes, contrato expirado com o Ajax, Davids preferiu o passo maior à que já fazia jus: foi para o Milan, junto do compatriota e colega Michael Reiziger. Porém, em meio a uma péssima temporada rubro-negra milanista (11º lugar naquele Campeonato Italiano), ele teve o azar de uma fratura na perna, sofrida na derrota por 1 a 0 para o Perugia, em 11 de fevereiro de 1997. Ela praticamente pôs fim precoce a qualquer perspectiva de sucesso que o holandês pudesse ter em Milanello: quando voltou, já com a temporada 1997/98 em andamento, fez só quatro jogos.
Tanto que o Milan nem se esforçou para mantê-lo, diante do interesse da Juventus, que o contratou ainda com a temporada em andamento: em dezembro de 1997, Davids já se foi para Turim, por seis milhões de liras italianas. Até ali, conforme falou à Four Four Two, sua passagem pela Itália só trazia experiências péssimas: "Foi uma das piores épocas que eu já tive. Você não fala bem a língua; você está sentado em casa, vendo tevê, mas não consegue entender de verdade. Nas primeiras semanas, você nem pode mexer a perna, porque tem medo da trombose. Foi duro".
Mas depois da tempestade, veio a bonança.
Volta o brilho, chegam os óculos
Ao chegar à Juventus, Davids já recebeu respaldo imediato de Marcello Lippi, técnico do clube alvinegro do Piemonte. Começou 1998 como titular juventino - e ainda teve tempo de colaborar na conquista do Campeonato Italiano da temporada 1997/98, com 20 jogos e um gol pela Juve. Naquele primeiro semestre, ainda, participou em cinco jogos da campanha do vice-campeonato bianconero na Liga dos Campeões. Novamente em forma, com ritmo de jogo, Davids retomou rapidamente as características que o fizeram badalado: esforço incansável na marcação, ajuda na origem dos ataques, um chute de longe que virava gol vez por outra. Mais uma vez, seu jeito de jogar rendeu criatividade nos apelidos: Marcello Lippi descreveu Davids como "uma casa de máquinas num homem só".
Na Juventus, recuperado da fratura na perna e respaldado pelo técnico Marcello Lippi, Davids voltou aos bons tempos (Mark Leech/Offside/Getty Images)
Retomada a boa fase no clube, o caminho na seleção também foi reaberto. Ânimos serenados após os problemas da Euro 1996, Davids e Guus Hiddink tiveram uma conversa pessoal, em fevereiro de 1998. Mesmo sem reclamar da ausência durante as eliminatórias da Copa de 1998, o volante queria defender a Holanda na França. O técnico só desejava expor que, desde os problemas no torneio continental, fora instituída uma cartilha de comportamento para quem jogasse pela Laranja. Davids leu o documento, e aceitou: "Tudo bem, na Juventus também fazem isso". O volante foi convocado para a Copa do Mundo. Em 27 de maio de 1998, quase dois anos depois, recomeçou seu caminho pela Holanda, jogando no 0 a 0 contra Camarões, em amistoso.
Era só o começo de grandes dias: Davids esteve no seu melhor durante o Mundial. Com a conhecida e inesgotável marcação aos adversários, aliada às ajudas periódicas ao ataque, foi dos melhores meio-campistas do torneio. E foi destaque em dois momentos. Estes, simbólicos de seu talento. Na frente, foi dele o gol decisivo da vitória por 2 a 1 contra a Iugoslávia, nas oitavas de final, no último minuto do tempo normal; atrás, na semifinal contra o Brasil, foi responsável por desarmes incríveis, como numa chance que Ronaldo perdeu cara a cara com o goleiro Edwin van der Sar. Se havia alguma dúvida sobre como Edgar Davids podia ser importante para a seleção da Holanda, ela se acabou na Copa de 1998. Até porque ele foi incluído na "seleção oficial" da competição
(O gol de Edgar Davids em Holanda 2x1 Iugoslávia, oitavas de final da Copa de 1998, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Luciano do Valle)
Em 1999, a boa fase de Davids seguiu, tanto na Juventus quanto na seleção. E pela Holanda ele apresentou um símbolo disso naquele ano - e um símbolo que passou a ser inseparável de sua imagem. Com a Laranja automaticamente classificada para a Euro 2000 - afinal, os Países Baixos sediariam o torneio em parceria com a Bélgica -, ela passou os dois anos anteriores jogando amistosos. E contra os belgas, rivais históricos, um amistoso inesquecível em Roterdã: 5 a 5, com dois gols de Davids. Foi nesse jogo, em 4 de setembro de 1999, que começou a ser conhecido mundialmente o principal item ligado ao visual do volante.
Pela mesma época, o volante soube que tinha um glaucoma (doença ótica). Reconheceu o medo, à Four Four Two: "Foi um duro golpe. Eu me preocupei, e realmente achei que ia precisar parar de jogar. Mas aí, soube que havia uma opção: usar óculos". E foi com um modelo especialmente pronto para esportes - usando ainda um colírio especial, permitido excepcionalmente pela FIFA (o colírio seria flagrado em exames antidoping) - que o volante passou a entrar em campo, se tornando figura ainda mais facilmente reconhecível do que já era. Porém, também teve de aguentar algumas gozações. Consta que, certa vez, gozado por Jaap Stam, Davids falou coisas impublicáveis para retrucar.
Desde 1999, os óculos passaram a ser item indissociável do visual de Edgar Davids (Marcus Brandt/Bongarts/Getty Images)
Com ou sem óculos, Davids começou a década consolidado como um dos melhores meio-campistas do mundo naquela época. Na Euro 2000, nem mesmo a pesada decepção da eliminação da Holanda em casa - nas semifinais, para a Itália, nos pênaltis - fez com que se esquecessem dele: mais uma "seleção do torneio" tinha a presença do homem dos dreadlocks e dos óculos. Na Juventus, se Zinedine Zidane foi a garantia da técnica (até 2001, com a histórica transferência para o Real Madrid), Davids seguia sendo nome infatigável na perseguição aos adversários, sem deixar de qualificar o toque de bola. De certa forma, era assim na seleção da Holanda também.
Porém, uma punição em 2001 cortou um pouco do embalo que ele vivia. Davids foi flagrado no exame antidoping, após um jogo contra a Udinese, pelo Campeonato Italiano, em março daquele ano. A substância: nandrolona. Com a contraprova também positiva, o jogador foi suspenso pela FIFA. Azar da seleção da Holanda: a ausência de Davids foi muito sentida, na campanha turbulenta pelas eliminatórias da Copa de 2002, terminada afinal com o fracasso da ausência no torneio. Um dos símbolos daquele fracasso, aliás, foi Davids assistindo, impotente, na tribuna do estádio Lansdowne Road, à derrota decisiva da Laranja para a Irlanda, em 1º de setembro de 2001, na qualificação.
Pelo menos, quando retornou da punição, Davids seguiu firme na Juve e na seleção. Pelo menos no clube, teria os dividendos: foi titular no bicampeonato italiano (2001/02 e 2002/03). Além do mais, também esteve na campanha que levou os Bianconeri à final da Liga dos Campeões, em 2002/03. Só lamentou a derrota na final, nos pênaltis, para o Milan. Por sinal, uma curiosidade: nas duas finais de Champions em que esteve, Davids perdeu para uma equipe em que jogava seu velho conhecido Clarence Seedorf. Perguntado pela Four Four Two se Seedorf já havia notado isso (e se o provocava), Davids cresceu a voz, como sempre: "Se ele me conhecesse, não falaria nada sobre isso. E ele me conhece...".
Davids ficou pouco e jogou muito no Barcelona: nos seis meses pelo clube, foi jogador fundamental para ajudar na reação pelo Campeonato Espanhol em 2003/04 (FiroFoto/Getty Images)
Até mesmo ao perder espaço na Juve, Davids "caiu para cima". Pelo menos, no começo. Na temporada 2003/04, ele começou com apenas cinco jogos pelo time no Campeonato Italiano. Na maioria das partidas, ficou no banco - curiosamente, colocado pelo mesmo Marcello Lippi que o prestigiara tanto na chegada a Turim. Era hora de mudar de ares. Ele mudou, em janeiro de 2004, emprestado para o Barcelona - a pedidos de um velho conhecido: Frank Rijkaard, já treinando os Culés. Pois foi figura fundamental na reabilitação que o clube da Catalunha vivia, dentro e fora de campo. Se Ronaldinho Gaúcho, vindo antes da temporada, já chamava a atenção pelo nível de suas atuações, Davids auxiliou na reta final do Campeonato Espanhol, com o fôlego inesgotável de sempre. Com 18 jogos e um gol, foi absoluto na reação barcelonista, que conduziu o time ao vice-campeonato espanhol. Com isso, claro, Davids manteve firme seu lugar na seleção holandesa: foi titular na Euro 2004, justamente num torneio em que a maioria dos veteranos dos anos 1990 começaram a perder seus lugares na Laranja.
Logo aconteceria com ele.
O fim, aos poucos
Mesmo com o sucesso no Barcelona, Davids teve problemas com a direção do clube para negociar a transferência em definitivo. Até porque já tinha outra proposta, da Internazionale - e foi esta que ele preferiu, indo para o clube azul-e-negro de Milão em meados de 2004, logo após a Euro. Sendo um dos raros jogadores a ter atuado nos três maiores clubes italianos, ainda mantendo bom nível de atuação, o meio-campo prometia manter muito espaço. Até porque, tão logo Marco van Basten assumiu o comando da seleção da Holanda, pela mesma época, fez de Davids seu capitão. Poderia dar muito certo. Deu errado.
Davids causou expectativa em sua chegada à Internazionale. Mas decaiu no clube, física e tecnicamente. Perdeu espaço em definitivo na seleção. Era o começo do fim (Paco Serinelli/AFP/Getty Images)
Na Inter, Davids começou a jogar menos, em quantidade e em qualidade - e teve o caminho ainda mais dificultado por discordâncias táticas com Roberto Mancini, técnico interista à época. Houve um título na temporada 2004/05, é verdade - a Copa da Itália. Porém, a passagem foi tão malograda que o holandês se dizia "separado, vivendo na mesma casa", nos últimos meses da temporada. E a Inter, que o trouxera num contrato de três anos, preferiu rescindir o contrato já em 2005. Pior: com a queda técnica, Davids perdeu não só a capitania, mas a titularidade na Holanda. Ficou até distante das convocações. Até voltou a elas em outubro, na reta final das eliminatórias da Copa de 2006. Mas já tinha perdido o espaço. Sem garantias de que seria titular, nunca mais voltou a defender a Holanda depois de 12 de outubro de 2005, num 0 a 0 contra a Macedônia, pela qualificação para o Mundial. Fim de uma era.
Pelo menos, àquela altura, Davids já encontrara um ambiente melhor para si. Logo após a rescisão com a Internazionale, acertou a transferência para o Tottenham - também a pedido de um técnico holandês, Martin Jol. Em 2005/06, novo sucesso: caiu nas graças da torcida dos Spurs, voltou a ter ritmo de jogo (31 jogos e um gol na Premier League daquela temporada), viveu o último bom momento de sua carreira. Só que, na temporada seguinte, voltou a sofrer com lesões. Fez apenas nove partidas. E só então, aceitou o retorno que já fora tentado em meados de 2006: no fim de janeiro de 2007, Davids acertou a volta ao Ajax.
Claro, no time que conhecia tão bem, Davids começou absoluto. Foi titular na reta final da Eredivisie 2006/07, e ajudou bastante na conquista da Copa da Holanda, vencida sobre o AZ, nos pênaltis. Contudo, uma fratura na perna sofrida em julho de 2007, num amistoso de pré-temporada contra o Go Ahead Eagles, atrapalhou sua segunda passagem pelo clube. Davids voltou, até foi titular na reta final da temporada 2007/08, mas seu contrato com o Ajax não foi renovado.
E a partir de então, mesmo sem anunciar o fim da carreira, Davids foi mais falado por tentativas e por ações fora de campo. Nas tentativas, chegou a negociar com o Vitesse (que não poderia pagar o que pedia), e retornou aos campos entre agosto e setembro de 2010, fazendo sete jogos pelo Crystal Palace, então, na segunda divisão inglesa. Fora de campo, envolveu-se muito em projetos com o futebol de rua - incluindo até visita ao Brasil, em 2009 (num bate-bola no Rio de Janeiro, inclusive, teve até uma rápida briga típica das peladas). Chegou a ser nomeado para o Conselho Deliberativo do Ajax, em 2011 - logo saiu, após discordâncias.
A última experiência jogando (e treinando), no Barnet-ING, após alguns anos inativos
A experiência mais falada de Davids, porém, viria depois. Em outubro de 2012, vivendo na Inglaterra, ele decidiu se juntar ao Barnet, da quarta divisão do país, reativando a carreira no papel de "jogador-treinador", com Mark Robson sendo outro técnico. Até dezembro, quando Mark foi demitido - e, aí, sim, Davids viveu a experiência como técnico único. O Barnet acabou caindo para a Conference Premier (quinta divisão), mas o holandês seguiu como técnico para a temporada 2013/14, na qual jogou com a camisa 1, esperando "iniciar uma tendência" para os meio-campistas. Na temporada, mais problemas: Davids levou cartão amarelo em todos os oito primeiro jogos da Conference Premier, foi expulso em três deles... e por fim, decidiu se demitir em janeiro de 2014. Aí, sim, foi o fim da carreira como jogador.
E demorou para Davids voltar institucionalmente ao futebol - embora sua presença fosse certa aqui e ali, em projetos de futebol de rua ou mesmo em jogos beneficentes. Isso só aconteceu em 2020, quando ele voltou a uma comissão técnica, auxiliando Andries Jonker, então técnico do Telstar (segunda divisão holandesa). No primeiro semestre de 2021, Davids voltou a treinar uma equipe: o Olhanense, de Portugal, entre janeiro e julho daquele ano.
Até que Louis van Gaal, de volta à seleção masculina da Holanda para treiná-la rumo à Copa de 2022, precisou de um auxiliar bem visto pelos jogadores para suceder Henk Fräser, que fora treinar o Utrecht. Quem ele escolheu, em junho passado? Ele mesmo: Edgar Davids, antes seu pupilo, agora seu colega. Davids cumpriu bem a função: ajudou a manter o bom clima na Holanda que chegou às quartas de final do Mundial. E confirmando que não foge de uma boa briga, se envolveu ativamente nas discussões com jogadores argentinos, durante as quartas de final da eliminação da Laranja no Catar.
Foi a experiência mais recente. Virão outras. E serão comentadas. Afinal, com a imagem e o temperamento inconfundíveis, Edgar Davids não sumirá tão facilmente da memória.
(Pablo Morano/BSR Agency/Getty Images)
Edgar Steven Davids
Data de nascimento: 13 de março de 1973, em Paramaribo (Suriname)
Clubes: Ajax (1991 a 1996 e 2007 a 2008), Milan-ITA (1996 a 1997), Juventus-ITA (1997 a 2004), Barcelona-ESP (empréstimo, entre 2003 e 2004), Internazionale-ITA (2004 a 2005), Tottenham Hotspur-ING (2005 a 2007), Crystal Palace-ING (2010) e Barnet-ING (2012 a 2014)