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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Os testes valeram

A seleção feminina da Holanda pôde comemorar. No amistoso "recreativo" contra a Indonésia e, principalmente, na atuação consistente contra a Dinamarca (Rene Nijhuis/MB Media/Getty Images)

Já se sabia desde antes da bola rolar nos amistosos da seleção feminina da Holanda (Países Baixos): seriam datas FIFA de testes. Tanto com alguns nomes conhecidos - como Jill Roord e Daphne van Domselaar, ambas voltando após se machucarem - quanto com novidades. Algumas delas, sendo titulares das Leoas Laranjas pela primeira vez. Diante da difícil campanha nas eliminatórias da Eurocopa de mulheres, era de se desconfiar. Pois deu certo. Se a goleada extravagante por 15 a 0 sobre a Indonésia (maior vitória da equipe feminina holandesa em seus 53 anos de história oficial) serviu mais para estatísticas e para melhorar um pouco o ranqueamento da equipe - até porque vêm aí as eliminatórias da Copa de 2027... -, os 2 a 1 na Dinamarca, fora de casa, já deram a impressão de que tempos melhores virão, após as turbulências (lesões, problemas ofensivos etc.) das eliminatórias.

E a rigor, pode-se considerar que só o segundo jogo teve algo de competitivo. Se o primeiro serviu para testar muitas novidades (Nina Nijstad, titular pela primeira vez no meio-campo, Lotte Keukelaar no ataque), serviu ainda mais como um "jogo-treino" de luxo. Uma peça de promoção, até, tendo em vista que as federações holandesa e indonésia fizeram um acordo de cooperação, e que várias integrantes da seleção asiática têm ascendência em outros países, como a atacante Claudia Scheunemann, descendente de alemães. Bastaram dez minutos para Romée Leuchter abrir o placar. Aos 21', Jill Roord marcou o seu primeiro pelas Leoas Laranjas após a volta da lesão. E a seleção da casa empilhou gols na cidade neerlandesa de Doetinchem, no estádio do De Graafschap (segunda divisão masculina).

Pelo menos, as experiências foram plenamente aprovadas pelos envolvidos na maior goleada da história da seleção feminina da Holanda (superando um 13 a 1 na Macedônia do Norte, em outubro de 2009). Falando à ESPN local, Roord celebrou Lotte Keukelaar, que fez dois gols parecidos - vindo pelo lado da área antes de chutar cruzado: "Ela tem muito talento e potencial. É uma ponta à moda antiga, não se vê mais jogadoras assim. É bacana jogar com ela". Nina Nijstad, que teve dois gols, foi até mais elogiada por Andries Jonker: "Você nota que ela é uma jogadora muito ativa, que se envolve nas jogadas (...) É alguém que tem muitas possibilidades". Enfim, o amistoso valeu para as holandesas. Mas para Jill Roord, à emissora NOS, "o ideal seria jogar contra um adversário mais desafiador". Andries Jonker justificou a escolha da Indonésia: "Só nos classificamos para a Eurocopa a dez minutos do fim do jogo. A essas alturas, outras seleções já tinham achado adversários para amistosos". Era inegável: em termos competitivos, só o jogo contra a Dinamarca seria merecedor de algum valor técnico.

E quando a bola rolou nesta terça, na cidade de Esbjerg, a representação dos Países Baixos entrou com o que poderia ser considerado seu time titular contra a Dinamarca. O que não significava que inexistiam mudanças. Para começo de conversa, a Holanda voltava a jogar no 4-3-3 velho de guerra. Continuando, havia a ousada opção de colocar duas pontas como laterais, quase como alas: Chasity Grant na direita, Esmee Brugts (já acostumada a tal papel, é verdade) na esquerda. Finalmente, com Sherida Spitse ficando no banco, Veerle Buurman - badalada como uma promessa na zaga, aos 18 anos, titular do PSV e já cedida ao Chelsea-ING para a próxima temporada - teria chance ao lado de Dominique Janssen na dupla de zaga.

Os gols foram de outras, mas a jovem Veerle Buurman estreou na zaga da Holanda contra a Dinamarca. E estreou bem (Stan Oosterhof/Soccrates/Getty Images)

E não é que deu certo? No primeiro tempo, a Holanda foi francamente superior, mesmo fora de casa. As veteranas apareceram: Jill Roord (em seu 100º jogo pelacirculou bastante na entrada da área (e perdeu chance de gol logo aos 5', além de arremate espalmado por Bay Ostergaard aos 25'), Daniëlle van de Donk participou bastante do jogo pelo meio, tiveram chances Esmee Brugts (chute por cima do gol, aos 12') e Romée Leuchter (tentativa aos 17'). Pressionando tanto a Dinamarca, foi até natural que os gols viessem. E vieram em sequência. Aos 26', Brugts fez 1 a 0 desviando de cabeça um cruzamento de Jackie Groenen; um minuto depois, Damaris Egurrola lançou a bola na medida para finalização estilosa de Van de Donk, encobrindo Ostergaard.

No segundo tempo, a pressão continuou na fase inicial - aos 47', Katja Snoeijs quase marcou, aproveitando erro de Ostergaard na saída de bola. Depois, até naturalmente, o ritmo das Leoas Laranjas (jogando de azul) caiu, com o cansaço e as alterações. A Dinamarca aproveitou, cresceu com as mudanças, teve chance - Amalie Vangsgaard quase fez seu gol, aos 74' -, e por fim diminuiu aos 87', com Cornelia Kramer completando cruzamento de Pernille Harder. 

Tarde para evitar uma vitória mais convincente da Holanda. Que comemorou com Van de Donk comentando seu belo gol à ESPN neerlandesa ("Eu pensei: 'ninguém espera, então vou tentar'. Pensei na hora, vi a goleira voltando e pensei em encobri-la"). Com Jill Roord reconhecendo, em seu centésimo jogo pela seleção: "Realmente, foi uma ótima semana para mim". E com Veerle Buurman, passando impressão inicial ótima em seu jogo de estreia, com segurança na zaga, comemorando: "Quando o jogo começou, eu senti um friozinho na barriga. Mas o time me ajudou, e pude jogar bem".

Como toda a Holanda jogou bem, de certa forma. Os testes valeram. Bom começo de preparação rumo à Euro. A exigência será maior nos amistosos contra China e, acima de tudo, Estados Unidos, em novembro.

Amistosos

Holanda 15x0 Indonésia
Data: 25 de outubro de 2024
Local: De Vijverberg (Doetinchem)
Árbitra: Caroline Lanssens (Bélgica)
Gols: Romée Leuchter, aos 10', 31' e 32', Jill Roord, aos 21' e aos 48', Sherida Spitse, aos 28', Lotte Keukelaar, aos 41' e aos 57', Damaris Egurrola Wienke, aos 56', Nina Nijstad, aos 63' e aos 73', Renate Jansen, aos 66', 74' e 82', e Katja Snoeijs, aos 75'

HOLANDA
Lize Kop; Lynn Wilms, Sherida Spitse (Gwyneth Hendriks, aos 76') e Dominique Janssen; Wieke Kaptein (Daniëlle van de Donk, aos 76'), Nina Nijstad, Damaris Egurrola Wienke (Jackie Groenen, aos 76') e Esmee Brugts (Ilse van der Zanden, aos 60'); Jill Roord (Renate Jansen, aos 60'); Lotte Keukelaar e Romée Leuchter (Katja Snoeijs, aos 46'). Técnico: Andries Jonker

INDONÉSIA
Laita Roati Masykuroh; Safira Kartini (Nabila Divany, aos 79'), Rosdilah Nurrohmah (Nasywa Rambe, aos 64'), Agnes Hutapea e Gea Yumanda (Nabila Saputri, aos 79'); Helsya Maeisyaroh, Sheva Imut e Zahra Musdalifah (Octavianti Nurmalita, aos 32'); Sydney Hopper (Indira Jenna Almira, aos 64') e Claudia Scheunemann. Técnico: Satoru Mochizuki


Dinamarca 1x2 Holanda
Data: 29 de outubro de 2024
Local: Blue Water Arena (Esbjerg)
Árbitra: Lotta Vuorio (Finlândia)
Gols: Esmee Brugts, aos 26', Daniëlle van de Donk, aos 28', e Cornelia Kramer, aos 87'

DINAMARCA
Maja Bay Ostergaard; Emma Faerge (Isabella Obaze, aos 73'), Stine Ballisager e Katrine Veje (Sophie Svava, aos 63'); Frederike Thogersen (Cornelia Kramer, aos 85'), Josefine Hasbo (Kathrine Kühl, aos 63'), Emma Snerle e Sara Holmgaard; Pernille Harder; Signe Bruun (Janni Thomsen, aos 46') e Amalie Vangsgaard (Mille Gejl, aos 85'). Técnico: Andrée Jeglertz

HOLANDA
Daphne van Domselaar; Chasity Grant, Veerle Buurman (Gwyneth Hendriks, aos 82'), Dominique Janssen e Esmee Brugts (Ilse van der Zanden, aos 63'); Jackie Groenen, Daniëlle van de Donk e Damaris Egurrola Wienke; Jill Roord (Renate Jansen, aos 63'); Romée Leuchter (Lynn Wilms, aos 88') e Katja Snoeijs (Lotte Keukelaar, aos 62'). Técnico: Andries Jonker


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A bonança vencerá os limites?


A dureza das eliminatórias para a Eurocopa foi superada com a vaga. Agora, então, a seleção feminina da Holanda pode ver as machucadas voltarem. E quem sabe, a bonança também (Soccrates Images)

Mesmo com a vaga assegurada em mais uma Eurocopa de mulheres - ano que vem, na Suíça -, a seleção feminina da Holanda (Países Baixos) sabe que teve grandes dificuldades no processo. Basta citar o mau desempenho ofensivo das Leoas Laranjas nas eliminatórias: em seis jogos, foram apenas quatro gols feitos. Ou seja: o objetivo foi alcançado, mas as limitações da equipe estão claras. É para tentar mitigá-las que a preparação rumo à Euro começa com os amistosos destas datas FIFA, contra a Indonésia (nesta sexta, às 15h45 de Brasília, na cidade neerlandesa de Doetinchem) e a Dinamarca (na próxima terça, às 13h de Brasília, em viagem à cidade dinamarquesa de Esbjerg).

Pelo menos, após tantas dificuldades, a bonança começa a aparecer lentamente. Exemplificada numa recuperação até notável: oito meses após ter o ligamento cruzado anterior de seu joelho rompido, Jill Roord já está de volta às convocações. Obviamente, as declarações da ponta-de-lança na apresentação ao centro de treinamentos da federação, em Zeist, foram carregadas de alegria pelo retorno ("Estou bem feliz por estar de volta, já estou tendo alguns minutos em campo há cerca de um mês") e até de incredulidade, pela rapidez na recuperação ("Para ligamento cruzado, foi bem rápido. Eu me machuquei no começo de fevereiro, e dois dias depois da cirurgia, comecei imediatamente a treinar"). De fato, um retorno bem vindo, diante dos problemas ofensivos que a Holanda tem mostrado na seleção de mulheres. E fatores como a recuperação já iniciada de Victoria Pelova, outra vitimada por rompimento de ligamento cruzado, fazem crer em dias melhores nesse sentido, para a Holanda.

É bom que isso aconteça. Até porque a principal esperança holandesa, após ensaiar uma sequência pela seleção, voltou a ter problemas: levemente machucada pelo Manchester City ao qual acabou de chegar (e no qual é colega da citada Roord e Kerstin Casparij), Vivianne Miedema foi cortada da convocação na qual estava. De mais a mais, o acúmulo de jogos força Andries Jonker a fazer opções e poupar jogadoras. Foi o que aconteceu com alguns nomes frequentes nas Leoas Laranjas, como o técnico explicou ao diário Algemeen Dagblad: "Eu escolhi não chamar Beerensteyn. Combinamos com o Wolfsburg [clube em que Beerensteyn está, até marcando gols] que ela nem seria convocada, e nem treinaria esses dias no Wolfsburg. Com Casparij é a mesma coisa. Ela tem jogado partidas demais, às vezes tem dores, então eu falei com ela 'pode deixar essa convocação passar'. Merel van Dongen jogou o domingo passado pela liga mexicana, e precisaria jogar na Dinamarca novamente. Ela comentou que não aguentaria, e eu concordei".

Então, o caminho estava aberto para mais experiências na convocação. A mais badalada delas, Femke Liefting: eleita a melhor goleira do Mundial Sub-20 de mulheres, no qual os Países Baixos alcançaram a quarta posição (com muito esforço e algum talnto), a jovem foi lembrada como uma das três arqueiras, ao lado das habituais Daphne van Domselaar e Lize Kop. Ainda assim, Liefting minimizou as chances de ser convocada, falando à ESPN holandesa: "Há muitas boas goleiras no país, e muita concorrência". Quem tem chance de efetivamente voltar a ter chances vestindo laranja é um nome que retorna: Kayleigh van Dooren voltou a ser lembrada para a seleção, após dois anos em que teve de se recuperar de uma grave lesão (no joelho, novamente). Começando bem a temporada pelo Twente, Van Dooren reconheceu: "Eu estava com muita vontade.  Passou-se muito tempo desde a minha lesão. Achei que nem ia ser convocada, já que isso não acontecia fazia tempo. Mas esperava muito. É diferente da primeira vez, mas é por isso que sei como é bacana".

Femke Liefting, badalada pela boa aparição no Mundial Sub-20 de mulheres, já recebeu a lembrança na seleção adulta (Soccrates Images)

Outras estreantes vêm do Ajax: a dupla Danique Noordman (meio-campista) e Lotte Keukelaar (atacante), ambas tendo uma "conselheira" que conhece muito do ambiente, dos usos e dos costumes da seleção feminina holandesa - Sherida Spitse. "Acima de tudo, ela comentou que estava muito orgulhosa da gente, e que tínhamos de mostrar o que podemos", descreveu Keukelaar.

É com nomes como Spitse, Jackie Groenen e Daniëlle van de Donk que novatas como Liefting, Noordman e Keukelaar podem contar. E todas elas terão a função de fazer com que a seleção feminina da Holanda comece a superar suas limitações, para que depois da tempestade relativa das eliminatórias, venha a bonança.

As 24 convocadas da Holanda (Países Baixos) para as datas FIFA

Goleiras: Daphne van Domselaar (Arsenal-ING), Lize Kop (Leicester City-ING) e Femke Liefting (AZ)

Defensoras: Lynn Wilms (Wolfsburg-ALE), Sherida Spitse (Ajax), Dominique Janssen (Manchester United-ING), Gwyneth Hendriks (PSV), Veerle Buurman (PSV) e Ilse van der Zanden (Utrecht)

Meio-campistas: Daniëlle van de Donk (Lyon-FRA), Jackie Groenen (Paris Saint Germain-FRA), Damaris Egurrola Wienke (Lyon-FRA), Nina Nijstad (PSV), Wieke Kaptein (Chelsea-ING), Kayleigh van Dooren (Twente), Jill Roord (Manchester City-ING) e Danique Noordman (Ajax) 

Atacantes: Romée Leuchter (Paris Saint Germain-FRA), Esmee Brugts (Barcelona-ESP), Chanté-Mary Dompig (Milan-ITA), Renate Jansen (PSV), Katja Snoeijs (Everton-ING), Chasity Grant (Aston Villa-ING) e Lotte Keukelaar (Ajax)

sábado, 26 de março de 2022

Um jogo agradável

A Holanda ganhou, jogou até melhor do que se pensava... mas o maior motivo de comemoração foi a volta de Eriksen à seleção da Dinamarca. Abrilhantada com um gol. Não há destaque maior (ANP)

Antes do amistoso entre Holanda e Dinamarca, neste sábado, em Amsterdã, o jornal Algemeen Dagblad estampou na capa de seu caderno de esportes o que se esperava: "Uma noite agradável". Noite na Europa ou tarde no Brasil, de fato, ela veio. Por muitos motivos. O nível técnico que as duas exibiram em campo; uma seleção holandesa melhor do que se esperava, com intensidade e algumas ótimas atuações; e acima de tudo, o retorno de Christian Eriksen à seleção dinamarquesa, 287 dias depois da dramática parada cardiorrespiratório na Euro 2020 - melhor de tudo, um retorno com gol, um retorno para mostrar que Eriksen continua sendo, como já era, a referência técnica desta seleção danesa. A vitória foi da Laranja, por 4 a 2. Mas todos tiveram razão para comemorar na Johan Cruyff Arena.

O primeiro motivo foi destinado à seleção da casa. Aos poucos, a Oranje exibiu intensidade e fluidez até inesperadas para um time que ainda está se acostumando a atuar com três zagueiros. Com Teun Koopmeiners e Frenkie de Jong avançando (e bloqueando avanços da Dinamarca), com Steven Berghuis sendo um bom "camisa 10" como já vem sendo no Ajax, com Steven Bergwijn justificando a opção de Louis van Gaal por sua escalação ("Ele sempre joga bem comigo", justificou o técnico no pré-jogo), com Daley Blind como opção constante na esquerda, a Holanda dominou plenamente o ataque. Comprovou isso nas primeiras chances - chutes de Bergwijn, aos 11', e Memphis Depay, aos 13', ambos defendidos por Kasper Schmeichel. Na terceira, cabeceio de Bergwijn aos 16', e 1 a 0.

Aí, talvez, apareceu o único defeito mostrado pelos Países Baixos no jogo: a dificuldade da defesa nas jogadas pelo alto. Assim veio o empate dinamarquês, aos 20': Joakim Maehle aproveitou sobra de escanteio, cruzou, o estreante Mark Flekken falhou na saída do gol, e Blind foi facilmente superado por Jannik Vestergaard, que subiu para cabecear e fazer 1 a 1. Poderia ter sido um momento de preocupação. Superada porque a intensidade neerlandesa se manteve no gramado da Johan Cruyff Arena. Assim como a superioridade no ataque: também pelo alto, Nathan Aké subiu para fazer 2 a 1. As velozes trocas de passes e a pressão acuavam a Dinamarca na defesa, e assim Vestergaard derrubou Berghuis na área. Falta leve, mas falta. Na área, um pênalti. Que Memphis Depay converteu aos 38', para marcar seu 39º gol na trajetória pela seleção.

Intensa no primeiro tempo, calma e eficiente no segundo tempo: a Laranja mostrou avanços promissores (ANP)

E aí veio o momento de maior alegria no jogo. Já bastaria só a volta de Christian Eriksen para vestir a camisa da Dinamarca, substituindo Jesper Lindstrom - além de necessitar melhorar o meio-campo, havia a inegável satisfação de ver o camisa 10 superar de novo as péssimas memórias do ano passado. Satisfação expressada por todos os presentes ao estádio, que aplaudiram Eriksen, de tantas memórias no Ajax em que despontou, há cerca de uma década. E satisfação que ganhou ares apoteóticos, quando Eriksen completou cruzamento aos 48', chutando no ângulo para fazer 3 a 2. Um gol aplaudido até por Louis van Gaal. Um gol que fez o adversário De Ligt "se arrepiar", conforme ele mesmo demonstrou numa entrevista após o jogo. Um gol que deu a certeza expressada por Eriksen: "Eu me sinto de novo um jogador". E lances como o drible e o chute na trave, aos 75', indicam que o meio-campo tem plenas condições de voltar a ser o que era antes daquele traumático 11 de junho de 2021: o melhor jogador da Dinamarca, em termos técnicos. A vida continua.

E o jogo também. Se a alegria de Eriksen foi a alegria de todos quantos acompanharam o jogo, a jogada de seu gol também rendeu alguma preocupação a Van Gaal: "No segundo tempo, nossa queda foi grande demais. (...) Os meio-campistas precisavam fazer alguma coisa, mas não fizeram. Precisam ver onde está o problema. Então, Matthijs [De Ligt] precisava cobrir o espaço, e não o fez bem". Pelo menos, para a Laranja, o susto passou rápido. O ataque voltou a ter o controle do jogo, Berghuis teve boa chance aos 53', Memphis Depay quase marcou belíssimo gol aos 62'... e em que pesasse o perigo maior que a Dinamarca trazia (tendo mais a bola, criando mais chances - como um chute de Andreas Skov Olsen, aos 66'), a Holanda ganhou de vez o controle do jogo, com o belo gol de Bergwijn, num chute colocado para ampliar de novo a vantagem.

A obra ainda está em progresso, como o capitão Van Dijk indicou em entrevista após a partida. Ainda há controvérsias sobre o esquema de jogo - o próprio Van Dijk reconheceu: "Eu prefiro o 4-3-3, mas o técnico tem uma opinião forte, e a partida mostrou por quê". Mas a Holanda teve motivos para ficar otimista com o que vem por aí. E mesmo se não os tivesse, não haveria razão para tristeza, num dia em que Christian Eriksen lembrou que está vivo. Mesmo com derrota, os holandeses comemorariam. Celebram ainda mais com a boa vitória.

Amistoso
Holanda 4x2 Dinamarca
Data: 26 de março de 2022
Local: Johan Cruyff Arena (Amsterdã)
Juiz: Lawrence Visser (Bélgica)
Gols: Steven Bergwijn, aos 16', Jannik Vestergaard, aos 20', Nathan Aké, aos 29', Memphis Depay, aos 38', Christian Eriksen, aos 47', e Steven Bergwijn, aos 71'

Holanda
Mark Flekken; Matthijs de Ligt, Virgil van Dijk e Nathan Aké (Tyrell Malacia, aos 77'); Denzel Dumfries, Teun Koopmeiners, Frenkie de Jong e Daley BlindSteven Berghuis; Memphis Depay (Arnaut Danjuma, aos 77') e Steven Bergwijn (Donyell Malen, aos 77')Técnico: Louis van Gaal

Dinamarca
Kasper Schmeichel; Joachim Andersen, Jannik Vestergaard (Jacob Bruun Larsen, aos 77') e Victor Nelsson; Alexander Bah (Rasmus Kristensen, aos 46'), Pierre-Emile Hojbjerg, Thomas Delaney (Christian Norgaard, aos 24') e Joakim Maehle (Philip Billing, aos 88'); Jesper Lindstrom (Christian Eriksen, aos 46') e Jonas Wild (Kasper Dolberg, aos 58'): Yussuf Poulsen (Andreas Skov Olsen, aos 44'). Técnico: Kasper Hjulmand


sexta-feira, 25 de março de 2022

Em obras

A seleção masculina da Holanda tem até novembro para virar um time mais consolidado. E o trabalho rumo à Copa começa nos amistosos contra Dinamarca e Alemanha (KNVB Media)

Na edição da semana posterior à classificação da seleção masculina da Holanda para a Copa de 2022, a revista Voetbal International estampou na capa: "Missão cumprida: agora, é construir um bom time". E a construção rumo ao Mundial começará exatamente nesta semana. Podem não ser amistosos contra seleções fora da Europa - o técnico Louis van Gaal os queria tanto quanto a Seleção Brasileira gostaria de pegar adversários do Velho Continente, por exemplo -, mas a Laranja terá rivais respeitáveis à disposição nas suas primeiras partidas do ano. No próximo sábado, às 16h45 de Brasília, em Amsterdã, a Dinamarca - até melhor do que os neerlandeses nas eliminatórias da Copa, classificada de modo invicto; e na terça-feira, 29, novamente na Johan Cruyff Arena, a Alemanha, antagonista tão histórica.

Se o próprio Van Gaal reconheceu que "a preparação para a Copa começa nesta semana", o início da "construção" quase teve a dificuldade de ficar sem o "mestre-de-obras": afinal de contas, Van Gaal testou positivo para o coronavírus na terça passada, e teve de ficar alguns dias em isolamento. De todo modo, o treinador da Oranje chegou para a semana de treinamentos no centro da federação, em Zeist, enfatizando várias coisas. A primeira delas: uma grande convocação - são 28 os chamados. Algo explicável pelo técnico, na coletiva de apresentação, na segunda-feira passada: "Quero que todo mundo participe da implementação [do esquema]. Aí posso ver quais jogadores funcionam ou não. Também ficará fácil ter mais jogadores, para termos uma noção de como posso utilizá-los". Isso inclui até gente lesionada: o zagueiro Jurriën Timber e o atacante Cody Gakpo, por exemplo, estavam lesionados e já até voltaram a seus clubes, mas foram mantidos na convocação por alguns dias. Afinal, Van Gaal não quer perder tempo algum: "Eles podem não treinar, mas podem assistir e ouvir". E quer dar chance aos jovens: "Espero que eles se desenvolvam neste ano, para que possamos usá-los, eventualmente. Foi o que aconteceu em 2014, com Depay [Depay foi àquela Copa aos 20 anos, e jogou bem]”.

Novidades também fazem parte desse amplo grupo de jogadores. Seria o caso do zagueiro Jordan Teze, do PSV, estreando pela seleção adulta na lacuna aberta com a contusão de Stefan de Vrij - mas Teze foi cortado após lesão durante os treinos. É o caso de Jordy Clasie: cinco anos após sua última convocação, a experiência e as boas atuações do meio-campo do AZ, presente na Copa de 2014 - jogou a semifinal contra a Argentina, desde o intervalo do tempo normal -, renderam a volta à Laranja, para surpresa dele mesmo ("Nem falei com o técnico ainda, eu o reverei pela primeira vez"). 

Não será o caso de Ryan Gravenberch: mesmo elogiado pelas atuações recentes no Ajax, o promissor meio-campista ficou de fora da convocação, indo para a relação da seleção sub-21. Van Gaal justificou: "Ele teve uma fase ruim (...) E a Laranja Jovem joga contra a Suíça, que está na frente [nas eliminatórias da Euro sub-21]. Estou aqui em nome do futebol holandês, não só da seleção principal". Gravenberch sentiu o impacto. Reconheceu a má surpresa, na ligação em que Van Gaal lhe comunicou. E sintetizou, ao diário Algemeen Dagblad: "Eu realmente não esperava [ficar fora da seleção principal]".

Van Gaal chegou com a obrigação única de ajudar a Holanda a voltar à Copa do Mundo. Com a equipe já acostumada ao 4-3-3, foi assim que a vaga veio. Agora, o técnico fará o que já queria desde o começo: experimentar a Laranja com três na zaga (Pim Ras)

Outro ponto bastante enfatizado pelo comandante da Laranja: o esquema tático. Enfim, cumprido o primeiro objetivo - a vaga na Copa -, Van Gaal ganhou algum crédito para fazer o que deseja desde o começo de sua terceira passagem pela seleção: além do 4-3-3 velho de guerra, experimentar escalar a equipe com três zagueiros. Muito inspirado pelo Chelsea ("Você pode ser ofensivo no 5-3-2, ou no 5-2-3 - o Chelsea mostra isso, com escalações diferentes, eu tiro o chapéu para Tuchel"), Van Gaal pensa seriamente num 3-4-3. Ou num 3-5-2 - e até por isso, fica justificável a convocação de Hans Hateboer, mais do que acostumado a jogar assim na Atalanta, como um ala avançado pela direita. O técnico repetiu justificativas: "Há muitos times que jogam assim, ou numa variação desse esquema. Os jogadores já estão mais envolvidos com isso". Louis foi além: "Há muitos times na Holanda que jogam assim, e dificultam as coisas contra times maiores". E terminou: "Também se deve olhar para as qualidades do adversário. A marcação por pressão não precisa ser somente na área do adversário. (...) Contra a Noruega [nas eliminatórias da Copa], a gente marcou por pressão no meio-campo. Deixamos a Noruega vir, e tínhamos espaço para os contra-ataques".

Claro, aí as polêmicas já começam. Aqui e ali, retornam as principais críticas à escalação com três zagueiros: ser algo que "trai" a "escola holandesa", adepta do bom e velho 4-3-3. Ouvido pela Voetbal International, o ex-técnico e comentarista Hans Kraay Jr. resumiu: "Se está tudo bem com o 4-3-3 e os jogadores se sentem bem assim, para quê mudar tudo de novo?". Tal comentário foi ecoado por ninguém menos do que Virgil van Dijk: embora receba bem a tentativa de mudar o esquema ("Temos uma seleção fantástica, com bons jogadores, que seguramente poderiam atuar assim"), o zagueiro e capitão também reconhece: "Ainda acho que o 4-3-3 também funciona bem para nós". E Van Gaal deixa a porta aberta para a volta do esquema tático mais habitual da Holanda, se necessário: "Todo dia eu deixo um tempo livre para avaliação nos treinos, e eles [jogadores] também podem falar. Eu escolhi esse sistema, é o que um técnico faz, podem achar que eu sou um ditador... mas se um jogador não quiser isso, ele também jogará pior. Isso não é bom. Todo mundo precisa estar bem para podermos alcançar algo".

Ainda pouco conhecido da torcida laranja, Flekken deverá ter, enfim, sua primeira chance no gol da seleção (Pro Shots)

Mas há pelo menos um nome alegre com a experimentação tática a ser feita: Mark Flekken. Enfim, o goleiro de 28 anos terá sua estreia jogando na seleção masculina, com as lesões do titular Justin Bijlow e do veterano Jasper Cillessen, primeiro reserva. Van Gaal justificou - sem citar nomes - a escalação com o... esquema: "Ele joga muito bem numa defesa com três zagueiros. Se ele será o titular contra a Dinamarca? Não sei, mas ele joga bem com três zagueiros". A Flekken, ainda um mistério para a maioria da torcida (o perfil da emissora NOS no Instagram revelou que 85% dos seguidores nunca viu o goleiro atuar no Freiburg-ALE), ficou a comemoração otimista: "É um sonho de menino, e sonhar não custa nada". Elogiado pela capacidade em ter a bola nos pés, além das defesas, o arqueiro ainda assumiu, quando perguntado se dera um leve sorriso com a chance que se abriu, pelas ausências dos nomes mais habituais da posição: "Eu mentiria se dissesse que não...".

Há mais fatores chamando a atenção. A promessa de Teun Koopmeiners, aumentando sua voz ("Eu jogo assim, com três zagueiros, na Atalanta. E eu vou brigar pela posição em que Frenkie de Jong joga, é para isso que estou aqui"). As dúvidas sobre o nível técnico atual de Georginio Wijnaldum e Memphis Depay, ambos em relativa má fase nos clubes por que jogam. Todos elementos que serão levados em consideração, nas "obras" que serão comandadas por Van Gaal e construídas pelos jogadores a partir de agora. Com uma intenção: que o edifício laranja esteja firme e possa causar uma boa impressão quando a Copa chegar.

Os convocados da Holanda

GOLEIROS: Mark Flekken (Freiburg-ALE), Tim Krul (Norwich City-ING) e Joël Drommel (PSV)

LATERAIS: Denzel Dumfries (Internazionale-ITA), Hans Hateboer (Atalanta-ITA), Daley Blind (Ajax), Tyrell Malacia (Feyenoord) e Owen Wijndal (AZ)

ZAGUEIROS: Virgil van Dijk (Liverpool-ING), Matthijs de Ligt (Juventus-ITA) e Nathan Aké (Manchester City-ING)

MEIO-CAMPISTAS: Georginio Wijnaldum (Paris Saint Germain-FRA), Frenkie de Jong (Barcelona-ESP), Marten de Roon (Atalanta-ITA), Steven Berghuis (Ajax), Jordy Clasie (AZ), Teun Koopmeiners (Atalanta-ITA), Guus Til (Feyenoord) e Davy Klaassen (Ajax)

ATACANTES: Memphis Depay (Barcelona-ESP), Steven Bergwijn (Tottenham-ING), Donyell Malen (Borussia Dortmund-ALE), Arnaut Danjuma (Villarreal-ING), Noa Lang (Club Brugge-BEL) e Wout Weghorst (Burnley-ING)

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Dinamarca e Ajax: uma relação próxima

Lasse Schöne: o continuador mais regular da longa história entre Ajax e Dinamarca (VI Images/Getty Images)
Já foi citada aqui uma pesquisa, feita pelo site do diário holandês Algemeen Dagblad, indagando aos visitantes para qual das 32 seleções classificadas para a Copa do Mundo iria a torcida deles. E também foi citado o resultado – então momentâneo, agora certo, com o fim da pesquisa: Marrocos ficou com 55 por cento. Justificável: afinal de contas, defendem os Leões do Atlas jogadores que se destacam na Eredivisie atual, além de terem até nascido na Holanda: Karim El Ahmadi, Sofyan Amrabat, Mbark Boussoufa, Hakim Ziyech e Mimoun Mahi. Abaixo, ficaram países vizinhos e fronteiriços, com os quais a Holanda tem forte rivalidade: Bélgica (16 por cento) e Alemanha (7 por cento). 

Porém, não foi muito citado outro país que terá seleção na Rússia: a Dinamarca. De todos, talvez, a nação que tem mais vínculos com o futebol holandês. E boa parte desses vínculos, graças ao Ajax. Fora a Holanda, nenhum outro país teve tantos jogadores no clube de Amsterdã (até agora, são 25). Certo, vários outras nações europeias tiveram alguma ligação marcante com os Godenzonen – marcada por uma passagem marcante de alguém: a Finlândia de Jari Litmanen, ou a Suécia de Stefan Pettersson e Zlatan Ibrahimovic. Mas a história dinamarquesa com a agremiação da estação Bijlmer Arena vem de longe. E perpassou momentos importantes da história Ajacied.

Basta dizer que o primeiro jogador danês a ter vestido a clássica camisa branca com a faixa central vermelha chegou na temporada 1969/70, selecionado por Rinus Michels, quando o Ajax passava pelos ajustes finais para tomar de assalto o mundo do futebol a partir do ano seguinte. Era o atacante Tom Sondergaard, com relativa experiência: afinal, jogara a Euro 1964 pela seleção. Só que não deixou grandes memórias em Amsterdã – por problemas disciplinares, Sondergaard saiu do clube tão logo acabou aquela temporada, indo para o Metz.

Sem problemas. Na experiência seguinte, o Ajax ganhou dois dos mais importantes personagens de uma época, para o clube holandês e a seleção dinamarquesa. Em 1975, Rinus Michels – de volta ao Ajax como diretor técnico, após a marcante passagem pelo Barcelona – autorizou pessoalmente a contratação de dois jovens vindos do Fremad Amager (clube do Amager, bairro da capital Copenhague). Tratavam-se de dois meio-campistas: um atuando mais à frente, Frank Arnesen, e outro cuidando mais da marcação, Soren Lerby.

Mesmo que o “Futebol Total” já não fosse uma exclusividade do Ajax, e que o clube não tenha obtido sucesso em torneios continentais durante o resto dos anos 1970, Arnesen e Lerby se converteram em destacados jogadores. Não só viraram titulares absolutos durante todo o tempo em que atuaram no clube (Arnesen, entre 1975 e 1981; Lerby, entre 1975 e 1983), mas usaram dos cânones do Futebol Total para se converterem em meio-campistas completos.

Soren Lerby, Henning Jensen e Frank Arnesen: os dois das pontas da foto foram os principais dinamarqueses na história Ajacied (Twitter)
A partir daí, também não foi difícil que ambos virassem fundamentais também para uma seleção dinamarquesa que mudava, graças à profissionalização nascente do futebol no país. Parceiros dentro e fora de campo, Arnesen e Lerby eram nomes certos nas convocações do técnico Kurt Nielsen. Mas tinham de conciliar, cada vez mais, a mentalidade profissional que encaravam no Ajax com o espírito totalmente relaxado que sempre foi preferencial na Dinamarca. 

Em sua biografia, Arnesen se lembrou de uma série de treinos para a seleção, no verão de 1978, quando Kurt Nielsen prometeu algo especial para o treino: “Nós nos surpreendemos, de certa forma, quando chegamos ao terraço da sede do clube [Skovshoved, onde treinaram]. Kurt havia convidado alguns amigos, e a mesa estava lotada de deliciosos smorrebrod [sanduíches típicos do país], mais cerveja e destilados. Foi muito bacana, embora eu e Lerby, que estávamos acostumados à disciplina no Ajax, não estivéssemos entendendo muito. Mas bebemos a cerveja, os destilados, e tivemos um ótimo dia”.

Se o regime a que ambos estavam se acostumando colidia com as noções um tanto flexíveis de Kurt Nielsen sobre treinos e preparações, ele se encaixou perfeitamente com a firmeza que o técnico alemão Sepp Piontek trouxe para a seleção dinamarquesa tão logo foi contratado, em 1979. Não só Arnesen e Lerby se tornaram cada vez mais importantes na seleção titular, mas também estimularam a mudança de mais gente de seleção (dinamarquesa, no caso) para o Ajax. Como o atacante Henning Jensen, já veterano quando foi para Amsterdã. Como o armador Jesper Olsen. Como o defensor/meio-campista Jan Molby. 

Em sua última temporada no Ajax (1980/81), Arnesen já era o capitão, com apenas 22 anos. Deixou o clube rumo ao Valencia, mas ganhara no Ajax a sabedoria profissional e o aprimoramento técnico. Entregou a braçadeira a... Lerby, que ficou até 1983, quando tomou o caminho do Bayern de Munique. Resultado: Arnesen, Lerby, Jesper Olsen e Jan Molby foram parte fundamental da seleção que fez eclodir a Dinamarca no cenário mundial do futebol – com a campanha de semifinalista na Euro 1984 e, principalmente, com as atuações tão fugazes quanto marcantes na Copa de 1986. 

Depois, Arnesen e Lerby defenderam até o PSV, no final de suas carreiras. Mas era inegável: para sempre teriam a marca do Ajax em suas carreiras. Haviam sido os “cupidos” do casamento entre um país e um clube de futebol. Ou talvez, do casamento entre jogadores que se tornaram, inevitavelmente, discípulos de Johan Cruyff, que voltou ao clube em 1981 – Jan Molby reconheceu, em sua biografia: “[Cruyff] era como um rei em seu território. Ele sabia tudo, e você não podia fazer nada além de ouvir. Às vezes você queria que ele calasse a boca, mas ele não o faria”. Claro, a privilegiada geração se encarregaria de fazer as devidas adaptações táticas em campo, conforme acrescentou outro luminar, Preben Elkjaer-Larsen: “Tínhamos muitos jogadores que atuavam na Holanda naquela época [anos 1980], mas o esquema era nosso: jogávamos no 3-5-2, e eles no 4-3-3. Apenas o espírito tinha um pouco a ver com o holandês: queríamos ter a bola, fazê-la correr, e deixar os outros buscarem”.

Michael Laudrup e Morten Olsen: duas figuras de destaque em Amsterdã, no fim dos anos 1990 (Polfoto)

De todo modo, a relação Ajax-Dinamarca estava traçada. Seria aprofundada nos anos 1990 – principalmente na segunda metade da década, quando foram titulares absolutos da equipe Ole Tobiasen, Michael Laudrup (exatamente na temporada final da carreira), Brian Laudrup e Jesper Gronkjaer, todos treinados por Morten Olsen. Assim seguiu pelos anos 2000, com Dennis Rommedahl e Kenneth Perez obtendo certo destaque – curiosamente, quem virou figura popular na Holanda foi Perez, menos conhecido em termos de seleção (ainda passaria por PSV e Twente, e hoje é comentarista da FOX Sports holandesa). 

Na década atual, o começo trouxe até uma revalorização de jogadores holandeses dentro do clube: sob Frank de Boer, foram titulares por algum tempo (longo ou curto) Nicolai Boilesen, Christian Poulsen, Viktor Fischer e, principalmente, Christian Eriksen. Na mesma época, Lasse Schöne veio do NEC. E cabe ao meio-campista – do grupo atual, quem está no Ajax há mais tempo - manter, junto de Kasper Dolberg, a tradição dinamarquesa no clube. Porque embora haja na seleção atual até um destaque do arquirrival Feyenoord – claro, Nicolai Jorgensen -, os jogadores supracitados provam que, futebolisticamente, Amsterdã e Copenhague têm algo em comum.

A lista de jogadores dinamarqueses no Ajax (considerando-se apenas a equipe principal):
Tom Sondergaard (1969-1970)
Frank Arnesen (1975-1981)
Soren Lerby (1975-1983)
Henning Jensen (1979-1981)
Sten Ziegler (1980-1981)
Jesper Olsen (1981-1984)
Jan Molby (1982-1984)
Jan Sorensen (1987)
Dan Petersen (1991-1994)
Johnny Hansen (1992-1994)
Ole Tobiasen (1997-2002)
Michael Laudrup (1997-1998)
Jesper Gronkjaer (1998-2000)
Brian Laudrup (1999-2000)
Michael Krohn-Dehli (2006-2008)
Kenneth Perez (2006-2007 e 2008)
Christian Poulsen (2012-2014)
Lucas Andersen (2012-2016)
Dennis Rommedahl (2007-2010)
Christian Eriksen (2010-2013)
Nicolai Boilesen (2011-2016)
Lasse Schöne (2012-)
Viktor Fischer (2012-2016)
Niki Zimling (2014-2015)
Kasper Dolberg (2016-)

(Coluna originalmente publicada na Trivela, em 1º de dezembro de 2017)